Capuz Vermelho #25: "O que você fez no verão passado?"


                                                                   INÍCIO 3ª TEMPORADA

"Minha avó certa vez me disse que na hora da morte nós refletimos sobre a vida  e enquanto vivos nós refletimos sobre a morte. Não importava porque ela falava aquilo com tanta convicção ou perguntar se ela já experimentou o gosto indefinível da partida definitiva. O problema é que... quando sinto que estou perto da morte - ao invés do que ela disse sobre uma luz ir se apagando aos poucos - eu sinto que uma luz irradia de meu corpo e se materializa diante de mim, como algo vivo e que está prestes a me consumir. E, agora, eu me pergunto: Como lidar com uma força que reside em seu interior - incontrolável, excitante e intensa - que parece pouco à pouco sugar toda a sua essência e convertê-la em algo que você sabe que será incapaz de consertar?" - trecho do Diário de Rosie Campbell; Página 92.

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Nota do capítulo: Partes em itálico representam flashbacks ou menções específicas.


CAPÍTULO 25: O QUE VOCÊ FEZ NO VERÃO PASSADO?

O espaço parecia ser um imenso vácuo infinito. Aquele jovem corpo feminino pairando no que se sentia ser o universo em sua forma mais crua.

Rosie estava posicionada com os braços estendidos para os lados e as pernas unidas... como uma cruz humana. Seus olhos foram se abrindo lentamente, as pálpebras pesadas... como se algo estivesse impedindo-as de fazer com que a visão se deparasse com o que as deixava daquela forma.

Estranhamente, não sentiu dor ao vislumbrar, com os olhos azuis totalmente abertos, aquela colossal e poderosa centelha de luz que se fazia presente como um ser majestoso e imponente. Uma luz alaranjada e vigorosa.

A boca foi sendo aberta junto com o arregalar dos olhos... criando-se uma genuína reação de espanto absoluto. "Mas... o que é isso?!", se perguntou ela em pensamentos.

"Isso... é o outro lado?", pensou ela, encarando o elemento magnífico que produzia aquela forte luminosidade. "Estou caindo... caindo rumo à morte!"

À medida que ia declinando naquele espaço vazio, a imensa bola de fogo ia se distanciando. Ergueu um dos braços e o estendeu para frente, em uma ingênua e vã tentativa de querer "agarrar" aquele astro luminoso e pulsante como a força arrasadora de um vulcão.

De repente, vira algo passar. Como um vulto sombrio ocultando a densa esfera luz.

Mas este ficara permanente. Em frações de segundo, a bola flamejante fora tomada por uma camada de breu completo... deixando apenas alguns filetes de luz ao redor... tal ocmo um eclipse solar. Sentiu seu corpo cair vagarosamente... depois um pouco mais rápido.

E, rapidamente, a queda foi mais brusca... a estrela obscurecida se tornando longínqua a toda a velocidade... até não se ver mais.

Em seguida, escuridão completa.

Rosie despertara subitamente com um arquejo seguido de um rápido sobressalto, fazendo-a ficar sentada... no que parecia ser uma cama dura e nada confortável como a que pertencia ao seu quarto.

Ofegava enquanto os sentidos voltavam à tona. Primeiro sua visão foi clareando, seus olhos aflitos começaram a percorrer o lugar à sua volta. Sentia um sabor amargo em sua boca. Ouvia os ruídos intermitentes de equipamentos hospitalares à sua esquerda. Tateava o colchão de péssima qualidade no qual estava sentada e o cobertor de tecido branco e fino. Um suor gélido descia pela sua testa até as bochechas. Seus belos, lisos e ondulados cabelos pretos estavam molhados e oleosos.

"Foi apenas... um pesadelo!?".

Tocou várias vezes o seu corpo como que querendo se certificar de que realmente havia acordado. "Estou em um quarto de hospital!? Como vim parar aqui?".

O lugar era frio e exalava um odor nada reconhecível, mas que de fato era incômodo. Uma janela à direita de Rosie deixava atravessar fachos de luz solar que denotavam ser das primeiras horas da manhã. Rosie virou o rosto assim que refletiu sobre o estranho sonho casando com a imagem dos fachos na janela. "Aquela luz... sinto que... que deveria alcança-la.".

O barulho de um girar da maçaneta da porta a fez desvencilhar-se de seus devaneios, fazendo-a erguer os olhos diretamente para frente. Uma gentil figura entrava com ar calmo... pelo menos até ver o que a esperava à diante. Era uma jovem enfermeira - com o famoso chapéu com a cruz vermelha -, cujo penteado esbanjava certa elegância para seus cabelos castanhos e seu batom vermelho e o rosto fino embranquecido. Levara um susto assim que viu Rosie acordada, pondo a mão no coração. Logo sua expressão surpresa foi se alterando para uma de alívio com um leve sorriso e um olhar suave.

- Oh! Deus seja louvado! Finalmente acordou! - comemorou ela, se aproximando da cama com entusiasmo e um sorriso mais aberto.

Rosie, por outro lado, a fitou com estranheza.

- Não estou entendendo. Como vim parar aqui?

A enfermeira deu um suspiro de seriedade enquanto se postava ao lado da cama. Pegou uma cadeira e sentou-se.

- Há muitas coisas de que realmente precisa saber. - destacou ela, o tom tranquilo.

- Ótimo. - disse Rosie, assentindo com relutância. - Que tal começar pelo mistério de eu ter sido levada pra cá?

- Você esteve em coma por um bom tempo. - disparou ela, sucinta. - Diria que... uns dois anos.

Rosie franziu o cenho, demonstrando desorientação. Virou o rosto para a parede próxima à janela e viu um calendário. Cobriu a boca, estupefata.

"Março... de 1941!?".

Voltou-se para a enfermeira com urgência, o olhar desesperado.

- Aposto que quer saber o motivo de eu ter acordado assim tão de repente, certo?

A profissional apenas assentiu, o semblante igualmente sério.

Rosie se empertigou um pouco para encontrar um modo menos cansativo de discorrer o que vira.

- Eu... eu tive um sonho. - começou ela. - Na realidade, foi um pesadelo. Não sei direito, só sei que me pareceu tão real... que quando acordei eu não tinha certeza se estava ainda sonhando ou se tivesse despertado. Eu estava vestindo as mesmas roupas que usei nas Ruínas Cinzas e me sentia como se estivesse no vazio total. Além disso, eu estava caindo devagar... e quando abri os olhos vi uma enorme bola de fogo na minha frente, foi assustador. - ela fez uma pausa, engolindo a saliva e deixando uma lágrima brotar. - Depois eu caí mais rápido... mais rápido... até que aquele sol praticamente se apagou, como se uma sombra tivesse engolido ele.

- Um eclipse? - arriscou a enfermeira, entretida com o relato.

Rosie assentira, confirmando.

- Sim, exatamente. Após isso não vi mais nada, foi como se eu estivesse caindo em um abismo sem fim. E aí acordei. - finalizou ela.

- Bem, Rosie...

- Espera! - interrompeu ela, o tom de desconfiança. - Sei do que me lembro antes de ter vindo para cá: Eu estava nas Ruínas Cinzas correndo contra o tempo junto com meus amigos para deter uma ameaça para o mundo e acabei sofrendo um acidente quando fui levantada do ar por um deus lunar com poderes inimagináveis e fui jogada ao chão junto com vários escombros de mármore, ficando soterrada e desmaiada. Sei que parece loucura, mas é verdade, eu juro. - ela fez uma pausa, olhando incisivamente para a enfermeira. - Se entrei em coma imediatamente após a queda... então como você sabe meu nome?

A mulher adquiriu uma postura de insegurança nítida, - piscadelas rápidas, olhares de relance para os lados e face meio pálida - mas fez seu jogo para recompor a calma com a qual entrou na sala.

- Bem, enquanto nossa equipe conduzia você até ao avião... você, de repente, acabou despertando de modo súbito e...

- Eu acordei? - perguntou Rosie, alarmada.

- Sim. - respondeu a mulher, notando com apreensão a curiosidade da jovem. - E por conta disso nós acabamos sabendo de seu nome. Você não parava de repetir aos gritos: "Pra onde você levou Charlie, seu maldito? Vou destruir você ou não me chamo Rosie Campbell.", além de que se debatia como se estivesse convulsionando, o que de imediato nos preocupou. Então aplicamos um sedativo em você... e daí em diante você não acordou mais, o coma havia alcançado seu estado definitivo.

Rosie ficara alguns minutos pensando a respeito daquela situação ligeiramente desconfortante. Tentou vasculhar nos confins de sua mente algum resquício daquele evento, mas não obteve nada. Dera um voto de esperança a si mesma para que alguma hora pudesse se lembrar aos poucos, como as peças de um quebra-cabeça se montando. Tornou a olhar para a enfermeira, sem diminuir o tom intrigado.

- Mas como eu fui encontrada? Aquele lugar é um completo deserto! - sua voz adquirira certa rispidez.

- Está enganada. - disse a mulher, com um sorriso enigmático. - Existe um vilarejo naquelas proximidades e um dos habitantes havia cruzado a fronteira daqueles morros com a parte mais ampla do deserto. Ele nos contactou e, a julgar pela urgência do pedido de socorro, providenciamos aviões com equipamentos médicos de propriedade deste hospital.

- E se estive mesmo em coma... de que forma fui alimentada? Me sinto tão... bem. - indagou Rosie, semi-cerrando os olhos.

- Você, obviamente, me parece bem nutrida, o que é animador. - disse a mulher, analisando o estado físico da jovem minuciosamente. - E isto graças a um soro fisiológico ideal para tratar a desnutrição inserido por tubos intravenosos que foram retirados ontem.

"Achei que fosse com doses cavalares de sedativos.", pensou Rosie, ainda puramente desconfiada. "O que está havendo aqui, afinal? Alguma coisa com certeza está muito errada.".

Ela pusera suas pernas para fora da cama, demonstrando querer se levantar.

- Muito bem, eu agradeço pelo apoio durante estes dois anos que passei como um urso hibernando. - disse ela, calçando as pantufas brancas colocadas no chão. - Mas agora eu preciso pedir, encarecidamente, que me leve até a saída. Isto é, claro, depois de pegarmos minhas roupas.

- Como quiser. - disse a enfermeira se levantando da cadeira e dirigindo-se à porta. - Mas antes preciso que veja alguém que quer muito conhece-la. - afirmou ela, lançando um sorriso aberto para Rosie ao abrir a porta para a mesma.

- Ah é? - indagou a jovem, saindo primeiro, com um sorriso leve e sobrancelhas franzidas.

As duas caminharam pelo extenso corredor com paredes metade branca e metade marrom com pequenos retângulos. Rosie sentia o peso do silêncio mórbido do local enquanto esquadrinhava com os olhos o corredor iluminado por lâmpadas fluorescentes com insetos de grande porte voando em torno delas e seus zumbidos quase inaudíveis. Reparou na sujeira nas paredes à medida que avançavam. Parecia que haviam dado pinceladas de tinta preta de modo baderneiro. "Que péssimo gosto para decoração.", pensou ela reparando com desconforto aqueles detalhes.

- Quem essa pessoa, afinal? - perguntou ela, caminhando por trás da enfermeira.

- É um dos nossos médicos mais célebres. - afirmou ela, com orgulho. - Dr. Henry McGrant.

Calada, Rosie pareceu pouco interessada... mas não menos desconfiada. "Por que eu deveria conhecer um médico específico daqui? Será que... ele acompanhou meu caso durante os dois anos?".

- Por que faz tanto frio aqui? - perguntou ela, aquecendo seus braços.

- Os dutos de ventilação parecem estar com problemas. Mas ultimamente não tem estado tão quente lá fora. - disse ela. - Então, dizendo isto significa que o calor do seu sonho foi, em parte, agradável, certo? - olhou para a paciente por cima do ombro, em uma clara intenção de descontrair o clima.

Rosie dera uma risada de um jeito tão forçado quanto o que achara da suposta piada. "Depois de tudo o que contei, ela ainda chama aquele pesadelo de agradável!? Isso aqui só pode ser outro sonho!".

Avançaram mais alguns metros chegando, por fim, à metade do corredor. Os sons dos passos da enfermeira Liv eram ecoantes devido aos saltos de seus sapatos. Rosie fez suas atenções ganharem alerta extra.

Passaram por uma placa próxima ao teto.

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                                                                 PSIQUIATRIA 
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Assim que vira a tal palavra, Rosie, estranhamente, sentiu um arrepio instantâneo percorrer todo o seu corpo continuamente. A flor do desespero desabrochara novamente.

- Psiquiatria!? Eu achei que estivesse me levando para conhecer um médico! - disse ela, ficando lado à lado com Liv.

- É exatamente o que estou fazendo. - disse ela, fazendo pouco caso da aflição da jovem. - Ele é um exímio psiquiatra deste hospital. Vai saber como ajuda-la.

- O quê!? Mas estou completamente sã! - jurou ela, a fala rápida. - Você mentiu pra mim descaradamente! Queria me surpreender? Ótimo, você conseguiu!

- O Dr. Henry apenas vai fazer um exame para ver se há alguma possibilidade de um distúrbio psíquico ser desencadeado. - garantiu ela, com toda a tranquilidade.

- Eu não acredito nisso! - retrucou Rosie, a vontade de sair correndo pelo lado oposto pulsando dentro de si. - Como paciente, eu tenho direito de recusar. Exijo sair daqui agora mesmo!

- Para sua informação, menina, você não exige nada aqui. - afirmou Liv, assumindo um tom decididamente severo. - É necessário que o Dr. Henry avalie se você possui as condições mentais ideias para que eu possa lhe dar alta.

A informação fizera a jovem estremecer de ansiedade. Os passos de Liv tornaram-se mais apressados.

- Isso não pode estar acontecendo! - reclamou Rosie, enraivecida, também adquirindo a mesma velocidade dos passos da mulher. - Só pode ser um engano! Olha, eu posso ter delirado naquela hora, mas não significa que eu esteja insana! O fato de eu estar aqui, falando com você normalmente, já prova que isso é desnecessário!

