quarta-feira, 5 de abril de 2017

Capuz Vermelho #37: "O Voo da Fênix"


"E assim, rendida ao seu destino, a alma infortunada já não se sente mais parte do mundo que criou para se refugiar de seus próprios medos. Agora ela alcança novos horizontes... perdida e atormentada em memórias que tentam força-la a abraçar aquilo que sempre teve medo. Não existe nada que possa barra-la. Nada que possa impedi-la de voar sem rumo em busca de uma cura para seu mal... ou encontrar nesta aventura às cegas um jeito menos terrível de sucumbir à morte."

                                                                                          Trecho do Diário de Rosie Campbell; Pág 105(final).

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Grande Londres; 22h50. 

Os canos daquelas metralhadoras de pesado calibre estavam apontados diretamente, à uma pequena distância, para a testa do recepcionista que se limitava a encarar os malfeitores com um olhar de pupilas nervosas em genuíno pavor, sua face empalidecida e sua boca trêmula movimentando-se de modo desajeitado, exprimindo nada além de balbucios toscos. O homem de meia-idade com cabelos ralos meio grisalhos e vestia um casaco verde escuro recuou uns dois passos, afastando do balcão de recepção erguendo levemente as duas mãos, conforme os criminosos exigiam à ele naquele instante.

Os três assaltantes usavam vestimentas maltrapilhas e rasgadas, além de máscaras de Halloween. O primeiro usava uma máscara macabra de um duende, o segundo uma de lobo negro de olhos totalmente brancos e o terceiro de uma bruxa de pele enrugada e face assustadora.

- Anda rápido com isso, velhote! - ditou o "duende", ríspido, aproximando mais ainda o cano da arma em direção ao homem.

- Quanto... - gaguejava o recepcionista, com o caixa já aberto. - ... quanto vocês vão querer?

O "lobo" e a "bruxa" gargalharam com escárnio revoltante.

- Olha só isso, Matt! - disse o "lobo" dirigindo-se ao "duende", ainda rindo. - O velhote parece estar nos confundindo com simples ladrões que exigem uma quantia específica. Diz pra ele quanto queremos, vai!

- Por favor... - disse o homem, apavorado, fitando-os. - Façam o que quiserem, mas não me machuquem, por favor! Darei tudo o que quiserem!

- É, acertou. - disse o "duende", mantendo a arma apontada. - Queremos absolutamente tudo. Nem um centavo a menos. O que está esperando?

O proprietário daquela loja de conveniência remexeu o caixa, retirando grandes quantidades de dinheiro dali de maneira frenética, suas mãos suadas e trêmulas. Logo foi passando para o balcão. O "lobo" e a "bruxa' baixaram suas armas e se aproximaram do balcão para pegarem as cédulas e moedas, empurrando para os bolsos de suas calças de péssimo estado.

- Mais rápido! - exigiu o "duende", estranhamente o único que não estava preocupado em roubar, exercendo unicamente o papel de intimidador.

- Espera... mas só isso? - perguntou o "lobo", parecendo insatisfeito. Entortou a cabeça levemente para um lado, encarando o homem com sua máscara medonha. - Hum... Deve estar escondendo algo bem atrás desse traseiro enrugado. Não é? - voltou a apontar a metralhadora. - Não gostamos que subestimem nossas intuições.

- Ele tem razão. - concordou a "bruxa", imitando o movimento do parceiro. - Melhor nos entregar tudinho, se não quiser que esta espelunca seja decorada com pedaços do seu cérebro.

- Mas eu já entreguei tudo, eu juro! - disse o homem, a face aterrorizada. - Me deixem viver...

- Decidam. - disse o "duende", virando-se para os outros dois. - O tempo está acabando, logo mais a polícia vai aparecer aqui e vamos estar encrencados.

- O que quer que a gente faça? - perguntou o "lobo", confuso. - Sabe que fazemos como manda o protocolo. "Elimine toda e qualquer testemunha".

O argumento soou como o prenúncio de uma sentença de morte para o homem vitimado.

- Não, não, não, não... - disse ele, baixinho, fechando os olhos, prestes a cair em prantos.

- É a última loja... e estamos com os rostos cobertos, ora. - disse a "bruxa", baixando a arma.

- Ah, não me diga. - retrucou o "lobo".

De repente, uma voz cortara a atmosfera tensa do local. Uma voz reconhecida como a de uma garota perto da casa dos 20 anos...

- Querem uma sugestão meio atrasada? - perguntou Rosie, com as mãos na cintura, olhando para os criminosos com postura desafiadora. - Se quisessem que o plano de vocês não falhasse, acho que teria sido melhor trocar de roupa e máscara a cada loja que fossem roubar. - deu um sorriso irônico. - Ah, é claro, tem as vozes também, então esta seria a única desvantagem.

- Ora, vejam só... - disse o "duende", hipnotizado com a fisionomia da jovem. - Pessoal, percebo que hoje é mesmo nosso grande dia de sorte.

- Concordo. - aquiesceu o "lobo", apontando a arma para Rosie.

- Eu também quero compartilhar sorte. - disse a jovem, dando alguns passos vagarosos até o bandidos, os outros dois logo reerguendo suas armas.

- Em primeiro lugar... Como você entrou aqui? - perguntou a "bruxa".

- Não acho que estejam na posição de fazerem perguntas, rapazes. - disse ela, chegando mais perto.

- Ah é? - disse o "duende", irritado. - Olha pra isso. Aliás, olhe para o velho aqui atrás... veja como ele está tremendo de medo. Se veio aqui procurando nos impedir... melhor sair enquanto ninguém está machucado. - ameaçou ele, o tom grave.

Rosie permanecera inabalável.

- Se abaixa. - disse ela, a expressão séria e a voz autoritária, dando uma discreta e rápida piscadela para o recepcionista, que logo tratou de ceder ao pedido escondendo-se na parte de baixo do balcão.

- O quê? - indagou o "lobo". - Ela perdeu a noção do perigo, não é? - perguntou, dirigindo-se aos comparsas.

- Completamente. - concordou o "duende", mantendo a arma apontada. - Não vamos nos abaixar coisa nenhuma.

- Eu não falei com vocês. - esclareceu ela, soando ríspida. Ergueu sua mão esquerda suavemente, logo movendo os dedos abrindo mais a mão de modo rápido.

As máscaras dos três criminosos foram retiradas de seus rostos telecineticamente, todas voando e caindo no chão em seguida. Por fim, as faces dos desgarrados foram reveladas.

- Conforme o protocolo... - disse a "bruxa", mirando em Rosie, pronto para atirar. - Sem testemunhas.

- Engraçado... tenho a sensação de que já estive numa situação semelhante. - disse Rosie, pensativa por alguns segundos. Tornou a olhar para os criminosos. - Se não fossem os covardes que são... já teriam atirado assim que notassem minha presença.

- Agora já chega! - disse o "lobo", um rapaz de cabelos pretos esbagaçados e rosto jovial e caucasiano, o dedo no gatilho mal movendo-se.

Rosie o fitou estreitamente, sorrindo com satisfação.

- Não conseguem esconder... o quão nervosos estão. - disse ela, impondo mais intimidação. - Vamos lá... atirem! - olhou-os com severidade e cólera, suas íris azuis destacadas. - O que foi? Estão sentindo algo... diferente... vindo de mim? Alguma coisa... no mínimo estranha?

O "lobo" nitidamente estava tremendo e suando profusamente. Já o "duende" - claramente o mais velho do grupo - e a "bruxa" se limitavam a ficarem inertes, mirando e encarando Rosie com grande fúria.

De súbito, um denominado "cúmplice oculto", parte de uma estratégia requisitada por aquela gangue somente quando houvessem empecilhos possíveis, surgira arrombando as portas duplas da loja, com um rifle de médio calibre, este usando uma máscara de porco, blazer de couro preto e calças sociais.

- Péssima hora, amigo. - disse Rosie ao virar-se para ele, logo erguendo sua mão direta para fazer o pescoço do malfeitor quebrar-se com um leve movimento dotado de telecinesia.

O mascarado caíra no chão após sua cabeça ter sido virada para um lado após a quebra de todos os ossos de seu pescoço, aterrorizando ligeiramente os demais que recuavam passos.

Rosie voltara para o trio, novamente utilizando sua espantosa telecinesia, tomando-lhes as armas e virando-as contra eles após gira-las. Finalizando seu ato de justiça, fizera com que os gatilhos fossem apertados, permitindo uma barulhenta saraivada de balas sair daquelas pesadas metralhadoras, seus portadores tendo seus corpos freneticamente sacolejados a cada projétil que transpassavam-os, as marcas com sangue surgindo em suas roupas em questão de segundos. O recepcionista se encontrava abaixado no balcão, com os ouvidos tapados, encolhido de medo.

A jovem deixara as armas caírem no chão. Aliviado que os tiros cessaram, o proprietário e recepcionista da loja de conveniência levantou-se e encarou tanto Rosie quanto os corpos ensaguentados dos bandidos largados próximo ao balcão. Suas mãos foram diretamente ao encontro do telefone, no qual discava o número da polícia.

- Eu não faria isso no seu lugar. - disse Rosie, o tom de ameaça, olhando-o com seriedade.

- Por favor... só falta me dizer que é um deles...

- De forma alguma. - interrompeu ela. - Não precisa fazer isso.

- Ora, mas porque? - perguntou o homem, aborrecendo-se.

- Recolha os corpos. - ditou ela, surpreendendo o lojista que deu um arquejo de pânico ao ouvir.

- Minha jovem... - a olhou estreitamente. - Mas quem é você, afinal? Você está bem? Como conseguiu parar esses desgraçados?

- Não recebeu minha ajuda para me interrogar sobre quem sou ou o porque de eu cumprir meu papel. - retrucou ela, despreocupada, prestes a sair da loja. - Se não quiser que mais pessoas saibam, sugiro que limpe a bagunça de dentro... que eu cuido da de fora. - falou, abrindo a porta para sair.

- Bagunça de fora...? - disse o homem, franzindo o cenho, sem ter entendido, mas suspeitando.

Ao se encontrar do lado de fora da loja, na calçada de uma rua deserta àquela hora da noite, Rosie parara e fitou o resultado de sua ação do outro lado da rua, a qual ela jurava até a si mesma que foi em legítima defesa.

Rosie olhava com uma visão de cansaço, os lábios tortos denotando decepção, três viaturas policiais viradas após capotarem e vários corpos de policiais seguindo uma trilha de sangue que dava para o início da rua, revelando a existência de uma perseguição contra a jovem até ali antes do assalto.

- E como sempre... fico com o trabalho pesado. - disse ela, em tom de frieza.

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CAPÍTULO 37: O VOO DA FÊNIX

Área florestal de Raizenbool - 48 horas antes. 

A porta da frente do Casarão fora aberta por Hector, que logo notara sua parceira agachando-se próxima a um tapete verde redondo que encontrava-se no centro da espaçosa sala de estar. Franzindo o cenho ao entrar, o caçador dirigira-se à ela, guardando as chaves da casa em um bolso externo do sobretudo.

- O que está fazendo? - perguntou ele, chegando mais perto.

Rosie levantara parte do tapete, descobrindo um sigilo inibidor desenhado no chão de madeira.

- Na primeira olhada - disse ela, levantando-se. - eu falei comigo mesmo: Não lembro de termos um tapete no meio da sala. Então, assumi que era preciso um bom motivo para ele estar aqui. - olhara para o chão, depois voltou-se para o caçador.

- É por precaução. - justificou Hector, andando devagar pela sala, tranquilo. - Nunca se sabe quando podemos receber certas visitas indesejáveis. E só pra constar: Foi ideia de Áker. - disse, levantando de leve o dedo indicador.

- É até meio desnecessário. - disparou Rosie, discordante.

O caçador virara-se para ela, olhando-a confuso.

- Ué... mas por que diz isso?

- Começo a imaginar que Sekhmet foi forçada a desistir. - conjeturou Rosie. - Ela tinha ligação com os Coletores, então é lógico afirmar que ela saiba nossa localização.

- Uma informação repassada aos seus soldados. - apontou Hector, aproximando-se da jovem. - E é aí que reside o X da questão. Quem garante que ela esteja na moita, esperando o momento certo para dar um golpe surpresa, enquanto seus soldados tentarem investir contra nós... aqui. - disse, o indicador apontado para o chão.

- Não seriam tão estúpidos. Nos atacariam quando estivéssemos fora. - retrucou Rosie, um pouco pensativa.

- Será mesmo? - indagou o caçador, incrédulo quanto ao argumento da jovem, levantando uma sobrancelha. Desviou os olhos para a extensão da sala, visando as janelas. - Áker gravou sigilos invisíveis em toda parte, pelo menos na maior parte das paredes.

- Vou refrescar sua memória teimosa: Áker não é nosso guarda-costas. - disse Rosie, olhando-o com rigorosidade.

Hector se limitou a assentir vagarosamente, olhando-a como se esperasse mais especificidade.

- Disso já estou plenamente ciente. Onde quer chegar com isso? - estreitou os olhos.

- Ele não vai estar disponível a todo momento, certo? - perguntou Rosie, a expressão friamente séria. - Somente ele pode ativar os sigilos. Como fará se caso um dos lacaios daquela vadia vier atrás de mim?

Hector, prontamente, retirara o amuleto de Yuga de um bolso externo do sobretudo. O mostrara para Rosie.

- É sério? - indagou ela, cética. - Até onde eu sei, o amuleto só serve para estabelecer contato com Áker e outros soldados.

- Bem, digamos que é a segunda e última função que nós, meros mortais, podemos executar com ele. - explicou Hector, pondo-o na palma de sua mão direita - Farei uma demonstração. Observe. - direcionou a mão aberta com o minúsculo objeto diante do tapete, com a finalidade de estimular a ativação do sigilo.

Poucos segundos foram precisos para que o amuleto brilhasse sua luz amarela, logo em seguida sendo a vez do sigilo abaixo do tapete acender-se completamente.

Meio boquiaberta, Rosie fitava o símbolo brilhante, relanceando o amuleto na palma da mão de Hector com espanto verdadeiramente controlado. Voltou-se para o caçador, a expressão de quem exige explicações de modo urgente e apressado.

- Isto foi... - ela parecia não ter palavras em mente para descrever. Sorrira fracamente. - ... incrível. Devemos muito à ele.

- Sem dúvidas. - aquiesceu Hector, tratando de guardar o amuleto no bolso. - Áker me garantiu que nenhum dos aliados de Sekhmet sabe que humanos podem usar os sigilos com a ajuda do amuleto. Usaremos a desinformação de nossos inimigos ao nossos favor. - andou até a entrada da cozinha, afastando a cortina, logo depois caminhando em direção à escada, no entanto, não subindo. O caçador voltara-se para Rosie, sério. - Sabe onde Lester está?

- Provavelmente ainda na loja de penhores. - respondeu Rosie, um tanto incerta, dando de ombros.

Para a surpresa de ambos, o caçador estrategista surgira entrando, assoviando ao carregar uma caixa com conteúdo misterioso.

- Lester - chamou Hector, andando até ele. - Por onde esteve? Acordei e você já havia saído.

- O que tem aí dentro? - perguntou Rosie, curiosa.

- Uma pergunta de cada vez, pessoal. - disse ele, encaminhando-se para a mesa que ficava próxima à porta dos fundos, em seguida pondo a caixa de papelão sobre ela. - Sabe, é tão estranho estarem tão...

- Preocupados com você? - arriscou Hector, olhando-o com estranheza.

Lester exibira um semblante de confusão, como se não soubesse a maneira correta de falar, movendo discretamente a boca para exprimir o que pensava em dizer.

- Ahn... eu ia dizer tensos. - disse ele, sucinto. - Olha, a coisa anda feia lá fora, eu sei, mas... Vamos encarar os fatos, pessoal: Nós podemos aproveitar esta trégua. Eu posso aproveitar. Só quero tirar o atraso.

- Quem dera pudéssemos. - disse Rosie, parecendo se referir ao tempo em que ficara em coma. Ergueu de leve o indicador direito, apontando para a caixa. - Reformulando a pergunta: O que tem dentro desta caixa que você faz parecer tão secreto?

- Munição extra. Tá bom pra você? - disse ele, sorrindo de modo brincalhão. - É bom voltar a ser criança.

- O ponto em que estamos nesta situação está longe de ser considerado uma trégua, Lester. - apontou Hector, cruzando os braços e recostando-se numa parede.

- Espera aí - disse Rosie, franzindo o cenho, sorrindo de leve e olhando para Lester. -, você costumava comprar armas com seus pais durante a infância?

- Foram só alguns bonequinhos baratos. - disse ele, dando de ombros. - E o mais triste: Aconteceu só uma vez. Agora crescido, posso ver que o comércio legalizado ameniza o sentimento ruim daquela época.

- Hum... entendo. - disse Rosie, assentindo positivamente, olhando para um ponto da sala.

- E quanto à você, Hector... - disse Lester, fitando o amigo com seriedade. - ... bem... se não é uma trégua... então não sei mais o que é.

- Rosie ainda está sob ameaça. - respondeu ele, lacônico, relanceando a parceira.

- Quem além das tropas de Abamanu está ameaçando a vida dela? - perguntou ele, parecendo estar por fora das últimas atualizações.

- Sekhmet. - disse Rosie.

- Esse nome me é familiar... - disse Lester, pondo um dedo no queixo, pensativo. - Antigo Egito e essas coisas...

- Obviamente, ele está nos livros de mitologia. - disse Hector, descruzando os braços. - Mas, na realidade, a figura mitológica é bem pior do que se imagina.

- Explicando melhor - disse Rosie, andando devagar pela sala, estralando os dedos. -, é uma divindade com sérios distúrbios psicológicos e tendências psicopatas.

O caçador estrategista notara o tapete no centro da sala, achando um pouco estranho.

- Item decorativo meio... destoante. - opinou, andando alguns passos sem tirar os olhos do tapete. - Não acham? - olhou de relance para os dois ao perguntar.

Rosie se prestou, meio insegura, a explicar com uma mentira bem elaborada e rápida.

- Ahn... Na verdade, foi Êmina quem comprou, mas só hoje que decidi inaugura-lo. - disse Rosie, com um sorriso leve, tentando passar naturalidade na fala. - Concordamos em deixar esse lugar mais... colorido.

- Que estranho. - disse Lester, a testa franzida e esboçando um sorriso que denotava descrença. - Ela nunca foi do tipo que se preocupa com a aparência do lar. Se fosse uma pintura nova nas paredes, cortinas melhores ou um verniz no corrimão da escada e nas portas eu até iria gostar sem achar esquisito. Mas só um tapete? - dera uma risadinha. - O talento decorativo dela é bem fraco, pelo que parece. Comparado ao da minha mãe... - assoviou, indicando que o suposto manejamento de Êmina para com decorações de cômodos era o mais inferior já visto. Ainda assim, persistia a desconfiança.

Hector interpôs-se, cortando a conversa ao andar em direção à caixa na mesa.

- Err... Eu vou por essa caixa lá em cima, deve estar muito pesada e você caminhou uma longa distância a trazendo... - disse o caçador, apontando para o objeto com o indicador direito.

- Não, não precisa, só pus aí para que eu pudesse descansar um pouco. - disse Lester, andando a largos passos até a mesa, em seguida pegando e levantando a caixa com as duas mãos e dando um grunhido devido ao peso do conteúdo. - Mas obrigado por se importar.

- Disponha. - respondeu Hector, assentindo.

- Então, um dos quartos do andar de cima vai virar uma espécie de depósito de armas? - perguntou Rosie, querendo saber se havia entendido errado.

- Agora que você falou... - disse Lester, subindo os primeiros degraus, a voz forçada. - Até que não é uma má ideia.

O corte na conversa dado por Hector serviu para atrair a facilmente desviável atenção de Lester para a caixa, a fim de desconcentra-lo quanto ao "misterioso" e inesperado tapete visto de surpresa ou sobre sua provável suspeita relacionada ao que estivesse por baixo dele. Caso uma descoberta fosse feita pelo caçador, ambos sentiriam-se obrigados a esmiuçarem a história por trás daquilo, consequentemente revelando a existência de Áker e, além disso, em uma conversa mais longa que o necessário para fazer o caçador processar as contingências idealizadas e se preparar à elas.

- E será o último do corredor. - avisou Hector, andando até Rosie.

- Justo o que eu pensava em limpar no próximo fim de semana. - disse ela, pouco sentindo-se disposta.

- E porque não o fez antes? - perguntou o caçador. - Medo de algum roedor ou inseto subir em você?

- Não vem com essa. - retrucou ela, sorrindo de canto de boca, achando um pouco engraçado. - Para sua informação, já tive um camundongo de estimação, escondido da minha avó. Tudo acabou quando ela descobriu a festinha que ele deu na cozinha junto com alguns amigos.

