Conheci um velho colecionador de bolas de gude...


Sinceramente, não faço ideia de por onde começar a falar sobre esse estranho ocorrido. Eu mantive em segredo para não ter que acabar sendo chutado à uma sala branca e acolchoada e mofar lá com uma camisa de força. Me arrepio só de pensar. Aliás, eu não sei nem o que pensar... Mas vamos lá... devo me sentir grato por ter conseguido passar dessa voltando a respirar o ar que eu já estava acostumado.

Mas só deixando bem esclarecido que não foi algo simples de encarar, o título é meio enganoso vendo por esse lado. Era verão, eu estava em plenas férias da escola, havia me mudado para um bairro diferente há pouco tempo, logo foi um pouco difícil iniciar vínculos de amizade com algumas pessoas, principalmente com garotos da minha idade na época (Uns 9 anos, eu acho). O fato é que o dia ficou gravado no meu subconsciente de modo a fazer minha mente, no automático, despertar reprises dele, ou a parte importante do que pude conseguir assimilar. Não posso dizer que não tentei, estaria mentido se o fizesse.

Era muito novo para digerir aquilo. Até hoje não consigo. Mas que foi sentido, palpável, verdadeiro... disso não tenho como negar. Especificamente, aconteceu em um fim de tarde, no qual eu desobedeci minha mãe quanto ao limite de tempo em pedalar de bicicleta pelas esquinas. Acabei me empolgando além da conta e ultrapassei os limites estabelecidos com muito rigor. O céu estava meio alaranjado, meio com tons de rosa, então pude deduzir que poderia ser umas 17:30 mais ou menos, o sol estava no poente e o nesse instante percebi, com muito desespero na forma de frio na barriga, a burrada que fiz.

Antes que pudesse imaginar a listagem de possíveis castigos que eu receberia quando eu chegasse, uma casa envelhecida, praticamente decrépita, me chamou a atenção. Bem, naquela época não fugia do comum alguns garotos montarem seus clubinhos nos quais garotas eram proibidas de entrar, coisa bem típica de criança mesmo, e vi naquele casebre uma indicação perfeita para meus parceiros. Não vou mentir... mal pensei neles na hora. Não pensei em nada... nada além de entrar escondido na casa velha e ver quem residia lá. Era uma área pouco povoada do bairro, mas nada que representasse algum eventual perigo.

A porta rangeu bem alto e me afastei de imediato, assustado com a figura que avistei logo quando dei o primeiro passo. A luz do sol poente entrava em finos fachos pelas frestas das tábuas pregadas nas janelas. Senti um ar de poeira subir. Mas o único sentido realmente ligado no máximo foi minha visão. Aquela visão impressionante.

Um velho mais alto do que qualquer adulto que já tinha visto ou conhecido antes, sentado de costas para mim numa cadeira, vestindo uma roupa branca, com alças de couro nas costas e que prendiam suas calças e o cinto. Tinha um porte físico volumoso, não do tipo obeso, mas... era grande. Mexia em alguma coisa na mesa onde estava sentado, e não deixei de notar, claro, as estantes à sua direita com bolinhas de gude dos mais variados tipos encaixadas em objetos de plástico.

Quando menos percebi, eu já dado vários passos, deslumbrando ao observar aquela exposição gratuita. Uma vasta coleção, realmente. Levei um susto quando o velho resolveu falar comigo. Era óbvio que minha presença foi notada desde o início, talvez desde quando fiz um pouco de barulho ao estacionar a bicicleta lá fora.

Ele não me olhou, apenas me perguntou qual era o meu desejo mais profundo e sombrio. Eu responderia com outra pergunta, na verdade com mais. Quem ele era, porque vivia ali tão solitário...

Respondi com um fraquinho e tímido "Não sei". Ele só olhava para as bolinhas de gude que estavam diante dele na mesa e tocava-as como se estivesse apreciando obras de arte. Perguntei se ele era o fabricante e o colecionador ao mesmo tempo.

