quinta-feira, 9 de março de 2017

Meu primeiro encontro


A partir do momento em que meus olhos foram de encontro com os dela percebi que era minha chance de ouro.

Eu era apenas o universitário que tinha acabado de tomar jeito na vida pra amadurecer e ela a garota nova do bairro que arranca olhares maliciosos de qualquer um.

Ajudei com as caixas, com a mobília, limpei sua geladeira, consertei seu carro, enfim foram tantos favores que perdi a conta. Não resistia a cada sorriso aberto que ela me lançava, eram tiros no meu coração frágil e impressionável.

Meus banhos passaram a ficar mais demorados que o normal.

Porém, não tem nada a ver com devaneios indecentes, se é o que a sua mente suja está pensando.

Era a sua voz que me encantava. Mesmo quando eu não estava no banho ouvia-a cantar no chuveiro. Um timbre lírico e tão... suave, tão magnífico que fazia arrepiar os pelos.

O som potencializava uma sensação que passei a me familiarizar com mais afinco à medida que o rosto dela se fixava na minha mente.

Atraído, me aproximei dela numa manhã e elogiei suas cantorias. A retribuição foi mais que inesperada, me impactou como uma descarga elétrica.

Ela... me convidou para entrar. Tudo bem, eu tinha ajudado no início, mas aquilo foi só para mostrar solidariedade, não quis bancar o vizinho grudento logo nos primeiros dias, então me fiz de "difícil".

Mas a hora finalmente tinha chegado para a minha alegria. Um convite para um encontro na casa da garota pela qual me apaixonei à primeira vista. Já era meio caminho andado, um primeiro passo e tanto.

Combinamos dentro de cinco dias. Àquela altura, ela já sabia exatamente o horário dos meus banhos para me apresentar um show às cegas com sua linda voz de ninfa. E pensar que quase propus um espetáculo presencial, mas aí já seria precipitado demais.

Quando a noite chegou, urinei umas oito vezes, verifiquei e arrumei meu penteado cerca de quinze vezes e suei litros em aflição. Toquei a campainha, ela me atendeu gentilmente e entrei. Quase não desviei o olhar de seu lindo vestido púrpura curto que lhe caiu perfeitamente.

Seu cabelo sedoso estava alisado e ela usava um batom vermelho vibrante que realçava seu sorriso resplandecente. Eu fiquei pensando eufórico: "Que puta da sorte que tive, meus deus!  Mal fez um mês de mudança e já arranjo um encontro com uma garota, meu primeiro encontro!".

Brindamos nossa amizade que a partir dali evoluiria ao próximo nível.

Só não imaginei que fôssemos tão longe e tão rápido. Ao som de sua voz tocando num rádio com uma fita gravada por ela, nos agarramos e nos beijamos intensamente até nos despirmos. Por sorte, só tive minha camisa rasgada, ela tinha uma força tremenda. O poder da música e da bebida me fez falar demais.

Lembro de ter dito que casaríamos, teríamos filhos, um longo futuro a dois... E ela só respondia com mais beijos e alguns arranhõezinhos nas costas para excitar. Ela queria passar para o próximo sub-nível, então hesitei um pouco, delicadamente impedindo aquela mãozinha safada de tocar no meu cinto.

Do sofá iríamos para a cama. Mas... pra minha surpresa, ela me conduziu, parcialmente sob o efeito do álcool, para um ponto da casa que achei pouco típico para fazermos acontecer. Levemente alterado, aceitei, pegando em sua mão e me deixando ser arrastado.

Descemos para o que parecia ser o porão. Quanto mais eu perguntava, mais ela insistia que devia ser uma surpresa para oficializarmos nosso namoro.

Antes mesmo de entrar, meu sorriso se desfez porque um cheiro fétido de carne podre infectou meu olfato. Nem fazia ideia se a ânsia de vômito era da bebida ou do odor. Ela abriu a porta e me apresentou o lugar...

Forcei para não vomitar minhas tripas ali, olhando para aquela imundice infestada em toda parte.

Ela disse que voltaria para a sobremesa, fechando a porta depois e me trancando.

Me ajoelhei, desolado e frustrado, com raiva e ao mesmo tempo afundado em tristeza.

Me desesperei interiormente só de pensar que iria me juntar àqueles cadáveres de homens pendurados (ou o que ainda restava de alguns deles) por ganchos com suas entranhas expostas num verdadeiro matadouro humano.

Tinha de várias sabores: Sem pele, sem pernas, decapitado, retorcido, com sangue pingando, recheado com moscas varejeiras ou larvas...

Dez dias depois, ela volta. E me pergunto, horrorizado: Onde está aquela mulher incrivelmente bela?

Ela está morta e um monstro abominável corrompeu o seu corpo. A linda voz deu lugar a um som rascante e insuportável. Ela me olha e diz que finalmente me tornei apetitoso.

Não sabia que costumava agarrar pela cauda quando realmente queria um relacionamento sério.


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Este conto foi escrito e publicado exclusivamente para o Universo Leitura. Caso o encontre em algum outro site com créditos e fonte ausentes, não hesite em avisar! 



*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*Imagem retirada de: https://www.tumblr.com/search/mulher%20misteriosa


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