Contudo, Liv permaneceu irredutível perante aquele argumento, sem nem se dar ao trabalho de mover a cabeça para vislumbrar a expressão de pura apreensão da jovem. Uma pausa pesarosa quase fizera Rosie perder as estribeiras e, talvez, iniciar uma choradeira sem fim em uma súplica dramática. "Isso aqui é mesmo um hospital? Será possível que Abamanu tenha a ver com isso?"

- Já estamos chegando. - disse Liv, pegando-a pelo braço com uma força bruta surpreendente.

A porta do consultório do Dr. Henry McGrant estava a poucos metros dali, no fim do extenso corredor sujo. Rosie se debateu, tentando se desprender daquela mão esmagadora que apertava seu braço com violência. Seus pés logo começaram a praticamente deslizar no chão como parte de uma tentativa desesperada de se libertar e sair correndo dali sem olhar para trás.

- Me larga! - bradou ela, relanceando com os apavorados olhos a porta no fim do corredor. - Socorro! Socorro! Socorro! - gritava ela em um tom estridente como se quisesse que os deuses ouvissem seu pedido de ajuda.

Liv a puxou mais forte ao mesmo tempo em que acelerava as passadas largas. Definitivamente, aquela mulher possuía uma força digna de um levantador de toneladas de peso ou boxeador profissional para um corpo tão moderadamente magro/esbelto de uns 52 quilos.

Por fim, haviam chegado diante à porta. Liv abrira-a com um rápido empurrão e largando Rosie com certa violência dentro da sala. A jovem quase tropeçara ao ser soltada como um animal sendo mal-tratado. A porta se fechou com um baque seco ecoando no silêncio do recinto.

McGrant estava diante de sua mais nova paciente, encostado em uma cama com um colchão fino. Era um homem de meia-idade, vestindo o característico jaleco branco e uma camisa azul listrada por baixo. Tinha cabelos grisalhos, uma barba por fazer e possuía uma certa calvície, além de algumas poucas rugas pela face. Rosie encarou por vários segundos o rosto quadrado e robusto do psiquiatra, cuja autoridade que emanava soava quase impenetrável. Os olhos frios do médico eram de um cinza intimidador.

Recuando alguns passos, Rosie olhou de esguelha para uma pequena mesa de objetos cortantes logo a sua esquerda, focando sua atenção em uma espécie de perfurador metálico.

Henry assumiu uma postura falsamente condescendente e lançou um sorriso generoso para Rosie.

- Sei que inúmeras perguntas estão martelando sua mente nesse exato momento. - sua voz era grave. - Está tudo bem, Rosie. Farei com que isso pare.

- Me diga o que está havendo! - pediu Rosie, a voz trêmula, aos poucos se aproximando da mesa.

- Fico deveras feliz que tenha acordado. - disse ele, aproximando-se dela com calma. - E não poderia ser em uma hora mais apropriada.

- O que quer dizer?

- Que você renasceu... para abraçar seu destino. - ele parou, por fim, logo virando para uma mesa pequena com uma caixa branca de primeiros socorros. - Você me parece mais esperta do que imaginava, e, devo confessar, isto é maravilhoso e excitante. - seu tom era soturno de um jeito único.

Aproveitando a deixa, Rosie rapidamente pegara o mini-perfurador de metal com a mão esquerda e o escondera atrás de si segurando-o firmemente, enquanto Henry abria a caixa e preparava algo suspeito.

- O que pretende fazer comigo? - perguntou ela, encarando-o.

Mcgrant não respondera. Tirou de dentro da caixa uma seringa com agulha e um pequeno tubo de vidro com um diminuto botão em uma extremidade e na outra um ínfimo "bico" por onde passaria o que estava dentro e chegaria à seringa. O cilindro vitrificado continha um estranho conteúdo: Um líquido negro e espesso. O pôs abaixo da seringa. Apertando o botão, a amostra subiu à seringa até enche-la por completo.

- Não se preocupe, Rosie. Vai terminar antes que perceba. - garantiu ele, admirando a seringa por alguns instantes... e deixando seus olhos ganharem uma tonalidade de preto vivo com uma única piscada. Sorriu satisfatoriamente, logo virando-se para Rosie.

O total negrume assustador de seus olhos sumiu velozmente e ele voltara a sua atuação - que àquela altura já não parecia tão convincente quanto o planejado.

Rosie engoliu em seco ao ver a seringa com a agulha ameaçadora. A mão que segurava o perfurador tremia, mas ela se mostrava resistente na medida do possível, mantendo os olhos desconfiados fixos no psiquiatra.

- Está pronta? - perguntou ele com um sorriso presunçoso, balançando a seringa de leve.

- Eu exijo saber onde estão meus amigos. Aqui neste hospital?

- Garanto a você que se encontram em total segurança. - disse ele chegando mais perto, a agulha da seringa reluzindo à luz solar que atravessava a janela à direita de Rosie. - Mas não aqui.

- O que é essa coisa? - indagou Rosie, fazendo uma careta ao olhar para o líquido preto com desconforto. - Acha mesmo que vou deixar você injetar isso em mim?

Os passos de McGrant ficaram mais sorrateiros.

- Você não tem escolha. - salientou ele com um sorriso de canto de boca.

- Não preciso de escolhas... e sim de respostas! - esbravejou ela, impaciente. Assim que ele estivesse a poucos metros, jurou a si mesma que usaria o perfurador com toda a força e coragem. "Vamos lá, Rosie. Arranque informações.... antes que ele enfie essa agulha no seu braço!".

- As respostas - dizia Henry - encontrará assim que for aprimorada.

- Aprimorada!? Com isso aí!? - Rosie suava constantemente. - Eu quero saber: Quem está por trás disso? Quem é a mente maligna por trás dessa loucura?

McGrant parara abruptamente, sem desviar os olhos dela, a seringa ainda erguida em sua mão esquerda. Fechou a cara em austeridade. Já não se encontrava mais tempo para enrolar mais do que o necessário. O planejado havia sido claro: Conduzir Rosie, mantendo-a convencida de que realmente estava sendo protegida, até o consultório do Dr. Henry McGrant para que, enfim, o mesmo pudesse revelar-lhe a verdade e encurrala-la em uma armadilha, sem espaço para rodeios ou enrolações.

Repentinamente, os olhos do médico foram completamente tomados por um preto vivo e aterrador.

- Todos saúdam à Abamanu. - dissera ele com firmeza na voz.

Ao ver a escuridão tomar conta daqueles olhos, Rosie sentiu-se acometida por um embrulho profundo no estômago seguido de uma exaustão aguda.

- Ah cacete. - sussurrou ela para si mesma.

Sem esperar nem mais um segundo, a jovem exibira o mini-perfurador e, com um movimento veloz, o cravara diretamente no olho direito de Henry. O médico lançou um urro de dor animalesco inclinando a cabeça para trás e se afastando de Rosie.

A jovem chutou-o no tórax, fazendo com que caísse alguns metros próximo à sua mesa de trabalho, derrubando alguns objetos e papéis. Tomou-lhe a seringa e retirou a agulha com cautela, largando-a no chão. Guardou a amostra no bolso da camisola branca que vestia e se dirigiu à porta. Agarrando a maçaneta e sacudindo-a, logo viu que estava trancada. "Merda!". Henry veio por cima dela com brutalidade. Antes que pudesse ser golpeada, Rosie se abaixara e correu para o outro lado. McGrant estava armado com uma barra de ferro pontiaguda que havia quebrado uma pequena parte da parede.

Correu até onde Rosie estava, o olho direito gorgolejando o mesmo líquido negro e espesso que ele inserira na seringa. A jovem chutou uma cadeira fazendo-o tropeçar fortemente em seguida.

Sabendo que ele não demoraria a se levantar, ela idealizara uma ação que necessitava imprescindivelmente de rapidez e precisão. Pegara a barra de ferro enquanto Henry partia ao meio a cadeira de madeira fortificada com uma força extrema. A jovem correu em direção à janela, tomando certa distância ao quebrar todo o vidro da mesma com o ferro.

McGrant tentou uma nova investida, estendendo os braços para agarra-la, mas lhe era tarde.

Antes que pulasse a janela, Rosie golpeara Henry no rosto com a barra de ferro em um ataque violento, o sangue negro espirrando no ar. Largando a arma improvisada, tomou cuidado com os estilhaços de vidro e conseguira pular com segurança. Se levantando, Henry rangeu os dentes e soltou grunhidos de raiva ao correr ate à janela, sua boca sangrando o líquido preto aos jorros. Enxergou Rosie ziguezaguear desesperadamente pelos jardins, seus cabelos pretos cintilando com a luz do sol da manhã. Sem perder tempo, sacou um revólver de seu jaleco e disparou com gosto, mirando o máximo que podia com apenas um olho à disposição. Os sete tiros acertaram diversas plantas e roseiras espalhadas pelo espaço. Pulara a janela em um movimento rápido e bem executado. Sua corrida no encalço de Rosie foi desenfreada a ponto de não sentir nenhum indício de cansaço.

                                                                                        ***

Enquanto a perseguição frenética ocorria, um vulto acompanhava os movimentos de Rosie atentamente percorrendo as plantas mais altas e densas dos jardins. Irrompia por entre as samambaias e grandes arbustos, esperando alcança-la o mais rápido possível.

Entreviu outra figura a uma certa distância por entre as folhagens, vestindo um jaleco branco e segurando o que parecia ser um revólver preto de grosso calibre.

Passou a correr de modo que possibilitasse sua chegada até Rosie antes do furioso perseguidor.

                                                                                        ***

Sabiamente escolhendo as médias árvores plantadas poucos centímetros uma perto da outra, cujas folhagens eram de um vivo verde que transmitia certa tranquilidade. Esgueirando-se por entre os troncos, Rosie enfurnava-se em um espaço praticamente fechado, logo temendo encontrar um suposto beco sem saída. Achou uma parte íngreme do solo gramado e foi descendo com cautela, até, por fim, se esconder em uma das árvores, encostada no tronco, ofegando suada. "Será que o despistei?", se perguntou ela, olhando com precaução para trás da árvore, visualizando o caminho por onde passou.

Minutos antes de cessar a corrida, teve a impressão de ter ouvido um grito abafado e rápido a uma certa distância. Tentou afastar o pensamento de que ele estaria à espreita, sorrateiramente se aproximando para pega-la desprevenida.

No entanto, seus nervos não tornaram-se tão calmos quanto ela desejava. Esbugalhou os olhos assim que sentiu um fria mão tocar-lhe o ombro. Seu sangue gelou e ela petrificou, hesitante em querer olhar para à sua direita. "Eu fui pega!".

- Rosie... - sussurrou uma voz ofegante... e extremamente conhecida por ela. - Está... está tudo bem. Sou eu.

"Mas... essa voz...", pensou ela, enquanto ia virando o rosto lentamente. "Só pode ser brincadeira!".

O inconfundível tom firme lhe causou um estranha sensação. Não sabia dizer se era alívio ou angústia. Mas sabia que, inegavelmente, estava salva.

Lágrimas surgiam nos olhos aflitos da jovem ao ser ver diante daquela figura alta e que transparecia uma bravura sem igual. O sobretudo de couro marrom estava praticamente em frangalhos: sujo, rasgado em algumas partes e velho. Empunhava um facão com dentes e lâmina curvada na qual pingava a gosma preta e espessa.

Hector a fitava radiante, como se houvesse encontrado um tesouro milenar. Forçou um sorriso e quis abraça-la por vários minutos. Por outro lado, uma tristeza maçante assaltou Rosie quando ela o analisava da cabeça aos pés, atônita pelo seu estado deprimente apesar da coragem e instinto de proteção exalantes do caçador. Trazida junto à angústia, uma dor de cabeça latejante fizera Rosie produzir gemidos quase inaudíveis. Foi como se uma sobrecarga ocorresse de modo desenfreado, um turbilhão de dúvidas se criando em sua cabeça tal como nuvens de tempestade se unificando, prontas para trovejar e relampejar incessantemente.

Não conseguiu tirar os olhos dele por vários segundos. "O que ele faz aqui?". Desviou o olhar para a arma branca que o caçador portava, o líquido fervente como piche sem parar de gotejar da ponta.

- Eu não entendo... - dizia ela, a voz embargada de emoção. - Você... assim como eu e os outros... fomos todos jogados ao chão como se fôssemos parte de uma pilha de lixo e ficamos soterrados e desacordados. - ela respirou fundo, continuando a fita-lo. - Qual foi o seu método de sobrevivência, Hector?

O caçador suspirara, como se não soubesse bem como responder. De repente, se viu virando o rosto para à sua esquerda antes que pudesse falar. Seu semblante tornou-se seriamente austero, denotando urgência. Limpou rapidamente a lâmina da faca com a barra do sobretudo e a guardou em um dos bolsos internos. Virando-se para Rosie, o caçador exibia uma expressão decidida.

- Não há tempo para perguntas. - disse ele, olhando enviesadamente para o lado. - Estão vindo...

De súbito, iniciou uma caminhada a passos largos e rápidos pela floresta, confiante de que Rosie fosse acompanha-lo sem questionar.

- Espera! Como você sabe? - perguntou ela, começando a segui-lo e tentando adquirir o mesmo ritmo.

- Eu posso sentir. - disse ele, fazendo mistério. - Além disso, consegui aniquilar um deles. Se ficarmos parados, mesmo que por poucos minutos, corremos o risco de sermos encontrados. É bom que não fale alto demais também. - orientou ele, quase que começando a correr.

- O acidente fez você ganhar audição sobre-humana? - indagou ela, soando irônica.

"Na verdade, isto foi em outro acidente. Arquitetado por ninguém menos que sua avó!", pensou ele, rememorando a figura de Eleonor como um flash de luz em sua mente.

- Melhor deixar as perguntas para quando chegarmos lá. - disse ele. - E não pergunte "Lá aonde?". Confie em mim. Venha, corra. - finalmente correra por definitivo.

