Em busca da felicidade



     - Mais um dia ruim... Marcos, depois de levar uma chuva de bolinhas de papel e de ser humilhado publicamente pelo valentão Júnior Quebra-Ossos (apelido que o deram pelos seus músculos definidos e instinto violento), chorava copiosamente dentro do banheiro com as costas na porta e sua cabeça sobre os joelhos. As lágrimas derramadas naquele dia somam-se as dos dias anteriores, o que seria suficiente para encher uma caixa d'água... ou até mesmo um rio. Marcos chorava todos os dias, se lamentando por não ser respeitado por uma sociedade que o julga ser diferente. Era seu último ano no colegial, seus sonhos eram altamente positivos e não eram ambiciosos, Marcos sonhava em ser um cientista e também um escritor. Mas algo o impedia de traçar tais metas... era o seu pessimismo, que fora alimentado pelas humilhações e negativações que recebeu durante toda a sua infância e adolescência e o fizeram acreditar que a vida é injusta com ele, fazendo-o acreditar que não é possível alcançar objetivos. Marcos não entendia porque as pessoas daquela cidade o tratavam desta forma, devido ao tratamento que recebe por parte dos preconceituosos ele se achava diferente, e como todo ser humano, Marcos tem seus limites, ele já não aguentava mais todo o desprezo que recebia.
          A rotina de Marcos era conturbada: acordava, escovava os dentes, tomava banho, vestia o uniforme do colégio onde estudava, colocava seus óculos e no espelho tentava fazer um topete igual aos bonitões do colégio... até aí tudo normal... mas tudo se tornava um inferno para ele quando pisava naquela escola, não sabia o que estava para lhe acontecer porque achava que as pessoas eram imprevisíveis demais e poderiam estar armando algo para lhe prejudicar... assim como todos os dias. Quando chegava ao pátio, bem próximo à escada que dava pro segundo andar onde ficava sua sala, Marcos chamava atenção de quase todos os alunos, só que não de forma positiva, a atenção que ele chamava enaltecia o preconceito dos alunos, Marcos ficava cabisbaixo com todos aqueles olhares de desprezo e se sentia um completo estranho no ninho. Só levantava a cabeça quando entrava na sala, para prestar atenção nas aulas, sua timidez era vista como uma doença para os professores, que juntamente com os outros alunos do terceiro ano, compartilhavam o preconceito que sentiam contra Marcos. O pobre menino não tinha direito de defesa quando era espancado pelos valentões na hora do recreio e tampouco tinha direito para responder aos inúmeros xingamentos que recebia durante as aulas. Quando chegava a hora de ir embora, Marcos corria em disparada, descendo as muitas escadas, para a saída da escola, mas não por estar feliz de poder ir pra casa e comer um bom prato que sua mãe faz, e sim por estar fugindo dos valentões, que todo o santo dia tinham um plano para pregar uma peça no garoto... um dia eram bexigas de água, no outro eram ovos podres, no outro tortas na cara e assim sucessivamente... Marcos, todos os dias chegava sujo em casa, sua mãe era a única que sentia do coitado... mas Marcos não gostava que as pessoas sentissem pena dele, ele só queria apenas uma coisa para tentar erguer suas esperanças que nunca forma erguidas: RESPEITO. Algo que as pessoas nunca lhe ofereceram na vida foi respeito, única coisa boa que ele queria e pedia, mas não conseguia, pois o preconceito da sociedade era mais resistente do que sua incessante busca por respeito e igualdade.
           Os motivos que faziam Marcos ser discriminado eram os piores de todos, o garoto era ridicularizado por sua magreza excessiva e de sua aparência nerd, por estes motivos considerados bobos Marcos sofria na pele este preconceito abominável, era tachado de fracassado por tropeçar todas as vezes no chão do pátio, e quando tropeçava via as garotas mais bonitas do colégio rirem apontando para ele junto com os outros alunos. Marcos cogitou sair da escola, mas não disse por quais motivos, entretanto sua mãe dizia que era o último ano e não queria ver o filho parar de estudar, pois acreditava cegamente que seu filho estava tendo uma excelente educação... ledo engano! A mãe de Marcos sabia de seu problema, mas se omitia em reclamar com os pais dos valentões, pois os mesmos eram playboys, filhos de advogados, policiais e juízes e não queria ser presa por um escândalo.
            Em um certo dia, Marcos resolveu fazer um teste, que consistia em mudar completamente o seu jeito de ser. Tentou conversar abertamente com as garotas do primeiro ano e segundo ano... foi extremamente rejeitado e humilhado. O teste não funcionou, o dia continuou sendo o mesmo dos anteriores, nada parecia mudar. Marcos chegando na sala era xingado pelo Júnior Quebra-Ossos, algumas vezes o garoto rebelde de músculos definidos e que tinha uma tatuagem de mulher nua, espancava Marcos na sala de aula na frente de todos, principalmente do professor, que não fazia absolutamente nada, a não ser observar a cena e sorrir descaradamente rindo de Marcos, que no momento pedia por clemência para que o valentão parasse de bater nele, mas não obtinha sucesso em implorar por sua vida. No mesmo dia, após chegar em casa, Marcos foi direto para o banheiro vomitar, pois tinha levado muitos chutes no estômago. O vaso sanitário havia entupido, Marcos se deitou no chão do banheiro, tirou seus óculos e se debulhou em lágrimas por se sentir tão sozinho e injustiçado. Ficou por duas horas no cômodo, até que sua tinha chegado do trabalho e o acolhido. Colocou-o na cama e tentou consola-lo dizendo as mesmas coisas de sempre como: "Não ligue pra isso", "Deixa isso pra lá", "Não arranje confusão", coisas que revoltavam Marcos, pois sua mãe não compreendia que ele era a vítima e não podia se defender e muito menos atacar, porque se atacasse as piorariam ainda mais.
             Marcos só não entrava em depressão porque isso iria derruba-lo por completo e se chegasse a entrar em um quadro depressivo seus sonhos nunca se realizariam. A raiva que Marcos sentia era tremenda, chegou ao ponto de desejar a morte de todos aqueles alunos, queria se vingar de todos eles de uma maneira insólita e cruel, mas optou por não fazer pois as consequências viriam depois e seu sofrimento aumentaria.
