sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Contos do Corvo #20


Excepcionalmente nesta edição e nas duas próximas, os personagens conhecidos como a menina e o coveiro não farão participações nas introduções que antecedem as histórias, em virtude da história narrada não só ser dividida em três partes, como também é parte integrante da história geral a qual abrange uma trama mais extensa e com final diretamente conectado à série spin-off, Crônicas da Raposa, cuja protagonista é um animal falante pertencente à uma aldeia devastada por um ataque de lobos selvagens (também falantes) em um mundo diferente do nosso. A conexão que ambos possuem será elucidada à medida que a série for dando avanços significativos no enredo.

Os personagens humanos pertencentes à Contos do Corvo retornam na edição 23, quando as lendas urbanas conhecidas do personagem voltam a serem narradas até a edição 27, onde se encerra a leva deste ano e, consequentemente, faz a série entrar em um novo hiato para dar lugar a estréia de Crônicas da Raposa.

O prelúdio a seguir não foi exatamente contado pelo Corvo para os outros dois personagens, já que ele nunca pretendeu revelar informações muito profundas a respeito do que presenciou e do quão forte é a ligação com sua origem, e provavelmente não o fará tão cedo. Portanto, pode-se determinar que o Corvo narrou esta história para si mesmo em pensamentos, como se estivesse fingindo interagir com a menina e o coveiro, para meio que suportar o sentimento incômodo que todo esse receio causa.

Segue abaixo a primeira parte do prólogo do spin-off.

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                                                                  O CLÃ DE RAPOSAS (PARTE 1)


Foi no conhecido estado do Colorado, quando meu bando resolveu seguir voo em direção à uma região florestal , pouco visitada por humanos, embora bastante povoada por animais selvagens que por ali deambulavam, sendo predadores e presas. No entanto, meu vínculo com eles deu uma leve quebrada quando passei a me concentrar numa eventual visita de certas pessoas desavisadas. Aliás, eram campistas, cerca de pelo menos 10 pessoas divididas em 2 grupos de 5. Um passou a ficar na casa próxima à um pequeno lago semi-poluído e o outro acabou por armar barracas de acampamento justo no ponto mais perigoso da floresta, localizado à 15 quilômetros da casa. Tudo isso decidido por suscetivas "partidas" de pedra-papel-tesoura, o bastante para eu acha-los um bando de crianções. Enfim, deixando de lado os pitacos, o grupo A era uma equipe de cinegrafistas ambientais de uma rede de televisão à cabo que foram zoar por lá apenas para gravar um documentário sobre a população de raposas que vivia ali, além de terem sido os que ficaram com a parte desafiadora do passeio. E o grupo B eram telespectadores selecionados e que acompanhariam as gravações ao vivo do programa por meio de monitores instalados nos quartos.

Demorou para que eu pudesse perceber que àquela altura eu já me distanciei dos meus parceiros de voo e já estava observando as duas turmas. Fiquei uns 10 dias apenas vigiando nas sombras. O líder da equipe do programa era Louis, um rapaz jovem de cabelo castanho, todo certinho e aparentemente o mais famoso dentre os demais.

Houve uma mudança de planos no 11º dia, por conta de um forte odor fétido vindo do lago em frente à casa, podendo ser sentido à quilômetros. Eu disse semi-poluído, não foi? Então... acontece que o problema ganhou agravantes conforme os dias passavam. Parecia excrementos de milhares de animais amontoados no fundo junto com urina, vômito e talvez sangue, ou outros tipos de secreções infeccionais. Tudo junto e misturado. A água, de acordo com os relatos dos fã-clube do programa, parecia borbulhar lentamente na parte mais distante e ganhar coloração preta em questão de horas.

O grupo A tratou de pôr aquele caso como a primeira "aventura" do programa daquele dia, discutindo coisas como os malefícios da poluição ambiental e deduzindo uma penca de teorias sobre aquele tipo de poluição tão incomum. A única mulher do grupo A, Leslie, tratou de colocar mantos de fibra protetora afixados nas janelas da casa até que a equipe de descontaminação viesse.

No 12º dia, bem cedo, foram encontrados restos mortais de raposas vermelhas que levavam aos cadáveres (ou o que restou deles) das mesmas espalhados pelos arredores do acampamento, forçando o grupo A a mudar o ponto de estabelecimento, mas a divergência só provocava mais desavenças entre os membros. Eles deduziam a ação de outros animais menores infectados que transmitiam a "doença misteriosa" para os mais grandes, como as raposas, que bebiam da água do lago.

Ao que parecia, o lago ficava pior sempre às madrugadas. Um gorducho que esqueci o nome, integrante do grupo B, foi o primeiro a ter a "brilhante" ideia de vigiar o lago... mas para isso ser possível deveria-se espiar pela janela, mas todas estavam cobertas por aquele pano. Então, nada melhor do que sair pela porta da frente e se esconder em algum arbusto próximo ao lago e conseguir a prova... por meio de uma câmera de celular.

Que o plano não tinha absolutamente nenhuma chance de dar certo, já estava na cara. Ele não leu o folhetozinho que os caras do grupo A deram à eles e acabou se fodendo legal, pois era extremamente perigoso ficar muito próximo do lago diante do nível de contaminação. Seu corpo pútrido, cinzento e duro feito rocha e com os olhos revirados foi achado na manhã do 13º dia.

Manny, outro cinegrafista, deu a ideia de que as imagens dos cadáveres das  raposas não deveriam ir ao ar no programa, mas já era sabido que o alto escalão ia ordenar um corte quando soubessem.

A teoria mais aceita era a de que as primeiras raposas infectadas foram as responsáveis por fazerem as necessidades no lago. Necessidades com vários aditivos como: Pus, sangue e um muco estranho. Isto segundo a análise que Leslie coordenou com Manny e Joe - o nerd de óculos e cabelo loiro espetado - quando pegaram amostras das substâncias encontradas no lago. Claro, usando roupas protetoras. Pareciam astronautas coletando resíduos de um líquido alienígena num outro planeta.

Na noite do 14º dia, eu fiquei num galho observando a barraca de Louis e Leslie, já no outro ponto de estabelecimento, mais distante da casa.

Eu escutei barulhos sorrateiros. Eles também, mas depois de mim. Leslie saiu para fora com uma lanterna e dava passos cuidadosos. Manny, Joe e o outro integrante, que esqueci de citar, o Drake, o mais novo, estavam dormindo.

Poucos minutos depois, Louis saiu da barraca preocupado com Leslie e foi à sua procura. Eu segui Louis até o ponto onde os cadáveres foram encontrados... e não haviam sido recolhidos pois todos eles precisavam cuidar dos detalhes da edição do programa e isto os deixou muito ocupados, sem tempo para tira-los dali.

O problema é que os corpos tinham sumido misteriosamente. 

E um grito de horror de Leslie foi ouvido à uma curta distância. 


CONTINUA...



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