quarta-feira, 14 de junho de 2017

5 obras superestimadas que não assisto de jeito nenhum



OBS¹: As séries escolhidas para integrar esta lista não fazem parte da predileção deste blogueiro, como bem deixa evidente seu título e o mesmo as classifica desta forma porque é verdade, muito embora isso não signifique uma perspectiva negativa quanto aqueles que se dedicam a consumi-las. Eu mesmo curto séries, desenhos e animes bastante supervalorizados. Tem-se como exemplo o clássico Dragon Ball.

OBS²: A intenção desta postagem não visa ofender ou ironizar os entusiastas das obras citadas. Em outras palavras, nenhuma delas realmente fisga meu interesse, mas nem por isso condeno a quem gosta. É o típico "Não gosto, mas respeito a opinião de quem pensa diferente".

Esclarecimento feito, vamos direto ao ponto:


1 - The Walking Dead



Poderia resumir este item em uma úncia frase: Zumbis não me interessam!

Particularmente, acho um tema muito limitado. E as cenas que vislumbrei de um episódio avulso fizeram ter a comprovação de que ter um relacionamento sério com esse programa é de uma impossibilidade tremenda. De fato, não espero algo empolgante advindo de uma trama que gira em torno de um pós-apocalipse zumbi justamente pela criatura tão aclamada não me arrancar nenhum resquício de tensão ou admiração.

Portanto, The Walking Dead permanece riscada da minha lista e não importa o quão longa seja a estrada trilhada, dificilmente ela me cativará um dia.


2 - Naruto



Fazendo uma analogia simples: Sabe aquela pessoa com a qual você não simpatiza e nem antipatiza? Que não te desperta nenhuma atração muito menos ódio á primeira vista? Que você ignora como se nem existisse? Então, assim foi, é e sempre será entre Naruto e eu.

Antes fosse adquirido por algum canal aberto numa certa época e sem interferência de programação local ... Não sei, é complicado analisar o fato de eu repelir um anime que provavelmente teria gostado caso fosse mais, digamos, acessível, num dado tempo. O vi pela primeira vez numa chamada do Bom Dia e Cia e não nego que surgiu uma ponta de curiosidade. Mas com o passar do tempo, isso definhou com muita facilidade. Nem mesmo com o acesso à internet, vendo tantos elogios tecidos à obra de Masashi Kishimoto, conseguiu me seduzir a ponto de correr a um site gratuito para assistir em maratona e fazer-me virar fã da noite pro dia.

O fato é que a história do ninja loiro não me conquistou (o clichê do protagonista se lançar numa jornada repleta de obstáculos para conquistar algum título sendo esse seu principal objetivo de vida na trama. Onde será que já vi isso mesmo hein? estou olhando para você Ash Ketchum). Juro que tentei dar uma segunda chance com o famigerado Shippuden em sua exibição na Play TV... e a conclusão definitiva foi de que, como fã de cultura pop, eu não estava destinado a apreciar as aventuras de Naruto assim como o anime em questão nunca esteve destinado a estar dentre meus favoritos.


3 - One Piece



Olha, tenho plena ciência de que primeiras impressões podem enganar diversas vezes, mas com One Piece o lance foi um tanto mais profundo - na falta de um termo melhor - que o item anterior, onde ao menos me encorajei a assistir a pedaços de episódios aleatórios. Nesse aqui... pff... nem cheguei perto. Ressalto que a temática de piratas é uma das minhas favoritas. Não fosse por tal preferência não teria guardado e bem preservado minha coletânea com os três filmes da franquia Piratas do Caribe que ganhei de aniversário de 15 invernos.

Existe algo nesse anime que não me atrai de forma alguma desde o primeiro dia que o vi como propaganda na contra-capa de um mangá de Cavaleiros do Zodíaco. E sendo franco os mais de 700 episódios é só um dos fatores que não me motivam a apertar o play. 700 episódios e nada desse tesouro ser desenterrado? Transparece um padrão de "encheção de linguiça" característico e pelo visto este anime de exibição e publicação ininterruptas bate o recorde. Bleach também segue esta linha de se estender além da conta, mas apesar disso a diferença óbvia é que ele ganhou minha atenção e não vou entrar na questão de comparar ambos os animes.

Gosto do tema, reafirmo, mas One Piece, definitivamente, não é obrigatório para mim. Passo (com a consciência tranquila).


4 - Steven Universo



Desde a primeira prévia, o desenho não me convenceu. Vi umas cenas avulsas de um episódio qualquer e... O que mais posso dizer? Nada conseguiu me interessar: ambientação, paleta de cores, personagens, enredo etc.

Com todo o respeito a quem acompanha, mas, em minha sincera opinião, é só mais um no meio desta insossa safra de novas animações do Cartoon Network.


5 - Hora de Aventura



Mais um produto do Cartoon Network que não me proporciona absolutamente nada. Para não tornar este item meio vazio, revelo que já vi pelo menos uns 9 ou 10 episódios inteiros das aventuras de Finn e Jake porque entre todas as obras selecionadas para essa lista, Hora de Aventura foi a única onde eu realmente me esforcei para gostar. Tentei ser bonzinho, porém o resultado foi previsível. Pode até haver uma história obscura por trás de toda a psicodelia e bizarrice que o desenho tenta enfiar goela abaixo. O que não é suficiente para prender um espectador tão exigente como eu que cresceu com Meninas Super Poderosas, KND, Mansão Foster, Johnny Bravo, Samurai Jack etc.

