terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Survival Game #1: "Sobreviva à Tribulação"


                                                                    INÍCIO 1ª TEMPORADA

                                                       
                                                                          APOCALIPSE

CAPÍTULO 01: SOBREVIVA À TRIBULAÇÃO

West City; 08:15. 

O ar de inverno ressoava através das constantes brisas por entre as árvores e seus galhos, as rosas de vários jardins, os gramados semi-coberto de flocos de neve e as janelas abertas das áreas residenciais. Pequenos e fracos fachos de luz solar despontavam entre as nuvens cinzentas e carregadas. O colégio principal da cidade - o West High School - vivia mais um dia comum, seus alunos caminhando pelo pátio, alguns sentados estudando ou mexendo em seus celulares enquanto conversavam em grupos, outros em pé, em grupos e sozinhos, andando em direção às suas salas e nelas esperar o início de mais um dia de aula.

Mike Hoffman se estabanava todo enquanto andarilhava distraidamente pelo pátio principal. Estava executando suas primeiras atividades do dia: Checar seus e-mails, ver sua timeline no Facebook e perder vários minutos de sua vida no Whatsapp. Esbarrava quase a cada dois minutos em algumas pessoas que vinham na direção oposta, a alça sua mochila preta prestes a deslizar sobre seu ombro e cair. Recebia inúmeros xingamentos a cada pancada. Como alguém imerso em transe hipnótico, ele apenas possuía olhos para aquele celular, focado em sua tarefa matinal - na verdade, todos os horários eram válidos -, o que o fazia ignorar os comentários ofensivos. Foi então que, de súbito, um rapaz truculento, de rosto meio quadrado, vestindo um blazer de couro preto e camisa branca com gola em "v". Os cabelos eram espetados parecendo terem sido banhados em gel.

Esbarrou em Mike, a pancada produzindo um som quase inaudível. Descuidando-se, o jovem deixara cair o celular. Antes que se virasse para ver quem era o sujeito, levara uma rasteira leve, mas que o fez ir de encontro ao chão. Só deu-se conta da situação quando sentiu uma dor lancinante na canela. Soltou um gemido e olhou para seu agressor. Apanhou seu celular, continuando a encara-lo com raiva pulsando nos olhos.

- Larga de ser viciado, babaca! - disse o rapaz corpulento, em seguida dando um sorriso presunçoso enquanto virava as costas.

"Quando bombas disfarçadas de smartphone forem comercializadas vai sentir minha vingança!", pensou ele, com as palavras engasgadas. Se levantara, fazendo caretas de dor, sem soltar o celular.

Um de seus mais estimados colegas de classe lhe apanhara a sua mochila preta que ele mal percebeu ter caído. Seu nome era Cage, jovem vigoroso, filho de família importante na cidade. Mike logo reconheceu aqueles óculos garrafais e a pele parda. Cage era um tanto acima do peso, mas não chegando a ser considerado obeso - para seu alívio. Possuía mais altura que Mike, o que ele julgava ser um motivo a menos para ser ridicularizado. Seu pior pesadelo: Ser baixinho, obeso e de pouca inteligência. Agradecia aos céus por nunca ter passado por nenhum revés durante sua estrada até ali, sempre priorizando sua mente rápida,, tornando-se um dos alunos mais requisitados para consultas sendo, muitas vezes, o "salvador da pátria" para os desesperados em épocas de provas.

Mike lançou-lhe um sorriso de agradecimento, pôs a mochila de volta nas costas e voltou sua atenção ao celular. Cage, no entanto, fez cara de desconforto enquanto caminhava ao seu lado.

- Nossa, acho que você está indo pelo caminho errado, Mike. - disse ele, incomodado. - Isso aí já é caso de reabilitação urgente.

- "A Nova Epidemia Global". - disse Mike, com uma risadinha, sem tirar os olhos da tela. - Quando será que o jornal desse colégio vai ter títulos mais... coerentes? - indagou ele, soando irônico.

Cage desviou o olhar para a esquerda e deparou-se com a responsável pela coluna "Sociedade e Política", conversando com algumas de suas sócias que a auxiliavam no jornal - alunas do primeiro e segundo ano. Mylena Ishikawa não só era a garota mais popular do colégio, como também era uma exímia líder do Conselho Estudantil do Ensino Médio e seu ego exalava um odor fresco e agradável para uns... mas pútrido e grotesco para outros. Seu jeito severo e sério conquistavam a admiração dos mais esforçados... mas também o ódio dos menos favorecidos. Tinha um estilo bem convencional para garotas de sua índole, com cabelos pretos e longos amarrados em "maria-chiquinha", um sobretudo cinza, coturnos, calças pretas apertadas e um colar de ouro. Sua pele branca aliada a seus olhos grandes e penetrantes realçavam a autoridade que ela detinha e esbanjava por onde quer quer passasse.

Cage voltou-se para Mike, desconcertado.

- Hum... É uma péssima ideia ter que falarmos mal da coluna da Mylena logo quando ela está aqui no pátio, mas não significa que eu não concorde com você. - sussurrou ele, vislumbrando-a cada cinco segundos, nada discreto.

- É, eu sei. - concordou Mike, guardando o celular. - Ela é daquelas pessoas que não merece a fama que tem. O poder corrompe, simplesmente. Por essa razão que recusei a vaga para entrar no Conselho há dois anos. Se lembra?

- E como esquecer? - disse Cage, pensativo. - Você ela estavam feitos cão e gato. "Gata, pra ser mais exato", pensou ele.

- Esquece aquilo, por favor. - murmurou Mike, com uma expressão de incômodo.

- Ué, foi você quem tocou no assunto. - retrucou Cage, franzindo o cenho.

- É, mas... - fez uma pausa, balançando a cabeça negativamente com os olhos fechados. - Só esquece.

As duras palavras de Mylena ainda ecoavam em sua mente como uma voz retumbante de um ser sobrenatural e imponente descarregando sua fúria. "Você é fraco! Quem em sã consciência rejeita uma oportunidade tão importante como essa sem pensar em se arriscar e tentar? Não que eu veja você como um bom líder, mas se juntando a mim como auxiliar ao menos você teria uma chance de mudar essa sua imagem de perdedor nesse colégio! Quem não reconhece as próprias capacidades não merece as oportunidades que recebe para executa-las!". Mike rangeu os dentes. Jamais engoliu aquele argumento de alguém que não compreendia suas justificativas. Na época, não possuía envergadura suficiente para batalhar de igual para igual com aquela garota mesquinha e áspera. As forças eram injustamente desproporcionais. Desde então, um arrependimento excruciante passou a assombra-lo em todas as vezes que rememorava do ocorrido. Bastou o silêncio para faze-lo perder e a última palavra tornar-se a do adversário.