Cedendo ao pedido e evidentemente sem escolhas, Rosie tornou a correr atrás daquele que prometeu protege-la como se houvesse feito uma promessa ao desafortunado Richard Campbell. Tentava afastar os pensamentos no Dr. Henry McGrant com os olhos inteiramente negros em posse do recipiente com o líquido misterioso. "Todos saúdam à Abamanu.", dissera-lhe ele. "Então é esse o modo de escravidão que Abamanu encontrou para submeter a humanidade ao seu domínio completo?", pensou ela, deixando a questão pairar no ar durante todo o percurso.

Irromperam por entre galhos e um amontoado de folhagens, correndo em disparada em direção a um robusto carro preto que cintilava à luz do sol. Hector derrapou próximo ao automóvel, ofegando e apoiando-se na porta do motorista enquanto a abria. Rosie, instintivamente, abrira a porta do carona e fechara com força. Hector encarara aquele movimento um tanto surpreso, a olhando com certa estranheza.

- O que está esperando? Anda logo! - disse ela, apressada, o tom ansioso.

- O acidente fez você abrir os olhos quanto as pessoas que realmente querem o seu bem? - perguntou ele, entrando no carro.

- Por que diz isso? - indagou ela, desconfiada.

- Achei que fosse hesitar. - retrucou ele, girando a chave ao ligar o motor.

- E na verdade eu ia sim. - respondeu ela, ríspida. - Se não fosse por você ter dito que estávamos sendo procurados. Logo, você é a única pessoa que está disponível pra salvar minha vida. Por mais que eu quisesse que isso não fosse verdade.

Dando, por fim, a partida, Hector a olhou discretamente, como se quisesse extrair dos pensamentos da jovem alguma fagulha de confiança ou otimismo. Para sua infelicidade, a maldição que carregava dentro de si naquele instante não lhe conferia tal dom. Na verdade, as habilidades que definiam seu novo "eu" eram exatamente o oposto do qual ele desejava. Naquele momento, passou a sentir certa saudade de sua memória eidética, a qual lhe parecia desvalorizada por si mesmo e agora aparentava estar a anos-luz de distância, como se as consequências do ataque que sofrera na casa de Rosie apagasse todos os traços que compunham sua essência, aquilo que o tornava único.

O carro acelerou pela estrada, cantando pneus e deixando alguns rastros no caminho. O sol forte da manhã fazia a lataria da máquina brilhar estonteantemente.

                                                                                         ***

No interior do automóvel, Rosie se limitou a ficar de braços cruzados, fitando a vegetação ao lado com uma expressão insegura. Mordeu os lábios, sentindo uma enorme vontade de expor todas as suas dúvidas e ser recompensada com respostas devidamente convincentes. Virou-se para Hector abruptamente, encarando-o com fervor.

- Como você sabia que eu estava internada naquele hospital? - perguntou ela, desobedecendo o combinado.

- Rosie, por favor. - disse Hector, demonstrando desconforto e acelerando cada vez mais. - Como eu disse: Melhor deixarmos as perguntas para quando chegarmos. - fez uma pausa, olhando para ela de relance. - Não se preocupe, estamos indo o mais longe possível. Um lugar seguro.

- Ao menos me diga onde conseguiu esse carro! - insistiu ela, elevando o tom.

- Tudo bem. - disse ele, suspirando. - Eu roubei.

"Ah, que ótimo. Não fico surpresa.", pensou Rosie, olhando-o e balançando a cabeça, decepcionada.

- Aquele médico... - começou Hector -... bem como todos os outros que trabalham naquele hospital, estão todos infectados. Mais uma vez Abamanu provou sua engenhosidade. Estamos nos deslocando para bem longe da zona de perigo. O mais espantoso foi saber que eles possuem olhos e ouvidos em todos os lugares.

- Por que eu sou o alvo. - arriscou Rosie, inquieta.

- Exato. - confirmou Hector, assentindo levemente, sem desviar os olhos da estrada. - Aqueles ali tiveram sorte de encontra-la e confina-la no hospital. Mas eu compreendo. Não havia chance de fugir, e presumo que você foi levada ainda inconsciente.

- Na verdade... - dizia Rosie, se detendo por alguns segundos. - Eu acabei acordando enquanto me levavam. Foi como se eu tivesse alucinada... com uma visão.

- Que tipo de visão? - perguntou Hector, curioso.

- Não sei por onde começar. Foi tudo tão rápido. E agora está nebuloso na minha mente. - disse ela, com uma expressão de desânimo. - Segundo a enfermeira que passou os últimos dois anos cuidando de mim... eu mencionei o Charlie.

Hector fizera uma curva no asfalto, a afirmação de Rosie quase o fazendo perder a direção. Se concentrando novamente, olhou para ela estupefato.

- Você viu Charlie em algum momento nessa alucinação?

- Não exatamente. - respondeu Rosie, semi-cerrando os olhos, pensativa. - A imagem de Abamanu o levando embora ficou gravada na minha memória... e naquele delírio eu pensei que ainda estava flutuando no ar, sem poder me mover. Eu só conseguia pensar no que ele faria com Charlie e eu jurei que iria destruí-lo. Depois eu apaguei de novo... e fiquei em coma.

Vários minutos de silêncio se passaram.

De fato, Rosie esperava alguma reação por parte do caçador que caracterizasse a opinião do mesmo acerca de toda aquela confusão que ocorria nos devaneios da jovem como redemoinhos violentos.

- O que foi? - perguntou ela, voltando sua visão para a paisagem arborizada ao lado. - É estranho vê-lo calado depois do que eu disse. Perdi dois anos da minha vida deitada em uma cama de hospital. Tudo por causa da maldita ganância de um deus semi-decadente. - desabafou, apertando a camisola com as mãos trêmulas indicando sua raiva pelo tempo irrecuperável.

- Honestamente, foi uma das coisas que pensei... - disse Hector, suavizando a expressão. - ... enquanto eu procurava por você durante este tempo.

Empertigando-se no banco, Rosie arregalara os olhos e voltara-se para ele, alarmada.

- Você me procurou por todo esse tempo... e considerou que eu estaria em coma?

- Não foi bem assim, na realidade. Aconteceram várias outras coisas no meio dessa minha busca irrefreável por você. Você estar em coma foi só uma das possibilidades que relevei. Considerei, com 74% de chance, que você estivesse consciente, mas mantida em cativeiro em algum compartimento secreto do hospital. - revelou ele.

Recostando-se do banco novamente, Rosie bufara ao fechar os olhos, em um estranho misto de exaustão e alívio. Em sua cabeça ainda martelavam questões pertinentes que mal se aguentavam se manterem abertas por tanto tempo. "Eu vou enlouquecer se não souber o que está acontecendo! Que merda, eu odeio ser a última a saber!".

- Não precisa ir tão rápido. - disse ela, preocupada com o limite de velocidade estabelecido para a estrada.

Hector exibira seu relógio de pulso - o mesmo que utilizara desde o início de sua jornada com Rosie - para conferi-lo.

- Já fazem precisamente dez minutos que saímos de lá. - disse ele. - Ainda estamos na zona de risco, então, a partir de agora, tenho que manter a velocidade constante. - ele fez uma pausa, avaliando-a brevemente. - Está se sentindo bem?

- Nunca me senti mais viva. - redarguiu ela, logo o estudando novamente. - O mesmo eu não posso dizer de você, não é?

Como que por reflexo, Hector relanceou os olhos para suas vestes em péssimo estado. Um suspiro de decepção foi tudo o que ele produzira para mostrar sua reação.

- Como eu disse: Aconteceram outras coisas, intercaladas com minha busca por você.

- Está parecendo um mendigo. - comentou ela, desconfortável. - Cairia bem uma tesoura passando nesse cabelo. Vai ter que me contar tudo. Como sobreviveu, por onde andou, quem encontrou e o que fez durante esses dois anos. Me prometa.

- Estou aqui para cumprir uma única promessa. - salientou ele, alterando o tom. - Acredito que seja óbvio para você.

- Então admite que não é forte o suficiente para prometer algo a ponto de guardar segredos? - disparou Rosie, sem dó, fitando-o com um olhar incisivo.

- Qual parte de "Melhor deixarmos as perguntas para quando chegarmos" você não entendeu? - indagou o caçador, seu tom soando rigoroso.

- Essa pergunta não tem nada a ver com a situação em que estamos. - rebateu ela, no mesmo nível.

- É por isso mesmo. Devemos nos focar nela, nesta crise em que nós estamos envolvidos. - ele fez uma pausa, se preparando para dizer algo importante. - O que você sabe, até agora, é que Abamanu, de fato, está operando sua influência aqui na Terra através de uma substância venenosa.

- Eles queriam injetar aquilo em mim. - disse Rosie, fazendo uma careta de nojo ao lembrar do líquido negro na seringa. - O psiquiatra disse que eu deveria abraçar meu verdadeiro destino.

- Sendo uma escrava de Abamanu, é claro. - afirmou Hector, com convicção.

- Uma escrava privilegiada. - disse Rosie, recordando-se do que o deus havia afirmado na última noite de que se lembrava.

Olhando-a como se estivesse ficado louca, Hector pareceu não entender o sentido da frase, como se não partilhasse das memórias daquela fatídica noite nas Ruínas Cinzas, no instante em que as esperanças voaram como poeira levada ao vento com a chegada de Abamanu.

- Do que está falando? - perguntou ele.

- Lembro que ele havia dito que queria me proteger de algo... - ela fizera uma pausa, detendo-se. - Que ele tinha um inimigo...

- Yuga. - murmurou Hector, interrompendo-a.

- Exato. - concordou ela, o tom animado por ter se lembrado do nome da divindade solar, oponente de Abamanu. - Sim, talvez faça sentido. Yuga, segundo Abamanu, me abençoou com uma energia de poder incalculável que reside dentro de mim, o que explica aqueles acessos de estresse que eu tive.

- Mas não se iluda tão facilmente, Rosie. - disse o caçador. - Temos muitos trabalhos a fazer. E tentar uma aliança com um dos dois certamente não é um deles. Principalmente com Abamanu.

O carro agora avançava para uma área montanhosa fazendo curvas a cada cinco minutos. Por um momento, Rosie pensara estar sendo conduzida até Kéup. No entanto, Hector negara, afirmando que o local onde outrora abrigava o QG da Legião estava densamente infectado pela tal substância ainda de origem desconhecida pela jovem. Logo percebeu se tratar de um lugar totalmente diferente e irreconhecível... mas, ainda que visto de longe, aparentando ser seguro.

                                                                                         ***

O exuberante jardim do hospital possuía um detalhe contrastante com todo o verde magnífico das plantas e as cores vivas das flores. No gramado jazia um corpo estraçalhado da cabeça aos pés. Ao que parecia, o último golpe teria sido no pescoço, tendo o assassino degolado sua vítima e deixando aberta uma profunda ferida por onde escorria um sangue de preto vivo, corroendo o solo até certo ponto com sua fervura acima da média.

Os olhos do Dr. McGrant estavam negros e abertos, tal como a boca meio torta, criando-se, assim, uma expressão de pânico. Uma poça do líquido negrejante rodeava seu corpo já exalando um odor fétido e pútrido. Pelo que Hector pudera constatar, o infectado naquele estado que morresse, seria vítima de um processo mais acelerado de decomposição, com pequenas diferenças em relação a humanos não-infectados. Médicos que trabalhavam no hospital naquele dia vasculhavam todo o jardim às pressas, à procura de Rosie, os olhos negros pulsando de fúria.

- Avancem até a floresta! - ordenou um deles, um cirurgião atraente e corpulento. Logo virou-se para Liv, que estava ao lado do cadáver do Dr. McGrant, com os olhos totalmente pretos e fuzilantes.

Ela se virou para ele, encolhida de arrependimento.

- Senhorita Medley, a sua situação agora torna-se um problema para todos nós. - disse ele, aproximando-se dela. - Violar o termo de conduta é um ato imperdoável! Lorde Abamanu,em poucas horas, ficará sabendo do que aconteceu e punirá a todos!

- Me desculpe! Tentei apressar demais as coisas, mas estava tudo nos conformes! - disse Liv, seu tom de desespero enquanto relanceava o corpo de Henry fumaçando um vapor quente. - Se aquele garota não fosse tão esperta, eu teria...

- Você teria de ser substituída! - vociferou o médico, colocando-se frente à frente com ela. - Além disso, a morte de Henry foi a prova da sua incompetência ao ter de seleciona-lo para a tarefa que teria sido minha!

- Sua!? - questionou ela, franzindo o cenho. - Você, assim como vários, não chegou nem perto de ser cotado! Se quer mesmo saber a verdade, para mim foi uma honra ter conduzido a predestinada até a sala do Dr. Henry, mesmo que isso resultasse numa possível desvinculação ou punição severa, não importava! Eu presumi que ela fosse acordar em pouco tempo e solicitei a ajuda do Dr. Henry para que administrasse o aprimoramento.

- Sem o consentimento do Lorde?! - esbravejou ele, cada vez mais colérico.

- Eu não tive escolha! - exclamou ela, dando dois passos desafiadores até o médico. - Os sinais vitais dela já estavam estáveis há pelo menos duas semanas e isso bastou para que eu o procurasse. Ontem verifiquei novamente e concluí uma melhora de 90% no quadro clínico. A catatonia já estava abandonando seu organismo em saltos impressionantes.

O cirurgião emudecera, avaliando a justificativa da enfermeira Liv e vendo se havia algum detalhe que favorecesse-a e a livrasse do imprevisível castigo pela violação do termo.

Com um suspiro, ele voltou a olha-la firmemente, os olhos pretos sibilantes.

- De qualquer forma, foi uma quebra de protocolo. Estamos acabados. - afirmou ele, voltando-se para o corpo ao seu lado. - Se vocês dois tivessem sido mais cautelosos e pacientes, nada disso teria acontecido. Quem o matou, obviamente a levou para uma área onde não existam fábricas.

Liv o fitou, insegura.

- O alerta já deve ter soado... - disse, em voz baixa. - Logo mais um dos soldados virá até aqui...