Hector deu uma risada leve, mostrando seu brancos dentes, aproximando-se da parceira de caçada.

Rosie o olhou de modo estreitado e analítico, sorrindo de maneira discreta, ao perceber uma coisa da qual sentia nunca ter testemunhado antes.

- Sabe... Me sinto numa primeira vez vendo você... sorrir mais abertamente. - disse ela, pouco à vontade. - É que não o faz com muita frequência, então essa é a primeira vez... em anos. - falara, a expressão séria ao desviar o olhar para um canto da sala.

- Isso depende. - disse Hector, olhando-a com suspicácia. - A faz se sentir melhor? Em vista de tudo o que já passamos?

A jovem mordera os lábios, tentando achar uma melhor forma de responder sem parecer estúpida.

- Não sei bem ao certo. - disse ela, virando-se para um lado e andando devagar. - Fazer alguém rir de uma piada ou historinha boba, até consigo entender, deixa minha mente mais leve. Mas... - fizera uma pausa um tanto longa para o caçador.

- Mas...? - indagou Hector, fitando-a.

- Não sei se eu chegaria a ser capaz de... - disse Rosie, o tom indeciso emanando de suas palavras. - ... fazer alguém feliz como merece ser. Minha avó, por exemplo, teve bastante trabalho em cuidar de mim, seja me levando à escola, me ajudando nos deveres de casa ou passando noites em claro para me acalentar quando eu chorava no berço por causa do escuro.

- Sempre teve um medo irracional da escuridão? - quis saber Hector, disposto a ajuda-la.

- Até os 9 anos, pelo menos. - revelou a jovem, engolindo a saliva, sentindo um desconforto em um lado da cabeça surgir de repente. Evitou por a mão na têmpora esquerda acreditando não passar de uma dor meramente passageira ou efeito de um estresse ao relembrar memórias ou pensar nos problemas atuais. - Ela chegou a contar à mim que uma vez que a luz e a escuridão se colidem... não há ordem nem caos. Elas apenas se completam... Como se fossem feitas única e exatamente para esse destino.

- Muito profundo. - disse Hector, assentindo positivamente.

A reflexão de Rosie contagiara o caçador de modo a deixa-lo extasiado ao pensar estar se tratando de um suposto paralelo entre suas tão distintas experiências de vida.

- Desde então, não senti mais nenhum medo. - dissera ela, ainda de costas para o caçador, mas a dor de cabeça aumentando, fazendo-a apertar os olhos com força. - Então, ela me incentivou a repetir o mantra: Enquanto eu estiver no escuro não vou me abater, nem esmorecer. Vou somente seguir em frente, acreditando em mim mesma e no meu destino. - suas pernas começaram a ficarem bambas, não tardando para o caçador notar que havia algo errado com a amiga.

- Rosie... Está tudo bem? - perguntou ele, aproximando-se vagarosamente dela. - Está tremendo...

- Ai... - balbuciou Rosie em tom doloroso, tocando o lado esquerdo da cabeça. Vencida pelo intenso peso, a jovem ajoelhara-se abruptamente. - Minha cabeça... - a mão direita tocou o chão.

- Rosie! - disse Hector, agachando-se próximo à ela para ajuda-la. - O que foi? O que está sentindo?

- Não sei... - disse ela, a voz enfraquecida e baixa. - Só... está doendo mais...

- Essa não... - desesperou-se o caçador, sem saber como proceder. - Aquela mesma dor que você havia sentido quando enquanto estávamos indo embora da cidade natal de Êmina. Aguente firme, estou aqui, para o que der e vier. Resista... até que cesse. Afinal, foi momentânea na primeira vez.

- Não... contaria com isso. - retrucou ela, queixando ainda mais da forte dor que soava como dois pesos de chumbo querendo esmagar seu crânio gradualmente.

- Lester! - gritou Hector, em direção à escada chamando o parceiro. - Rápido! - virou-se para Rosie, agachando-se novamente e tocando-a no ombro. - Seja forte, Rosie. Vou leva-la ao hospital, ficará tudo bem. Obviamente, isso significa algo grave, não podemos esperar.

- Não... - discordou ela, inclinando-se para frente, trincando os dentes e apertando os olhos com mais força. - Aaaaahhh! - gritara, indicando um aumento significativo da dor. Em sua mente transcorriam imagens sequenciadas em uma velocidade arrebatadora e extremamente difícil de acompanhar, como cenas de um filme mudo. Uma delas mostrava um lugar inóspito, dois pégasos e ela mesma diante deles. Atrás de sua figura, estava um ser de aspecto magérrimo, flutuante e uma face vazia observando-a. Outra imagem, passada em milissegundos, dentre as mais chocantes, apresentava a jovem arrombando uma porta com um chute e disparando um tiro de uma revólver contra um homem cujo rosto mantinha-se oculto. Sua expressão de frieza se fixou, fazendo-a questionar com veemência sobre tais visões aterradoras.

- Lester, depressa! - insistiu Hector, aflito.

- O quê?! O que foi? - perguntava o caçador, descendo as escadas rapidamente. Adotara urgência na expressão ao ver Rosie em posição quadrúpede no chão. - O que aconteceu com ela?

- Está tendo uma forte dor de cabeça. - disse Hector, tentando levanta-la. sacou do bolso externo do sobretudo a chave do automóvel estacionado há poucos metros do Casarão. - Tome. - jogara-a para Lester. - Ligue o carro, vamos leva-la direto ao hospital.

- Assim, tão de repente? - questionou Lester, intrigado. - Talvez seja algum tipo de tumor, sei lá... Pra fazer ela quase se bolar no chão de tanta dor...

- Lester, por favor, vá! Não temos tempo. - insistiu Hector, o tom autoritário e exasperado.

Repentinamente, Rosie indiciava sinais de uma possível melhora ao querer se levantar, embora ainda queixando-se da dor, mas, desta vez, aparentava estar sofrendo um sério delírio.

- O quê?! O que significa isso? - perguntava-se, em tom alto. - Para! Para! O que está fazendo?! - gritava ela, mantendo os olhos apertadamente fechados, as mãos na cabeça e a face angustiada. - Você não é real! Saia da minha mente! Agora! Saia! Saia! - balançava a cabeça freneticamente.

- Rosie!!  - exclamava Hector, segurando-a pelos braços. - Abra os olhos! Fique comigo! O que está vendo? Me fale!

- Não vou deixar... você me obrigar... - dizia ela, assumindo um tom raivoso e colérico. - Quando eu sair daqui... farei você queimar no inferno... sentindo uma dor indescritível... - soltara uma gargalhada mefistofélica, inclinando a cabeça para trás ao rir para o alto.

Lester franzira o cenho, balançando a cabeça em total negação.

- Olha... talvez seja melhor não chamarmos um médico, mas sim um exorcista. - disse ele, impressionando-se com o teor assustador do riso estardalhaçante de Rosie. - Que loucura, é essa?

- Ela claramente está delirando. - disse Hector, sem desistir de querer salva-la. Tocara a testa da jovem. - Como presumi. Está ardendo em febre... e aumentando. - constatou, apavorando-se com a velocidade com a qual a febre crescia. - Abra os olhos, Rosie. E todo esse pesadelo vai acabar.

- Vou mata-lo... e estripa-lo... até não sobrar nada. - dissera a jovem, em um espantoso estado que lembrava o de alguém possuído por alguma entidade maligna. Por um instante, Rosie pareceu querer abrir os olhos, mas muito pouco. Sua expressão suavizou-se. - Eu... pertenço às trevas. - disse ela, baixinho, o tom frio. A frase precedeu um súbito desmaio, para o aumento do desespero de Hector. O corpo da jovem caíra sobre o torso do caçador, que prontamente segurou-a firme.

- Rosie. - disse Hector, deitando-a de barriga para cima sobre seus braços, logo entregando-a a Lester. - Droga...

- Deixa comigo. - disse Lester, pegando-a. - E é mais pesada do que pensei. - olhou para Hector, preocupado. - Olha, cara... Isso aqui foi muito sinistro para uma dor de cabeça grave. Deve ser obra dessa Sekhmet. Tem uma teoria melhor?

- Teorias não vão me ajudar a encontrar a chave para a razão disto acontecer. - disse Hector, pensativo quanto ao caso. - Mas já sei a quem recorrer. Leve-a para cima. Não vou demorar. - falou, com ar decidido, andando até a porta.

- Você quem manda. - aquiesceu Lester, carregando Rosie sobre os braços até a escada, enquanto Hector fechava a porta da frente para ir ao encontro do único ser envolvido naquela situação capaz de ajuda-lo a desvendar as raízes daquele mistério.

Afinal, era a vida de Rosie que colocou-se em jogo.

                                                                                           ***

A parte da área florestal mais distante do Casarão foi o ponto de encontro selecionado por Hector, fazendo bom uso do clima pouco barulhento - limitado ao som abafado e quase inaudível do canto dos pássaros de diversas espécies - e ameno. O sol da manhã banhava a terra e as grandes árvores de troncos robustos com suas folhagens bem aparentadas e balançantes. Pisando no vasto espaço de folhas secas e quebradiças, o caçador pusera o pequeno objeto dourado - similar a um anel - na palma de sua mão direita e esticando um pouco o braço.

Fechou os olhos e mentalizou seu pedido, como se estabelecesse contato telepático, algo possibilitado pelo artefato e um meio que permaneceu desconhecido por Rosie.

O amuleto brilhara sua característica luz amarela. Em seguida, uma brusca corrente de vento irrompeu por detrás do caçador, fazendo boa parte das folhas no solo voarem e se afastarem.

- Olá, Hector. - cumprimentou Áker, a expressão denotando preocupação. - Assim que mencionou Rosie, não pude ignorar, mesmo estando concentrado em outro objetivo. Como ela está?

Hector virara-se para o arauto de Yuga com um semblante endurecido.

- E qual outro objetivo é esse que parece ser tão importante quanto salvar a vida de Rosie? - perguntou ele, duvidando das intenções de Áker ao suspeitar de algo escondido.

- Responda minha pergunta primeiro. - pediu o arauto, andando alguns passos adiante.

- Está inconsciente. A deixei sob os cuidados de Lester enquanto estou fora. - informou Hector, sério. - Logo quando ela começou a dar sinais específicos, senti que precisava chama-lo urgentemente, por ser a única fonte para as respostas ao meu alcance.

- Acredite, não é o único desesperado por respostas sobre isso. - disparou o arauto, olhando-o com firmeza. - Seu chamado veio na hora certa. E agora respondo sua dúvida: Eu estive investigando rastros que possivelmente me levariam à verdadeira fonte.

O caçador empertigara-se ao escutar tal informação, atentando-se ao máximo.

- Do que está falando? - perguntou, olhando-o desconfiado. - Por acaso sabe ou teoriza sobre quem pode estar por trás desse surto doloroso de Rosie? Por um momento, tive a impressão de ser uma forte dor de cabeça simplesmente tratável por médicos, mas de repente algo mudou... - fez uma pausa, lembrando-se do desconfortável momento. - Começou a falar e se manifestar de uma maneira que não parecia ser do seu feitio, como se outra pessoa estivesse em seu controle ou aflorado seu lado mais sombrio... E não foi a primeira vez.

- Quantas vezes isso ocorreu? - perguntou Áker, elevando sua preocupação.

- Esta foi a segunda. - respondeu o caçador. - Obviamente, estava completamente fora de si, até desmaiar. Além de uma febre o que creio ser medida em uns 40 graus e crescendo a cada segundo.

- Alguém despreparado afirmaria que o aumento de temperatura causou o delírio. - apontou Áker, pensativo ao olhar para um canto da floresta. - Serei honesto com você, Hector. A mesma coisa que pode ter sido a responsável por essa manipulação provavelmente possui o conhecimento para fazer isso parar. Afinal, ela acordará, cedo ou tarde, uma hora ou outra, então precisamos ser rápidos.

- E o que significa essa tal fonte? Como descobriu a existência dela? - questionou Hector, extremamente curioso.

- Obviamente, Rosie não contou a você. Eu... - fez uma pausa, andando vagarosamente ao desviar o olhar para o nada, refletindo profundamente sobre o assunto. - ... a peguei de surpresa ao envia-la para um mundo alternativo onde Abamanu se consagrou vitorioso na guerra.

- O quê?! - indagou Hector, franzindo o cenho, claramente sentindo-se confuso. Levemente balançou a cabeça em negação. - Quando isso aconteceu?

- Você ainda estava na casa da bruxa Eleonor. Rosie estava sozinha e se surpreendeu quando me viu. Desenhei um sigilo do tempo, que, uma vez ativado, é capaz de atrair um viajante como a força de um imã, só que aumentada exponencialmente, e o manda para o passado ou para o futuro, mas não no mesmo fluxo, e por essa razão ele não é totalmente perfeito. - explicou o arauto, logo voltando-se para o caçador novamente. - Assim que o viajante vai para o período que o controlador decide, ele altera a realidade, podendo desencadear efeitos imprevisíveis. O futuro que Rosie testemunhou... foi visto por mim primeiramente.

- Mas como assim? Você também tem uma espécie de dom premonitório? - perguntou Hector, procurando entender melhor aquelas informações atordoantes, dando alguns passos até o arauto.

- Não. Algo tentou me avisar. - disse Áker, pensando novamente em sua investigação. - Aquelas visões só pararam quando fui ao encontro de Rosie. Depois disso, combinamos de agir para evitar que uma era sombria se tornasse realidade. Bem, nós conseguimos. Mas ainda não acabou.

- Juntos nós faremos isso terminar. - salientou Hector, sentindo-se seguro ao lado de um forte aliado. - Se já estava no encalço dessa coisa misteriosa... O quão próximo você acha que está dela?

- Não tenho certeza. - retrucou Áker, balançando a cabeça ao negar. - Mas houve uma vez... em que isso se comunicou comigo em voz... era distante, mas sussurrando inúmeras vezes... quanto mais se falava, mais longe ficava... - fez uma pausa, suspirando longamente com os olhos fechados por uns segundos. - Fênix. - disse, ao abri-los.

Hector levantara uma sobrancelha, intrigado.

- O quê? Fênix?! O pássaro mitológico? Julgando pelo mistério, creio que o sentido possa ser metafórico. - teorizou ele.

- É o que vamos descobrir. - disse o arauto, inesperadamente erguendo a mão direita e colocando-a sobre a têmpora direita de Hector, transferindo uma informação direto para a mente do caçador que sentira um certo incômodo com o recebimento.

- O que é isso? O que acabou de fazer? - perguntou, o cenho franzido, sem entender.

- Esta é a localização exata de um dos lugares onde meu radar andou detectando um forte pressão psíquica. A maior que já registrei. Se o que infectou a mente de Rosie for também o mesmo que compartilhou aquelas visões comigo, então a emanação veio de lá. - afirmou Áker, a expressão de determinação estampada.

- Todo esse tempo e poderia ter simplesmente invadido a casa. - sugeriu Hector.

- Podia ser uma armadilha. Arriscar até aquele ponto arruinaria minhas chances. Parece ser algo que já ouvi histórias a respeito. Que tipo de criatura detém tanto poder psíquico capaz de infligir dor a um mortal a ponto de sucumbi-lo à insanidade? - se perguntou o arauto, disposto a acha-lo mais do que nunca. - Seja lá o que for, devemos nos apressar. Sinto que quer nos atrair. E Fênix é uma palavra-chave para desvendarmos todo esse mistério.

- Iria perguntar mais sobre Abamanu ter ganhado a guerra nesse futuro apocalíptico. - disse Hector, sorrindo fracamente. - Mas como não nos resta mais tempo, ficará para outra ocasião. "Então foi por isso que Rosie correu para me impedir de aceitar o acordo com Abamanu, temendo que eu fosse ceder à oferta. Ela mudou a história.", pensou ele, recordando-se da vaga resposta dada pela jovem na noite em que estavam diante da lareira após o carregado e conturbado dia da operação em Liverpool. Tudo ficara mais esclarecido, para o alívio confortante do caçador.

- Não sei como funcionam as regras para viagens temporais aqui ou se há penalidades. Mas não tive outra escolha. - afirmou Áker, afastando-se em alguns passos para ir.

- E quanto à Sekhmet? - perguntou Hector, lembrando-se da teoria de Lester.

- Estranhamente, ela tem andado inativa nos últimos dias. - informou Áker, também suspeitando. - Pode estar recrutando o máximo de insurgentes possível e planejando um contra-ataque que nos pegue desprevenidos. Não existe trégua quando se está em guerra com Sekhmet.

- Posso imaginar como é. - aquiesceu Hector, assentindo. - A única vez que a vi, no antiquário, tive a impressão de ser uma criatura bem hostil e obsessiva. Tem certeza de que ela não está o caçando?

- Absoluta. - respondeu Áker, pronto para ir embora. - Me contate quando precisar. Boa sorte.

- Idem. - disse o caçador, vendo o arauto desaparecer dali em milissegundos, as folhas ao redor voando.

O momento para agir finalmente havia chegado. Hector preparou-se, correndo na direção em que veio com a finalidade de pegar o carro e encaminhar-se diretamente para o endereço informado por Áker o mais rápido que fosse possível.

                                                                                             ***

Croydon


Em seu quarto, Alexia aprontava sua mala pondo algumas peças de roupas, antes colocadas sobre a cama, dentro da mesma. Por fim, fechara o zíper com pressa, logo levantando a mala pela alça e carregado-a até a porta com uma só mão, suportando o peso médio.

A vidente mantinha-se ciente da única coisa que julgava ser a certa a fazer naquele momento. O ataque de Cassandra mostrou-se um alerta para iminentes perigos que possuem Eleonor como principal alvo. Todavia, parte da situação mudara com a inclusão da vidente neste jogo perigoso de gato e rato entre bruxas poderosas. Para ela, só o fato de estar ali, com sua condição já conhecida, a tornava um estorvo para sua mestra ou um chamariz estupidamente fácil, considerando a informação dada por Cassandra minutos antes de sua morte. "Sou um alvo fácil que torna outras pessoas como eu. Continuar aqui só vai atrair mais problemas. Se já faço isso naturalmente, quanto mais agora que um clã de bruxas obcecadas por vingança e sedentas de ódio sabem quem sou, o que sou e a quem estou associada. Espero que ela entenda, afinal vou estar fazendo um favor em vez e dar a impressão de que o objetivo não foi completado.", pensou Alexia, girando a maçaneta para abrir a porta.

No entanto, rapidamente assustou-se ao sentir uma mão tocar do outro lado da porta e empurrar levemente. Afastando-se um pouco, a vidente logo reconhecera a figura que entrava, respirando fundo e tentando passar o máximo de segurança. "É agora.".

- Alexia? Estive pensando se hoje nós pudéssemos ir a... - a bruxa cortara a frase ao se deparar com a mala segurada pela vidente, desfazendo o sorriso de animação que trazia, indiciando uma proposta para algum passeio. As chances para um entretenimento entre mestra e discípula arruinaram-se. - O que é isso? - perguntou, olhando-a com seriedade forte. - Não vai me dizer que resolveu...

- Sim! - disse Alexia, sua voz soando mais alta do que o necessário. Tentou se demonstrar menos nervosismo. - Ahn... Olha, já ficou bem óbvio que... não há mais condições de manter minha estadia.

- Estadia? Mas você nunca foi uma hóspede. - redarguiu Eleonor. - Esta casa também é sua. - olhou rapidamente ao redor do quarto - O vínculo que construímos aqui me convenceu de que não ia ser temporário.

- Nunca coube você a decidir isso. - disparou Alexia, mantendo a expressão séria, mas, ao mesmo tempo, nervosa. - Não pode me prender aqui. Entendo que quer continuar me ajudando, me tornando sua aprendiz, mas as coisas... tudo isso, chegou a um ponto crítico. - fez uma pausa, olhando-a profundamente nos olhos. - Cassandra só foi o aviso de algo muito pior a estar por vir. Tem que me deixar seguir meu caminho. Para o bem de nós duas.

Um nó na garganta acometeu a bruxa de imediato ao ouvir aquela justificativa. Mais do que a compreensão do situação perigosa intensificada, doía em seu coração ter de travar as futuras batalhas sozinha e o esforço em superar a despedida da aprendiz eventualmente.

- Não é minha prisioneira. - disse Eleonor, os olhos marejados, mas a expressão séria. - Muito menos meu artifício de fuga. Gosto de você, Alexia. Como uma filha. - deixara uma lágrima escorrer pelo rosto. - Você está coberta de total razão. É arriscado demais mantê-la aqui. - enxugara as lágrimas passando as mãos no rosto, sentindo-se envergonhada. - Desculpe... Não pensei que seria tão repentino.