Não é porque não pareça fazer sentido que rejeito, mas sim pelo modo como tudo é conduzido.



Lista onde abordo um pouco sobre séries que larguei:

http://universoleituracontoscreepys.blogspot.com.br/2016/08/6-series-que-abandonei.html




*As imagens acima são propriedades de seus respectivos autores e foram usadas para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagens retiradas de: http://jerimumgeek.oportaln10.com.br/the-walking-dead-personagens-que-podem-morrer-no-final-da-temporada-7-14662/
                                         http://anmtv.xpg.uol.com.br/naruto-serie-classica-sera-relancada-em-hd/
                                         http://br.ign.com/one-piece/25221/news/trailer-de-filme-de-one-piece-e-revelado
                                         http://pt-br.stevenuniverso.wikia.com/wiki/Steven_Quartz_Universo
                                         http://portalconectados.net/2016/12/hora-de-aventura-ganhara-minisserie-de-oito-episodios-em-2017/




terça-feira, 13 de junho de 2017

A verdadeira razão pela qual Capuz Vermelho está demorando tanto



Certa vez escutei alguém falar que as coisas são apenas boas (adjetivando melhor: empolgantes) no início. Tempos depois comecei a associar essa meia-verdade - explico melhor abaixo - com o meu hobby favorito que é cuidar deste espaço que lancei com o despretensioso intuito de expor minha arte, aquilo que escolhi produzir a fim de expressar meu talento. Não ligo tal frase somente a situação da série que aqui é o enfoque, mas diria que do blog em geral. Acho que até já me expressei a respeito de algo parecido, do qual lembro de ter escrito que meu comprometimento com o blog converteu-se basicamente em diversão para obrigação - ainda que um público fiel ao conteúdo estivesse ausente, porque não corri longe o bastante para alcançar esse sonho, mas mencionar esse problema já desvia do assunto, portanto, melhor manter o foco.

Bem, a frase supracitada é uma meia-verdade a meu ver por duas razões: 1) Tenho por mim que um projeto desse tipo - seja uma série literária ou televisiva -, com propensão a ter uma longa continuidade, pode vir a apresentar sinais de cansaço dependendo do tempo em que se estendeu. 2) Mesmo que tudo, em determinado momento, pareça ter "perdido a graça", não ter mais aquele clima ou não lhe proporciona mais aquela sensação que te movia a escrever a todo vapor em um passado não tão distante, você não pode jogar a toalha assim tão facilmente, em vez disso procurar se auto-desafiar pois essa fase chata não vai passar se você não explorar todo o seu potencial, mantendo o pensamento de que, no fim das contas, você pode até se surpreender com o resultado e tudo volte a ficar estável embora não resgate fragmentos do passado de quando você pensa que era mais criativo.

Esta terceira temporada de Capuz Vermelho foi problemática em todos os sentidos. Não só a mais trabalhosa, por outro lado foi também a que mais me mantive empolgado por escrever (e nem por isso apressei demais o final da segunda temporada, porque me controlei rs) por se tratar do ápice de um ciclo, precedendo uma nova era (leia-se quarta temporada). É como enfrentar o chefão num vídeo-game, mas com um nível de dificuldade que você nem sonhava em ter de lidar. Percebe o quanto você era foda nas fases anteriores, relembra seus momentos de glória enfrentando cada obstáculo que surgia a todo momento e consequentemente vem aquela sensação que faz você imaginar: "Nossa, tudo era tão simples naquela época". Todo esse saudosismo repentino é um agravante que só potencializa a dificuldade encontrada para concluir o negócio.

O ponto-chave dessa questão é sobre não conseguir fixar na mente que o melhor que eu posso fazer será o bastante por ser o mais longe que consegui chegar. Em outras palavras, é um auto-desafio inverso: Para contornar o problema, deve-se parar de exigir tanto de si mesmo e seguir com o que tem de melhor a fazer independente das condições em que se encontre (deprimido, eufórico, ansioso etc) e para favorecer sua evolução deve-se se aprofundar melhor no seu potencial criativo, mergulhar fundo o que significa às vezes forçar um pouco para que lhe satisfaça na medida do possível e isso é auto-cobrança e isso é uma faca de dois gumes. Ainda estou preso no segundo desafio, mas tentando, ao máximo, abraçar o primeiro que, ao menos, propõe benefícios que tranquilizam a consciência.

Quero deixar esclarecido que não me cansei de escrever Rosie e cia. Meu ritmo de escrita é super-lento, eu sei (algo que George R. R. Martin e eu temos em comum hehehe), mas nunca, jamais, me ocorreu um desejo de tacar o "foda-se" na série e fazer tudo "nas coxas", escrever um final meia-boca e forçado só para se livrar de uma história que é difícil sim de escrever pela densidade e complexidade desse universo multi-sobrenatural. Mas quer saber? Ser difícil de escrever é o que me motiva a prosseguir com ela. A dificuldade que aqui explanei é relacionada ao fato de que percebendo que as coisas chegaram aonde chegaram (e olha que ainda está na terceira temporada) despertou em mim um apego ao passado, somado a outros fatores como hiatos, problemas pessoais e até mesmo os eventos da narrativa nesse ponto em que a série alcançou foram essenciais para dar essa freada no ritmo e acelerar o crescimento dessa hesitação em continuar porque as coisas assumiram um rumo épico demais e está tão bem encaixado, cada acontecimento já traçado. O problema afeta exatamente a execução. Você sabe, de cor e salteado, como o enredo vai se desdobrar, mas daí vem aquele "diabinho no ombro" que diz: "Vai fazer como?".

