Usurpadores


Meu avô, nos tempos em que eu visitava sua casa após ele enviuvar, ainda na minha infância, costumava narrar certas histórias assombrosas nos finais de tarde. Sempre eu me unia à ele e sua cadeira de balanço na varanda da casa no meio do campo, como sua ouvinte assídua que ele tinha certeza absoluta e se orgulhava de estar ao lado de algum ente querido disposto a ouvi-lo quando todos insistiam em duvidar de suas experiências extraordinárias que viveu nas épocas mais joviais. É, ele não notava a diferença. Eu era apenas uma menina de 10 anos que engolia e comprava qualquer historinha pra boi dormir, mas nunca fiz o absurdo de sustentar a hipótese de que meu avô se aproveitava da minha ingenuidade para finalmente sentir que estava dizendo a verdade ou se sentir autêntico por ter vivido tais eventos. Seria meio egoísta da parte dele, mas agora percebo que uma intenção dessas era anos-luz de seu feitio.

Mas... lembro de uma determinada história, a última que ele havia me contado, como se eu tivesse a escutado ontem. Última no sentido de ser a que foi contada dias antes de sua morte por aneurisma. Existia uma tradição antiga na família, mas que eu entendi como uma regra severa. A de que todos os membros da família deveriam ser enterrados no mesmo cemitério. Parece básico e compreensivo. No entanto, não vi aquele orgulho esperado de manter uma tradição que atravessou gerações. Senti sua frustração estampada no rosto.

Ele praticamente seguia uma vida dupla, como banqueiro e... desvendador de lendas urbanas. Na época em que a vovó havia morrido, ele foi tirar a prova de um boato que circulava na região a respeito do cemitério.

Todos comentavam sobre a temível ameaça dos violadores de sepulturas. E não eram violadores comuns... do tipo que exumam um cadáver extremamente putrefato e queimam, roubam ou satisfazem seus desejos bizarros daquele jeito...

Aquele velhinho que eu mal sabia que estava à beira da morte me contou algo perturbador. Disse que os violadores esperam 4 meses após o sepultamento para virem cavar a terra, retirar e abrir o caixão, às 3 da manhã, e enfim tirar o cadáver de dentro e um deles assumir o lugar do morto, enquanto que o parceiro carregava o corpo para longe depois de ter posto mais terra sobre o caixão e apagado qualquer rastro que os incriminassem.

Ou seja, quando você viesse visitar o túmulo de seu parente falecido para dizer algumas palavras de homenagem... você, na verdade, estaria falando com uma coisa que você desconhece e que está dentro do caixão provavelmente sondando cada palavra sua e ouvindo as aventuras e desventuras que você passou com aquela pessoa. Em outras palavras, o corpo localizado a sete palmos abaixo da terra não é a pessoa que você tanto amava.

O vovô acreditava, piamente, que era uma estratégia para colher informações.

Mas ainda não era o fim. Dizia-se também que os violadores que escolhiam usurpar o lugar do morto projetavam-se diante das pessoas que fizeram parte da vida dele... como fantasmas, por terem acesso à essência do morto no caixão e achei esse detalhe até inconsistente que desconsiderei por um bom tempo. Lembro perfeitamente de ter perguntado á ele: "Ué, mas como eles aguentavam ficar tanto tempo nos caixões? Eles não sentiam falta de ar?".

E ele respondeu uma coisa que me deixou atônita: "Tenho certeza de que pelo modo como falei antes eu não fiz, em nenhum momento, parecerem humanos.".

Sinto que ficou meio vago, mas, na época, absorvi como uma informação relevante e super profunda.

Desumanos ou... Inumanos?

Psicopatas ou... Monstros?

É impossível uma pessoa normal suportar tanto tempo dentro de um caixão com oxigênio limitado. A menos que tivessem "fórmulas mágicas" para desacelerar os sentidos e dar a impressão de uma "falsa morte", por meio de injeção... Ah, lá vou eu novamente inventando sandices.

De qualquer forma, ao lembrar dessa história, resolvi enterrar meu avô no cemitério daqui da cidade onde vivi com meu esposo. Em outras palavras, quebrei a tradição para que a memória dele não fosse desrespeitada por supostos monstros infratores. Além disso, quase ia me esquecendo, ele tinha um diário onde tinha uns desenhos de como ele imaginava a aparência dos violadores... na verdade, é um nome que ele mesmo atribuiu, pois a maioria da população que fomentava a crendice os chamavam de Usurpadores.

Queria avisar aos meus sobrinhos, aos meus pais, aos meus irmãos... que não enterrassem ninguém da família no cemitério da cidade natal dos nossos avós. E queria muito avisar aos meus futuros filhos também... que jamais vou ter.

Tenho esse costume de deixar a maior surpresa para o final, então... Vou contar a verdade, já delonguei muito.

Dias depois do funeral do meu avô, a história voltou com tudo na minha mente, não conseguia esquecer nem por um minuto, por mais que eu tentasse me distrair havia uma curiosidade me corroendo por dentro, me instigando a cavar mais fundo em busca de uma evidência concreta que corroborasse essa ideia que meu avô fez parecer tão realística e amedrontadora.

E cavei. Literalmente.

O caixão da vovó estava vazio. Mas eu soube a verdade. Na mesma noite, fui abordada por dois homens (se é que dá para chama-los assim) vestindo sobretudos cinza (tipo de detetive), usando chapéus pretos... e suas cabeças estavam cobertas por um pano negro que ocultava seus rostos, parecendo "homens-sombras". As "luvas" também eram do mesmo tecido.

Eles me agarraram... e me disseram (eles tinham vozes sinistras que me faziam arrepiar) que moldei meu destino ao exumar o caixão, argumentando que a primeira coisa que um violador/usurpador deve fazer para se tornar um é realmente violar uma sepultura, independente de qual seja a razão.

E depois me disseram: "Deve vir conosco para a iniciação".

Neste mesmo instante, eu pensei: "Não vou a lugar nenhum com esses maníacos!"

E nem quero saber que merda de iniciação é essa... Será algum tipo de seita?

Por sorte, me desprendi daquelas mãos negras e corri pelo cemitério sem olhar para trás. Eles não me perseguiram... mas ouvi dizerem, em curta distância, que irão me caçar até o inferno para que meu destino seja selado como foi com o deles. Daí pensei que eles não se limitam apenas àquele cemitério.

Mudei para um outro país. Forjei minha morte. Mudei de cidade, de endereço... até de nome. Só para não ser pega tão facilmente pelos monstros que querem me transformar.

Como calculei tudo friamente, o "corpo" foi inteiramente carbonizado no incêndio que eu mesma causei no meu carro, nem sendo reconhecido pela "arcada dentária" (isto segundo a polícia, vi numa manchete qualquer).

Sendo assim, não existe nada sob a terra. Nada abaixo da lápide com meu nome.

Nunca mais visitarei meus ancestrais.

Será que vou ter de escolher entre ser violada ou ser a violadora? 



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Este conto foi escrito e publicado exclusivamente para o Universo Leitura. Caso o encontre em algum outro site com créditos e fonte ausentes, não hesite em avisar! 




*A imagem acima pertence ao seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos ou intenções relativas a ferir direitos autorais. 

*Imagem retirada de: http://contosmedo.blogspot.com.br/2013/07/conto-depois-do-cemiterio.html



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