Frank - O Caçador #3: "Devorador"



Floresta de Ylon. 

Cruzando uma estrada escura - ladeada por uma vegetação composta por árvores de copas altas -, em velocidade reduzida, a caminhonete de um casal parecia estar com seu combustível à beira do esgotamento. Ellie - uma mulher próxima à casa dos 30, cabelos loiros meio ondulados amarrados atrás, olhos verdes e vestindo um casaco de couro marrom por cima de uma blusa verde - estava no banco do carona dando rápidas olhadas no velocímetro. Jason era seu companheiro de viagem, ambos em um início de relação compromissada, um rapaz de cabelo castanho curto com alguns fios pequenos caindo ao lado, rosto jovial e atraente com olhos pretos, vestia uma jaqueta preta por cima de uma camisa branca, e sua expressão era de despreocupação quanto ao iminente esvaziamento de gasolina.

A lua no céu era cheia e pomposa em meio ao céu estrelado e sem nuvens.

- Está quase acabando. - disse Ellie, olhando para o ponteiro do velocímetro e para Jason. - Bem que eu falei para irmos pela rodovia 32. É mais movimentada e tínhamos mais chance de abastecer.

Jason freara subitamente. Logo abrira a porta e descera da caminhonete.

- Onde você vai? - perguntou Ellie, também saindo. - Resolveu mudar de ideia e me abandonar aqui na estrada? - fechara a porta.

- Não devíamos ter passado por aqui. - disse Jason, passando a mão direta pela boca, preocupando-se.

- O quê? O que foi? - perguntou Ellie, olhando ao redor.

- Não teve a mesma sensação? Podemos estar sendo seguidos. - especulou Jason, pegando algo dentro de sua mochila no carro. - Pode estar vindo da floresta. - disse ele, ligando a lanterna e seguindo para a direção de onde pensou ter escutado sons estranhos.

- Espera, Jason! - chamou Ellie, seguindo-o e agarrando seu braço direito fazendo-o parar para escuta-la. - Que história é essa? Eu não ouvi nada.

- Ah, claro, deve ser porque estava muito ocupada mandando mensagens com emoticons fofinhos para seu suposto amante. - disse Jason, virando-se para ela, provocativo, revelando sua desconfiança quanto à fidelidade de Ellie.

- Não vamos discutir isso aqui. - decretou ela, irritada. - Não vai me largar no meio dessa estrada. Olha, pelo menos me deixa ligar pro xerife Dump, já visitei essa cidade antes e conheço bem ele, vai vir rapidinho com o combustível.

- Se você diz, então tudo bem, faça isso. - concordou Jason, voltando a caminhar. - Mas nem pense em mim seguir. Ouviu bem?

- Alto e claro, capitão. - retrucou ela, irônica, sacando o celular do casaco e em seguida discando o número do xerife. Dera uma risadinha rápida e baixa. - Imbecil. - sussurrou ela para si mesma referindo-se à Jason, aproximando o aparelho ao ouvido.

Jason aumentara a velocidade e a insegurança de seus passos a cada minuto ao caminhar por entre galhos soltos de árvores meio caídas e naquele solo repleto de folhas pequenas e secas.

A luz da lanterna ganhava irregularidade, enfraquecendo-se quanto mais seu portador se aproximava de um ponto específico daquele território banhado em breu total.

Poucos minutos depois, Jason notou o problema na lanterna, desta vez vendo-a piscar intermitentemente. Sua motivação em encontrar o que quer que estivesse seguindo-os transformara-se em desespero mesclado com raiva.

- Merda! - xingou ele, batendo na ponta da lanterna onde ficavam as baterias instaladas. A luz continuava piscando e perdendo força. - Ai, meu deus... - olhou ao redor, para os dois lados, suando em profusão. - Não morre agora, por favor... - apertou repetidas vezes o botão de ligar-desligar da lanterna. Na última tentativa, esvaiu-se as esperanças. A luz não retornara, fazendo-o jogar o aparelho para longe em demonstração de fúria. - Droga!!! - berrara ele, logo percebendo o erro que cometeu e pondo a mão na boca, a expressão de pavor.

Sozinho em meio ao escuro quase sufocante e envolvente, Jason resolveu andar com uma lentidão que lhe assegurasse segurança parcial mediante a perda da lanterna, o que consequentemente despertaria desconfiança e medo em Ellie, motivando-a a procura-lo ao lado do xerife.

Ruídos espalhafatosos e bastante próximos foram detectados pela sua audição apurada devido aquela situação pressionadora. Virou o rosto para uma direção, a expressão denotando uma atenção máxima e esforçada, embora transmitisse mais de seu puro medo. Ouviu mais dos ruídos. Aproximando-se...

- Quem está aí? - perguntou ele, movido pelo desespero. - Ellie?! - indagou ele, suspeitoso, mantendo-se alerta. - É você?

Ao decidir andar com vagarosos passos para trás, sem a mínima ideia de para onde seguir - ou da direção em que viera -, Jason não tardou em se deparar com algo sólido por trás de si. E não era uma árvore... tampouco uma rocha.

Foi virando o rosto cautelosamente... ouvindo uma pesada respiração, um hálito quente e fétido... e um rosnado lento e arrepiante... como se vários estômagos roncassem em uníssono.

Realçado pela luz da lua, viu-se abrir um sorriso medonho, cuja largura parecia ser igual a de um galho médio de uma árvore, exibindo dentes pontiagudos e sujos. Jason, petrificado, movia a boca de forma trêmula ao encarar aquele rosto cinzento e deformado de uma enorme cabeça - a qual parecia ter o dobro de sua altura.

Jason vira ali as portas fecharem-se para qualquer possibilidade de escapatória.

A criatura, por fim, abrira sua bocarra, "desembainhando" seus gigantescos e pontudos dentes feito lâminas afiadas e logo inclinando sua cabeça à Jason.

Um pavoroso grito rasgou o silêncio, espantando as aves que alçaram voo simultâneos. Ellie voltou sua atenção para a floresta rapidamente, afligindo-se e tremendo de susto.

O xerife Dump chegara no exato momento com seu carro.

- Não!!! Jason! - gritara Ellie, dominada pelo instinto ao correr em direção à floresta a toda velocidade.

- Ei, Ellie! Espere por mim! - exclamou o jovem xerife Dump, batendo com a porta do carro ao fecha-la e logo correndo atrás da moça. - O que está havendo?  - perguntou, adentrando na floresta, tentando alcança-la.

Minutos depois, a mulher avançou para além do ponto onde Jason havia sido atacado, demorando um pouco a perceber estar se aproximando de uma caverna.

Escondida em uma árvore, Ellie pôs a mão na boca, horrorizada, seus olhos lacrimejando em abundância, observando a entrada da caverna... e um ser de estatura maior que o de um ser humano normal andando para trás, seu macabro rosto sendo encobrido pelas trevas, carregando o corpo desfalecido e trucidado de Jason para o seu covil.

O xerife Dump viera atrás em seguida, aproximando-se dela.

- O que aconteceu? - perguntou ele, apontando a lanterna para um suspeito rastro.

- Jason... - disse Ellie, ajoelhada, chorando copiosamente. - Aquela coisa... aquela coisa o levou...

Dump engoliu a saliva, hesitando em apontar a luz para a entrada da caverna.

- Essa não. - disse ele, sussurrante em tom tenso. - Temos que sair daqui, depressa.

- O quê? - perguntou Ellie, logo olhando para onde a lanterna iluminava. - Oh, meu deus... - espantou-se ela, levantando-se.

Ambos encaravam apavorados vários pedaços de restos mortais espalhados até a entrada da caverna: Ossos, sangue, caveiras, resquícios de órgãos vitais etc.

- O maldito atacou outra vez. - declarou Dump, com absoluta certeza na face séria.

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CAPÍTULO 03: DEVORADOR


Departamento Policial de Danverous City

No movimentado corredor principal, Frank assoviava girando a chave do seu carro com o indicador esquerdo, aparentando seu bom-humor costumeiro, caminhando por entre os vários funcionários que ali passavam, ignorando uns e cumprimentando outros. Mal sabia ele que estava prestes a cruzar, de modo inesperado, com o caminho de alguém realmente desconhecido...

Ao se distrair verificando a caixa de mensagens no seu celular, Frank, repentinamente, esbarrara forte com uma mulher elegantemente bem vestida e que carregava uma pilha de papéis. Com o susto, o detetive deixou o aparelho cair no chão, logo se prontificando a ajudar a recolher o material da moça.

- Oh me desculpe! Sou tão desleixada. - disse a mulher caucasiana e de sedosos cabelos pretos, vestindo um casaco cinza, calças apropriadas para o trabalho, sapatos pretos com médio salto e usando um óculos de armação pequena, recolhendo os papéis diante de Frank. - Não acho que devia se importar.

- Muito pelo contrário. - retrucou Frank, corrigindo-a, pegando mais papéis e organizando-os. - Meu dever é sempre ajudar... das formas que me forem possíveis. - ergueu a cabeça para olha-la, sorrindo amigavelmente. - Aqui está... - entregara a pilha que juntara, levantando-se.

- Ah, obrigada, obrigada mesmo. - disse ela, recebendo o material, também se levantando. - O chefe já deve estar fumaçando pelos ouvidos.

- Espera... - disse Frank, interessado em saber algo, olhando-a estreitamente. - Não costumo vê-la com tanta frequência...

- Recém-contratada. - disparou ela, meio nervosa, quase interrompendo-o. - Na verdade, meio que ainda estagiária. - estudou-o por uns segundos. - A propósito, eu também não o vejo por aí, muito menos conhecia de vista ou de nome.