             No fim da tarde daquele dia, Marcos foi até a uma floresta que ficava perto de sua casa. Pulou as árvores, brincou com alguns animais, colheu alguns frutos e sentou-se em uma pedra enorme para contemplar o pôr-do-sol, uma paisagem que fazia seus olhos brilharem, aquela floresta era o único lugar que Marcos se sentia bem, pois a natureza lhe proporcionava a calmaria e um ar puro que ele sentia gosto de respirar. Comendo as maçãs e observando o sol se pôr, Marcos percebeu uma segunda presença naquele lugar. Olhou para trás com uma maçã inteira na mão e viu um lindo Husky Siberiano de cor branca, observando-o sentado em um tronco de árvore, ele não hesitou em abraçar o cachorro, que também retribuiu com o mesmo gesto. Marcos sentiu uma amizade profunda pelo cachorro e pensou em leva-lo para casa, mas depois desanimou ao lembrar que sua mãe odeia animais. O cachorro tinha uma coleira dourada com um papel enrolado por uma fita vermelha, Marcos pegou o papel e leu o que estava escrito. Era uma carta, parecia ser o dono do cachorro que havia escrito-a. A carta dizia:
               "Marcos, eu sou o Dr. Spim, nasci na cidade de Igualdade, moro até hoje aqui. Eu observei você por meio do meu telescópio mágico, eu ajudo crianças e adolescentes que sofrem para se encaixar em uma determinada sociedade, e é por isso mesmo que enviei esta carta, para ajuda-lo. Mas o dia da minha morte se aproxima, e presumo que você não terá a oportunidade de me conhecer, mas não se preocupe, minha casa é enorme e tem várias fotos minhas na parede do meu quarto. Este cão irá guia-lo não só até a cidade... irá guiar você até a felicidade, que você tanto buscou, mas nunca conseguiu. Ele irá ajudar você, sendo o seu melhor amigo e o melhor de tudo é que este cão é especial, ele se comunica por telepatia, vai falar com você através dos pensamentos. Espero que faça muitos amigos, as pessoas daqui de Igualdade são extremamente hospitaleiras, vão receber você de braços abertos e ninguém tem um tipo de preconceito, todos se gostam e se respeitam, bem diferente da cidade onde você mora. Sei que é difícil abandonar os estudos e a sua mãe, mas tenha certeza de que ela não sentirá a sua falta, ela não ama você de verdade, por tudo que já observei, ela sai com um homem rico e galanteador, e ele propôs casamento à ela e planejam a cerimônia para daqui a duas semanas. Agora todo esse sofrimento acabou, você terá uma nova vida... uma vida que você merece e sempre mereceu ter."
                Marcos fechou o papel e deu um sorriso discreto, olhou para o cachorro com os olhos marejados de lágrimas... eram lágrimas de felicidade, Marcos estava emocionado por ganhar um amigo em quem realmente pode confiar, um amigo que junto dele poderia enfrentar as batalhas que nenhum outro ser humano frágil emocionalmente enfrentaria. Marcos deixou o papel no chão, repentinamente o Husky Siberiano usou suas habilidades telepáticas e se comunicou com Marcos dizendo:
- Precisamos ir logo, temos uma longa estrada pela frente, você é o meu mais novo amigo e tenha certeza que minha lealdade é eterna, vamos viver muitas aventuras. - Com estas palavras Marcos abraçou o cão novamente pelo mesmo ter prometido ser fiel.
                  Os dois seguiram pela floresta, mas o cão guiava Marcos, que não sabia para onde estava indo. A dupla tinha chegado ao fim da floresta, o sol ainda estava se pondo, Marcos estava bastante cansado e observando o cão parado em cima de uma pedra ele estranha sua atitude. O cachorro uivou bem alto, mas não era um uivo estridente de acabar com os tímpanos, era calmo e bastante suave. Marcos se aproximou da pedra em que o cachorro estava sentado e o acariciou na cabeça. O uivo era na verdade um chamado, uma ponte transparente, mas que era visível, surgiu na frente dos dois. No final da ponte havia um grande portão dourado e no alto dele estava escrito: Seja bem-vindo à Igualdade. Marcos ficou maravilhado com todo o esplendor que observara, o cachorro se comunicou novamente dizendo:
- Vamos, temos que ir depressa.
                   Marcos foi atrás do cão, ele sentia um pouco de medo em atravessar uma ponte transparente pois abaixo havia um rio com uma forte correnteza, mas ele tomou coragem e seguiu o animal. Chegaram ao final da ponte, o cão, apenas com telepatia, disse uma espécie de código:
- Paz e Amor. - dizia o cão, deixando Marcos impressionado.
                   O portão abriu lentamente, Marcos foi dando pequenos passos e quando viu a cidade de longe ficou surpreso. Ele foi logo correndo ansioso para conhecer a cidade, o cão foi logo atrás dele. A cidade exibia uma magnificência que fazia os olhos de Marcos brilharem, o céu era de um azul vivo, os pássaros cantavam alegremente e as casas tinham diferentes formas, algumas parecidas até mesmo com castelos. No meio das pessoas, ele olhou tudo o que estava a sua volta, um velhinho que estava perto dele se levantou de sua cadeira e aplaudiu Marcos, outro homem se aproximou dele e também começou a aplaudi-lo. O número de aplausos foi aumentado rapidamente e a emoção de marcos aumentava cada vez mais. Todos da cidade aplaudiram Marcos, era um singelo comitê de boas-vindas, as pessoas de Igualdade o admiravam e comemoravam a chegada de um novo habitante.
                   Uma menina se aproximou de Marcos e lhe entregou uma bicicleta, pedindo para ele ande nela. Marcos aceitou o pedido, bastante animado e completamente realizado, finalmente iria viver uma nova vida ao lado de pessoas adoráveis. O Husky Siberiano se aproximou de Marcos, os dois se entreolharam por alguns segundos, Marcos dá um sorriso e sobe na bicicleta. Pedalando na bicicleta bastante alegre e em meio aos intermináveis aplausos, Marcos estava com a sensação de um sonho realizado, o sonho de ser respeitado pelas pessoas. O cachorro acompanhava a bicicleta correndo, mas logo ele subiu no colo de Marcos e os dois ficaram andando juntos, mas algo muito mais fantástico estaria por vir. Mais pessoas andando de bicicleta surgiam pelas ruas da cidade atrás de Marcos, a avenida estava repleta de ciclistas. Marcos deu um nome ao cachorro: Akira.
                  Inexplicavelmente todas as bicicletas começaram a flutuar, e os ciclistas ficaram impressionados e mais alegres com este fenômeno. Todos pedalavam suas bicicletas no ar, viajando os céus da cidade, na frente estavam Marcos e Akira, estavam sendo iluminados pela luz do sol que os deixavam mais encantados.
                   Marcos teve seu sonho realizado... finalmente encontrou a felicidade.
"A felicidade não se resume na ausência de problemas, mas sim na sua capacidade de lidar com eles." - Albert Einstein