- E os culpados virão à tona! Ou seja, nós! - esbravejou ele, cortando a frase da moça. - Mas que na verdade foram a senhorita e o Dr. Henry! Não vai me surpreender eles não aceitarem nenhuma desculpa, já que o contrato afirma claramente: "A predestinada deve ser submetida ao aprimoramento após um período de 7 dias após seu despertar. Durante este tempo devendo ser mantida sob custódia dos selecionados, o aplicador e a testemunha".

Possesso de fúria, o cirurgião dera as costas à enfermeira e saíra andando a passos firmes e largos pelo jardim, na direção em que um dos grupos de médicos se encaminhou para procurar por Rosie.

- O que vai fazer? - perguntou Liv, se detendo antes de tentar segui-lo.

- Suspender a busca! Esteja pronta! - disse ele, irrompendo pelas samambaias altas e piscando os olhos deixando o preto sumir como mágica, mostrando seus verdadeiros olhos azuis claros que lhe davam certo ar de autoridade.

                                                                                           ***

A vários quilômetros dali, havia um recinto elegante, concebido para ser o local de reverências, saudações, ordens dadas e acatadas e boas notícias dos processos que consistiam no plano de dominação global arquitetado pelo proprietário. Naquele momento estava sendo palco de uma sequência de reclamações, cujo tom reverberava por todo o espaço.

A sala possuía um aspecto deslumbrante, com papéis de parede laranja, um teto alto forrado com concreto mas enfeitado por afrescos criados pelos próprios soldados - os quais retratavam os mais gloriosos eventos do reinado de Abamanu, o que incluía as diversas conquistas de povos, riquezas e tesouros, conflitos armados e até momentos da vida pessoal do deus: idas até confraternizações entre seus conterrâneos e irmãos de espécie, participações em júris no Conselho Divino e relacionamentos amorosos com quimeras que lhe atraíam por onde quer que passasse. O piso era de granito cinza e as lamparinas a óleo de luminosidade alaranjada proporcionavam à ambientação um tom de equilíbrio sublime.

Levantando-se de seu colossal trono de mármore adornado com "espinhos" e linhas sinuosas, Abamanu bufava enraivecido com a notícia que lhe foi dada sobre o local onde sua preferida estava confinada por dois anos em estado catatônico. Estava vestindo uma armadura prateada que lhe conferia uma postura austera para o robusto corpo de seu receptáculo.

- Levada por quem, afinal? - perguntou Abamanu, os olhos amarelos intimidadores.

- Ainda estamos analisando as suspeitas, majestade. - disse um soldado, ajoelhado à sua frente, mantendo a lança em pé. - Além disso, um dos miméticos foi encontrado morto no lado de fora, supostamente executado pelo salvador da predestinada.

O deus virara-se para um lado, pondo a mão no queixo e refletindo sobre quem seria o responsável. Após alguns instantes, sentiu um lampejo clarear suas deduções.

Virou-se de modo súbito para o soldado, os olhos esbugalhados. "Ele deveria estar cativo assim como os outros... Não pode ser verdade.".

- O senhor ficou silencioso de repente. Não tem nada a dizer sobre a situação? - indagou o soldado.

- Eu tenho uma suspeita, na verdade. - disse ele, voltando para seu trono e sentando-se. - Aquele caçador petulante. Ele conseguiu sobreviver à queda.

- E por que o senhor não ordenou traze-lo junto aos outros? - perguntou o soldado, erguendo os olhos amarelos para seu Lorde.

Abamanu dera uma risadinha presunçosa, como se houvesse escondido um detalhe importante.

- Ele deveria estar vivo para vir me enfrentar sozinho, depois que tentasse recolher informações sobre meu plano e as localizações dos cativeiros de seus aliados. Se assim fosse, eu lhe daria uma condição para que a sua amada Rosie fosse libertada. - ele inclinou-se para observar o soldado, esperando uma reação. - Algo que faria vocês torcerem os focinhos de tanto desconforto.

- E o que seria, senhor? - o soldado o fitou, sem a menor ideia do que esperar.

O Cavaleiro da Noite Eterna fizera alguns segundos de suspense propositalmente.

- Que se tornasse meu receptáculo provisório enquanto eu estivesse enfrentando meu algoz, Yuga. - disparou ele, sentindo um doce sabor de excitação, olhando para o soldado cheio de expectativa.

- Não acha esta ideia... um tanto equivocada, senhor? - perguntou o soldado, reprimindo sua reação de surpresa.

- É, à primeira vista não é o melhor dos planos. E funcionaria se ele não tivesse encontrado Rosie Campbell. Ao meu ver, ela acordou cedo demais.

- Senhor, não acha que seria um erro utilizar um receptáculo humano para batalhar contra seu inimigo? As consequências são óbvias, mas...

- Eu descartei esta ideia. - interrompeu Abamanu, falando depressa, cruzando os dedos das mãos abaixo do queixo formando um "triângulo". - Seria um plano sublimemente funcional. Mas eu faria isto por que sei o que Yuga quer... assim como ele também sabe muito bem o que quero. Ele vai tentar ser mais rápido.

O soldado agora parecia estar tremendo diante de uma possível investida que Yuga perpetraria, caso visualizasse o ousado plano de seu inimigo, tendo em vista o caráter notoriamente impulsivo do deus solar, o que denunciaria um ataque rápido, cuja intenção seria pegar o exército rival desprevenido e privando-os de qualquer chance de defesa, além da perigosa conduta da guarda baixa que poria fim a qualquer oportunidade de Abamanu em organizar uma ofensiva eficiente.

- Mas como meu próprio peão deste meu jogo arruinou todas as nossas chances, resta-me considerar que Yuga poderá agir secretamente. - especulou Abamanu, fechando os olhos em meditação.

O soldado, ainda exibindo sua insegurança, se levantou com pressa erigindo sua coluna em perfeita postura e tirando a lança com uma estranha ponta vermelha do chão.

- E quanto ao lugar onde a predestinada estava confinada? O que faremos com eles?

Após alguns minutos de puro silêncio, Abamanu fora trazido de volta à realidade apenas para proferir a ordem final do dia. Abriu lentamente os olhos, fixando-os no soldado, a expressão dura.

- Destrua-os. Leve mais alguns soldados com você, eles devem achar que apenas um de meu exército virá até lá. Derrubem o lugar assim que terminarem o serviço. - ordenou ele, o tom frio ecoando no recinto.

O subordinado virara as costas para seu soberano após assentir com reverência. No meio do caminho, estacou, ficando alguns segundos parado. Parecia ainda estar afogado em dúvidas.

- Sem misericórdia, senhor?

Sorrindo para si, o Lorde se deliciou com as revisitações mentais sobre sua última batalha contra Yuga, casando-a com o massacre que estava prestes a ocorrer nos arredores daquele hospital.

- Sim. - disse ele, as presas brancas destacando-se. - Sem misericórdia.

                                                                                              ***

A cerca de 7 metros abaixo, o segundo ponto subterrâneo abrigava uma série de masmorras pedregosas construídas durante o reemergir do império do Cavaleiro da Noite Eterna. O gotejar incessante vindo das pontiagudas estalactites era o único som audível, que ecoava profundamente.

Em uma das poucas celas iluminadas - todas elas pelas chamas de velas postas em castiças pequenos -, jazia uma figura abatida, sentada no chão úmido e sujo, com o corpo curvado para frente, os braços apoiados nos joelhos e a cabeça baixa denotando estar deprimido. À sua esquerda havia um prato de porcelana com farelos de comida sendo consumidos por um pequeno camundongo cinzento, que, àquela altura, parecia lhe ser a única companhia que surgira para preencher seu vazio naquela verdadeira cela de prisão no inferno.

A luz alaranjada das velas cintilava parte de seu corpo. "Depois que eu for usado... talvez eu vá estar condenado a passar o resto da minha vida aqui. Descartado. Jogado aos ratos... depois aos vermes quando meu corpo apodrecer em morte. Morte por fome... por sede... por medo. Ele vai me roubar aquilo que me tornou mais forte. A luta acabou. Eu os perdi... e agora estou sentenciado a perder mais anos de minha vida cooperando com o mal. Talvez seja minha última missão neste mundo... e vou cumpri-la com esmero, para que no terrível futuro que me espera eu possa me sentir menos arrependido.", pensava a alma desesperançosa.

Foi erguendo a cabeça devagar.

Os olhos de Charlie apresentavam um aspecto taciturnamente mórbido... como se já se sentisse morto há muito tempo.

                                                                                                ***

O sol do entardecer abrilhantava cada vez mais a lataria do carro roubado por Hector, estacionado próximo ao local onde seria o novo esconderijo da dupla. Localizada em uma pacata e silenciosa floresta no norte do país, havia uma casa relativamente grande, com uma estrutura suficiente para abrigar pouco menos de 30 pessoas. Se vista de cima a uma considerável altura, a residência poderia ser entendida como um "pontinho marrom" em um vasto espaço verdejante.

No interior do local, mais precisamente na cozinha, Hector, de braços cruzados e encostado numa parede com o semblante sério, observava Rosie devorar diversas tipos de frango assado que o caçador preparada horas antes, revelando que o mesmo estava deveras confiante no êxito do resgate. A fome voraz da garota parecia não ter controle. Em suas mãos, duas coxas sendo mordidas com gosto.

"Os sedativos especiais com certeza não foram suficientes para nutri-la. Ela me parece mais pálida, embora muito revigorada. Enfim, não há com o que se preocupar sobre isso, ela já provou estar pronta para enfrentar qualquer obstáculo.", pensou ele, considerando a importância que Rosie teria nas missões e de como a parceria renovada ajudaria a reacender a chama de uma amizade mais sólida.

Ao terminar a refeição, Rosie afastara os pratos da mesa para sentir-se mais à vontade, colocando os cotovelos sobre o móvel e juntando os dedos sob o queixo, tornando a observar o caçador incisivamente.

- Bem, agora é a parte em que finalmente você tira minhas dúvidas.

Hector se desencostara da parede e foi andando até ela.

- Está bem, Rosie. - disse ele, olhando vagamente para o chão. - Primeiramente, saiba que nosso país está envolvido em uma nova guerra.

- Espera aí... - murmurou ela, levantando-se com alarme. - Disse... guerra!? Do tipo conflitos bélicos e interesses políticos em jogo como no passado?

- Sim, infelizmente. - assentiu, esfregando os olhos. - No entanto, esse é o menor dos nossos problemas, é claro. Não vamos dar atenção ao que ocorre naqueles campos de batalha.

- E eu suspeitando que não estávamos em 1941. - afirmou Rosie, pensativa quanto ao problema.

O caçador franziu o cenho, perdido.

- Disse com tanta certeza que ficou dois anos em coma... Por que desconfiou disso?

Desviando o olhar para ele, Rosie lhe lançou um sorriso discreto.

- Em um mundo repleto de mentiras e depois de ter sido violentada por um deus... fica difícil distinguir o que é verdade ou ilusão. Honestamente, quando acordei ainda achava que estava dormindo e presa em um sonho. Nada parecia real. - baixou os olhos para a mesa, parecendo exausta.

Hector ficara alguns instantes avaliando-a. "Devo envolve-la nisso? Se eu deixa-la fugir livremente para recomeçar sua vida, ela não saberá nada do que me tornei. No entanto, vou estar sozinho na caçada e sinto que, mesmo com minhas novas habilidades, não vou ser capaz de lidar com isso sozinho... o apoio dela é crucial, e o Exército parece estar trabalhando isoladamente... Vamos Hector, decida de uma vez!".

- Olha aqui. - disse Rosie, abruptamente, erguendo os grandes olhos azuis para ele. - Nem pense em me deixar de fora dessa. Ouviu bem? - seu tom era categórico. - Nossos amigos podem ter sido levados. Alexia, Adam, Lester, Êmina... Charlie. - se viu com um pesar na voz. - E eu estou disposta a fazer qualquer coisa, me arriscar de corpo e alma, para salva-los.

O caçador chegou um pouco mais perto, pondo uma mão no ombro dela, condescendente.

- Sinto em dizer... mas eles realmente foram levados. - revelou Hector, o tom cada vez mais sério. - Vou lhe contar mais assim que terminar de tomar um banho.

- Você ou eu? - indagou ela, confusa. - Ou nós dois juntos? - assumira um tom brincalhão. - Pra ser sincera, você precisa de um banho mais do que eu.

O caçador sorrira fraca e discretamente para ela, com um suspiro.

- Você, Rosie. Além disso, eu trouxe suas roupas. Como eu fui o último a acordar, eu vi suas roupas largadas pelos escombros e sujas. Quando encontrei esta casa e a tomei como propriedade, guardei elas com cuidado, estão no primeiro quarto... o seu quarto.

- Ótimo. Me conte mais sobre ter sido o último a acordar... - disse ela, encaminhando-se para o banheiro. - Na situação em que estamos, com certeza não vai querer ou conseguir guardar segredos. - afirmou ela, com ar provocativo.

Hector resolveu não olha-la entrar no box do banheiro, tornando a se sentar na cadeira, pondo as duas mãos no rosto em sinal de cansaço. "Pelo visto, ela conseguiu ler minha mente.".

                                                                                           ***

Conferindo seu relógio, Hector expirara um ar aliviado, constatando que não se passou tanto tempo quanto ele pensava. Marcava 14:16. Restava tempo de sobra para fazer novas investigações... ao menos para provar à Rosie que o que iria revelar-lhe eram fatos, sendo que possuía provas concretas para fortalecer seus argumentos caso ela viesse a esboçar desconfiança. "Não exponha seu outro lado", aconselhou a si mesmo, embora temesse que haveria uma hora em que seus instintos menos racionais fossem acionados sem nenhum controle .

A estonteante figura de Rosie cruzava a soleira da entrada que dava para o corredor à direita onde se localizavam os quartos - os de hóspedes ficavam no andar de cima. As botas cor de vinho e o capuz com capa vermelhos eram os acessórios de maior destaque. Hector se levantara da cadeira, parecendo animado ao vê-la preparada.