- Por falar nisso... Frank, prazer. - apresentou-se ele, estendendo a mão direita.

- Megan. - retribuiu ela, sorridente, apertando a mão de Frank. - O prazer é todo o meu. Talvez ter finalmente o conhecido faça parte da minha sorte de principiante.

- Não sei se devo considerar um elogio ou um exagero. - brincou Frank, rindo logo em seguida.

- Ora, não se acanhe com tanta modéstia. - disse Megan, franzindo o cenho e sorrindo. - Sabe por que eu disse isso, não sabe? Pela mesma razão que os outros funcionários daqui quando o veem pela primeira vez.

Frank mostrou-se desentendido.

- Como assim? O que quer dizer? - perguntou ele.

- Posso não ter total conhecimento de sua história, sua jornada de trabalho, nem da sua vida pessoal... - disse Megan, mostrando-se enigmática tanto no tom quanto na expressão. - ... mas sei que por baixo desta pele de investigador qualquer se esconde um herói. Definitivamente, um homem com muito a oferecer e pouco a dever.

O detetive ficara emudecido e paralisado por alguns segundos diante das palavras daquela misteriosa secretária novata. Em uma vã tentativa de disfarçar seu quase enrubescimento, Frank remexera nos bolsos de seu sobretudo. Megan observara, sem saber o que ele estava procurando.

- Ah, aqui está... - disse Frank, fingido, retirando e mostrando um molho de chaves, rindo de leve em seguida. - Eu pensei ter... esquecido no carro. - mentiu.

- Ahn... eu já vou indo, devo ter me atrasado um pouco. - disse Megan, sem saber como se portar ao ter sacado o fingimento do colega. Andou em passos lentos, despedindo-se de Frank. - Dificilmente iremos nos ver ainda hoje, então, desde já... obrigada pela ajuda. - deu uma piscadela. - Até mais, Frank. - por fim, dera as costas rumando em direção a sala do diretor Duvemport.

- De nada. - disse ele, acenando para ela. - Até. - deu um sorriso meio desconcertado.

De alguma forma, sentira-se um tanto afetado e influenciado pela presença forte de Megan. Mesmo que não chegasse a esbarrar com ela, notaria sua presença pelo corredor assim que sentisse o aroma do perfume que ela usava. Megan, por sua vez, perceberia Frank sem nem ao menos vê-lo, bastando somente saber de sua ficha com sua carga-horária e currículos inclusos. Logo sabia do horário de chegada do detetive, usando de sua provada eficiência para chegar uma hora mais cedo que ele e prever seus movimentos.

Porém, parecia ter visto nada além de uma simples funcionária novata que mal passaria de sua conhecida.

- E aí, quem é a felizarda? - perguntou Carrie, chegando de surpresa por trás de Frank.

O detetive virou-se, o cenho franzido. Andou na direção de onde ficava sua sala particular.

- Do que você está falando? - perguntou ele, guardando as chaves. Carrie seguiu-o lado à lado.

- Não vem com essa. O modo como se faz de difícil é bem frágil. - disse ela, sarcástica sobre a conversa de Frank e Megan.

- Então é essa sua lógica? - indagou Frank, olhando-a com uma sobrancelha levantada. - Eu + Garota desconhecida + esbarrão + papo amigável = relação compromissada. Sou um cronista do sobrenatural e qualquer feliz acontecimento possui um toque mágico. Engulo várias, mas não essa.

- A garota é a nova secretária do diretor. - salientou Carrie.

- E daí? Nós conversamos, ajudei ela a recolher a papelada, ficamos meio amigos...

- E você a olhou de um jeito... - disse Carrie, especulativa.

- Opa, lembre-se do que o diretor falou sobre nós dois no mês passado. - recordou Frank, erguendo levemente o dedo indicador direito, sorrindo sacanamente para fazê-la parar com as insinuações.

- Estraga-prazeres. - reclamou ela, com uma cara emburrada. - Como se isso não o constrangesse também. Eu quase já havia esquecido.

Frank entrou na sala rindo da forma como Carrie reagiu a sua inesperada resposta.

- Isso que dá tirar conclusões precipitadas. - disse ele, sentando-se na cadeira e ligando o computador. - Ouviu bem? Amigos. Somente. - enfatizou ele, olhando-a.

- Ah-han. - soltou Carrie, desconfiada. - organizou alguns papéis que trazia e os colocara na mesa. - Dá só uma olhada. Brutal. - falou, com certo efeito na voz.

- Qual a carnificina de hoje? - perguntou Frank, voltando sua atenção para as folhas que Carrie trouxe.

- Uma vítima de assassinato. Em Ylon, mais especificamente numa reserva florestal. - informou ela, também olhando uma das folhas. - Na verdade, ela foi devorada pelo que parecia ser um "gorila mutante", segundo o depoimento da testemunha. Ela se chama Ellie Hamber, como pode ver aí na foto... - apontara ela. - Acompanhada de seu namorado, Jason. Haviam parado no meio da estrada devido ao combustível quase no fim.

- Jason?! Culpado ou inocente? - questionou Frank, olhando para Carrie de relance e voltando-se para o verso da folha.

- A vítima, bobo. - disse Carrie, sorrindo de leve. - Seu corpo, ou o que restou dele, foi encontrado numa caverna ao lado de vários esqueletos, no início da manhã de hoje. Ellie disse ter visto seu namorado ser levado pela coisa medonha para dentro da caverna. O interessante é que só agora uma morte sobre um caso dessa natureza ganhou repercussão, graças ao fato de Ellie ter estado acompanhada de um xerfie, bastante conhecido dela.

Frank a fitara como se ela estivesse sabendo de detalhes que ele não possuía.

- Então você já andava por dentro do assunto? Desde quando?

- Não faz tanto tempo. Só esperei uma morte ser confirmada para você entrar em cena. - declarou Carrie, firme. - Começou com desaparecimentos, dos 18 ocorridos somente 5 deles foram relatados à polícia local. Para abafar os detalhes sinistros do depoimento de Ellie, estão forçando a explicação que pareça mais plausível: canibalismo.

- Era de se esperar. - comentou Frank, ainda lendo as folhas. - Acharam algo mais durante a investigação?

- Pelos dados preliminares, não. - disse Carrie, pondo-se ao lado do detetive, inclinando-se para usar o computador. - Nem mesmo um sinal do assassino.

- Parece que nosso "cara" - fez sinal de aspas com os dedos - só aparece em casa à noite.

- E se alimenta nesse exato período. - completou Carrie, pesquisando a respeito das notícias. - Quantas feras desse tipo você já enfrentou?

- Acha que cheguei a contar? - perguntou Frank, mantendo-se focado nos resultados de pesquisa na tela do PC de monitor LED preto. - Caçar, morder e levar para o covil. Várias seguem esse padrão. - fez uma pausa, olhando a próxima tentativa da assistente. - Cabeça gigante?

- É, a testemunha, Ellie, descreveu a criatura como basicamente tendo uma grande cabeça. Mesmo escondida e a escuridão dificultando a visão, ela pôde ter ideia do formato da cabeça. - afirmou Carrie, continuando a pesquisar por mais alguns segundos. - Mas que droga. Já usei todas as palavras-chave. - falou, desistindo. - Nenhuma lenda corresponde à descrição.

- Na certa é algo que nunca tenhamos visto. - palpitou Frank, levantando-se. - Olha, vê se tenta com mais calma. - disse, incentivando-a a continuar, andando em direção à porta. - Vou conversar com essa Ellie pra ver se acrescento mais informações. O dia vai ser longo e ainda temos muito pouco. Se tudo correr bem, te ligo. - apontou para Carrie, antes de fechar a porta.

- Pode deixar. - disse ela, sentando-se na cadeira de couro de seu parceiro, alongando os dedos.

                                                                                         ***

Ylon, área urbana

No mesmo instante em que estacionara o carro próximo à delegacia local, Frank avistara Ellie andando em direção ao carro do xerife Dump, ambos acompanhados de um policial integrante da patrulha noturna daquela área em específico.

Ao sair do veículo, o detetive ajeitara seu sobretudo, caminhando de modo apressado a fim de chegar a tempo para conseguir falar com a testemunha. Mentalmente, Frank reclamava por ter chegado alguns minutos após o fim da estadia de Ellie - permitida mediante ao seu abalo profundo devido à perda - na delegacia durante a madrugada, após ter fornecido suas informações.

- Opa, err... Será que dá para esperar mais um pouco? - perguntou Frank, logo exibindo seu distintivo para os dois homens da lei. Sorriu fracamente, olhando de relance para uma taciturna Ellie. - Sou o detetive Frank. Frank Montgrow. Autorizado a investigar o caso pelo DPDC. Se não for incômodo, gostaria de interrogar a testemunha.

O policial franzira o cenho, demonstrando não tolerar a presença de um interveniente como aquele.

- Não sabia que o Departamento de Danverous City também se interessava pelas proximidades. - disse ele, olhando para Frank com certo desdém. - Perdeu seu tempo, amigo. Já estamos cuidando disso. Obrigado.

- Não, mas é que... - disse Frank, sem saber como convence-lo.

- Está tudo bem. - disse Ellie, cortando a conversa bruscamente, logo fitando o detetive paranormal. - Sem problemas, eu aceito... aceito falar com ele. - aquiesceu ela, assentindo positivamente.

                                                                                        ***

Parque público de Ylon

O sol reluzia forte naquela manhã, banhando ambos que andavam lado à lado calmamente sobre o gramado do silencioso e quase deserto parque.

