Capuz Vermelho #29: "Senhor Escarlate"


"Tenho ciência das minhas forças, limites e fraquezas. Não tenho obrigação de provar nada à ninguém."

                                                                               Trecho do Diário de Rosie Campbell - Pág 110.

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Nota do capítulo: Partes em itálico representam flashback ou menções específicas.

CAPÍTULO 29: SENHOR ESCARLATE


O apartamento estava perfeitamente organizado. As janelas bem fechadas com as cortinas amarelo claro, a mobília de couro desempoeirada, os vasos de cerâmica em seus devidos lugares...

A proprietária discava um número no telefone sobre a mesa e próximo de um abajur ligado. Estava sentada numa cadeira de madeira, acariciando um belo gato preto sobre seu colo, mantendo as pernas estonteantes cruzadas. Pôs o fone ao ouvido e esperou alguém atender.

Após dois toques, uma voz áspera atendera-a.

- Alô?

- Olá General. - disse ela, o tom forçadamente suave. - Lembra-se de mim, certo?

- E como eu poderia esquecer? - perguntou Holt, enfezado. - Você arrancou um olho meu! Além do mais, saiu deixando uma mensagem da qual eu ouso reclamar!

- Estamos numa parceria afinal, mútua e justa. - argumentou ela. - Dentro dos meus padrões, é claro.

- Mútua!? Ouça aqui, sua aberração sobrenatural, estou me isentando das responsabilidades que tentou me impor. Ameace-me se quiser, possuo contatos com cientistas, estão trabalhando em tecnologias capazes de...

- Ah, pare, já chega destas ladainhas! - enfureceu-se ela, revirando os olhos. - Obviamente quer saber o motivo de eu ter ligado. Preciso saber se seu exército já se colocou em campo de batalha e Rosie Campbell já assumiu o posto que você a designou. 


- Ela, no presente momento, está se preparando para iniciar sua liderança. - informou o General, sem alterar seu tom de voz severo. - A pus sob vigilância.

- Não me diga que... - Sekhmet franzira a testa, imaginando o que pode ter saído errado. - Você não teve a audácia de compartilhar o fato de termos nos encontrado, sobre o que conversamos e sobre meus planos com um de seus homens!? Sei que não faria isso em hipótese alguma.

- Tem mesmo tanta certeza de que eu não iria longe o suficiente para não baixar minha cabeça ante à sua arrogância? - perguntou o General, soltando uma risadinha zombeteira depois.

- Um item que possuímos em comum, devo ressaltar. - retrucou a deusa.

- Não me compare a um ser desprezível como você. - atacou Holt, tentando fazê-la sentir-se humilhada. - Se há deuses neste mundo, um dia os seres humanos tornarão a saber suas fraquezas, tanto quanto vocês sabem das nossas. E sim, eu confidenciei nosso encontro a um dos meus soldados.

Estremecendo repentinamente, Sekhmet deixou escapar um grunhido de raiva pelo fone.

- Seu maldito! Tem ideia do quanto isto pode prejudicar...

- Prejudicar apenas à você, de fato. Não quero uma aliança provisória com você e arriscar a vida de um dos meus subordinados.

- Se Rosie Campbell estivesse sondando esta nossa conversa agora, eu diria que ela se sentiria dominada por um homem arrogante e presunçoso. Ela está lutando por um propósito que considera nobre e, como se viu sem escolhas, resolveu se unir às suas tropas.

- Ela está tentando salvar seus amigos, a todo custo. - disse o General, com veemência.

- Oh, que gracinha, estou profundamente comovida. - ironizou Sekhmet, fazendo uma careta tristonha. - Seu coração ficou amolecido quando se conheceram? - ela fez uma pausa, notando o quanto o General fazia questão em se manter silencioso quando ouvisse qualquer coisa desnecessária. - Pelo que meus comandados me informaram, estes mortais desaparecidos são testemunhas.

- Testemunhas de quê? - exigiu saber o General.

- Presumo que aquela indigna não lhe contou tudo que merecia saber. Muito menos o tal caçador. - disse Sekhmet, aproveitando a deixa para se deliciar com a falta de informações que tanto aborrecia Holt. - Ambos também se enquadram nisto. Omitiram propositalmente a vinda do maior inimigo de meu amado... Aquele que atualmente deseja ver sua espécie de insetos rastejantes perecer até um fim trágico e definitivo. Ele está utilizando conceitos da ciência dos mortais e colocando-os contra vocês perigosamente. - afagou a cabeça de seu gato com gosto, fazendo-o miar levemente. - O que me diz, General? Sua nova líder agora lhe parece bem menos confiável do que quando lhe disse a respeito dela no nosso primeiro encontro... não é? - dera um sorriso de canto de boca.

