A Trindade do Apocalipse #3 (Final) - "Ultimato"


Alguns minutos antes:

Um dos soldados-demônios chamara a atenção de Brakmor, antes do mesmo sair do museu, para tirar-lhe uma dúvida sobre o trunfo maior que o guardião tinha se caso tudo o que planejou fosse por água abaixo.

- Senhor, com relação à nossa "arma secreta", a qual o senhor determinou... O que faremos com ela?

- Deixe que os acontecimentos sigam o seu curso. No momento é desnecessário tomarmos medidas extremas. Só o libertaremos quando preciso for... e eu vou gostar disso. - disse o guardião, novamente com um sorriso sarcástico ao final.

O soberano das trevas pegou seu precioso cavalo negro, cavalgando rapidamente em uma direção improvável. Todos os soldados o observaram de longe, até desaparecer no sombrio horizonte, principalmente Sektor, que havia pensado na real possibilidade de John sobressair-se em meio ao conflito de interesses que se instalara entre ambos.

- Meu mestre... eu deveria ter tido a honra de aconselha-lo a não subestimar a capacidade estratégica dos humanos. Ele certamente vai enfurece-lo ainda mais, vai fazer jorrar seu sangue se feri-lo... mas de uma coisa eu tenho total certeza: se ele obtiver o poder máximo da Lança e o mata-lo... Baniph e eu vingaremos-o nos embebendo com o sangue dele. - pensou a guerreira, arranhando com força o pilar de sustento da entrada do museu.

Relatório de sobrevivência; pág 48:

"Me senti obrigado a escrever mais uma página... porque estou sendo tomado por um medo que jamais senti na minha vida. Ele se aproxima... a minha morte se aproxima... Estou escondido, certamente serei pego e mandado para algum tipo de calabouço, ou serei morto aqui mesmo. Não importa. Meu esforço valeria a pena mesmo se eu fracassasse. Aquele velho estava coberto de razão... eu o subestimei... mas o pior de tudo foi ter subestimado aquele que está próximo a cavar minha própria cova." 

Galopes velozes foram ouvidos à uma distância aterradora por John, enquanto se encostou em uma parede velha e acabada, mantendo-se escondido, junto à Lança, ao Orb e ao seu diário. Brakmor, com seus olhos ardendo como chamas, junto à seu cavalo aproximava-se do cemitério como se estivesse rastreando a presença de John. E na verdade estava, só que de uma maneira mais instintiva. A forte energia espiritual que John emanava era a deixa que o Lord das trevas tinha para pegá-lo.

John, percebendo que seria inútil manter-se escondido na parede, tentou cavar um profundo buraco... o que seria impossível em menos de 2 minutos. Temendo fracassar vergonhosamente, desistiu quando nem ao menos havia alcançado 1 metro de profundidade, tamanho era seu medo. John, por toda sua vida, sempre teve medo de sentir medo. Colocou suas mãos sujas de terra na cabeça em sinal de desespero... e uma fina e cristalina lágrima caíra sobre aquele solo infértil. No entanto, após olhar olhar para trás e ter um vislumbre da iminente chegada de Brakmor, ele sentiu que a ideia mais prudente seria simplesmente enterrar a Lança, e logo posteriormente inventar uma desculpa que soasse o mais convincente possível. Entretanto, tal desculpa só permitia prever que seu fim estaria mais próximo do que imaginava.

- Eu me rendo! Eu me rendo! - disse John, levantando os braços em sinal de rendição para Brakmor.

O guardião dos portões do submundo freou seu cavalo de pele assustadoramente negra, bem próximo ao ponto em que John se encontrava. Desceu dele e caminhou lentamente em direção ao jovem. John recuava demonstrando, pela primeira vez em 7 anos, sua pior fraqueza: o medo.

- Olha, sei que veio aqui atrás da Lança, mas já aviso que ela não está mais em minhas mãos... só preciso que entenda meus motiv...

- Cale a boca! - gritou Brakmor, liberando sua fúria que acumulara durante o caminho. - Você já sabia que eu viria atrás da Lança depois que a roubou. Foi tudo um plano arquitetado pelas minhas costas! Me desafiou deliberadamente... agora irá pagar com sua vida insignificante.

- Faça o que quiser... mas nunca a terá em suas mãos imundas. Tenha total certeza disso. - disse John restaurando sua postura corajosa.

- Onde ela está? Não me diga que a deu para meu ex-subordinado para que, no fim das contas, ele realizasse a tarefa que você pensou estar destinado a ser?