- Imaginei que diria isso. - disse Alexia, desviando o olhar para um canto da sala, a cabeça meio baixa. Voltou-se para a bruxa, o ar mais sério. - Perto da entrada do cinema onde fomos há uma semana... avistei um rapaz vendendo passaportes e havia uma pequena fila de pessoas... e aproveitei a deixa enquanto você comprava mais pipoca. Tenho amigos e parentes em Cambridge... e meus pais, eles... com certeza estão bastante ansiosos pela minha volta, telefonei na mesma noite, pouco depois de voltarmos. Terei um futuro na minha cidade natal. O embarque sai as 10, preciso estar na estação com uma hora de antecedência. - disse a vidente, andando até a porta com bastante pressa.

- Espera. - disse Eleonor, pegando-a pelo braço sem machuca-la.

- Já sei: não vou estar totalmente segura, não importa onde eu pise. Vou colocar minha família em perigo já que também vou ser incluída na lista negra das bruxas e serei perseguida por todo o país. Simples assim. - dissera Alexia, sem olha-la, soando meio irritada.

Eleonor a fitou condescendente.

- Não. Não vou convence-la a ficar, não tenho esse direito. - afirmou a bruxa, segura de si. - Tenho algo importante a lhe contar.

A vidente voltara-se para ela, emanando uma postura de aborrecimento.

- Seja rápida.

- Mexi nas suas coisas... - confessou a bruxa, baixando a cabeça por uns segundos, sentindo-se mal. - ... e descobri as anotações de suas visões.

Um arrepio perpassou o corpo de Alexia como uma descarga elétrica. Lívida, a vidente encarou a bruxa com um semblante estático, seus estonteantes olhos azuis realçados e marejados.

- Não pode ser... - falou, descrente. - Você... você leu tudo? - perguntou, sem parecer muito abalada.

- Cada palavra. - respondeu Eleonor, honesta. - O futuro... é assustador.

- Foi o que eu tentei avisar. - disse Alexia, assentindo e arqueando as sobrancelhas. - Mas não vá pensando que com isso eu vá passar a odiá-la. Aquelas visões não tinham nada a ver com os amigos que fiz nos últimos dois anos e revelar as que tinham me deixava apavorada.

- Sem ressentimentos, então? - perguntou Eleonor, sorrindo levemente, dando de ombros.

Alexia também esboçara um sorriso no mesmo teor.

- Não, eu... Eu só tenho a agradecer. - disse ela, emocionada. - Por cada ensinamento. Por cada gesto de apoio.

- Bem... - disse Eleonor, relanceando a mala. - O que estamos esperando? Me permite acompanha-la até a estação?

- Tudo bem. - disse Alexia, abrindo mais a porta. - Mas... - ergueu de leve o indicador esquerdo. - ... não vou me tornar uma bruxa como você.

- Não seja estúpida, vamos logo. - disse Eleonor, quase dando rindo, prestando-se a ficar ao lado da discípula até o momento da verdadeira despedida.

                                                                                         ***

Área florestal de Raizenbool

Hector entrara no Casarão pela porta da frente com certo alarde e em passos largos e firmes. Em aflição nítida, estava tendo dificuldades em resolver se iria primeiro ao local informado por Áker ou verificar o estado de Rosie, tendo em mente a ideia de que Lester poderia ter saído para comprar algo que a jovem necessitasse em função de aliviar suas dores.

Olhou para a escada, prestes a subir ao segundo andar.

- Lester! - chamou ele, o tom de voz elevado.

Surpreendentemente, Áker irrompera pela cortina que dava entrada à cozinha, andando a passos rápidos ao avistar Hector prestes a subir a escada. O caçador se direcionou à ele prontamente.

- Áker, o que está fazendo aqui? Não ia prosseguir com a investigação? - perguntou ele.

- Não há sinal de soldados inimigos pelos arredores. Tudo está limpo. - disse o arauto, persistindo na desconfiança pelo estranho recuo dado pela deusa. - E você não iria até a casa?

- Na verdade, sim. Mas antes, só vim ver rápido como Rosie está se sentindo. - disse ele, logo olhando para o topo da escada. - Lester está com ela, ouço os passos dele. Está fechando uma porta... acho que do último quarto, o depósito de armas recém-criado. - constatou, fazendo bom proveito de sua audição aprimorada graças a licantropia sob absoluto controle. - Deve estar tudo bem. - disse, voltando-se para o arauto, tentando expressar esperança.

                                                                                           ***

Após trancar a porta do novo depósito e guardar a chave em um dos bolsos de sua calça, Lester caminhara assoviando em direção ao cômodo ao lado no qual Rosie estava repousando.

- Bem, agora é hora de ver como está a princesinha guerreira. - dissera ele, logo tocando e girando a maçaneta ao abrir a porta. Um susto lhe assaltara o ar.

Rosie estava parada ao lado da cama, verificando o fio de corte de uma de suas adagas. Pela postura, aparentava estar completamente recuperada.

- Nossa... - disse Lester, espantado. - Mas já? Agora há pouco, você estava desmaiada, respiração bem fraca e com uma febre de mais de 40 graus.

- Já desperdicei dois anos numa cama. - disse Rosie, o tom identificado como rude, ainda olhando para sua adaga. Logo desviou o olhar para Lester, visualizando-o de forma estranha e apática. - Não preciso que me olhem com piedade ou cuidem de mim como se eu fosse um bebê.

- Ahn... Tudo bem, ótimo, você quem sabe. - concordou Lester, fitando-a com estranheza. Ergueu a mão direita com o polegar apontado para trás. - Olha, eu... acho que ouvi o Hector chegar, então melhor chamar ele...

- Fique bem aí onde está. - ordenara Rosie, assumindo um tom cru e frio.

- Como é que é? - perguntou ele, franzindo o cenho. - Olha, me desculpa, mas eu tenho que admitir: Isso está me assustando. - dissera, apontando para ela e a adaga. - Melhor você largar essa faca ou senão...

- Senão o quê? - perguntou Rosie, com ar soberbo estampado em seu rosto. - Ora, para com isso, Lester. - disse, sorrindo de modo misterioso, andando devagar até ele e aliciando a lâmina calmamente. - Até parece que sou uma estranha para você.

- Não é nada disso, é que... - disse o caçador, recuando uns dois passos, até ficar na soleira da porta. - Você não está nada bem. Nós só queremos ajuda-la.

- Me ajudar? Deixa eu ver se entendi... - disse Rosie, fechando os olhos por uns segundos. - Me mantendo presa nesta coisa horrível e infestada de poeira que vocês chamam de lar? - apontou a lâmina para Lester. - É, pelo visto, você concorda. E quer me impedir a qualquer custo.

- O quê? Não, você entendeu errado. - tentou Lester, erguendo de leve as duas mãos para fazê-la se acalmar. - Você está doente, Rosie. Nós confiamos em você. Pode fazer o mesmo por nós?

- Existe um mundo a ser salvo lá fora. - disse ela, com fervor na face. - E ninguém pode me desviar dos meus princípios. Você é um deles, Lester. Parte dessa imundice de pessoas que acreditam em justiça mas falham miseravelmente em fazer qualquer coisa para mudar e para fazer a diferença. Você, Hector, Adam, Êmina, todos os malditos caçadores. É claro que vou retribuir essa... confiança. - disse ela, em tom debochado, logo em seguida arremessando velozmente a adaga contra Lester.

A lâmina atingira o caçador certeiramente no torso, fazendo-o grunhir em dor e cambalear um pouco para trás. Olhou de relance para Rosie, como se não a reconhecesse, logo visualizando a mancha de sangue no seu colete marrom se espalhando pela camisa branca.

Antes que o caçador retirasse a adaga, Rosie esticou rapidamente o braço direito empurrando Lester com uma surpreendente telecinesia. O caçador colidiu fortemente suas costas contra a parede, passando a sofrer com duas dores distintas. Tentou se levantar, expressando dor, ficando de um só joelho, a mão direita agarrando o cabo da adaga cravada na sua carne.

O esforço pouco valera.

- Não, espera aí Rosie! - gritou ele no mesmo instante em que a jovem batera com a porta telecineticamente, trancando-a. As mãos ensaguentadas de Lester tentaram forçar a maçaneta, mas obviamente mostrava-se inútil.

Em vez de tentativas em vão para impedir Rosie, concentrou-se em retirar a adaga de seu torso, agarrando firmemente o cabo. Trincou os dentes e apertou intensamente os olhos, sentindo a lâmina com filetes sinuosos de sangue sair aos poucos.

Ao terminar, largou a faca no chão, arquejando com mais força e pressionando a ferida a fim de estancar o sangramento ao mesmo tempo em que se levantava para descer as escadas e avisar rapidamente à Hector.

                                                                                       ***

Alarmados com os barulhos escutados do andar de cima, Hector e Áker correram para dentro da casa para saber o que ocorrera.

- Lester! O que houve? - perguntou Hector, não demorando a notar a sangrenta ferida no amigo. Aproximou-se com mais pressa. - Está ferido... Onde está Rosie?

- Ela ficou completamente insana de vez! - disse o caçador estrategista, aturdido. - Quando entrei, já estava de pé, bem melhor, mas... havia algo diferente nela, como se não fosse a mesma de antes.

- Vamos cuidar desse ferimento primeiro. - decretou Hector, voltando-se para Áker. - Ákér, se tiver a gentileza...

- Sem problemas. - aceitou o arauto, esticando o braço direito para tocar na ferida de Lester. Ao fazê-lo, uma luz amarelada surgira em torno do dano, abaixo da mão do arauto. O ferimento desaparecera instantaneamente, deixando o caçador estupefato.

- Quem é esse engomadinho? Aliás, o que ele é? - questionou Lester, os olhos esbugalhados, passando a mão no ponto da ferida.

- Como se tivéssemos tempo para explicar. - retrucou Áker, andando em direção a escada.

- Ela escapou. Ouvi o vidro da janela quebrando enquanto eu tirava a faca. - revelou Lester, sucinto. Áker estacou no mesmo instante. - Além de ter me esfaqueado, me jogado contra a parede e trancado a porta de um jeito... bizarro, se é que vocês me entendem.

- Ela ganhou habilidades. - disparou Áker, chamando a atenção de Hector imediatamente. O arauto virara-se para os dois caçadores, exibindo seriedade máxima. - A situação está piorando.

- E ainda nem sabemos exatamente com o que estamos lidando. - lamentou Hector, a expressão ainda mais preocupada e aflita. - Agora ela some...

- Nós vamos encontra-la, certo? - disse Lester, procurando estimula-lo a não desistir. - Olha, vou dizer uma coisa: Ela mencionou um lance de querer salvar o mundo, trazer justiça as pessoas, e ainda desonrou o nome da Legião. Do jeito que ela estava... ela não vai pegar leve.

- Precisam detê-la. - sugeriu Áker, aproximando-se dos dois. - Estamos lidando com alguém associado a deuses, sem dúvidas. Seja o que for, distorceu a psiquê dela a ponto de fazê-la abraçar seu lado mais perverso e implacável.

- E sendo assim - disse Hector, convicto -, a investigação no local específico vai ter de esperar.

Áker denotou estar em desacordo com a ideia.

- Irrelevante. Eu mesmo posso cuidar disso, me responsabilizar pela captura. - disse ele, prontificando-se para o trabalho. - Sei que está desesperado, Hector. Mas também me importo com Rosie tanto quanto você. Levei dias para conseguir achar localizações prováveis para encontrar essa força misteriosa que agora está subjugando-a e a transformou em uma criatura malevolente. Se quisermos que isso se resolva logo, então teremos de fazer nossas partes. Como uma equipe.

- Talvez ele tenha razão, Hector. - disse Lester, de pleno acordo ao argumento do arauto. De repente, voltou-se para ele. - Espera... E quanto a mim? Também quero ser útil.

- Você pode me manter informado caso aviste algum indício de invasão domiciliar. - disse Áker, retirando um amuleto do bolso do smoking e oferecendo-o a Lester. O caçador levantou uma sobrancelha, encarando com estranheza pura o pequeno objeto dourado.

- Com um anel? - indagou ele, confuso. Voltou-se para Hector. - Cara, você precisa de novos amigos.

- Não é um anel. - retrucou Áker, soando aborrecido. - Basta por na palma da mão e fazer seu chamado.

- Gostei. Muito simples. Pura magia. - disse Lester, encantando-se com o brilhante dourado. - Quanto será que vale?

- O amuleto não está avaliado em nenhum preço. - disse Áker, paciente. - Nem pense em oferta-lo. Itens de caráter divino devem permanecer longe do alcance de mortais desavisados.

- Ótimo. - aquiesceu Lester, guardando o minúsculo objeto em um bolso de trás da calça. - Ah, e obrigado por ter... me curado. Tenho tantas perguntas.

- Tudo no seu devido tempo. - disse o arauto, afastando-se um pouco. Olhou de esguelha para Hector que se encontrava parado diante da janela próxima à estante vitrificada, com as mãos juntas diante dos lábios em claro sinal de preocupação constante. - Avise-o de que precisa ir hoje.

- Espera, ir pra...

O teleporte super-veloz do arauto deixara a frase do caçador no ar. Procurando ao redor, Lester estava novamente espantado com as habilidades de Áker.

- Uau. - disse ele, surpreso. - Para onde ele foi? Sumiu num piscar de olhos.

- Ele se teleportou. - respondeu Hector, secamente.

- Vai demorar para me acostumar com isso. - comentou ele, sentindo-se meio desconfortável. Logo tornou a observar o amigo por alguns segundos, motivando-se a mantê-lo auto-confiante quanto a busca por Rosie cujo início já havia ocorrido assim que Áker partira para rastreá-la. - Ei, você vai ficar bem?

Erguendo um pouco a cabeça, Hector virou-se para o amigo com uma determinação revitalizada.

- Vamos acabar logo com isso. - disse ele, firme no tom. - Salvaremos Rosie.

                                                                                        ***

Estação Ferroviária de Croydon

A tutora e a discípula caminhavam a passos apressados em direção ao ponto onde o trem embarcaria as 10 horas pontualmente. A bruxa pudera sentir em sua aprendiz o gosto da satisfação por estar se livrando dela tão facilmente. Mas ainda havia perguntas não respondidas. As olhadelas de esguelha de Eleonor comprovavam tamanho anseio em querer saber como se saiu.

- Começo a achar que não foi uma boa ideia vir me acompanhar. - disse Alexia, intrigada. - Você mesma disse: Elas podem estar em qualquer lugar, disfarçadas ou com informantes agindo nas sombras. Estou expondo você ao perigo.

- Não, Alexia, pare já com isso. - disse Eleonor, repreendendo-a. Cessou a caminhada, virando-se para a vidente. - Quero que me responda: Eu fui boa o bastante?

Alexia não entendera o porque da pergunta, sem saber como reagir.

- A troca de corpos funcionou até demais. - disse ela, soando irônica. - Isso parece... tão eu. - fez uma pausa, olhando para os lados, pensando no que diria. - Eu não sei...

- Acho que não fui específica. Quis dizer sobre mim como... - cortou a frase, receosa acerca de como soaria. - ... Sobre como eu me redimi dos meus erros.

- Olha, não temos tempo para isso, melhor nos apressarmos... - disse Alexia, pouco disposta a prolongar aquela conversa mais do que a bruxa gostaria. No entanto, no exato instante em que virou o rosto para demonstrar seu desinteresse, a vidente sentira uma sobrecarga mental acometê-la subitamente, fazendo-a apertar os olhos fortemente e pôr as duas mãos na cabeça devido a uma intensa dor seguida do efeito primário. Eleonor rapidamente preocupou-se com o estado da jovem.

- Alexia, o que foi? - perguntou a bruxa, tocando-a nos ombros, a expressão aflita. - O que está sentindo?

A vidente resistiu o máximo para não ajoelhar-se de tanta dor. Mantendo uma só mão na têmpora esquerda, ela tentava não abrir os olhos até que tivesse acabado. Seus gemidos só deixavam Eleonor com os nervos a flor da pele.

- Me responda, Alexia! - insistiu Eleonor. - Consegue andar? Vamos voltar, agora!

- Não, não... - retrucou a vidente, aos poucos recuperando-se, segurando-se nos braços da bruxa. Abriu os olhos, a face embargada de temor.

- O quê? Isso foi alguma visão que você teve? - perguntou Eleonor, desconfiada.

- Minhas visões, você sabe muito bem... - disse Alexia, reavendo o fôlego. - ... só ocorrem nos sonhos. Não foi visão nenhuma. Foi um chamado. - revelou, olhando fixamente para a bruxa, séria.

- Um chamado? - perguntou Eleonor, franzindo o cenho. - Explique melhor.

- Senti algo familiar, tenho certeza. - disse a vidente, andando para um lado até parar para tomar ar. - Uma aura imponente e edificante. - fechou os olhos por uns segundos. - Chamando pelo meu nome. - virou-se para sua ex-tutora. - Talvez seja melhor nós voltarmos.

- Espere, que tipo de chamado? - questionou Eleonor, ainda não convencida.

- Como você quer que eu explique em detalhes se até para mim está confuso? - perguntou Alexia, assumindo um tom rude. - Foi tão... - disse, erguendo de leve o punho esquerdo fechado. Com os olhos fechados rapidamente, desistiu de encontrar uma descrição, suspirando. - Só preciso... eu só sinto uma vontade imensa de estar diante dessa pessoa que tanto se esforçou para chamar minha atenção, mesmo me fazendo sentir dor. É urgente, posso sentir. E não pode esperar.

Ambas passaram a concordar da mesma decisão.

- Então, vamos. - disse Eleonor, andando na direção em que vieram. - Já que é tão grave, não podemos desperdiçar nenhum segundo. O que quer que seja, estabeleceu um contato psíquico com você por tempo limitado. O suficiente para dizer apenas o seu nome.

- O que quer dizer? - perguntou Alexia, seguindo-se no ritmo.

- Essa pessoa, seja lá quem for, não tem permissão de fazer ligações psíquicas pelo tempo que desejar, por isso se torna restrita, ainda mais para profetas. - explicou Eleonor. - Você disse... Edificante e imponente. Como era o tom dessa voz?

- Bem alto, quase estridente. - respondeu a vidente.

- Conheço um feitiço localizador que talvez nos ajude a encontra-lo. - sugeriu Eleonor, apertando o passo. - Criado especialmente para psíquicos. Até para os mais raros, espero.

                                                                                              ***

Ifley, Oxford

Hector parara o carro em frente à uma casa de cor branca e com várias janelas, estacionando-o próximo ao pequeno bosque bem arborizado A residência mostrada por Áker para a mente do caçador localizava-se em um vilarejo pacato de Oxfordshire.

O caçador estudou o local enquanto fechava a porta do automóvel, analisando cada detalhe. Notou a enferrujada caixa do correio entupida com uma pilha de cartas e se direcionou até ela. Ao puxar uma das cartas, mesmo que rasgando-a em algumas partes, ele vislumbrou o nome do destinatário, como se quisesse ter certeza da identidade do morador misterioso.

Estranhou ao olhar a data da correspondência.

"19 de Fevereiro de 1940!? Há exatamente um ano esta carta foi enviada. Para Christian Nevook.", pensou Hector, logo esquadrinhando o espaço para ver se havia alguém próximo.

Por sorte, avistou um garoto brincando com um ioiô perto de uma pessegueira, praticamente em frente à casa, acompanhado de um filhote de cachorro que tentava morder o brinquedo. Hector andou até o menino, ávido por respostas.

- Ei, garoto. - apresentou-se ele, gentilmente, fazendo-o tirar a atenção do ioiô e olha-lo estranho. - Você mora aqui por perto?

- Quem quer saber? - perguntou o garoto, pouco simpático.

- Ahn... Na verdade, apenas quero uma informação. - disse Hector, retraindo-se um pouco. Olhou de relance para o cachorro de pelo branco e orelhas caídas que rosnava diretamente para ele. Voltou a atenção para o garoto.

- Sim. Por que? - questionou o menino, hesitante.

- Há quanto tempo? - perguntou Hector.

- Uns dois anos, eu acho. - respondeu o garoto, dando de ombros, não tão certo quanto ao período.

O pequeno cachorro tornou a latir ferozmente para Hector, mas sem querer avançar. Ambos olharam para o animal revolto.

- Acho que ele não gostou de você. - disparou o garoto, secamente. - E minha mãe me orientou a não falar com estranhos. Me mudei com ela faz dois anos, mais ou menos, pois... meu pai foi recrutado, ela não quis me dizer o porque.

- Eu tenho certeza que ele voltará são e salvo. - disse Hector, sensibilizado pela aparente solidão do garoto.

- Mas o que você quer mesmo saber? - perguntou ele, curioso.

- Existe algum Christian Nevook morando nesta casa? - o caçador apontou com o polegar direito para a residência.

