Capuz Vermelho #20: "Dia Prometido"


Nota do capítulo: Partes em itálico representam flashback

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CAPÍTULO 20: DIA PROMETIDO

Duas semanas depois

Os iniciais raios solares do alvorecer ainda emergiam lentamente por entre as nuvens no horizonte. O relógio de cuco na sala "secreta" de Charlie marcava 05:50. Novamente, o quinteto reunira-se, matando uma certa saudade de quando encontraram-se primeiramente na memorável noite em que o trio de aventureiros finalmente pôde saber da existência dos seres mais incríveis de todas as eras. Os magos do tempo definitivamente possuíam um valioso conhecimento, cuja vastidão os tornavam as mentes mais à frente de suas épocas.

Os dias passaram-se como um rápido voo de uma ave de rapina. A Legião tornava cada vez mais obstinada a ânsia por começar a tão aguardada missão para resgatar Rosie das garras de Abamanu e encontrar, contando com uma improvável sorte, um modo de impedir o retorno dele. Em pé, diante da comprida mesa de madeira, os quatro posicionavam-se determinados. Êmina, de braços cruzados, segurava apenas seu giz para desenhar símbolos alquímicos. Adam, por outro lado, carregava nas duas mãos dois rifles altamente carregados, bem como uma munição de reserva colocada em seu cinto, em seguida alisando sua cabeça relativamente calva. O caçador de braços fortes largara as armas na mesa para ajeitar o colete apertado. Lester, como previsto, era o mais empolgado, alongando seus braços e seu pescoço. Possuía facas e adagas no seu cinto de utilidades. Diferentemente dos bem treinados, Alexia era a que mais exibia apreensão sem se sentir culpada, olhando fixamente para Charlie com seu azulado olhar.

Charlie, procurando prolongar mais um pouco o silêncio do início da manhã, deixara sobre a mesa um papel de largura estreita e amarelado que possuía um símbolo reconhecível para magos do tempo. Suspirara um ar fino, embora não demonstrasse o mínimo de preocupação - ou, ao menos, tentava reprimi-la.

Em seguida, o rapaz colocara na mesa a autêntica Bíblia de Abamanu.

- Antes que possam ir, eu ainda preciso explicar algumas coisas relevantes. Até mais do que disse no dia que me conheceram. - disse ele, abrindo o grosso exemplar. - Bem, vamos ver... - folheava rapidamente.

"Charlie, mesmo não aprovando minha participação na missão, até agora não se manifestou. O que ele espera que aconteça?", pensou Alexia, intrigada com o modo que o jovem passara a lidar com o segredo de sua visão profética, a qual recusou-se a revelar. Desde aquela noite, os contatos orais e visuais entre Charlie e Alexia resumiam-se a cumprimentos. Qualquer conversa poderia, arriscadamente, desembocar no "assunto proibido". Charlie mostrou-se indiferente e, aparentemente, perdera o interesse em saber o que a amiga sonhara, talvez fosse por considerar razoável a alegação dela de que o motivo era sua preocupação referente ao sucesso da missão. Mesmo assim, a curiosidade crescente tirava-lhe o sono. Alexia contara sobre Robert Loub, o que passou ao lado dele e os feitos horrendos que testemunhou. Seria este o motivo? A ameaça à sua família ainda estava de pé mesmo com aquele homem cativo? Ignorara aquelas questões, passando a focar inteiramente no processo.

- Aqui está. - disse, apontando para um capítulo. - "As crianças do Cavaleiro da Noite Eterna".

- Crianças!? - indagara Lester, curioso. - Abamanu tinha filhos? - cofiou sua barba preta.

- Não exatamente. Mas sua pergunta levanta uma abordagem muito interessante, Lester. - dissera Charlie, olhando para ele. - Abamanu realmente tinha desejo de possuir uma família... Na realidade, foi uma filha, adotada. No entanto, as três páginas que falam sobre ela estão arrancadas. Até questionei isso com meu pai na época que ele adquiriu o livro, mas ele não soube dizer o porque disto.

- Ninguém do museu verificou com exatidão, ninguém sequer fez uma análise completa? - perguntou Adam, semi-cerrando os olhos.

- Supostamente estas três páginas foram arrancadas pelo próprio Abamanu. Mas isto é parte de outra história que contarei depois. - disse Charlie, novamente folheando as páginas. - "Crianças" no sentido de serem como filhos que ele sempre desejou ter, mas não são crianças de fato. Pode parecer até brincadeira... mas são bonecos. - disse ele, formando um discreto sorriso.

Charlie prosseguira, sem olhar para os atentos e ávidos olhares focados nele:

- São chamados de bonecos Repo. - revelou, lendo um trecho de um parágrafo. - Abamanu os criou com o único propósito de se divertir, pois sempre se sentia entediado com seu reinado beirando à decadência. Normalmente, eram compostos de pele humana e sempre tinham cicatrizes costuradas em seus corpos. Ainda não tão satisfeito, ele recorreu a uma poderosa magia que concedia vida a qualquer objeto inanimado. Daí em diante, os bonecos passaram-se a ser uma espécie de "segundo exército", mas isto só fez diminuir sua popularidade sendo até mesmo motivo de piada pelos outros deuses que mantinham acordos secretos com seu reino e apostavam o quanto fosse que eles desistiriam do contrato assim que o império caísse.

- Espera aí, Charlie - disse Êmina, chegando um pouco mais perto da mesa, o olhar concentrado. - Pele humana!? Abamanu sacrificava humanos?

- Sim. - confirmou em um meneio lento. - Vez ou outra, alguns de seus soldados tinham total permissão para adentrarem em qualquer mundo onde a raça humana povoasse e recolhia suas peles. Eles faziam isso depois de assumirem a forma de lobos selvagens.

Lester obrigou-se a comentar:

- Parece que achamos a mente mais sádica que existe. - disse, olhando tenso para um canto da mesa. - Um completo psicopata divino.

- Bem, preparem-se, agora vem a parte interessante. - disse Charlie, passando mais folhas.

A claridade estonteante da manhã alcançava as janelas retangulares da sala, o sol entrando sorrateiro atravessando o vidro.

- É bom que seja interessante mesmo - disse Êmina, olhando para os outros - com tanta espera, vai ser tarde demais pra ir ao banheiro.

- Ué, porque? - indagou Lester, sorrindo maliciosamente. - Não me diga que você está...

- Calado! - exclamou ela, erguendo o indicador. - Tem sorte de eu não ler mentes. - disse ela, sorrindo discretamente ao voltar-se para Charlie.

Um silêncio constrangedor caiu naquele aposento. Adam fervera de impaciência.

- Já acabaram? - perguntou ele, o robusto rosto enfezado. - Porque sinceramente isso está me fazendo perder cabelos.

- A sua calvície já prova isso. - disse Lester, olhando diretamente para a cabeça de Adam, com um sorriso infantil.

- O quê? - Adam colocou-se diante dele, franzindo o rosto. - Lester, será que dá pra você levar a sério esta missão pelo menos por um minuto?

- E será que dá para vocês ficarem quietos e não perderem tempo brigando como crianças? Rosie ainda está em perigo e devemos salva-la, portanto mantenham o foco! - vociferou Alexia, para o espanto dos outros quatro.

O trio da Legião passara vários segundos fitando-a estupefatos. Lester a olhava de modo estranho, como se não a reconhecesse após aquele manifesto.

- Ahn... o que foi isso? - perguntou Êmina, perdida. - É impressão minha ou a Alexia se irritou com a gente?

A vidente enrubescera instantaneamente, curvando os ombros, praticamente acanhando-se. Olhava para todos rapidamente, sem a menor ideia de como se desculpar.

- Err... eu... Me desculpem. - pôs uma mão sobre a testa. - É que eu não consigo parar de pensar na Rosie, no que ela pode estar passando. Me desculpem, por favor.

- Alexia. - chamou Charlie, o tom calmo. - Sei que quer mais do que tudo nesse momento salva-la. Mas eu preciso que, assim como eu, também mantenha a paciência. Quando harmonizados e sincronizados, foco e paciência tornam-se grandes armas fortalecedoras.

Alexia engolira em seco a declaração acalmante de Charlie, assentindo positivamente, ainda envergonhada pela conduta apresentada.

- Alexia. - dizia Adam. - Nós, assim como você, estamos terrivelmente preocupados com Rosie. Consegue imaginar o quão doloroso foi passar os dias, as noites, imaginando que ela pode não estar mais viva? Que toda a história da perda de memória seja mentira e que na verdade ele a matou? - perguntou, com enorme pesar no olhar tristonho.

A vidente ficara cabisbaixa após ouvir tais palavras. Menou a cabeça lentamente, sem pensar em nada a dizer.

Suspiros pesados foram dados naquele já bem clareado ambiente.

- Foi mal, Charlie. - desculpou-se Lester. - Essa minha empolgação as vezes me faz ficar mais insuportável do que o normal.

- Isso por que você ainda não viu ele bêbado. - redarguiu Êmina, reprimindo uma risada.

- Êmina, você também, por favor. - repreendeu Adam, o olhar austero.

- Ah sim, desculpa. - disse ela, a voz menos cômica. - Pode seguir, Charlie.

- Bem... - Charlie folheava uma última vez, por fim chegando ao capítulo que procurava. - Como eu havia dito anteriormente, Abamanu veio à terra pela primeira vez há mais de 500 mil anos. O local, como já sabemos, foram as Ruínas Cinzas, o antigo templo usado para veneração do deus Mitra, uma divindade solar. Este é o capítulo que eu leria se não tivesse desmaiado naquela hora. Bem... a vinda de Abamanu à este mundo se deu por conta de uma guerra... - fitou os rostos dos quatro. - Uma guerra ocasionada pelo próprio Abamanu por sua falta de comprometimento, bem como sua arrogância sem limites.

O mago do tempo deu continuidade, explicando tudo o que ocorrera no fatídico dia que marcou o destino de dois impérios implacáveis.

- Abamanu foi a primeira quimera divina a assumir um torno e constituir um vasto império. Seus soldados eram recompensados com riquezas quanto mais trabalhavam para construir o palácio. Exploravam, roubavam, caçavam e matavam em todo e qualquer mundo. Alguns, claro, ficavam de fora... como este, por exemplo. Mas Abamanu passou a lembrar do nosso mundo assim que um infortúnio inesperado ocorreu. Suas riquezas, bens valiosos estavam entrando em escassez. Não havia mais condições de recompensar decentemente os soldados. Daí em diante, a impopularidade de Abamanu foi crescendo a nível avassalador... e sua fama tornou-se a pior já conhecida. Seu império tornava-se falho. Em determinada época, sentiu-se obrigado a fazer acordos com outros deuses apenas visando seu próprio lucro. Apenas um se ofereceu a ajuda-lo: Yuga, o deus solar dos ciclos.

Uma atmosfera de mistério absoluto tomara conta do recinto, deixando todos transparecerem suas avidezes para saberem tudo acerca desta história. Êmina mordera os carnudos lábios em ansiedade, ainda segurando o giz em sua mão já suada, e com a outra segurava, por alguns instantes, a barra de seu sobretudo preto desabotoado. Lester alisava seu curto cabelo preto, igualmente apreensivo. Adam estava paralisado, a face robusta séria de sempre, olhando fixamente para Charlie, mais precisamente seus lábios, na intenção de ouvir e fixar com precisão cada palavra dita pelo rapaz.