- Está em um lugar onde nunca vai encontrar. Foi uma honra para mim trai-lo da maneira mais esperta possível, tenho que admitir. E só pra constar: não achei legal a maneira como você mandou seu ex-aliado até mim, planejando um sequestro.

- Zombe o quanto quiser. Seu destino já está selado após testemunhar o sofrimento que lhe espera na masmorra que nenhum ser vivo é capaz de manter-se são por muito tempo. Espero que morra louco e arrependido amargamente por ter me confrontado diretamente e, claro, com o peso do fracasso instalado em sua mente por não ter conseguido chegar aonde tanto queria. - disse Brakmor na intenção de diminuir o ego corajoso de John.

- Ok então... me rendo diante da sua inestimável grandeza, oh senhor guardião! - ironizou John, ajoelhando com as mãos para cima.

Brakmor franziu as sobrancelhas, em um claro sinal de estranheza ao ver aquela aparente rendição repentina. Ambos entreolharam-se com expressões sérias por alguns segundos, até a rápida chegada do exército de demônios, a qual não foi percebida por John de imediato.

- Hora de cumprir a primeira parte da sua sentença. Imagino que esperava que eu desistisse no momento em que descobri sua traição, mas graças a isto, vendo por outro lado, sinto-me mais confiante em minha busca.

- E eu me sinto desconfortável com estes seus soldados apontando estas lanças pra mim. - disse John olhando ao seu redor, onde se encontravam centenas de soldados-demônios armados com lanças prateadas e reluzentes, os quais temiam uma reação.

Algemado e levado pela tropa de Brakmor com certa violência, John saíra com um misterioso e discreto sorriso em seu rosto. O orb que portava antes de chegar ao cemitério foi deixado largado lá, sem que nenhum dos soldados ou até mesmo Brakmor percebesse. Curiosamente estava coberto com um pouco de areia.

Brakmor, no entanto, sentiu-se obrigado a reformular a pergunta principal.

- Esperem! Ainda tenho uma pergunta a fazer. - ordenou ele, fazendo os soldados pararem. - O que realmente aconteceu com a Lança quando estava fugindo para cá?

- Já que insiste... vou te contar a verdade. Me roubaram ela. Foi tudo muito rápido, não tive chance de me defender... por essa razão nunca vai encontra-la. - respondeu John, com sua desculpa planejada.

- Vou investigar isso... se eu descobrir que mentiu mais uma vez, você testemunhará o caos absoluto reinar definitivamente neste mundo condenado. Fui claro?

- Com relação à última frase, não tanto. E certamente vou descobrir o que ela significa mais tarde, suspeito eu. - disse John, levemente desconfiado.

- Levem ele daqui. - ordenou Brakmor, sem vontade de prolongar tal conversa.

John logo havia percebido que seu algoz tinha uma verdadeira e sinistra carta na manga. Tal frase fez vir à tona a questão que o intrigou durante o caminho em direção ao palácio: Poderia ter sido esta catástrofe apenas um prelúdio à um evento maligno de proporções ainda mais devastadoras?
Tudo levava a crer que o verdadeiro apocalipse estivesse prestes a acontecer, se caso Brakmor deixasse-se levar pelas emoções mais fortes. No museu, o velho misterioso andava um tanto perdido nos longos corredores. Desesperado por uma saída, e, acima de tudo, preocupado com a segurança de John, especialmente da Lança.

- Que lugar mais estranho. Ao que parece, estou preso em um interminável labirinto. Não tenho muito tempo, preciso salvar John...

Foi interrompido pela porta de saída bem na sua frente, após inúmeros corredores e salas. Empolgado, abriu-a com força, saindo à procura urgente de seu companheiro. Apenas o pior estava impregnado em sua mente: John morto, Lança em posse de Brakmor, futuro perdido do universo...

Relatório de sobrevivência; pág 50:

"Perdi a batalha, tenho que admitir. Mas esta guerra ainda não acabou. Mesmo preso nesta fétida masmorra, ainda tenho minhas esperanças vivas dentro de mim... ou ao menos estou tentando mante-las assim, por enquanto. Eu ainda creio... acredito que... ah, você que deve estar lendo este diário já deve saber. O fato é que ainda tenho meus coringas na manga... ele não perde por esperar. O futuro do universo está em jogo e não devo ficar parado assistindo a este show de horror. Sou eu quem devo dar um fim nisso... no entanto, há uma questão que me perturba: E se tudo isto for apenas o início do fim? Preciso da Lança, preciso recriar o mundo, se ao menos eu pudesse voltar no tempo e impedir essa catástrofe no exato momento em que ela começou... porém, temo pelas consequências... há uma grande chance de eu fazer uma tremenda besteira." 