- Não sei de nenhum Christian sei-lá-o-quê. - respondeu o garoto, balançando a cabeça negativamente. - Só tem um velho meio estranho morando nessa casa, não conhecemos ele. Mas ele sempre sai a noite.

- Acredita que sejam a mesma pessoa? - perguntou Hector, já querendo adentrar na propriedade o mais depressa possível.

- Não faço ideia. - retrucou o garoto, novamente dando de ombros ao olhar para a casa.

- Está bem... - convenceu-se Hector, sem olhar para o garoto, mas mostrando-se agradecido pelo tempo. - Obrigado.

- Disponha. - disse o menino, observando com desconfiança o caçador andar apressadamente em direção à porta de entrada da casa.

As condições aparentavam estarem satisfatórias, sem nenhum sinal que indiciasse falha de preservação do ambiente. Se aproximando da porta, o caçador aguçou seus sentidos, visualizando uma ínfima brecha. Olhando rapidamente para trás a fim de se certificar que o garoto não estivesse mais ali, sacou um revólver prateado, logo puxando a trava do mesmo após constatar que o menino correra dali com seu animal. Cautelosamente foi entrando devagar. "Estava aberta... O garoto disse que ele sai sempre a noite, indicando que esse é o único horário que o vê deixando a casa, embora não signifique ser o único horário no qual ele sai.", pensou o caçador, seus olhos passeando pelo interior da propriedade. As paredes do interior eram brancas, tal qual as da frente, e a repleto de mobílias, tapeçarias e itens valiosos e antigos na ampla sala de estar.

Hector foi movendo-se mais rápido, até avançar a uma espécie de ateliê artístico vizinho à cozinha, mas que possuía aspectos de um simples escritório. Passando pelas telas inacabadas, o caçador manteve a arma firme nas duas mãos. Fixou sua atenção em um curioso fichário de capa azul-esverdeado. Fazendo bom uso de sua visão detalhista, percebeu três folhas que destoavam do restante, com um amarelado nítido. Guardado o revólver num dos bolsos internos de seu sobretudo marrom escuro, o caçador abrira o fichário, rapidamente puxando as três páginas e verificando-as com uma expressão de curiosidade máxima.

"Sinto algo se encaixando. Estas... páginas lembram bastante as da Bíblia Original de Abamanu.", pensou, logo frustrando-se por Charlie ainda estar indisponível. "Droga, não posso leva-las, não com Charlie ainda mantido em cativeiro. O que faço?".

Repentinamente, uma força súbita arremessou o caçador contra uma estante de madeira à esquerda dele. Com o impacto do corpo de Hector, o móvel danificou-se severamente, fazendo derrubar vários livros sobre o caçador que perdera a consciência instantaneamente.

                                                                                    ***

Noite do dia seguinte - Grande Londres

No restaurante mais frequentado da cidade, um diligente servente - um homem de camisa branca com mangas, meia idade e com cabelos meio compridos e grisalhos e barbudo. - molhava alguns pratos em água corrente na pia um pouco próxima do balcão onde o recepcionista atendia clientes desacompanhados que ali eram servidos. Pôs o pano sobre o ombro direito, suspirando longamente e limpando o suor de sua testa. Ao limpar as mãos, pegou uma pilha pequena de pratos e se virou para leva-las ao local reservado à eles.

O gerente do estabelecimento - um homem gorducho aparentando ter em torno de 56 ou 58 anos, ruivo, meio calvo e com uma barba volumosa - aproximava-se de seu mais esforçado funcionário com um sorriso no rosto.

- Robert? Tem um momento? - perguntou o homem, fazendo-o estacar e, em seguida, virar-se.

- Ah sim, chefe Lorry. - disse ele, sorrindo meio desconcertado. - O que veio me dizer? Não vou ser demitido não é? - seu sorriso ficara nervoso.

- Oh, de modo algum. Muito pelo contrário. - disse Lorry, desatando em rir. - Vou ascende-lo ao cargo de garçom, tendo em vista sua ótima fama com alguns clientes e você tem a desenvoltura para tal. Não sei porque não tomei essa decisão antes.

- Ai, chefe, não é que eu esteja duvidando de mim mesmo, mas... - fez uma pausa, ainda sorrindo de modo nervoso. - Ainda é meio cedo.

- Pare com essa modéstia toda, Robert. - repreendeu Lorry, olhando-o sério. - Você, em anos, foi a melhor adição ao restaurante que já tive o prazer de contratar. Caso ainda se sinta desconfortável, faço questão de lhe oferecer todo o tempo que precisar para refletir e repensar na escolha.

- Eu agradeço, chefe. Imensamente. - disse Robert, assentindo com satisfação.

Antes que se virasse completamente para enfim poder chegar ao local onde se guardam os pratos e talheres, Robert fora surpreendido por um subitâneo apagão, deixando cair um prato que quebrou-se no chão em vários pedaços. De forma rápida, constatou que a ausência de luz se deu apenas no restaurante. A luz dos postes ainda adentrava pelas janelas do estabelecimento.

Quando finalmente a energia restabeleceu-se, o servente arquejara de alívio, logo virando-se para a direção de onde ficava a entrada após sentir uma presença inesperada. Não só se deparou com um mordomo afro-descendente de estatura meio mediana e vestindo um smoking parado próximo à porta de entrada, como também viu as pessoas que ali estavam presentes desmaiadas sobre as mesas.

Engolindo a saliva, o funcionário mais estimado encarou o arauto de Yuga com certo receio.

- O que você fez, seu desgraçado? - perguntou ele, olhando para os clientes, ainda segurando os pratos.

- Não há com o que se preocupar. - garantiu Áker, andando até ele. - Estão apenas inconscientes.

- Diga logo de uma vez. O que quer? - questionou ele, pondo os pratos em cima do balcão. Ao terminar, sentiu as mãos do arauto agarrarem a gola de sua camisa e seu corpo ser levantado alguns centímetros do chão.

- Será que consegue limpar a mente de Rosie com a mesma rapidez que limpa estes pratos? - perguntou Áker, exibindo cólera em sua face.

- Não sei do que está falando. É melhor me soltar. - aponto Robert, não gostando nem um pouco da atitude do mensageiro.

- Você já se auto-incriminou logo ao fingir que não sabe. - retrucou Áker, irredutível.

- Oh, porque, afinal de constas, você tem tanta certeza de que pareço estar mentindo? Por que não usa mais um dos seus truques e tenta de novo? Ah, talvez eu esteja mais seguro porque... eu sei o que você é. - disse ele, levantando uma sobrancelha com um leve sorriso enigmático. - Pombo-correio.

Áker grunhira em raiva, apertando cada vez mais a gola da camisa daquele que suspeitava estar por trás do surto de Rosie.

- Minha protegida... está completamente fora de si e acredito que por sua causa ela vá se envolver em problemas ainda maiores caso não seja detida. Então, é fundamental você colaborar comigo ou as coisas podem ficar bem críticas para você. - ameaçou Áker, fuzilando-o com o olhar.

- Primeiro de tudo: Não tem porque você se dirigir a mim dessa forma tão agressiva sabendo que posso me justificar. Portanto, não me trate como um criminoso. Olha... só estou aqui para me adaptar aos costumes dos mortais. Eu só lavo a louça. Posso jurar que o que fiz foi em prol de minha sobrevivência. Uma decisão egoísta, obviamente. Mas não me foi dada nenhuma escolha.

- Isto implica dizer que você responde a alguém oculto que lhe coagiu a fazer isso... não é, Robert? - perguntou Áker, soando irônico, pondo-o no chão e soltando-o.

- E em segundo lugar: Me chamo Údon. - disse ele, erguendo levemente o indicador direito, quase apontando-o para o rosto de Áker. - Robert é somente um disfarce para caminhar e viver entre os mortais.

- Um nome falso? - questionou o arauto, olhando-o suspeito.

- O nome real deste receptáculo, se lhe satisfaz saber. - revelou Údon, limpando sua camisa com uma mão. - Agora falemos sobre você. - voltou-se ao arauto, fitando-o com certo aborrecimento. - Como ainda está vivo depois de cometer uma irregularidade da qual a única punição é a morte?

- Prefiro falar sobre Rosie e principalmente sobre o meio de liberta-la. - redarguiu Áker, austero.

- Lamento desaponta-lo. - disse Údon, a fala um tanto comovida. - O que ocorreu não pode ser desfeito.

- Tipos da sua espécie possuem um conhecimento vasto sobre a mente humana. Você não pode, mas quer. Estou certo? - arriscou Áker, permanecendo a encara-lo com suspeita no olhar.

- Negativo. - disparou Údon, franzindo o cenho. - Não posso e nem quero. Pela mesma razão.

- Mas você deve. - devolveu Áker, o tom autoritário. - Independente das ameaças que sofreu.

- Tenha dó. - reclamou Údon, andando e passando pelo arauto, ficando de costas para ele, mas sem intenção de fugir. - É complicado.

- A situação de Rosie está complicada. - redarguiu o arauto, aproximando-se dele. - E precisamos que isso acabe, antes que o pior aconteça.

- A propósito - disse Údon, virando-se para ele de repente -, o mortal que estou mantendo sob custódia é seu aliado?

- Se refere a Hector!? - disse Áker, espantando-se na hora. - Então é por isso que ele não tem mantido contato até agora. Por um momento, imaginei que ele tivesse iniciado uma caçada contra Rosie em vez de se concentrar na sua parte. - fez uma pausa, olhando-o com raiva. - Vai liberta-lo. Afinal, porque o prendeu?

- Perdi minha primorosa habilidade de vislumbrar através do véu ao possuir este corpo. Logo pensei que Abamanu, fixado ao corpo de seu verdadeiro vassalo, tivesse vindo fazer uma visita inconveniente a minha casa. - explicou Údon, desconfortando-se com aquela conversa.

- Isso quase aconteceu. - disse Áker, mantendo-se sério e centrado no principal problema. - Mas Rosie e eu impedimos. Mas atribuo este mérito muito mais a ela do que a mim.

- Que devoção cega você tem por esta mortal. - reclamou Údon, estreitando os olhos.

- Então realmente não se importa? - questionou o arauto, o ar de decepção.

- Eu disse que não. - insistiu Údon, irrevogável.

- Ao menos me revele quem de fato está por trás disso. Você não passa de um lacaio, pelo visto. - provocou Áker a fim de convence-lo.

- Veja só quem fala. - rebateu Ùdon com olhar desdenhoso. - Tudo bem. Desejo concedido. Mas deve ser realizado em outra ocasião.

- Amanhã. - determinou Áker, lacônico. Esticou um pouco o braço direito e pousou a mão sobre a têmpora esquerda de seu mais novo e improvável, transferindo uma informação de grande importância por via psíquica. Údon contorceu-se um pouco, fechando os olhos, devido ao incômodo que o envio causara-lhe. - Esteja no local e horário exatos. Está protegido com sigilos, ninguém além daqueles que prezam pela sobrevivência de Rosie vai nos ouvir.

- Espere um pouco. - disse Údon, atentando-se a um detalhe que o pegou desprevenido. - Você esteve me caçando? Por isso mandou aquele mortal vir a minha casa para investigar.

- Caçar é a especialidade dele, para sua informação. - disse Áker, recuando alguns passos. - Devo dizer que Rosie se tornou uma ameaça potencialmente perigosa à sociedade. E o caçador que mantém preso é bastante apegado à ela. - fez uma pausa, refletindo a respeito ao desviar o olhar. - Ambos se tornaram o que mais odeiam. Faz ideia do fardo que eles são obrigados a carregarem? Sugiro que reavaliei seus conceitos. Desdenhar vidas humanas nunca foi uma escolha.

E, por fim, o arauto desaparecera em nanosegundos.

As pessoas presentes nas mesas do restaurante começavam a despertar, sem se questionarem sobre terem estado desacordadas por um pequeno período de tempo.

Em pé em meio as mesas, Údon suspirou pesadamente com ar sério, tentando fazer o que Áker lhe recomendou. Para se engajar de corpo e alma seria preciso assumir um risco óbvio mas com consciência e coragem.

O cerco havia se fechado e, novamente, o psíquico se viu sem saídas alternativas para se ver isolado.

                                                                                       ***

Área florestal de Raizenbool - 07h58

Lester folheava as páginas do jornal sobre a mesa próxima a porta dos fundos com uma expressão estarrecida. Inúmeros casos de criminosos assassinados estampavam as manchetes principais. "Ela está piorando", pensou o caçador, as mãos apoiadas sobre a mesa e a cabeça baixa, pensativo quanto as chances de salvar sua amiga. Segundo algumas notas, a polícia local teve sérias dificuldades, seja em abordagem ou captura, muitos alegando estarem diante de uma criatura inigualável em termos de fazer justiça com as próprias mãos do modo mais radical possível. Os detalhes acerca das extraordinárias habilidades da fugitiva foram vetados por ordem do alto escalão da imprensa. Nenhum policiais agredidos foi identificado nos trechos divulgados das entrevistas impressas.

Dentre eles, estava o ataque a um cartel de tráfico de armas compradas ilegalmente, uma invasão numa mansão para impedir um assalto e o assassinato de um homem que tentou arrancar o colar de pérolas de uma elegante mulher com o cano de sua arma. Este último caso resultou na morte do criminoso pelas mãos de Rosie, que quebrara seu pescoço ao aparecer "de repente" por trás dele, segundo relato da vítima.

Além disso, ela cuidou de um roubo a uma loja de conveniência, na noite do dia anterior. O proprietário e recepcionista foi considerado coagido pela justiceira radical a não relatar em detalhes, com base nas suspeitas dos investigadores responsáveis pelo colhimento de evidências.

Em apenas dois dias, Rosie adquiriu fama e prestígio por uma parcela da população e repúdio e opressão de outra mais prezada aos direitos humanos.

Quando menos estava atento ao mundo em seu redor, mais fechado em seus pensamentos do que nunca, o caçador empertigou-se, assustado, ao perceber presenças repentinas surgidas dentro da casa.

Tremendo um pouco, ele encarou com aborrecimento a dupla que havia chegado em uma velocidade sem igual.

- Já ouviram falar em portas? - perguntou ele, irritado, pondo a mão direita no peito. - Isso é sinistro.

- Perdão se o incomodou, Lester. - disse Áker, chegando mais perto do centro da grande sala de estar. - Mas na situação com a qual estamos lidando não podemos atrasar nossos passos.

- Hector!? - disse Lester, surpreso ao revê-lo. - Cara, onde você tinha se metido? Sabe que o mordomo aí mandou você cuidar de invadir a tal casa e somente.

- Não fui ao encalço de Rosie. - disse Hector, se pondo ao lado de Áker, os cabelos meio desgrenhados e o sobretudo meio sujo. - Na realidade, fui mantido sob custódia por engano.

- Espera, como assim? Por quem?

- A pessoa responsável por incutir memórias falsas em Rosie. - revelou Áker, olhando para o caçador estrategista. - Seu nome é Údon. Ele é um Arqueu. - andou calmamente por um lado, paciente. - Desculpe não ter contado a você antes, Hector, mas você entende, não tínhamos muito tempo.

O caçador-detetive fitou o arauto com um misto de expectativa e curiosidade elevadas.

- E o que exatamente são esses Arqueus? - perguntou.

- Uma classe de terceiro escalão muito sub-valorizada. Eles não tem restrições quanto ao uso de viagens inter-dimensionais. - contou Áker, de costas para os dois, as mãos juntas para trás. - Tidos como deuses das profecias, são capazes de manipular a psiquê humana com a mesma facilidade que um mortal organiza um baralho de cartas. São também responsáveis por... - virou-se para os dois, sério -... selecionar profetas.

- E esse Údon? - indagou Lester, curioso. - Onde ele está? Deixaram ele fugir, não foi?

- A contragosto, ele está do nosso lado. - afirmou Áker, um pouco desapontado pela relutância do Arqueu. - Tem ligações com Abamanu. Em outras palavras, é o seu escriba.

- Então é ele?! - soltou Hector, arqueando as sobrancelhas, finalmente sabendo a identidade do misterioso escrivão que Abamanu contratara para redigir sua própria bíblia.

- Isso pode ser uma cilada. - preocupou-se Lester. - Qualquer um ligado a Abamanu pode não ser totalmente confiável. Melhor chutarmos ele do barco antes que ele planeje alguma traição.

- Não, precisamos dele, nos será muito útil, eu garanto. - assegurou Áker, sincero.

Uma voz grave e masculina surgiu no recinto, para o susto de todos.

- Então sou aliado porque sou útil?! - disparou Údon, parado próximo a janela do ponto esquerdo da sala após se teleportar. - É o tipo de tratamento que se espera quando se é visto como um mártir.

- E você é...? - perguntou Lester, olhando-o estranho.

- Údon, prazer. - disse ele, interrompendo-o e se aproximando. - Robert, para os mais íntimos. - olhou para Áker com deboche.

- Me manteve trancado naquele armário sem mais nem menos. - replicou Hector, fitando-o com decepção. - Iria fazer umas perguntas, mesmo não estando em posição.

- Ah é, sobre minha abordagem indelicada, me desculpe. - disse Údon, levemente erguendo a mão esquerda, se retratando. - Promete não me bater se eu perguntar o que achou da sauna?

- Prefiro não perder tempo com brincadeiras e me focar no que realmente importa. - retrucou Hector, sem a menor paciência, visivelmente tenso. - Fez isso com Rosie a mando de Abamanu, não foi?

- Nada disso. Me mantive fora de rastreio para unicamente não ser encontrado por ele. - contou Údon, assumindo seriedade. - Eu fugi, por anos tentei encontrar um meio para me ver livre de qualquer tipo de condenação. Quando soube que aquela quimera bestial regressou ao mundo dos mortais, não tive outra escolha a não ser adentrar aqui e tentar avisa-los de alguma forma sobre o futuro. - fez uma pausa, virando-se para Áker. - Só quando Áker finalmente se manifestou para vocês, sua energia ficou exposta ao meu rastreio psíquico e então achei o meu favorito.

- E me enviou aquelas mensagens terríveis sobre o futuro. - disse Áker. - Me fazendo compartilha-las com Rosie.

- E agora ela está por aí, cometendo atos que seu verdadeiro eu nunca faria. - disse Hector, preocupado.

- Na verdade, matando bandidos a sangue frio. - apontou Lester, cruzando os braços. - Todos os jornais estão pautando. Ela ficou famosa da noite pro dia. "A justiceira encapuzada é louvada por uns e perseguida por muitos outros". Lembra do lance de justiça que ela me falou? Pois é, agora faz sentido.

Hector andou por um lado, passando uma mão no rosto em sinal de apreensão.

- Não pode ser. - lamentou ele. - Está agindo como júri, juiz e executor. - se virou para Ùdon abruptamente, com raiva na face, apontando com o indicador para ele. - Se não tivesse me mantido refém por quase dois dias e permitisse Áker localiza-lo, o estado de Rosie não teria se agravado tanto.

- Não venha me culpar, rapaz. - defendeu-se Údon, levantando uma sobrancelha. - Juro, por tudo o que é mais sagrado, que não fiz isso para atrasa-los. Além do mais, Áker ainda está em conflito com sua superiora, a imprevisível Sekhmet, bem como seus sentinelas. Foi bem menos arriscado ele vir até mim espontaneamente. A escolha do lugar foi inteligente, aliás. - falou, visualizando as paredes e o piso. - Sigilos dentro e fora.

- Prometeu nos contar sobre a palavra-chave Fênix, a última que me mostrou nas visões. - lembrou Áker, parecendo mais apressado em sanar toas as dúvidas.

- Espere, Áker, só um instante. - pediu Hector, fitando o nada, bastante pensativo. Uma ideia perpassara num veloz lampejo, motivando-o a renovar as esperanças. - A... Acho que já sei a quem recorrer. - sorriu fracamente - Por que não pensei nisso antes? - se perguntou, logo virando-se ao ir diretamente ao telefone posto numa cômoda perto de um quadro.

Lester e Áker entreolharam-se rapidamente, desconfiados. Údon pareceu confiar na ideia do caçador, contando que seus serviços não fossem ser tão utilizados e abusados.

- Vai ligar para um detetive vestido de morcego? - perguntou Lester, retoricamente.

A confusão nas faces de Áker e Údon o deixou desconcertado e pouco à vontade.

- Ahn... É um lance de história em quadrinhos. Um cara que perde os pais e anos depois resolve sair pra combater o crime na cidade... vestido de "homem-morcego". Enfim, é bem divertido, leio desde o ano passado e... - virou o rosto, envergonhado, coçando a parte de trás da cabeça. - É, vocês deuses não se interessam por essas coisas mundanas.

Hector discava freneticamente o número da casa de Eleonor.

Dois toques foram ouvidos antes da voz inconfundível da bruxa atender.

- Alô?

- Eleonor. - disse o caçador, em tom baixo.

