domingo, 17 de agosto de 2014

Observados


O futuro. Sua imprevisibilidade assustadora remonta aos tempos em que a ganância e mania de grandeza humanas eram as piores armas que se podiam usar contra a integridade de inúmeras nações. Evolução tecnológica era algo que levava os governantes à loucura, pois a partir dela poderia se conseguir lucros exorbitantes, denotando assim o crescente apego ao materialismo, cujo este seria o responsável por fazer toda a situação culminar em uma guerra. O sonho de um futuro próspero havia acabado no exato momento em que os cogumelos atômicos irradiavam os céus, outrora tão belos e azuis, agora passaram a ser negros, o que me fazia não reconhecer mais o mundo no qual vivia.

Numericamente superiores, as máquinas avançadas, cujas estas tiveram suas tecnologias oriundas de rudimentares e inofensivos computadores antigos, fizeram a humanidade entrar em uma era de escravidão e dor. A passagem dos tempos foi cruelmente dolorosa para quem acreditava no sonho ideal, assim como eu.
Ficamos em uma sala com paredes brancas, mantidos em cativeiro por nossos inimigos que nós mesmos alimentamos e criamos com nossas próprias mãos. O silêncio era aterrador. O pior de todos os sons. Estávamos prestes a entrar em profunda depressão por causa da falta de esperanças em relação à nossa sobrevivência. Estávamos sendo constantemente vigiados por aqueles seres asquerosos, nos observando com seus olhares frios e mecânicos. Até que um dia nós, finalmente, tivemos a chance de manter contato com o mundo exterior, depois de quase cinco anos presos em uma sala insuportável e vivendo em condições desfavoráveis. Ledo engano. Fomos conduzidos à um lugar inesperado, algemados e também observados por aquelas coisas flutuantes, muito provavelmente esperando alguns movimentos bruscos de um de nós, os quais não podiam ser realizados em hipótese alguma, senão nosso destino seria definido tragicamente. Andamos quilômetros e mais quilômetros, meus pés já não aguentavam mais andar sobre aquele solo infértil e quente. Não tínhamos nenhum tipo de proteção, estávamos livres para sermos contaminados.

Morte, destruição, tédio, melancolia, morbidez... o mundo estava resumido apenas à estes cinco elementos.
Era o que se via nas ruas inabitadas e inabitáveis. Chegando ao tal lugar nos deram pulseiras metálicas que apertavam bastante o pulso. Elas permitiam aos controladores identificar quais reações e quais sentimentos internos o usuário estava tendo no momento. Não era nos dado um manual ou um guia de como aquelas coisas funcionavam, mas de qualquer forma o propósito daquilo era completamente obscuro.
Entramos por uma porta gigante que foi abrindo-se lentamente. Seguimos por uma ponte e era nos dada a ordem para não olhar para baixo. Curioso e desobediente que eu era não hesitei em olhar. Desejei ter escapado daquele lugar o mais rápido possível ao ver o que estava abaixo da tal ponte. Tentáculos metálicos e criaturas artificialmente dantescas, pareciam lulas ciborgues gigantes, coisa que me lembrava de um certo filme que havia visto nos bons e velhos tempos do planeta. Deduzi que estavam nos levando diretamente para a morte, seríamos usados como sacrifício para o grande deus daquele mundo caótico e decadente, cujo este era chamado de Inteligência Suprema. A forma, a fisionomia daquela coisa era algo sem explicação lógica. Inúmeros braços mecânicos, partes abaixo dele completamente indescritíveis, e o que mais me chamava a atenção: sua "cabeça" ou cérebro era um olho gigante, onde era possível ver vários códigos ou símbolos passando em questão de milésimos, creio que eram as informações sendo processadas.

Ficamos em fila, não tínhamos o direito de falar antes dele, caso o contrário nos despediríamos ali mesmo. Primeiramente ele nos propôs um desafio sórdido, o qual não nos dava quase nenhuma vantagem.

- Aqueles que querem a liberdade terão que seguir minhas ordens. Poderão rever suas famílias, no entanto, ficarão sob minha vigilância 24 horas, ininterruptamente. Agora... os que não aceitarem minha proposta há apenas uma alternativa: se jogar no abismo e abraçar a morte como sendo a única libertação do sofrimento.
A escolha é de vocês. 10 segundos é o tempo máximo.

Eu não podia ficar calado diante daquele desafio manipulador e chantagista. Meus amigos iriam ter um sentimento de liberdade falso cimentado em suas mentes alienáveis. Era escolher entre a liberdade controlada ou a morte. Não... aquilo tinha que acabar.

- Pensem bem meus amigos! A Inteligência está nos enganando, ela quer nos fazer entender um sentido distorcido de liberdade, mesmo que escolham a primeira opção continuarão sendo controlados e escravizados, viverão uma vida em função de um ser demoníaco como esse!

Todos eles haviam ficado calados e quietos por um instante. Se entreolharam e depois olharam para mim novamente, só que com olhares de repulsa. Um deles veio até a mim, com lágrimas escorrendo pelo rosto, queria me dizer algo.

- Neste mundo em que vivemos... não há mais como acreditar na liberdade verdadeira. Ela morreu junto com todo esse planeta e nossa esperança. Preferimos viver sendo vigiados mas ao mesmo tempo junto de nossos entes queridos do que simplesmente morrer sem ter dado o último adeus. E não queremos dizer adeus tão jovens aos que tanto amamos. É a nossa escolha. Qual é a sua?

Aquela pergunta... que dúvida torturante se instalara em minha frágil mente. Acho que eu sabia meu destino desde que todo o caos se iniciou. Não devia fugir dele. Era triste pensar que nossa luta havia sido em vão.
Meus amigos haviam se entregado à proposta, de corpo e alma. Maldito ser de metal com sua inteligência diabólica. Foram transferidos para o outro lado da cidade em naves. Enquanto eu... bem, eu já havia decidido onde viver o resto da minha vida. Sem dizer nenhuma outra palavra joguei-me no abismo e caí sobre aquelas máquinas, me afundando em seus tentáculos.

Ao contrário do que pensavam não havia morrido. Estranhamente elas me aceitaram... sinto que estou renascendo... mesmo com estes brilhantes olhos me observando o tempo todo.



6 comentários:

  1. Muito legal gostei muito da estória, espero que tenha uma continuação :D

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    1. E ae Allen, fico feliz que tenha gostado :)
      Bem, a estória se encerrou aí mesmo. Ultimamente não venho escrevendo contos pensando em uma continuação, por enquanto quero escrever estórias mais fechadas.
      Continue ligado, novidades virão em breve.

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    2. Um tudo bem então. Ansioso pelos próximos posts :D

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  2. Gostei muito. Seus contos são no mínimo... intrigantes.

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    1. Que bom que percebera isto, pois esta é a intenção ^^
      Obrigado pelo reconhecimento.

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