Sentado em um canto frio e escuro da prisão na masmorra, John curvara-se diante de tudo o que o afligia naquele difícil momento, regado a dúvidas e incertezas. Seu diário, escondido em um dos vários bolsos de seu sobretudo, ainda estava com inúmeras páginas em branco, as quais ele pensava ser improvável que fossem preenchidas. Baniph e Sektor surgiram minutos após a última escrita, como porta-vozes de Brakmor, em um comunicado importante.

- Nosso mestre nos mandou avisa-lo de que cumprirá sua vindoura sentença dentro de poucas horas. Alguns soldados foram designados para a tarefa de encontrar a Lança em vários locais, e não acharam nada que pudesse provar o que havia dito anteriormente. Portanto, como você mentiu novamente, sua sentença será elevada e antecipada. - proferiu Sektor, com um certo olhar de desprezo à John.

- Deve estar se perguntando por que isso ocorreu tão rápido se está aqui a tão pouco tempo. Acontece que nosso mestre ordenou telepaticamente aos soldados que estavam em frente ao museu para que cumprissem tal tarefa, em simultâneo à sua prisão. Pode acreditar: eu nunca o vi tão furioso em todos estes anos de nosso império. - disse Baniph.

- Era a última coisa que eu esperava saber... não fico surpreso. Avise à ele que estou esperando ansiosamente para a surpresinha que me espera. - disse John, zombando ainda que fosse condenado.

- Não parece nem um pouco... temeroso. Você tem algo diferente em relação à outros humanos. Algo que sempre acreditei não haver em seus corações. O que o torna tão confiante, mesmo sabendo que será condenado à morte em breve? - perguntou Sektor, agarrando suavemente a grade com a mão direita. Enquanto Baniph a olhava com certa desconfiança.

- Algo que vocês demônios nunca irão entender... se a essência humana, embora tenha seus prós e contras, ainda é incompreendia logo por nós, humanos, imagine para vocês... seres ignorantes que acham que subjugar inocentes é uma prova de superioridade máxima. - disse John, levantando, e em seguida encarando-as.

- Chega! Tem o direito de permanecer calado até a hora de sua execução. Verme rastejante. No entanto, eu queria estar aí com você... seduzindo-o, provando da sua carne... e, principalmente, elevando suas tentações a um outro nível... seria delicioso e excitante. - disse Sektor, lambendo seus negros lábios e encarando John com um olhar sedutor, em sinal de luxúria.

- Desculpe... mas você não faz o meu tipo. - respondeu John, em tom sarcástico.

- Hum... que pena. Esta seria uma oportunidade valiosa. Mas irei me deliciar ainda mais vendo você queimar e ser reduzido lentamente às cinzas. Vamos Baniph, já perdemos tempo demais.

As duas retiraram-se rapidamente, porém, Baniph virou para trás e mostrou sua face demoníaca para John, demonstrando, aparentemente, estar enojada.

- É... as aparências enganam mesmo. - disse John, encostando fortemente suas costas na parede.

Após mais minutos se passarem, John, que desenhava formas estranhas no imundo chão, fora surpreendido com a repentina chegada do velho, através de um estranho teleporte.

- Olá John.

- É quem estou pensando que é? - perguntou John, com um leve sorriso de surpresa.

- Para minha felicidade, você está vivo. O seu plano foi ótimo, devo admitir.

- O meu plano de roubar a Lança, certo?

- Claro que não, seu tolo. Me refiro ao plano de resgata-lo. Achei ótimo você ter inserido parte do seu pensamento no Orb, para que eu, quando o pegasse, soubesse onde estaria. Nem mesmo eu imaginava que ele possuía tal função.

- E eu não consigo imaginar como eu descobri isso. Mas é melhor nós sairmos daqui logo. Mas não entendo uma coisa: como chegou aqui com a ajuda do Orb, sendo que havia me dito que ele apenas teleporta para outras dimensões?

- Bem, é uma de suas muitas funções. Mas vamos, segure firme meu braço. - disse o velho, estendendo seu braço direito à John.

Ambos se teleportaram com o auxílio do Orb, levando alguns resquícios de poeira e pouco da terra imunda da prisão junto. Chegaram a um topo de uma alta montanha, localizada em um deserto.

- Nossa... é bem estranho e engraçado. Não estamos em outro país, estamos? - perguntou John, tocando suas braços e suas vestes, olhando para os lados.

- Suponho que não. A única desvantagem que a pessoa tem ao usar o Orb para teleporte é o nervosismo. Você estava bem relaxado, se ocorresse o contrário estaria deslizando sem rumo no espaço-tempo. - revelou o velho.