Charlie novamente prosseguira:

- O acordo, a princípio, tinha como principal condição a divisão de lucros entre ambas as partes a cada tomada de povo, reino, aldeia ou qualquer civilização de qualquer mundo que as tropas dos dois impérios poderiam adentrar. Ouro, prata, pedras preciosas e muitas outras relíquias eram distribuídas, tanto entre eles quanto para os soldados de ambos. Yuga possuía uma visão rigorosa do acordo. Era conhecidamente o deus mais fervoroso e instável dentre os demais. Poderia ultrapassar seus limites se caso sua paciência se esgotasse. E Abamanu fez questão de testar estes limites... cometendo o pior golpe já visto na morada dos deuses. Um plano de infiltração foi descoberto por Yuga pouco tempo depois de Abamanu se mostrar insatisfeito com os rumos do acordo, alegando que seu sócio beneficiava-se desequilibradamente, sendo assim uma injustiça. Os soldados de Abamanu disfarçavam-se de seguidores pobres de Yuga pedindo alimento e exigindo hospitalidade. Aproveitando-se disso, eles furtivamente roubavam os objetos valiosos do deus solar já que tinham a chave de acesso ao cofre, ela foi dada pelo próprio Yuga para Abamanu como prova de sua confiança, para no caso de uma eventual troca de favores e uma divisão de relíquias, basicamente quando dois garotos trocam figurinhas de um álbum, fazendo uma analogia simples. Após Yuga descobrir o plano perpetrado pelo seu sócio, foi junto de suas tropas até o palácio de Abamanu tirar satisfações. Abamanu, defendendo seu ponto de vista, expressou seu descontentamento em relação ao acordo e, quando a discussão chegou ao ápice, exigiu a devolução dos bens valiosos que deu à Yuga, pois seu império era mais digno e a maior parte das conquistas para ele favoreceria as chances de afastar qualquer indício de declínio. Portanto, Abamanu deu seu ultimato pedindo o rompimento do acordo. Yuga, por outro lado, interpretou aquele argumento como uma declaração de guerra.

Os olhares ficavam cada vez mais interessados. Charlie exibia uma calma e paciência assustadora, os raios do sol já penetrando no chão de sua sala e a luz serena às suas costas dando-lhe uma aura sábia.

- O que se seguiu foram confrontos diretos entre os dois impérios. Até que uma das partes não resolvesse tentar entrar em um consenso, aquela guerra não teria fim. O verdadeiro apogeu da guerra foi quando Yuga, em mais um acesso de fúria, pegou Abamanu pelo pescoço e o esmurrando até os confins da morada dos deuses. Ambos mostraram suas armas. Abamanu e sua espada e escudo, ambos dourados. Yuga e sua argola luminosa, ou também chamado de disco solar. A luta se desdobrou... até desembocar na Terra.

- E o que houve depois? - perguntou Êmina, presa pela história.

- Yuga passou a repreender ainda mais Abamanu pelo fato de trazer o combate a um mundo tão frágil e de habitantes tão pequenos. Mesmo assim, a luta continuou ficando ainda mais intensa, um duelo nos céus entre dois deuses. - fizera uma pausa - O poder do disco solar de Yuga era tão grande que os que tiveram a oportunidade de ver a luta pensaram se tratar de um segundo sol, que se movia rapidamente, indo e voltando. Entretanto, a luta não trouxe grandes danos físicos. No fim, Abamanu trouxe seu tesouro, boa parte dele sendo as riquezas dadas por Yuga nas trocas, e fixou aqui neste mundo, nos subsolo das Ruínas Cinzas. Era um lugar onde nem mesmo Yuga poderia ter acesso, pois estava protegido por uma poderosa magia. A única coisa que realmente pertencia à Abamanu era seu talismã, que também deixou na Terra. E então, Yuga disse: "Se com esta conduta insolente queres ofender a honra de meu reino, então, eu mesmo, em dia vindouro, trarei a tu e a teu reino o mesmo que trouxestes ao meu. Das cinzas o teu império reduzirá. Das cinzas o meu renascerá".

- Ui... que ameaçador. - brincou Lester, mas mantendo uma expressão séria.

- Abamanu - prosseguiu Charlie - havia dado uma resposta: "Aguardarei por este dia, com exímia paciência. Uma trégua enquanto idealizo a salvação de meu reino. Este mundo irá se curvar diante de mim, e não serás tua fúria incontrolável que destronará meus planos!". E assim, ambos tomaram as rédeas de seus problemas interrompendo a guerra por tempo indeterminado. No mesmo subsolo onde estava o tesouro, havia a cripta de Abamanu, na qual guardava-se o seu maior segredo. Nenhuma página deste livro fala sobre isso. - olhou para o quarteto à sua frente.

- E como esse Yuga é, afinal? - perguntara Adam, curioso. - Há alguma descrição dele?

- Bem... - Charlie se via novamente folheando mais páginas. - Dizia-se que ele possuía cabeça e asas de falcão, mas um corpo que lembrava o deu um ser humano. Vestia uma armadura de ouro, que brilhava tão forte quanto as penas de suas asas.

Alexia sentiu-se na obrigação de manifestar-se.

- Hum, isto me lembra algo parecido com os mitos do antigo Egito. - pôs uma mão no queixo, pensativa. - Será que há uma relação? Yuga tem algo a ver com os povos egípcios?

- Refere-se aos deuses antropomórficos. - confirmou Charlie, olhando para ela. - Provavelmente haja uma relação sim, visto que Yuga costumava aparecer para os humanos com a intenção de angariar seguidores, como se estivesse claramente competindo com Abamanu, já que ele havia escolhido este mundo para usar como ponto de partida.

Adam semi-cerrou os olhos em um semblante intrigado.

- Ponto de partida para quê?

- Para dar início a um novo império, atravessando diversos mundos e universos. Como ele pretende fazer isso? Tenho minhas suspeitas. Mas isso não vem ao caso no momento, eu devo prepara-los logo. - disse, adquirindo uma estranha pressa.

- Talvez salvando Rosie - argumentou Êmina - conseguamos dar um rumo diferente à esta história, dando a ela um novo final.

- É, mas sabe lá se esse tal de Yuga possa estar tramando algo contra nós. - disse Lester. - Tentar intervir, quem sabe?

- É possível. - concordou Charlie. - Independente do quão difícil a situação se tornar daqui em diante, não deixem de lutar. Minha teoria é de que Rosie esteja em um universo cujo acesso é praticamente invisível, pelo menos à esta altura. Além disso, preciso saber de algo a respeito do receptáculo de Abamanu. Alguma notícia de Hector, o amigo de vocês? - o jovem mostrara uma fala rápida aliada a uma expressão preocupada.

Adam suspirou pesarosamente.

- Infelizmente, não. Já faz mais de duas semanas que estamos aqui e ele sequer ligou de novo.

- Morto com certeza ele não pode estar. - disse Lester. - Mas vai saber, né? Nós o conhecemos melhor do que ele mesmo, ele sempre foi muito habilidoso... considerando que ele está na "caverna do dragão", eu já não tenho tanta certeza. - apresentou um cenho franzido de tanta preocupação.

Inesperadamente, fazendo todos sobressaltarem, o som do telefone na sala reverberou por toda a casa.

Adam, sem pestanejar, saíra correndo a passos largos. "Será ele?", pensou. Fechara a porta com força e fez com que o som de seus passos ecoasse enquanto descia as escadas. Os outros entreolharam-se em um misto de esperança e ansiedade.

                                                                              ***

A vários quilômetros dali, em Londres, Hector postava-se próximo à um telefone colocado em uma mesa de madeira vermelha bem polida. O jovem caçador limpou o suor da testa passando a mão pelos espessos cabelos pretos. Não tardou para que, finalmente, a pessoa que ele aguardava o atendesse.

- Alô?

- Ahn... Adam? É você? - indagou o caçador, para ter certeza.

- Hector! - disse Adam, o tom de voz animando-se. - Achei que nunca mais ligaria. Onde você está?

- Se eu não encontrasse o lugar em que estou agora, não teria nenhuma chance de ligar para você novamente. Mas, sendo direto, estou no Museu de História de Londres, mais precisamente em uma sala secreta... cujo proprietário é o próprio curador do Museu. - revelou, quase aos sussurros. - Alguma novidade?

- Várias. - disse ele, secamente. - Não vai acreditar, mas... nós faremos uma viagem bem louca. - contou, dando um sorriso quase esboçando um riso.

- Presumo que seja para salvar Rosie, certo? Bem, quando eu havia ligado para Rufus ele não sabia dizer com quem vocês estavam contando para salva-la.

- Ele se chama Charlie. É um Mago do Tempo. Olha, é uma história bem longa, já não temos muito tempo... - disse Adam, olhando para o relógio de pulso. - Mas falando em Rufus... Ele tem ligado bastante nos últimos dias, pedindo novidades.

- Com certeza é para matar as saudades de Alexia. - disse Hector, em tom bem-humorado.

- Sim. - Adam sorrira. - Afinal, ela é quem tem atendido na maioria das vezes, já sabendo que era ele. Mas voltando ao assunto... - fez uma pausa, suspirando pesadamente. - Eu preciso saber se descobriu algo. Loub está mesmo aí?

- Ainda estamos tentando achar o cativeiro dele, mas eu tenho um plano perfeito: Irei chantagear Mollock. - disse Hector, firmemente.

- O quê? Me explica melhor isso. - pediu Adam, ficando mais atento.

- Escute: Há pouco tempo, há duas semanas eu acho, nós descobrimos que Mollock está sacrificando alguns de seus soldados que, como você deve saber, são quimeras de nível 3. E como o sangue delas lhe deu capacidade de pensar racionalmente antes que a fusão ocorresse, agora ele está se aproveitando disso para ficar ainda mais inteligente. Vou tentar usar isso a meu favor e ameaçar mostrar essa verdade aos seus soldados se caso ele se recusar a me dizer onde Loub está preso. - disse ele, relanceando as duas figuras que observavam-o.

- Hector, por favor, seja cauteloso. - aconselhou Adam, preocupando-se. - Tudo bem, eu sei que isso parece ser seu sobrenome, mas não me entra na cabeça você peitar um monstro que você mal conhece. Nós enfrentamos vampiros, lobisomens, wendigos e muitas outras criaturas que nós conhecíamos da primeira unha do pé até o último fio de pelo. Eu tenho consciência de que nosso inimigo é algo totalmente diferente do que estamos acostumados a lidar... - fez uma pausa, engolindo subitamente a saliva. - Eu não sei, só mantenha cautela, por via das dúvidas. Se Mollock for tão esperto quanto parece, com certeza vai pensar que você está blefando.

- Não sou como Loub. - disse Hector, logo, inevitavelmente, recordando-se da triste memória que ia desde a morte de seu pai até a fatídica noite no templo dos Red Wolfs.

- Loub não blefou quando mandou um exército de quimeras nível 2 atacar Raizenbool. - retrucou Adam, lembrando-o do ocorrido.

- Adam, eu vou acha-lo, cedo ou tarde iremos nos encontrar... e terei minha vingança. - disse, com uma poderosa convicção. - Mollock, neste exato momento, continua mobilizando seus soldados para tentar nos achar...

- Espera. - interrompeu Adam abruptamente. - Como Mollock soube que você entrou no Museu? Hector, você está sozinho ou não?

- Assim como você, também não estou afim de contar longas histórias. - afirmou, apressado. - Mas digo que não estou sozinho. Enfim, quando nos encontrarmos de novo você vai saber quem é. Mais alguma coisa de que preciso saber?