- Agradeço a escolha do lugar. - disse Ellie, caminhando com os braços cruzados.

- Ah, quê isso? Eu quem agradeço por você ter convencido aquele chatonildo. - disse ele, rindo de modo rápido.

Ellie esboçara um leve sorriso seguido de um riso enfraquecido.

- Agora... me fale sobre a noite passada. - disse Frank, olhando-a com seriedade. - Notou algo estranho? Enquanto estavam no carro?

- Na verdade, apenas o Jason. - afirmou ela, entristecendo-se novamente, observando algumas crianças brincarem a certa distância dali. - De repente, começou a se sentir desconfortável por causa de um barulho esquisito que parecia vir da floresta.

- A que velocidade o carro estava? - perguntou Frank, pondo as mãos nos bolsos externos do sobretudo.

- Uns 10 km, eu acho. A gasolina já estava quase esgotando. - disse Ellie. - Tudo bem silencioso. Ele freou, desceu do carro, seguiu até a floresta sem me dizer direito o que pensava e me pediu para ligar para o xerife Dump, que é um amigo nosso, ele sempre se presta a nos ajudar. - fez uma pausa, parando um pouco a caminhada. - Eu não sei... - pôs a mão na boca, o tom de voz choroso. - Quando ouvi aquele... rosnado feroz... agi por instinto, eu o amava. Podia jurar que era algum animal...

Frank a fitou atentamente, compreendendo sua dor.

Ellie prosseguira:

- O xerife Dump correu atrás de mim pouco depois de ter chegado com o galão de combustível. Senti um cheiro forte de sangue... e avancei para além do ponto onde o Jason foi atacado... acho que foi pura adrenalina, meu olfato simplesmente aprimorou, me fazendo seguir o rastro. Foi então que... - fechou os olhos, deixando uma lágrima escorrer e mordendo os lábios.

- Você viu Jason ser levado pela coisa. - completou Frank, sensibilizado, sabendo que a moça não estava em condições para fazer uma descrição pormenorizada novamente. - O tal "gorila mutante", certo?

- Era o que parecia. - disse ela, dando de ombros. - O xerife Dump... - assentiu para Frank. - Desconfio que ele saiba de algo que ele se recusou a me contar hoje cedo.

- Faz alguma ideia? - perguntou Frank, igualmente intrigado.

- Sobre o monstro assassino. Quando ele me alcançou, usou a lanterna para ver os restos mortais das outras vítimas perto da caverna. Ossos, pele, carne... - olhou para o nada, pensativa. - Ele disse que o maldito havia atacado outra vez. Naturalmente, pensei: "Então, ele sabe que tipo de criatura é aquela". Só não entendo porque ele omitiu algo tão importante. Para não impressionar as autoridades? E pensando nisso, acho que o senhor deveria ir falar com ele agora. Vai conseguir muito mais.

- Ah sim, lembrei que você não é natural de Ylon. - disse Frank, estalando os dedos.

- Não, Jason e eu víamos de uma festa em Missouri. Quanto a mim, sou nascida e criada no Kansas. - informou Ellie, afastando alguns fios de seu cabelo no rosto.

- Tudo bem então. - disse Frank, suspirando. - Muito obrigado pelo seu depoimento, Ellie. - agradeceu ele, andando para ir embora.

- Espero não ter tomado muito do seu tempo. - disse ela, acenando de leve. - Até.

"Bem, veremos o que o xerife tem a acrescentar", pensou Frank, caminhando em direção ao seu carro. Ao ouvir o toque de seu celular, já sabia quem era. Fechou os olhos por um rápido instante, logo em seguida pegando o aparelho do bolso, levando-o ao ouvido por fim.

- Boas ou más notícias? - perguntou ele, sacando a chave do carro.

- Se está se sentindo frustrado por ter conversado com Ellie e teve a impressão de que tudo permanece na estaca zero... esse adicional vai te animar. - disse Carrie, concentrada na página da internet que achara, a qual possuía dados altamente favoráveis à investigação. - Puxei a ficha do acompanhante de Ellie e...

- O xerife Dump!? - soltou Frank, alarmando-se repentinamente.

Em seu escritório, Carrie assustou-se com a interrupção.

- Ué, você já sabe? - perguntou ela, franzindo o cenho.

- Sei o que Ellie me disse. - falou ele. - O cara fez questão de esconder algo sobre a criatura.

- O que tenho aqui vai torna-lo ainda mais suspeito. - disse Carrie, movendo o mouse do computador. - Saca só: Christian Dump fez curso intensivo para a patrulha noturna de Ylon há 10 anos. Antes disso, ele teve um primeiro emprego ao lado da família... uma família bem endinheirada, por sinal.

- Então o cara pertence a uma família de ricões. O.K. Que conexão a vida dele tem com esse caso, afinal? - perguntou Frank, ficando impaciente devido à ansiedade.

- Acontece que o rapaz não se deu muito bem no emprego e pediu para sair, dizendo que era a hora de ele finalmente seguir seu caminho e seu sonho. - disse Carrie, baixando a página. - O cara é... - olhou para a porta, desconfiada sobre pessoas estarem passando por ali e ouvirem. Voltou sua atenção à ligação. - O cara é filho de Arnold Crissman. - disse ela, sussurrante.

Frank arqueara as sobrancelhas, ficando espantado de imediato.

- Crissman?! As Indústrias Crissman?! - disse ele, mal acreditando. - Especializada em biotecnologia, certo? Lembro de ter visto o nome desse cara em notícias antigas, mas, sabe como é né... não sou lá muito apegado à ciência. - confessou ele.

- Crissman, obviamente, é um pseudo-sobrenome. - salientou Carrie. - Comandou esse império com mãos de ferro. Mas veja bem: Christian trabalhava com o pai em um projeto idealizado pelos dois, algo bastante promissor, envolvendo uma substância reforçadora de células em combate á agentes cancerígenos. Porém, as coisas não saíram como planejado e Christian sentiu-se culpado pela provável falência da empresa, decidindo se desvincular e abraçar a carreira policial, para o desespero do pai.

- Por onde você está vendo essas informações? Muito confidenciais para uma pesquisa rápida. - quis saber Frank, curioso.

- Aí é que mora a vantagem. Christian deixou, de forma supostamente acidental, o endereço de seu diário virtual na ficha. Lá ele está anônimo, como esperado. Não cita nomes, mas dá umas dicas. Mas há um post restrito, onde o título diz: "Projeto D".

- Alguma razão do porque está lacrado? - perguntou Frank.

- Só um algoritmo extremamente complexo que não consigo quebrar. - disse ele, olhando meio desapontada para o código na tela do monitor. - Mas vou continuar tentando.

- Espera aí... - disse Frank, parando para pensar a respeito do mistério em torno do xerife Dump . - Christian iniciou a carreira como xerife há 10 anos, certo? Nós dois sabemos o que ocorreu há 10 anos... em Danverous City...

- O último tremor, bem lembrado! - disse Carrie, pondo uma mão na cabeça ao recorda-se do fatídico terremoto. - Lembro de cada palavra do título da notícia: "Estranhos cristais negros são achados na fenda externa e intrigam especialistas". - seus dedos da mão esquerda já estavam teclando em certa velocidade. - Posso acessar o arquivo da Gazeta Danverous, mas vai levar algum tempo. Minha teoria é de que as Indústrias Crissman subornou a mídia para o não-divulgamento do seu interesse pelos cristais. Terá sido esse o motivo pelo qual Christian quis se desligar do projeto? Está ficando interessante...

- Enquanto isso, vou até a casa do xerife Dum...- Frank pausara a fala - ... quero dizer, do Christian. Hora de arrancar umas verdades do sujeito. Quem sabe ele me revela o segredo do tal código inquebrável.

- Vou estar torcendo aqui. Boa sorte. - disse Carrie, navegando pela internet a procura do arquivo jornalístico.

- Até mais. - encerrou o detetive, desligando e entrando no carro.

                                                                                            ***

A residência de Christian Crissman localizava-se a exatos 10 quilômetros da delegacia local de Ylon. As suspeitas de Frank consistiam numa lenda ocultada pelo xerife, o qual deveria também ter sido interrogado já que se fez segunda testemunha do caso em momento crítico. E o meio de acesso à lenda? O blog. A dúvida que persistia na mente do detetive era se Christian, e somente Christian, sabia da existência da criatura, bem como a localização do covil dela, ou se a informação foi compartilhada para outros usuários que foram bem-sucedidos na quebra do código. E se conseguiram, fazia sentido desconfiar de um tempo-limite para o acesso à postagem restrita, válido a todo e qualquer usuário que tivesse sucesso na decodificação. Pensando nisso, a questão era: Poderiam ser antigos colegas de trabalho de Christian ou pessoas comuns da cidade, julgado pela facilidade em encontrar o web-site?

Tocando a campainha, Frank deu rápidas olhadelas na casa de dois andares. A porta de madeira marfim fora aberta após vários sons de destrancamentos.

- Detetive Montgrow?! O que faz aqui? - perguntou Christian - descalço e vestindo uma camisa branca de mangas curtas e uma bermuda azul marinho - , franzindo a testa ao se deparar com Frank.

- Não quero incomodar, muito menos que pense mal da minha pessoa, mas... - disse ele, um tanto inseguro. - Eu preciso lhe fazer algumas perguntas acerca do caso.

- Ah, sim, já imagino... - disse ele, sorrindo meio desconcertado, coçando a parte de trás da cabeça. - Ellie te contou, não foi?