- Ei, espera aí! Você tinha que trazer a Lança. Por favor, me diga que não a esqueceu. - indagou John, desesperado.

- Fique tranquilo, aqui está ela, sem nenhum arranhão. - disse o velho, tirando a Lança de suas vestes, o que soou estranho para John.

- M-mas como...

- Não importa no momento. É uma questão irrelevante. Nos foquemos apenas em acabar com este reinado sombrio.

- Ok. Vou fingir que você é um velhote normal, que só está me orientando a seguir um rumo perigoso diretamente à fonte de todo o caos. - reclamou John.

- Não sei o que quis dizer, mas saiba que percebo de longe que está sendo vítima de um medo incontrolável, e uma vez tomando conta... ele o incapacita incessantemente. - disse o velho, apontando o dedo para John sinalizando advertência.

- Quero deixar bem claro que não estou com medo. Não é e nunca foi uma opção. Apenas confie no meu instinto protetor, e dar um último voto de confiança, para que no fim tudo saia de acordo com o que foi pensando.

- Não John, está enganado. É você quem deve dar o voto de confiança... a si mesmo.

Um enorme e altíssimo estrondo é ouvido por ambos, repentinamente. Os dois se entreolharam assustados e desconfiados. Um pequeno terremoto é sentido, fazendo parte da montanha ir abaixo, ou pelo menos bastantes rochas pesadas. John e o velho se abaixaram, onde ficaram apenas ouvindo as vibrações fortes do tremor.

- M-mas o que é que está havendo? - perguntou John, com uma fala desesperada.

- Eu não sei! Obviamente parece ser algo que foi planejado para nos pegar de surpresa! - alegou o velho.

Após cerca de 10 minutos, o tremor cessara, deixando inúmeros rastros. John e o velho levantaram-se lentamente, um tanto atordoados com o abalo repentino. No horizonte, pôde-se ver uma pequena luz de cor alaranjada emergir do chão, contrastando com o céu azul sombrio. Mais um estrondo e um pequeno tremor... Àquela altura, apenas uma coisa ficara elucidada: algo muito maligno estava prestes a adentrar no mundo.

                                                                      ---

Alguns minutos antes:

Dirigindo-se à sala onde o amado mestre se encontrava, Sektor e Baniph permaneciam ansiosas, com as línguas fervendo para avisar ao guardião sobre a misteriosa fuga de John. A passos largos, ambas entraram destemidamente, convencidas de que o resultado do aviso seria imensamente prejudicial, tanto para John quanto para o resto do mundo.

- Meu mestre! Viemos aqui para avisa-lo de que o prisioneiro fugiu misteriosamente. - disse Baniph.

- A maneira como ele utilizou pra escapar ainda desconhecemos. Presumo que o senhor tenha algo em mente. Aliás, posso lhe dar algumas sugestões, que certamente farão aquele inseto sofrer o pior...

- Chegaaa!!! Parem com isso!! - esbravejou Brakmor, levantando-se do trono, assustando as duas servas.

- N-nós entendemos o fato de estar aborrecido... m-mas, por favor, valorize o que temos em mente, queremos mais do que tudo auxilia-lo nesta guerra, sempre foi assim. - disse Sektor.

- Não. Vocês não entendem. Aquele humano miserável foi o único que desafiou minha soberania, ferindo meu orgulho. Esta guerra não é mais entre eu e o resto desta espécie decadente... mas sim entre mim e ele, somente! - justificou Brakmor.

- Só nos resta uma só pergunta, meu mestre: Qual a única alternativa viável para dar à ele o castigo que merece? - perguntou Baniph.

Brakmor apenas franziu as sobrancelhas em sinal de desaprovação, recusando dar uma resposta para uma pergunta vil, em sua visão. No entanto, após andar de um lado para o outro com as mãos para trás, ele decidiu pôr em prática o trunfo que garantiria tanto a sua saciedade por destruição e caos quanto a condenação definitiva de todo o mundo. Não restava mais nada além daquela ideia extrema. Era apenas o que havia de ser feito, sem qualquer imposição de limites.

- Libertem o Hannakun. - disse Brakmor, virando seu pescoço lentamente, com seus olhos adquirindo um vermelho ainda mais vivo e flamejante.

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No deserto, do alto da montanha, John e o velho ainda contemplavam apreensivos o despertar do mal absoluto que estava prestes a inundar a terra. Ficaram vários minutos esperando alguma reação nova daquela coisa assustadora. A luz alaranjada diminuíra conforme o tempo passava. Porém, o que viria a seguir não chegara nem perto do que se esperava.

- Agora tudo começa a se encaixar... - falou John, mantendo seu olhar fixo na tal luz.