Ele ficou em silêncio por um bom tempo, ignorando minha pergunta, então, sem saída, tive que responder a dele logo. Falei que adoraria poder conhecer a verdade sobre tudo. Nesse momento, ele havia parado de mexer nas bolinhas e pousou suas mãos na mesa, mantendo-se parado, sem virar o rosto para mim. O velho considerou minha resposta como inválida. "Como é que é?!", pensei, estupefato. Ele ergueu o dedo indicador da mão direita e falou que a primeira resposta não deveria ser substituída por uma outra melhor.

Eu estava louco para levar algumas daquelas bolinhas... era meu sonho de consumo na época, acho que para qualquer garoto do bairro. Ele respondeu minha pergunta anterior, confirmando ser ambos. Perguntei, com bastante coragem, sobre pegar algumas bolinhas de gude emprestadas, já esperando um "Não" como resposta.

Ele, surpreendentemente, me ofereceu uma que considerava especial, como um presente. Era preta com detalhes roxos e azuis bem escuros e tinha pontinhos brancos bem minúsculos...

Antes que eu pudesse picar a mula dali, ele me perguntou sobre se eu tinha certeza de leva-la. Respondi prontamente com um animado "Claro que sim! Obrigado!".

Antes de me deixar ir embora, ele deixou escapar uma informação importante sobre a tal bolinha. Disse que eu deveria dormir segurando-a com uma das mãos, para que quando entrasse eu tivesse que achar a porta para sair. Entrar aonde? Sair por onde? Não importava, pra mim a única coisa que fazia sentido era meu entusiasmo ao ter aquela bolinha extremamente valiosa e rara em mãos.

Ele me impediu de fazer outra pergunta chiando com a boca. Naquela hora ele revelou seu jogo. Nós dois possuíamos o direito de fazer apenas duas perguntas e responder duas vezes. Ficou em silêncio novamente, então interpretei aquilo como um "já pode se mandar daqui".

Mantive a bolinha segura no meu bolso antes de chegar em casa, durante a bronca da minha mãe e depois de entrar no quarto para dormir. Caí no sono, segurando-a com bastante firmeza, ansioso para o dia seguinte chegar logo e poder mostrar aquela raridade os meus amigos.

Mas... bem, ao acordar, não me senti como se estivesse no meu quarto, o quarto da casa em que eu morava desde que nasci. Percebi vários detalhes diferentes. Nem mesmo a cama estava posicionada na frente da janela, mas sim afastada e havia um berço com um véu azul claro bem próximo da porta onde tinha um jogo de atirar dardos. Minha primeira pergunta depois de tantos minutos avaliando aquele quarto irreconhecível foi: "Onde eu estou?".

Aliás: "Onde eu vim parar?".

Vasculhei o guarda-roupa, gavetas da cômoda, encontrei cadernos, livros de 7ª série, um celular meio futurístico, mas depois de tudo isso, como se nada daquilo fosse o bastante, eu me olhei no espelho.

Claramente estava com uns 13 ou 14 anos na cara! Meu rosto estava mais masculinizado - na falta de um termo melhor -, com algumas espinhas e notei certos adicionais nas partes mais íntimas - se é que me entende. Alcancei a puberdade da noite para o dia e me incomodava o clima distinto que eu sentia no ar... como se não fosse a mesma casa, nem a mesma cidade... nem o mesmo mundo.

Nem meus pais eram os mesmos. Quero dizer, não em aparência, mas em vestimentas e personalidades, eram totalmente diferentes dos carrancudos que adoravam brigar comigo. Fiquei me perguntando que merda era aquela o tempo todo. O que realmente tinha acontecido.

Logo, então, lembrei do que o velho tinha me dito. Achar a porta para sair depois de entrar. Curiosamente, eu acordei sem a bolinha de gude na minha mão esquerda. Depois meus pais ferraram com minha concentração com um bolo de aniversário, cujas velas eram no formato de número 14... é, eu estava prestes a completar 14 anos, sendo que, na minha mente, eu ainda estava com 9.