- Sim e ficou sem entender porque. - afirmou Frank, sério. - Realmente você deve explicações. - olhou-o incisivamente. - Não pensei que fosse reagir tão tranquilamente.

Christian manteve-se estável no humor, embora seu olhar tenha mudado um pouco.

- Hum... Ótimo. - afastou-se um pouco, abrindo mais a porta e estendendo a mão direita para a sala. - Sinta-se em casa, fique à vontade.

O detetive entrara, visualizando o interior da casa. Christian apontou para um dos sofás verdes.

- Sente-se. - disse ele, gentilmente. - Não quer uma bebida? - perguntou ele, apontando para alguma latinhas de cerveja sobre a mesinha no centro.

- Não, obrigado. - recusou Frank, sorrindo de leve.

- Bem, presumo que a Ellie finalmente manifestou sua suspeita a meu respeito. - disse Christian, sentando-se. - Já suspeitava desde o início.

- O quê? Como assim desde o início? - perguntou Frank, desconfiadamente fitando-o.

- A criatura. - disse Christian, olhando para Frank com seriedade tenebrosa. - Ellie e Jason sozinhos na estrada. Ellie me ligar pedindo um galão de gasolina e ter comentado sobre Jason saindo pela floresta a procura da origem de um barulho. São fatores que me deixaram em alerta e então corri para ajuda-los antes que fosse tarde.

- Então é isso, não é? - perguntou Frank, começando a avançar no assunto. - O tal post lacrado no seu blog se trata desse monstro. - disse ele, quase certo. - Admite, cara.

O xerife movia a boa tremulamente com uma expressão confusa.

- O quê?! - gaguejou ele. - Afinal, como sabe do meu blog?

- Duvida mesmo que ele não seja facilmente achável na internet? - perguntou Frank, levantando uma sobrancelha.

- Não, mas... - disse Christian, ficando pensativo por uns segundos. - Eu sei os nomes de todos que acessam. Chequei hoje mesmo, assim que voltei da delegacia. Na verdade, eu instalei um aplicativo que rastreia o lugar de onde o usuário está acessando. Mas só funciona quando tentam quebrar o código que apliquei para proteger as informações sobre a criatura. - fez uma pausa, olhando para Frank com certo nervosismo. - O Devorador.

- Então é esse o nome do desgraçado? - perguntou Frank, arqueando as sobrancelhas. - Faz sentido.

- Sim, foi esse o nome que dei quando ele iniciou suas caçadas por carne humana na reserva florestal. - disse Christian, abismado ao pensar na repercussão de algumas mortes apenas na cidade.

- E as pessoas que tentavam decodificar eram as mesmas que queriam saber o conteúdo do post? - perguntou Frank.

- Obviamente. - retrucou Christian, sorrindo levemente por julgar a pergunta como sendo meio boba. - Afinal, ninguém tenta desvendar um código só por mera diversão.

- Então... Chris... Posso te chamar de Chris? - perguntou Frank.

- Também puxaram minha ficha, pelo visto. Previsível. - disse ele, lançando um olhar entediado para uma direção. - Sim, pode. Christian Dump é só um personagem. Eu só queria, sabe... Apagar aquele passado.

- Se refere ao seu pai? - perguntou Frank, as mãos juntas com os dedos entrelaçados, concentrando-se nele.

- Sim, aquele cretino. - disparou Christian, sem dó. - Maníaco é uma definição melhor para o tipo dele.

- O que as Indústrias Crissman tentaram fazer há 10 anos? - questionou o detetive.

- Meu pai desviou os princípios éticos do nosso projeto. Acho que deve se lembrar do que houve...

- Sim, me lembro, o terremoto, como se fosse ontem. - inteirou Frank, assentindo positivamente. - Prossiga.

- Ele queria incluir um elemento crucial para seu plano ardiloso. - disse Christian, transparecendo uma intensa mágoa pelo seu pai. - Eu queria salvar vidas. Mas ele... - balançou a cabeça em negação. - ... só queria, no fundo, ver o limite do sofrimento humano. Aí não me segurei. - baixara a cabeça, fazendo uma breve pausa. - Duas semanas após os cristais serem achados... Houve uma série de desaparecimentos, mas nenhuma morte foi confirmada. E se foram confirmadas, não quiseram divulgar. Foi então que 6 meses depois, a caverna foi invadida pela polícia em um ato corajoso, pois suspeitava-se que lá residia um urso selvagem, mas as evidências apontavam para lá e foi lá mesmo que encontraram restos mortais de pessoas. O número de esqueletos coincidia com o número de desaparecimentos levantado. Recolheram pequenas amostras de cristais na caverna... e, além disso, acharam o corpo da criatura. Estava morta. Possuía traços humanos, mas estava... absurdamente deformada, a cabeça beirando ao tamanho de um barril, os braços e pernas inchados, com protuberâncias e cinzentos. Meu pai fez algo imperdoável quando a notícia, o achado dos cristais, se espalhou. Já a criatura... - deu de ombros. - ... certamente censuraram a notícia por ser pesada demais para a massa.

- O que seu pai resolveu fazer para tirar proveito da descoberta? - perguntou Frank, ansioso, esperando que a teoria de Carrie fosse confirmada.

- Ele comprou o silêncio da imprensa sobre estar interessado nos cristais. - revelou Christian, sucinto.

- Há, eu sabia! - disparou Frank, socando o ar, com certa empolgação. Sem perceber que estava tomando o crédito de Carrie pela teoria.

Christian o olhou estranho.

- Ahn... - disse o detetive, recompondo-se, meio envergonhado. - Desculpe, é que... Minha assistente, ele se chama Carrie, especulou precisamente isso...

- Tem uma Carrie na lista dos que estão tentando quebrar o código. - soltou Chris, rápido. - O rastreamento diz estar vindo do Departamento de Danverous City.

- É sobre exatamente isso que quero falar agora, Chris. - disse Frank, esboçando seriedade. - O código. Mas não, não pense que quero saber como quebra-lo... Na verdade, preciso do conteúdo do post em versão física.

- Tenho uma impressão guardara no meu quarto. É a única que fiz. - disse Chris, levantando-se. - Mas não posso dá-la à você. Não é que eu não confie em você, mas tem a ver com segurança, essas informações não podem vir a público, não em Ylon. O máximo que devo é lhe dar um breve resumo sobre o Devorador.

- Então, tudo bem, manda ver. - concordou Frank, também se levantando.

- O Devorador não pode sair da caverna durante o dia. Há 10 anos, algum curioso foi bisbilhotar a área da fenda externa e entrou em contato direto com o Prisma Negro, que é como meu pai resolveu chamar o cristal. Acontece que ele é altamente radioativo, podendo contaminar um ser humano saudável à uma distância de cinco quilômetros. Ninguém sabe como o terremoto influenciou essas formações tóxicas. A radiação do Prisma Negro altera a anatomia humana, física e mental, em um nível aterrorizante, transformando pessoas em monstros irracionais e sedentos por carne e sangue.

- Os infectados são vulneráveis à luz solar... - disse Frank, pensativo com uma mão no queixo. - Como vampiros.

- Vampiros existem? - perguntou Chris, olhando-o com espanto.

- Rapaz, você não sabe nem a metade. - disse Frank.

- E continuando: Meu pai desenvolveu trajes especiais para um contato efetivo com o cristal e manipula-lo livremente, sem riscos. Foi então que... - pôs a mão direita no rosto, detestando ter de recordar do triste dia. - Tivemos uma pequena divergência de ideias. Meu pai... tinha segredos obscuros. Ainda tem, acredito. Queria usar o Prisma Negro... para reduzir a população mundial em pelo menos 40%. Argumentou que a superpopulação é um problema de maior gravidade que as epidemias atuais. Me senti no direito de discordar... e de largar aquele maldito laboratório.

Frank fechou os olhos por uns segundos, entendendo perfeitamente a raiva de Chris.

- Agora sim posso chama-lo de maníaco. - disse ele.

- Não o denunciei por que sabia que ele daria um jeito de se safar. - afirmou Chris. - Ele tem a fortuna, a influência, a arrogância... menos o respeito pela vida humana. E você, detetive, é o único capaz de deter essa nova calamidade, por também ter sido o único a chegar tão longe na investigação. O Devorador que está a solta por aí atualmente é o segundo. Provavelmente é um dos que meu pai soltou. Ele é capaz de tudo para atingir seus objetivos... até de sequestrar inocentes e usa-los como cobaias.

- Mais uma razão para denuncia-lo. - sugeriu Frank, sentindo-se revoltado com aquela revelação. - Deixamos a denúncia anônima por último. Vamos nos concentrar primeiramente em como acabar com esse monstro. - disse ele, andando pela sala calmamente.

Christian manteve-se reflexivo por um instante, logo voltando sua atenção para Frank, exibindo um semblante que transmitia um misto de confiança e determinação.

- Pensando bem... Talvez não deva fazer isso sozinho. - disse ele, prestando-se a auxiliar o detetive.

Frank virou-se para ele.

- Como é?! - perguntou ele, sem acreditar. - Você... realmente quer...

- Sim, detetive Montgrow, quero muito ajuda-lo. - disse Chris, aproximando-se. - Pelas vidas ceifadas. Pela cidade. Quero ter a chance de finalmente fazer a diferença.

Frank o fitou condescendente, assentindo com positividade ao concordar com o apoio do jovem xerife.

- Então... Vamos nessa, parceiro. - disse ele, de modo decisivo.