- O que quer dizer? - perguntou o velho.

- Lembro que Brakmor havia me dito que eu testemunharia o caos absoluto reinar na Terra se caso descobrisse minha mentira.

- Mentira!? Do que está falando John? Não me diga que...

- Sim! No momento em que ele estava prestes a me prender eu menti sobre onde estava a Lança, afirmando que ela foi roubada de mim. E agora começo a perceber que isso só fez piorar as coisas. - revelou John.

- Por que mentiu se sabia dos riscos? Tenho a impressão de que não elabora planos pensando exatamente em tudo. Afinal, deveríamos ter em mente que você deveria levar uma réplica e a verdadeira consigo.

- Tá vendo só? Não é apenas eu que não penso em todo o plano. Aliás, mesmo que eu portasse uma réplica e ter escondido a verdadeira em seguida, ele descobriria num piscar de olhos. Se a que você colocou no local de conservação não parecia tão real, imagine a que eu daria à ele se eu fizesse essa parte que esquecemos. Nenhuma daquelas réplicas eram autênticas o suficiente pra engana-lo, essa é a verdade. - ponderou John.

- Sim... você têm toda a razão John. Tenho grande parte da culpa. Nós dois falhamos... mas não pagaremos o preço, a menos que use a Lança e redefina o conceito de universo. Tome-a. - disse o velho, entregando a Lança para John.

- Eu deveria dizer que não era necessário se culpar. Mas agora vejo que você tem culpa... e bastante. Pois foi você que me conduziu até Brakmor, quando tinha a oportunidade de se teleportar para outro mundo com o Orb, e ter me deixado naquela montanha de ossos.

- John, entenda. Sem a ordem de Brakmor você jamais lembraria da existência da Lança, aquele aviso foi apenas para lhe dar uma esperança de que havia uma forma de parar esta calamidade. Percebo sua frustração, mas de uma maneira ou de outra você estava predestinado a confrontar Brakmor, não importando as circunstâncias. - explicou o velho, na tentativa de abrir os olhos de John para a real importância de seu contato com ele. - Apenas use a Lança... e dê um fim nisto.

John permanecera calado, pensativo e desnorteado. Um misto de sentimentos afundou suas esperanças para um limbo profundo. A última lágrima foi derramada. Não havia mais volta ou como pensar em uma maneira diferente de consertar. Aquele poder... em suas mãos novamente lhe parecia uma vindoura maldição. Alimentar as incertezas não era mais uma opção. Após aquele pronunciamento do velho misterioso, ocorreu o evento que certamente faria John se preparar para o que deveria fazer.

Mais um estrondo fora ouvido... era ela... ou melhor, ele... quebrando a crosta terrestre com uma facilidade tamanha, o monstro emergira em meio a extensa e densa lava de vulcão, que pintava o rochoso solo do local do despertar. Ela se dirigira para um penhasco, correndo como um animal selvagem à procura de liberdade para expressar sua ferocidade. Ali, utilizou seu único recurso para dar início a uma nova era de caos... o definitivo e inevitável caos estava se aproximando.

- Q-que rugido é esse? Soa como um enorme exército de leões. - indagou John.

- Eu bem que gostaria que fossem leões... mas esse rugido não me soa estranho... n-não pode ser. E-ele fez... - disse o velho, desesperando-se aos poucos ao olhar a luz alaranjada ressurgir novamente.

- Peraí, como assim? Não me diga que Brakmor libertou um exército de demônios?

- Ainda não John. Esse rugido foi um chamado. Brakmor acaba de libertar a criatura mais repugnante de todo o submundo. Trata-se do Hannakun, a criatura que prenuncia o apocalipse. Seu rugido é capaz de rasgar os céus. E tudo o que virá depois deste rugido será apenas morte, destruição e peste. Os únicos sobreviventes restantes, mesmo escondidos, não terão chance alguma. Eu jamais pensei que ele fosse tão longe. - revelou o velho.

- Então era isso... Brakmor tinha essa carta na manga o tempo todo. Não vou ficar aqui parado esperando o pior acontecer... sinto-me mais confiante agora.

- É a única coisa boa que consigo ver nesse exato momento. Vá John... está livre para fazer o que quiser em relação à sua escolha. Vá, pois daqui a poucos minutos um exército varrerá este lugar, incluindo o que virá dos céus através de portais. Desça a montanha e faça o que deve ser feito. - orientou o velho.

- Mas e quanto à você?

- Não se preocupe, vou procurar meu refúgio... o vento está ficando mais forte e as cinzas de vulcão estão aumentando... melhor você ir.