Esse meu jeito "danbrowniano" de escrever (o que não quer dizer que eu recorria aos livros dele para me "reabastecer", mas é verdade que seu estilo me influenciou) começou lá pela segunda temporada e foi aumentando até culminar na terceira, onde está mais forte, mais latente. Eu até poderia voltar a apostar no estilo da primeira temporada (narração e diálogos rápidos, poucos detalhes), mas a verdade é que seria meio que um retrocesso. Eu quis mudar justamente visando melhorar o desenrolar dos eventos com descrições pormenorizadas - de ambientes, de expressões, de sentimentos etc -, porém houveram consequências naturais dessa evolução e a maior delas é o tamanho dos capítulos. Nos meus devaneios saudosistas também me veio essa nostalgia de quando os capítulos não eram tão demasiados longos e por causa disso, claro, a frequência de publicação costumava ser rápida.

Faltam apenas DOIS capítulos para encerrar a atual temporada. Já revelo que escrevo-os simultaneamente e não é a primeira vez que aposto nessa ideia. A única saída mesmo é perseverar... fazer o melhor que posso. Seguindo em frente, me dando uns "puxões de orelha" a respeito de não estar escrevendo um livro sob pressão de uma editora, mas sim uma história despretensiosa que fiz valer a pena mesmo não ganhando um centavo, mesmo não sendo conhecida por quase ninguém.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Nem tudo é o que parece #39


Enquanto me mantinha totalmente concentrada costurando algumas peças de roupas, como se o mundo ao redor tivesse desaparecido, ouvi uma risada escandalosa ressoar diretamente do corredor. O susto foi tamanho que faltou pouco para meu dedo ser rasgado pela agulha da máquina.

Olhei em volta, meio estremecida, afinal estava no meio do trabalho e qualquer coisa, por mínima que seja, capaz de me tirar do "meu mundo" faz com que eu me sinta assim. Era o riso do meu filho de 9 anos.

Antes que eu fosse ao seu quarto, escutei passos no jardim. Fui correndo até a janela da sala e vi ele dando cambalhotas de felicidade, num estado de euforia até comum para a idade dele... Mas sei lá, tudo me soou fora do normal demais. Ele repetia: "Consegui! Consegui! Consegui!", rindo sem parar.

Tive a impressão de tê-lo visto... "atravessar" o tronco da macieira. Até achei que fosse culpa da aflição que pregava peças na minha mente, e, confiando nisso, fui até o quarto dele pois mais cedo eu tinha pedido que arrumasse tudo depois que acordasse de sua soneca da tarde.

Quando entrei, tive um lampejo de certeza sobre não ter visto coisas.

Meu filho estava dormindo profundamente na cama... mas podia ouvir sua risada do lado de fora.

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Deveria ter sido uma mera conversa trivial no Whatsapp de uma madrugada qualquer, mas o que me fez interrompe-la vai além do que minha cabeça consegue processar. Eu estava deitado na cama, derrotado pela insônia, quando resolvi que era uma boa hora pra colocar o papo em dia com Helen, uma grande amiga minha que estudou comigo no colegial. Não nos víamos desde a formatura e desde então nossas conversas passaram a ser à distância, em qualquer que fosse a plataforma.

- E ae Helen, como vai indo?

- Não sei... Vai demorar pra eu me acostumar.

- ???

- Você nunca percebeu o que ela sentia mas nunca teve coragem pra admitir?

- Do que vc tá falando?? Se for alguma pegadinha, passou longe hein.

Comecei a desconfiar porque a Helen sempre usa muito internetês. Foi então que me mandou um áudio que fez gelar meu sangue. Parecia aquele tom de voz sintetizado que vemos em depoimentos na televisão, onde a vítima não se identifica e tal... só que mais grosso e sussurrante.

- (Áudio) Eu sei tudo sobre vocês dois.

- Não engana ninguém com esse efeito de merda... Anda Helen, pára de graça.

- Mas essa é a minha voz. Que pena você não passar de um inútil sem bom gosto.

- Quem é você? Não parece a Helen... Algum amigo do trabalho? Da família? Se for um invasor, vou chamar a polícia. Cadê ela?

Passaram-se cerca de 8 minutos e nada de uma resposta, o que só me deixou à beira do desespero e a um passo de discar o número da polícia. "Ela" respondeu antes que eu saísse da cama. Nesse momento eu congelei de medo.

- Desculpe a demora, Helen agora está dormindo. O tempo dela acabou como previa nosso acordo que já faz 5 anos. Eu assumo daqui em diante.

O pior é que fazem exatamente 5 anos que nunca mais tinha a visto pessoalmente.

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O urso que minha filha ganhou de presente do aniversário de 7 anos tem me proporcionado noites insuportáveis de pesadelos recorrentes que me fazem temer pela minha vida a cada segundo.

Começou quando ela, minha princesinha, veio até mim com um sorriso de orelha à orelha, mostrando-me o urso de pelúcia vermelho carmesim, gritando "Mamãe, mamãe, olha, ele aprendeu uma palavra nova! Olha só!".