- Hector!? - disse ela, bastante surpresa. - Onde você está? Não deu mais notícias desde que saiu para enfrentar Abamanu carregando a pedra Ônix! Se está me ligando agora, deve ser bem grave. Melhor que seja rápido, Alexia não está nada bem.

- O quê? O que houve com Alexia? - perguntou, franzindo o cenho.

- Você primeiro, Hector. Por favor. - pediu ela, séria.

- Rosie está em apuros. - disse ele, sucinto. - Começou com uma forte dor de cabeça, evoluindo para uma mudança brusca de humor... até chegar um ponto onde não tem mais volta. A personalidade dela está alterada. Conheci várias versões da Rosie durante o tempo que passamos. Amigável, compreensiva, protetora, independente... Agora violenta, hostil e radical. - fez uma pausa, suspirando pesarosamente. - Em outras palavras, seu lado mais sombrio despertou por completo. O lado heroico e o assassino estão se confundindo em uma só personalidade.

A ligação ficara muda por alguns segundos, intrigando Hector.

- Eleonor? Alô?

- Sim, estou ouvindo. - disse ela, o tom entristecido. - Como isso foi acontecer? Há alguma explicação?

- É uma longa história. - desconversou ele. - Preciso de sua ajuda.

- Não posso deixar Alexia sozinha. - justificou ela, claramente preocupada com o estado de sua querida neta. - Mas que droga. Logo agora isso acontece. Já conseguiram localiza-la?

- Ainda não. Mas sabe-se que está sendo apontada como responsável por várias mortes de criminosos, com o objetivo de limpar Londres de todo o mal, mas ao seu modo.

- Que tipo de modo?

- Fazendo justiça com as próprias mãos de maneiras cruéis. Enfim, de fato ela está sendo procurada, creio que a essa altura, com a pilha de cadáveres aumentando, sua cabeça já esteja a prêmio. - contou o caçador, a fala rápida e baixa.

- Caramba... O que quer que eu faça?

- Um feitiço. Forte e eficiente o bastante para dividirmos ela em duas. - sugestionou Hector, parecendo querer transmitir confiança à bruxa sobre a competência do plano.

- Quer dizer separarmos as partes boa e má?! Com qual propósito? É ilógico, Hector. E de novo nos encontramos em um impasse mediante a tantas possibilidades.

- Seja mais específica. - exigiu Hector, fechando os olhos por um segundo.

- Me refiro a pior possibilidade dentre todas: A parte má acabar, por impulso, matando a boa. Sendo assim, não faz sentido uma divisão, não fará nenhuma diferença se a parte má assume o controle.

- E se você incrementar algo que faça com que não exatamente a personalidade totalmente bondosa e passiva de Rosie venha a surgir, mas sim a Rosie que conhecemos, separada de seu lado assassino? - idealizou Hector, confiando nas opções, mas inseguro.

- Não, não, não insista mais nisso, Hector, chega. - disse Eleonor, recusando-se a investir em tal plano. - Há um feitiço dualístico de efeito permanente... Não posso arriscar, Hector, lamento. Só vai gerar mais problemas, vá por mim.

- Está bem... - aquiesceu Hector, respirando fundo, mas o tom de voz desesperançoso. - E como está Alexia? O que aconteceu a ela?

- Sentiu uma forte dor de cabeça enquanto estávamos indo a estação de trem, ela decidiu que o melhor caminho é estar ao lado da família. - contou Eleonor, o tom calmo.

- Espere, você disse dor de cabeça? - indagou Hector, arqueando uma sobrancelha ao rapidamente sinalar uma conexão. - Siga meu raciocínio, Eleonor... Talvez não seja uma mera coincidência. - alertou ele, olhando discretamente por cima do ombro e visualizando, em segundos, Údon com os braços cruzados e andando pela sala. -  Que outros sintomas Alexia teve?

- Algo me diz que não está sozinho. - atentou-se Eleonor, o tom suspeitoso. - Quem mais está aí com você?

- É a sua vez de responder primeiro. - insistiu o caçador, apressado.

Um suspiro cansado ouviu-se do outro lado. A bruxa receava em fornecer maiores detalhes.

- Ela parece um pouco abatida. O baque foi demais para suportar. - disse a bruxa.

- Ela não estava ardendo em febre? - perguntou Hector, desconfiado.

- Febre? Não... pelo menos, não até agora. - respondeu Eleonor. - Agora me diga: Quem mais está lhe fazendo companhia? Seja honesto.

- Meu amigo caçador Lester... - disse Hector, preocupado com o que os três estavam pensando sobre o tempo da ligação. - O arauto de Yuga...

- O quê? - soltou a bruxa, claramente estupefata pelo tom.

- Não pergunte a respeito. Só mais uma longa história. - retrucou Hector, procurando encerrar a conversa. - E... - fez uma pausa de vários segundos.

- E...?

- E o escriba de Abamanu. - dissera ele, em tom baixo e firme. - Foi ele quem estabeleceu uma conexão psíquica com Rosie e manipulou sua mente para torna-la a assassina que atualmente anda espalhando um conceito distorcido de justiça.

- Então é isso! Achei a resposta! - disse a bruxa, parecendo realizada. - Não é coincidência nenhuma. Alexia disse ter ouvindo, em sua cabeça, uma voz estridente falar seu nome, depois sentindo que deveria encontrar a pessoa que tentou lhe contatar. Sendo Alexia a profetisa de Abamanu na Terra, faz todo o sentido.

- Na verdade, ele não é bem uma pessoa. - disse Hector, novamente olhando disfarçadamente para trás. - Se encaixa numa espécie de divindade com poderes psíquicos além da compreensão.

- Isso explica a ligação ter se dado de forma tão intensa. - constatou Eleonor, compreendendo parte da situação geral. - Hector... melhor passar a ligação à ele.

- Melhor eu desligar. - disse Hector, sentindo-se inseguro ao perceber os olhares suspeitos de Lester.

- Por que? Se revelar aliado de uma bruxa deixa você tão assustado quanto a opinião dos outros?

- Não é nada disso. - disse ele, suspirando longamente. - Prefiro que ele vá até Alexia, é mais justo. Além do mais, se não está em condições de ajudar, ao menos posso mante-la informada.

- Passe... o telefone. - insistiu Eleonor, o tom autoritário.

- Prometo não deixa-la desatualizada. Confie em mim. - disse o caçador, em seguida desligando de modo rápido.

Hector se direcionou até Údon exalando um ar de pura curiosidade, sem responder a série de perguntas de Lester. Áker respeitou a privacidade do caçador ao não questionar nada sobre a ligação, sabendo pela expressão dele que a ideia não correspondeu as expectativas.

Údon o olhou fixamente, pronto para ouvi-lo.

- Nos conte tudo sobre sua relação com Abamanu, quem está por trás desse plano maldito e sobre a correlação da palavra Fênix com o caso de Rosie. - pediu ele, o semblante extremamente sisudo.

                                                                                           ***

Palácio subterrâneo de Abamanu

Como indicação de seu cansaço para com as atormentadoras paredes rugosas naquele ambiente cavernoso e soturno, Charlie dormia em sono profundo, mergulhando em sonhos sequenciais como várias camadas de realidades diferentes sendo removidas. Em pelo menos um deles, uma bela ruiva corria sorridente por um campo aberto e gramado sobre um dia claro e agradável. Meio borrado e um tanto contrastante, via-se um jovem de cabelos castanhos bem penteados, vestindo um colete marrom por baixo de uma camisa branca e calças sociais, também correndo, atrás da garota, mas exibindo uma expressão oposta... de clamor e melancolia. Chamava seu nome inúmeras vezes, mas ela não parecia escutar, permanecendo a correr alegremente como se quisesse criar asas para voar.

Sua voz foi ficando mais baixa... a cada segundo a medida que a escuridão tomava conta da visão e a garota ruiva tornara-se distante, praticamente inacessível.

O sonho se perdeu quando um estalido alto quebrou o silêncio bruscamente.

Charlei despertou com um arquejo súbito, a boca bastante aberta como se esforçasse para reaver o ar. Inclinou-se para frente, ofegando com a mão direita no peito.

Nem precisou desviar o olhar para saber quem estava do lado de fora da cela. A energia lhe era inconfundível.

- Finalmente chegou o dia? - perguntou Charlie, os braços apoiados nos joelhos meio dobrados. As chamas da única tocha que servia como fonte de luz banhava-lhe com sua luminosidade alaranjada.

- O grande dia você quer dizer. - disse Abamanu, na frente das grades, com toda a sua pomposidade. - No entanto... Dessa vez pedirei que me faça um favor extra.

- O que você quer? - perguntou o mago do tempo, sem olha-lo.

- Ontem a noite, tive uma sensação que em anos eu não vinha tendo. - disse o deus lunar, misterioso. - Uma aura ligeiramente familiar me pegou de surpresa. Demorou tempo suficiente para fazer um reconhecimento. Mas agora sei... Sua energia oscilava entre medo e desconforto. Não estava sozinho. E desejava mais do que tudo que aquela conversa terminasse logo... só para voltar a se camuflar.

- Vá direto ao ponto. - pediu Charlie, a voz ríspida.

- Quero que o encontre. Meu valioso escriba. - exigiu Abamanu, inclinando-se um pouco para frente das grades. - Será que magos do tempo são capazes de detectar tamanha instabilidade psíquica? Conheço alguém que agiria assim. E é ele, não há dúvidas.

- Então, você... - disse Charlie, cortando a fala ao engolir a saliva - ... está me pedindo para encontrar o seu antigo sócio... apenas para mata-lo?

- Matar sem questiona-lo não me convém garantia nenhuma. - retrucou o deus lunar, frio, com os braços cruzados. - Vamos lá, Charlie, acredito no seu potencial, sei que há aí dentro um poder tão adormecido quanto você estava agora há pouco.

- Pare de me pressionar! - esbravejou Charlie, levantando-se subitamente em evidente ataque de fúria. Andou em direção ao deus, bufando colericamente. Segurou as grades com força, os dedos das duas mãos sujos de terra. Os olhos verdes brilhavam como nunca. - Já estou cansado... dessa loucura! Me manter preso aqui foi a estratégia mais estúpida que você já considerou! Um imperador inteligente saberia disso.

- Podemos ignorar seu surto imaturo e voltarmos ao assunto. - disse Abamanu, odiosamente desdenhoso ao encarar o mago do tempo com seus gélidos olhos amarelos.

- Que se dane o seu maldito favor! - disparou Charlie, a face desafiadora. - Além do mais, magos do tempo não possuem habilidades psíquicas avançadas. Então, pode esquecer de uma vez. Só está perdendo seu precioso tempo comigo.

- O que está querendo elucidar, seu transeunte patético? - perguntou o deus lunar, o tom rosnante. - É bom não me provocar.

- Posso enfrenta-lo quantas vezes forem necessárias, você não pode me matar. - salientou Charlie, o olhar estático e pulsante. - É parte do acordo, se lembra? Meu cadáver pode sair de bandeja só para os coletores. E vou repetir: Me manter preso aqui foi uma estratégia bem estúpida da sua parte. - fez uma pausa, esboçando gradativamente um sorriso enigmático. O deus lunar o fitou com desconfiança. - Esteja ciente de minhas palavras. Sequestrar um cientista famoso, disseminar uma praga para corromper a humanidade, construir fábricas em várias cidades... - mordera os lábios, balançando a cabeça em negação. - Não faz ideia do quão ineficaz foi o seu plano. Sendo mais direto... Eu não posso mais lhe ser útil. Minha serventia se esgotou... durante os dois anos que se passaram.

Abamanu enfureceu-se ao fita-lo com mais agressividade, movendo seus dedos como que querendo se render a vontade de esmagar a cabeça do mago do tempo com suas próprias mãos ali mesmo.

- Está blefando? Por que diria isto logo agora? - questionou ele, rude.

- Para que quando fosse tarde demais eu pudesse ver a frustração no seu rosto diabólico. - disse Charlie, sem rodeios, encarando-o com dura seriedade.

- Adoraria estar convencido disso de uma forma mais... prática. - disse o deus lunar, estreitando os olhos. - Mas vejo que não passa de uma artimanha desesperada para se ver livre de mim e dos planos que reservei. Que tipo de explicação brilhante você inventou para se driblar do seu destino.?

- Quando um mago do tempo se abstém de suas atividades, a energia expansora que consegui graças ao disco cronal, no dia da iniciação, começa a definhar gradualmente. - explicou Charlie, tentando transparecer completa honestidade. - Posso constatar... com precisão... que ainda possuo, ao menos, 30% da minha capacidade para exercer minhas funções.

- Me parece um tanto aleatório. - retrucou Abamanu, inflexível. - E pouco verossímil.

- É a mais pura verdade. - rebateu Charlie, resistente. - O que tenho agora certamente não basta para realizar a abertura expansiva. Em outras palavras, uma parte do seu plano arruinou com ele todo. De fato, é bem tarde para dizer isso, mas foi apropriado.

Um sensação de contrariedade acometeu o deus lunar, fazendo-o se afastar aos poucos.

- Está confuso, não é? - perguntou Charlie, sorrindo de canto de boca - Ainda insiste em duvidar de mim, mas uma pequena parte sua está o forçando a acreditar, empurrando lentamente essa dura verdade no seu subconsciente, logo trazendo a tona um indício de que você considera isto como sendo um possível fato irrefutável.

- Cale-se. - ordenou Abamanu, severo. - Preciso que prove. Palavras não me convencem tão fácil.

- Olhe pra mim! - disse o mago do tempo, o tom exaltado. - Esse é o estado de um mago do tempo mental e fisicamente saudável para cumprir uma tarefa que exige muita concentração? Agora não preciso que me liberte. Não até estar convencido disso e desistir do plano.

- Isso nunca. - disse Abamanu, cerrando os punhos. - Isto é uma completa mentira. Você, ao meu ver, está perfeitamente são, portanto ainda está apto a fazer o que mando!

- Então peça para um dos coletores associados a você a fazer o trabalho, porque comparados a mim atualmente eles são bem capazes de abrir uma brecha mais ampla do que eu. - argumentou Charlie, impaciente e aborrecido. - Grave minhas palavras, Abamanu: Você fez deste plano a sua nova ruína.

Antes que o deus lunar conseguisse rebater aquela declaração com o sangue fervendo, um de seus soldados quiméricos surgira de repente por trás para informar algo.

- Senhor. - chamou o soldado.

Abamanu virou-se, rosnando em fúria.

- O que foi desta vez? Espero não ser tão preocupante.

- Acabamos de receber uma informação relativamente urgente sobre... Rosie Campbell. - disse o soldado.

Minutos de silêncio indicavam que os pensamentos do deus-quimera convergiam para a vida da jovem que tanto tentou convencer a estar do seu lado para arrefecer as expectativas de Yuga quanto ao confronto decisivo.

- Conte-me mais... em outro lugar. - olhou para Charlie por cima do ombro.

O mago do tempo ainda o encarava com petulância.

- Fale aqui mesmo! O que houve com Rosie? - exigiu saber, elevando o tom de voz.

Em nanosegundos, tanto Abamanu quanto seu subordinado desapareceram dali, deixando o jovem mago do tempo a ver navios.

E por fim o silêncio torturador voltara a cela pedregosa.

                                                                                       ***

- Havia uma lenda... - dizia Údon, de costas para seus novos aliados e de frente um grande quadro retangular na parede próxima à estante com portas de vidro. - resvalada ao esquecimento por eras... até que, então, o imperador solar, Yuga, a remoeu confidenciadamente a mim.

Lester sentiu-se no direito de questionar.

- Espera aí, está nos dizendo que... você agia como um informante duplo? - perguntou ele, o cenho franzido.

- Obrigatoriamente, sim. - confirmou o escriba. - Antes de me propor o acordo, Yuga provou ter descoberto minha serventia a Abamanu e após a última grande guerra tentou me usar como artifício para obter informações sobre as táticas do inimigo. Mas também, além disso, me revelou seu maior plano. Me garantiu que Abamanu não sentiria minha ausência depois de minha parte ter sido concluída, então arrisquei jogar no lado mais confiante. Quando enfim os seguidores mortais de Abamanu obtiveram sucesso com seus cultos de adoração, Yuga determinou um prazo para que pudesse agir. Ele desejava com muita vontade assistir aqueles mortais crédulos sentirem-se frustrados, humilhados, desonrados e afrontados. Quando a época propícia chegou, ele viu naquela criança a chave para destruir todas as chances de Abamanu em se reerguer.

- Rosie. - disse Hector, fixamente atento ao discurso. - A criança era Rosie. A escolha, obviamente, não foi aleatória. - disse, olhando para Áker e Lester.

- Particularmente, pensei que fosse. - disse Údon, virando-se para o caçador, interessado em descobrir mais. - Afinal, ele claramente estava desesperado por um contra-ataque.

- Faz todo o sentido. Rosie é a filha de Richard Campbell, um Red Wolf acusado de traição por ter concebido uma fêmea, o que é contra as regras da fraternidade, cabendo ao Grão-mestre executar o herege na frente de seus irmãos. - disse Hector, olhando para os três ao perceber a situação como um todo. - E sendo a filha daquele que traiu a sociedade de adoradores de Abamanu, Rosie foi escolhida por Yuga...

- E foi agraciada pela energia divina bruta. - completou Údon, fitando Hector com certeza no olhar. - Em uma das minhas visões, eu via um homem correndo com um bebê recém-nascido nos braços numa floresta, em meio a um belo pôr do sol.

- Tudo está se encaixando. - disse Áker, um tanto pensativo. - Rosie foi transformada, logo no dia de seu nascimento, no ser que se oporia aos ideias dos que louvavam a Abamanu.

- E sobre a lenda? - perguntou Hector, olhando-o curioso.

- Aposto que Áker terá sua memória muito bem refrescada depois disso. - disse Údon, voltando-se para o arauto.

- Não tenho tanta certeza. O pouco que ouvi sobre essa lenda está absurdamente vago na minha mente. - declarou ele, sem estar muito seguro do que dizer a respeito. - Tem algo a ver com a palavra Fênix, certo? O básico que sei é que envolve uma antiga profecia, tão velha quanto eu, talvez mais.

- E quantos anos você tem? - perguntou Lester, sorrindo de modo brincalhão.

- Esta casca possui cerca de 42 anos. Eu mesmo tenho o equivalente a cinco milênios, no sistema adotado pelos humanos. - respondeu Áker, parecendo ter deixado o caçador boquiaberto.

- Podemos retomar o foco? - perguntou Hector, entre os dois, olhando-os. Voltou-se ao escriba de Abamanu. - Prossiga, Údon. - assentiu para ele.

- A lenda gira em torno de um indivíduo tornado especial por alguma divindade de grande influência na classe solar. Yuga me assegurou de que minha eleita, muito provavelmente, iria também profetizar o evento.

- Alexia. - soltou Hector, a expressão séria.

- Onde é que ela está? - perguntou Lester, aparentando um pouco de preocupação ao recordar-se da amiga. - A última vez que a vi... - pensara por alguns segundos. - ... nossa, caramba, foi na noite em que íamos impedir aquele monstrengo do Mollock nas Ruínas Cinzas. Ela sobreviveu? Se sim, como?

- Falarmos sobre o estado de Alexia agora só vai nos desviar ainda mais do foco. - disse Hector, pouco disposto a perder tempo. - Mas sim, ela está viva... - olhou de soslaio para Údon - ... e sentindo bastante dor de cabeça.

- Eu precisava avisa-la. - disse o escriba, a postura tranquila.

- Fez uma ligação psíquica com sua eleita? - perguntou Áker, desconfiado.

- Se tivermos que sobreviver a tudo isso, teremos de estar juntos. - declarou Údon, a expressão de decisão. Cofiou de leve a volumosa barba cinzenta.

- E está tão calmo porque certamente ouviu toda a conversa que tive com a pessoa para a qual liguei. - constatou Hector, acertando exatamente no alvo, encarando o escriba com um leve sorriso torto.

- Devia ter passado a ligação. - disparou Údon, levantando uma sobrancelha. - Áker, você também ouviu aquela linda voz?

- Preferi não ouvir, pois é indelicado sondar conversas alheias. - justificou o arauto, desaprovando a atitude do escriba.

- Linda voz, é? - indagou Lester, externando sua curiosidade. - Pra quem você ligou? - perguntou, olhando de modo suspeito para Hector, com um sorriso malicioso.

- Ninguém em especial. Foi um erro. - disse o caçador, sem meias palavras. - Ela... Quero dizer, ele não está em condições de ajudar.

- Mas era uma mulher. - corrigiu Údon, para o desprazer do caçador.

- Será que dá para você continuar de onde parou? - pediu Hector, o tom meio ríspido e apressado.

- Nos fale a respeito de quem profetizou o tal evento. - disse Áker, pouco interessado em saber a identidade da mulher "misteriosa".