 O sino soou em todo o espaço e o arrancou de seus devaneios fazendo-o sobressaltar de leve. Apressou o passo para chegar até a sala do terceiro ano juntamente com Cage.

                                                                                    ***

A professora chegara alegremente à sala, cumprimentando a todos com seu caloroso "bom-dia". A senhorita Elisa Madson era uma mulher de fibra, uma honesta trabalhadora e educadora. Alguns garotos suspiravam discretamente logo quando viam seu voluptuoso corpo atravessar a soleira da porta, somado aos seus castanhos cabelos lisos soltos até os ombros e as costas, mas era a franjinha na testa que mais encantava. Usava óculos de grau moderado, o que dava um certo ar de sabedoria, também creditando seu rosto alvo e feições suaves. Naquele dia, ela vestia um suéter beje e uma saia preta que ia até os joelhos, além de sapatos com salto médio.

Jogou, com bom gosto, a pilha de livros que carregava em cima da mesa, produzindo um leve baque.

- Muito bem, pessoal. - disse ela, olhando para os alunos com certa empolgação. - Hoje nós temos uma novidade. Uma adição a nossa classe que acredito que será deveras fortificante. - seu vocabulário culto a tornava única naquele instituição de ensino, sendo a professora de línguas mais requisitada.

Elisa prosseguiu:

- Apresento à vocês: Kindra, nossa mais nova aluna. - estendeu a mão para o lado, em seguida voltando-se para a porta. - Pode entrar, querida.

Um bela garota entrara na sala com ar determinado. Rapidamente, as atenções voltaram-se unicamente à ela. Seu rosto era leve e meio bronzeado, os cabelos loiros amarrados em coque com uma mecha lateral grossa despontando na testa. Os olhos verdes fascinaram os mais interessados na beleza da novata.

Acenou para todos timidamente com um sorriso fraco. A professora gesticulou para Mylena - sentada na primeira fileira -, chamando-a para cumprimentar Kindra.

- Bem, queira conhecer Mylena, nossa líder de classe e atual líder do Conselho Estudantil do Ensino Médio. - disse Elisa, com entusiasmo.

Ambas apertaram as mãos formalmente.

- É um prazer conhece-la... Mylena. - disse Kindra, olhando-a fundo nos olhos sorrindo levemente.

- O prazer é todo meu. Ele pode ser duradouro se ficarmos amigas. - disse ela, dando uma risadinha brincalhona.

Kindra apenas assentiu desviando o olhar, sem encontrar um jeito de responder àquilo.

- Kindra - disse a senhorita Madson - pode se sentar ao lado de Mike, na última fileira. Seja muito bem-vinda. - disse ela, apontando para a última cadeira no "fundão".

A jovem andara até seu lugar calmamente. No entanto, foi impedida por Mylena que segurou de leve seu braço e pôs sua boca no ouvido dela para lhe sussurrar algo.

- Não se apegue muito ao Mike. Você me parece boa demais para se contaminar com o cheiro de fracasso que ele exala. Em suma: Tome cuidado com ele. - cochichou ela, firme.

Sem parecer ter dado muita importância ao aviso, Kindra fechou os olhos por alguns instantes, caminhando para sua cadeira. Os abriu e viu a figura de Mike. O rapaz desenhava algo em uma folha de caderno, distraído.

Sentando-se, Kindra o fitou discretamente. Sacou seu celular do bolso, tentando liga-lo em várias tentativas.

- Ei. - sussurrou ela para Mike. - Houve alguma falha de sinal no seu celular?

Mike voltou-se lentamente para ela, inclinando a cabeça.

- O quê? - indagou ele, aparentando não ter processado o que ela disse.

Kindra suspirara e repetiu, mantendo o tom baixo:

- Houve alguma falha de sinal no seu celular? Hoje de manhã, por exemplo?

- Ahn... Não que eu me lembre. - disse ele, quase gaguejando. - Algum problema com o seu?

- Não quer ligar. - disse ela, direta. - Isso é muito estranho. Estava funcionando perfeitamente algumas horas atrás e de repente... - fez uma pausa, como se quisesse mostrar sua desconfiança. - Interferência.

- Interferência? - repetiu Mike, intrigado. - Não que acha que...

- .. estão tentando me hackear? - interrompeu ela, como se houvesse lido a mente dele. - É a suspeita mais óbvia e provável.

- Sim... Mas porque está perguntando isso à mim? - questionou Mike, virando-se para ela, ignorando a fala da professora que iniciava a aula.

- Cinco pessoas desta sala tiveram o mesmo problema. - afirmou ela, correndo os olhos pela sala, fitando seus novos colegas. - Vi antes do sinal tocar. - ela apontou, disfarçadamente, para o garoto de óculos cheio de espinhas no rosto e com longos cabelos pretos que iam até as costas, cabisbaixo e com as mãos cruzadas. - Aquele cara ali, à esquerda. Ele tem um notebook. Percebi no exato momento a interferência.

- Joshua?! - indagou Mike, surpreso. - Ele sempre se gabou por ter uma conexão mais segura do que todos, só por que tem o melhor anti-vírus. Por que alguém iria querer hackea-lo?

- Não sei. Quem quer que tenha feito isso possui meios que nenhum outro hacker neste país tem. - teorizou ela, semi-cerrando os olhos para Joshua. - Algum tipo de vírus imbatível com o objetivo de roubar informações. Ele surtou assim que a máquina apagou.

- Com quem mais isso aconteceu?  - perguntou Mike, cada vez mais desconfiado daquele mistério.

Ele seguiu com os olhos para as direções onde o indicador de Kindra apontava. "Cage?", pensou ele, franzindo as sobrancelhas. Cage foi o último a ser apontado.

- Além disso - disse Kindra - sei todos os nomes de vocês.

Mike virou o rosto para ela abruptamente, a expressão impressionada.

- Como é que é?!

- Tenho acesso a lista de todos os nomes de todos os alunos. - afirmou ele, com veemência. - Ou seja, sou a filha do diretor.

Mike sentiu os pelos de seu corpo arrepiarem-se. "Ela é a filha do diretor!? Não pode ser!".

- Entendo sua surpresa. - disse ela, com um sorriso sacana. - Eu morava na Inglaterra com meus tios, mas fui transferida para cá quando fui acusada de um crime que não cometi. - ela fez uma pausa, respirando fundo. - Uma garota morreu na escola onde eu estudava... e alguém armou pra cima de mim e fui incriminada. Resultado: Meus tios desembolsaram uma grana gorda para pagar o psiquiatra e meus pais decidiram me pôr aqui. Talvez eu me adapte.

O rapaz a encarou incisivamente. "Pelo visto, ela veio carregada de histórias.".