- Antes de mais nada, quero agradecer... por ter confiado em mim. - disse John, abrindo um leve sorriso.

- Sua gratidão não é necessária. Talvez nos vejamos novamente... algum dia.

- Assim espero. Cumprirei a promessa e trarei um universo renovado... estou preparado.

John descera a montanha enfrentando a forte ventania que teimava em tentar derruba-lo. Seu sobretudo ficara repleto de resquícios de cinzas de vulcão. Caminhou livre e destemidamente pelo deserto, até parar em um ponto onde já não era mais possível vê-lo por causa da forte poeira. A criatura de seis olhos, patas grossas, pele de um vermelho escuro, longa cauda espinhosa, com mais de cem dentes e quatro chifres - sendo dois na cabeça e dois próximos à mandíbula -  provocara a catástrofe iminente com seu segundo rugido, o qual fez com que feixes de luz solar disparassem em simultâneo no céu azul sombrio.

John permanecia parado, com a Lança em posição vertical nas duas mãos, aguentando firmemente a tempestade de poeira. Lentamente ele a levantou... e o desejo de criação veio à tona com mais intensidade. No entanto, pegando John de surpresa, o Orb surgiu na ponta da Lança, o que sugeriu a hipótese de ter sido arremessado... pelo velho.

- Ah não!!! Por que esse velhote é tão teimoso!? - disse John, com um semblante desesperado.

Instantaneamente, o Orb adquiriu um brilho forte, que rapidamente tomou conta do campo de visão de John. Uma singularidade se criou por cima do jovem arqueólogo, a qual o sugou juntamente com toda a poeira provinda da tempestade.

De pé, John acordara em uma sala de cor verde escurecido, onde se encontrava um carpete roxo, um lustre folheado a ouro, dois espelhos na parede esquerda e na da direita e... um homem. Sentado em um trono de cor branca, estava um homem careca e com um ar enigmático. O mesmo se apresentava com as mãos juntas e as pernas cruzadas, mantendo uma expressão séria diante de John. Também estava com as mesmas vestes do jovem.

- Olá John. Estava o esperando. Me chamo Amarantho, sou o criador da Lança.

- Como sabe meu nome? Aliás, como vim parar aqui? Era para ter acontecido o que imaginei, o universo que idealizei.

- De fato seu companheiro, evidentemente, deixou o principal detalhe mais implícito que os que foram apresentados. Primeiramente, o portador deve passar por mim, sem quaisquer divergências ideológicas ou reações contrárias e atitudes petulantes. Você veio à mim através de uma regra que estabeleci com base nos meus esforços em manter este segmento devidamente padronizado. - disse o tal homem.

- Aquele velhote... eu devia imaginar que ele escondia algo de mim... mas não algo tão surpreendente.

- Sua sensação de surpresa não me incomoda, pelo contrário. Estou deveras satisfeito por ser o único portador a não quebrar o paradigma, que, por sinal, é irrevogavelmente fixo. Devo adiantar e assegurar à você que algumas de minhas respostas irá compreender... outras não tanto. Portanto, o que direi a seguir requer o máximo de sua atenção, até o limite se for preciso. - disse Amarantho, levantando-se do trono, caminhando a passos lentos para ficar de frente à John.

- Antes de tudo, gostaria de perguntar algo: Por que está vestindo o meu sobretudo e assumiu esta aparência humana? Afinal de contas, se és o proprietário original, seria mais convincente se se apresentasse com sua forma definitiva.

- É uma questão irrelevante neste momento, embora seja pertinente às suas dúvidas mais excruciantes. Se eu estivesse com minha forma original estaria, certamente, cometendo uma atrocidade imperdoável, a qual eu defino como um atentado à uma frágil e debilitada mente que acabara de vivenciar o caos vigente em seu mundo. Vai além de sua compreensão... além de qualquer mente igualmente humana e com equivalente estado da sua.

- Creio que a questão mais óbvia seja... Por que eu estou destinado a ser o que a Lança quer?

- A Lança escolhe seu portador. Seus predecessores jamais saberiam os significados que este milenar artefato possui, a menos que aceitassem seus destinos equilibrando leis complexas e regendo uma interminável cadeia de eventos, pela qual são obrigados a cumprirem como tarefa crucial. A explicação geral é que houveram quatro antes de você a utilizarem a Lança, a qual, vocês humanos, erroneamente atribuem o termo que vocês realmente julgam como o decorrer de uma vida.

- Quem foram eles? - perguntou John, curioso.

- A cada sete mil anos, um portador é escolhido para assumir o total controle do universo, aliás, do qual você pertence. A Lança é apenas uma de dez relíquias universais que, durante séculos, deslizaram incessantemente pelo espaço-tempo, sem nenhum rumo definidamente fácil. Existem cerca de dez universos alternativos à este, logo, para cada universo uma relíquia.