- Um arqueu do panteão onde Yuga vive. - respondeu Údon, olhando para o arauto. - Existe uma regra entre arqueus e profetas: Ambos podem não ter as mesmas premonições.

- E Alexia se recusava a nos revelar suas visões por mero receio. - salientou Hector.

- Significa que provavelmente, em algum momento, antes do retorno de Abamanu, ela profetizou algo relacionado a Rosie. - especulou Údon, fitando Hector. - Nós arqueus, por mais ligados que estejamos com nossos eleitos, não conseguimos prever os mesmos eventos. Se ocorresse, seria por ângulos distintos, mas seria extremamente raro, talvez único na história.

- Então previram eventos opostos. - disparou Áker, mergulhando fundo na discussão. - Se você profetizou a vitória de Abamanu e a queda da humanidade...

- Então Alexia previu o surto de Rosie. - complementou Hector, também indicando estar apenas teorizando.

- Talvez não exatamente. - apontou Údon, com uma mão no queixo, bastante imerso em pensamentos. - O escolhido da lenda era tido como uma fênix... Este arqueu era inteiramente ligado ao panteão, mas por alguma razão foi exilado... talvez esteja no mundo dos mortais, como condenação a algum ato ilícito que cometeu, fadado a viver em um receptáculo eternamente.

- Ótimo, podemos encontra-lo e, com sorte, conseguirmos mais informações. - sugeriu Lester, exibindo uma postura participativa e intencionalmente motivadora.

- Não, não podem. - negou Údon, sério. - Seria necessário um indivíduo específico o bastante para ser capaz de abrir fendas inter-dimensionais.

- O melhor que conhecemos está sendo prisioneiro de Abamanu. - disse Hector, referindo-se a Charlie, com certa frustração no tom.

- Ou sequestrar um Coletor. - disse Áker, deixando claro que aquilo passava longe de ser sugestão.

- Somos persistentes, mas não suicidas. - disse Údon, olhando de modo sério para o arauto.´

- Então esse cara se encontra em outro universo!? Que merda. - lamentou Lester, cruzando os braços sobre o peito, a face de insatisfação.

- Não precisamos dele. - declarou Údon, despreocupado. - O que Yuga compartilhou comigo já basta para termos uma noção suficiente. Foi um dos poucos que não esqueceu da profecia. A fênix lendária, segundo a premonição, era a retratação de um ser visto como inferior mas que é alçado aos céus envolto de uma luz com aura divina.

- Um pássaro de fogo subindo até o céu. Diga algo menos óbvio. - exigiu Lester, demonstrando incredulidade ao estar pouco convencido.

- Sua interpretação é óbvia. - retrucou Údon, com rigorosidade. - Um indivíduo inferior... Estamos tratando de uma pessoa, um mortal... mas que é agraciado por um deus, ascendendo a um patamar inalcançável para os outros.

- Como uma apoteose... - disse Hector, fitando o nada ao se ver imerso em pensamentos.

- Uma fênix... apoteótica? - indagou Áker, franzindo o cenho, julgando o conceito como sendo absurdo. - Isso é mesmo possível?

- Rosie está apenas em uma das fases do processo. - disse Údon, desta vez indo  direto ao ponto crítico da discussão. - As lembranças perturbadoras... lançadas a uma mente despreparada como um forte e imparável jato de água corrente. Portanto, eu tornei isto totalmente possível.

- A mando de Yuga. - depreendeu Hector, pouco sabendo como encara-lo.

O escriba se limitou a assentir dando uma piscada rápida nos olhos.

- Áker, consegue rastreá-la? - perguntou Hector, virando-se para o arauto.

- Estou numa casa repleta de sigilos inibidores. Mesmo não estando ativos, eles bloqueiam meu esforço sensorial. - disse Áker, sentindo-se um tanto impotente, sabendo que precisaria se expor logo mais.

- E como isso termina? - perguntou Lester, com vestígios de preocupação no rosto.

- Eis a resposta: Não termina. - disse Údon, sem medo de como iriam reagir. - A visão pode não ter sido muito específica, logo é válido acreditar que todos daquele panteão apostavam em alguma divindade que assumiria um nível superior e único. Poucos vão se dar conta de que estavam enganados. A fênix, no caso Rosie, terá como única alternativa ceder a obsessão de Yuga se quiser estar libertada do fardo que seu lado obscuro a faz carregar. - fez uma pausa, dando alguns passos a frente. - Ela terá de fazer uma difícil escolha. Um terrível dilema está reservado. E só existe um lugar para o qual ela irá quando a última carga de lembranças moldadas vier atormenta-la.

- E que lugar é esse? - perguntou Hector, emanando uma intensa curiosidade ao fitar o escriba.

- O Salão das Duas Verdades. - respondeu ele, secamente.

                                                                                                 ***

Grandes Londres

O ar seco da manhã predominava por boa parte dos becos e ruas mais estreitos. Em uma das intersecções, Rosie desfilava seguramente, como se nada que viesse à frente para lhe afrontar ou atacar pudesse atingi-la fácil. Parou num ponto central entre o labirinto de becos feitos com tijolos vermelhos e retangulares, no mesmo momento em que ouviu uma autoritária voz bradar atrás de si. Por um segundo, percebera outras presenças, o que a fez se virar para saciar a curiosidade e a sensação de divertimento sádico com o qual estava se habituando viera a tona de novo.

- Você! Encapuzada! - gritou um homem caucasiano careca, com barba por fazer, de olhos meio fundos, sobrancelhas arqueadas, vestindo um casaco branco com uma gravata roxa no meio por cima de uma camisa preta - as calças também eram brancas, bem como os sapatos. Segurava uma sub-metralhadora modelo da década de 20, mirando-a em Rosie. Atrás dele, outros quatro rapazes com aparências que facilmente se denotava serem da máfia mais infame que a cidade já possuiu. - Isso... vire-se, como uma boa menina.

- Parece que alguém não está tendo um dia muito bom. - disse Rosie, sarcasticamente, visualizando cada um deles. - Mas enfim... O que meus admiradores não mais secretos vieram me dizer? - juntou as mãos entre as coxas, em um ato de pura tranquilidade.

- Não venha com gracinhas, pequena vadia de vermelho. - provocou o líder, dando um passo adiante. - Você e seus... - gesticulou com a outra mão, tremendo-a. - ... supostos poderes mágicos deram muito trabalho para meus comparsas.

- Eu posso garantir à vocês que eles estão em um lugar muito melhor. - disse Rosie, dando uns passos por um lado. - Afinal, caixões de madeira devem ser bem confortáveis, eu acho.

- Agora chega, vamos acabar logo com isso! - disse um dos lacaios, - um gorducho meio calvo usando casaco marrom - sugerindo seguirem com a retaliação. Sacou um revólver e mirou-o em Rosie.

- Vão em frente, atirem. - desafiou ela, completamente despreocupada.

- Primeiro nos prove se é alguma bruxa ou coisa do tipo. - exigiu o líder, preferindo aguardar.

- Isso é verdade? Levam tão a sério o que esses jornais sensacionalistas dizem a meu respeito? Como os criminosos profissionais que eu sei que são, esperava bem mais. - disse Rosie, indicando estar zombando-os. Estreitou os olhos, mordendo os lábios em excitação. - Então, escutem com atenção o recado da vadia vermelha: - inclinou um pouco a cabeça para frente, a expressão séria - Não tenho obrigação de provar nada... a ninguém. - fez uma pausa - Se querem a prova, vai ter que ser do meu jeito.

- Enchendo você de bala? - perguntou um deles, mirando um rifle.

- Arrancou as palavras da minha boca. - respondeu Rosie, sorrindo com ironia explícita. - Só esqueceu de se perguntar se é possível me matar com a mesma facilidade que vocês tem contra os inocentes que assassinaram.

- Se diz justiceira, mas no fim das contas acaba se igualando a nós. - argumentou um cara baixinho com gorro preto na cabeça. Suas vestes eram mais grossas e rebeldes. - Você é um lixo!

- Foi ela quem pediu, então vou tirar a prova. - disse o homem gorducho com o revólver calibre 38 dando uns três passos adiante, quase ficando lado à lado com o careca que liderava o grupo. - Um pequeno teste preliminar. - apertara o gatilho.

O estampido ecoou intensamente.

O resultado se deu com Rosie, em milésimos, exibindo seus reflexos sobre-humanos ao pegar a bala - que acertaria seu peito - com apenas dois dedos da mão direita. Erguera devagar sua mão esquerda, aproximando o dedo indicador e polegar da bala que segurava. A unha do indicador foi de encontro à ponta da bala lentamente. Os mafiosos, por outro lado, viam-se confusos com o movimento de sua presa, cochichando e franzindo a testa.

Rosie mirara no líder impetuoso. Como se seu dedo indicador esquerdo tivesse a força de um estilingue, disparou a bala segurada pelo indicador e polegar direitos com toda uma simplicidade impressionante.

Um buraco abriu-se no meio da testa do líder, que revirou os olhos e gemia dolorosamente... até ajoelhar-se e cair para frente, sofrendo morte cerebral imediata. Um fino rastro de sangue despontou do ferimento até escorrer no chão.

Paralisados de medo por alguns segundos, os demais bandidos sentiam suas fortalezas derrubadas com a queda de seu considerado indestrutível comandante da maior rede criminosa atuante na Grande Londres. Rosie calmamente limpou as mãos como quem quer dizer "Acabei, finalmente".

- Alguém mais quer experimentar? - perguntou ela, as mãos na cintura.

O quarteto foi recuando imediatamente, trêmulos e estupefatos em pânico.

- Foi o que pensei.

A jovem fora embora, usando sua supervelocidade ao entrar num outro beco, o que serviu de estopim para uma fuga desenfreada para os mal-feitores esmorecidos.

- Vamos dar o fora daqui, essa garota não é humana! - disse o gorducho, quase empurrando um outro comparsa e dando olhadelas nervosas e tensas em direção à Rosie enquanto apertava o passo.

No outro lado do "labirinto", Rosie freara sua corrida superveloz, parando próxima a uma cerca de malha losangular, apoiando sua mão direita nela e ficando em uma posição meio corcunda. Uma ofegação insperada a desesperou de tal forma a fazê-la pensar que sua respiração terminaria a qualquer instante. Resultando disso, um suor profuso formou-se na sua testa, tão quente quanto o seu sangue. Com a outra mão, baixou o capuz e se recostou na cerca, arquejando a cada três segundos.

"Está acontecendo de novo... Agora não... Agora não!"

Fechou os olhos e apertou-os com força, quase trincando os dentes.

Em sua mente viera mais uma sequência rápida de números, placas, locais, ruas... algumas soavam como borrões esquecíveis, outras congelavam por uns dois segundos, mas não demorou o suficiente para não fazê-la perceber de que se tratava de um curso, sem sombra de dúvidas. "O que quer me mostrar? Que lugar é esse?", pensou ela, questionando a última imagem que tornou-se mais fixa: Uma estrutura de aspecto antigo, semelhante a um museu de história mitológica. E não estava tão distante.

Ao abrir os olhos, soube exatamente o rumo a tomar em seguida.

Uma centelha de lucidez explodiu em seu âmago. Talvez não sentisse-se mais como estava há pouco tempo. Mas lembrava, com vergonha, dos atos cometidos em nome de um senso próprio de justiça. No entanto, lamentar e andar aos prantos pelos cantos mal passou-lhe pela cabeça. Só havia um único objetivo em mente. "Então... é ali que está. A chave... para dar um fim nessa loucura.", pensou ela, a expressão meio tristonha e a boca meio aberta. Uma lágrima brotou até escorrer por uma maçã de seu rosto branco feito neve.

"Me perdoe, Hector. Mas é o que tem que ser feito. É... o único jeito". Fitou o caminho à frente com postura decisiva.

                                                                                         ***

- Salão das Duas Verdades? - indagou Hector, a expressão cética.

- Sim. - confirmou Áker, firme no tom, olhando para o caçador. - Um lugar fora do tempo e espaço que funciona como abrigo particular para aqueles que se sentem presos em um forte dilema. Ele oferece a recompensa para a salvação, dependendo do problema que o visitante estiver passando.

- E se adapta de modo a representar a natureza do dilema. - complementou Údon, olhando para os três. - Ao que tudo indica, é realmente um fato inédito este lugar ser aberto neste mundo. É recorrido em casos extremos... - fez uma pausa, meio que frustrado. - como este.

- Acabo de ter uma ideia. - disse Áker, andando pela sala com uma certa pressa, visualizando as paredes e janelas. Ao piscar os olhos uma única vez, os mesmos ganharam uma coloração totalmente branca, como já fizera anteriormente na detecção de sigilos invisíveis na fábrica de Birmingham no dia das operações simultâneas de resgate. Lester reagiu mal com um arrepio assaltando-lhe a saliva.

- Nossa... Você tem mais surpresas do que eu posso prever. - disse o caçador, espantado.

- O que está fazendo, Áker? - perguntou Hector, fitando-o com curiosidade.

- Vendo os sigilos do lado de dentro. Vou apaga-los. - respondeu ele, esticando o braço direito com a mão aberta.

- Que irônico. - soltou Lester, a expressão de estranheza. - Até parece que ficou cego e simplesmente consegue ver além das paredes. Isso me faz lembrar outro super-herói... - pôs a mão no queixo, pensativo. - A diferença é que ele é de outro planeta, você é de um outro plano da existência completamente restrito...

- Eu não teria tanta certeza. - disparou Údon, contrariando a afirmação do caçador quanto ao acesso da morada dos deuses ser possivelmente negado à mortais.

- Como é que é? - indagou ele, virando o rosto para o arqueu.

Údon sorriu levemente, acenando negativamente com a cabeça.

- Não, nada. - desconversou.

- Áker, será que pode me dizer qual o objetivo de arriscar ficarmos desprotegidos? - questionou Hector, intrigado, aproximando-se do arauto em poucos passos.

- Apenas os sigilos internos bloqueavam meu rastreio. - explicou ele, direcionando a mão para as outras paredes, apagando cada sigilo gravado. - Mas não há probabilidade muito alta de Sekhmet vir acompanhada de seus lacaios em poucos minutos depois que eu terminar, tendo em vista o tempo que passou sem dar indícios de um plano de ataque mesmo com minha energia exposta.

- O barba cinza não pode fazer isso por você? - perguntou Lester, apontando para o arqueu com o polegar direito.

- E cair nas garras do meu ex-contratante? Nem pensar. - retrucou Údon, dando uns passos vagarosos perto do enorme quadro, com os braços cruzados.

Hector não conseguia esconder sua incontrolável aflição em encontrar o paradeiro de Rosie, suspirando e fechando os olhos mais vezes que conseguia contar.

- Abamanu sabe que você está aqui? - perguntou Lester.

- Não significa que por ter o mago do tempo como seu troféu valioso - disse ele, virando-se para o caçador - ele depende das habilidades dele para saber minha localização. Basta lembrar de nossa ligação, não limitada apenas ao acordo de confidencialidade.

- Ligados psiquicamente? - indagou Hector, arqueando uma sobrancelha, com expectativa.

- Não só em termos psíquicos, como também em concessão. - revelou ele, aparentemente nervoso se for analisando pelos movimentos irregulares de suas pupilas. - Ofereci duas coisas em troca. Era uma cláusula de última hora.

- E você cedeu porque tinha medo de ser estraçalhado? - especulou Lester, estreitando os olhos.

- Ser o elo fraco da corrente era um peso e tanto, logo não me restou outra alternativa a não ser... - pausou, engolindo a saliva nervosamente ao se recordar de cada detalhe de seu mais tenso encontro com o deus lunar. - ... conferi-lo duas de minhas melhores habilidades.

- Ele leu minha mente quando o confrontei na fábrica de Liverpool e descobriu mais do que devia. - disse Hector, meio pensativo, logo voltando os olhos para o arqueu. Áker continuava deletando os sigilos, um à um. - Nunca parei para pensar que esse poder não o pertencia originalmente. Ele pode, de fato, acha-lo?

- A menos que eu permita. - disse Údon, não tão preocupado. - Mas se utilizo uma habilidade, automaticamente meu bloqueio se cancela, então me exponho por algum tempo até readquirir estabilidade.

Áker baixou seu braço, seus olhos retornando ao normal, logo voltando-se para os demais.

- Este foi o último. - disse ele, andando em direção aos companheiros. No entanto, sua expressão alterou-se de repente fazendo-o estacar e rapidamente olhar pela janela, pelo lado não coberto pela cortina - perto do pequeno "corredor" da entrada. - Não pode ser...

- O que foi, Áker? - perguntou Hector, e sem esperar andou uns passos até a janela acompanhando o olhar sério do arauto para aquela exata direção.

- Saia daí, irão vê-lo. - avisou Áker, o tom rígido. Hector ocultou-se apressadamente assim que seus olhos bateram nas duas figuras que se avizinhavam em passadas largas.

- Quem são? - perguntou Údon, sem ousar satisfazer sua curiosidade só de notar a tensão pelas faces de Hector e Áker. Lester, por outro lado, sentia-se perdido, embora suspeita-se que devia permanecer onde estava.

- Você quis garantir que ficaríamos fora de perigo mesmo com os sigilos de dentro apagados. - questionou Hector, dirigindo-se ao arauto. - Por que eles vieram?

- Como vou saber? - indagou Áker, franzindo o cenho, observando com cautela os dois homens com roupas de caçadores aproximando-se do Casarão. - Não é nenhuma coincidência aparecerem logo depois que apaguei todos os sigilos internos. É impossível. E estão em menor número, o que já descarta a possibilidade de virem com más intenções, podem não estar acatando ordens diretas.

- Acha que Yuga os autorizou para liquidar Údon? - teorizou Hector, olhando-os, a tensão tomando conta de seus nervos.

- Ele obviamente não faria isso, não nestas circunstâncias. - declarou Údon, assumindo seriedade na fala. - Em nosso último encontro, ele jurou a mim e a si mesmo que permaneceria em estado meditativo até que o alarme soasse. Em outras palavras, ele decidiu ser extremamente paciente quanto a resposta de Rosie. E diante dos recentes fatos, não está muito longe de acordar.

- Não temos tempo pra teorias, pessoal, melhor alguém tomar uma atitude e rápido. - recomendou Lester, erguendo de leve as duas mãos ao olhar para cada um dos aliados.

- Áker, rastreie Rosie antes que eles alcancem a última árvore. - disse Hector, olhando para os acólitos de Sekhmet, meio escondido, afastando um pouco a outra parte cortina criando uma pequena brecha para observa-los.

O arauto fechara os olhos, imergindo em máxima concentração.

                                                                                           ***

Os dois indivíduos mal alteraram o ritmo dos passos, ambos pisando nas secas folhas de pré-outono.

- Consegue sentir? - perguntou um deles, o que estava usando o corpo de um caçador com cabelos pretos em gel e partidos na direita e rosto quadrado e não tão caucasiano.

- Não resta dúvidas, é ele. Na certa, o lugar foi revestido por sigilos. - disse o outro, um homem de cabelo semi-raspado e de face meio redonda. - E não está sozinho.

- A quem ele quer enganar? Chamar reforços, à essa altura, é desnecessário.

- Não parece ser um chamado. - disse o outro, visualizando a casa em desconfiança. - Está mais para uma busca. Desesperada, por sinal.

- Está no encalço de alguém?

- Obviamente, da indigna.

- E porque nossa imperadora não resolveu tirar conclusões antes se poderia facilmente achar o traidor?

- Ela tem andado estranhamente indiferente quando tocamos nesse assunto. - salientou o semi-careca.

- Melhor deixarmos. Quem somos nós para questionar as razões de nossa rainha sobre o que é certo a ser feito?

- De pleno acordo.

Apressaram os passos, por um minuto cogitando teleportarem-se de uma vez, mas preferiram ser cuidadosos a fim de respeitar as suas intenções para aquela ocasião.

                                                                                        ***

- E então, Áker? Algum progresso? - perguntou Hector, permanecendo a fitar os dois indivíduos pela ínfima brecha da cortina do lado direito da janela.

O arauto abrira os olhos lentamente, deixando formar-se uma expressão mista de preocupação e urgência. Virou o rosto para Hector, como se decidisse que ele seria de grande auxílio para correrem contra o tempo a fim de resgatar a essência de Rosie e impedir um advento que poderia ter consequências inimagináveis.

- Devemos nos apressar. - disse o arauto, aproximando-se do caçador. - De acordo com meu rastreio, Rosie está rumando diretamente a um Museu de História Mitológica, uma rota que ela não conseguiria seguir com tanta precisão se sua mente não tivesse sido bombardeada.