- Certamente - disse ela, voltando ao assunto anterior - o responsável por isso não se encontra nesse colégio. São alvos específicos, escolhidos a dedo. Podemos estar sendo vítima de um stalker virtual ou cyber-terrorista.

- Vocês estão. - corrigiu Mike, voltando a desenhar. - Meu celular está com suas funções intactas, então estou fora disso.

- Será que está? - perguntou ela, com ar pessimista. - Fique atento. Tem algo muito sinistro rolando.

- Pode deixar. - disse ele, aparentemente pouco se importando.

                                                                                        ***

West City - Área Residencial; 14:30. 

As nuvens do céu de inverno tornavam-se revoltas à medida que os passos de Mike se apressavam para chegar até sua casa. O rapaz caminhava pela calcada fria, voltando da escola, os primeiros flocos de neve do dia caindo aos poucos em seu capuz cinza com o qual ele cobria os olhos, mantendo-se de cabeça baixa.

Foi então que, como um estranho alerta, uma sensação irreconhecível percorreu seus nervos o fazendo arregalar os olhos... em direção à caixa do correio. Havia um pacote que não coube totalmente no pequeno compartimento. Era de papelão e tinha uma corda de nilon que o amarrava. Semi-cerrando os olhos, Mike estudou a encomenda por vários instantes. A pegou, relutante.

"Que estranho. O correio nunca deixou esse tipo de coisa aqui em casa... e sequer pedi algo!", pensou ele, intrigado enquanto se dirigia à residência.

Jogou o pacote sobre a mesinha que ficava no centro da sala produzindo um leve barulho. Desamarrou-o e abriu-o freneticamente, louco de curiosidade. Se deteve por alguns segundos ao ver o conteúdo. "Um videogame!? Não lembro de ter pedido nenhum videogame!".

O material era de um preto reluzente com uma interface aparentemente futurista. Na parte central, escrito em horizontal dizia REVELATIONS.

Ao lado da interface que era responsável por rodar o jogo, estavam dois controles - joysticks - e um disco fabricado a laser. Mike pegara o CD com os dedos trêmulos, no limite da desconfiança. Olhou o verso do disco. Estava inteiramente branco e havia uma linha onde estava escrito: "Eu lhe mostro o futuro, apenas a verdade o salvará. Sobreviva à ela ou só a morte será o caminho".

Mike sentiu os pelos da nuca se eriçarem assim que terminara de ler aquelas palavras. "Mas o que significa isso? Será que tem algo a ver com... Ah, essa não!", pensou, rememorando as palavras de Kindra sobre as misteriosas interferências que ocorreram com certos alunos de sua classe. "Tem algo muito sinistro rolando."

Balançou rapidamente a cabeça, tentando varrer da mente qualquer possível ligação com aquele mistério e a encomenda inesperada. "Deixe disso, Mike! Você e sua mania de ver conspiração em tudo!", disse ele a si mesmo.

Sacou o celular do bolso e, ao olhar para a tela, soltou um arquejo de pânico. "Não pode ser!"

O smartphone havia apagado completamente. Em vãs tentativas desesperadas, apertou os botões laterais para ver se "ressuscitava" o aparelho. "Ah, droga! Merda!"

Em um impulso de fúria, arremessou o celular contra a parede, fazendo-o despedaçar totalmente - tela estilhaçada, baterias e chips soltos. Pôs as mãos na cabeça, fitando, com horror, o aparelho destruído.

"Então é verdade. Ela tinha razão!".

Uma centelha de pavor avassalou o coração do jovem. A última que queria era ser vítima de um suposto complô organizado por sabe-se lá quem. "Alguém do colégio? Mylena?", suspeitou ele, imaginando a primeira pessoa que vinha-lhe em sua mente em relação àquela situação estressante. "Pelo que pareceu, apenas o Terceiro Ano foi afetado... Alvos específicos. Mylena estaria planejando hackear contas de e-mail das pessoas que ela considera um lixo? Se for, pra quê?".

Refletira mais um pouco sobre a questão, torando a sentar-se e inclinando-se para frente. Obviamente, Mylena Ishikawa era o perfeito arquétipo de um indivíduo detestável e que sentia orgulho por nascer com um aparente dom de sobressair-se em competições, discussões e até mesmo brigas, físicas e verbais, embora fosse um líder incrivelmente competente e que sabia como conduzir seus aliados para o caminho que idealizava, fazendo bom uso deles e proporcionando-lhes certa confiança para continuarem trabalhando ao seu lado e, consequentemente, tornarem-se mais eficientes. O lado bom que os declarados impopulares recusavam-se a ver mesmo diante de seus olhos. Mike, infelizmente, fazia parte deste grupo indiscutivelmente desprezado e desfavorecido pela líder do Conselho Estudantil.

"Não. Impossível. Se fosse o caso, não faria sentido ela hackear o celular de Kindra, sendo que mal conhece ela.". Baixou os olhos para o console à sua frente. Um suspiro cansado foi tudo o que ele pôde produzir naquele momento de pura indecisão e desconfiança árdua.

"Sem celular.", pensou, deprimido. "Sem diversão".

Passeou os dedos pelos controles, sentindo a textura do material. "Será que meus pais... resolveram me dar isso aqui de presente?", teorizou ele, franzindo o rosto. "É plausível. Afinal, meu aniversário é daqui pouca semanas. Presente antecipado... Será?". Tomado pela curiosidade e com uma vontade imensa de afastar qualquer indício de tédio que pudesse vir, Mike levantara-se em um pulo, logo tirando a interface e os controles da caixa e puxando o fio para conecta-lo à tomada da TV. Colocou o material sobre a mesa e pegou o disco, hesitantemente pondo-o no local de encaixe no interior da interface. "Vamos ver quais são essas revelações.". Ouviu os ruídos do CD rodando enquanto sentava-se no chão. Expirou um ar tranquilo, assumindo a ideia mais cabível. "Com certeza as duas coisas não tem nada a ver. Meus pais me adoram, tá na cara que eles queriam me surpreender.", pensou, dando um leve sorriso para a tela do televisor que ligava. "Mas as palavras escritas no disco...", olhou para a CPU do console onde o CD girava em ruídos intermitentes. "Quem em sã consciência compra um videogame sem marca nenhuma?", indagou a si mesmo, novamente desconfiado. "Não tem nem manual de instruções.".

Um som ensurdecedor o fez sobressaltar e, instintivamente, pegar um dos controles. A tela mostrava o título do jogo com a mesma fonte gravada na CPU, o fundo formado por nuvens trovejantes e púrpuras. Depois o nome se elevou para o canto superior direto reduzindo de tamanho, dando passagem para a aparição de algumas informações ao jogador - o que incluía sinopse, classificação indicativa e fichas de personagens. "Um jogo de sobrevivência.", disse ele para si mesmo após ler o objetivo do jogo. "Gostei". Deu um sorriso de satisfação.