- Bem, podemos começar a entrar em ação, agora que já está uniformizada. - disse ele, sorrindo.

- Engraçadinho. - retrucou ela com um olhar reprovativo, andando até a mesa.

Hector levantou uma sobrancelha, parecendo não ter entendido.

- Isso não foi uma piada.

- Bem, o que temos aqui? - desconversou Rosie, concentrando suas atenções no mapa da Inglaterra que fora colocado sobre a mesa.

- Um mapa fornecido pelos caçadores selecionados pelo Exército. - revelou Hector, colocando na outra extremidade da mesa, de frente para Rosie e analisando as localizações. - Nele estão localizadas as fábricas que Abamanu construiu para conseguir produzir a substância venenosa, é através desses pontos que ele dissemina esta praga.

- Espera. - disse Rosie, fazendo uma cara de desconforto. - Desde quando o Exército tem conhecimento da existência dos caçadores? Você tem trabalhado junto com aqueles caras fardados?

- Na verdade, o Colégio dos Caçadores é quem se permitiu a buscar a ajuda do Exército... depois que eu relatei as implicações da crise. - contou Hector, olhando para ela, firme. - Não sei se por medo, mas... acabei ajudando aos caçadores de aluguel semi-profissionais indiretamente, com instruções de uso de armas de fogo e cortantes, além de técnicas básicas, mas muito eficazes. Isso tudo por telefone e gravações, depois que me foi concedida a permissão do general Holt, que está engajado no controle de ameaças sobrenaturais e que fogem à compreensão humana. - fez uma pausa. - Para que isso fosse possível, eu me dispus a agir anonimamente para os caçadores que entrariam nos postos de batalha para desmanchar as fábricas.

Rosie pareceu não estar muito convencida e enxergava claramente as lacunas daquela história.

- Não entendo. Por que esconder sua identidade à pessoas que fazem o mesmo trabalho que você?

- Em parte, por incentivo do Exército. - afirmou Hector. - Eles prezam pelo anonimato quando o solicitador tem motivações convincentes. A revelação de que recebiam aulas de um caçador da Legião os fariam ficar pressionados demais... Acho que foi uma decisão correta. - disse ele, assentindo, baixando os olhos para o mapa.

- Afinal, quem administra o Colégio de Caçadores? Foi essa a pessoa que solicitou a ajuda do Exército?

Hector dera um suspiro pesado, como se não quisesse prolongar o assunto e irem direto ao ponto central da situação.

- Sim. Walter Vannoy, o homem que me ensinou tudo o que sei sobre caçar coisas malignas. - disse ele, parecendo rememorar uma breve lembrança do Mestre e idealizador da iniciativa. - Ele e o general Holt firmaram uma aliança perto do final de 1938, depois do meu alerta. Durante os dois últimos anos, ele coordenou várias operações de desmanche das fábricas de Abamanu, mas hoje quem detém esse posto é Edgar, um veterano no acampamento. Ele não chegou a entrar para a Legião por causa de problemas familiares e teve que voltar para sua terra natal. - apontou para vários pontos do mapa, nas áreas marcadas em vermelho com um "x". - Veja. São as fábricas desativadas. Edgar e um exército de 50 caçadores foram responsáveis por derrubarem mais de 25 delas. Pode parecer pequeno... mas é um largo passo, sem dúvidas.

- Então é delas que provém aquela água negra... - disse Rosie, pondo a mão no queixo, pensativa.

- Na verdade... - interrompeu Hector, com um sorriso misterioso, como se tivesse satisfeito por ela estar enganada. - O líquido negro é só uma das formas de disseminação. Nas fábricas eles utilizam uma suposta tecnologia de vaporização... o que logo sugere...

- Uma espécie de gás venenoso!? - arriscou Rosie, alarmada, cortando a frase do caçador. - É isso?

- Sim. - confirmou Hector, com um leve meneio de cabeça. - Esse gás tóxico se propaga rapidamente, e o mais curioso é que, quando espalhado, ele inicialmente apresenta uma coloração preta característica, mas quando uma boa quantidade se dissemina ela parece se fundir com o ar... tornando-se praticamente invisível e facilmente inalável. - revelou, o tom de preocupação claro como água. - Quanto a forma líquida da substância, ela só é administrável em hospitais... exatamente o que tentaram fazer com você, Rosie.

A jovem se pegara vislumbrando o mapa, engolindo em seco aquelas revelações, embora sentisse na pele a dificuldade de processar toda aquela realidade obscura e aterrorizante. "Pensando bem... olhando pra isso me parece que o coma era um paraíso... e agora me encontro presa no inferno.".

Hector inclinara-se para mais perto dela a fim de lhe dizer algo importante.

- Fiz algumas confirmações. - disse ele, sua voz quase beirando a um sussurro. - Pra começar... eu tinha capturado um infectado e o mantido em cárcere privado.

- Você o quê!? - ela arqueou as sobrancelhas, como se não houvesse ouvido direito ou acreditado.

O caçador assentiu positivamente com rapidez e tirou de um bolso interno de seu sobretudo uma amassada folha de papel dobrada, abrindo-a e pondo-a sobre o mapa.

- Eis a prova. - apontou para os desenhos que fizera. - Estes são os estados de infecção. E se voltarmos para analisar o mapa... nota-se algo bem interessante. - ele afastou o papel, mostrando alguns pontos específicos do mapa. - Liverpool, Sheffield e Birmingham são os três estados que abrigam as fábricas que possuem uma segurança mais reforçada. Agora... - novamente pegara a folha e destacando os desenhos. - ... repare nos três estados de infecção.

Rosie observou com atenção a folha virada para ela, mas parecendo não compreender as relações que as fábricas tinham com aquelas etapas. "Aonde ele quer chegar?".

Hector prosseguira:

- Tudo começa com a inalação pelo gás ou injeção do líquido na corrente sanguínea. Eu denominei o primeiro estado de Submissão, que é quando o infectado passa a agir sob as ordens de Abamanu, jurando lealdade e veneração eterna à ele, - apontou para a cabeça do homem desenhado, enfatizando os olhos pretos. - É nesta fase em que eles apresentam olhos negros, revelando sua verdadeira face. - passou o dedo pelo segundo desenho, mais abaixo. - É agora que as coisas começam a ficar... sinistras. Neste estado, chamado de Inquietação, o indivíduo começa a ter um súbito acesso de fúria. Tive sorte que o local que escolhi fosse resistente o suficiente, eles adquirem uma força tremenda. Esta fase dura cerca de 4 dias, e posso dizer que não consegui dormir por causa dos gritos insanos daquele homem. - contou ele, fazendo uma careta de incômodo.

- E este aqui? - perguntou Rosie, mais curiosa. - Me parece ser a destruição completa do hospedeiro... Não é? - olhou para ele, como que querendo adquirir uma confirmação.

O desenho mostrava o corpo do homem estourando em milhares de pedaços, e a riqueza de detalhes com a qual Hector usou nos traços tornou aquele projeto cada vez mais horripilante.

- Este é o estado em que o infectado, literalmente, explode. - disse ele.

Rosie parecia ligeiramente surpresa, mas de forma contida.

- Não conseguindo resistir - continuou Hector - as supostas dores no corpo inteiro, ele simplesmente estoura feito um balão. O lugar ficou completamente banhado em gosma preta e espessa. E as coisas ficam mais interessantes no terceiro e último estado... - correu o dedo até o último desenho. - A explosão é a consequência do segundo estado e uma ponte para o terceiro. É quando as gotículas de líquido negro, das mais pequenas às mais mais volumosas, se fundem até criarem uma forma humanoide...

Ao olharem simultaneamente para o último desenho do terceiro estado de infecção, ambos, subitamente, se entreolharam. Rosie, assustada e impressionada. Já Hector, uma expressão que indicava a certeza mais absoluta de toda sua vida.

- Meu deus! - bradou ela, cobrindo a boca. - E... o que houve depois?

- Ele fugiu. - disse Hector, sucinto. - Nesse estado, o infectado age de modo independente e não há como para-lo, pois se tentar ele pode infecta-lo com apenas um toque. Deve haver centenas neste estado espalhados por aí.

Sentindo seus pelos se eriçarem pelo corpo todo, Rosie vislumbrou o último desenho: Uma figura humana, parecendo uma sombra espectral, completamente negra, emergindo de uma poça de líquido de mesma cor e pondo-se de pé depois. Seus olhos já indicavam seu pavor. "Se for assim, Abamanu praticamente vai tornar os seres humanos em aberrações!", pensou ela, estupefata.

- Rosie, ouça com atenção. - disse Hector, inclinando-se mais para perto dela. - Não percebe a ligação entre essas coisas? As três fábricas mais proeminentes localizadas em três estados ingleses... Há três estados de infecção... a substância em sua forma líquida pode ser congelada, tendo também sua forma gasosa. - olhou-a com mais expectativa. - Estados ingleses. Estados de infecção...

Rosie estalou os dedos, rapidamente pegando a ideia, esboçando um leve sorriso.

- Estados físicos da matéria. - afirmou ela, sem esconder a surpresa. - Sólido, líquido e gasoso.

O caçador soltara o ar dos pulmões em um forte suspiro, satisfeito por Rosie ter entendido.

- Exato. E considerando a importância destas três fábricas específicas...

- Pode ser nelas que nossos amigos estejam sendo mantidos! - interrompeu Rosie, completando o raciocínio de Hector, seus olhos radiantes de empolgação. - O que nós estamos esperando? Precisamos ir logo, de preferência começando por Liverpool. - ela já se direcionava para a porta da cozinha, apressada.

Em um gesto de reprovação, Hector segurou-a pelo braço, impedindo-a de sair.

- Espere, Rosie! - disse ele, puxando-a levemente de volta. - Irmos agora seria nos precipitar.

- Nos precipitar!? Hector, o tempo está se esgotando e mais pessoas correm o risco de serem infectadas! - disse ela, fuzilando-o com o olhar. - Se nos unirmos aos caçadores, podemos invadir as fábricas, resgatarmos nossos amigos e arranjar um jeito de, sei lá, conseguir uma cura para isso!

- Chega a ser assustador você falar como se fosse tão fácil. - retrucou Hector, soltando-a.

- Agora o grande Hector Crannon está com medo?! - provocou ela, aborrecida. - Olha, eu sei muito bem o que estava pensando. Queria me largar para que eu seguisse meu próprio caminho, que ficasse alheia a toda essa loucura que está acontecendo no mundo. - passou a fita-lo com um ar decidido. - Você pensa que vou dar as costas aos meus amigos para ter uma vida normal? Que bom que não segui sua ideia, porque não sou egoísta.

Virara-se para a porta da cozinha, saindo a passos firmes e largos e irrompendo pela cortina da ampla sala de estar, bufando enraivecidamente. Hector balançou a cabeça em negação para si mesmo, culpando-se, logo seguindo-a no mesmo ritmo.

- Rosie! - chamou ele, a voz grave ressoando pelo aposento. - Ao menos pare para me escutar, por favor.

A jovem estacara hesitantemente, cerrando os punhos e mordendo os lábios em sinal de aborrecimento. Virou-se para o caçador, encarando-o como uma leoa feroz.

- O que foi? Vai dizer que estava errado?

- Sim, eu me equivoquei ao pensar dessa forma. - afirmou ele, aproximando-se dela. - Na verdade, eu quero você ao meu lado... Que lutemos juntos nesta guerra. - fez uma pausa, respirando fundo. - Há uma fábrica... há quilômetros daqui, recém-instalada. Posso mostra-la como funciona... do lado de fora, obviamente. Como uma preparação. Aceita?

"Por que me sinto tão dominada por essa... incerteza? Ele parece ser o mesmo de antes, mas percebe-se claramente que... ele está diferente de alguma forma, alguma coisa nele que não parece ser típico dele. Ansioso demais... é como se estivesse faminto ou sedento. Talvez seja só necessidade de adrenalina mesmo.", pensou ela, em vários instantes de reflexão sobre decidir se iria ou não acompanha-lo até a zona de perigo considerada a mais próxima dali.

Ela assentiu, meio relutante, meio insegura da decisão.

- Tudo bem. Se é essa a proposta... Acho que vale dar uma olhada.

                                                                                            ***

Percorrendo pelas trilhas sinuosas, a floresta transmitia a natural impressão de ser um labirinto infindável, com árvores posicionadas como se estivessem ali para parecem uma espécie de "muralha", fileiras em diversos lados. As copas altas proporcionavam sombras esguias nas partes gramadas e repletas de folhas secas, reluzindo ao sol escaldante daquela tarde. Quando, por fim, chegaram ao fim das trilhas, passando a caminhar por um solo baixo e cheio de galhos e raízes espalhadas, teve-se a sensação de estarem indo em direção a um covil de algum monstro que espreitava naquele lugar. Rosie ia a passos relutantes atrás de Hector, desde o início da caminhada sem dizer uma só palavra. O caçador carregava consigo a mesma faca com dentes que usara para matar o Dr. Henry McGrant.

Em dado instante, notou algo ligeiramente estranho em Hector. "Tudo nele está estranho. Até o jeito de andar!". Suas atenções voltaram-se para o nariz do caçador movendo-se... como se estivesse farejando como um cão atrás de sua presa. Se segurou para não soltar alguma pergunta a respeito.

De repente, ele parara, apontando para uma pequena tábua de madeira afixada verticalmente no solo como uma trave.

- É a partir deste ponto. Estamos quase lá. - disse ele, logo tornando a seguir em frente.

Voltando a segui-lo, Rosie se viu vítima de mais uma dúvida.

- Espera aí! - bradou ela, sem aviso. - Você já esteve aqui antes?

- Foi a penúltima coisa que fiz antes ir procurar por você. - respondeu, apressando o passo e cortando as plantas que bloqueavam a passagem com a faca.

- E qual foi a última? - perguntou Rosie, intrigada.

- O carro roubado. - disse Hector, o tom endurecido e nada simpático. - Olha, eu sei que pode estar achando essa minha ideia um tanto suspeita... mas não precisa entrar em seu natural estado de desconfiança, eu sei o que estou fazendo.