                                                                                                ***

Departamento Policial de Danverous City

Parada diante da porta da sala do diretor Duvemport - no iluminado corredor 3-B/A-2 -, Carrie aguardava, de braços cruzados e batendo de leve um pé, a nova e estonteante secretária do chefe. A assistente mordia os lábios em uma expressão de pura e crua impaciência. "Já estou plantada aqui já faz mais de quinze minutos. Qual é?! O diretor também mordeu a isca?", pensou ela, intrigada com o assunto tratado entre ambos na sala.

Olhara no seu relógio de pulso. Eram cerca de nove e meia da meia da manhã. Tomou fôlego ao decidir não hesitar nenhum segundo a mais.

Fechou o punho direito e produzira cinco batidas rápidas na porta.

Dois minutos depois a maçaneta movera-se... até que, por fim, a porta se abriu lentamente com um rangido ínfimo.

Carrie, tentando não parecer alterada, forçou um sorriso ao ver a figura de Megan próxima à porta.

- Pelo tom das suas batidas, senhorita Wood - disse Duvemport, levantando-se da cadeira -, me parece ter um assunto muito urgente para me informar. Devo adivinhar? Hum... - revirava os olhos, pondo a mão no queixo, fingindo estar imaginando o que seria. - Veio discutir sobre o seríssimo caso... do seu aumento de salário? - perguntou ele, logo desatando em uma gargalhada, olhando para Megan de relance.

A secretária, naturalmente contagiada, também rira, mas não do mesmo modo. Seu olhar de relance, coincidentemente, cruzou com o de Carrie no exato momento em que a assistente desviou sua visão para ela a fim de estudar seu comportamento. Megan pareceu acanhar-se ante àquele olhar de suspicácia, limitando-se a tocar na armação do óculos, com a cabeça meio baixa, para não passar uma má impressão.

- Essa foi boa... diretor. - disse Carrie, irônica, forçando ainda mais o sorriso, mas querendo tornar-se séria ao relancear Megan. - Atrapalhei algo? - perguntou, ora olhando para Megan, ora olhando para o diretor, rapidamente.

- O que insinua, afinal? - perguntou Duvemport, franzindo o cenho, para a aflição de Carrie.

"Ai, meu deus! O que eu digo?", pensou ela, percebendo o quanto a pergunta lhe pegou desprevenida.

Na tentativa de amenizar o clima, Megan agira rápido. Virou-se para Carrie, lhe estendendo a mão direita com gentileza.

- Bem, vejo que não fomos apresentadas formalmente. Me chamo Megan. - disse ela, sorrindo.

- Carrie. - retribuiu ela, apertando a mão da secretária. - É um prazer.

- O prazer é todo meu. - disse Megan, logo depois pegando um envelope marrom que estava em cima da cadeira em frente à mesa, o qual estava repleto de papéis.

- Nós não terminamos. - disse Duvemport. - Você já vai? - perguntou ele.

- Preciso imprimir alguns inquéritos. - disse Megan, andando até a porta. - Até mais e obrigada.

- De nada. - disse o diretor, levantando levemente sua mão esquerda em um falho aceno.

Ouvindo um mínimo ruído de um objeto caindo, Carrie virou o rosto para o chão, perto da soleira da porta, notando antes de Megan. Agachou-se para pegar um pendrive azul, provavelmente vindo do envelope que poderia estar furado com toda a pilha de papéis dentro. Megan percebeu segundos depois, virando-se para Carrie.

A assistente fez bom uso dos poucos segundos que teve para avaliar o objeto antes de Megan tomar de volta ou se sentir obrigada a devolvê-lo assim que ela percebesse seu generoso ato.

- Oh, minha nossa, o pendrive onde guardo os arquivos dos inquéritos. Caramba... - disse Megan, recebendo o objeto pelas mãos de Carrie. - Obrigada, obrigada mesmo Cassie...

- É Carrie. - corrigiu a outra, novamente forçando um sorriso, interrompendo a fala de Megan bruscamente.

- Ah sim, desculpa. - disse ela, dando uma risadinha. - Ás vezes sou meio péssima para assimilar os nomes das pessoas. Mas, enfim... obrigada de novo.

- Disponha. - disse a assistente, vendo a secretária dar as costas e seguir andando pelo corredor em passos elegantes.

- Senhorita Wood? - indagou Duvemport, caminhando até ela após encara-la por dois minutos e estranhando vê-la observando Megan ir embora. - Algum problema? Ela não é uma graça?

- Só se for pra você. - disse Carrie, em baixo tom, sem tirar os olhos estreitados dos passos de Megan até o fim do corredor.

- Hum. Mulheres. Nunca são capazes de dividir território. - comentou Duvemport, achando engraçada a reação da subordinada pela nova contratada do departamento.

- Antes fosse. - rebateu Carrie, suspeitando da moça após o logotipo das Indústrias Crissman, gravado em relevo no pendrive, fixar-se em sua mente.

Para não destruir a boa imagem que Frank tivera da moça, Carrie decidiu não ligar para o detetive objetivando também não arruinar o foco no caso.

                                                                                           ***

Em Ylon, um carro de cor prata - um sedã compacto de 2010 - cruzava, em certa velocidade, as ruas movimentadas da área urbanizada da cidade. Frank e Christian estavam juntos. No entanto, o detetive sentia-se incomodado ao ter de executar um plano extremamente arriscado para emboscar o Devorador em seu próprio covil.

- Não sei não, Chris. Ainda acho uma péssima ideia. - disse ele, tentando dirigir com mais calma. - Não deve estar pensando na loucura de se sacrificar, não é? Também não é pra tanto.

- Detetive, não vou me suicidar. Não tem nada a ver com sacrifício. Mas sim com justiça. - afirmou Chris, olhando-o. - Além do mais, não basta matarmos o Devorador, precisamos fazer com que as experiências do meu pai com o Prisma Negro se tornem ilegítimas.

- Aí nesta parte certamente não me incluo. - disparou Frank, decisivo.

- Não, eu vou tentar desmanchar os planos dele por minha conta e risco, fica tranquilo. - disse Chris, tentando garantir a efetividade do seu plano B. - E, depois, contar a verdade à Ellie.

O detetive o olhou de relance, segurando firme no volante.

- Sobre o Devorador? - perguntou ele, curioso.

- Mais além. - disse Chris, parecendo sentir-se culpado. - As minhas mentiras, todas elas.

- Olha... - disse Frank, pensando em ajuda-lo. - Posso não fazer o tipo bom conselheiro, mas... Não precisa se sentir um babaca por causa de umas mentirinhas. Honestamente, você não está errado. Se fosse comigo, eu também agiria assim. - confessou ele.

Chris voltou-se para o detetive, mal acreditando no que ouviu.

- Sério? - perguntou ele. - Mudaria seu nome? Mudaria de cidade? Mentiria sobre sua ligação com uma criatura mutante e sanguinária?

Frank assentia com veemência.

- Com certeza. - disse ele. - Reconheço suas intenções, Chris. Não o fez por mau-caratismo. Agiu com consciência, pois sem isso continuaria preso àquilo que você tanto queria se libertar. Ás vezes precisamos agir com o meio errado para proteger aqueles com quem nos importamos. Principalmente quando é a única escolha. - declarou Frank, deixando Chris fita-lo com curiosidade.

- Parece dizer por experiência própria. - disse Chris, especulativo.

- É uma longa história. - disse Frank, querendo poupa-lo.

- Tudo bem... - aquiesceu Chris, olhando pela janela do carro. - Então... você não é só um detetive comum. Desde quando lida... com coisas que para a maioria não passam de pura fantasia?

- Desde a morte do meu pai. - revelou Frank. - Foi quando passei a acreditar que os monstros não se escondem nos armários, nem embaixo das camas. Mas estão a solta por aí, no mudo externo. As histórias que meus amigos contavam? Eram fichinha perto das coisas que meu pai enfrentava.

- Posso imaginar. - disse Chris, um pouco mais reflexivo.

- Minha mãe tentava não imaginar. - disse Frank, brevemente relembrando alguns momentos que passara na infância ao lado dos pais. O toque do seu celular o tirara de seus devaneios subitamente.

Chris se virou para ele, curioso para saber quem era.

Frank manteve uma mão no volante, atentando a chamada.

- Conseguiu algo mais? - perguntou ele.

- Eu quem te pergunto. - disse Carrie, entrando na sua sala particular. - E aí? Como foi o interrogatório?

- Tudo correu muito bem. Aliás, ele está aqui do meu lado. - disse Frank, relanceando Chris à sua direita.

- O herdeiro do império Crissman está ao seu lado!? Que inveja. - disse ela, levantando uma sobrancelha e sorrindo de canto de boca. - Ué, para onde estão indo exatamente? Ouço o barulho do motor do carro.

- Estamos seguindo diretamente à reserva florestal de Ylon. A gente tem um plano. - disse Frank, novamente olhando-o de relance.

- Corrigindo: Eu tenho o plano. - retrucou Chris, sorrindo de leve.

- Não me diga que é o que estou pensando que é... - disse Carrie, afligindo-se pela resposta.

- Sim, nós faremos. - confirmou Frank. - Já compramos o material. Uma bomba luminosa, com potência suficiente para destruir o Devorador.

- Devorador!? Isso me lembra uma lenda que vi na internet no ano passado. Tinha até uma suposta filmagem real de uma garota sendo mastigada por um monstro horroroso e cabeludo... - disse Carrie.