Ela apertou o botãozinho na barriga do urso para que dissesse uma de suas palavras. O estranho que pude notar é que havia um limite de apenas 20 palavras - uma de cada vez - e conforme os dias foram passando eu podia jurar que teria escutado todas de tanto que ela ficou viciada.

Mesmo assim, me prestei a ouvir. Quando ela apertou, senti uma sensação de náusea, aquele embrulho no estômago quando vemos ou escutamos coisas que ficam indigestas.

O tal urso falou sua nova palavra: "Vadia". Num tom meio rude.

Ela disse na maior inocência: "Não sei o que é isso... Mas agora fiquei com vontade de ensinar mais!"

Aquilo com certeza não saiu da boca da minha filha para "ensina-lo". Foi então que três meses depois me livrei dele - joguei numa caçamba de lixo - e comprei um substituto à altura.

Mas a tranquilidade durou pouco. Voltar a dormir bem a partir desse dia se tornou um desafio exaustivo. Enquanto ia jogar o lixo fora, tomei um baque tremendo, cheguei a largar a sacola derrubando metade do lixo, só de ver de novo aquele urso asqueroso... na caixa do correio!

O peguei, meio curiosa, apertei o botão de fala e ele, num aparente tom de deboche, disse: "Eu voltei".

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Só tinha saído para tomar um ar fresco numa tarde ensolarada. Meu caminho foi "interrompido" por uma garota andando numa bicicletinha cor-de-rosa que parou só para observar a casa vizinha à minha - que ficava entre as nossas. Quando eu já pedir licença - a calçada era estreita - ela se dirigiu à mim com seriedade no rosto. Me perguntou o seguinte: "Você também escuta as vozes?".

Eu fiquei com a língua presa nesse momento. A casa já estava desocupada há décadas. Bem intrigante, claro. Mas e daí? Talvez o motivo pelo qual ninguém ter se interessado em fechar um acordo pra aluga-la seja porque não é do mesmo escritório de advocacia das outras - que por sinal já deve ter fechado as portas. A solução seria demolir ou vender, mas ninguém tomava iniciativa.

Respondi que não, mas curioso que sou não perdi essa. "Jura que essa casa é mal-assombrada?", perguntei, sem levar muito a sério. Ela afirmou, veementemente, que ouvia conversas paralelas na casa, seja de dia ou de noite. Daí falei: "Nem vou cair nessa. Já li um monte de histórias desse tipo. Sempre o mesmo final: Todo mundo acha que há gente na casa quando na verdade os donos estão mortos há séculos".

Fui até a casa para tirar minhas conclusões e tentar provar para aquela garota que era só imaginação dela. Era misterioso só ela ouvir as tais vozes, então apostei que se eu entrasse, explorasse todo o ambiente, conseguiria mais do que só isso. Pedi que ela esperasse enquanto entrava.

Mal tinha dado dez passos naquela sala vazia quando vi a garota pela janela escrever algo num caderno. Ela arrancou a folha e correu até a casa. Passou o bilhete pela soleira da porta. Antes de ler, percebi ela saindo com a bicicleta em disparada até a outra esquina.

Nele estava escrito: "Saia daí logo! Eles estão olhando pra você, vindo na sua direção!" 


FIM... por enquanto! 





PS: Qualquer semelhança com Ordens do Ted na terceira história é mera coincidência rs... tá, nem tanto.



*As imagens acima são propriedades de seus respectivos autores e foram usadas para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagens retiradas de: http://www.assombrado.com.br/2013/05/tem-um-fantasma-no-meu-quarto.html
                                         https://www.ajanelalaranja.com/2015/06/casas-mal-assombradas-conhecer.html




quinta-feira, 1 de junho de 2017

Capuz Vermelho - A Enciclopédia: Feitiços


Uma lista com alguns dos feitiços já proferidos durante a série (a partir da segunda temporada, precisamente), boa parte deles sendo recitados pela personagem Eleonor. Confira:


Materializar elementos pestilentos dentro do organismo para causar morte instantânea (paralisa os movimentos da vítima por 3 segundos)

Haugmeria Let'omin raz me Dat Berzon


Invocar um demônio do Tártaro

Elemento essencial: Pentagrama invertido desenhado com o sangue da bruxa.

Tartarus hebraviru's ik macabru's ul ic ref Alfa lonelis ra demonium reviran't


Magia de teleporte

Elemento essencial: Símbolo específico (deve-se estar no centro dele e imaginar o local para onde deseja ir simultaneamente ao recitamento).

Etza uk transportu's me et behezov materiallis uk locus uk temporious ruptoru's


Localizador

Elementos essenciais: Sangue da bruxa misturado com o da pessoa a ser encontrada e um mapa.

Ubi hoc ipsum. Reperientis eum. 


Troca de corpos

Elemento essencial: É necessário ambos darem as duas mãos, frente à frente, com cortes não muito profundos - o sangue é importante para fortificar a conexão.

Duo corpora, duo animae, evoco replacement et connexio haec duo receptcula duo essentis alium


Reversão da troca de corpos

Disiunctio animarum. Undo replacement. 


Absorver energia divina com a pedra Ônix

Elemento essencial: Pedra Ônix colocada no centro do ponto onde a energia está impregnada.