O jogo possuía cerca de 7 fases nas quais o jogador deveria percorrer inúmeras trilhas, caminhos perigosos, armadilhas e enigmas para escapar da ação dos inimigos, que nada mais eram do que personagens humanos que estavam lá tanto para impedir o protagonista quanto para também buscar a mesma conquista. O cenário era apocalíptico, sendo a explicação para o título do jogo: Revelations, que referia-se ao título do Livro do Apocalipse Bíblico, ou seja, o Livro das Revelações. Se caso o jogador chegasse a última fase mas tendo um dos inimigos humanos em seu encalço e morresse por conta de um ataque deste, automaticamente a vitória seria atribuída a este personagem. Curiosamente, havia um segundo controle, o que sugeria que o jogador - o protagonista - pudesse ter uma parceria. Entretanto, isto mudaria bruscamente uma regra no final. Se ambos sobrevivessem sem serem perseguidos por mais nenhum inimigo e encarassem o Chefão juntos, um deles teria que morrer, tendo assim uma luta entre os dois jogadores que anteciparia o confronto com o inimigo propriamente dito. A regra era absurdamente clara para ambos os casos: Apenas um deve ser o vencedor.

O prêmio matinha-se oculto até o final do jogo... se é que poderia ser fácil chegar até lá.

Uma... Duas.. Três... Quatro horas e mais vários minutos passaram-se com Mike apertando com empolgação quase insana nos botões ultrapassando obstáculos e atirando em quem quer que aparecesse no seu caminho, fosse humano ou monstro. Os gráficos eram profissionais e ricos em detalhes, quase realista. Mal percebeu que fora acometido pelo vício irresistível que aquela diversão bem-vinda oferecia. "Isso aqui veio em boa hora!"

Uma contagem de cinco "Game Over" foi feita nas seis horas e trinta minutos passados. Como jogador persistente, Mike reiniciava sempre que a mensagem em vermelho surgia na Tela logo quando chegava na sexta fase e fora morto por alguma coisa. Seus olhos se afixaram na TV a partir do momento em que inflou seu peito, empertigando-se para vencer aquela batalha... assim que viu o número 7 surgir rapidamente.

O relógio marcou 00h00.

A casa de Mike era a única com uma luz acesa.

Quando uma sinistra música - tocada em piano em uma melodia terrorífica - soou através da TV, Mike soltara um estridente e demorado urro de alegria... fazendo alguns vizinhos saírem de suas casas para ver quem berrava tão alto naquela hora tão tardia.

Entorpecido de uma exaustão que deixava seus músculos dormentes, Mike deixou seu corpo cair de bruços no colchão macio e confortável de sua cama. Lágrimas de felicidade brotavam de seus olhos... que iam fechando rendendo-se ao sono.

"Eu sobrevivi!", disse, o último pensamento que tivera antes de adormecer.

                                                                                    ***

O costumeiro silêncio matinal de inverno fazia o quarto de Mike parecer imune a qualquer som ou ruído, como a conhecida sala branca onde são colocados prisioneiros perigosos e loucos em uma camisa de força. O ventilador de teto girava vagarosamente, sem produzir nenhum barulho. Não fora ligado, apenas suas pás foram movimentadas suavemente pelo vento gélido que atravessava a janela semi-aberta, seu vidro com umidade suficiente para fazer algum desenho com os dedos.

Alguns flocos de neve vinham junto à leve corrente de ar.... e penetravam no cobertor de Mike.

O jovem se remexeu lentamente na cama, voltou a dormir por alguns poucos minutos e depois acordou por definitivo. Coçando os olhos, Mike entreviu os flocos de neve caindo lá fora. Se espreguiçou demoradamente ao mesmo tempo em que bocejava. "Por quanto tempo eu dormi?", se perguntou, a cabeça se enchendo de memórias que pareciam não ser suas. Sentiu-se como um homem festeiro em plena ressaca depois de uma noitada de bebedeiras com os amigos.

"Estou um caco. Em pedaços.".

Relanceou com os olhos a cama desarrumada e logo se lembrou da noite anterior. "Ai, meu deus! O jogo! A TV!", disse, arregalando os olhos e correndo em direção à sala.

Enquanto corria, uma onda de preocupação tomou conta de sua mente, fazendo-o despertar a atenção por completo.

"Fiquei o resto do dia jogando! Eu nunca fui disso! Nunca cheguei a esse ponto!".

Quando chegou ao cômodo, deparou-se com o baixo chiado da TV que apresentava somente estática.

"Devo ter retirado o disco esquecendo de desligar a TV.".

Baixou os olhos para a mesinha de centro. A CPU ainda estava sobre ela juntamente com os controles. Lembrou-se de ver seus pais chegando em casa no final da tarde do dia anterior... e de ter ignorado-os sem escrúpulos.

Andando, foi até à televisão, desligando-a por fim. Guardou o videogame em um local secreto da estante, cuja chave estaria somente em seu poder. Tardiamente, percebeu que dormira com a roupa com a qual fora à escola no dia anterior. O capuz cinza, a camisa preta, as calças moletom de jeans azul claro e os tênis brancos.

Percorreu os olhos pela casa, estranhando todo aquele silêncio. "Que clima estranho é esse, afinal?".

Ainda impressionado com o tempo que passou em frente à TV apenas jogando videogame, Mike tentou afastar a lembrança do possível hack que sofreu. Foi até ao quarto de seus pais no andar de cima. Duas batidas na porta e nenhuma resposta. Três batidas, desta vez rápidas e aflitas.

- Pai! - chamou ele. - Mãe! Melhor levantaram, eu fiz o café hoje! - disse em tom de brincadeira como que querendo faze-los pular da cama, já que Mike mal sabia fritar um ovo.

Silêncio.

Franzindo o cenho, Mike entendeu que, certamente, algo estava errado... muito errado. Com um chute, arrombou a porta. O impacto produziu um baque que pareceu tremer as bases.

O rapaz soltou um arquejo de surpresa e suas pupilas dilataram. Nenhum casal estava dormindo na cama, os lençóis brancos como a neve que caía lá fora perfeitamente arrumados.

- Mas o que... - disse ele, cortando a frase sem saber como digerir aquilo.

Um conhecido som rasgou o silêncio. Vinha da sala... mais precisamente da TV.

Correndo até lá o mais depressa que podia, Mike novamente se viu diante do aparelho em estática... mas com uma diferença que fez seu sangue gelar.

"Eu tinha desli... Ah, sim! A tomada! Merda!".