- Mas a lenda dizia que qualquer um que possuísse a Lança, somado ao desejo de poder, teria a chance única de remodelar o universo à sua maneira. Eu já imagino que irá me contrariar.

- Imaginou certo. Jamais pude pensar que o 5º portador fosse tão pateticamente crédulo. Aquele que for digno de seu poder é, obviamente, incumbido da tarefa que a Lança propõe. É o cúmulo da ingenuidade achar que qualquer um possa deter tamanho poder em mãos. Se fosse o caso, um colapso de proporções inefáveis abalaria as frágeis estruturas daquilo que vocês chamam de universo.

- Está bem, me sinto convencido. Agora está mais claro pra mim o fato de me sentir dono deste poder. Mas outra pergunta que não quer calar: Como e por que vocês, que são os criadores, não assumem suas responsabilidades, ao invés de julgarem portadores? - perguntou John, confuso até certo ponto.

- Esta é a nossa responsabilidade primordial. Mas como eu havia dito: a relíquia escolhe seu portador e é assim que vai permanecer. Nós apenas somos designados à cumprir o dever de orientarmos tal portador, a fim de podermos contemplar seus feitos, bem como seu domínio. Mas que fique bem claro que seus predecessores não eram como você.

- Está dizendo que não eram humanos, certo?

- Precisamente. Afinal, seria injusto deixarmos o fardo por conta de uma única espécie. Eu posso até imaginar o que pensas agora... Está achando que somos algum grupo de entidades divinas... simplificando: acha que somos deuses. - disse o homem, aproximando-se ainda mais de John.

- Foi a primeira coisa que pensei quando mencionou que era complexo demais pra mim. Vocês transformam "reles mortais" em deuses, não é verdade?

- "Deus" é um termo humano incansavelmente atribuído a qualquer entidade fora e distante da lógica de tal espécie. Não chame-nos assim. Não se chame assim. Em todos estes séculos, andei estudando sua espécie e vi que, um dia, nenhum de vocês seriam dignos de portar a Lança. Eis que agora provou-se o contrário. Durante meus profundos estudos, percebi que aquilo que chamam de arrogância e mania de grandeza - vulgo complexo de superioridade - é algo já enraizado na essência. E é compreensível que ajam desta forma para satisfazerem-se... eu não tenho o que afirmar contra. É natural... a não ser que mude este conceito.

- É isso que pretendo mudar. Almejo não só um mundo diferentemente ideal mas também um universo que... ah, é algo tão...

- Complexo!? Sim, eu entendo como está se sentindo. A tentação que a Lança impõe sobre o portador deve ser interpretada da maneira mais simples possível, no entanto, a realização subsequente é algo que você nem mesmo irá entender. Será repentino... como o caos vigente no seu mundo, o qual você observa no espelho à sua esquerda. - disse o homem apontando para o espelho com o dedo indicador.

No espelho, foram mostradas imagens da ascensão do exército de demônios, causando uma varredura de caráter catastrófico em diversas partes do mundo. O semblante de John se tornara o rosto de um ser tão vítima de seu desespero quanto alimentador deste. Outras imagens se alternaram, apresentando destruições, maremotos, inúmeras criaturas das mais horrendas pisando no solo infértil e outras sobrevoando a terra aos milhões, em uma agoniante marcha em meio ao fogo emergente.

John fechou o punho sinalizando o sentimento de raiva inevitável. Entendeu aquilo como um irreparável fracasso.

- Eles venceram... não é mesmo?

- Eu confirmaria isto se caso não tivesse encontrado a Lança e sido vítima do que está observando. Mas revelando um outro detalhe: o tempo funciona de maneira distinta nesta sala em relação ao seu universo. Já fazem exatamente cinco dias que estamos aqui, enquanto lá somente cinco horas.

- O quê!? Só pode estar brincando! - exclamou John, surpreendido.

- Eu sempre estou falando sério, que fique bem claro. - disse o homem, em tom rigoroso.

- Antes de tudo, eu gostaria de fazer uma outra pergunta. O meu antecessor renunciou a posse da Lança por qual motivo?