- Abamanu possui uma cripta localizada nas Ruínas Cinzas. Lá também se encontra um tesouro. - revelou Adam, com máxima concisão.

- Ruínas Cinzas... - Hector parecera recordar-se do lugar vagamente. - Acho que já ouvi esse nome alguma vez. Se eu estiver certo, Mollock provavelmente se sentirá atraído por lá, se caso ele iniciar a expansão do seu reinado antes que Abamanu possa usa-lo.

- Nem me fale nisso, Hector. - disse Adam, sacudindo a cabeça em negação. - Enquanto nós tentamos salvar Rosie, você deve impedir que Mollock saiba a localização do tesouro. Charlie possui o exemplar original da Bíblia de Abamanu e suspeita que haja uma cópia neste museu.

Hector sentiu seu sangue gelar ao ouvir as palavras "Bíblia", "Abamanu", "original" e "cópia" em uma mesma frase. Fora acometido por uma adrenalina incontrolável.

- O quê!? Vocês viram o livro original!? - disse, em voz alta. - Mas pode deixar, percebo que está tão apressado quanto eu. Deixemos os detalhes para quando nos reencontrarmos, eu espero...

- Nós vamos nos reencontrar, Hector. E vamos lutar nesta guerra juntos e vamos vencer. - disse Adam, esbanjando uma perseverança intensa e naturalmente contagiante. - Você... é meu melhor amigo. Por isso eu peço novamente: Não morra.

- Idem. - respondeu Hector, mergulhando seus sentimentos em uma profunda saudade. - Preciso ir. Tenho que agir com meu plano, não resta muito tempo.

- Sim, vá. - Adam deixara uma lágrima cair, mas logo reavendo o semblante determinado. - Faça o que pedi. Impeça Mollock.

- Sim. Boa sorte, Adam, para todos vocês. Tragam Rosie viva. - disse Hector, um tanto cabisbaixo ao rapidamente lembrar da parceira.

- Isto é uma promessa, saiba disso. - salientou o corpulento caçador. - Ahn... acho que devo desligar, já estão me chamando. - disse ele, após ouvir a voz de Alexia vinda da escada chamando pelo seu nome. - Até mais. Nos vemos em breve.

- Até. - disse Hector, timidamente. E desligara.

                                                                                ***

Em seu trono de mármore, Mollock ostentava, em uma estranha expressão entediada, um cálice dourado no qual continha uma certa dose do que parecia ser sangue... um sangue cuja consistência jamais vira antes, distinta de qualquer ser que já atacara - se é que fazia questão de sujar suas mãos em um ataque premeditado.

Na outra mão segurava um livro grosso, com uma capa de couro beje com um símbolo irreconhecível no centro. As páginas estavam nitidamente amareladas, denunciando a antiguidade do objeto. O rei balançava levemente o cálice com a bebida fresca dentro, entediando-se a cada segundo. Há pouco tempo atrás, ordenara, novamente, uma busca desenfreada à procura dos supostos intrusos. Há dias reprimia seu aborrecimento a cada vez que a falta de notícias evidenciava-se. Contudo, como dispunha de um vasto acervo de livros, seu entretenimento barrava qualquer indício de um acesso de fúria.

Aguentou por mais cinco minutos. Após o período, se exasperou em um desconforto.

- Ah! - urrou, jogando o livro no chão. - O que eu devo fazer para tornar guardas tão fiéis em servos com mais bom gosto na hora de escolherem a diversão de seu rei?!

Os soldados que estavam presentes no salão permaneceram em silêncio, segurando lanças de prata - outrora roubadas das armaduras dos cavaleiros medievais. Mollock esperava um mínimo pedido de desculpas por parte deles.

- Muito bem, então é assim. - confortou-se no trono novamente, dando um gole na bebida. - O silêncio é sempre a melhor resposta, não é mesmo?

Um deles, que postava-se próximo à seu trono, sentiu-se no direito de falar.

- Mas, senhor, havia nos pedido para trazer um livro de cada vez. Além disso, livros maiores foi exatamente a preferência que o senhor tivera nos últimos dias.

- Tamanho não significa nada, seu palerma! - redarguiu Mollock, ríspido. - Queria um livro com o qual eu pudesse me divertir aprendendo mais e mais, mas o que me trazem é um monte de páginas reunidas com letras que formam palavras que não sei ler!

- Nós não sabíamos por...

- Claro que não sabiam! - respondera grosseiramente, logo tomando mais um gole do sangue. - A única coisa que pareciam pensar era em agradar este promissor rei com qualquer lixo que encontrassem neste lugar. Francamente, estão me decepcionando.

O guarda dera um suspiro leve, seu focinho contraindo-se. O olhar da quimera estava tristonho e exausto... parecia estar entorpecido de fome.

A porta do salão finalmente se abrira com um soldado entrando com postura devidamente erguida, portando sua lança. A quimera dirigia-se à Mollock segurando, numa outra mão, um livro... que logo pôde ser reconhecido pelo rei.

- Perdoe-me senhor pela excruciante demora. - dissera o guarda, mantendo o ar soberbo. - Vim lhe trazer uma outra versão deste livro... que presumi que o senhor certamente não iria aprovar.

Mollock deixou se formar um sorriso em seu robusto rosto canino. Olhou diretamente para o exemplar na mão do guarda, reavivando as esperanças.

- Finalmente alguém competente. - disse ele, mexendo calmamente o cálice. - Esta versão está na língua padrão?

- Sim, senhor. - confirmou o soldado, deixando a lança no chão e ajoelhando-se em seguida. - Algum humano muito habilidoso tratou de traduzir o que o senhor estava lendo. Faça bom proveito. - estendeu os braços, entregando o livro.

Mollock inclinou-se para pegar o exemplar, uma segunda cópia traduzida. Havia uma réplica exata dela, naquele instante ainda em posse da Legião estando guardada na cabana em Kéup. Como poderia haver duas cópias traduzidas e adaptadas do original? Mistério que certamente faria o pulso de Hector tremer nas bases. O jovem caçador não estava tão distante de alcançar as verdades escondidas.

Colocara o livro sobre o braço direito do trono. Assentindo positivamente, Mollock ordenara para que o guarda se retirasse. Bebera mais alguns goles do sangue viscoso em seu cálice. O gosto amargo impregnava-se em todas as camadas de sua língua. Por um momento, examinou mentalmente o sabor da bebida, avaliando se poderia ou não terminar de toma-la bem como tirar uma conclusão acerca da decisão. Olhou para o pouco que ainda restava no fundo do cálice. O sangue era de um vermelho escuro, praticamente beirando ao púrpuro, mas parecia negro se fosse visto em um ambiente com menor luminosidade. Sentiu-se hipnotizado enquanto estava no limiar de uma divagação ao olhar para o líquido.

Pegou-se lembrando do demônio que matara impiedosamente... afinal o sangue que estava bebendo pertencia à ele.

                                                                            ***

- Mestre! - exclamou um soldado, entrando invasivamente na ala das armas e indo na direção de Mollock. - Ouvimos sons bastante altos de onde estávamos. O senhor está bem? O que houve aqui? - perguntou, logo parando. 

Mollock estava agachado diante do corpo desfalecido e estraçalhado da criatura bestial que o afrontara... Se via embebendo-se do sangue do demônio, como se estivesse em frente à uma rica fonte inesgotável que saciasse qualquer sede irreprimível. O corpo da besta estava completamente rasgado do tórax ao abdômen. Mollock espremia o coração do monstro, fazendo algumas artérias espirrarem grande quantidade de sangue fresco direto para sua boca. 

O guarda aproximou-se mais alguns metros para chamar sua atenção. 

- Mestre... não está me ouvindo? - inclinou a cabeça para um lado a fim de ver o que o rei estava fazendo. 

"É como se uma parte de mim estivesse clamando por energia.", pensou, enquanto fazia o órgão bombear mais sangue à sua boca. "Sinto como se bebesse do meu próprio sangue.". 

O soldado, novamente, insistira. 

- Mestre, algum problema? Quem é este monstro caí... 

- Vá embora. - disse Mollock, friamente. - Não há nada aqui de que precise saber. Apenas alerte os outros pelotões para iniciarem uma busca por todo o palácio. Supostamente, há intrusos aqui. 

- Mas, senhor, se ao menos pudesse me explicar... 

- Questionar não é seu trabalho, soldado! - vociferou ele, olhando para a quimera por cima do ombro, o olhar fulminante de raiva. - Agora saia daqui e faça o que ordenei! - dava para ver suas presas sujas de sangue. 

Sem reclamar, o guarda saíra imediatamente do recinto exatamente por onde entrou. O bater forte das portas duplas ao fecharem-se trouxe de volta o silêncio. 

"Eu não entendo!", pensara, largando o coração, já um tanto seco. Ainda de quatro, pôs as mãos no chão, mais precisamente mergulhando-as na enorme poça de sangue que se formou. "Quem realmente sou eu? Estas questões de existência e seu sentido... Jamais pensei que fosse assim. Quanto mais respostas encontro mais perguntas se formam. Mas não me sinto caído, não me sinto abatido. Então, porque estou com uma mente tão carregada e tão inquieta? Por que!?", disse em pensamentos, arranhando lentamente o chão e manchando suas garras com o líquido grosso e vermelho. 

"Preciso desse sangue.". Ergueu o olhar penetrante para o corpo de demônio. "Sinto-me estranhamente revigorado, como se algo estivesse me possuindo pouco à pouco.". 

Passos longínquos foram ouvidos aproximando-se da ala. Voltando-se para a porta e levantando-se, Mollock cresceu as expectativas, esperando que seus soldados providenciassem recipientes para armazenar o líquido, bem como saber se livrar do cadáver da criatura infernal. 

                                                                         ***

- Mestre? Mestre! - chamara um soldado, tentando acorda-lo de seu "sonho".

- Ah, o quê? - voltou-se para ele lentamente, pondo o cálice no braço direito do trono. - O que quer?

- Não... não é nada, o senhor estava pensativo. Eu vim trazer notícias. - disse o guarda, a postura resistente como uma rocha.

Mollock se acomodara no trono ao ouvir a última frase, denotando uma certa animação.

- Relate-me o que lhe repassaram. - exigiu.

- De acordo com as suspeitas de alguns, é provável que os intrusos estejam confinados nas salas secretas. Ainda não conseguimos ter acesso a quase nenhuma delas, pois algumas precisam ser abertas com senhas... como se fossem cofres gigantes. - contou o soldado.

Mollock fizera uma cara de enjoo ao aparentemente se decepcionar. Pegara o livro à sua esquerda, abriu-o e começou a lê-lo, ignorando completamente a presença do soldado à sua frente. Deu um suspiro rápido, as narinas de focinho ficando mais evidentes.

- Ahn... senhor... - dizia a quimera, um tanto constrangida, fitando seu mestre. - Não vai comentar a respeito?

Mollock erguera os olhos amarelos, encarando o guarda com um infame desdém. Voltou-se novamente à leitura, sem se preocupar com a sensação que havia causado em seu subordinado. Os outros soldados lançavam risadas baixas de satisfação ao vê-lo naquela situação, a qual seria digna de escárnio eterno por parte de todos os pelotões. Algo que certamente nenhum súdito pensaria/gostaria de sofrer quando esperava querer agradar seu rei.

Mollock retornou seus olhos às páginas do livro, escondendo um discreto sorriso de satisfação ao dar-se conta do conteúdo. Para se livrar da irritante e obstinada presença do soldado, teve de dar uma ordem rápida e direta.