Ouviu um suspiro pesado do outro lado. Aquilo soou como música sinfônica aos ouvidos da deusa.

- Diga-me de quem se trata. - exigiu ele.

- Não acho que agora seja a melhor hora...

- Olhe aqui! Pessoas estão morrendo dia após dia, sendo infectadas por algo que nosso melhores cientistas nem sabem explicar com exatidão! Eu exijo saber quem é o responsável!

- Saberia se me dissesse onde está o caçador. Sei que não foi por nenhuma razão aparente que não o mencionou. - disse Sekhmet, apurando seus sentidos.

- Não sei onde ele se encontra, ainda estou aguardando informações a respeito. Ele está em mal lençóis com minha equipe, infringiu uma regra deliberadamente. Rosie Campbell também, mas, em comparação ao caçador, sua ficha é bem mais limpa.

- Então, nesse caso, a revelação se torna indevida, por ora. - decretou a deusa, o tom firme.

- O quê!? - exclamou Holt, irritando-se com a negligência de sua "parceira".

- Exatamente. Só poderá me dar a prova de que está disposto a cooperar comigo se conseguir a localização atual do caçador. Só assim saberá o nome da maldita escória, principal causador da ruína do nosso império... o império que estou destinada a governar se eu impedir Rosie Campbell a tomar sua decisão.

- Espere. - pediu Holt, ansioso desta vez. - Do que está falando? Afinal, qual decisão acerca de vocês Rosie Campbell deve tomar? Não adianta tentar esconder agora! Sei que ela possui um propósito relacionado com os deuses e...

Sekhmet desligara rapidamente, batendo com força o fone no gancho. Olhou para o nada, sua expressão de completa insatisfação. Suas mãos afagando os pelos do gato começavam a querer praticamente machuca-lo, tamanha era sua fúria ao pensar na fisionomia de Rosie.

- Preciso mata-la... antes que seja muito tarde.

                                                                                               ***

No escritório do General, os raios matutinos do sol atravessavam as aberturas das venezianas, banhando a mesa do proprietário com sua luz dourada.

Pensativo, Holt massageava as têmporas calma e pacientemente, de olhos fechados, tentando não pensar em cometer qualquer ato de loucura que o fizesse perder pontos naquela batalha de egos entre homem e deus. Seus pensamentos direcionavam-se á Rosie, fazendo-o sentir algo que jamais imaginaria ter. A culpa. Naquele instante, tornou-se sua responsabilidade a segurança da jovem que supostamente, segundo sua sócia mal-intencionada, escondia dentro de si um poder altamente destrutivo. "Ela assumiu o corpo de uma agente militar... para que conseguisse se ligar à mim? É bem plausível, sendo que estamos lidando com uma entidade evidentemente superior! Pode ter previsto os eventos que achou que lhe fossem convenientes.", conjeturou o General, abrindo os olhos e encarando a soleira da porta.

Nada mais pareceria estar certo. A maior parte das respostas só geravam mais perguntas.

A entrada abrupta de um afoito soldado o fez sobressaltar na cadeira. O homem se encaminhou até a mesa de seu chefe, a face indicando ser algo bombástico.

- Senhor, eles acataram as ordens: Vasculharam a casa inteira, uma varredura completa, de dentro para fora e vice-versa. - ele fez uma pausa, retirando algo do bolso, mas hesitando em mostrar de uma vez. Olhou para o objeto rapidamente e voltou-se para Holt. - Não vai acreditar no que acharam...

- Por que todo esse mistério?! - explodiu Holt, levantando-se. - Fale logo de uma vez!

- Havia pedido provas que corroborassem suas suspeitas... Bem, acharam um diário de propriedade da senhorita Campbell, corpos de homens espalhados pela sala... - com a outra mão, retirou um pequeno saco do bolso de trás. - E isto. - pôs na mesa do General.

Holt olhara para o recipiente com desdém.

- O que é isso? - perguntou, grosseiro.

- À primeira vista, pensamos ser areia... mas dando uma olhada mais de perto, concluímos serem cinzas... de um ser humano. - informou o soldado, engolindo a saliva de estupefação.

Por alguns instantes, Holt examinara o conteúdo e o tocara com os dedos. Com o indicador e o polegar, pegara um pouco das cinzas e analisara a textura das mesmas enquanto as deixava cair no saco. Voltou seus olhos azuis claros para o soldado à sua frente.

- O quê mais?