Foi se aproximando da televisão em passos trêmulos e lentos. Os chiados tornaram-se entrecortados... intercalados por uma silhueta negra, um vulto fantasmagórico se formando aos poucos na tela.

Apertando a visão, o rapaz constatou a figura. Masculina. Corpulenta. Careca.

A estática foi cessando aos poucos, a cada três segundos... até a figura do misterioso homem ficar nítida, uma fisionomia humana em uma ocultação aterradora. Reparando no fundo da imagem, Mike confirmou ser uma espécie de laboratório ou base secreta - um submarino, um prédio ou, talvez, um hospital. Porém, nada dava para se certificar quanto ao local, muito menos sobre a pessoa que estava no centro da imagem.

"Quem é esse cara?".

Observou pontas em seus ombros, o que sugeriu que o homem misterioso vestia um terno. Alguns minutos de puro silêncio se passaram, e Mike pressentiu que algo estarrecedor poderia lhe acontecer a qualquer momento.

- Olá Mike. - bradou o homem, a voz claramente distorcida por algum modificador grudado na gola da camisa por baixo do terno.

Mike recuou para trás aos pulos, estremecendo devido ao susto. Fixou seus olhos na tela, atônito.

"Como ele sabe meu nome?".

- Sinto-me honrado e satisfeito por ter escolhido você. - dizia ele, a postura soando robótica. - Eu tenho observado você por um certo tempo. O que faz, o que fala, o que escreve, o que come... e, sobretudo, o que pensa. Quero parabeniza-lo por ter vencido este jogo e por ter dedicado todo seu tempo à ele. Percebo que é digno de saber a verdade. A verdade sobre sua natureza... a verdade sobre o que o torna humano... a verdade sobre seu mundo... e sobre quem o reina.

"Meu deus!", pensou Mike, sentindo um aperto no coração. "O que significa isso? Que merda é essa?"

- Sei que está abalado - prosseguiu ele. - e certamente pensa em desligar a TV da tomada, mas aconselho a não fazê-lo. Não enquanto eu estiver falando. - ele fez uma pausa dramática, fazendo o jovem tremer de aflição. - Você foi um dos vinte selecionados a participar da versão definitiva deste jogo, embora fosse o único a ter demorado mais tempo para vencer a versão preparatória.

"Versão preparatória!?". Mike quase vomitou o próprio coração. "Então, isso só pode significar que..."

- Você deve estar se perguntando: "Qual é a razão, o sentido disso tudo?", ou "Por que fui escolhido?". Eu afirmo, com total veemência, que você, dentre tantos de sua espécie que não possuem o mesmo valor, recebeu o privilégio para alcançar um nível muito acima do qual muitos desejam ter. Isto é, se você sobreviver. O prêmio a se conquistar é o poderoso elmo dourado que lhe confere sabedoria infinita e um conhecimento inestimável. - um pequeno quadrado surgiu no canto superior esquerdo da tela apresentando o artefato. - Se obter a vitória... se conseguir sobreviver ao caos que recairá sobre seu mundo... garanto que se juntará a nós como membro respeitado e, quem sabe, até mesmo efetivado.

"Isso é loucura!", pensou ele, pondo as mãos na cabeça, desesperado.

- Agora vá e use toda a persistência, toda a coragem e todo o instinto que lhe é inerente. Você possui o selo que indica e prova que está engajado e integrado ao jogo. Basta olhar em seu pulso.

O jovem tornou a olhar para seu pulso, os pelos arrepiados. Fizera um cara de puro desconforto e uma ânsia de vômito lhe dominou. "É um pesadelo. Ainda estou dormindo...". Fixados em seu pulso estavam três números iguais. Três dígitos unidos que causavam a repulsa imediata em pessoas cuja devoção ao cristianismo era absoluta. O símbolo que, quando gravado em um ser humano, denota a adoração ao diabo, uma escolha a ser feita em um período da Bíblia Sagrada conhecido como Tribulação... que antecede outro período, este carregado de intempéries e dor.

Mike fitou os números com horror. "666!? Só pode ser brincadeira!".

O homem continuou:

- Caso chegue ao final, esta marca sairá de seu pulso em um instante como prova de sua coragem. Em outras palavras, ela, enquanto ainda competidor, simboliza que você e os outros estão na mira de Lúcifer e seu exército, não como inimigos, mas como "adoradores", por assim dizer. Aquele que se revelar apto para enfrenta-lo, terá a marca retirada de seu braço e assim declarado como adversário dele. Se chegar a vence-lo, seu mundo retorna ao estado de outrora e lhe é entregue o prêmio. Caso contrário, ele estará eternamente fadado a ser governado pelas forças malignas e sua destruição será iminente. Que o jogo comece.

A tela apagou-se abruptamente, como se a TV, aparentemente, houvesse pifado. Petrificado, Mike passou vários minutos analisando as possibilidades e encontrando uma forma de lidar com aquela situação inesperada e difícil de digerir. "Agora tudo faz sentido.". Pensou em Kindra e sobre como ela poderia estar.

Sem esperar mais nenhum segundo, Mike disparou até a porta sem fecha-la depois. Encontrou a rua inteiramente deserta e coberta de neve. O céu pálido e enevoado dava um certa angústia.

"O colégio!", pensou ele, achando sua bicicleta largada no gramado enquanto imaginava inúmeras situações - presentes e futuras.

Pedalou em alta velocidade pela rua praticamente desprovida de som, como o bom ciclista que era. Ao passar pelas esquinas e quarteirões, olhava para os dois lados e se surpreendia cada vez mais. "Onde foi parar todo mundo!?". Não avistou nenhuma alma andante pelas ruas, apenas papéis voando ao vento e carros parados. Tudo era deserto e com um ar melancólico.

Sua bicicleta começou a fazer rangidos a medida que pedalava mais velozmente em direção à West High School.

                                                                                         ***

West High School; 07h30

Pela janela do segundo andar, uma figura calma observava Mike estacionar sua bicicleta perto do imenso portão de ferro da escola. O viu correr desesperadamente pelo amplo pátio coberto de neve, praticamente invisível através da névoa forte.

A pessoa olhara em seu relógio de prata e estimou o tempo que ele teria para chegar até a sala.

Passados oito minutos - exatamente como ela calculara - os frenéticos passos de Mike ficaram audíveis. O ranger da porta a fez se virar.

- Não pode ser! Você!? - disse Mike entrando na sala, meio fingindo surpresa, meio aliviado.

Uma forma esbelta se aproximou dele com paciência.

Kindra apresentava um genuíno semblante de preocupação e uma urgência contagiante no olhar.

- Oi Mike. - disse ela, com a voz meio tímida. - Era você mesmo quem eu estava esperando.

- Como é?! - indagou ele, perdido. - Esperando por mim?! Não...- fez uma pausa, avaliando-a analiticamente. - Você também está nessa, não é?