- Na verdade, você me parece tenso... ansioso, eu diria. - disse Rosie, exibindo um tom de preocupação. - Está suando bastante, pelo que vejo. E olha que nós só estamos andando...

- É o calor! - disparou ele, agora realmente demonstrando tensão. - Temos que ir mais rápido... já estamos na zona de perigo e existe um limite de tempo. - suas botas pisavam no solo com força.

- Por que será que estou com a sensação de que estamos perdendo tempo? - indagou Rosie, visivelmente impaciente. - Hector, nós não...

- Shhh. - murmurou ele, pedindo silêncio e erguendo uma mão, os olhos fixados no caminho à frente, atentos e penetrantes. - Ouvi algo... bem ali. - apontou, com o máximo de cautela.

A jovem franziu o rosto, apurando sua audição com esforço.

- Não estou ouvindo nada. - respondeu ela. Tornou a olhar para ele com estranheza.

- Mas eu sim. - afirmou, saindo em disparada para o a direita, segurando firmemente a faca. - Continue seguindo em linha reta! Alcanço você depois! - e desaparecera através da vegetação densa.

Embasbacada, Rosie sentiu-se petrificada, sem entender absolutamente mais nada. "O que foi que deu nele? Está o maior silêncio aqui!". Ergueu o capuz, pondo-o sobre a cabeça, e cedera ao pedido do caçador, andando cuidadosamente pelas sombras das árvores, a atenção redobrada. Sua intuição feminina lhe alertava alguma espécie de perigo iminente... e que ele poderia estar mais próximo dela do que se imaginava. "Hector... Você me provou que o mundo mudou bastante no tempo que fiquei naquela cama de hospital... mas, acima de tudo, ainda me provou que você mudou de forma ainda mais clara. Quanto mais eu perceber que você tenta disfarçar, mais vou me sentir insegura. O que aconteceu com você? É só o que quero saber. Mas preciso olhar para mim mesmo... preciso achar um modo adequado de perguntar, além de ter que lidar com a descoberta, seja lá o que for... eu sei que vai acarretar em consequências diretas à mim.", pensou ela, sentindo uma onda de abatimento tomar conta de seu humor.

Após cerca de 8 minutos se passarem em uma rápida travessia pela floresta, a jovem se sentira em um ponto culminante que parecia ressoar uma voz na leve brisa dizendo algo como"Você chegou ao seu destino".

Algo à sua direita lhe chamara a atenção de imediato, sua infalível visão periférica lhe denunciando algo concretamente suspeito. Seus olhos, junto com sua cabeça, foram se voltando para um espaço mais aberto na floresta, o solo meio arejado, meio gramado. Seu sangue gelou no mesmo instante. Recuando alguns passos, Rosie não conseguia tirar os olhos daquela horrenda cena de crime, logo fazendo uma cara de desconforto puro.

A resposta sobre o autor que lhe veio à mente não poderia ser mais óbvia.

Um verdadeiro mar de corpos de quimeras nível 3 - soldados de Abamanu - sucumbidos e ensanguentados.

                                                                                           ***

Há poucos quilômetros dali, Hector estava sendo alvejado por duas pontas de lanças em riste, ameaçadoras, o metal reluzente apresentando um aspecto nem um pouco mundano. Seus portadores, quimeras licantrópicas usadas como receptáculos de soldados de Abamanu de menor escalão, rosnavam em simultâneo, suas pelagens cinzentas fazendo-os parecerem lobos do ártico modificados geneticamente. O caçador se mantinha em guarda precisamente alta entre ambos, posicionado como o bom lutador que era.

Em um movimento surpreendente, largara a faca no chão, erguendo as mãos em um aparente sinal de rendição. Sua expressão denotava certa satisfação, com um zombeteiro sorriso, cuja discrição fora bem executada.

- Vamos, aproximem-se! - pediu ele, gesticulando com a cabeça para um deles. - Vocês tem a mim agora. Reconheço minha desvantagem, suas armas claramente são mais bem dotadas que a minha velha e surrada faca. Podem vir... - lançou um olhar escarnecedor para ambos. - Ou estão com medo?

Um deles se exaltara de súbito, chegando o mais perto possível de Hector com pressa, a lança em punho e ameaçando perfurar a qualquer momento.

O outro o imitou, sem admitir aquele tom petulante.

Assim que puderam estar a poucos centímetros do corpo de Hector e antes que pudessem executar algum movimento para prende-lo, o caçador se mostrara mais ágil em um pulo selvagem, desferindo dois chutes nos soldados - um para cada. Rapidamente pegara uma das lanças e a apontou para um soldado caído. O mesmo rolara pelo chão antes que recebesse um golpe. Ele pulara, rolando na horizontal e pondo-se em posição de combate espumando pela boca.

O outro veio com um ataque violento seguido de um feroz rosnado. Hector agarrara a lança antes que fosse ferido e, com um chute certeiro, golpeara o soldado no rosto, logo fazendo a ponta da arma voltar-se para ele. Cravara violentamente a lança no torso do soldado, fazendo o mesmo abrir a enorme boca e urrar de dor, bem como irradiar uma intermitente e curiosa luz azulada pelo corpo enquanto o metal frio da arma ainda estava atravessando todos os tecidos de sua pele.

Hector arrancara a lança fortemente, deixando o corpo do soldado cair desfalecido no chão... e erguera a mão direita para agarrar o pescoço do outro que logo veio para investir contra ele em retaliação pelo companheiro perdido. A criatura, já sentindo-se sufocada pela enorme força exercida pelo caçador, se debatia para se usar as garras, mas sentia parte das articulações paradas. Seus pés ciscavam o solo com violência e intensidade já fazendo um fundo buraco, na tentativa de avançar contra aquele mero humano insolente.

Hector apertou com mais força com os dedos, os pelos da mão crescendo vertiginosamente e as garras se acentuando.

- Vocês morrem fácil demais. - disse ele, voltando-se para sua vítima, os olhos alterando-se com a pupila diminuindo e a íris desaparecendo por completo. - Será que esse momento prova, de alguma forma, que sou especial? Posso vence-los... Eu tenho o poder... para mata-los sem que eu meça esforços. - dera um sorriso, exibindo brancos dentes, as presas crescidas em evidência.

Com um bem treinado movimento, quebrara o pescoço do soldado com a mão que o apertava. A técnica incluía medir com máxima precisão as regiões mais frágeis do pescoço, desde que alguns ossos estivessem facilmente táteis. Canalizada a força diretamente à mão, o usuário deveria fazer a cabeça da vítima inclinar-se levemente para trás durante o golpe simultâneo ao ruído característico de uma grave fratura.

O "creck" ecoou pela floresta. Após larga-lo no chão, Hector podia ainda ouvir seus pulmões funcionando normalmente. Cravou a lança no peito, fazendo irradiar a mesma luz azul pelo corpo inteiro do soldado, que dera seu último e forte arquejo.

Olhando para os lados a fim de se certificar de que ninguém estava por perto - principalmente Rosie -, o caçador voltara seus olhos alterados para suas duas presas... sem resistir ao impulso e tornando a se transformar por completo, em um rápido meneio de cabeça, os cabelos e pelos de seu rosto aumentando de volume, a pele enrugando-se e as presas à mostra pingando saliva. Seu rugido foi controlado de modo a não chamar a atenção de alguém que supostamente estivesse próximo.

Avançara vorazmente contra um dos soldados, abocanhando sua cabeça, fazendo um denso jato de sangue espirrar pelo ar.

                                                                                            ***

Já distanciada da trilha de corpos de lobos bípedes com a qual se deparara, Rosie andava de um lado para o outro, em um misto de desespero e aflição. Juntou as duas mãos e colocou-as na frente dos lábios, imaginando o pior. Foi quando um som de passos rápidos veio se aproximando na sua direção.

Ela se virou de modo abrupto, quase como um sobressalto.

Um pesado suspiro de alívio foi tudo o que pôde fazer. Seu coração batia descompassado, ainda com a dantesca imagem que vira minutos antes gravada na memória.

Hector viera até ela, ofegante, o estado ainda mais deplorável do que pouco antes. Rosie torcera o nariz, afastando-se dele.

- Onde você esteve? - perguntou ela, fazendo uma cara de ojeriza. - Argh! Ainda por cima está... fedendo a cadáver!

- Soldados de Abamanu. - respondera ele, voltando a seguir pelo caminho à frente. - E foi absurdamente fácil acabar com eles.

Por alguns segundos, Rosie entreviu alguns pigmentos vermelhos no rosto do caçador, o que confirmou sua suspeita. "Então é lógico que foi ele que fez aquela carnificina.", pensou ela, voltando a segui-lo. "Mas a pergunta que não quer calar é: Como pôde ser tão fácil?".

Antes que pudesse proferir alguma outra dúvida relacionada àquilo, uma estrutura cinzenta, austera e metálica emergia à sua frente como uma montanha à medida que avançava, chamando sua atenção. Percorreu seus azuis olhos até o alto... até chegar ao topo de uma chaminé industrial por onde saía uma fumaça negra, expelida com abundância.

- E aqui está. - disse Hector, parando bem em frente à fábrica. - Uma das instalações erguidas sob as ordens de Abamanu. Não duvido que seja a primeira de muitas que virão a ocupar boa parte dos hectares dessa floresta. - afirmou, voltando os olhos para o alto, logo apontando para o gás negrejante que saía pela chaminé. - Nem preciso explicar o que seja aquilo, não é? - olhou para Rosie.

A jovem tinha uma expressão franzida, discretamente recuando alguns passos.

- Hector... - sentiu seu coração voltar a bater aceleradamente. - Você já considerou a possibilidade de nossos amigos terem sido infectados? - voltou-se para ele, os olhos marejados de desespero.

- Rosie... - começou Hector, baixando a cabeça, a expressão séria. - Eu me odiaria se eu desistisse quando eu passasse a encarar essa possibilidade como a única e mais provável. Mas nós estamos aqui agora... Desprotegidos, arriscando nossas vidas. Não quero que isso acabe com suas esperanças, assim como quase acabaram com as minhas. - tornou a olha-la incisivamente. - É uma possibilidade real, sim. Abamanu tomaria essa medida para nos atrasar quanto ao único resgate.

- Como assim "único resgate"? - indagou Rosie, esboçando inquietação.

- Se o que tememos realmente aconteceu... - disse Hector, lançando olhares perdidos para o chão. - ... então significa que Charlie é quem deve ser resgatado. Abamanu o levou primeiro, Charlie é um mago do tempo... Isso evidencia que aquele maldito quer tirar proveito das habilidades de Charlie para expandir seu império para mais mundos. Ele pode estar sob custódia na fábrica de mais alta segurança, talvez a mais secreta dentre as 20 restantes.

- E o que você sugere que façamos? - questionou Rosie, soando ríspida. - Que devemos abrir mão de salvar nossos amigos, priorizando Charlie sem saber onde ele exatamente está? Olha, eu agora quero mais do que tudo afastar esse pensamento da minha cabeça. Eu prefiro arriscar. - afirmou, o tom desafiador.

- Mesmo que no final a surpresa seja desagradável? - perguntou Hector, o ar pessimista.

- Ao menos iremos desmanchar mais fábricas. - retrucou ela, insistente. - E uma hora ou outra você vai ter que se revelar para os caçadores, afinal é com eles que deveríamos estar agora. - lembrara-se da surpreendente aliança entre o Exército e o Colégio dos Caçadores.

- Sabe, eu estive pensando em algo melhor: Você como líder de uma das operações, enquanto eu continuou anônimo. O que acha? - propôs Hector, olhando-a com certa expectativa.

Rosie balançara a cabeça, passando a língua entre os lábios.

- Nem pensar, mocinho. - negara ela, sorrindo de canto de boca. - Disse que me queria ao seu lado... e eu vou estar. Mesmo não esquecendo o que me fez passar há dois anos...

- Está bem, você venceu. - interrompeu Hector, encaminhando-se de volta a floresta. - A pior coisa que aconteceria nessa nossa nova parceria seria nós dois sermos vítimas das mágoas passadas. Melhor nós irmos logo, não podemos ficar aqui mais do que 20 minutos. - disse, enquanto descia um caminho íngreme.

Novamente seguindo-o, Rosie exibiu um certo sorriso de satisfação para si mesma.

- Por que o gás não está simplesmente se espalhando com a ajuda do ar? - indagou ela.

- A disseminação é limitada por um raio de apenas 30 quilômetros. - dissera Hector, apertando o passo. - Se você tiver reparado, percebe-se que as paredes dessa fábrica são revestidas por uma liga metálica ainda desconhecida. A comunidade científica adoraria assumir os riscos apenas para estudar esse metal... se o plano de Abamanu deixasse de ser secreto.

- Tenho uma ideia: Que tal irmos ao centro da cidade comprar mantimentos. - idealizou Rosie, pondo-se lado a lado a Hector, caminhando em ritmo apressado. - Dei uma olhada na dispensa depois do banho... Ou você deve ter comido tudo o que estava lá ou não deve ter comprado nada.

- Ótima ideia. - redarguiu Hector, indiferente à tentativa de Rosie em descontrair o clima. - Vamos precisar dos nutrientes mais essenciais se quisermos estar dispostos para quando a operação começar. - fez uma pausa, tirando um papel amassado, o mesmo que continha os desenhos com os três estados de infecção pela substância tóxica. Virou-o no verso, vislumbrando um número de telefone e uma data. - Devemos nos encontrar com os caçadores daqui a 5 dias. Eu mesmo agendei a operação, mas não esperava que eu tivesse que abandonar meu anonimato.

- Fique tranquilo. - aconselhou Rosie, o tom suave, denotando auto-confiança. - Em vez de pressionados, talvez eles se sintam... inspirados. - forçou mais o capuz, quase ocultando os olhos, parecendo encabulada.