- Olha, Carrie, lendas são só lendas. não tem nada a ver. Melhor parar de acessar esses sites que publicam essas bobagens, nada disso é verídico. - aconselhou Frank, dobrando por uma outra rua. - Diga para o diretor que vou alugar um quarto de hotel por aqui e que o caso está sob minha responsabilidade.

- Alugar um quarto de hotel? - perguntou Carrie, franzindo o cenho. - Mas você detesta hotéis. Não que eu tenha contado isso ao diretor, mas...

- Olha, só me escuta. - pediu Frank, ficando impaciente. - O lance do hotel é mentira. Mas existe a possibilidade de eu permanecer em Ylon por mais dias, caso nosso plano falhe, mais desaparecimentos ocorram ou a polícia local queira meter o nariz e invalidar minha jurisdição.

- Hum, eles fariam isso. - disse Chris, preocupando-se com as contingências.

Frank continuara:

- Chris vai pedir folga, usando como desculpa o fato de Ellie precisar da companhia de um amigo, além dela, realmente, não ter como voltar para sua cidade natal ainda hoje por conta do dinheiro em falta para condução. - fez uma pausa, parando o carro por causa do sinal vermelho. - Eu tive acesso à uma cópia impressa do artigo sobre o Devorador. É a única existente. Até um desenho bem fiel à aparência do desgraçado o Chris incluiu. Acredita que somente quatro pessoas conseguiram quebrar o código?

- O quê? Você ainda diz "somente"? - questionou Carrie, pasma, sentando em sua cadeira. - Estive tentando por malditas duas horas e meia. Mas agora que conquistou a amizade de um Crissman, prevejo que serei a quinta pessoa. - disse ela, sorrindo sacanamente.

- Vai sonhando. - disparou Chris, dando uma risadinha, após ouvir a voz de Carrie no celular.

- E então? Está O.K pra você? - perguntou Frank, aguardando o sinal abrir. - Nessa madrugada, vamos armar tudo, pegar o desgraçado em flagrante e...

- Sim, Frank, eu já sei. - disse Carrie, interrompendo-o, seu tom de voz tornando-se repentinamente sério e emotivo. - Sem garantia de retorno. Já vi esse filme. O final pode ser muito glorioso... ou muito trágico.

O caçador demonstrara uma expressão tristonha pela preocupação da amiga.

- Carrie... - sorrira, tentando soar despreocupado. - Fica tranquila. Relaxa. Quando eu voltar, te conto mais sobre alguns podres de Arnold Crissman. Tchau. - desligara, logo guardando o celular no bolso.

A assistente ficara irrequieta com aquelas palavras.

- Ótimo, beleza. - disse ela, em reclamação, pondo o celular sobre a mesa. - Além de me deixar nervosa, me deixou extremamente curiosa. É o dia perfeito para Carrie Wood. - disse ela, frustrada e soando irônica, pegando seu laptop e clicando na aba do blog de Chris para novas tentativas de quebrar o algoritmo. - Vamos lá, de volta ao mistério.

                                                                                           ***

Floresta de Ylon - 03:40

A missão tivera seu início quando enfim a caminhonete pertencente à Chris cruzava a floresta mergulhada no breu total da noite - os faróis ligados rasgando a escuridão. A lataria, intermitentemente, era banhada pela luz da lua.

O ideal seria manter o veículo numa distância segura a fim de não soar espalhafatoso e acabar alertando os instintos exorbitantemente aprimorados da criatura. Chris desligara a luz dos faróis, enquanto Frank descera primeiro, destravando sua pistola de 78 milímetros, pegando uma pequena lanterna e ligando-a em seguida, mantendo ambos os objetos firmes em suas mãos.

Chris, por sua vez, mantivera duas armas de fogo nos coldres presos ao seu cinto, fechando a porta do veículo e passando a seguir cautelosamente os passos de Frank.

A bomba seria montada pelo detetive na "porta dos fundos" da caverna. No entanto, Chris guardava uma surpresa, escondendo uma parte do plano que envolvia um risco ainda maior.

- Não estranhe se as lanternas falharem. - disse Chis, pondo-se ao lado do companheiro. - A radiação do Prisma Negro pode fazer eletrônicos terem problemas. Se, por exemplo, o Devorador estivesse prestes a invadir uma residência, só bastaria uma distância mínima possível para que as luzes começassem a piscar.

- Isso pra mim é sinal básico de poltergeist. - disse Frank, tomando cuidado para sua voz não soar mais alta do que o necessário. - É sempre bom aprender com um especialista.

- E como virou caçador após a morte do seu pai? - perguntou Chris, apontando a luz da lanterna para vários dos pontos mais obscuros.

- Foram arquivos... - Frank interrompera a fala, virando-se bruscamente para uma direção, mas sem apontar a luz da lanterna para a mesma. Tivera a impressão de ter escutado um barulho de passos.

- O que foi? - perguntou Chris, preocupando-se ao ver a expressão no rosto de Frank.

- Não ouviu isso? - indagou ele, vasculhando com os olhos a área onde pensou ter detectado o ruído. - Olha... é melhor permanecermos juntos. O.K?

Chris baixara a cabeça por uns segundos, pensando no que decidir.

- Não. - dissera ele, lacônico.

- O quê? - perguntou Frank, voltando-se para ele com o cenho franzido. -  O que você está pensando em fazer? Não, não, nada disso. Não vou deixar você sair por aí, querendo atrair a atenção desse monstro.

- Pois é, você, infelizmente, acaba de adivinhar meu melhor plano. - confirmou ele.

- Achei que o plano como um todo fosse nosso. - retrucou Frank, sem entender.

- Olha, detetive...

- Espera aí, Chris. - disse Frank, tentando acalma-lo. - Creio que como dois homens da lei, nós devíamos nos dirigir um ao outro de uma maneira mais informal. Me chama só de Frank. - disse ele, sorrindo de leve.

- Tudo bem. - concordou Chris, dando continuidade à trilha. - A caverna já deve estar bem perto, vamos.

Passados cerca de dez minutos, Frank quebrara o silêncio inconformado com o estranho barulho que ouvira anteriormente, deixando-o intrigado. Olhara ao redor da sombria floresta, a arma na mão direita e a lanterna na esquerda.

- Desculpe insistir nisso ainda, Chris... Mas aqueles ruídos pareciam passos iguais aos de um animal selvagem. - disse ele. - Talvez o mesmo que ocorreu com Jason... pode estar acontecendo comigo.

Chris virou-se para ele, mantendo a mochila em suas costas.

- Você quer dizer que... o Devorador simplesmente emite sons estranhos para que só uma vítima possa ouvir? Isso é meio absurdo, francamente. - opinou ele, desconsiderando a possível veracidade de tal ideia. - Olha, que tal você ir na frente? - olhou para direção onde seguiam. - Já consigo ver daqui algumas rochas... a caverna está bem próxima. Toma a mochila e me dá sua lanterna...

Atendendo ao pedido, o detetive entregara a lanterna e recebera a mochila com os itens necessários para montar a mais potente bomba de luz.

- Pensa bem, Chris: Duas pessoas em um mesmo local. Só uma delas escuta o barulho que a atrai até o ponto onde a criatura uivou. Ellie por acaso disse à você o que estava fazendo antes de Jason perceber o barulho?

- Eu não sei, não acompanhei o interrogatório. - disse Chris, sentindo uma tensão lhe acometer. - Mas você agiu com inteligência. Você ouviu o barulho, mas não se sentiu motivado a descobrir de onde vinha.

- E porque pediu minha lanterna, afinal? O que nós combinamos? Vamos ficar juntos, Chris. - disse Frank, firme e categoricamente.

- Façamos o seguinte. - disse Chris, erguendo levemente uma mão, em uma tentativa de explicar a nova diretriz do plano. - A caverna está logo ali. Nos separamos por enquanto. Você vai pela entrada alternativa do covil, monta a bomba e sai o mais depressa que conseguir.

- Entendi. Mas para onde você vai enquanto eu fico com a parte que deveria ser a única do plano? - perguntou Frank, estreitando os olhos ao denotar suspicácia. - Não sei não, mas... Estou com a impressão de que está me escondendo algo.

- Eu te ligo quando for preciso. - disse Chris, recuando alguns passos. - Pedi sua lanterna pois seria só mais um chamariz para o monstro.

- Não faz sentido. Além do mais, não tem sinal de celular aqui. - disse Frank, divergindo com a ideia do jovem xerife. - Chris... O que está me escondendo? - perguntou, assumindo um tom de severidade.

- Estamos ficando sem tempo, Frank! - disse Chris, elevando a voz, logo tratando de olhar ao redor para se certificar de que não havia chamado a atenção da criatura. Voltou-se para o detetive, parecendo exasperado. - É tarde demais para explicar. Mas vou dar um jeito, eu garanto.

Um espécie de urro latente ressoara pelo espaço. Ambos olharam estupefatos para direção do assombroso barulho, o qual tinha-se a impressão de vir diretamente à Chris. O próprio confirmara isso imediatamente.

- Essa coisa é esperta. - disse Frank, apontando e balançando de leve com o indicador para a direção de onde veio o som. - Sentiu? - perguntou, olhando para Chris de relance.

- Sim. - respondeu ele, cada vez mais tenso. - Saquei a artimanha dele. Quando uma vítima não atende ao seu chamado, ele mira em outra. - dera as costas, tornando a correr. - Boa sorte, Frank.

- Ei, Chris!!! - chamou Frank em alto tom, quase se pondo a correr atrás do jovem xerife. - Por que você não quer me contar? Pra onde você vai?