Ela dera um suspiro cansado, como se não quisesse detalhar tudo o que andava passando pela sua cabeça ao saber de sua condição.

- Todos os que sofreram com a interferência... foram colocados nesse pesadelo. - ela andou até a mesa do professor. - Cheguei em casa... eu ia tomar um banho e trocar de roupa para ir a um passeio no shopping... quando vi um pacote na frente da porta...

- Um videogame? - interrompeu Mike, curioso, os olhos fixos nela.

- Sim. - respondeu ela, não muito impressionada. - E venci na primeira rodada. Experiência de muitos anos. Mas agora... eu percebo que muita coisa está se encaixando.

- Também sinto a mesma coisa. - disse Mike, relanceando os olhos para o 666 em seu pulso esquerdo. Tornou a mostra-lo para Kindra. - Você tem isso aqui?

A jovem respirou fundo ao encarar aquele número, Mostrara seu pulso arregaçando a manga do suéter verde que usava. O mesmo número ali estava.

- De início, pensei que era só brincadeira de algum engraçadinho que planejou muito bem um roubo de informações seguido de envio de encomendas não solicitadas. Mas só foi ver isso... - indicou o número. - ... que me dei conta da cilada em que fomos metidos.

- Eu já achava que isso era sério desde o começo. - retrucou ele.

- Não mesmo. - disse ela, balançando de leve a cabeça. - Você mal considerou a possibilidade do hack acontecer com você... e olha onde você está agora.

- Eu não sei... - disse Mike, olhando para os lados nervosamente. - Se houver alguma forma de contactar aquele homem... convence-lo a parar.

- É tarde demais pra tentar mudar alguma coisa, se é que temos poder pra tal. - redarguiu ela, pessimista. - Você eu, agora, neste exato momento, junto com 18 alunos desta classe, estamos em guerra. O que acabou de acontecer foi o Arrebatamento. - afirmou ela, voltando-se para a janela.

- Arrebatamento!? - repetiu Mike, parecendo incrédulo. - Bem, o tema do jogo era sobre o fim dos tempos e...

- Você já leu a Bíblia? - perguntou ela, interrompendo-o.

Mike pareceu reprimir uma risada em um sorriso zombeteiro.

- Espera. Não me diga que você acredita que estamos no meio do Apocalipse descrito na Bíblia, certo?

Kindra o olhou com reprovação.

- Mike, isso não é óbvio? Qual parte do Apocalipse você lembra de ter lido uma vez?

- Na verdade, eu nunca li o Livro das Revelações inteiro. - disse ele, pensativo. - Do que fala mesmo o Arrebatamento? Desculpe, já faz um tempo que minha mãe havia me obrigado a ler essas coisas.

- Deu pra ver que você nem se concentrou na trama do jogo e só se importou em sair atirando pra todos os lados visando uma vitória rápida. - reclamou ela, andando para um lado. - O Arrebatamento consiste no período pré-tribulação, no qual as almas mais virtuosas são alçadas ao céu para viverem ao lado do criador. E os que não forem elevados... estão destinados a sofrer o inferno aqui na Terra até a chegada da besta. Ou seja, nós. Isto explica o fato de estarmos com marca da besta.

- Isto tem a ver com... a volta do Messias? - perguntou Mike, cada vez mais atordoado.

- Não nesse caso. - respondeu Kindra, a expressão séria. - Não sei quanto à você, mas acredito que não vai haver nenhum salvador para nos tirar dessa enrascada.

Mike engolira em seco a afirmação desalentadora. Tudo o que necessitava saber àquela altura era, no mínimo, a identidade do tal homem oculto, sombrio e de voz assustadora. Pensou no estranho modo que ele se referia aos seres humanos... sendo ele aparentando ser da espécie humana. Pôs a mão no queixo, andando de um lado para o outro, reavaliando a questão. Estacou de repente, voltando-se para Kindra com os olhos arregalados.

- Você recebeu uma mensagem? - perguntou ele, com ansiedade.

- Se se refere ao homem do vídeo no final...

- Sim! Esse mesmo! - alardeou ele, assustando-a. - A não ser que... outro homem tenha lhe informado sobre a versão definitiva do jogo. - disse ele, baixando o tom.

- Não, Mike. - corrigiu ela, aproximando-se dele novamente. - Percebendo alguns detalhes do vídeo, me pareceu que a gravação não era ao vivo. Mas sei que, ao suspeitar disso, você se refere ao fato dele ter dito "garanto que se juntará a nós".

O rapaz deu um sorriso de canto de boca indicando seu alívio.

- Isso significa que o mesmo cara gravou um só vídeo para os jogadores.

- Eu não teria tanta certeza. - disse Kindra, sacando seu celular do bolso de seu suéter. - É o mesmo homem, a mesma mensagem, o mesmo objetivo... - dizia ela, mexendo no aparelho. - ... mas com algumas diferenças. Ouça. - ela apertou um botão e ouviu-se um rápido clique.

Posicionou o celular para ambos pudessem escutar a mensagem. Mike se desconfortou no mesmo instante em que a voz tenebrosa falou.

"Olá Kindra. Sinto-me honrado e satisfeito por ter escolhido você. Eu tenho observado você por um certo tempo. O que faz, o que fala, o que escreve, o que come... e, sobretudo, o que pensa. Quero parabeniza-la por ter vencido este jogo e por ter dedicado todo o seu tempo à ele. Percebo que é digna de saber a verdade. A verdade sobre a sua natureza... a verdade sobre o que a torna humana... a verdade sobre seu mundo... e sobre quem o reina."

Um novo clique foi dado no botão "Pausar".

Kindra ergueu os olhos Mike como quem espera por boas notícias.

- Com exceção do meu nome e dos substantivos femininos, ele disse essa mensagem à você?

- Sim. - confirmou Mike, assentindo.

- Muito bem... - disse Kindra, tornando a mexer no celular. Estava avançando a gravação.

- Espera um minuto. - interrompeu Mike. - Como conseguiu gravar? Ahn... digo... - ele parecia mais perdido do que nunca. - Deveria estar... muito assustada com aquela voz, aquele clima todo... de toda a loucura do jogo ter se tornado real. Se sentindo assim, como você gravou a mensagem?

- Na primeira vez, eu não sabia o que pensar ou como pensar sobre aquilo. - disse ela, com ar cansado. - Fiquei em estado de choque. Me senti imersa num pesadelo. - ela fez uma pausa, pensando em seus pais que também haviam sumido tal como 98% da população do planeta. - Mas depois, na segunda vez, eu caí na real. Eu já temia que a TV ia desligar poucos minutos antes que o vídeo terminasse. Foi então que apertei um botão embaixo de um dos controles e retrocedi o vídeo. Descobri isso ontem enquanto jogava. - revelou, deixando Mike embasbacado com a tamanha perspicácia daquela garota.