Effusio rem, Lactaverunt, Virtute introducam ad me. Accipere vobis, Pascenda insatiabilem famem. Archanus onychiros, Te potest impleat, Imple frigidam in materia. Pertinet ad omnem virtutem sip! Pertient ad omnem virtutem sip! 


Inserir a pedra Ônix energizada em um corpo humano 

Augurium corporis. Augurium lapidem. Uniendis. 


(Atualizações em breve)



segunda-feira, 29 de maio de 2017

5 mistérios em Supernatural que devem (ou não) ser solucionados

Divulgação: The CW
Supernatural é aquele tipo de série que costuma te surpreender quando você menos espera e te decepcionar quando você está tão empolgado. Tem todo um enredo relativamente bem costurado, conduzido e amarrado, mas nem tudo é um show de profundidade e coerência na louca jornada dos irmãos Winchesters. Em outras palavras, existem certos pormenores não justificados que acabam por, naturalmente, semear dúvidas que aparentemente os roteiristas negligenciam. Estes são os mistérios irresolutos que perduram ao longo de 12 anos. Tá, eu sei, não precisa ser tudo entregue de forma tão mastigadinha, mas que, ao menos, tivesse um cuidado redobrado para não deixar tais elementos "boiarem" na superfície.

Fica aqui registrada minha pequena insatisfação com relação à produção da série, que por mais deslizes que cometa não me desmotivam a seguir em frente acreditando em boas surpresas. Portanto, CARRY ON até o fim!

Confira abaixo as intrigantes questões não respondidas há um tempo:


1 - Esqueceram de mim (Parte 1): Por onde anda Jesse Turner?


"I Believe The Chldren Are Our Future (5x06)"/The CW
Esse diabinho menino foi utilizado e descartado como se não representasse toda a ameaça potencial que Castiel fez questão de salientar no episódio. O Anticristo - aquele que estaria destinado a se unir a Lúcifer na destruição do Céu e que se fortalece caso ele esteja caminhando sobre a Terra - surgiu pela primeira (e última?) vez na longínqua 5ª temporada e sumiu para talvez nunca voltar. Para quem não sabe (ou não lembra direito da criança), Jesse é a prole de uma humana virgem com um demônio (honestamente, eu também não lembro muito, mas fica aqui uma sub-dúvida: Possessões demoníacas em gestantes podem "torcer" a alma do feto a ponto de incutir um hibridismo?).

Era esperado que o garoto retornasse na 11ª temporada, o que, infelizmente, não rolou, para a decepção de alguns fãs (me incluo nesse grupo), pois com Lúcifer de volta à cena seria bem lógico o "pupilo" que desconhece se reencontrar com os Winchesters e aliar-se à eles na batalha contra a Escuridão/Amara. Foi perdida uma valiosa oportunidade de explorar as nuances e o poder de Jesse com mais aprofundamento, mas, pelo visto, a tendência é que ele permaneça na vala do esquecimento em que foi jogado e, sendo assim, devemos nos contentar com aquele um terço de suas incríveis habilidades demonstradas e sua posição de personagem de um (não tão) simples Caso da Semana.


2 - Esqueceram de mim (Parte 2): Por que Miguel/Adam nunca mais foi aproveitado? 

Para superar o Anticristo na categoria "Desaparecidos", temos o poderoso arcanjo Miguel, visto somente em apenas dois episódios da 5ª temporada. O coitado do meio-irmão de Sam e Dean deve ter passado milênios aprisionado na jaula de Lúcifer (considerando que 4 meses na Terra é o equivalente a 40 anos no Inferno, de acordo com Dean) e sequer houve uma menção ao seu nome nas temporadas seguintes que pudesse significar um retorno arrebatador para combater uma ameaça de alta periculosidade (estou olhando para você, Amara).

Uma vez me peguei perguntando a razão que levou os Winchesters a considerarem libertar Lúcifer da jaula ao invés do arcanjo mais poderoso dentre os quatro. Por um lado, é óbvio que pela bagagem do personagem e... bem, é o próprio capiroto! Só isso basta, levar o diabo em pessoa para combater novamente a titia Escuridão. Não lembro bem exatamente, mas Lúcifer menciona o irmão enquanto está conversando com Sam na jaula criada para prende-lo temporariamente, e acho que as coisas não andam muito boas para o fiel soldado de Deus.

Duas chances foram perdidas para fazê-los voltarem (uma na 6ª Temporada e outra na 11ª temporada), porém é compreensível na primeira situação. Seria um adicional de peso ao lado de Jesse Turner, então espero que um dia possa ser lembrado e merecidamente reutilizado - quem sabe na derradeira temporada que, dizem boatos, será reduzida em 13 episódios.


3 - Como Lúcifer apareceu com sua casca provisória, Nick, se ela já tinha sido descartada no episódio final da 5ª temporada depois de Sam dizer sim? 


"O Brother, Where Art Thou (11x09)"/The CW
Na 11ª temporada vimos o retorno do melhor intérprete do capiroto na série: Mark Pellegrino. No entanto, uma pequena dúvida ficou no ar. Não deveria ser sua forma verdadeira a aparecer ali? Bem, isso pode até ser explicado pela restrição orçamentária que impede a série de apresentar monstros chifrudos e bocudos maquiados com muito CGI, logo, ante a necessidade do personagem voltar, optaram por mostrar o retorno do bom e velho Lúcifer da última temporada comandada por Kripke.