- A hora não poderia ser pior. - disse Údon, contagiando-se pela aflição de Áker. - E nem sabemos o que esses dois patifes querem conosco. Provavelmente tem contas a acertar com você. - olhou para o arauto, esboçando incerteza.

- Não vou perder tempo tentando desvendar quais são as intenções deles. - determinou Áker, seguro de si, o ar de seriedade transparecendo intensamente. - Ainda que seja estranho Sekhmet enviar apenas dois de seus lacaios, é perigoso demais contarmos com a chance mínima de eles terem vindo sem um pretexto para um conflito. - Olhou para Hector. - Precisamos chegar antes dela, Hector. Toque no meu ombro. - pediu ele, preparando-se. - Está indo numa velocidade sem igual. Se chegarmos a tempo, iremos barrar a passagem, ou, na pior das hipóteses, enfrenta-la se for necessário.

- Esse Salão das Duas Verdades fica exatamente nesse museu? - perguntou Lester, confuso, o cenho franzido.

Údon revirara os olhos ao ouvir a pergunta.

- Um lugar fora do tempo e espaço, como eu disse. - relembrou ele, impaciente. - Não é uma localização geográfica.

- Alguém, certamente, está lá para acionar o sigilo - disse Áker, a fala apressada -, e se preciso for deveremos mata-lo caso ele tenha sido designado por lorde Yuga.

A ideia fizera Hector estremecer por dentro.

- Mudou tão de repente de posição a ponto de até mesmo sacrificar um dos seus? - questionou ele, intrigado.

- Vamos mesmo discutir isso à essa altura? - rebateu Áker, arqueando as sobrancelhas. - O tempo é curto, Hector, vamos, toque no meu ombro e talvez cheguemos primeiro.

- Ah é, senhor espertinho? E como nós ficamos? - indagou Lester, cruzando os braços e encarando o arauto de modo rude. - Por que até onde eu sei, esses caras estão além do que minha performance de caçador exige.

- Não tem problema. - disse Údon, aproximando-se do caçador. Olhou para Áker e Hector com decisão pulsando no rosto. - Ficaremos bem. Sejam rápidos. - tocou no ombro direito de Lester, desviando o olhar para ele. - Está pronto para experimentar uma sensação inédita?

- Para onde nós vamos? - perguntou o caçador, meio relutante e tenso.

- Um lugar aleatório qualquer. Na mesma velocidade que eles. - declarou Údon, sorrindo de canto de boca. - Promete não vomitar?

- Dependendo de como isso vai me afetar... talvez sim... talvez não...

- No três! - disse o arqueu, interrompendo Lester e dirigindo-se ao arauto e o caçador-detetive para teleportarem-se no mesmo instante.

- Contanto que não me deixe constipado por umas duas semanas... - disse Lester, fechando os olhos apertadamente em explícito medo.

- Um... - disse Údon, contando - ... dois... três!

- Agora Hector! - disse Áker, em um tom de voz alto. O caçador tocara no seu ombro rapidamente.

O quarteto desaparecera dali feito fantasmas no mesmo nanosegundo.

                                                                                          ***

Museu de História Mitológica de Londres

Um dos poucos pontos de encontro para historiadores e arqueólogos que sobrara na cidade. Sua fachada deslumbrante lembrava mais um templo de arquitetura datada dos períodos mais filosóficos da história, muito associada também ao estilo grego - tal mitologia possuía uma larga e expansiva difusão no continente, mas a "supremacia grega" não impediu a iniciativa em expor outras perspectivas. À frente dos altos portões com grades verticais - entre um muro de mais de cinco metros de altura - havia um caminho de cascalho ladeado por duas áreas de vegetação média na qual viam-se arbustos e tipos raros de plantas em estado invejável de preservação. O jardineiro - um senhor de idade vestindo um macacão azul com alças por baixo de uma camisa xadrez nas cores vermelho e branco - vinha voltando para aguar a outra parte, trazendo um regador de alumínio na mão esquerda, quando tomara um susto impactante que o fez largar o objeto, o vento forte fazendo voar seu chapéu de palha. Olhou assustado e boquiaberto para a direção de onde o estranho borrão fora.

Correu pelo caminho, quase aos tropeços, parando com um arquejo de espanto.

Fitou, por vários segundos, sem a mínima ideia de como reportar para a curadoria ou a diretoria, o portão aberto mas quebrado em alguns pontos. Pedaços das grades estavam caídos no chão como se tivessem sido forjados pouco tempo antes, exibindo uma coloração quente e alaranjada. O homem baixara os olhos, sem desfazer da surpresa, e observou um rastro negro no chão que fumaçava vagarosamente.

Parado na ala de itens egípcios - toda revestida por uma camada dourada meio brilhante, inclusive as pilastras e iluminadas por lamparinas à óleo -, um jovem de cabelos lisos e castanhos bem penteados para um lado e de rosto amigável e adolescente, esperava com exemplar paciência diante de uma parede com uma porta dupla de maçanetas esféricas folheadas à ouro. Seu sorriso fechado e contido se alargou um pouco mais ao escutar os não tão silenciosos passos de sua visitante.

Rosie andava devagar até ele, a face de insegurança com receio. O rapaz virou-se, condescendente ao fita-la.

- É você... quem está me transmitindo todos esses... pensamentos? - perguntou Rosie, sem perder tempo, encarando-o intrigada. - Você quis ser achado... Por que? Eu matei... - encarou o nada, pensativa por uns segundos. - Eu assassinei várias pessoas... de forma tão brutal...

- Pessoas que não tinham traços de inocência ou sequer possuíam compaixão em seus corações. - disse o jovem, cortando-a, mantendo o semblante calmo. Deu alguns passos adiante. - Devo dizer que está enganada a meu respeito. Não respondo ao autor desta jogada psíquica.

- E você sabe quem é? Por favor, me ajude. - suplicou Rosie, o olhar pedinte. - Já não aguento mais. Começou com um dor de cabeça insuportável...

- Eu sei exatamente como começou... - interrompeu ele, assumindo um tom sério. - ... e como vai terminar. - fez uma pausa, estudando-a. - Seu lapso de sanidade não durará muito. Portanto, é melhor que me dê plena certeza do que está disposta a fazer: Você realmente está pronta?

Uma lágrima brotou do olho direito da jovem. Acenou positivamente com a cabeça.

- Só existe essa forma. - disse ela, o desapontamento soando como uma adaga cravando em seu coração. -  E o pior é que... - sorriu nervosamente, chorando mais uma lágrima. - ... é que não vai dar tempo de se despedir como se deve.

- Se despeça do que você era. - sugestionou o jovem, o tom aconselhador. - Dê boas vindas ao que vai se tornar. Uma nova criatura. Lorde Yuga tem planos brilhantes para você, Rosie Campbell. Por mais que tenha sido encorajada a não acreditar, sei que dentro de si há uma chama clamando por não se apagar. Esta é a fagulha de esperança que esta guerra precisa para enfim ser obliterada.

Um instante de silêncio imperou desconfortavelmente.

- Tudo bem. - disse Rosie, assentindo, logo fungando o nariz ao reprimir a comoção. - Eu vou nessa.

O rapaz acenou positivamente com a cabeça de olhos brevemente fechados, em seguida voltando-se para a porta e andando até ela.

- Ao menos me diz o seu nome. - quis saber Rosie, a voz meio enfraquecida devido a tensão.

- Helikot. - respondeu ele, levantando sua mão direita e tocando na linha entre as duas portas. Um sigilo específico acendeu-se com sua característica luz amarelo-alaranjada no centro da porta. Helikot puxara as duas maçanetas para trás, revelando um cenário surpreendente.

Com as portas totalmente abertas, Rosie encantou-se com a aparência do interior do Salão das Duas Verdades, seus olhos cor de lápis-lazuli brilhando em emoção. Baixou o capuz atrás de si e deu os passos rumo à entrada.

O interior do lugar tinha dois lados divididos por uma linha reta: À esquerda de Rosie via-se um caminho de ladrilhos dourados que terminava em um ponto no qual se encontrava a magnífica estátua de Yuga, iluminada por cima através de uma fonte de luz solar que despontava de uma abertura circular no teto. Já à direita via-se um caminho quase que completamente escuro, exceto pela estátua de Abamanu localizada no fim dele, iluminada fracamente por uma luz azulada e de aspecto gélido.

- Preciso avisar que - disse Helikot, antes dela passar da soleira - não é recomendável ultrapassar o limite permitido. Há portas em cada uma das paredes além das estátuas que não levam à absolutamente lugar nenhum. Se o fizer, caso se renda à curiosidade, correrá o risco de nunca mais sair do labirinto de corredores.

Rosie o ouviu atentamente, olhando-o por cima do ombro, compreendendo o aviso embora julgasse irrelevante por não agir com estupidez a ponto de explorar uma série de caminhos que a fizessem se perder completamente. Nenhum passo em falso ou possibilidade de estímulo para infringir o aviso lhe passava pela cabeça.

- Está bem. Obrigada. - agradeceu ela, por fim entrando no recinto, caminhando pela linha reta que separava as duas áreas. Enquanto fechava as duas partes da porta, Helikot sentiu uma ponta de indecisão ao ver a jovem seguir pela linha divisória, mas no fim das contas sabia que ela faria a escolha inevitável, portanto a hesitação era tão natural quanto temporária.

                                                                                      ***

Correndo a todo vapor e em ritmo frenético, Hector e Áker desviavam das pilastras da ala egípcia, rumando diretamente ao ponto em que uma energia familiar, sentida pelo arauto logo quando chegou, emanou fortemente por milissegundos.

No entanto, uma intensa dor atingira Áker, fazendo-o apertar os olhos, trincar os dentes intensamente e cessar a corrida. Hector virou-se, assustado com o gemido doloroso do arauto, e correra em sua direção para ajuda-lo.

- Áker! - gritou ele, aproximando-se. Tocou-o nos ombros, preocupado. - O que houve? Foi uma mensagem de Údon?

- Se fosse Údon... - disse o arauto, cortando a frase ao reaver a calma - ... Não, certamente não é ele. - olhou para o caçador firmemente. - Ouça, Hector... - ergueu um pouco mais coluna - Vá imediatamente, pode fazer isso sem mim. O sigilo foi ativado... pude sentir. - olhou para o nada, a preocupação alcançando um nível aterrador. - Sekhmet está aqui.

- Como é?! - indagou Hector, franzindo o cenho. - Não pode ser...

- Não é o que está pensando. - disse Áker, fitando-o sério. - Eu acharia estranho ela me contatar enquanto tivesse a oportunidade perfeita para matar Rosie. Tenho a leve impressão... de que desta vez ela não está para conflitos, o chamado foi tranquilo demais para uma circunstância como essa. - salientou ele, recompondo-se. Afastou-se em alguns passos. - Não perca mais nenhum segundo. Vá, antes que seja tarde.

- Espere, Áker, talvez seja alguma armadi...

O teleporte quase imperceptível do arauto cortara sua frase no meio.

Hector suspirara de olhos fechados por uns dois segundos, em seguida retomando a corrida ao se ver sem nenhuma outra escolha.

                                                                                      ***

Seguindo pelo piso de ladrilhos dourados e relativamente brilhantes, Rosie contemplava com admiração sincera a estátua do deus solar Yuga - posicionada com o joelho esquerdo dobrado e segurando com o braço direito esticado a sua arma mais mordaz, a famigerada argola luminosa, muito também nominada de disco solar. As asas - bastante próximas uma da outra - daquela ave de rapina antropomórfica poderiam ser vistas com certo receio por qualquer um que se aproximasse por conta da sinistra impressão de que a qualquer momento a estátua esboçaria movimentos graduais até alçar voo ou realizar qualquer outro ato, logo pensava-se que as penas em um dourado escurecido, mas não menos estonteante, serviriam de mera distração que fisgaria entusiastas da figura a uma revelação impressionante de uma escultura incomum em todos os sentidos.

A jovem ganhou menor distância perante à imagem reluzente e parara para pensar um pouco no que diria antes de confirmar sua aceitação.

- Olha... - disse ela, a cabeça meio baixa, ainda meio pensativa - ... não faço ideia se está ouvindo ou não, mas... eu tenho que admitir: Você me pôs numa encrenca e tanto. - afirmou, erguendo um pouco o olhar tranquilo para a estátua. - Há poucos anos atrás eu não passava de uma garota vivendo num condado quase despovoado alimentando sonhos que a simples leitura de uma carta destruiu completamente. E pensar que foram vocês dois que começaram com isso... - fez uma pausa, balançando a cabeça em negação, mal sabendo como continuar, passando a língua nos lábios rapidamente. - Tem ideia do quanto o seu ego inflado afetou as vidas das pessoas que não passaram de peças nesse jogo de quem tem mais poder? A minha vida. - pôs a mão direita no peito. - Tamanha ambição... me impossibilitou de seguir com a vida que eu planejei viver desde que passei a ter uma visão mais clara do mundo. Só não sabia que esse mundo era tão... vasto. Então talvez seja certo assumir que Hector ter entrado na minha vida tão de repente teve um lado bom. Não fosse por ele, eu continuaria com a mesma visão limitada do verdadeiro mundo que me cerca. E se eu descobrisse por mim mesma, talvez eu nem estaria aqui falando com uma estátua gigante de um deus megalomaníaco. - fez uma pausa, dando alguns passos adiante, sem tirar os olhos da imagem cujos olhos de águia pareciam fitar o horizonte - Mas não vim convence-lo, embora eu esteja criticando, porque sei que só vou estar perdendo meu tempo e a garota fatal vai assumir o controle. Tem que admitir que não foi uma jogada limpa. Porem... eu compreendo. Eu entendo que está apressado, você quer mais do que tudo acabar com essa guerra e vencê-la, mas está fazendo pelos motivos errados. Então antes de conhecer sua nova casa - formou um sorriso fraco, os olhos marejados -, pense em como pode canalizar o seu poder para uma vitória justa e menos egoísta. Não vou perdoa-lo pelo que me fez passar, mas... - mordeu os lábios, uma lágrima caindo - ... como não me dá outra opção... eu só quero que respeite o que o símbolo que o seu império carrega representa, e sei que é algo muito mais do que só ostentar poder. - pisara na área circular do chão que a abertura no teto projetava com sua luz. Olhou para cima, uma centelha de determinação engolfando o seu âmago como nunca. - Portanto, estou aqui para que esse sofrimento acabe. Estou aqui... para aceita-lo.

A luz meio amarelada e meio embranquecida na abertura do teto intensificou-se repentinamente, banhando Rosie que reprimia o instinto de fechar os olhos, suportando a resplandecente luminosidade.

O clarão magnificente dilacerou seu limite na forma de uma rajada retilínea que caíra sobre Rosie com um impacto sobrepujante, velozmente envolvendo todo o recinto.

                                                                                   ***

Helikot viu sua concentração total na porta, no aguardo do brevíssimo retorno da visitante, ser destruída pela aparição repentina de Hector que se avizinhava a passos apressados. Virou-se, um tanto surpreso ao olha-lo. O caçador chegara mais perto tentando, ao máximo, não soar inconveniente ou transparecer ameaçador, embora seu semblante extremamente sério pouco ajudava.

- Onde está Rosie? - perguntou ele, relanceando a porta. Uma impotência o acometeu, angustiando-o. Olhou para o sentinela com um misto de desconsolo e desespero. - Não pode ter permitido que isso acontecesse...

- Fiz o que a vontade de meu soberano acreditou ser o correto. - justificou Helikot, sincero. - É o destino dela.

- Não cabe a Yuga decidir o que é certo ou errado para Rosie! - vociferou o caçador, agarrando-o com as duas mãos pela gola da camisa, fulminando-o com os olhos. - Faça isso parar, agora!

- Mesmo que soubesse, jamais o faria. - retrucou Helikot, passivo quanto á reação do caçador. - Lamento se o frustra, mas... Foi uma escolha inteiramente dela, então creio ser plenamente justo que isso deva ser respeitado. Principalmente por você. - fez uma pausa - Ela teve total consciência de que não havia outro jeito.

O ranger da porta dupla abrindo-se interrompera a conversa.

Hector o soltara, visualizando a saída de uma Rosie em um estado não tão previsível.

- Rosie... - disse ele, a voz entrecortada e a face estática, com uma tensão incomum crescendo dentro de si. Viu a jovem sair um tanto camaleante enquanto as portas fechavam-se lentamente por detrás dela e logo em seguida andou rápido em sua direção para apoia-la. - Rosie, fale comigo... por favor, me diga - tocou-a nos ombros. - que recusou a proposta, era uma armadilha, Yuga não é quem diz ser.

- Blasfeme o quanto quiser. - redarguiu Helikot, olhando-o com rigidez - O que está feito não pode ser revertido. Devia agradece-lo por ter a salvado de um destino onde apenas a dor, o sangue de inocentes e a morte a perseguiriam.

- Hector... - disse Rosie, a voz de tom meio instável, mantendo a cabeça baixa e a respiração forçada.

- Você não está nada bem... - disse Hector, temendo pelo pior. - Me diga que não cedeu...

- Se afaste... - o desespero tomara conta da jovem que forçava-se para empurrar Hector. Ergueu um pouco mais a cabeça, o suor escorrendo pelo seu rosto. - Posso senti-lo... É forte demais! - de repente, seus olhos brilharam uma luz amarelada que durou milissegundos.

- Oh, não... - o medo elevara-se na expressão de Hector, que teimava em não tomar distância. - Não pode ser... - resolveu ceder ao pedido, encarando a parceira com estupefação firme. Olhou para Helikot, desconcertado.

O sentinela sorriu levemente para o caçador, logo desviando o olhar para Rosie, cuja resistência mantinha-se explícita. Deu alguns passos adiante, com certa confiança.

Hector observava o esforço de Rosie com abalo na face. "Toda a explicação de Údon nos tomou muito do nosso tempo. Mas não posso culpa-lo, precisávamos ser avisados. Chegamos tarde demais.", pensou ele, abatido.

- Chega de resistir, Rosie Campbell. - disse Helikot, aproximando-se. - Permita se libertar desse fardo, é apenas uma questão de se entregar. Além do mais, jurei a mim mesmo que seria o primeiro a testemunhar a vinda de Lorde Yuga, portanto eu peço, encarecidamente, que deixe-o passar desta barreira que vai se fragilizando pouco à pouco. Não é forte o bastante.

Hector o encarou com repulsa no olhar. Depois voltou-se para a jovem, pensando em como instiga-la efetivamente quanto a impedir que o deus solar assumisse o controle absoluto de seu ser.

- Rosie, desde o dia em que tive a sorte de conhecê-la... não me restou dúvidas de que... de que você, dentre todas as pessoas que já cruzaram o meu caminho, é a mais forte que já vi.

- Desista, nada do que disser vai convencê-la a seguir na contramão. - avisou Helikot, sério. - É menos do que salva-la, é direciona-la a uma sentença de morte ainda mais rápida.

- Ele... - disse Rosie, arfando mais intensamente. - Ele está certo... - em seguida dera um grito rápido seguido de um gemido doloroso e arrastado, fazendo-a ajoelhar-se.

- Não se aproxime! - impediu Helikot, erguendo de leve a mão direita par Hector. - Vivi o bastante para ver esse momento chegar e você não pode fazer absolutamente nada. Posso lhe garantir que Lorde Yuga tem planos maravilhosos reservados à sua escolhida...

A fala do sentinela cortou-se bruscamente de modo assustador.

O peito esquerdo de seu receptáculo fora transpassado pela mão direita de Rosie. Uma mancha de sangue formava-se e crescia na camisa branca que vestia por baixo de seu colete marrom. Hector estremeceu, visualizando com espanto ao recuar dois passos.

Helikot foi desviando os olhos para a face de Rosie. A jovem o olhou com uma aura colérica intimidadora, as pupilas brilhando a mesma luz de cor amarela.

- Tem razão. Meus planos são incríveis. - disse Yuga, logo induzindo uma energia diretamente ao seu sentinela que ferira. Helikot parecia estar engasgado ao sentir o calor de mil fornalhas crescer dentro do corpo que ocupava. Hector assistiu, embasbacado, o jovem sentinela arder em chamas até a carne os ossos de sua casca carbonizarem-se em uma velocidade impressionante até que o corpo não pudesse ser reconhecido.

Fora largado no chão como um objeto que perdeu seu utilidade, fumaçando um vapor quente após ser reduzido à carvão tostado e crepitado.

Antes que Hector tomasse alguma atitude desesperada, Rosie resistiu novamente, fazendo o controle do deus durar menos do que pensaria ser forte em fazer. Caiu mais uma vez, pondo uma mão na cabeça, rosnando feito um cão raivoso.

- Rosie... Ainda é você? - perguntou o caçador, incerto, hesitando chegar mais perto.

