Capuz Vermelho - Episódio Zero #2: "Crannon"


Relato autobiográfico - Capítulo 21: As noites de lua cheia não são mais as mesmas.

O que fiz da minha vida a partir de quando comecei a me submeter a uma devoção inexplicada é algo que talvez nem os deuses - se existirem - podem me responder. Era manhã. Dia comum de trabalho. Ou ao menos deveria ser em um todo. Robert Loub, meu melhor amigo e exímio profissional na área de biologia humana, me veio com uma cartilha infantil jogada sobre a minha mesa. Aquilo desfocou meu campo de visão me fazendo perder o fio da meada durante a escrita de um dos primeiros capítulos deste livro. Sinceramente, eu odeio quando ele dá aquele sorriso presunçoso, era uma das poucas coisas nele que deixava minha bile instável. Escondi o papel, era um rascunho, e disfarcei inutilmente. Bem, sorte que ele não era desses amigos grudentos e exageradamente curiosos.

Perguntei porque tinha me entregado aquilo. Na verdade, o centro da pergunta foi se ele bebeu na noite passada e inventou uma "fórmula mágica" de comparecer ao trabalho sem nenhum traço visível de ressaca. Ou será que meu grande amigo estava consumindo drogas? Não, aquele era o sorriso de praxe dele quando quer me mostrar uma coisa interessante, então estava sóbrio e são e eu tranquilo e desconfiado olhando para ele sem entender o que significava. Ele disse: "Olhe mais de perto. Sei que não dispensa novas formas de experimentar outros ares.". Ah, ele sabe como me fisgar com esses comentários enigmáticos. Infalivelmente irresistível. Achei que fosse um convite a um prostíbulo.

Não que eu seja adepto disso. O Robert podia ter desvios sexuais seríssimos - para um homem casado isso soa grave -, mas jamais fui instigado, nem consenti ir a um desses lugares que cheiram a pecado com ninguém que conheço. Ele respeitava minha decência. Em retribuição, respeitei seu estilo de vida como fiel amigo. Eu... o admiro muito, por mais estranho que pareça, tenho profundo apreço pela positividade que ele carrega como pessoa, muito mais ao seu profissional. Os aspectos negativos eu tento ignorar, às vezes relevar, mas faz parte, somos humanos afinal de contas, não vamos passar dessa vida sem cometer erros, sem fazer inimigos, sem lidar com frustrações... mas não quero passar sem perder tudo o que mais amo. Quero morrer antes da minha esposa e do meu filho pequeno.

Tem o Richard também. Nos encontramos num bar quase todo fim de semana, às vezes para jogar a conversa fora ou jogar baralho. O conheci lá há poucos anos. É jornalista e casado com Martha Campbell, com a qual terão um filho daqui há alguns meses. Ainda vou felicita-lo, dizer que ele é bem-vindo ao clube, mas não tive a oportunidade por ser extremamente atarefado. Mas o Robert não sai da minha cabeça. Richard tinha qualidades ímpares que me faziam gostar dele e vê-lo genuinamente como um verdadeiro amigo com o qual todos podem contar nas horas de tormento, ele possui uma energia boa que transmite empatia. Já o Robert... É confuso, algo me diz que eu não aceitaria muito bem os defeitos do Richard da mesma forma que os do Robert justamente pela diferença de convivência. Por isso tive até medo de um dia apresenta-los formalmente. Nunca falei nada sobre o Robert para o Richard e vice-versa.

Há algo no Robert que me encanta de um jeito que não me faz pensar que exista um substituto à altura no meu círculo de amigos. Por mais incrível que Richard seja. É tedioso estar tão dividido assim. Quando tive essa sensação horrível, gostaria que fosse um prostíbulo. Iria arquitetar um esquema secretamente. Pagaria um idiota qualquer que catasse lixo por ali só para gerar uma confusão, eu lhe daria a arma, ele atiraria para o alto e no meio da correria Robert e eu nos esconderíamos no banheiro e nos trancaria. Ele é percipiente, não ia compreender muito bem eu exagerar na minha postura. Lá mesmo eu me abriria. Era com ele que eu tinha o direito de saciar minha vontade reprimida. Poder destrancar a jaula dessa fera.

Porém isso nunca aconteceu, infelizmente. Continuei preso na minha vontade incompreendida até por mim. No interior da cartilha, Robert havia colado pedaços recortados de papel com letras garrafais escritas por ele que indicavam um endereço e a razão de eu estar nele sem atraso na próxima noite de lua cheia. Uma reunião ocasional. Não me disse mais nada depois que perguntei porque. Apenas falou que eu deveria conhecer o homem com o qual me acenderia a luz no fim do túnel.

Estava em crise. Nem a remuneração da universidade ajudava. Tivemos água e luz cortadas por meses por conta disso. Para contornar essa problemática toda o senhor Von Trask me deu o aval para usar a senha do seu cofre bancário sob uma identidade falsa e retirar uma quantia suficiente em troca de participar de cultos à uma entidade chamada Abamanu. Um deus lunar com corpo, cabeça e patas de lobo, pernas de lagarto, cauda de escorpião e asas decrépitas de morcego. Contemplei aquela estátua vigorosa no dia da minha iniciação que consistia em fazer um corte na palma da mão direita - se eu fosse canhoto cortaria a esquerda - através da lasca de uma pedra que não parece ser desse mundo - e passar meu sangue na estátua sob a luz da lua cheia que brilhava assustadoramente magnífica acima dela. O Grão-Mestre disse que há séculos um grande pedaço de meteorito caiu na Terra. A partir dele, com o auxílio da magia, deu-se origem ao primeiro ser homem-lobo. O primeiro uivo de uma criatura sobrenatural. Me sentia em um outro mundo. Em um novo mundo.

Priorizei o acordo deixando de lado minha fixação doentia por Robert. Conheci novos rostos. Ethan Nevill e Roonie Hogh. O primeiro um grande advogado. O segundo um pai de família de classe média que trabalhava como fabricante caseiro de móveis. Estava incluso num mundo onde as diferenças eram aceitadas. Sr. Von Trask ainda profetizou a suprema recompensa que Abamanu nos traria quando a lua se tingisse de vermelho. Dei de ombros, sem nada a temer. Não importava o lucro que viesse, depois que aquilo terminasse eu correria atrás de obtê-lo com meus esforços. Ah, não... Isso é impossível. Eu li todas as regras e esqueci da mais importante: O legado de pai para filho. Só a morte me tirará daqui. Eu disse que gostaria de morrer cedo, certo? Que seja, é aqui onde pude achar a saída do meu inferno particular.

Escolhi no que acreditar. Escolhi onde quis estar.

O lobo encontrou a sua alcateia. Hora de fazer as pazes com a minha auto-estima. Ela será fortificada em nome da minha família... não a um deus improvável. 


*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagem retirada de: http://essepapotambem.blogspot.com.br/2011/07/senhora.html


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