segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O distante som de um oceano desconhecido


É interessante o que vou contar agora. E ligeiramente assombroso. Meu tio mais próximo tinha uma coleção de conchas marinhas e por durante toda a minha infância sempre me foi negada a chance de ao menos tocar em uma delas. Ele era bastante zeloso e ciumento com sua intocável coleção, e não importava o quanto eu suplicasse para que eu entrasse naquela sala, o quanto eu o bajulasse ele nunca dava o braço a torcer, deixando a porta trancada o dia inteiro enquanto eu estivesse lá. Me restava apenas observar pela janela retangular ao lado da porta, admirando a beleza daquelas conchas. Já disse à ele uma vez que quando eu crescesse me tornaria um colecionador tão obstinado quanto ele e não o deixaria entrar. Ele gargalhou sarcasticamente, dizendo que até lá já estaria à sete palmos abaixo da terra, então não se preocuparia. Claro, falei brincando, mas a julgar pela maneira que ele riu... Enfim, vim para falar do lado sombrio da minha relação com ele, então direi logo.

Como criança eu não passava de um menino com quem você facilmente pode fazer levar um susto até dar um taquicardia cruel. Como desculpa para mão me deixar entrar, meu tio me alertava sobre a verdade a respeito das conchas, sobre o som que pode ser ouvido através delas. Não era o som do mar, como muitos diziam por aí, e sim os gritos de dor das pessoas que morreram afogadas, devoradas por tubarões ou acabaram nas valas mais profundas.

O sangue gelava sempre que ele reforçava essa lenda que ele, de início como achei, havia supostamente tirado da bunda. Mas semana passada esse medo voltou à tona... multiplicado por mil. Há anos eu ansiei por entrar naquela sala, nem que fosse escondido. Entrei escondido, na realidade, isso poucas horas depois do funeral dele.

Arrombei a porta - parecia até que ele já tinha previsto meus movimentos após sua morte, o que significava que ele não confiava em mim, talvez nem gostava tanto de mim. Foi delicioso pisar os pés no chão daquela sala cujo acesso me foi negado por anos. Mas um gosto amargo veio na boca de repente. Minha consciência se transformou em chumbo grosso. Era uma quebra de confiança - não que ele confiasse em mim, mas eu acreditava piamente no aviso sinistro dele.

Cegado pela curiosidade, toquei em várias delas e ouvi os sons para me certificar. Os sons eram praticamente os mesmos. Porém... a última que verifiquei estava um tanto distante das outras, isolada, o que dava a entender que se tratava de uma das raras. Era da classe Gastropoda de cor preta com traços acinzentados, jazida em uma espécie de altar de granito.

A peguei delicadamente e a aproximei do meu ouvido direito.

Pude entender a razão de ser tão rara.

O som era... tenebroso, eu tinha a impressão de estar escutando vozes meio oscilantes... vozes que me transmitiam agonia, medo, tristeza, desespero...

Me arrepiei quando, claramente, ouvi meu nome ser pronunciado...

E a voz... pensei ter sido dele... o meu falecido tio. Eram várias vozes clamando sem nenhuma sincronia, nem sei quantas tinham... Mais de mil, talvez? Então porque justo a voz do meu tio, em uma fração de segundo, pareceu tão solitária, tão única em meio ao turbilhão de gritos? Acho que fiquei concentrado demais, graças ao medo alimentado pela minha curiosidade que sempre me ferra.

Mas era a voz dele, juro que ouvi, sem nenhuma dúvida. Cavernosa... e meio irritada.

Depois de ter cometido esse erro, passei noites em claro ouvindo ecos daquelas vozes apavorantes, inclusive a do meu tio que era a mais predominante.

Ofertei a concha em um site de vendas online. Mas o que é estranho é: se a história é verdadeira então porque a voz estridente do meu tio pode ser ouvida naquela concha, sendo que sua causa mortis não teve nada a ver com acidente no mar?

Se não é o som do mar nas outras conchas que ele pegou, então o que será? Nem venha me dizer que é o som amplificado do ambiente, não tem nada disso. O som era o mesmo na maioria das conchas, mas eu não disse que era o som típico de conchas normais. Não é o mar. Não é o vento. É algo desconhecido, atraente e... assustador.

Talvez nem seja desse mundo.

Seja lá o que for, dane-se. Não sei quais ou quantos segredos meu tio tinha, mas é melhor desistir do sonho de colecionar conchas. Vou me lembrar disso da próxima vez que eu for à praia.

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Este conto foi escrito e publicado exclusivamente para o Universo Leitura. Caso o encontre em algum outro site com créditos e fonte ausentes, não hesite em avisar! 



*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos ou intenções relativas a ferir direitos autorais. 

*Imagem retirada de: https://pixabay.com/pt/caramujo-shell-de-concha-do-mar-167004/



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