Comentários

  1. Adorei seu conto,tem continuação?
    Se não tiver,quando vc vai postar outros contos??:3

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    Respostas
    1. Esse não terá continuação.
      Hoje tem mais um conto, e vai ser de terror :)

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Bom, tenho que dizer que gostei e não gostei deste conto, tudo ao mesmo tempo. Gostei da sua ideia de felicidade, e da filosofia, mas algumas passagens não me agradaram e você correu muito. Vou listar as coisas que não gostei:
    1. A afirmação de que ele sofreu o pior preconceito, um narrador que não é uma pessoa tem de ser imparcial, uma opinião dessas é um tanto quanto exagerada, pois até ali eu achei que ele fosse um tipo de deficiente ara ser tão vitimizado, não que ele não seja uma vitima, mas não é o último injustiçado do mundo.
    2. Quando ele descobriu que sua mãe se casaria. Me deu a impressão de que ele estava mentindo, e outra, o fato da mãe dele se casar não quer dizer que ela não ame ele, mas o narrador tratou isso com um pouco de preconceito.
    3. Uma pessoa mais fantasiosa diria que seu conto foi uma sátira a sociedade moderna, e que no final você deixou a ideia de que a felicidade não existe no mundo real para alguns.
    4. A mãe dele era uma vadia, você poderia ter se aproveitado mais disso, isso tornaria o conto maior, mais aqui é o seu lar, sua casa.
    5. Marcos é fragilizado, humilhado, fraco e triste. Deveria ter se aproveitado mais disso, brincado mais com emoções.
    O que eu gostei foi das nuances do conto, como ele veio de um conto real a um conto surreal de forma tão bem orquestrada, sem tornar isso um choque. Neste conto cabiam diálogos interessantes que eu sei que você sabe fazer.
    Nota: 7

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