Olhando-a de relance, o caçador notara seu acanhamento sem dificuldade. "Ela ainda se sente insegura estando comigo. Ah, seu eu pelo menos pudesse... Não. Preciso me segurar até o dia da missão. Por sorte, ela acordou do coma no exato dia em que eu viria busca-la. Coincidência? Talvez. Preciso manter essa boa relação enquanto não enfrentamos Abamanu diretamente... Mas ainda há um porém assustador...", pensou ele, tornando a fita-la novamente. As palavras da jovem na fatídica noite nas Ruínas Cinzas ainda giravam em sua mente. "Rosie é um troféu... disputado por duas entidades divinas. Agora que estou praticamente conseguindo me controlar e ter comprovado que posso matar facilmente os soldados de Abamanu... talvez agora, mais do que nunca, seja a hora ideal para mostrar meu valor como protetor. Onde está você Eleonor? Gostaria que me dissesse o verdadeiro motivo pelo qual escolheu me transformar no monstro que hoje sou. E, por falar em você... ainda não li sua carta... e, embora intrigado e chateado com aquela sua atitude, eu sinto sua falta. Que coisa estranha...". Correra os dedos por um dos bolsos externos do sobretudo, como se estivesse acariciando o que havia no interior.

Eleonor mandara-lhe uma carta há um ano, cujo conteúdo jamais fora verificado por Hector. O caçador, na época, ainda mantinha-se um tanto ressentido pelo ato perpetrado por ela para que o impedisse de segui-la. Encarou o envelope com o mesmo olhar aturdido daquela noite. Um sentimento de traição lhe corroeu as esperanças. Pensou se tal fato tivesse sido um castigo por ter proporcionado à Rosie a mesma sensação. Mas, no fim das contas, outro pensamento sempre se sobrepunha àquele. Um propósito escondido? Um preço a se pagar para que deixasse alguém ir embora de sua vida? Imaginava se ela ainda esmorecia por alguma culpa ou estivesse vivendo forçadamente nos países que mencionou, testemunhando o horror e pânico gerado pela guerra entre potências.

Rosie despertara Hector de suas divagações.

- Melhor ficarmos em alerta. - comentou ela, olhando para os lados, séria. - Você ter matado aqueles soldados pode ter atraído a atenção de outros, eles podem ter se espalhado. - voltou-se para ele. - Vou precisar me defender. Tem uma outra arma aí guardada?

O caçador pareceu relutante à ideia e a olhou com reprovação.

- Minha faca pode resolver boa parte do problema. Se formos atacados, só basta você se esconder...

- Fugir está longe de ser uma opção pra mim! - disparou ela, virando-se para ele com um olhar fuzilante. - Pode ao menos dar a minha adaga? - estendera a mão, pedindo.

Hector bufara pesadamente, tirando de um dos bolsos internos a arma mais requisitada pela parceira. Entregando-a, expressou um semblante preocupado e incomodado.

- Também imaginei que tivesse pegado minhas armas também. - disse ela, pegando-a e pondo-a no cinto. Andara mais depressa, mantendo-se cautelosa para fazer o menor barulho possível ao andar por aquele solo repleto de folhas e galhos caídos. - Vamos. E é melhor irmos de carro para o centro.

- Eu já havia pensado nisso. Não somos de ferro, afinal. - retrucou Hector, andando na mesma velocidade.

                                                                                           ***

O sol poente do fim da tarde criava um aspecto agradavelmente inebriante ao ambiente momentaneamente calmo das ruas daquela cidade, que durante a noite seria palco de rondas de policiais para promover o toque de recolher. Nem parecia que o desespero causado pela guerra afetava aquelas pessoas calmamente andarilhando por direções diferentes. Crianças brincando com piões, bolas e correndo, idosos em uma praça alimentando os pombos, homens vestindo ternos voltando dos locais de seus ofícios, alguns conversando outros isolados, e donas de casa carregando cestas de compras atravessando as pistas enquanto os carros e bondes não passavam.

Rosie estava parada diante de um muro feito com tijolos vermelhos e retangulares, sua capa e capuz vermelhos chamando atenção das pessoas que passavam. A surpresa repentina por ter descobrido estar em Raizenbool - cidade não-afetada pela infestação do gás tóxico e tampouco pela guerra - foi varrida de seu âmago ao se deparar com aquela imagem... estampada no papel grudado naquela parede.

Seus punhos cerrados tremiam e uma ânsia intensa quase a fez engasgar com a própria saliva.

Esperava Hector voltar do mercado trazendo todas as coisas de que precisavam.

"Não posso acreditar... ", pensou ela, olhando com raiva para a folha de papel afixada com um prego. "Realmente aconteceu muita coisa nesses dois anos...".

Sentiu alguém vindo e desviou os olhos para sua direita... de onde vinha Hector carregando várias e pesadas cestas com mantimentos, sem se importar com o peso .

Semi-cerrando os olhos, Rosie o fitou por alguns segundos com uma expressão de desconfiança. Voltou a olhar para o pequeno cartaz na parede... que mostrava uma espécie de retrato falado do caçador com os traços desenhados com uma fidelidade estupenda às descrições.

Abaixo do rosto, havia um escrito que dizia: "Procurado. Assassino brutal. Se tiver informações reais sobre ele, ligue para este número..."

Quando o caçador estava em um momento de distração, parando para olhar uma loja de armas, Rosie aproveitara a deixa... e arrancara o papel da parede, dobrando-o duas vezes e, por fim, enfiando-o dentro da bota direita.

                                                                                          ***

O ardor em suas costas era lancinante a cada minuto, devido ao calor infernal que fazia naquele deserto cinzento e com odor de mármore. 

Em suas mãos formavam-se bolhas e feridas... de tanto jogar escombros pelos lados como um completo desesperado. 

Hector freneticamente remexia naqueles blocos maciços e destruídos, em qualquer parte daquelas ruínas já no limite da decadência. Procurava por mãos, dedos, roupas... qualquer coisa que reavivasse sua esperança de encontrar seus amigos ainda vivos. Sentiu sangue nas unhas, o mármore maltratando seus já frágeis dedos. Olhou para as mãos, desalentado e sentindo-se derrotado. 

Passou a ofegar cada vez mais baixo... até fechar os olhos e cerrar os punhos de vez, colocando-os diante do rosto. Duas lágrimas escorreram enquanto seu corpo tremia completamente. O nó em sua garganta torturava-o e mil pensamentos percorreram sua mente, dos mais nebulosos aos mais terríveis. "Não pode ser... O que aconteceu com eles? Rosie... Onde está você? Charlie... Onde estão todos?Eu... eu não posso ficar aqui sozinho, preciso de vocês."

Baixara as mãos no quente mármore, cabisbaixo, deixando seu pranto jorrar compulsivamente em soluços angustiantes. Pela primeira vez em muitos anos, Hector Crannon chorara de um forma tão dramática de modo a sentir como se um vazio imenso acometesse seu coração. 

Seus sentidos novamente se alertaram quando uma áspera mão tocou-lhe o ombro de forma amigável. Sobressaltado, o caçador virou-se rapidamente, olhando suspicaz para o sujeito. 

Pôs-se a ficar de pé, quase caindo para trás em meio à pilha de escombros. Deparou-se com um jovem de cabelo preto baixo, de estatura mediana e vestindo um uniforme militar do Exército.

- Quem é você? - perguntou ele, estudando a figura dos pés à cabeça. 

- Por favor, acalme-se, eu só quero ajudar. - disse o homem, a fala rápida, os esbugalhados olhos quase saltando. 

- A população próxima ao deserto não chega nem a 2%! - disse ele, ríspido. - É do Exército, certo? 

- Sim e não. - respondeu ele, a voz trêmula, fitando Hector com certo medo. 

- Como assim? - o caçador aproximou-se com ameaça. - Me diz logo quem é você e de onde veio! 

- Você obviamente não é o único que está soterrado aqui, então eu... 

- O que disse? Então... então o Exército resgatou meus amigos? Se sim, quem os chamou? - perguntava o caçador, segurando o homem fortemente pelos ombros, a aflição estampada em sua face.

- Olha, na verdade... - o rapaz pigarrou. - Eu sou um caçador. Fui convocado para uma operação sigilosa supervisionada pelo Exército a fim de barrar ameaças extraordinárias. - ele fez uma pausa, acanhando-se. - Desculpe ter chegado tão tarde, nós tínhamos visto uma equipe médica descer aqui... 

- Espera, um fato de cada vez. - pediu Hector, erguendo o indicador. - Está me dizendo que... o Exército e o Colégio dos Caçadores... firmaram uma parceria? - indagou ele, incrédulo. 

O jovem caçador assentira com rapidez. Hector, por fim, largara seus ombros, tornando a ficar pensativo quanto àquilo. 

- Olha cara, você me parece muito desesperado. Acho melhor você vir comigo até a nossa base instalada a uns 30 quilômetros daqui. - disse ele, demonstrando preocupação. - Está muito ferido, precisa de cuidados médicos. Mas pra isso vai ter que confiar em mim. 

Percebendo a completa falta de escolhas a fazer, o caçador assentira, cedendo ao pedido, despreocupado quanto a esperar o que viesse a lhe acontecer. Seguira o jovem soldado irrompendo pelos fortes ventos que traziam a areia aquecida pelo sol. Ambos protegiam-se com um velho cobertor marfim clocados sobre suas cabeças. 

Ao chegarem, adentraram em um pequeno recinto com paredes de pedra lotado de pesados equipamentos tecnológicos fazendo ruídos de todos os tipos e homens andando para vários lados, trabalhando atentamente. Sentados em mesas de madeira pequenas, haviam caçadores vestindo as roupas características do grupo, escrevendo vários relatórios, outros estavam verificando alguns dos aparelhos. 

- Bem, aqui estamos. - disse o jovem, apresentando a sala. - É nossa sala de controle e vigilância... por tempo limitado, é claro. - ele sorrira, dando uma risadinha para si mesmo. 

Um corpulento caçador dirigia-se à Hector, já lhe estendendo a mão para cumprimenta-lo. Era meio ruivo - os cabelos bem penteados -, pouco sardento, alvo e com uma barba destacante. Seus olhos verdes foram de encontro aos de Hector. 

- Muito prazer, me chamo Edgar. - apertara a mão do caçador. - Sou o chefe da operação primordial. Fico feliz que ainda esteja vivo. 

Hector parecia perdido. 

- Há quanto tempo estão aqui? 

- Desde a noite em que uma facção de atiradores vestidos de vermelho lutou contra um grupo de sete pessoas, além de um monstro andando pelas Ruínas Cinzas... - respondeu Edgar, com um semblante enigmático. 

- Espere aí. - interrompeu Hector, o olhando confuso. - Seu subordinado mencionou vigilância. Então quer dizer que... andaram observando nossos passos até chegarmos ás Ruínas Cinzas? Mas como? 

- Conseguimos proximidade suficiente para coletarmos alguns dados... relevantes. - afirmou Edgar, semi-cerrando os olhos para Hector. - Através de binóculos e telescópios. Antes de mais nada, Hector, me perdoe. 

- Pelo quê? 

- Desde que aquele raio de luz desceu dos céus, nós ficamos intrigados sobre vocês terem sobrevivido ou mão. - relatou Edgar, com certo pesar na voz. - Ficamos sem saber como proceder e demoramos a mandar alguém ir lá verificar. Uma equipe médica desceu de aviões, mas com nossa suspeita achamos que não encontraram nada. Pelo que foi constatado, até agora, apenas você sobreviveu. 

O caçador estremecera, passando a encarar Edgar com um olhar de ceticismo. 

- O tempo irá provar que estão errados. - retrucou ele. 

- Infelizmente, o tempo não está do nosso lado. - disse Edgar, encaminhando-se para uma mesa no centro da sala. - Veja isto. - apontou para um chamuscado aparelho quadrado e verde escuro, com uma espécie de "velocímetro" na parte central e duas antenas. - Este é nosso detector, criado especificamente para encontrar sinais de ameaças sobrenaturais. Ele queimou assim que o marcador ultrapassou a marca de 300. - ele fitou Hector por alguns segundos, parecendo ainda impressionado. - Uma atividade dessa magnitude jamais foi vista. Você sabe exatamente o que aconteceu. Tudo o que disser vai fortalecer a profundidade dos relatórios que estamos enviando para o general Holt e o Mestre Vannoy. 

- O general Holt também está envolvido nisso!? - bradou Hector, franzindo o cenho. - Isso não faz o menor sentido. O Mestre um dia prometeu a si mesmo que jamais se aliaria ao Exército, nem mesmo em uma crise de alto grau. 

- O que testemunhamos o fez repensar suas escolhas. A crise que estamos enfrentando é algo bem mais assustador do que a guerra que se aproxima. - redarguiu Edgar, suspirando. - E como você é a única das sete pessoas que achamos, resolvemos então recrutar você. O General Holt irá aceita-lo, pode ter certeza. 

- Quantos dias se passaram desde aquela noite? - perguntou Hector, impaciente. 

- 7 dias. - disparou Edgar, sucinto. - Você passou 7 dias desacordado. Só hoje que criamos coragem para se certificar de que ainda restou alguém. Novamente, Hector, me perdoe. - pôs uma mão no ombro do caçador, olhando-o tristonho. 

- Ahn... Não é preciso se desculpar, Edgar. - disse Hector, sentindo-se pouco à vontade naquele ambiente relativamente movimentado. - Não parece que cometeu tantos erros quanto eu. 

Uma pausa fez ambos se entreolharem incisivamente, como se quisessem estabelecer uma comunicação quase telepática. Através do toque amistoso, Hector sentira um lampejo de confiança invadir-lhe o âmago. "Não parece um cenário armado. Basta ver em seus olhos... é tudo real... por mais que eu não queira acreditar.". 

Um dos caçadores viera até Edgar para informar-lhe algo a respeito da primeira operação a ser realizada nas primeiras cidades afetadas pelo nefasto plano de Abamanu. 

- Sim. O que foi? 

- O general Holt acabou de autorizar o início da operação em Croyton. - informou o caçador, quase aos sussurros. - Além disso, o Mestre Vannoy exigiu que Hector fosse-lhe seu informante em relação à crise. 

Hector empertigou-se, alertado pela afirmação. 