- Está bem. Continuem a busca e tentem decifrar as senhas das salas. Quero as cabeças destes invasores postas na minha frente em pouco tempo. - mandou, percorrendo seus olhos para cada parágrafo contido no livro.

Uma pequena ponta de um papel podia ser vista entre a última página e a contracapa. Não tardou para que Mollock pudesse percebe-la, a tempo de não se prender totalmente à leitura e se desconectar da realidade. Franzira o cenho, em curiosidade. Puxou de leve a ponta. Revelou-se um pequeno bilhete dobrado.

Pondo o livro em seu colo, mantendo-o aberto, Mollock focara suas atenções unicamente no bilhete de papel branco. Desdobrou-o e leu a mensagem escrita. O texto exibia uma lista com cinco nomes.

"Contribuíram para a escrita deste conteúdo: Ethan Nevill, Bernard Von Trask, Ronnie Moore, John Crannon, Robert Loub (membros da nobre fraternidade Red Wolfs)"

O último nome fez o coração de Mollock quase ser vomitado de tanta emoção.

Sorrira, mostrando suas brancas e pontiagudas presas.

- Não posso acreditar. Papai.

                                                                              ***

Hector, Eleonor e Josh paralisaram, atentos, ao sobressaltarem-se com as repentinas e fortes batidas na porta da sala onde estavam. A sala particular do curador do Museu, criada exclusivamente à ele quando o mesmo se encontrava em uma lástima situação financeira, que se resumia em dívidas homéricas as quais seu gordo salário não era capaz de quitar. Um espaço semi-circular com tapeçarias orientais, sofás caros e paredes folheadas com um papel cinza com listras brancas horizontais, enfeitadas com os temidos e famigerados - pelo menos entre os adoradores de lendas de terror - quadros de Bragolin, onde exibiam-se figuras de crianças chorando. Vasos médios de alabastro postos próximos das pequenas mesas eram encantáveis quando iluminados pela fraca luz fluorescente. O chão era de uma cerâmica quadriculada com qualidade quase equivalente as das alas do museu. No dado momento, havia apenas uma luz acesa: a do pequeno quarto.

As batidas fortaleciam-se a cada segundo, fazendo a porta redonda e metálica tremer. Pareciam querer arrombar utilizando algum objeto igualmente metálico até que a porta finalmente ficasse "amassada", adquirindo certa fragilidade. Os três entreolharam-se temerosos, suas respirações baixas.

- Eu não contava com essa. - comentou Josh, já empunhando seu rifle na direção da porta. - Ao seu sinal, capitão.

- Mantenhamos a calma. - aconselhou Hector, parado e desarmado. - Era exatamente isso que eu esperava que fizessem.

- O quê? - indagou Josh, fazendo uma careta confusa. - Está delirando de fome? O estoque já zerou faz tempo.

Hector sentiu vontade de rir, tanto da afirmação de Josh quanto da oportunidade valiosa que o esperava. Eleonor, por outro lado, mantinha-se focada e nervosa ao som do rádio, ouvindo as últimas notícias. Atividade que Hector recomendou que ela exercesse durante o tempo que passariam na sala.

- Não pode ser. - disse, estando agachada perto do aparelho. - Mas que merda! - praguejou em voz alta.

- O que foi? - perguntou Hector, virando-se rapidamente à ela.

- O exército planeja uma ofensiva contra Mollock para as oito e meia desta noite. - disse ela, levantando-se. - Se esse tal general Holt e seu esquadrão invadirem o museu no meio do nosso plano, tudo vai por água por abaixo.

- Mas por que logo hoje!? - reclamou Josh. - Justo hoje que vamos ferrar com esse monstrengo, esses caras criam coragem para virem hoje!? Isso é mais do que uma merda!

- Não percamos a calma, muito menos o foco. - disse Hector, erguendo levemente o indicador. - Até porque temos tempo de sobra, ainda está de manhã e...

- Hector, eu admiro o seu otimismo, sinceramente. - disse Eleonor, franca. - Mas assim que chegarmos longe demais, é melhor que baixemos as expectativas, porque desistir com certeza vai se tornar uma opção.

- Com "longe demais" refere-se à encontrarmos Loub e o usarmos como bala de canhão para derrubarmos Mollock!? Então, nesse caso, eu pretendo ir o mais longe que puder, não importando se iremos tropeçar e cair várias vezes, por que é isso que vai acontecer, tenho ciência disso. - disse o caçador, o tom firme e determinado. - Cada um de nós terá seu tempo para agir conforme for necessário. Já conversamos sobre isso: Sem medo de assumir riscos.

- Não falo do risco de nossas vidas, mas sim deste plano. - disse Eleonor, aproximando-se dele, o tom elevando-se. - Está ouvindo? Já nos acharam! Cedo ou tarde vão arranjar um jeito de abrir essa porta e sabe lá quantos deles estão aí do outro lado. Eles: numericamente superiores. Nós: Vergonhosamente despreparados.

- Despreparados!? Possuo um arsenal de reserva. Além disso, você tem se mostrado tão apta quanto nós. Por que não pode, ao menos, reconhecer a própria importância? - questionou Hector, inflando o peito, já à beira de um crise de estresse.

- Ah, claro, minha importância é: Ser o último recurso quando as coisas vão mal e ser vista como uma arma porque meus feitiços são como balas! - vociferou ela, fulminando Hector com seus verdes olhos. - É assim que você quer que eu me veja!? Você quer impor sua visão sobre a minha. Simples assim. - disse ela, cruzando os braços.

O verde feroz dos olhos de Eleonor eram vistos por Hector como os poderosos e azuis de Rosie. A expressão do caçador mudara drasticamente de firmeza para desespero quando ele, de repente, passara a ver uma espécie de miragem: A aparência de uma mulher madura como Eleonor dando lugar a figura rebelde e inflexível de Rosie. Era como se as duas maiores mulheres de sua vida alternassem na visão. Um profundo déja vú acometeu Hector no dado instante, recordando-se das duas discussões que tivera com Rosie.

- Está pensando somente na sua vingança, Hector. - ressaltou Eleonor, menando a cabeça negativamente. - Quer se redimir usando de um egoísmo que parece não ser seu. Não... você permitiu que ele cegasse você.

Hector, já no limite da paciência, cerrara os punhos intensamente.

- Está arruinando toda a cumplicidade que cultivamos até agora... - o caçador já estava suando em demasia. - Eu pretendo matar Loub com minhas próprias mãos sim! Mas neste momento, Eleonor, estou pensando em um milhão de coisas! Rosie, a Legião, todos os meus amigos, eu não quero que essa guerra tire eles de mim!

- Cadê o seu instinto de detetive? - perguntou ela, elevando mais ainda o tom. - Considerava todas as possibilidades, agora parece ter medo de que nada siga como você imagina.

- Acho que a palavra medo não se encaixa neste contexto. Não comigo aqui. - disse Hector, fechando a cara.

- E quem está sentindo medo aqui, afinal? Eu e o Josh? E só você exala coragem e bravura?

Josh percorria seus olhos nervosos alternando entre os dois parceiros divergentes e as batidas ainda mais violentas na porta. Queria encerrar aquela discussão de uma vez por todas, mas as palavras pareceram ficar travadas na garganta.

- Eu farei o que achar certo, só basta confiarem em mim! - disse Hector, cansando-se.

- Confiamos em você, mas não no seu egoísmo. - retorquiu Eleonor.

- Já disse que não estou unicamente focando em mim! - esbravejou ele.

- Mas é o que está parecendo, afinal de contas apostou tudo nessa missão apenas para se redimir de uma traição forçada! - rebateu Eleonor, aproximando ainda mais seu rosto ao de Hector.

- Deveria parar de apontar meus defeitos e saber entender minhas motiva...

- Já chega vocês dois! Parem agora!! - exclamou Josh com a expressão enfurecida, em altíssimo e bom som, interrompendo de vez a acalorada discussão. - Será que dá pra vocês prestarem atenção aqui!? Estão quase arrombando a porta! E nem precisaram de senha pra isso!

Os dois o olharam espantados por alguns segundos, logo passando a compreender seu crescente desespero. Voltaram-se à porta. Já estava retorcida o suficiente para ser arrombada. Ao que parecia, o metal era de qualidade duvidosa e ínfima durabilidade. Talvez por esta razão o curador exigiu uma senha ainda mais árdua.

Com um forte e intenso arrombo, a porta abriu-se tremendo, fazendo vibrar parte do chão. Armados com lanças prateadas, os soldados de Mollock entraram invasivos, como se quisessem terminar o serviço ali mesmo, sem demora. Na tentativa de impedir que atacassem, Hector teve de reunir toda a coragem propiciada pela discussão que tivera com Eleonor para proferir uma ordem.

- Parem! - exclamara, mostrando a palma da mão direita a fim de barra-los. - Vocês finalmente nos encontraram, mas precisam ouvir algo importante!

As quimeras suspenderam a iniciativa abruptamente, rosnando ferozmente, parando há poucos metros dos três aventureiros.

- Mestre Mollock quer vê-los mortos e assim devora-los! - disse uma delas.

- Mollock terá a nós, fiquem tranquilos. - disse Hector, logo em seguida virando o rosto para Josh e Eleonor e dando uma piscadela discreta.

"O quê? No que ele está pensando? Que tipo de plano é esse? E esses monstros falam!?", pensou Josh, confuso.

"Hector, é bom que saiba o que está fazendo. Qualquer engano ou deslize pode ser fatal.", pensou Eleonor, relutante.

Hector dera um sorriso disfarçado.

- Vamos nos entregar... apenas com uma condição: Mollock deve nos dizer onde está Robert Loub. Queremos-o vivo, sem um único arranhão.

Os rosnados haviam cessado, dando lugar a um silêncio quase predominante. As quimeras aparentemente estavam avaliando a condição dada por Hector, dando a entender, por suas lanças não demonstrando mais ameaça, que a compostura do caçador funcionara para amansa-las.

- E se caso ele se recusar a faze-lo? - disse a da frente, a que provavelmente ficara incumbida de liderar a operação.

O disfarce do sorriso de Hector logo o tornara evidente demais após uma pergunta tão previsível como aquela. "Bingo! Exatamente como previ.", pensou ele.

- Bem, então não teremos outra escolha senão revelarmos um segredo sombrio dele para todos vocês.

- Que tipo de segredo? - indagou uma quimera, rispidamente, na fileira da frente.

- Algo que traria consequências irreversíveis para o reinado dele. - disse Hector, propositalmente sem nenhuma clareza.

Mais um instante silencioso. Algumas das quimeras, reflexivas quanto ao argumento, entreolhavam-se intrigadas sobre o tal mistério acerca de seu amado rei, mas por dentro a maioria ansiando para sanar as dúvidas que nasciam. Em outras palavras, uma boa parcela estava extremamente curiosa para saber do que se tratava. Hector, decerto, as colocara em um beco sem saída. Por outro lado, um certo grupo achara estranha a exigência de Loub vivo, sendo que, até onde elas sabiam, o único alvo era Mollock.

- O que pretendem fazer com Robert Loub? - perguntou a quimera líder.

- Temos nossas razões. - afirmou Hector, evasivo. - As quais não temos obrigação nenhuma de revelar. Agora nos levem até Mollock para que eu exija a soltura de Loub assim como a localização de seu cativeiro.

De súbito, o soldado responsável por liderar o pelotão teve de ceder ao pedido, mesmo praguejando internamente a respeito da "exigência", algo interpretado ligeiramente como uma imperdoável falta de respeito para com a soberania do rei.