- Não... - disse ela, levantando-se com esforço dobrado. Deu alguns passos adiante, mas com certa força, a ponto de deixar marcas de suas pegadas no chão que danificava-se com elas tamanho era o poder que estava pulsando em seu interior mais do que nunca. Com os olhos fechados, tentou detectar a presença do caçador.

- Como está se sentindo? - perguntou Hector, abismado. - O que ele está fazendo com você?

- Sinto como se... estivesse lutando por minha alma... em um cabo de guerra. - disse ela, arquejando, tentando manter sua resistência o máximo de tempo possível. - Hector... Jamais vou esquecer... das suas palavras... da sua cumplicidade... e da sua bravura. Mas faça como eu... Não precisa ser forte o tempo todo. - disse, deixando uma lágrima rolar.

Comovido, Hector chorara ao fita-la naquele estado angustiante, mal conseguindo reproduzir alguma palavra, tentando desatar o apertado nó na garganta que as palavras da amiga formaram.

Num instante, mal percebeu que ela havia sumido dali em teleporte.

- Não! Rosie! - exclamou, desesperando-se. Pôs as mãos sobre a cabeça, sua expressão ainda chorosa e aflita, imaginando uma variedade de possíveis coisas terríveis que ocorreriam ao não fazer a mínima ideia de para onde Yuga a teleportou. - Aaahh.... Droga! - socou uma pilastra que rachou-se um pouco.

                                                                                     ***

As veias pareciam terem se transformado em estreitos canais por onde se sentia passar um calor similar ao de lava derretida após expelida de um furioso vulcão.

Rosie, o rosto suando profusamente e sentindo os olhos arderem, cambaleava pelo corredor do primeiro andar do Casarão, batendo os ombros nas paredes à medida que o desequilíbrio físico tentava evocar sua desistência reprimida.

Entrara no banheiro com impulsividade, quase tropeçando, logo acendendo a luz e apoiando uma mão na pia, em seguida estando frente ao espelho onde observava algo diferente do reflexo esperado. Via-se uma face sacana e canalha. A sua faceta indesejável escarniava silenciosamente a condição da jovem em um sorriso debochante.

- Você perdeu, Rosie. Pare de insistir numa batalha que não tem como vencer. - dizia o reflexo, incitante. - Só resta se entregar e mais nada. Não queria alcançar o sol? Veja só, aí está. Queria a sua salvação, a sua libertação. Mas as trevas a afastaram. Então pare de bancar a heroína de si mesma e aceite de uma vez... o seu destino!

Rosie grunhira em ódio intenso, fazendo o espelho rachar-se por inteiro.

Baixou a cabeça, a respiração ainda extremamente pesada.

"Me perdoe... Hector".

O corpo, aos poucos, reduzia a tensão ao passo em que a jovem reerguia a cabeça e voltava seus olhos para o espelho destruído. De seus olhos piscara uma luz amarelada e meio tremeluzente. Alguns fios de seu cabelo adquiriam uma coloração loira em uma velocidade espantosa.

Um sorriso tenebroso foi esboçando-se lentamente...

                                                                                                           ***

- Por favor, se quer me matar, vá em frente, não me importo! - dissera um dos lacaios de Sekhmet ao ser agarrado por Hector pela gola rulê de sua camisa por baixo do colete marrom, contra a parede.

- Apenas me diga como realizar um sigilo teleportador. - pediu o caçador, com rudeza na voz.

- Posso fazer um para você agora. - disse ele, mostrando-se intimidado. Hector sacara uma adaga dourada e aproximou a ponta ao rosto do soldado, logo encostando-a com mais profundidade.

- Não confio em você.

- Por que não pediu ao maldito herege? - perguntou ele.

- Áker e eu confiávamos que as coisas sairiam bem diferentes. - explicou Hector, a fala rápida - Ou me diz como se desenha o sigilo... ou farei com que tenha um destino bem pior que a morte.

O lacaio rira zombeteiramente com os olhos fechados, estimulando a ira do caçador.

- Agora sei o que houve. - disse ele - Sei porque nossa imperadora nos trouxe até aqui. A indigna Rosie Campbell...

- O sigilo! - vociferou Hector, largando a lâmina e o desencostando da parede.

- Está bem, o farei. - cedera ele, fitando-o seriamente - Mas só porque me ameaçou com um neutralizador. Não duvido que o herege colocou em todas as partes. - esticou o braço direito em direção à uma parede, movimentando os dedos com lentidão por alguns segundos.

- Será que dá para ir mais rápido? - indagou Hector, apressando-se.

- Está quase pronto. - garantiu o lacaio. - Caso não saiba como funciona... basta imaginar o local para onde quer ir no exato momento da ignição. Normalmente isso funciona com os forjadores, mas como é uma situação desesperadora... - estalara os dedos, ativando-o.

O símbolo acendera sua luz amarelada no mesmo instante. Hector deu alguns passos adiante, sentindo o efeito de atração. Olhou mais tranquilamente para o soldado.

- Só pra constar: não há sigilo nenhum gravado previamente neste museu.

O lacaio franzira o cenho, visivelmente sentindo-se ludibriado.

A atração puxara o caçador com mais força enquanto ele tentava proteger os olhos da claridade até, por fim, "colidir-se" com a parede.

                                                                                            ***

Com desprazer puro na expressão, Áker, numa área relativamente escura e cheia de pilastras, caminhava por entre os corpos carbonizados outrora ocupados por sentinelas que eram de sua filiação. Entreviu a figura de Sekhmet próxima ao pequeno muro, em frente à saída daquela área que ficava perto de uma espaço aberto com piso de cerâmica quadriculada.

O sol fazia os lisos e pretos cabelos do receptáculo da deusa reluzirem. Estava parada, de costas, à espera do subordinado a fim de compartilhar uma verdade que passara um certo tempo reprimindo. O muro, por sinal, ia até a sua cintura.

- Esqueceu de avisa-los antes sobre minhas intenções. - disse ela, sentindo a presença do arauto atrás de si, a face de satisfação e tranquilidade. - Até tentei explicar, mas não pouparam as ofensas, então... - virou-se para ele. - ... tive que elimina-los por crime de petulância. Desculpe, foi a força do hábito.

- Os matou de propósito porque se negou a ser específica. - acusou Áker, fitando-a com rigorosidade ao andar na direção dela. - Você não muda mesmo. Nunca vai mudar.

- Tenho certeza de que algo mudará depois desta conversa. - salientou ela, segura.

- Diga de uma vez porque me chamou de um modo tão... atípico. - disse Áker, pouco paciente. - Sei que é sobre Rosie. Prefiro que seja rápida.

- Você quer tanto saber as razões que me levaram a paralisar minhas atividades ultimamente, certo? - perguntou ela, dando uns dois passos à frente - Posso ver a hesitação estampada no seu rosto, mas não se descontrole a ponto de sair fugindo como um covarde, não o encurralei numa armadilha.

- Era o que Hector certamente estava pensando quando eu o deixei sozinho. - afirmou Áker, com seriedade na expressão.

- Ele, por sinal, está perdendo o seu tempo. Gostaria de vê-lo mais vezes. - disse a deusa, demonstrando vontade em se encontrar com o caçador com o qual teve um breve contato uma única vez no antiquário desconhecido apoderado pelos coletores.

- Vá direto ao assunto. - exigiu Áker severo.

- Meu amado havia partilhado comigo as informações necessárias sobre a tal lenda. - disse Sekhmet, andando devagar por um lado. - Isto foi logo após eu descobrir o que ele verdadeiramente tramou. O que você entendia como golpe herético nada mais foi do que uma tentativa para lutar por uma causa justa que preservaria algum vestígio de ordem no império.

- Tentativa de assassinato, pra ser mais exato. - retrucou Áker, pouco convencido.

- Será que dá para ao menos desta vez não enxergar as coisas na camada mais rasa? - perguntou a deusa, estreitando os olhos. - Você não faz ideia do quanto eu tentei... do quanto eu implorei para que ele mudasse de ideia e se desprendesse desse sonho venenoso. Nunca se tratou de conservar a honra do império.

Áker se viu em uma encruzilhada, sem saber como decidir a respeito do que acreditar. Entretanto, algo lhe dizia que nas palavras daquela que atentou contra a vida da inocente que jurou proteger haviam nebulosos rastros de sinceridade, além de aparentemente estar avisando-o para ignorar a forte perspectiva negativa que adquiriu após os atos malignos da deusa para dar espaço à uma compreensão adormecida perante ao seu manifesto. Resolveu tentar dar uma chance a si mesmo e à ela.

- Está dizendo que...

- Sim, serviçal. - disse ela, fortemente convicta, os braços cruzados. - A prioridade sempre foi finalizar de vez uma rivalidade estúpida que destruiria ambos e ainda levaria o império junto para o abismo. Só eu sei o quão obcecado ele estava com esta suposta lenda desde o dia em que a ouviu pela primeira vez. O amor próprio o consumiu, tornando-o egoísta e preso em si mesmo. E eu odiava sempre que ele usava a fachada de Rei inabalado para não levantar suspeitas. - fez uma pausa, desviando o olhar para um canto. - Tive minha deixa perfeita quando ele se enclausurou na própria mente para aguardar a resposta, depois que ele lhe deu a ordem explícita. Liquidar Rosie Campbell tornou-se a missão de extrema importância, e, admito, também estive obcecada... eu só não tinha certeza de como realizar meu desejo, então todas as provocações não passaram de mero improviso. Mas quero que fique claro que nunca tive intenção de mata-la apenas por obediência ao instinto. - confessara, lançando um olhar duro para o arauto. - Todas as vezes em que investi contra ela foram para salvar o nosso lar. Por que esse era...

- O único jeito. - interrompeu Áker, um tanto pensativo e aparentemente desolado.

- Exato. - concordou Sekhmet, assentindo positivamente. - Fiz tudo parecer uma revolta motivada por um ciúme doentio e fico feliz que funcionou. Mais do que raiva... eu tive medo. - disse, chegando mais perto do arauto. - Que gerava mais raiva por eu ser a única a tê-lo. Eu culpo a maldita quimera por contamina-lo com sua sede insaciável por mais poder do que consegue suportar. Mas... As vezes penso que... lá no fundo já estava esperando para despertar... O alto escalão nunca se prestou ao trabalho de puni-lo, mesmo que eu, sua consorte legítima, recorresse. Adivinha porque. - fez uma pausa, imaginando o momento com certa mágoa. - Era seu problema. Não deles. Meu amado estava à beira de pôr o império em colapso ao confiar a um mortal despreparado um poder que estava o matando.

- A energia... - disse Áker, fitando-a curioso. - ... se tornou nociva?

- Iria mata-lo em questão de pouco tempo. - revelou a deusa. - A batalha contra a quimera o forçou a ir além de seus limites. Não é que eu queira que este duelo não tenha fim, quero, na verdade, acima de tudo, a sobrevivência do império. Eu quis tomar para mim a dor que ele sentia. Mas ele rejeitava e dizia que só poderia ser de uma única forma...

                                                                                      ***

"... que só um mortal o faria alcançar o patamar superior, muito embora o meio por si só fosse considerado inferior, mas nele morava a vantagem e ele pôde comprova-la...

O sigilo formou-se numa árvore brilhando intensamente sua característica luz amarela. Logo Hector saíra, seus pés arrastando para frente no solo e o brilho refulgente diminuindo em rapidez. Olhou ao redor desnorteado, mas conseguiu se reorientar e reconhecer o local como a área florestal de Raizenbool. Correu em disparada assim que entreviu o Casarão à uma distância relativamente média.

"... O pássaro flamejante da lenda era o próximo estágio evolutivo e com sua vinculação foi como se ele se sentisse... escolhido. Como se ninguém além dele fosse digno de tal posição. Era tentador, sei que era. Mas qual era a garantia de que um poder tão entorpecedor não pudesse leva-lo à loucura?"

O caçador arrombara a porta com um forte chute e entrara rapidamente, vasculhando com os olhos cada ponto da sala de estar. Não tardou a se deparar com dois corpos de caçadores carbonizados largados no chão próximos um do outro. Encarou-os com temor enquanto passava por eles. Os mesmos sentinelas afiliados à Sekhmet. E aquilo só lhe significava uma coisa.

- Rosie! - chamou ele, adentrando no corredor que levava para o quarto da jovem. - Rosie? - o lugar estava meio escuro, mas pensou ter escutado um ruído vindo do banheiro. - Rosie, apareça!

Tomara um susto que descompassara seu coração e o fez estacar no mesmo instante.

- Lamento informa-lo, senhor Crannon, mas Rosie decidiu hibernar para esquecer todo esse inferno. - disse Yuga, no corpo de Rosie, exibindo os cabelos da jovem, outrora pretos, como sendo de um loiro dourado. Esticou o braço direito, violentamente empurrando o caçador com sua telecinesia.

Jogado feito um boneco, Hector voou com suas costas indo de impacto contra a parede. Seus membros foram completamente paralisados.

O deus solar, desfilando ao sair do corredor e entrar na sala, mantinha o braço esticado para fazer o caçador permanecer imóvel e esboçava um sorriso maquiavelicamente cínico.

- Maldito... - disse Hector, os dentes trincados em sua face raivosa.

- Alguns de vocês dizem que se um deus é todo poderoso ele não pode ser de todo bom e se ele é de todo bom então não pode ser todo poderoso. - disse Yuga, andando em direção ao caçador imobilizado na parede. - Eu sou bom... e sou poderoso. - deu uma risadinha infame. - Eu sou bom em liberar todo o meu poder.

Hector podia sentir o ar pouco à pouco querendo escapar de seus pulmões.

- Mas de que vale tortura-lo - disse Yuga, resolvendo liberta-lo da pressão telecinética, baixando o braço -, se esta visão já cumpre toda a demanda?

O caçador pôde novamente sentir o chão nos pés, arquejando em recuperação do fôlego.

- Rosie Campbell é um caos aqui dentro. - disse ele, profundamente sério, dando dois passos adiante. - E quanto á você? Por onde será que eu começo?

- Até gostaria de saber... o porque de me poupar, mas percebi que ainda posso usar um trunfo. - disse Hector, retirando algo do bolso externo do sobretudo de couro marrom. - Antes de me dizer porque me libertou... vou mostrar como prendê-lo. - exibiu o pequeno amuleto dourado na palma da mão direita, diante do ponto onde o deus solar estava parado: o tapete verde.

O sigilo acendera em poucos segundos.

Hector, confiante, transpareceu sua segurança com um sorriso torto.

Contudo, Yuga mostrou-se indiferente, para a estranheza súbita do caçador.

- Olha, eu realmente admiro sua auto-confiança, não é a toa que tive o escrúpulo de mantê-lo vivo. - disse Yuga, dando passos, ultrapassando o sigilo como se nada significasse, deixando Hector boquiaberto de tão estupefato. Ergueu a mão esquerda, logo estalando os dedos para apagar o sigilo. - Mas não será hoje que fará de mim seu prisioneiro. Se é que um dia realizará tal façanha. - falou, a expressão de deboche.

Após baixar a mão, manteve-a aberta para surrupiar de Hector o amuleto por meio da telecinesia. Num piscar de olhos, o objeto voou em direção ao seu poder. Fechara a mão, olhando-a

- Sabe... Houve um tempo... em que eu mataria por um desses. - disse Yuga, logo incinerando o amuleto com sua energia, uma luz amarela sendo produzida como efeito. Abriu a mão e deixou as cinzas derramarem-se no chão. - Bons tempos. - disse ele, olhando para Hector com as sobrancelhas arqueadas.

- Promete não me matar... Por qual razão? - perguntou Hector, o tom ríspido.

- Para concretizar as premonições de um velho amigo. - justificou Yuga, tornando a direcionar-se ao caçador em passos lentos. - Descartar você à essa altura seria, no mínimo, desperdício.

- E para quê, afinal? - questionou Hector, tenso.

- Não é óbvio? - indagou Yuga, franzindo o cenho com um sorriso infame. - Assim como foi na morada dos deuses... deve ser na morada dos mortais.

- Isso jamais vai acontecer. - rebateu Hector, desafiante, fitando-o com ódio.

- De uma forma ou de outra, vai sim. - disse o deus solar, assentindo lentamente. - Mas não quero apressa-lo. Muito embora eu não deva garantir que Rosie volte ao controle, muito menos permitir que dividamos o mesmo espaço, porque, sinceramente, ela não durou muito enquanto tentava me prender com sua fraca mente. Não sabe o quão intenso foi o seu desespero à medida que eu...

- Chega, pare de falar! - esbravejou Hector, no limite da impaciência.

- Você pode tentar. - disse Yuga, o semblante de infâmia. - Mas não é tão estúpido.

- Esse golpe foi bem conveniente. Você sabia que a enxurrada de memórias enfraqueceria a mente de Rosie para ter o menor tempo possível em assumir o controle. - constatou Hector, sem erro, o ar de desapontamento. - É tão podre quanto o seu arqui-inimigo.

- Eu nunca subestimo meus favoritos. - declarou ele, firme no tom. - Ela realmente se mostrou uma criatura forte para os seus padrões e por isso tem meu respeito eterno.

Hector fazia que não com a cabeça, vagarosamente, exibindo todo o seu repúdio escancarado na face.

Yuga prosseguira:

- Só existe uma verdade que o torture mais do que eu pretendia fazer: Você e Rosie nunca estiveram destinados a ficarem juntos. Não por um longo tempo. No mais, a escolha é sua: Pode ficar, cair no chão e se afogar nas suas próprias lágrimas em sofrimento interno ou... - inclinou a cabeça um pouco mais à frente - ... concordar com os meus termos. - fez uma pausa, percebendo a relutância do caçador, logo aproveitando-se disso - Dou-lhe uma... Dou-lhe duas...

- Está bem! - dissera Hector, erguendo mais a cabeça após tanto hesitar - O que você quer de mim?

- Vá até aquela besta abominável e diga que estou pronto. Além disso, diga que aceita a oferta. - disse Yuga, olhando-o fixamente.

- Que oferta? Do que está falando? - perguntou Hector, enraivecido.

- Há uma memória clara em Rosie na qual você e ele estão diante um do outro, ao mesmo tempo em que ela ansiava por convence-lo a não cair no suposto golpe. - disse o deus solar, provando ter total acesso às lembranças da jovem, das mais enevoadas às mais nítidas. - Meu segundo em comando também estava presente.

- Deixar que Abamanu me possua!? - reclamou Hector, ciente de que estava sem saída. Olhou para um canto por alguns segundos, pensativo. - A troco de quê?

- A vida de todos aqueles que ama. - salientou Yuga, sem rodeios. - Todos eles, sem nenhum arranhão. Sei como isso soa desagradável, deve estar se sentindo em um déja vu que está lhe corroendo até a alma.

- Aceito. - disparou o caçador, voltando os olhos sérios para a divindade. - Me dê cinco dias.

- Ótimo. É isso que chamo de convicção e atitude, gosto disso. - aquiesceu Yuga, abrindo um sorriso mefistofélico e enojante. - Seus amigos acabam de ganhar uma sobrevida.

- O que vai fazer nesse tempo? - quis saber Hector, embora sentindo um medo terrível lhe dominar por ter perguntado.

- Explorar meu potencial. - disse ele, afastando-se aos poucos em passos para trás. - Desfrutar do poder que este lindo corpo ajudou a fortalecer. Nos vemos em cinco dias.

O deus solar desaparecera em nanosegundos diante do caçador, deixando-o a ver o nada.

- Ou não. - disse Hector, recostando-se na parede em desolação cáustica até deixar-se abaixar e sentar-se no chão, externando em uma lágrima ao perceber que arriscaria perigosamente se valendo de alguns benefícios, dentre eles Údon.

Mas algo lhe dizia que muitas das vantagens que possuía não trariam uma salvação duradoura.

Fechou os olhos em tristeza profunda e teve como única certeza de que a verdadeira guerra havia finalmente começado.

                                                                                        ***

Em algum ponto do centro de Londres, Yuga desfilava, em meio às pessoas que iam e voltavam, com um sorriso fechado de pomposidade e altivez, apreciando o controle que matinha reforçadamente sobre o corpo de Rosie.

Porém, estava literalmente invisível para todas aquelas pessoas que desprezava.

Um homem de meia idade, calvo e de rosto meio quadrado, usando um chapéu e um casaco marrom alaranjado, esbarrou seu ombro direito com o da jovem, mas continuou caminhando como se nada tivesse acontecido - ou não tivesse sentido.

Ao dobrar para um beco, ele sentiu-se estranho... por inteiro.

Quando menos percebeu, seu corpo converteu-se em cinzas puras e desmanchou-se ao chão antes que ele pudesse emitir um grito por socorro.

Ainda caminhando em meio à multidão de reles mortais, Yuga, satisfeito por sua primeira vítima, fez esvoaçar de leve a capa vermelha que sua escolhida tanto zelava.


                                                                                   CONTINUA...





*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 



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