Por fim, o subordinado apresentara o objeto que primeiramente havia tirado.

- Sei que a desilusão com o senhor Crannon foi um baque tremendo para o senhor... - disse o soldado, entregando o objeto com a mão trêmula. - Agora tenho minhas dúvidas sobre estarmos envolvidos com as pessoas certas para dar um fim à calamidade.

Rangendo os dentes, Holt percebera, bem no fundo de seu âmago, o quão ingênuo havia sido.

- Aquela garota... eu devia ter submetido ela a um teste do polígrafo mediado por mim mesmo.

- Teria sido uma ótima ideia. - comentou o soldado.

Holt o fuzilara com os olhos, como que querendo emitir uma ordem através daquele contato visual.

- Está dispensado. - disse, friamente.

Assim que o soldado fechara a porta, o General tornou a sentar-se na cadeira de couro, passeando os dedos por aquele pequeno objeto cilíndrico... cujo conteúdo era um líquido preto e espesso.

"Crannon reclamou de omissão ao seu tutor. E veja só isto... Justamente sua parceira é quem comete esta atitude desprezível.", pensou ele, observando a negrejante substância, sacolejando de leve o cilindro de plástico.

                                                                                             ***

4 dias antes. 

A sala do General possuía um estranho ar abafado, parecendo uma sauna improvisada. Na mesa estavam vários papéis desordenados. Declarações, formulários e fichas de caçadores escolhidos aleatoriamente para a formação do grupo que se encarregará do primeiro resgate a ser feito na primeira das três fábricas que restaram. 

Rosie pegara uma caneta, assinando seu nome na linha da parte inferior da última folha que lhe foi entregue. Tinha que admitir que estar diante de alguém com tamanha influência como William BuckyHolt lhe causava preocupações acerca da impressão que passaria ao se portar com pouca vontade. Além disso, havia outro detalhe que a deixava apreensiva: O tapa-olho. Reparando nos contornos, a jovem constatou que a ferida era recente. Muito recente. Voltou, rapidamente, sua atenção para a folha, finalizando a assinatura do contrato. 

- Pronto. Aqui está. - disse ela, pondo a caneta sobre a mesa. 

- Muito bem.. muito bem... - disse Holt, olhando para a folha, um tanto entusiasmado. - Seja bem-vinda à iniciativa, senhorita Campbell. 

- Ahn... Obrigada. - agradeceu Rosie, juntando as mãos para trás, dando um sorriso fraco. 

O corpulento homem militar desviou os olhos para o corpo da jovem, olhando-o com análise crítica. 

- Hum... Sua estatura física me parece bem desenvolvida. A qual tipo de treinamento você recorre? 

- Bem... - Rosie não sabia como responder. - Digamos que o bastante para extravasar meu estresse. Alguns sacos de areia e levantamentos de barras com pesos médios. Nada muito sofisticado... mas é o que há, então estou satisfeita. 

- Eu também estou. - disse ele, sorrindo de modo enigmático. - A perspectiva que isso me oferece... me dá uma visão de algo promissor. Possui um histórico com caçadores? 

"Isso depende.", pensou ela, nervosa. 

- Apenas com os da Legião, que, como o senhor deve saber, estão mantidos em cativeiro nas fábricas. E também com... - ela hesitou por alguns segundos, baixando os olhos para o chão, pensativa. - E também com Hector Crannon. 

- Então foi através do senhor Crannon que pôde estabelecer uma relação com os caçadores da Legião, certo? - perguntou Holt. 

- Sim. Fui apresentada à eles quando foram chamados para uma emergência em Raizenbool. 

- Ah sim, claro. - disse o General, arqueando as sobrancelhas. - Fui informado desse incidente. Mas Walter Vannoy me convenceu a não intervir. 

- O fundador do Colégio dos Caçadores sabia dessa invasão? - perguntou Rosie, estreitando os olhos, intrigada. 

- Até onde eu sei, o protocolo vigente do Colégio dos Caçadores consta a obrigação direcionada ao membro da Legião de informar, com máxima de riqueza de detalhes, um evento de classe B. Em algum momento, algum caçador da Legião contactou Vannoy para inteira-lo quanto à ameaça. - fez uma pausa, apoiando os cotovelos sobre a mesa e cruzando os dedos. Na situação atual, estamos em confronto com um evento classe A. Já até tenho minhas suspeitas quanto ao cabeça... 

- Tem?! - indagou Rosie, levantando uma sobrancelha. - Ahn... Me disseram que Hector estava sob custódia, então... 

- E ainda está, pode acreditar. - mentiu Holt, olhando-a firme. 