- Está bem! Levem-os...

- Espere! - interrompeu Hector, após um lampejo. - Permita-me uma breve reunião com meus companheiros, por favor. - pediu ele, erguendo a palma da mão indicando pacificidade.

O caçador carregara Josh e Eleonor tocando seus ombros, levando-os para um lado da sala. Ficara entre eles, ávido para discutir as partes que cada um faria dentro do plano.

- Irão conspirar! - berrou uma quimera, apontando a lança ameaçadoramente para o trio.

A líder, com um gesto de mão, pedira que não intervissem.

Hector olhou de modo discreto por cima do ombro para se certificar de que não iriam tentar um ataque-surpresa pelas costas. Para sua felicidade, pareciam estar dóceis.

- Muito bem, ouçam-me com atenção. - fizera uma pausa, suspirando antes de começar. - Enquanto estivermos sendo levados, Eleonor prepara um feitiço para neutraliza-los. No entanto, antes que ela possa atacar, você, Josh, irá persistir e irritar as quimeras perguntando onde Loub está confinado. Uma hora ou outra, antes que possamos chegar à Mollock, uma delas poderá revelar sem pensar. A irritação que elas sofrem pode faze-las perder a noção de contexto e acabar dizendo algo que não deviam. Depois, você, Eleonor, usa o feitiço que desejar e nós dois iremos nos esconder até que Josh nos traga Loub. - disse, praticamente aos sussurros.

- É, mas como eu vou saber onde vocês vão estar? - perguntou Josh.

- Vamos esperar você na ala II das armas. - disse Hector, logo tirando algo do bolso de seu sobretudo de couro marrom. - Aqui. Tome este mapa. É uma cópia que encontrei no baú do curador.

- Hector, sabe que a parte que Josh faz o papel do garoto irritante não vai ser nada fácil, certo? - disse Eleonor, ainda mantendo o ar de incerteza e relutância.

- Pode deixar - garantiu Josh. - Vou fazer elas ficarem doidinhas de raiva que a primeira coisa que vão dizer antes de explodir é o lugar onde esse cara tá preso.

- É isso aí. Conto com vocês dois. - disse Hector, percebendo que o tempo se esgotou.

Quase que simultaneamente, os três viraram-se para as quimeras, demonstrando uma falsa rendição. Quatros delas aproximaram-se para aborda-los e, assim, conduzi-los até a sala do rei. A líder pareceu encara-los com frieza... com um suposto sorriso no canto da boca, o qual Hector, enquanto estava sendo levado, percebera mesmo em um vislumbre. Saíam da sala, sentindo-se como criminosos condenados e sendo guiados até o "corredor da morte". O corredor da galeria A-II enchera-se de soldados, caminhando rumo à sala do rei. Entre eles, o trio era segurado pelos braços. Uma ordem direta e severa fora da pela líder: Não olhar para os lados ou para trás. Somente para frente ou de cabeça baixa.

O máximo de discrição era o que a situação-problema exigia. E isto Hector tinha de sobra. Só faltara comprovar se Josh e Eleonor partilhavam do mesmo.

- Por que nos seguram? Não vamos fugir. - disse Eleonor, reprovando a decisão das quimeras. - Além disso, estas garras estão me machucando.

- Cale-se. - disse a quimera ao seu lado esquerdo. - Não tem permissão para falar. Nenhum de vocês.

"Quanta confiança essa sua, Hector", pensou Eleonor, olhando disfarçadamente para ele, que ia na frente. "Está depositando todas as fichas neste plano bem atrevido. Ele quer mesmo matar dois coelhos numa só cajadada. Mas o que me incomoda é que tudo isso foi fácil demais.". Percorreu lentamente seu verdes e claros olhos pelas quimeras ao seu redor que marchavam em ritmo estável.

"Sem permissão pra falar!? Agora fodeu!", pensou Josh, arregalando os olhos, com a cabeça baixa. "Um pio e depois um belo picadinho de Josh é servido pra esses monstros.".

Hector mantinha sua confiança impenetrável, olhando para frente como ordenado. "Devem ter se passado três minutos, no mínimo. É agora. Vamos lá, Josh, entre em ação. Comece a falar. Temos sorte deste corredor ser bem mais longo que os demais. Eles não farão nada se disser algo. O ideal é que fale após cinco minutos, mas agora já é um momento adequado.".

O único som que predominava no dado instante era os dos passos, tanto das quimeras quanto dos três. O silêncio proporcionava um clima maçante. "É, acho que no fim das contas sempre sou eu quem não tem lá muita escolha. Coragem. Vamos lá.", pensou Josh, inspirando fundo.

- Pois é né, acho que uma conversinha pra quebrar esse silêncio todo cairia bem agora. - disse ele, sorrindo desconcertante.

Uma quimera à sua frente olhou para ele por cima do ombro de modo ameaçador. O caçador de aluguel engoliu a saliva, fitando nervoso aqueles olhos amarelos selvagens.

- Cale-se. - mandou a quimera à sua direita que o segurava.

- Ora, vamos lá, se abram comigo. - disse ele, ousadamente. - A gente só quer o cara vivo, nós temos planos bem interessantes pra ele, não que seja grande coisa, mas com certeza é algo que vai beneficiar a vocês... err... ahn... de um modo que vai deixar vocês mais fortes, até mais do que o rei de vocês. - ele parecia não ter ideia do que estava dizendo.

Eleonor fechara os olhos, inquieta e aborrecida. "Isso Josh, piore as coisas.", pensou ela.

Uma delas virou a cabeça, aparentando estar interessada. Outras fizeram o mesmo, sem cessar a caminhada.

- Está dizendo a verdade? - perguntou uma, mais à frente.

- Ahn... sim, estou sim. - disse ele, olhando para cada uma delas, ainda mais nervoso. - Vocês não fazem ideia. "Muito menos eu.", pensou ele, suando em demasia. - Eu sei que esse tal de Mollock não deve tratar vocês com tanto respeito, sem querer ofende-lo, mas é que não concordo com isso. Onde já se viu um rei maltratar seus próprios súditos? - deu uma leve e forçada risada.

Hector parecia estar no limite da paciência. "Muito bem, Josh. Só precisa ser um pouco mais direto desta vez.".

- Do que se trata, afinal? - perguntou uma quimera.

- É surpresa, não posso contar agora. - disse Josh, demonstrando não ter imaginação o bastante para inventar algo convincente. - Só revelarei quando me disser onde está Loub, assim, escondidinho do seu rei a gente decide como vai ser. E aí, o que acham? - ele sorrira mais abertamente desta vez, sentindo-se mais à vontade.

Minutos passaram nos quais as quimeras ficaram pensativas quanto à oferta nada clara de Josh.

- Nós aceitamos. - disse a que havia perguntado.

- Nós!? - redarguiu outra ao seu lado. - Você enlouqueceu? Não vamos fazer parte de algo criado por um humano miserável!

- Ele tem razão! - rebateu outra, mais na frente. - Ele não foi claro em sua proposta. Isto pode nos arruinar. Aceitar isso é se voltar contra nosso rei!

- Pensem bem, seus vermes! - disse uma das que seguravam Hector. - Para quê queremos um mero humano como Robert Loub servindo ao nosso rei entre nós se podemos usa-lo para que ele nos sirva. O rei não nos trata de forma digna! Ele merece saber que seus súditos possuem algum valor.

- E quem seria o rei deste novo império? Você? - perguntou outra, ríspida.

- Ora, parem! - disse a líder, finalmente se manifestando. - Ele nem devia estar nos dirigindo a palavra. A ordem foi clara: Ninguém fala até que cheguemos ao rei! E não deviam estar dando atenção ao que este inseto está propondo!

"Está dando certo.", pensou Hector, feliz por dentro. "Só mais um pouco".

- Bem, já que concordaram, agora me digam onde está Robert Loub. - pediu Josh, sendo mais direto.

- Se você disser, eu... - ameaçou uma quimera para outra.

- Está nos subterrâneos... - interrompeu ela - do depósito de peças para restauração! - virara o rosto para Josh enquanto dizia.

Hector arregalou os olhos, perplexo. "Estávamos tão perto o tempo todo!", pensou. No depósito mencionado, jaziam peças, artefatos e diversos outros objetos, os quais, sob recomendação do curador do museu, seriam encaminhados para a restauração. O homem, famoso tanto por ser meio paranoico quanto por guardar inúmeros segredos, fazia questão de ocultar as possíveis passagens secretas que, em segredo com o proprietário do museu, haviam sido criadas como saídas de emergência para eventuais casos de incêndios ou até mesmo invasões criminosas caso o plano de segurança fosse inutilizado. A mais bem preservada podia ser encontrada no chão, onde a mesma dava acesso ao subterrâneo que abrigava um corredor e uma sala na qual alguém se esconderia se o problema fosse grave. Basicamente um grande alçapão. A porta era de cumbo maciço, precisaria ser aberta por alguém forte fisicamente. No caso do curador, isto não seria problema, já que o mesmo já tinha elegido seu guarda de confiança, um homem carrancudo e musculoso que cuidava da segurança do interior.

- Traidor! - bradou uma quimera, logo enfiando sua lança na garganta da outra.

A pele acinzentada da criatura foi banhada por sangue jorrando sem parar. Um rugido de dor ecoou pelo corredor. A líder teve de intervir.

- O que você fez!? Não percebe que esse humano está mentindo? - disse ela, enquanto a "traidora" caía gemendo de dor no chão, tentando ganhar tempo até se recuperar.

- E por que eu mentiria sobre isso? - indagou Josh, fazendo uma careta.

- Você! - a quimera líder apontou de modo acusador para Hector. - Estava conspirando junto à eles! Sei disso porque eu ouvi tudo o que disseram!

Hector mirou seus penetrantes olhos para a quimera, mas sorrindo de satisfação. Era do seu feitio expor os detalhes mínimos de seus planos somente na hora H, algo muitas vezes até incompreendido por outros caçadores. Em missões passadas, isto evidenciou-se ao extremo, chegando a arrancar críticas de colegas mais privilegiados, ao menos na época em que ele se aventurava de floresta à vilarejos como testes de aptidão para ingressar na Legião. Resultado: Hector tornou-se a prova viva de que ignorar comentários precipitados relacionados a seu modo de pensar e agir é a melhor forma de se sair bem contando consigo mesmo.

"Mas o que... Por que Hector parece tão feliz com isso?", pensou Eleonor, em dúvida.

- Sim, eu já sabia. - disse o caçador, o sorriso tornando-se zombeteiro. - Afinal, são quimeras de nível três. Possuem um sistema auditivo quase sobre-humano. No entanto, apenas você ouviu toda a conversa, era a que estava mais próxima.

Os olhares ferozes das quimeras repentinamente voltaram-se apenas para Hector. A caminhada rumo ao recinto de Mollock havia cessado por tempo indeterminado.

Hector prosseguira:

- Se, em segredo, revelasse a todos os outros do que havia escutado, a discussão que ocorreu agora nada mais seria do que um fingimento, mas aí precisariam de mais tempo para planejarem. Como você percebeu que estava sem tempo para arquitetar algo para nos matar, teve de se render à nossa chantagem e guardou apenas para si o que ouviu. - fizera uma pausa, encarando com ar sério as duas quimeras que o seguravam cada vez mais forte. - Agora que sabemos onde Loub está, é bom que Mollock fique em alerta.