- O Mestre ainda não sabe do que está havendo? 

- Não. - respondeu Edgar, virando-se para ele. O fitou com um olhar puramente sério. - Muito bem, Hector. Sei que está com várias dúvidas. A primeira delas é do porque eu sei o seu nome. 

- É a última coisa que eu perguntaria. - rebateu o caçador, sorrindo levemente. 

- Na verdade, eu verifiquei as fichas dos caçadores mais exemplares dos últimos anos... e eu vi sua foto. Entrou para a Legião sem nem ao menos chegar a ser um caçador de aluguel. - ele sorriu de modo misterioso. - É uma oportunidade para poucos e, devo dizer, invejável. 

- Todos aqui são caçadores de aluguel? - perguntou Hector, com ar de urgência. 

Edgar dera uma risadinha, já notando o desespero súbito do caçador-detetive. 

- Está tudo bem, Hector. - garantiu ele. - Na realidade, eu e meus homens fomos contactados por termos sido desvinculados por motivos de força maior em nossos tempos de convocação para a Legião. Os verdadeiros caçadores de aluguel ficarão por sua conta. - disparou ele, sem aviso. 

Hector arqueou uma sobrancelha, olhando-o como se não houvesse escutado direito. 

- Você quer dizer que... 

- Foi uma ideia minha. - interrompeu Edgar, acalmando-o. - O Mestre com certeza vai aceitar, já que você é o único da Legião que não está desaparecido. No entanto, terá de passar pelo general Holt, ele precisa lhe conceder permissão. 

- Porque simplesmente não posso ir até o Mestre? Afinal de contas, foi ele quem pediu a ajuda do Exército, e além disso Holt não me treinou. Sou um caçador da Legião, etão nada mais justo do que eu ir ao homem que me transformou em um herói. 

Edgar dera mais um suspiro pesado, fitando o chão com um olhar vazio. 

- Não, você não pode fazer isso. Holt usou o argumento de que possui mais influência e que por isso tem todo o direito de receber o supervisor legalmente. - ele fez uma pausa, voltando a olhar para Hector. - Holt lhe autoriza, você se torna um incentivo para os caçadores que participam das operações e pode enviar informações para o Mestre sempre que for necessário. 

Engolindo em seco a proposta desafiadora, Hector assentira, concordante. 

- Supervisor, certo? É, acho que a esta altura tenho muito mais a ensinar, depois de inexplicavelmente ter escapado da morte. 

Edgar gesticulou com a cabeça para segui-lo até uma mesa redonda em um canto distante da sala. Nela jazia um imenso mapa da Inglaterra, alguns estados circulados com pincel marcador. 

- Veja. Nestes três estados, segundo as últimas informações que recebemos, foram construídas instalações misteriosas. Apenas duas delas estão funcionando: Liverpool e Sheffield. Houve relatos de pessoas agindo estranho por lá... - disse ele, apontando para o mapa, tornando a olhar para Hector seriamente. - E os caçadores enviados para as principais cidades desses estados associaram estes comportamentos a uma espécie de gás preto... que se eleva de uma chaminé da instalação. 

Hector sentira seu sangue gelar. "E é assim que Abamanu pretende dar seu pontapé inicial para conseguir seu reinado absoluto.". 

- Tudo isso em apenas 5 dias. - reclamou Edgar, inconformado. - Espero que me conte em detalhes no caminho tudo o que sabe a respeito de quem está por trás disso. 

O caçador pareceu não entender. 

- Espere. Como assim "no caminho"? Achei que eu ficaria aqui por mais alguns dias... pelo menos para me recuperar. 

- Lamento, mas não há tempo pra isso. - disse Edgar, andando em direção a uma porta nos fundos da sala, ziguezagueando por entre as mesas. Hector foi seguindo-o. - Uma equipe de enfermeiros e médicos o espera no avião para tratar seus ferimentos. Eu vou junto e você me contará tudo o que sabe, tintim por tintim. 

- Vocês possuem um avião próprio? 

- Óbvio que não. - disse Edgar, olhando-o por cima do ombro e reprimindo um riso. - Oferecido pelo Exército e com um certo contragosto. Não é dos melhores, mas é aceitável. Holt pode ser bom em esconder seu preconceito, mas parece que nunca vai aprender a ocultar a avareza. 

Hector o seguiu com mais empolgação. Já estava começando a gostar daquele caçador truculento e que ligeiramente o lembrava de seu melhor amigo. "Adam. Onde você está?"

- Tem uma cabine especial onde você pode ficar à vontade. - disse Edgar, abrindo a porta e deixando a forte luz da manhã esquentar sua pele. Avistara o avião estacionado a alguns metros à frente e apertara o passo. - Rápido. Partiremos em um hora. 

                                                                                       ***

O breu tomava conta de toda a ampla sala de estar. O chão amadeirado era, em pequena parte, banhado pela luz do luar formando uma perspectiva fantasmagórica, digna do que se pode julgar de "casa mal-assombrada", e as cortinas das janelas esvoaçando com a brisa levemente fria.

No relógio circular e folheado a ouro, localizado na parede que se estendia até a larga escada que levava ao segundo andar, à esquerda, marcavam 19:10.

Um tilintar de chaves e o ruído característico de um trinco abrindo-se, quebraram o silêncio predominante no recinto.

Rosie e Hector entraram, expirando um ar fadigado. O caçador colocara as cestas numa mesa próxima à entrada da cozinha. Virou-se para a jovem, respirando fundo, andando até ela.

- O que houve? Não disse uma só palavra no caminho todo. - disse ele, a expressão condescendente.

- Não é nada demais. - respondeu Rosie, balançando a cabeça, parecendo abatida. - Só estou um pouco cansada... E atordoada. - expeliu o ar dos pulmões, fechando os olhos, como se quisesse acordar daquele aparente pesadelo quando abrisse-os.

- Sei como se sente. - disse Hector, tentando consola-la, o tom tímido.

- Sabe é? - perguntou ela, soando incrédula. - Sabe como é se sentir dividida por duas forças opostas que você não pode vencer? - ela riu baixinho, balançando a cabeça negativamente, voltando os olhos para a janela. - Hector, não partilho do seu otimismo... Sinto que esse Yuga vai intervir nos nossos planos a qualquer momento... a partir daí, tudo pode estar acabado, dependendo do que o destino me reserva.

Pondo a mão no ombro de Rosie, Hector mostrou-se acolhedor.

- É, devo dizer que isso também me assusta... Mas não acho que os papéis vão se inverter.

- O que quer dizer?

- Insinuo que Abamanu está tentando lhe passar uma imagem de vítima nessa história. Ele culpa Yuga pela ruína do império, mas se recusa a enxergar seus próprios erros nesta guerra. Ele cometeu aqueles crimes por livre vontade, porque sabia das implicações - afirmou Hector, assentindo, a luz da lua batendo em parte de seu rosto. - E com isso, eu quero dizer que Yuga, se caso intervir, pode não ser exatamente aquilo que pensamos.

- Que bom eu não ser a única que temia que ambos fossem inimigos. - disse Rosie, arqueando uma sobrancelha.

- Só existe um inimigo neste guerra, deve-se ressaltar. - bradou uma voz grave e masculina, parecendo vir de algum canto escuro da casa.

Ambos estremeceram e tornaram a olhar freneticamente para os lados.

- Quem disse isso? - perguntou Rosie, exasperada, andando para trás.

Uma vaga e espectral silhueta humana próxima à escada - sendo iluminada fracamente pela mortiço luar da janela próxima ao topo - foi o máximo que Hector pôde divisar, apertando a visão. Manteve-se na frente de Rosie, caso algo viesse a ameaça-los. Ouvia-se o ressoar de uma ventania do lado de fora, prenunciando uma tempestade.

- Ainda é cedo para abandonar a esperança. É para isso que estou aqui. É para isso que fui enviado. - o homem misterioso fizera uma pausa de suspense. - Vou precisar que reconheçam minha importância, embora eu seja apenas um peão neste vasto jogo que, infelizmente, foi armado contra suas vidas. Inocentes e puras vidas humanas... sem direito a sofrer o mal que não entendem.

Um clarão de um relâmpago seguido de uma retumbante trovoada revelara a fisionomia esguia daquela figura misteriosa, por poucos segundos, evidenciando o que pareciam ser sombras das asas de um pássaro na parede atrás do homem.

Hector sacara seu rifle com uma extrema rapidez e apontara para o tal homem.

- Quem é você? - indagou, aos berros.

Um "click" fora ouvido. Era a luz alaranjada de um pequeno abajur que fora acendido por Rosie, iluminando uma determinada parte da sala.

O ser misterioso irrompera da escuridão a passos tranquilos. Atentos, a dupla observou com cuidado a pessoa que se aproximava. Hector, ao perceber a expressão desprovida de medo de Rosie, percebera que ela estaria sentindo uma certa afeição imediata por aquele homem, logo explicando que não o via como inimigo. Abaixara a arma, fitando-o com uma observância meticulosa.

O homem parara, olhando para os dois com um semblante sério e decidido. Vestia um smoking preto e era afro-descendente. Sua careca bem lustrada brilhava levemente. Por um breve instante, Hector pensou ter visto a figura de Josh diante dele, ou uma espécie de reencarnação. Mas com certeza não acreditava naquela ideia. O homem parecia era mais velho, aparentando ter uns 35 anos ou um pouco mais, e exibia uma face dura, embora bastante jovial.

- A intenção de minha vinda passa longe de conflitos. - disse ele, andando para um lado, sem tirar os olhos da dupla. - Além do mais, vim para ser breve, como um bom arauto deve ser.

- Arauto? - indagou Hector, intrigado. Um lampejo o fez arregalar os olhos. - Não me diga que...

- Você viu minha sombra. - afirmou o homem, a voz firme. - Eu sei quem você é e sei que sabe reconhecer coisas como eu. Não devia ficar tão surpreso. - fez uma pausa, desviando os olhos para Rosie. - Vim em nome de vossa majestade, Yuga. Ele quer garantir sua sobrevivência, Rosie Campbell.

A jovem andou alguns passos à frente, hesitante.

- Vai precisar mais do que garantias pra me fazer confiar em você... principalmente em Yuga!

- Não tem obrigatoriedade alguma de confiar em mim, sugiro que siga o que seus instintos lhe dizem. Apenas vou repassar o que me foi ordenado, esse é meu trabalho.

- Então diga o que Yuga deseja? - questionou Hector, inflexível. - Tem algo a ver com o poder oculto que Rosie esconde?

- Hector... - disse Rosie baixinho, tentando conte-lo.

- Não, tudo bem. - disse o homem, sem se importar. - Ele está certo, embora mal esteja se aguentando de curiosidade. Os humanos conseguem suportar suas dúvidas, mas não os temores causados por uma guerra que está ocorrendo em seu mundo. Tempos de desespero, é claro.

- Vá direto ao ponto. - exigiu Rosie, aproximando-se dele. - O que Yuga quer comigo?

- Ele tem uma oferta a fazer. - disse ele, referenciando seu mestre com orgulho. - Não diria tentadora, mas sim corajosa. A recusa, na minha opinião, seria inesperada, mas problemática. - fez uma pausa, olhando-a mais incisivamente. - O inimigo de majestade está avançando assustadoramente rápido. Nossas frentes de combate ainda estão esperando uma ordem definitiva. E como única opção encontrada para barrar os avanços do inimigo, Rosie Campbell, é usando-a... como receptáculo provisoriamente, como forma de aniquilar as forças daquela mente doentia que arrasou com sua espécie.

Aquilo pegara Rosie desprevenida, fazendo-a sentir como se um raio houvesse atingindo-a. Hector encarara, boquiaberto e em pensamentos negativos, a realidade que se avizinhava... se caso sua parceira aceitasse aquela proposta desesperada.

- No meu caso - prosseguiu ele - esta foi a casca mais próxima que encontrei. Um mordomo mal-pago que teve sua família inteira assassinada por pessoas intolerantes em uma cronologia angustiante. - fez uma pausa, estudando o corpo de Rosie. - Não há outro modo. Você é o receptáculo perfeito, além de possuir a energia bruta que majestade depositou em você. Ele a preparou para esta decisão... e o momento é agora, Rosie Campbell. - inclinou-se levemente, fitando-a com expectativa. - Dê-me sua resposta.

A jovem tremia em nervosismo.

- Esta é minha única chance?

Ele assentira devagar em negação, mantendo a expressão séria.

- A generosidade é uma característica muito nobre, a qual nosso inimigo não se dispõe a ter. Majestade lhe deu a liberdade para decidir o momento adequado para sua resposta. Pode ser amanhã, depois ou daqui a meses... Ou pode ser agora.

- Não. - disparara Rosie, sem aviso. - A resposta é não. - seu tom era decidido e severo. - Diga para Yuga avaliar melhor essa proposta, porque não vou deixar que usem meu corpo como um mero artifício para vencer essa guerra.

O homem suspirou, parecendo vencido pela negação da jovem.

- É, eu devia imaginar. - disse ele, encaminhando-se para a porta dos fundos. - Você tem tempo de sobra para decidir se quer ou não ser parte disso. Aliás, não há como você deixar de fazer parte.

- Aonde você vai? - perguntou Hector.

- Eu me despeço, por ora. - disse o homem, em seguida, tirando algo do bolso do smoking. - Tomem. - jogara para ambos dois pequenos amuletos redondos dourados, com pontas no contorno que lembravam raios de sol. - Usem-os quando quiserem se comunicar comigo. Me chamo Áker.

Desafiando as percepções, o arauto fora embora, sumindo em um piscar de olhos.

Rosie e Hector entreolharam-se, estupefatos com o que presenciaram. A jovem se viu tocando o símbolo dourado na palma de sua mão com uma expressão de medo e incerteza pulsando.


Sentiu, de forma mais completa naquele dia, que o pesadelo se materializara por completo... rememorando a sinistra visão que tivera antes de acordar.

"Eu caí sem sequer tocar o sol... Agora tenho a chance a alcança-lo?".

             
                                                                                         CONTINUA...

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