- Não esquenta, é parte do plano. - disse ele, virando-se para o detetive, já estando meio distante. - De qualquer forma, mantenha a respiração bem baixa, se possível prenda ela o máximo que puder. Aqui vai uma dica: Papai e mamãe estão bem ansiosos. - tornara a correr, desta vez com mais velocidade, a luz de sua lanterna desaparecendo.

O caçador matara a charada em poucos segundos através daquela dica fácil. Sua reação imediata foi de pura impaciência seguida de um impulso.

- Ah... filho da mãe! - dissera ele, correndo até a caverna a toda velocidade.

                                                                                         ***

A entrada alternativa era estreita e desconfortável para se ultrapassar. Os ruídos ficando mais altos significava uma aproximação com alto nível de periculosidade. Frank inclinou-se um pouco, andando pelo interior da caverna de forma meio corcunda, tomando cuidado com as pequenas estalactites. O solo estava repleto de terra molhada untada à resquícios de sangue, ossos e vísceras. Ao ultrapassar a parte mais baixa, o detetive fora assaltado por um incômodo odor de algo apodrecido. Mantendo-se a andar, Frank pusera a mão direita no nariz, logo deparando-se com ossadas semi-enterradas.

Jogara a mochila no chão terroso e imundo, logo agachando-se, puxando o zíper e tirando todos os apetrechos adequados para a montagem da bomba. A luz da lua saindo por uma brecha no alto auxiliava bastante.

- Espero que esteja bem, Chris. Seja lá em qual parte você se meteu. - disse ele, baixinho, iniciando a montagem com rapidez.

Frank não parara ainda que os rosnados do Devorador ficassem mais próximos dali a cada segundo.

"Se concentra, Frank. Não olhe pra trás".

                                                                                          ***

Chris corria freneticamente, desviando de árvores e de raízes.

Parara bruscamente em um ponto sobre o qual possuía certeza absoluta de ser aquilo que estava procurando... e que ocultara de Frank desde o início.

Uma cratera funda onde jazia uma bola cinzenta e rugosa com uma espécie de "cauda" movendo-se.

- É aqui... - sussurrou Chris para si mesmo, ofegando pesadamente e suando em abundância. Sacara do bolso da calça um isqueiro e uma garrafinha plástica contendo uma porção de gasolina - sobre a qual mentiu para Frank dizendo ser água.

Olhou para os dois lados antes de abrir a garrafa e derramar o líquido de cheiro forte sobre o corpo estranho e gosmento no fundo da cratera. Após largar a garrafa, acendera o isqueiro e o jogara. As chamas crepitantes instantaneamente consumiram a tal esfera rugosa.

Uma satisfação invadia o âmago de Chris.

- Está feito... O bebê está morto. - disse ele, não tardando a sentir uma respiração pesada atrás de si... seguida de um rosnado lento e tenebroso.

Virou-se para ver o que era, deparando-se com a macabra figura do Devorador-fêmea, encarando Chris com seu olhar raivoso e penetrante e mostrando os dentes pontiagudos de sua boca larga. A criatura estava posicionada tal qual um gorila, embora seu tamanho não se igualasse ao de um.

Sem hesitar, Chris sacara a pistola e abrira fogo contra o monstro, no mesmo instante em que ele avançou para abocanhar sua cabeça.

                                                                                              ***

O pavio já estava conectado ao mecanismo da bomba, prestes a ser aceso.

Ao se levantar, Frank paralisou por uns segundos quando seus olhos se direcionaram para a entrada alternativa, mais especificamente à parede. "Cedo demais.". Uma silhueta animalesca e bizarra ganhava forma à medida que se avizinhava.

O detetive recuara vários passos, prendendo a respiração. Visualizou a bomba - basicamente um grosso cilindro preto - e logo riscou um fósforo, jogando-o direto na ponta do pavio.

"Fiquei tão preocupado em montar a bomba num curto período de tempo que me esqueci de prender a respiração enquanto eu ouvisse o barulho.", pensou ele, arrependendo-se por ter esquecido desse detalhe mediante à pressa. Olhou novamente para a silhueta, que estava maior. "Lá vem ele...". Menos de 15 segundos, já estava sentindo-se mal por não respirar. Correu dali à procura da saída - que, na verdade, seria a entrada principal da caverna -, tomando cautela em não acabar tropeçando em alguma pedra ou esbarra numa pilha de ossos. Usou a gola direita do sobretudo para proteger o nariz do odor fétido enquanto corria. "Droga, não enxergo nada! Esse lugar... é uma podridão insana!".

Infelizmente, Chris não contava com a possibilidade do Devorador-macho perseguir Frank até a caverna, muito menos que a bomba possuísse um pavio tão curto, reduzindo-se pouco antes da criatura chegar.

Já faziam dois minutos. Os pulmões gritavam por ar. Sem resistir mais, Frank apoiara-se numa pedra, quase ajoelhando-se, sendo vencido pela limitação. Tomara fôlego pela boca e pelo nariz. "Qual será o alcance da bomba?", se perguntou ele.

Não demorou para ouvir os ruídos novamente. O Devorador ignorara a bomba e o som do pavio fumegando, para elevar seu desespero ao limite. A criatura detectara a respiração reavida do caçador e partira em seu encalço, mais audaciosa do que nunca.

Era a hora propícia para a execução de um arriscadíssimo plano B. "Não tenho escolha...", pensou Frank, levantando-se e visualizando o espaço ao seu redor, Quis muito não estar errado sobre uma aparente passagem que levaria-o de volta ao ponto onde a bomba se encontrava.

"Agora ou nunca".

Correra até lá, enfrentando a escuridão quase total. Os passos da criatura também aumentaram no mesmo instante. Por sorte, estava certo, sua visão esforçada não falhara. Só restava saber se tal caminho levaria de fato até onde estava a bomba. Torceu para ver a luz do pavio. Uma ânsia de vômito tentou enfraquece-lo diante da tentativa, mas resistiu com perseverança.

Sentiu dobrar para uma direção. Poucos segundos depois, entreviu um ínfimo ponto brilhante que reavivou suas esperanças.

"É ali! Está ali!", pensou ele, correndo com mais determinação.

Já sentia por trás o bafo pútrido do Devorador sendo expelido. Chegara ao ponto, pegando a bomba e saindo pela abertura alternativa da caverna.

O pavio estava na metade e passaria dela nos próximos três minutos.

Frank conseguira sair ileso da caverna, correndo floresta adentro, embrenhando-se nas folhagens e arbustos volumosos e cautelosamente mantendo a bomba segura em suas mãos. "É isso aí. Atrair esse monstro para um ponto aleatório da floresta foi a melhor ideia que passou pela minha cabeça. Respirando e segurando essa maldita bomba! Não fui rápido o bastante...".

Contudo, Frank lembrara-se de um detalhe importante falado por Chris enquanto estavam no carro na vinda até a reserva. "Quando a luminosidade diminuir, você deve sair o mais rápido possível e fechar bem as duas entradas da caverna com algumas das rochas espalhadas por lá."

A intenção era clara. O Devorador-fêmea não conseguiria retornar ao covil, nem rever seu companheiro, tendo que permanecer solto na floresta e correndo risco de ser massacrado pela luz solar caso não achasse outro local seguro para abrigar os corpos humanos que trazia.

Mas não foi bem assim que Frank pensou. "Então é isso... Garoto esperto. Achei que só era para impedir a polícia de vasculhar a caverna novamente.".

Jogara a bomba com o pavio quase reduzido no chão e desviou para a esquerda, mantendo sua corrida no mesmo ritmo, sem olhar para trás, até uma distância segura do alcance da bomba. Prendera a respiração outra vez.

A criatura chegou ao ponto, deparando-se com a bomba. Farejou-a, evitando o pavio fumegante. Sua grande cabeça quase sem cabelos reluzia ao luar.

                                                                                         ***

Parando para respirar, Frank apoiou as duas mãos nos joelhos, inclinando-se para frente e ofegando bastante.

Um sibilo rápido e agudo soou distante, fazendo o detetive virar-se. Estreitou os olhos e pôs a mão direita na testa logo quando uma explosão de luz branca ergueu-se, banhando a floresta em uma luminosidade intensamente ofuscante.

Ao menos Chris acertou quanto ao potencial da bomba.

Frank tivera sua apreciação do espetáculo refulgente interrompida ao sentir uma mão trêmula tocar seu ombro esquerdo.

Por reflexo, virou-se e agarrou o braço de direito de Christian.

- Calma, Frank, sou eu! - disse ele, afoito quanto à reação do companheiro.

- Nossa... Que susto, rapaz. - disse Frank, suspirando de olhos fechados. A luminosidade à distância começara a diminuir gradualmente. Frank apontou para trás com o polegar. - O desgraçado virou pó.

- É... - disse Chris, sorrindo de leve. - Bom trabalho.

- Agora... será que dá pra me explicar a parte do seu plano que você não quis me contar? - pediu Frank, adquirindo seriedade.

- Em primeiro lugar: Desculpa. - disse Chris, sentido-se péssimo pela escolha. - E... em segundo lugar: Não preciso explicar, porque você, obviamente, já deve ter uma ideia de como a situação realmente era.

- Sim. - disse Frank, assentindo. - O casal de bocões.

- Exato. - disse Chris. - Eliminei o filhote.

- E como sabia onde estava o ninho? - perguntou Frank, intrigado.

- Em algumas patrulhas, eu vinha até aqui somente para conferir o desenvolvimento do ovo, sé é que aquilo é um ovo. Nada mais que isso. Só agora, ao seu lado, pude ter a oportunidade e a coragem para acabar com ele. O fogo funcionou, pelo visto. Mesmo tendo sua humanidade completamente aniquilada, um Devorador ainda consegue procriar e sentir atração sexual. Foi um dos poucos traços essencialmente humanos que restou.