Instintivamente, as quimeras ergueram suas lanças e as apontaram quase que simultaneamente para os três intrusos, ameaçando um ataque. As que os seguravam os soltaram de imediato, também apontando suas lanças, aparentemente mirando em suas cabeças.

- Mas pra quê estas lanças quando se tem garras e dentes afiados, não faz sentido... - disse Josh.

- Cale-se! - vociferou uma quimera, interrompendo-o.

Hector, sem se sentir abatido pela ameaça, olhou para Eleonor em um contato visual quase que implorando para que fosse telepático. "É com você agora, Eleonor.", pensou ele. Assentiu levemente com um "sim" para ela.

Ainda que estivesse relutante, a bruxa concordara, exibindo um semblante igualmente sério. Aquele era o momento mais do que adequado.

- Não se movam. - disse uma quimera, rosnando, a ponta da lança em riste.

- O rei que veneram não passa de uma farsa. - disse Eleonor, sem medo. - O pior cego é aquele que não quer ver. - fizera uma pausa, suspirando. - Oboros he ka oculu's! 

As visões daquele pequeno exército tornaram-se turvas instantaneamente, para logo em seguida ficarem totalmente neutras. Os olhos das mais de vinte quimeras ganharam um aspecto branco pálido. Não tardou para causarem um verdadeiro tumulto devido a rápida cegueira causada pelo feitiço.

- Aaaaaaaah!! - gritou uma. - Não consigo ver nada!

O trio tentou se juntar para que não fossem atingidos pelas lanças. Josh desviara de um ataque de umas duas lanças. Tiveram de correr após terem encontrado uma brecha, enquanto deixavam para trás aquele grupo que se mutilavam com suas armas, tentando golpear um dos intrusos. Enquanto corria, Eleonor olhara rapidamente para trás e via o banho de sangue que se formara. Algumas corriam para direções opostas, feridas e cegas, à procura dos ex-detidos. Apenas golpeavam o ar com suas lanças enquanto urravam de fúria e dor.

- Boa Eleonor! - disse Josh, correndo mais depressa. - Com feitiços tão poderosos, quem sabe você não use um contra mim.

- Por que eu faria isso? - indagou ela, confusa.

- Ah, deixa pra lá. Você já me encantou com sua beleza. - disse ele, quase aos risos. - Agora só falta um encontro.

- Sem chance. - revidou ela, sorrindo. - Só por curiosidade: Quantos anos você tem, Josh?

- 19. - respondeu ele, tentando alcançar Hector pelo longo corredor.

- Está explicado. - disse ela, dando uma risadinha.

- Explicado o quê? O nosso destino como almas gêmeas?

- Não. - respondeu, olhando risonha para ele. - Que você é novo demais para mim. - disse, direta e sinceramente.

O caçador de aluguel desanimara com um olhar tristonho, mas recompôs as esperanças ao correr mais rápido. Hector parara para tomar fôlego enquanto observava os dois aproximarem-se.

Finalmente haviam alcançado-o.

- Nossa, Hector - disse Josh, ofegando ao se apoiar numa parede. - Que vitaminas você tomou enquanto esteve na Legião? Com uma corrida dessas, ganharia de um Lycan fácil.

- Não exagere. - respondeu ele, com um sorriso satisfatório. - Se saíram muito bem. Obrigado.

- Ao que parece, a maioria morreu. - disse Eleonor, tentando avistar ao longe se havia algum remanescente do exército de quimeras. - Ótimo. O que fazemos agora?

- Simples. - disse Hector, com firmeza na voz. - O depósito fica naquele corredor à esquerda. - apontou para a direção que Josh deveria seguir. - Abra o mapa se precisar se esconder em alguma sala secreta se a situação chegar a piorar, não entre em pânico. Como havia dito uma certa pessoa, todas as possibilidades devem consideradas. - olhou para Eleonor, com certo ar de agradecimento.

A moça retribuíra com um tímido gesto de cabeça e um sorriso fraco, por um lado sentindo-se a vilã ao lembrar-se da discussão desnecessária, já por outro, mais esperançosa com relação ao futuro. A esperteza de Hector provou-se a maior arma deste plano. Talvez fosse tolice duvidar da confiança depositada, mesmo que quase ínfima. Percebera, mesmo que parecendo meio tarde, que deveria dar mais uma chance para compreender as reais motivações do caçador, tão eclipsadas pela complexidade de seus planos.

- Acho que é aqui que a gente se separa, não é? - perguntou Josh, um tanto desalentado. - Pelo menos por um curto tempo.

- Sim. - respondeu Hector, olhando para baixo. - Você tem seu arsenal. Use-o se caso for pego em uma armadilha. Mollock não deve ser, em hipótese alguma, subestimado. Deve haver quimeras de guarda também no subterrâneo.

- Se minha opinião vale alguma coisa.. - argumentou Eleonor - Acredito que Mollock só faria isso se soubesse que estamos atrás de Loub. Em outras palavras, apenas saberia se um soldado dissesse à ele dos nossos intentos, mas isso aconteceria se este exército de merda fosse mais esperto.

- Tem razão. - concordou Hector. - Como a líder havia escutado nossa conversa, poderia ter a chance de mandar uma delas ir até onde Mollock está e informa-lo de nosso plano sem que nós soubéssemos. E só assim mobilizaria mais soldados para várias direções, em especial o subterrâneo.

Josh sentiu-se obrigado a dizer algo, ao mesmo tempo sentindo-se impertinente.

- Errr... acho melhor eu ir indo. - disse ele, dirigindo-se ao corredor. - Nenhum licantropo surtado vai impedir a passagem deste futuro membro da Legião. Hector, você e eu seríamos ótimos mentor e aprendiz, respectivamente. - deu uma risada contente.

- Ah sim, disse eu tenho certeza. - disse Hector, assentindo concordante. - Josh, por favor, cuide-se e traga-o. Só não tente ficar muito íntimo dele... não é nada amigável, além de que, em primeiro momento, não o encare como um possível aliado nosso. Ainda temos contas a acertar. - salientou, seriamente.

- Deixa comigo. Quem diria, hein!? Minha primeira missão de resgate. - virou-se para os dois, ainda andando. - E Eleonor! Não pense que acabou. - sorriu. - Sou dos que preferem as mais velhas. Quem sabe um dia, quando marcarmos um segundo ou terceiro encontro, você me apresente sua família. Mas só espero que seus pais não sejam racistas!

Eleonor rira de um modo que não o fazia desde um bom tempo.

- Vá, Josh. - disse ela, ignorando o que o rapaz havia dito sobre o improvável romance. - Mas vá e tente voltar vivo. Estamos torcendo por você.

O caçador fizera um gesto de uma "despedida" e logo apressava seus passos pelo corredor sem iluminação, desaparecendo na escuridão. Não pertencia à galeria, nem possuía nenhuma obra de arte em suas paredes. Era de largura curta, não chegando a ser estreito e a falta de iluminação o tornava quase imperceptível. O corredor onde Hector e Eleonor estavam agora se estendia a mais metros. Pareciam ainda estar na metade dele, além de que seria um dos mais longos de todo o museu.

Os sons ruidosos do tumulto mortífero das quimeras foram de abafados até inexistentes. Os dois aventureiros entreolharam-se e assentiram com expressões sérias. Seguiram pelo corredor, andando a largos passos. Hector ia na frente, o sobretudo de couro marrom cintilando com as luzes fluorescentes.

- A ala II das armas não fica muito longe, eu acho. - disse, a fala apressada. - No início, eu pensava que ela não seria importante, mas agora me arrependo de não ter memorizado o caminho. Mas não faz mal, basta seguirmos as setas e as placas e nos orientarmos. - fez uma pausa para olhar o relógio de pulso prateado que usava. - São quase oito da manhã. Temos doze horas e trinta minutos antes do exército vir. Parece que a sorte está mesmo do nosso lado.

Os passos do caçador intensificavam-se. Hector, apesar de naturalmente confiante, imaginava a hipótese de ser pego em qualquer armadilha criada para deter intrusos.

Olhou em volta enquanto nadava mais rápido.

- As paredes parecem estar como sempre estiveram. Nenhum sinal aparente que indique a presença de possíveis armadilhas. - disse, percorrendo os olhos pelas paredes de mármore. - As pinturas não estão com nenhum detalhe estranho. Pelo visto, Mollock não esteve tão preocupado com nossa ameaça desde que passou a suspeitar.

De repente, uma sensação incômoda lhe invadiu os pensamentos. Fez uma cara de desconforto... como se alguma coisa estivesse em falta.

- Você está muito calada... - disse, virando-se para trás.

Parou a caminhada perplexo. Seu sangue gelara, seguido de um arrepio que lhe percorreu todas as partes de seu corpo.

Eleonor havia sumido misteriosamente.

                                                                                 ***

Os soldados o olhavam discretamente, com extrema estranheza. Parecia que o rei estivera lendo um compilado de cartas com múltiplas felicitações a seu respeito.

Mollock folheava avidamente aquele livro, com um macabro e largo sorriso no rosto.

Longos minutos passaram-se como horas.

Ao chegar ao final de seu leitura, Mollock respirara fundo com os olhos fechados. Os abrira lentamente, a íris amarela tomando forma, o elemento que deixava seu olhar intimidador.

Fechara o livro, batendo-o com um estrondo assustador. Um leve nuvem de poeira elevava-se no ar.

Olhou para cada um dos soldados que estavam presentes, segurando-se de ansiedade.

- Tragam-me algum livro que fale sobre a origem do lugar conhecido como Ruínas Cinzas! - ordenou, em tom austero e firme.

Continuou, esbanjando uma certa felicidade:

- Há algo neste local que parece ter sido feito para mim. Posso sentir. Se caso eu confirmar que ele de fato existe... iremos para lá e vocês poderão testemunhar um evento de proporções divinas!

O rei levantara-se abruptamente e saiu andando pelo salão em direção à porta.

- Você e você! - disse, apontando para dois guardas à sua direita. - Vão até a biblioteca. Assim que eu retornar quero o livro que pedi sobre meu trono. Ele tem que existir. - passeou os olhos para sua esquerda e fitou os dois soldados. - Vocês dois! Me acompanhem até os subterrâneos. Preciso me encontrar com meu pai.

                                                                                ***

Naquele instante, Robert Loub desenhara na parede com uma ponta de carvão os futuros projetos que sempre sonhou que se realizassem... se caso aquele pesadelo não ocorresse.

"Não me restam mais forças.", pensou ele, tristemente abatido. "Uma hora ou outra, mais cedo ou mais tarde, aquela besta do inferno vai recorrer à tortura física para me obrigar a dizer o porque da minha resistência para com a transformação."

A luz havia sido reposta pouco tempo antes. Passara alguns dias trancado na escuridão enquanto os soldados de Mollock não arranjavam uma lâmpada decente.

"O que me dói mais não é estar trancafiado aqui como um animal indefeso. Mas sim o fato de que tudo isso é culpa minha. O que foi que eu fiz?", pensou Loub, os olhos marejando.

"Eu preciso comer algo. Respirar um ar fresco. Voltar a ver a luz do dia... ", estava ficando sonolento novamente. Largou calmamente o pedaço de carvão. E, por fim, fora adormecendo aos poucos.