- E depois?

- Peguei meu celular e pus para gravar o áudio na íntegra. Sorte que ele estava funcionando.

- Não posso dizer o mesmo do meu. - lamentou Mike, em uma expressão tristonha e mórbida, como se houvesse perdido alguém importante.

- Seu celular pifou? - perguntou ela.

- Não... - disse ele, encabulando-se. - Eu... o destruí. - assentiu rapidamente. - Foi isso. Eu surtei de tanta raiva por ele não estar funcionando naquela hora.

- Então você soube da encomenda no mesmo momento em que houve o hack no seu celular. - afirmou ela, convicta. - Mas tudo bem, agora que estamos aqui, você já sabe, é só o que importa. Mesmo que seu celular funcionasse, não teria tido a mesma ideia que a minha. - disse ela, encaminhando-se para um canto da sala sorrindo maliciosamente.

"Convencida.", pensou Mike a olhando com reprovação.

Ela se virou para ele já próxima da porta. Ergueu o celular, dando um clique no "Play".

"O prêmio a se conquistar é o magnífico elixir da imortalidade, o qual lhe atribui uma longevidade infinita". 

Ela pausou a gravação novamente.

- O que me diz disto?

Mike franzira as sobrancelhas, balançando a cabeça em negação. "Algo em diz que preciso saber muito mais dessa garota do que eu imaginava.".

- Isso... não faz sentido! - bradou ele, cético. - Na mensagem do meu jogo ele disse que o prêmio era o elmo dourado que dá sabedoria e conhecimento sem limites para o vencedor! Por que o seu é diferente? - perguntou ele, a olhando com desconfiança.

Kindra pareceu não acreditar na expressão que ele fazia. No entanto, logo percebeu que aquilo seria previsível, considerando que estavam no meio de um jogo de sobrevivência recém-iniciado. "Já esperava por isso. Ele vai deixar de confiar em mim aos poucos.", temeu ela.

- Olha, Mike, preciso que entenda. - disse ela, tentando acalma-lo. - É muito provável que todos os vinte jogadores receberam mensagens com pequenas diferenças. Esse cara bolou um plano muito engenhoso.

- Se é que ele é um cara... se é que ele é humano. - protestou Mike, raivoso.

- É, eu sei. Talvez ele não seja mesmo humano. - especulou Kindra, aflita. - E o fato de eu estar mostrando isso a você denuncia o mistério do verdadeiro prêmio. Além disso, parece que só nós dois, até agora, sabemos disso. Cada jogador foi desafiado com um prêmio diferente.

- Certo. - disse Mike, assentindo, sem desgrudar o olhar intrigado para ela. - E agora? O que a gente faz?

- A última frase dele foi "Que o jogo comece", não foi? - perguntou ela, em uma última tentativa de sanar suas dúvidas primordiais em relação ao jogo.

- Sim, foi.

- Ótimo. Melhor que me siga. - disse ela, abrindo a porta para sair. - Talvez vai estar mais seguro ao meu lado. - disse, por fim, saindo da sala, direcionando-se para a esquerda.

Embora claramente discordante do que sua mais nova amiga havia dito, Mike não enxergou outra escolha a não ser seguir seus passos para rumos imprevisíveis. Caminharam a passos apressados pelo corredor iluminado por lâmpadas fluorescentes brancas que pendiam no teto sustentadas por cabos. Ainda com a mente afundada em dúvidas, o jovem, meio que tarde, fizera uma pergunta crucial. "Como ela simplesmente pode estar do meu lado sendo que a dinâmica do jogo é matar os outros competidores!? É cada um por si! É o individualismo humano na luta pela sobrevivência!".

- Ei! Espera! - chamou ele, tentando alcança-la quase correndo. - Então agora somos parceiros?

- Pode-se dizer que sim. - respondeu ela, secamente.

- Escuta aqui! Isto é um jogo de sobrevivência! Não tem como duas pessoas estarem do mesmo lado! - argumentou ele, visivelmente aborrecido.

- E se eu disser a você que acredito que algumas regras do videogame não se aplicam ao desta versão? O que você me diz? - perguntou ela, desafiadora, sem diminuir o ritmo dos passos.

- Já vi que você acredita em muita coisa. - disparou ele, ríspido.

- Tudo bem, vamos fazer o seguinte: Você não é obrigado a considerar minhas ideias e crenças. OK? Vamos ajudar um ao outro... pelo menos por enquanto.

- Tem razão. - confirmou ele, o olhar sério. - Por enquanto. "Por que com certeza alguém vai ter que ser o primeiro a morrer nessa porra! E com certeza não quero que seja eu.", pensou ele, reflexivo.

Enveredaram por um corredor à direita que se estendia por vários metros em direção ao refeitório. Acoplado na parede cinza, alguns metros acima da primeira sala do corredor, estava um monitor LCD preto emitindo estática. Ignoraram-o ao passarem por ele.

- Por que estamos indo até o refeitório? - perguntou Mike.

Antes que Kindra pudesse responder, uma voz entusiasmadamente louca reverberou pelo espaço... vinda do monitor, fazendo com que a dupla estacasse de imediato.

- Ora, vejam só! Se não são meus nobres colegas de classe!

Mike se virou rapidamente, reconhecendo o tom. O monitor girou e se inclinou alguns centímetros até ficar quase totalmente de frente à eles. Na tela, uma figura ligeiramente insana surgiu na forma de um rosto magro, repleto de espinhas, óculos com armação de metal preta e longos cabelos pretos. Os olhos esbugalhados do sujeito causavam certo incômodo e uma ponta de medo.

Ele sorria ardilosamente... para alguém que aparentava ser tão reservado e introspectivo em sala de aula.

- Joshua!? - exclamou Mike, desnorteado. - Não me diga que...

- Sim! - disse Kindra, olhando diretamente para o ameaçador sorriso do nerd. - Ele é um jogador. Lembra do que eu disse? A interferência afetou somente aqueles que estavam destinados a sobreviver à tribulação e o que viesse depois.

"É verdade! Joshua teve o notebook hackeado por aquele homem."

O nerd se pôs a falar.

- Ha-ha-ha-ha-ha. - riu ele com escárnio. - Desde que eu soube que esse jogo se tornou realidade, já tinha total ciência de que eu e somente eu teria os recursos necessários para aniquilar todos os meus oponentes! E aqui estão minhas duas iscas presas em um enorme azol!