Mas e aí? A questão persiste. Eu diria que há uma "bifurcação" nesse detalhe: Ou Lúcifer projetou-se para a jaula temporária como Nick da mesma forma como o fez na 12ª temporada com Vince Vincente (passando-se por sua namorada) - podendo fazer da sua essência a imagem que desejar - ou foi um tremendo furo de roteiro.

Comentei sobre isso na review da 11ª temporada, veja:

http://universoleituracontoscreepys.blogspot.com.br/2016/08/critica-supernatural-11-temporada.html


4 - Como se explica o universo alternativo de The French Mistake (6x15)? 

Tipo... Os dois são mandados para um universo paralelo onde suas vidas não passam de ficção, mas o que acontece quando finalmente escapam de lá? Ele simplesmente deixa de existir? Sam e Dean teriam possuído Jensen Ackles e Jared Padalecki? Tudo não passou de uma ilusão criada por Balthazar? Como funciona a dinâmica de universos alternativos em Supernatural?

Perguntas demais e respostas de menos é o que provavelmente teremos a respeito disso até o fim da série. De qualquer forma, o episódio tem o mérito pelo divertimento brincalhão, apesar de ficar próximo o bastante do que pode-se chamar de nonsense.


5 - Ben é ou não filho de Dean? 


"The Kids Are Alright (3x02)"/The CW
Particularmente, acho este o maior caso sem resposta da série. É de deixar realmente intrigado a ponto de fazer ansiar desesperadamente por uma confirmação. No episódio supramencionado, o garoto exibe trejeitos e manias bastante semelhantes às de Dean. Certamente, a coisa pende bem mais para o sim. Mas não. Muito provavelmente nunca saberemos a verdade. Após Castiel apagar as memórias de Lisa e Ben (pior decisão de Dean), ficou a pulguinha atrás da orelha sobre o garoto ter sangue Winchester correndo nas veias.


Bônus: Algumas perguntinhas sem resposta:

John Winchester está no Céu ou no Inferno?

Qual a diferença de níveis de poderes entre Cavaleiros do Inferno e Príncipes do Inferno?

Por que a fumaça de Crowley é vermelha se ele é um demônio da encruzilhada e estes possuem fumaça negra como os de baixo escalão?



Texto opinativo a respeito da série em geral:

http://universoleituracontoscreepys.blogspot.com.br/2017/01/uma-reflexao-sobre-supernatural.html

Lista sobre o nosso querido anjo, Castiel:

http://universoleituracontoscreepys.blogspot.com.br/2017/02/6-provas-de-que-castiel-e-o-personagem.html




*As imagens acima são propriedades de seus respectivos autores e foram usadas para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagens retiradas de: http://www.ochaplin.com/2017/04/por-quanto-tempo-ainda-teremos-temporadas-de-supernatural.html
                                          http://www.supernaturalwiki.com/index.php?title=Jesse_Turner
                                          http://www.aminoapps.com/page/supernatural/50576/lucifer-11x09
                                          http://www.supernaturalwiki.com/index.php?title=Ben_Braeden




terça-feira, 16 de maio de 2017

Baú Nostálgico #15: Thundercats

Da esquerda para a direita: Tygra, Snarf, Panthro, Lion-O,
Willy Kit, Cheetara e Willy Kat.


                                                                                   ANTES

Ao lado de Caverna do Dragão, a super-equipe felina tem seu merecido lugar entre os melhores desenhos de ação dos anos 80 (Não sei quanto à He-Man pois sequer cheguei a ver... é sério). Desconheço um pouco a história que envolve a produção de Thundercats, mas prometo realizar uma rápida pesquisa após a escrita deste post. Só sei que ele é dazantiga e era muito divertido acompanha-lo durante as tardes na morta, enterrada e saudosa Sessão Desenho no SBT em idos de 2004 e 2005 quando o bloco servia apenas para tapar crateras na programação (que, por sinal, exibia bastante Tom e Jerry, que, inclusive, é o desenho que será abordado a seguir). Sorte minha descobrir essa preciosidade de um passado tão amado e ponto para o SBT em apresentar Lion-O e cia à geração 2000.

Numa época onde este blogueiro solitário era menos crítico, Thundercats preenchia adequadamente os requisitos básicos para um desenho com foco na ação que conseguisse fixar minha atenção à tela: Bom enredo, personagens esteticamente interessantes e, é claro, lutas, o principal atrativo. Exigindo pouco, curti a série descompromissadamente.

Reconheço a incrível variedade de personagens que o universo de Thundercats tem ao seu dispor, mas diria que boa parte caiu no meu esquecimento conforme o tempo passava e eu me desapegava facilmente da série - não por desinteresse, mas por opções igualmente atraentes surgiram - dos secundários (aliados e vilões) aos que participaram de um único episódio.

Se bem que Mumm-Ra foi o único vilão que sobrou no meu subconsciente por razões óbvias. Particularmente, o achava bizarro, aquele urro medonho na abertura aliado à ótima dublagem brasileira que recebeu só o tornavam a ameaça que os Thundercats de fato deviam temer.

No início de 2014 revi os primeiros episódios na internet, porém não segui adiante

Personagem favorito (exceptuando Lion-O): Panthro (na época citada eu não sabia seu nome, nem que era baseado na figura de uma pantera. Aliás, dos 7 Thundercats só sabia o nome de três: Lion-O, Willy Kat e Cheetara. Que garoto desatento eu era...).