                                                                                ***

O quarteto já postava-se diante da porta do armário pertencente à sala "secreta" de Charlie. Assim que Adam voltara da sala com as notícias informadas por Hector, todos ficaram radiantes de esperança. Confiavam inteiramente na sagacidade do caçador-detetive para driblar as investidas do inimigo. Contudo, Adam não tirara uma questão torturante da cabeça desde que pôs o telefone de volta ao gancho até retornar à sala. "Conhece-la?", pensou ele. "Hector está acompanhado de uma mulher!? Quem seria?". Olhava fixamente para a porta, mas na realidade estava devaneando sobre quem seria a companhia do amigo naquela árdua missão. Mentira sobre isso enquanto repassava as informações.

O restante do grupo ansiava para iniciar a tarefa mais inusitada que cumpririam. Charlie vasculhava em uma caixa à procura do papel com o símbolo que desenhara dias atrás. Alexia o olhava disfarçadamente pelo lado, em um misto de desconfiança e preocupação. "Ir ou não? Eis a questão.", pensava ela, indecisa e ainda intrigada acerca da estranha permissão do amigo para que participasse da missão de resgate. Mexeu em seus lisos e ondulados cabelos ruivos alaranjados, tentando ganhar mais disposição.

Charlie logo veio na direção do grupo segurando o tal papel.

- Bem, pessoal, está na hora. - disse com firmeza. - Este é o selo que os magos do tempo utilizam para viajarem no espaço-tempo. Cruzamos muitas fronteiras graças a este símbolo. - mostrara o papel amarelado e estreito com a figura desenhada.

- Espera aí. - disse Lester, curioso. - Você já viajou no tempo?

Adam teve de repreende-lo.

- Lester, por favor, agora não é hora pra isso.

- Não, tudo bem, respondo com todo o prazer. - disse o jovem físico. - Não. - dissera concisamente. - É certo que, sim, já viajei para mundos alternativos à este, mas jamais cheguei ao nível do qual meu pai estava pouco tempo antes de morrer. Parece que os malditos Coletores, de alguma forma, nos espionavam e relatavam para seu mestre todas as informações recolhidas, sempre à espera de uma ordem. E a ordem para no caso de magos do tempo alcançarem o grau máximo era matar. Viajar no tempo quase nunca nos foi possível. Não foi na minha geração... e talvez jamais será. - contou, com certo pesar.

- Mas os magos do tempo antigos já conseguiram, não foi? - perguntou Êmina.

- Sim, isto é fato. O grau máximo consiste nesta permissão. A Ordem possuía conhecimentos que, perto do que o resto da humanidade havia conseguido até certo ponto, eram séculos de avanços. Se a Ordem hoje ainda estivesse intacta, a ciência atual tornaria-se obsoleta na nossa visão. Especificamente, a física. - disse Charlie, passando os dedos no papel.

- Havia dito que haveria uma chance não tão remota de nos depararmos com os Coletores. - disse Adam, sem esconder sua apreensão. - Há uma forma de reconhece-los?

Charlie pensara um pouco a respeito. Após a pausa, disse:

- Bem, geralmente se apresentam como homens e mulheres elegantes, se sentindo parte da alta sociedade. Costumam optar por roupas caras, ternos e vestidos que só a nobreza tem acesso. Tomem muito cuidado. São manipuladores, e qualquer indício de ingenuidade pode faze-lo cair em suas lábias. Resumindo: Não acreditem em quase nada do que disserem. Isto é, se caso os encontrarem, o que eu espero que não.

 Lester tentou deduzir as chances.

- Talvez uns 20%. - disse ele.

- 20% de quê? - indagou Adam.

- As chances de darmos de cara com essas coisas. - respondeu ele, um tanto sério. - Se quisermos salvar a Rosie, então vamos contar com a sorte, porque o que não vai faltar são obstáculos.

- Dessa vez, eu concordo com você. - disse Êmina, mais flexível com o parceiro de caçada. - Se tentarmos fugir, talvez pensem que iremos continuar por outro caminho e nos façam perder mais tempo. Se caso insistirmos, podem tentar nos matar.

- Então não vamos ter outra escolha se não nos rendermos. - disse Adam, preocupando-se.

- Até determinado momento, se caso os acharem, não se desesperem. - alertou Charlie, erguendo de leve o indicador. - Normalmente, preferem uma boa conversa com seus alvos. Isto, é claro, exceptuando magos do tempo, cujo tratamento é bem mais violento.

Alexia finalmente abrira a boca para dizer algo. Estranhamente, estivera calada por um bom tempo.

- Charlie, você tem alguma ideia de qual mundo Rosie pode estar?

- Tudo bem. - disse o rapaz, caminhando à porta. - Não tenho exatamente uma ideia. Está mais para uma dedução incerta mesmo. - colocara o papel acima da porta, grudando-o. - Eu havia dito que Rosie, provavelmente, possa estar em um universo distante e praticamente invisível.

- Olha, não é por nada não, mas... - disse Lester, inquieto. - você emendar "tudo bem" com a última frase não me soa nada encorajador.

Charlie virara-se para ele, a expressão calma.

- A coragem se encontra dentro de seus corações. - afirmou ele, os olhos azuis brilhando. - Meus recursos são apenas uma "catapulta" para lança-los em direção ao ponto certo. Mas voltando ao assunto: Rosie pode estar mais longe do que pensávamos. Portanto, as palavras que direi me permitirá leva-los até o mais próximo possível.

- E se tivermos chance de voltar, como o faremos? - perguntou Êmina, segurando mais forte o seu giz para transmutações.

Adam voltou-se para ela com um olhar reprovativo.

- "E se tivermos chance de voltar"?! Nós vamos voltar! - disse ele, severo, arqueando as sobrancelhas. - Não importa o quão longe esteja, iremos até onde for preciso para salva-la.

- É exatamente isto que desejo. Mas como dizem: "Querer nem sempre é poder". Devemos estar abertos a todas as sugestões e possibilidades. - ponderou Charlie, esfregando levemente suas mãos. - Mas respondendo sua pergunta, Êmina, aconselho que usem o símbolo. - entregou à ela o papel.

- Quer que façamos seu ritual para escaparmos? - pergunto ela, recebendo-o, meio relutante.

- Escaparem com Rosie viva, aliás. - disse ele, assentindo devagar. - Não quero que saiam de mãos vazias. No caso de encontra-la e a situação exigir uma retirada estratégica, colem o selo em alguma porta e digam estas palavras em voz baixa... - enfiou uma mão no bolso esquerdo de sua calça marrom para retirar um pequeno papel.

Entregara-o para Êmina, gentilmente.

- Aqui está. - disse, logo em seguida voltando-se para a porta.

O mago do tempo movera a boca de um modo plenamente discreto. Nenhum som parecera sair diante dos atentos olhares do quarteto. Logo ao término do rápido processo, Charlie colocara a palma esquerda sobre o símbolo. O desenho instantaneamente começou a brilhar uma luz amarela.

O grupo fitou a luminosidade, mantendo a atenção e, sobretudo, a ansiedade. A luz rapidamente cessou... e a porta fora aberta sem que Charlie a tocasse, quase que automaticamente. O lugar do outro lado revelou-se como uma surpresa.

Uma floresta enevoada, aparentemente pacata, com folhagens alaranjadas espalhadas pelo solo, denotando, assim, um clima de um gostoso outono. Foram se aproximando vagarosamente, os olhares indo de estupefação à fascínio.

- Isso é incrível. - disse Êmina, maravilhada pela façanha.

- E eu, como caçador da Legião, me gabando achando que já tinha visto de tudo... - dissera Lester, sorrindo para Charlie.

- Acho que devemos ir logo. - disse Alexia, apressando-se, quase ignorando a revelação do outro lado da porta.

- Sim. - disse Charlie. - Vão. E, por favor, tomem cuidado. - orientou ele, sério.

Adam assentiu, indo na frente, sem estranhar a surrealidade da situação.

Foram adentrando na silenciosa floresta, aos poucos, passeando os olhos por todos os cantos. Em menos de dois minutos, já se viam totalmente rodeados pela névoa do calmo lugar.

Êmina olhara para trás e estremecera, os olhos arregalados.

- Uau! - arqueou as sobrancelhas. - A porta simplesmente sumiu... - o tom de sua voz ficara fraco de repente.

- Que coisa estranha, não é? - comentou Lester com ela observando o ponto de onde a porta estava. - Dá uma sensação de que ficaremos presos aqui pra sempre.

- Vira essa boca pra lá, Lester! - reclamou Adam, andando devagar pela floresta.

- Desculpa chefe, da próxima vez vou usar uma fita métrica para medir minhas palavras. - disse ele, sarcástico.

- Isso não foi uma piada, né? - indagou Êmina, com um sorriso zombeteiro.

- Andei treinando. - respondeu ele.

- Então precisa negociar umas aulinhas com os palhaços de um circo alemão. - brincou ela, batendo de leve no ombro dele, e seguindo na direção onde Adam estava indo.

Lester a olhou com o rosto franzido de incômodo.

- Quem sabe você também se junte à mim. - retrucou.

- Pessoal. - disse Alexia, um pouco afastada, tentando se aquecer esfregando as mãos nos braços. - Esse frio não parece nem um pouco normal. Não sei... sinto que não é aqui onde deveríamos estar.

- Como assim, Alexia? - perguntou Adam, intrigado. - Está mesmo frio aqui... mas não tanto. - esfregou as grossas mãos gerando um ligeiro atrito.

De repente, uma lufada de ar gélido assolou com um vento forte, arrastando as inúmeras folhas secas. Adam se afastou do grupo devido à forte corrente de ar, tentando se proteger da ventania com os braços. Todavia, em uma fração de segundos, se viu sentindo o chão abrir sob seus pés. Mas não era exatamente o que pensava que era. Havia caído... mas em outro lugar.

Ainda com os braços cobrindo o rosto, o caçador logo se deu conta de onde estava ao ouvir uma música leve. Pareciam sons de piano reproduzindo uma deliciosa canção. Luzes fluorescentes e incandescentes pendiam nos tetos fincadas em lustres de diamante. Conversas paralelas e distantes eram escutadas. "Mas que lugar é este?", pensou.

- Vamos logo, não seja tímido, comporte-se como alguém de sua espécie e não como um cachorro assustado. - disse uma voz à sua frente. Uma voz masculina.

Adam aquietou os braços, não sentindo mais frio algum. Vira o homem sentado na mesma mesa que ele. Estavam em uma boate construída para receber exclusivamente pessoas da alta sociedade. Mulheres bonitas e elegantes rindo e calmamente bebendo enquanto conversavam. Os homens, por outro lado, jogavam pôquer, outros curtiam um bom e velho baralho, também bebendo em suas taças de champanhe e uísque.

Adam voltou-se para a figura diante dele, o olhando estranho. Era um homem esguio, moreno, de cabelo curto e preto, e com uma barba por fazer, além de um queixo quadrado gritante. Seus olhos negros fitavam o robusto caçador friamente.

O homem sorrira para ele, segurando um copo com uma dose de uísque.

- Olá, Adam. Esperava que sua recepção fosse-me menos patética. Mas estou satisfeito, sinto-me até honrado por estar diante de um exímio aventureiro.

- Quem é você? - perguntou Adam, igualmente frio. - E como sabe meu nome? - já desconfiava de quem o sujeito se tratava.

- Ora, deixemos as apresentações de lado...

Adam levantara-se em um impulso de raiva, quase que querendo agarra-lo pelo terno preto ou pela gravata listrada.

- Olha aqui, eu sei exatamente quem você é. Agora eu quero saber o que houve com meus amigos. Onde eles estão?

- Para um primeiro encontro você está com dúvidas demais. - deu um gole na sua bebida.

- Primeiro é? - semi-cerrou os olhos. - O primeiro e o último, se quer saber.