Mike e Kindra se entreolharam estupefatos. Joshua definitivamente havia sido possuído por uma perseverança corrompida pela loucura. Todos, por algum motivo, achavam que o rapaz de 18 anos era um gênio louco e muitos até brincavam com o fato de que o mesmo teria os pauzinhos para mover um genial plano de construir uma inteligência artificial capaz de assumir controle total da humanidade. Uma lenda, que logo evoluiu para boato do mais falado em todo o colégio, afirmava que ele, secretamente, já havia criado um protótipo do perigoso e aparentemente inconcebível invento. Tempos depois, nada foi confirmado. Porém, Joshua garantia, sempre que lhe perguntavam sobre isso, que o projeto galgaria vários degraus na longa escada para o sucesso, podendo ser, posteriormente, apresentado para a comunidade científica.

- O que aquele homem misterioso disse à você? - perguntou Mike, com rispidez.

- O que ele falou já não me importa mais! À essa altura ele já sabe mais sobre nós do que sabemos uns dos outros. - retrucou ele.

- De onde você está falando? - perguntou Kindra, estranhamente parecendo já saber a resposta.

- Do lugar mais secreto deste colégio: A inacessível Sala de Controle! - afirmou, não diminuindo o tom insano da voz.

"Como ele teve acesso à Sala de Controle?", pensou Mike, boquiaberto. Olhou para Kindra que emanava uma calma que para ele soou como uma pré-tentativa de suicídio. "Posso não conhecer nem 50% da personalidade do Joshua, mas ela parece estar disposta a brincar com fogo. Todo mundo achava ele estranho e suspeito e agora revelou que é capaz de qualquer coisa!".

- Então é isso. - disse Kindra, se aproximando do monitor. - Você talvez tenha sido o primeiro a vencer o jogo no videogame. Isto fez você ganhar tempo para que pudesse vir até o colégio e preparar tudo: Instalação de equipamentos, chutar o saco do vigia noturno, pular o portão e usar algum algoritmo especial pra assumir o controle de todo o sistema, o que inclui os monitores, computadores e as câmeras.

- Isso mesmo! Tudo isso antes de todo mundo sumir! Como novata você me surpreendeu agora! - disse Joshua, olhando-a com certo interesse. - Qual é a dela Mike? Por acaso ela lê mentes?

Ignorando a pergunta de Joshua, Mike voltou-se para as câmeras de vigilância espalhadas pelas duas paredes do corredor. Puxou Kindra para um lado para confabular algo.

- Sei o que está pensando. - disse ele, olhando-a com certa autoridade.

- É claro que não vou atirar nas câmeras. Além do mais, nem temos armas! - sussurrou ela.

- E não tem como destruí-las. - cochichou Mike. - São feitas com um liga metálica super-resistente e as lentes com vidro reforçado.

- Obrigada pela informação desnecessária. - rebateu ela, voltando-se rapidamente para o monitor.

Mike revirou os olhos, impaciente. O nerd mexia em alguns botões antes de poder de voltar suas atenções à dupla.

- Deixa eu adivinhar: Você planeja nos matar aqui dentro nos mantendo presos no colégio? - especulou Kindra.

- Não se preocupem, meu programa já acabou de executar essa função. - revelou ele, com ar soberbo. - Ninguém entra, ninguém sai!

- Ah, qual é, Joshua? - disse Mike, chegando mais perto para ficar ao lado de Kindra. - Vai dar uma de JigSaw agora é?

- Não. - disse ele, friamente desta vez. - Em vez de criar mil armadilhas para tentar mata-los, eu prefiro que venham até mim. Mas isso depende. Se vocês forem bons em caça ao tesouro! - dera novamente o sorriso ensandecido.

Kindra moveu seus olhos para Mike com carência.

- Por favor, me diga que sabe onde fica a Sala de Controle.

- Ué, achei que você, sendo a filha do diretor, saberia. - retrucou Mike.

Joshua se empertigou na cadeira onde estava sentado e fixou seus olhos na bela garota loira de olhos azuis que parecia ter mais comprometimento com liderança do que Mike.

- O quê!? Essa daí é a filha do diretor? - questionou, estarrecido.

- Cala a boca! - disseram ambos em uníssono.

Kindra pusera uma mão no ombro de Mike em um gesto de sinceridade aliado com o forte olhar decidido que ela exibia.

- É óbvio que ela está tramando algo. Então vamos ter o máximo de cuidado, principalmente você.

- Só que não faço ideia de onde fica a Sala de Controle, porra. - afirmou ele, enfezado.

- Só para dar uma colher de chá... - dizia Joshua, enrolando alguns fios de seus cabelos no seu dedo indicador, parecendo entediado. - Eu direi onde fica: Subsolo B-20, porta número 10. - disse, conciso.

- Generoso demais - comentou Kindra - pra um psicopata disfarçado de aspirante à cientista metido em um jogo de matar ou morrer no meio do fim dos tempos.

Joshua soltara um riso histérico e apavorante. Kindra entreviu, no fundo, alguns objetos negros... parecendo serem armas do mais pesado calibre. "Alguma coisa não está batendo. Armas... na Sala de Controle?", pensou ela, intrigada.

- Olha, não vou brincar com a inteligência de vocês, então confesso que estou sim executando um plano! Como vocês suspeitaram! - confirmou Joshua, empolgado. - A primeira parte dele pode ser transformada em um fiasco... se chegarem aqui em menos de 30 minutos.

- Por que esse tempo? - indagou Kindra, relanceando o outro corredor à sua frente.

- Depois de burlar o sistema de segurança, que não passa de uma merda, eu simplesmente fiz algumas decorações adicionais neste colégio de merda. - ela soltou uma demorada risadinha sinistra. - Quem adora fogos de artifício... que aperte o primeiro botão.

Agindo por puro instinto, Kindra puxara Mike pelo braço violentamente, correndo em disparada em direção ao outro em frente do qual estavam.

- Lembrem-se que posso observa-los pelas câmeras! - adiantou Joshua, sua voz ressoando por todos os altos falantes do colégio.

Parando próximos a uma parede para recuperar o fôlego, ambos se encostaram arquejantes. Kindra havia visualizado um ponto cego, mesmo que pequeníssimo. Foi aproximando sua boca ao ouvido de Mike a fim de lhe sussurrar algo.

- Esse aqui é provavelmente o único ponto cego que existe nesse andar. - disse ela.

- Ele disse "fogos de artifício". Tá na cara que vai mandar a escola para os ares. - sussurrou Mike, preocupado.

- Olha... Nós precisamos encontrar uma saída alternativa, alguma que não esteja bloqueada.

- Ué... mas não deveríamos ir ao encontro de Joshua? Por que vamos perder tempo procurando uma saída que talvez nem exista?

Kindra respirou fundo, limpando o suor de sua testa para, enfim, dizer a má notícia.

- Porque Joshua não está na Sala de Controle.


                                                                                   CONTINUA...

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