Momento que mais curtia: Fico entre a abertura (o logotipo no final era um deleite a ser observado, uma belezura) e o clássico "Thundercats Ho!" (que fazia parte da abertura, mas a emoção era maior durante os episódios).

                                                                                      AGORA

Bem, agora... agora eu estou muito afim de ver a concretização do sonho de qualquer Thunderfã: UM FILME LIVE-ACTION! Venhamos e convenhamos, já passou da hora porque eles merecem.



PS1: A Willy Kit me passava a impressão de um Lion-O versão criança. A semelhança explícita moveu essa imaginação bobinha.

PS2: Neste post/lista falo um pouco a respeito de uma fanfic de Thundercats que pensei, com relutância, em escrever, mas a coisa não vingou. Veja: http://universoleituracontoscreepys.blogspot.com.br/2016/10/mais-5-fanfics-minhas-que-nao-deram.html

PS3: Pra fechar a edição, fique com ele, Lion-O com seu poderoso olho de Thundera proferindo seu icônico "Thunder... Thunder... Thundercats... HOOOOOOO!!!".






*As imagens acima são propriedades de seus respectivos autores e foram usadas para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagens retiradas de: https://en.wikipedia.org/wiki/ThunderCats_(1985_TV_series)
                                         https://www.tenor.co/view/thundercats-animated-cartoon-intro-gif-3468832



sexta-feira, 12 de maio de 2017

Contos do Corvo #28


                                                       A VERDADEIRA FADA DOS DENTES

Esqueça tudo o que ouviu falar a respeito desse mito idiota e infantil que contava sobre deixar um dente de leite embaixo do travesseiro e no dia seguinte, plim, num passe de mágica você achar uma moeda que a fada do dente ofereceu em troca quando você estava dormindo. Isso que testemunhei foi bem antes da lenda se popularizar e começar a enganar criancinhas banguelas. Nem tinha me socializado com meu bando e lembro como era bem solitário. Essa é a história de Elaine, uma garotinha de 8 anos bastante popular na escola primária gratuita onde frequentava.

Meus olhares passaram a se fixar nela depois que me instalei numa árvore enorme lá perto da qual fiz meu então novo lar. Seus cabelos loiros e meio cacheados balançavam com seu andar desfilante até deixar os meninos excitados... quero dizer, suspirando. Elaine era conhecida por ter uma lábia invejável, um poder de persuasão que chegava a ser visto como estranho por vir de uma doce menina. Interessado nela, passei a investiga-la. Espiona-la, aliás. Me espantou a dualidade da vida dela.

No colégio fazia qualquer um parar o que estava fazendo só para assisti-la passar. Mas em casa... a guria era meio que desprezada por seus pais. Se Elaine derramava a comida no chão, eram seis palmadas na mão pelo descuido. Ao contrário do que esperei ela nem exprimiu um gemido. Que garota firme. Uma criança da sua idade normalmente estaria chorando aos berros. Os pais, carrascos, pareciam cansados da resistência da filha e a tachavam de incorrigível. Eles eram proprietários de uma mercearia pouco frequentada, mas o lucro conseguia ao menos pagar as despesas maiores.

Elaine ficava enfurnada no quarto na maior parte do dia e interagia pouco com os pais por conta da educação de rigorosidade exagerada. Foi quando a vi mexer no seu dente que estava mole.

Um tanto empolgada, ela disparou correndo para contar aos pais. Sua mãe foi a primeira saber, logo chamando o marido para dar uma olhada. O pai não perdeu tempo... Acabou com a alegria da filha, que estava a contar sobre a fada dos dentes que era só mais um produto da sua imaginação serelepe dizendo que ela a visitaria em seu quarto, ao trazer um alicate de uso profissional, depois pegando à força pelo queixo dela e arrancou o dente na marra, direto e rápido. Elaine soltou um grito de dor que soou muito agudo nos meus ouvidos.

Ouvi o pai dizer enquanto via sua filha chorar e se ajoelhar cuspindo volumes de sangue no chão: "Tá vendo só? Agora ela finalmente sentiu a dor!".

Explosiva, a garota deixou seu monstro sair da jaula ao dizer, com ódio profundo, para o pai: "Seu porco, filho da p***!". A boca de Elaine ficou mais suja de sangue depois das bofetadas que a mãe lhe deu. Até fiquei surpreso vendo uma menina com 8 anos na cara falando um palavrão daqueles.

"Eu só queria ver a fada dos dentes!", reclamava a garota, jogada no chão. Eu não sei... nunca tinha visto uma cena daquela natureza antes. Mas eu tinha que admitir que me revoltei pela atitude daqueles pais maldosos que só queriam ver a única filha que foi parida de mal gosto aprender a ter jeito na vida na base da violência. Elaine ficou encarando, entristecida e sentindo-se humilhada, os pais rindo com deboche da própria filha. Dali em diante me convenci de que ela, provavelmente, foi um presente indesejado. Depois da sessão de escárnio, cogitaram tira-la da escola confiando na suspeita de que a filha fez péssimas amizades.

O dente... acho que foi parar no esgoto ou lixo, sei lá. Mas sabia de uma coisa: Elaine tinha se cansado de sofrer nas mãos de pessoas inexperientes em educar. Vi a doçura dos olhos darem lugar à vingança. Por incrível que pareça, ela mesma arrancou outro dente de leite três dias depois. Sem o alicate ou qualquer outra ferramenta.

