terça-feira, 11 de abril de 2017

Dedetizador Reverso


Bem, eu me chamo Nathalie, e a razão de escrever esta mensagem é que passamos de uma família com um sonho de uma vida feliz e na mais plena paz para uma família desesperada numa situação desesperadora. Enlouquecedora, aliás. Pra começar, me mudei com meus dois filhos para o interior da cidade em busca de viver tranquilamente, enfim, você sabe... motivos bem clássicos para alguém se distanciar do cheiro da cidade grande, coisa bem clichê. No meu caso, foi com relação ao meu marido que saiu do país à caminho de um novo e rentável trabalho, e com meu desemprego minha atividade temporária como manicure não seria suficiente para pôr tudo nos eixos e vim para cá onde tenho parentes que vivem aqui por perto. 

E já fazem exatamente 8 meses, matando um dragão por dia para sustentar essas pobres crianças. 

Porém, sempre chega uma hora que o universo te dá uma bela de uma rasteira para te convencer que até sua estabilidade de rotina é temporária. 

Foi numa tarde, eu estava pregando as roupas no varal quando ouvi minha filha de 8 anos gritar. Corri feito uma louca, pensando que tinha acontecido um acidente, mas... eram apenas baratas cascudas e nojentas saindo de um buraco. Ele ficou apontando, horrorizada, dizendo que estavam indo direto para o seu quarto - e estavam mesmo, tadinha. Pisei no máximo que consegui, mas a maioria do exército já tinha se instalado. 

No outro dia foram traças malditas que destruíram as roupas lavadas que deixei no varal. 

Depois foram cupins que quase derrubaram uma tábua em cima das nossas cabeças durante o jantar. 

Nem milho tinha mais como comprar, pois todas as remessas vinham infestadas de besourinhos vermelhos (não são joaninhas). Já estava ficando insustentável e fora de controle. Para se ter uma noção, eu gastei o pouco que sobrou para pagar ao menos metade da mensalidade escolar das crianças em ratoeiras que espalhei em todos os cômodos. Algo em torno de 20 que custavam 4,90. Em 2 meses pelo menos uns 15 ratos bem gordos eu enterrei no quintal. E quando eu achava que venci a batalha, chegavam mais... muito mais. A cada dia, a cada hora, a cada minuto. Não me concentrava mais em nada a não ser em desinfetar toda a casa sempre que insetos ou ratos aprontassem suas brincadeiras de mau gosto. E, no fim das contas, nenhum desinfetante cáustico surtia efeito. 

Tinham sacos de arroz e feijão roídos. Até os livros das crianças. Fileiras de cupins faziam a festa nas paredes e no teto. 

Foi aí que uma luz desceu para me socorrer. Em vez de abandonar aquela casa, segui a dica do velho amigo dos meus tios, o Sr. Grawble, veterano naquela região. Disse que sempre quando essa época do ano chegava ele viajava para outra cidade, mas contratava um dedetizador especial que deixava a casa em "quarentena". Na verdade, segundo ele, era mais uma promessa do que incômodo pela visita do profissional. Haviam familiares por lá e visita-los uma vez por ano nesse período virou uma tradição. 

Liguei para a agência de controle de pragas, relatando todas as situações de agonia que passei nos últimos meses. A moça no telefone era de voz firme e deu para compreender tudo mesmo com o sinal cortando algumas vezes. O que era no mínimo estranho, já que as chamadas atendidas até então nunca tiveram esse problema, nenhum chiado ou estática. 

Aguardei duas horas, contando os minutos. As crianças estavam no reforço escolar. Tive uma sensação confusa quando o atendi. Não sabia se era receio... ou medo.

Quando o Sr. Grawble disse que o negócio era especial, não estava brincando. O cara vestia um macacão amarelo, carregava uma mochila quadrada nas costas que mais parecia uma super caixa de ferramentas e usava uma das daquelas máscaras de gás feiosas. Como se não pudesse tornar mais estranho, resolveu se comunicar comigo através de mensagens por escrito - até perguntei se era mudo, mas ele só ficou parado me encarando. O último papel que ele me mostrou dizia: "Seria mais efetivo que lacrasse as janelas e trancasse as portas, pois o pesticida deve se manter concentrado no ambiente até alcançar todos os pontos de infestação e elimina-los gradualmente". 

Esse é o agente que o Sr. Grawble tanto supervalorizou pra que eu comprasse a ideia? De qualquer forma, não liguei para a aparência, podia ser a chance de livrar essa casa da farra dos insetos - esperava que pra sempre, sendo que ele me disse que o efeito mortal é permanente, menos o odor. 

Podia ser a chance de voltarmos a respirar oxigênio em vez de cheiro de carniça de rato. 

Até liguei outra vez hoje, mas dava "número fora de área ou não existe".

Acordei... me sentindo renovada, sabe. As crianças também se mostravam revigoradas. Mas havia algo diferente. Que vinha de dentro. Eu me adapto a novas experiências, tenho certeza disso. 

Deixei um estranho entrar na minha casa e enquanto escrevo isso aqui vou me amargurando pelo pagamento desse preço. Chorei, gritei no travesseiro, refleti sobre o sentido da vida tão profundamente... 

Quer saber? Eu vou me mudar. Vou pegar meus filhos e ir embora dessa casa. Aqui perdeu a graça. 

Serão apenas eu, eles... e elas. Sim, as baratas não param de surgir. O cara fez um péssimo trabalho. 

E o nojo? Bem... O que é isso? Quero mais é que se exploda, vou chutar o balde. 

Mas antes de sair melhor vestir um casaco que possa esconder os vermelhões na pele. Também um gorro para disfarçar a área careca no cocuruto que só vai aumentando. Um óculos escuro para esconder o preto dos meus olhos. Luvas para ocultar as unhas crescidas. 

Só vai ser difícil esconder essas "pelinhas" frágeis e marrons que vão caindo das minhas costas. O chão do quarto está cheia delas. 

É hora de mudar de vida novamente. Nunca imaginei que a próxima vez que ia ser tão... incrível. 

Eles estão agora na soleira da porta me observando. Por que sei disso estando de costas? É que estes fios bem fininhos saindo da minha testa são muito úteis! E estão crescendo... crescendo... 

Sinto o horror deles. Que pena não poderem mais me ver como antes. Mas que escolha têm? Vão se acostumar e ai deles se ficarem me encarando com esses olharzinhos covardes o tempo todo. "Calma filho, não chore, deixa ela subir em você, só quer ser sua amiguinha!". 

Vou arrumar as malas e explicar para esses pirralhos (pobres crianças, uma ova, são uns pentelhos) que se espelhariam na mãe deles se tivessem faltado a aula de reforço. 

Só continuo mais escrevendo, porque... Bem, antes de começar a arrumar tudo, melhor ir correndo para ver o que tem nas lixeiras de hoje porque essas meninas danadas estão me fazendo cócegas e estão tão ansiosas quanto eu. 

Acho até que consigo voar. Será? 


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Este conto foi escrito e publicado exclusivamente para o Universo Leitura. Caso o encontre em algum outro site com créditos e fonte ausentes, não hesite em avisar!




*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos.

*imagem retirada de: http://thecabulouso.blogspot.com.br/2013/05/maraclea-templarios-simbolo-da-vida.html



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