- Você me fez acreditar que havia apenas um... - disse Frank, ainda não convencido. - Se o que causou as mortes de 10 anos atrás está morto... então estes outros dois vieram diretamente das Indústrias Crissman?

- Como eu disse: Meu pai é capaz de tudo. - repetiu Chris, firme. - Estas duas pessoas... foram sequestradas... transformadas... e largadas no mundo como monstros. O pior monstro desta história é ele, sem dúvidas. E não vou descansar até ele...

Chris tivera seu discurso interrompido subitamente por uma mão agarrando e puxando fortemente sua canela esquerda. O corpo do rapaz tombou com impacto no chão e ia sendo arrastado. Frank rapidamente tratou de segurar a mão esquerda dele.

- Chris! - gritou o detetive, assustando-se com o ato repentino e inesperado do Devorador-fêmea que sobrevivera aos inúmeros tiros. Tentava puxa-lo de volta com toda a força. - Aguenta firme... - disse ele, trincando os dentes e apertando os olhos.

Chris gritava para ser salvo. A mão pesada da criatura parecia querer esmagar os ossos de sua perna.

- Frank! - berrou Chris, confiando no parceiro de caçada. - Você consegue! Me puxa!

Sabendo que talvez sua força não bateria de frente com a de um monstro que possui o dobro do seu tamanho, resolvera sacar sua pistola, logo descarregando a munição inteira diretamente na cabeça do Devorador-fêmea com uma longa sequência de tiros.

Chris sentira a força da criatura diminuir drasticamente. O jovem xerife se levantara, desvencilhando da grotesca mão do monstro. Frank, para a surpresa do rapaz, andou em direção ao corpo do Devorador-fêmea e disparou mais três tiros na cabeça do mesmo.

Chris levantou uma sobrancelha, olhando-o estranho em um contato visual que parecia dizer: "Ué, isso foi meio desnecessário, ele já estava morto.".

- Só pra garantir. - justificou Frank, guardando a pistola no coldre de seu cinto.

                                                                                            ***

Após o amanhecer, Frank e Chris prepararam-se para empurrar algumas rochas pesadas a fim de lacrar as entradas da caverna.

Ao término do serviço, o detetive suspirara com a boca, passando a mão direita na testa ao limpar as gotículas de suor. Chris, por sua vez, veio do outro lado com a camisa ensopada, mas transparecendo disposição.

- Bem... Caso encerrado. - disse o jovem xerife, olhando para a caverna. - Quero dizer... Quase. - voltou-se para Frank. - Meu pai não sabe meu novo número... - deu de ombros. - ... talvez não há com o que se preocupar, a ligação não vai ser rastreada.

Frank o fitou com curiosidade.

- Chris... ahn... Sem querer soar muito invasivo, mas... Há quanto tempo exatamente você e seu pai não se falam? - perguntou ele.

- Desde minha saída do laboratório. - revelou Chris. - Há 10 anos.

Frank assentira, olhando para um lado.

- Ah sim... - disse ele, parecendo satisfeito.

- Bem, Frank, acho que é aqui que nos despedimos. - disse Chris, aproximando-se do detetive.

- Epa, espera aí. - disparou Frank, franzindo o cenho. - Mereço uma carona de volta pra casa, não?

Chris desatara a rir.

- É, sim, merece. - disse ele, bem-humorado. Estendeu sua mão direita ao companheiro de caçada de um só dia. - Valeu mesmo, Frank. Me mostrou como é ter um parceiro numa aventura. Na verdade, foi até uma das coisas que mais desejei no passado, odeio ter que fazer o trabalho pesado sozinho.

- Eu te entendo. - disse Frank, apertando a mão de Chris amigavelmente. - Sou eu quem agradeço. Mas deve admitir que pisou na bola ao me esconder detalhes tão importantes.

- É... - concordou Chris, assentindo. - Um pouco, eu acho. - dissera ele, sorrindo.

- Um pouco é?! - disse Frank, levantando uma sobrancelha com um sorriso enviesado.

- Tá bom, se te satisfaz: Vacilei com você. - confessou Chris, rendendo-se. - Achei que seria melhor fornecer metade da minha versão dos fatos por não depositar muita fé nos seus métodos de caçada. Pensei que resolveria fazer a maior parte do trabalho sozinho e acabar se arriscando além do necessário por minha causa.

- Que bobagem. Então foi por isso?

- Segurança em primeiro lugar, sempre. - disse Chris, arqueando as sobrancelhas.

O toque do celular de Frank interrompera abruptamente a conversa.

- Alô? - disse Frank, com o aparelho no ouvido esquerdo.

- O sinal de celular voltou... Que ótimo. - disse Chris, conferindo o funcionamento do seu.

- O quê?! É sério? - indagou Frank, aparentando surpresa no tom e na expressão. - Não acredito... - disse ele, sorrindo de leve e olhando para Chris, que gesticulava com a cabeça para saber quem era. Frank tapara o auto-falante do celular para sussurrar algo. - Carrie se tornou a quinta pessoa.

- Como é?! - perguntou Chris, espantando-se - Ela decodificou o algoritmo!? Não pode ser...

- Olha, meus parabéns. - disse Frank. - Só uma curiosidade: Você está em casa? Ah sim... Folga é? Sob que pretexto? Dentista? Gripe? Como foi a caçada? Ah, tudo correu bem. Eu... não teria conseguido sem meu sidekick. - olhou de relance para Chris.

- Sidekick? - perguntou Chris, sorrindo com o cenho franzindo.

- Sim, até fechamos a caverna. - informou Frank. - O que ficou por lá não vai mais sair. Já estou voltando para a cidade, quando nos encontrarmos amanhã no prédio te falo mais detalhes... O.K... Boa leitura. Tchau... - desligara.

- Ela virou a noite tentando quebrar o código. - disse Frank para Chris, achando engraçado tamanha perseverança da assistente em desvendar aquele enigma. - Estou feliz por ela. Você, por outro lado... - andou em direção aonde estava a caminhonete.

- Não, que nada, nem estou irritado. - disse Chris, seguindo-o. - Contanto que ela não espalhe, está tudo bem.

- O que vai fazer quando voltar à rotina? - perguntou Frank, andando na frente com uma alça da mochila no seu ombro direito.

- A gente salvou a cidade... então, tudo voltará a ficar mais pacato. Voltar para meu emprego. E, principalmente, dar algum tipo de conforto à Ellie. - disse ele, logo olhando-o de soslaio. - Não é o que está pensando.

- Não pensei em nada. - disse Frank, segurando a risada ao máximo.

- Ah é? - indagou Chris, sorrindo. - Posso não ter conhecido Carrie pessoalmente, mas pelo jeito como você interage com ela ao telefone...

- Não, não, nem vem. - disse Frank, erguendo o indicador esquerdo, quase rindo. - Você é a segunda pessoa que dispara uma dessas.

- E obviamente não serei a última. - brincou Chris, alcançando o detetive, caminhando lado à lado com ele.

Ambos, banhados pela luz do sol da manhã, distanciavam-se da área mais aberta onde ficava a caverna já definitivamente interditada.

                                                                                               ***

Dois dias depois...

Indústrias Crissman - Subsolo 02.

O altivo e elegante Arnold Crissman - um homem de meia idade, meio magro, cabelo meio branco partido para um lado, vestindo um terno preto com gravata vermelha - fizera o reconhecimento ocular no sistema responsável por abrir a porta automática. Com um silvo, ela abrira-se, dando passagem a um mundo em boa parte escuro.

O mundo particular do patriarca Crissman.

A enorme tela de computador no centro do painel exibia a imagem parada de uma silhueta humana.

Arnold andara a passos tranquilos em direção à ela.

- Presumo que trouxe atualizações animadoras. - disse a voz na tela, com filtro sinistro.

- Infelizmente, não, senhor. - respondeu Arnold. - Recebi hoje uma notificação para a retirada de uma sede da empresa... em Danverous City. A comunidade científica já tem conhecimento absoluto de minhas pesquisas com o Prisma Negro. E meu filho, aquele que covardemente renegou meus ideais, está no topo da minha lista de suspeitos.

- Desconsidere tais planos se vê que a situação se tornou insustentável a ponto de fazê-lo perder contato com nossa filial. - disse o homem misterioso. - E quanto à Frank Montgrow?

- Megan continua colhendo mais informações. Hoje mesmo ela me veio com um pendrive contendo uma ficha parcial de Frank. Ela permanece sorrateira... - disse Arnold, imaginando a figura da mulher... deitada em sua cama. - Assegurou que já conquistou a confiança dele. Quando vão liberar o espécime raro?

- Quando o momento nos parecer mais propício. - respondeu ele, frio. - A fundação jamais interromperá suas atividades apenas por conta de um reles amador que se considera um herói.

- E o que devo fazer de agora em diante? - perguntou Arnold, parecendo estar se comunicando com uma entidade divina e autoritária.

- Fuja. - recomendou ele. - Mas deixe o Prisma Negro sob a responsabilidade de meus funcionários a partir de agora. E sobre Frank Motngrow... Futuramente ele reconhecerá nossa importância. Ele verá do que realmente somos capazes.

                                                                                   -x-




*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos ou intenções relativas a ferir direitos autorais.

*Fonte da imagem: http://www.zona33.com.br/2014/05/15-florestas-mais-assombradas-do-mundo.html




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