Em seguida veio a sensação de aprisionamento. Estava em um mundo, em uma realidade onde eu não pertencia. Meus pais me tratavam exageradamente bem, sendo que normalmente minha educação foi bastante rígida, jamais fui tão mimado antes. Eles estranharam meu comportamento quando caíram na real ao saberem que eu não estava nem um pouco afim de comemorar. Do quarto, pude ouvir eles discutirem aos gritos, a coisa ficava tensa a cada minuto. Com o travesseiro dobrado e tapando os ouvidos, eu só pensava em achar uma forma de sair dali o mais rápido possível.

Esta busca durou precisamente 10 anos.

Vivi uma década com uma família disfuncional, amigos fúteis e superficiais, caminhando em uma sociedade tecnologicamente evoluída, mas desprovida de valores humanos. O Sol era uma estrela ainda mais próxima da Terra, e, devido à isto, o céu tinha um tom azul misturado com um dourado leve. Na verdade, nem chamavam de Sol... mas de um outro nome que não me recordo.

Foi triste e engraçado ao mesmo tempo. Eu, em plena infância, acordo num mundo paralelo onde eu sou amado por pais incompetentes e as regras das instituições públicas não são as mesmas das que eu conhecia. Uma criança de 9 anos despertar no seu eu adolescente parece enredo de filme de comédia americano.

Quando fiz 21 anos, forjei uma carta falsa de uma universidade que me ofereceu uma bolsa de estudos de graça e meus pais, imbecis alegres, caíram como patinhos. Na verdade, caminhei em uma longa estrada para encontrar o colecionador daquele mundo. Não foi nada fácil. Aconteceu uma enxurrada de reveses, mas tentei me manter seguro de mim mesmo e forte para continuar seguindo em frente.

A saída encontrava-se numa outra bolinha de gude, a qual esteve sob meu poder até o retorno para meu "lar". Isto quando voltei depois de 3 anos, eu já estava com 23 anos para 24. Menti novamente para eles, dizendo que não era nada mais que uma visita casual.

Aquela foi minha última noite no "mundo reverso".

Acordei.

Foi diferente do que eu imaginava, foquei tanto minha atenção em retornar para meu mundo sem pensar com mais afinco em alguns detalhes. Essa situação doida me ensinou sobre o quão estúpida é a nossa pequenez diante de uma imensidão que escapa à nossa compreensão evoluída a passos de formiga. Não passamos de meros seres insignificantes.

Quando abri meus olhos, senti um cheiro forte de terra molhada, uma escuridão total, além de não conseguir mover meus braços e pernas.

De repente minhas cordas vocais produziram um automático e intenso grito de socorro, enquanto meus braços erguiam-se e tocavam algo de madeira acima de mim... e comecei a bater com força, à medida que o oxigênio começava a esgotar.

Eu estava no meu corpo de 9 anos, mas com uma mente um pouco mais expandida graças ao meu eu adolescente de outro mundo.

Sabe por que eu falei de estar grato por voltar a respirar o ar puro que eu conhecia?

Grato pelo velho. Se não fosse por ele, eu não teria tido esta chance. Parece até que ele sabia de toda a cadeia de eventos, com todos os mínimos detalhes. Sabia que eu viria, já estava me esperando.

E também por me livrar da asfixia. 

Despertei, enfim, para um novo modo de vida. Agora tornou-se mais fácil encontrar outras bolinhas de gude como aquela. Mas ainda é difícil de acreditar. Minha mente fica meio confusa às vezes, mas depois eu volto a entender.

Neste momento estou rindo por dentro ao segurar meu atestado de óbito e a "bolinha de gude" que o velho me deu. 

É... quão pequenos nós somos. 


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Este conto foi escrito e publicado exclusivamente para o Universo Leitura. Caso o encontre em algum outro site com créditos e fonte ausentes, não hesite em avisar!


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