- Adam, os membros de minha corte costumam não admitir certos comportamentos impetuosos, então eu sugeriria que se sentasse... e percebesse com quem está lidando. - a voz do homem tinha um tom genuinamente ameaçador.

Encarando o indivíduo com um fulminante olhar, Adam sentara-se.

- Hum, sabia que o faria. - disse o homem pegando uma garrafa de uísque. - Ninguém resiste às minhas ameaças subentendidas.

- Então está disposto a me matar se eu não fizer o quer e da maneira como quer. - disse Adam, deduzindo.

- Basicamente. - respondeu ele, pondo o líquido em um outro copo. - Se não for pedir muito, gostaria de lhe oferecer esta bebida, como prova de minha generosidade em mante-lo são e salvo. - empurrou de leve o copo para Adam.

- Não quero beber nada. - respondeu ele, secamente. - Como soube que estivemos em uma missão importante?

O homem suspirara, deixando seu copo na mesa. Olhou para Adam com austeridade.

- Embora eu não tenha obrigação alguma de lhe explicar certos detalhes, eu abrirei uma exceção para você, amigo. Eu e meus irmãos estivemos no encalço daquele conhecido por vocês como Charlie. - fizera uma pausa, fitando o copo que dera à Adam. - Não vai mesmo aceitar?

- Não. - disse ele, a expressão dura e séria. - Minha saliva pelo menos está livre de pós letais.

O homem dera um risada zombeteira.

- Adam, eu não tenho a menor intenção de envenena-lo. Não recorro aos métodos humanos para matar. Presumo que já saiba o suficiente sobre nós.

- Sim, é claro. - assentiu Adam. - Agora me fale: Porque eu? - sua paciência já estava se esgotando.

- Por que você, como vimos, obviamente é o líder. O seu amigo Charlie merecia estar morto agora, mas não o fizemos por uma questão de benefícios e negócios.

- Negócios? - o caçador franzira o cenho. - Com quem?

- "O inimigo do meu inimigo é meu amigo". - disse o homem, sorrindo de modo canalha. - Abamanu, ora mais! - disse, entregando logo a resposta. - A política mais simples de se concretizar: Um ajuda o outro. Uma mão lava a outra. Não é assim que vocês dizem?

Adam sentira os pelos do corpo arrepiarem-se. Segurou-se para não se exasperar.

- Então se Charlie é a recompensa por ajudarem Abamanu... então qual é o plano dele?

- Fantasias de um rei semi-decadente: Expansão de império, formação eficaz de soldados e dominação completa de territórios considerados inacessíveis. - inclinou-se para Adam. - Compreende o que quero dizer, Adam? Charlie é um mago do tempo. O que eles fazem mesmo? - sorrira.

Não demorou muito para que o caçador pudesse ligar os fios desta perigosa teia. Ficou pensativo, mas logo manifestou-se, atônito.

- Então... Abamanu pretende usar Charlie como ponte para reerguer seu império e depois entrega-lo à vocês!?

O homem sorrira mais abertamente desta vez.

- Na mosca.

"Não pode ser! Os outros precisam saber disso!", pensou Adam, desesperado.

- Não precisam não. - disse o homem, cruzando as mãos.

Adam o olhara espantado. - Consegue ler mentes?

- Consigo tudo o que quero e mais um pouco. - respondeu ele, cínico. - Adam, serei franco com você: Preciso que mantenha o que foi dito por mim em total e pleno sigilo.

- O quê!? Acha que vou guardar pra mim mesmo o fato de vocês nos vigiarem o tempo todo e Charlie ser o alvo principal de Abamanu? Só uma ameaça muito convincente para me silenciar. O que acha de tentar? - o encarou com mais fúria desta vez.

- Não preciso tentar. Eu já sei: A morte dos seus amigos lhe é convincente o bastante?

- E onde eles estão? - vociferou, exigente.

- Um pouco distantes daqui. Como pássaros em uma gaiola. Façamos o seguinte: Suspendo a espionagem por tempo indeterminado e liberto seus amigos se caso concordar em ficar de boca fechada.

Adam se vira sem alternativas. Suspirou pesadamente, rendido.

- Está bem. - seus olhos marejaram um pouco. - Não direi absolutamente nada.

Os pensamentos do caçador estavam inteiramente focados no jovem físico e mago do tempo. Uma ousada quebra de sigilo seria o prenúncio perfeito para uma sentença de morte de quatro pessoas... ou até mais se for preciso. O braço forte da Legião dos Caçadores lembrara das palavras de Charlie: "Não acreditem em quase nada do que disserem". Elas ecoaram em sua mente após analisar o problema. Entretanto, sentira na fala perseverante do homem uma ponta de seriedade. Arriscar assumir que era tudo mentira parecia um tiro no escuro. Resolveu tomar aquilo como verdade e uma ameaça absoluta. Era a vida de seus amigos em risco, afinal.

- Ainda resta uma dúvida: Se caso eu abrir o jogo, eu também sou incluído na lista negra? - questionou Adam, relutante.

O homem rira baixinho, mantendo o tom maquiavélico.

- Não lhe é óbvio? - indagou, emanando um ar irônico. - Todos aqueles que se colocam no caminho de um mago do tempo estão praticamente sentenciados à morte. A menos que, em uma situação específica, como esta, o escolhido saiba se pôr no seu lugar. Aí todos estarão inteiros, mas não significa que poderão estar livres. Talvez, quem sabe, todos saiam ganhando no final.

- Eu duvido muito. - afirmou Adam, o olhar cortante como uma lâmina. - Já disse o que eu precisava saber, agora me diga como eu encontro o caminho para encontra-la?

- Fala da sua amiguinha... como é mesmo o nome dela? - perguntou, fingindo não saber. - Rosie, não é? - riu baixinho novamente. - Ah sim... é claro, a infortunada Rosie Campbell. Fadada a um destino que jamais desejou ter. Dividida entre o bem e o mal em um campo de guerra onde todos ao seu redor podem morrer.

- Diga logo como eu a encontro! - pediu Adam, ríspido.

- Tudo bem, tudo bem, compreendo sua raiva, Adam, mas sugiro que abaixe o tom... Gostamos de gentileza pois é a partir dela que conseguimos o que queremos. - disse, erguendo as palmas das mãos em um aparente gesto de pacificidade. - Sua amiga, de acordo com o que me disseram, não está nada segura. Acontece que, como parte do acordo, nós também fomos autorizados a observar as ações dos subordinados de Abamanu. E um deles, neste exato momento, está tentando encurrala-la.

- Ótimo. - disse Adam, levantando-se repentinamente. - Ao menos ela está viva. Só preciso que liberte meus amigos e nos mostre a passagem. Agora!

- Calma, calma - disse o homem, gesticulando com as mãos para que Adam se aliviasse. - Eu até pediria que se sentasse, mas, ao que parece, nós dois não temos muito tempo em sobra. - disse, olhando para seu relógio de pulso. - Estimo um tempo de 10 minutos.

- 10 minutos para salvar uma vida? - indagou Adam, incrédulo. As palavras de Charlie novamente lhe vieram à mente. "Não acredite em quase nada do que disserem".

- Exato. São rápidos mentalmente. Quero ver como são rápidos quando correm. - seu sorriso diabólico formou-se novamente em seu rosto. - Mas antes... Adam, eu gostaria que você me fizesse uma coisa. - mexera em uma maleta preta apoiada na perna da cadeira onde estava sentado. Tirara dela uma folha de papel branco e uma caneta.

- Assine aqui. - apontou a caneta para a linha no final da folha.

Adam fez uma cara irritada, suspeitando que aquilo fosse uma artimanha para faze-lo perder tempo.

- E isso agora!? - reclamou. - Isso nem chega a ser um acordo justo!

- Ah, sim, ele é justo. - assentiu. - Mas não se preocupe, não somos burocratas insistentes. Apenas assine e sairá daqui vitorioso em sua busca.

O caçador lhe tomara a caneta de modo mal-educado e escreveu rapidamente sua assinatura. Não se deu ao trabalho de ler o texto acima, escrito em uma língua indecifrável, ligeiramente, em um vislumbre, reconhecendo ser o dialeto dos deuses.

- Pronto. Aqui está. - entregara o papel ao homem.

- Muito bem, Adam. - ele sorrira. - Temos uma aliança sigilosa. Porém, caso tente alguma coisa que vá contra as regras do contrato, nós voltaremos a observar cada passo, cada respiração, cada movimento que vocês fizerem... até decidirmos como vamos mata-los. Mas, é claro, isto não vai acontecer, já que você pareceu inteiramente engajado.

- Por conta da sua chantagem. - redarguiu Adam, raivoso. - Vocês, Coletores, devem ser as piores pragas que até os deuses sentem vontade de vomitar.

- Os magos do tempo nos chamam assim... mas não chega nem perto de nosso real nome. - respondeu o homem. - Além disso, almejamos chegar a um patamar no qual os deuses se tornarão inúteis em seus postos. Grave minhas palavras.

Adam saíra, tentando encontrar a porta de saída daquela boate, olhando para os lados.

- Espere, Adam! - chamou o Coletor. - Como você espera reencontrar seus amigos e salvar sua amiga em apenas 10 minutos saindo sozinho? - estava visivelmente reprimindo uma risada.

Adam virou-se e encarou-o. Riu rápido sem acreditar no que estava ouvindo.

- Na verdade, eu não esperava que você fosse facilitar as coisas. Além disso, uma certa pessoa me avisou para não acreditar em tudo que diz.

- Eu sei disso. - confirmou. - Nós também costumamos brincar de estalar os dedos para realizar algum desejo. Quer participar desta brincadeira novamente? - o olhou incisivamente.

- Faça o que quiser. Apenas me mande de volta para meus amigos.

- Está fechado, então. Mas lembre-se: Quando Abamanu vir a seu mundo, tome como definitivo o declínio de sua espécie. Não faz ideia do que aquele deus com cabeça de lobo solitário planeja.

Em movimento rápido e despreocupado, o Coletor estalara os dedos, sorrindo.

Adam se viu caindo novamente ao fechar os olhos. Quando os abriu, já estava em local completamente diferente, parecendo ser algum tipo de castelo. E duas gratas surpresas estavam diante de seus olhos.

- Adam!? - exclamara Êmina. - Mas... o que...

O caçador vislumbrou rapidamente os três, mas seus olhos passaram a enfocar a porta completamente aberta à sua frente.

- Cara, onde você esteve? - perguntou Lester, sem entender nada. - Onde nós estivemos? Não, aliás... Onde nós estamos? - olhou ao redor, pondo as mãos na cabeça, perdido.

- Não lembro de nada do que aconteceu. - disse Alexia, também confusa. - Só me recordo de estarmos na floresta depois que Charlie nos abriu passagem.

- Eu também. - comentou Êmina. - É como se eu tivesse acordado de um sono de mil décadas. - estava um pouco zonza e desorientada. - E esta porta...

Adam já se via perto da entrada... Sentiu um cronômetro invisível acelerar quando lembrou dos 10 minutos e suas pernas quase que ganharam vida ao iniciar uma corrida.

- Ei, Adam! - gritou Lester, também começando a correr, tendo Êmina e Alexia vindo logo atrás.

- Nós temos pouco tempo! Ela está do outro lado daquela porta! É lá que Rosie está!

A missão finalmente ganhara o tom frenético esperado.

O quarteto corria ansiosamente por um corredor com paredes de pedra e iluminado por tochas.


                                                                         CONTINUA...

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