- Confesso que desconheço. Sua desistência precoce ocasionou o surgimento de uma falha, ou, mais precisamente, uma anomalia irreparável. Esta, que por mais indesejável e desprezível que fosse, estava distante do que meus esforços poderiam realizar para uma eventual reparação. Em outras palavras, o fato da anomalia ser tão grave só fez com que eu me desencorajasse a fazer algo para reverter, e sendo assim, acabei deixando por isso mesmo, o que foi uma pena, já que o resultado de tal anomalia criou mundos inferiores, cujos habitantes não tenho palavras em mente para descrever.
Este foi o pior desequilíbrio espaço-temporal que já testemunhei. Agora, presumo que entenda como a sua espécie se deixou levar por sentimentos malignos pela evidente influência de tais mundos. - revelou Amarantho.

- Nossa... agora tudo realmente parece se encaixar perfeitamente. Finalmente consigo... entender certas coisas que fizeram a humanidade chegar a esse patamar. Acho que meia palavra já é o bastante pra falar a respeito de que entendi.

- E não é necessário. Guarde para si mesmo. Chegou a sua vez. Imagine... com a Lança na mesma posição em que estava quando foi enviado à mim... imagine o seu universo ideal. Como ele seria? Somente pense. Pense bastante.

- E sobre o Orb? Se uma única relíquia deve entrar em determinado mundo, então o Orb certamente é uma... então como e por que ele está no meu mundo?

- Eu descartei propositalmente este detalhe por acha-lo dispensável. Mas já que perguntou, devo dizer que o tão chamado Orb, na verdade, é uma sub-relíquia. Todas as relíquias possuem sub-relíquias correspondentes às suas funções. O Orb tem energia cósmica compatível com a Lança, logo explica sua permanência no seu mundo.

- Eu não sei... E se eu falhar? E se um humano como eu não tiver inteligência suficiente para fazer algo dessa proporção... sinto que não sou merecedor. - disse John, em um tom que denota uma possível desistência.

- A Lança acha que sim. A verdade mais simples e óbvia é que se o portador não confiar totalmente no artefato, certamente o artefato não irá retribui-lo. Tudo estará de acordo com suas vontades, não importa o que seja. Haja o que houver, terá que fazer escolhas, as quais, espero eu, que sejam diferentes das de seu predecessor. Não é necessário que recomece tudo... crie à sua maneira, na velocidade que achar melhor... está livre para fazer sua escolha. E então, John? Qual a sua decisão final? - perguntou Amarantho, preparando John para o momento que decidirá o destino de tudo.

John, sem esperar um segundo a mais, levantou a Lança. A mesma expressou o mesmo brilho que o fez anteriormente, no entanto, de uma cor branca passou para um azul anil forte e vivo.

As últimas palavras do encontro ficaram marcadas... eternamente no criador da Lança.

- É uma pena que não nos veremos de novo... obrigado. - disse John, segundos antes de desaparecer por completo.

John, estranhamente, acordara na sua cama, em seu bagunçado quarto. Respirando ofegante, olhou para os lados temerosamente. Feixes de luz solar iluminavam parte do quarto, através das persianas. O jovem arqueólogo levantou-se lentamente da cama, ainda confuso em relação ao que acontecera. Pôs as mãos na cabeça sentado, em uma expressão preocupada. Um interminável e profundo segmento de pensamentos só o deixou mais vulnerável à situação.

- Então... foi tudo um sonho!? - pensou ele. - Não... não pode ser. Eu achava que...

O toque de um celular cortou seu raciocínio bem no momento de sua alta reflexão. Atendeu o chamado, no entanto, ninguém falou. A tela do aparelho acendeu novamente e uma mensagem surgiu em letras garrafais. A mesma dizia: "ENTÃO PENSAS QUE FORA UM SONHO!? QUANTA TOLICE. ESTOU ESPERANDO VOCÊ... PREPARA-SE PARA SEU FIM... PREPARE-SE PARA A GUERRA!"

John deixou seu celular cair no chão, permanecendo com sua mão direita trêmula. O misterioso anônimo era a questão que o torturava naquele instante. Verificou todos os cantos do quarto, até que, no fim, na última gaveta de sua cômoda encontrou... aquilo que pareceu irreal aos seus olhos.

- N-não... eu não posso acreditar.

A Lança do Destino encontrara-se intacta. John a pegou e agarrou-a firmemente.

- Então era verdade. Acho que minha família está me esperando... com uma farta mesa de café da manhã... como todos os dias. - disse com lágrimas nos olhos, mas sorrindo.

Porém, o jovem ergueu a cabeça olhando para a janela, especificamente em direção ao sol. Apontou a Lança na direção da maior estrela do sistema. Sua expressão, embora séria, lhe proporcionou uma coragem jamais antes sentida.

Suas últimas palavras antes de se unir à sua família e ao novo mundo declararam um vindouro confronto.

- Não sei quem você é... mas se eu o criei, terei o maior prazer em destruí-lo.

                                                                     FIM(?) 

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