Dando o pontapé inicial no plano, ela ficou mais próxima de seus colegas, até para os que esnobava. Escolheu um deles - um garotinho com cabelo meio black power - para dizer que se inspirou nos pais para o comércio: Comprar dentes de leite.

Cada dente valia uma moeda de 50 centavos. Elaine conduzia as barganhas usando como artifício a fantasia que sua mente fértil criou sobre uma mulher loira com vestido rosa de bailarina e com asas brilhantes e transparentes que batiam como de borboletas, além de uma varinha de condão com uma estrela amarela na ponta que usava para fazer sua mágica. A típica caracterização de uma fada no imaginário infantil.

Claramente as crianças caíam fundo no golpe e ofertavam seus dentes para economizarem mais do que costumavam ganhar em mesadas. No caso de Elaine, isso nunca aconteceu, e logicamente ela não revelaria algo assim para matar sua popularidade. Tudo feito em segredo, acima de qualquer suspeita.

Daí em diante, os pais de Elaine perceberam que o caixa andava menos cheio que o normal.

O que era no mínimo estranho já que a filha acatava a ordem de nunca pôr os pés no local. Restava a hipótese de Elaine estar entrando escondido nas vezes em que os dois iam juntos à igreja fazer promessas aos santos e a loja ficava uns 15 minutos vulnerável. O "suposto" roubo de Elaine causou uma queda na rentabilidade.

Pela primeira vez eu tinha visto a mãe se posicionar contra a uma ideia do pai, pedindo que ele não fizesse uma besteira contra a própria filha que tinha total direito de defesa. A coisa piorou quando um dos garotos da classe de Elaine apareceu na frente da casa para vê-la e acabou por contar, sem que ela soubesse, detalhadamente, o que ela andava aprontando nas redondezas do colégio.

Chocados, os pais tomaram uma decisão que colocaria um basta nas pilantragens da garota. Elaine levou o pior esporro de sua vida, tenho certeza. Pagou o preço por optar pela vingança contra os pais que não a amavam. Quis saber o nome do garoto e o pai o revelou. Elaine, em um ato de pura impulsividade, enfiou o alicate num olho do pai e foi até a cozinha onde a mãe se surpreendeu por ela ter saído do quarto enquanto seu pai ainda proferia o sermão, percebendo o alicate nas mãos dela depois. Ela pegou uma faca afiada e cortou a garganta de sua mãe, logo em seguida tirando cada dente um à um ignorando os gritos dela e o sangue que espirrava no seu rosto. "Mais pra minha coleção", ouvi ela dizer baixinho depois de terminar o serviço.

Os dentes da mãe e do pai - morto por hemorragia grave no olho - foram colocados num pote de vidro repleto dos dentes de leite de seus colegas que fizera de trouxas.

Em um dado momento sua mente, possessa de raiva e rancor, alcançou um nível de imaginação jamais antes atingido. Realmente, ela desejou com profundidade e intensidade que a fada dos dentes viesse. Um produto da imaginação doentia de uma criança tornou-se real naquela noite.

Você já ouviu falar de Tulpas?

Não? Explicando resumidamente: Os Tulpas nada mais são do que entidades criadas pela mente de uma ou até de mais pessoas, materializações de personagens originados da imaginação movida pela intensa força de vontade e concentração. O desejo de dar vida à este ser ultrapassa os limites até o ponto de se transformar em algo físico.

Tem um detalhe bastante interessante sobre os Tulpas: Conforme a variação de humor de seu criador, eles tendem a sofrer certas alterações, físicas e emocionais. Elaine, antes do sentimento de vingança consumi-la, sonhava ver a fada dos dentes com a aparência de uma donzela, como descrevi antes. No entanto, após o assassinato dos pais e se dar conta do total desprezo que sentiam por ela... bem, as coisas mudaram drasticamente.

A fada que veio lhe visitar possuía uma aura trevosa, emanando uma carga de energia sombria como até então não tinha visto, flutuando poucos centímetros do chão com seu corpo esquelético de pele marrom terra e um vestido sujo, rasgado e podre como se abutres tivessem vomitado sobre ele. O par de asas estava definhado, com pedacinhos caindo no chão e "evaporando" em seguida, pareciam asas de morcego. E o rosto... nossa, nem tenho como explicar, só digo que é horroroso, abominante. Lembro que tinha um maxilar alargado até o torso com uma dúzia de dentes.

E então Elaine negociou com a "fada". Prometeu lhe dar os dentes que coletou em troca de apagar cada rastro deixado pelas mortes dos pais. A "fada", consciente, prometeu realizar o desejo, jurando sua lealdade eterna à criadora.

Desde então a existência da fada dos dentes se alastrou por entre as crianças tomando como base a figura imaginada por Elaine em sua inocência, sendo passada de geração à geração.

Mal sabiam elas que a verdadeira se encontrava sob o domínio de uma mente precocemente sádica. Tulpas, às vezes, podem ser manifestações de seu lado mais obscuro se sentimentos ruins corromperem seu coração. É como um bebê com consciência quase própria querendo sair do ventre. 

Esse é o caso de Elaine. Esta é a fada dos dentes original. 





Nota do autor: Os acompanhantes do corvo - a menina e o coveiro - retornam na edição 30.


*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagem retirada de: http://misteriosfantasticos.blogspot.com.br/2010/10/corvos.html