- E o senhor não o obrigou a revelar nada sobre aquele que pode estar por trás disso? 

- Havia questões de maior prioridade a serem tratadas. - afirmou ele, lacônico. 

- Como quais? - perguntou ela, curiosa. 

O General dera um suspiro longo e cansado. 

- Senhorita Campbell, logo mais algum dos meus homens irá lhe entregar uma tabela de horários em que você deverá comparecer ao QG. 

- O que pretendem fazer? 

- Por enquanto, a primeira operação encontra-se sem agendamento. Nesse período de indecisão, você receberá orientações, algumas regras básicas sobre os métodos da corporação. E sobre o senhor Crannon... - fizera uma pausa, olhando de soslaio para a sua esquerda, como se não quisesse enveredar por esse assunto. - Prometo que ficará sabendo de certas coisas sobre ele nos próximos dias. Merece estar ciente de que tipo de gente está confiando. 

A jovem fitou o General com desconfiança por um instante. 

- Isso pode significar... que Hector não vá mais participar das missões? - especulou ela, aumentando seu estado nervoso. 

"Esta menina não se deu conta de que informações de certo impacto não podem ser compartilhadas em um primeiro encontro?", pensou Holt, incomodado com as perguntas de Rosie. 

- Ainda estou decidindo como vou seguir com seu caso, isso inclui, claro, sua liberdade. - respondeu ele, soando evasivo. 

- Está bem... - disse ela, suspirando levemente. - Acho que é um pouco cedo para pedir que me contem tudo. Sinto que estou sendo... deselegante. - encolheu os ombros, tornando-se acanhada. 

- Muito pelo contrário. - disse ele, balançando a cabeça com veemência, dando um forçado sorriso. - É perfeitamente natural que esteja com muitas dúvidas... Mas como uma boa líder que espero que seja, sei que irá tomar as decisões certas. 

- Mas... é claro. - disse, forçando um risada rápida. - Afinal, são as vidas dos meus amigos que estão em jogo. - tornou o semblante mais sério. - E estou disposta a assumir qualquer risco. Não posso prometer algo que está fora do meu alcance, uma habilidade ou qualquer outra coisa mais distante... Apenas quero salva-los e dar um fim nessa guerra. 

Inclinando-se, o General pareceu alimentar um interesse ainda mais atento na jovem. Mostrou uma expressão de confiança e determinação. 

- Saiba que já tem alguém que acredita em seu potencial. Esqueça a proteção forçada que o senhor Crannon lhe prometeu há tempos. Ele já deu sinais óbvios de que é insuficiente para esse papel. - fez uma pausa, sorrindo com condescendência. - À você eu ofereço todo meu apoio e, sobretudo, minha amizade. - estendeu a mão para ela. 

Surpresa com o gesto, Rosie retribuiu, formando um forte aperto de mão. 

- Sua mão está gelada. - comentou o General, franzindo o cenho. Olhou para ela com uma suspicácia brincalhona. - Eu não a intimidei, certo? 

Rosie dera um riso solto. 

- Bem, se não for incômodo... a  última coisa que eu perguntaria era sobre esse tapa-olho. 

- Ah, então foi isso? - perguntou ele, apontando para o círculo negro que ocultava seu canal ocular danificado. Ele rira, como nunca o fez há eras. - Devo dizer, com muita honestidade, que foi uma experiência libertadora. 

- Libertadora? - indagou Rosie, sem entender. 

- Exato. Mas também foi aterrorizante. Foi como se o Todo-Poderoso estivesse me punindo pelos meus pecados, me tirando algo valioso. Talvez um castigo pelo meu materialismo exacerbado. - disse, dando de ombros. - Uma ocasião passada, turbulenta, que deve ser deixada no seu devido lugar: Naquelas fotos amareladas e perturbadoras. - mentiu ele. 

Rosie agradecera pela confiança depositada, virando as costas para sair da sala... mas uma questão excruciante martelava em sua cabeça. "Alguma coisa muito estranha está pairando no ar. Ele não pareceu querer falar abertamente do acidente que sofreu, mas passou a impressão de que... estava angustiado de certa forma. Pensou que me deixei intimidar com esses detalhes. Mas na verdade só queria saber o que estava por trás. Ainda assim, ele não deixou claro. É como se ele estivesse tentando preservar seu ego... como se seu orgulho tivesse sido ferido.", pensou ela, logo passando pelo soldado que ficara como testemunha... e a cargo de vigia-la. 

Ele a olhou por cima do ombro, a frieza de sua expressão indicando uma atenção predadora. 

                                                                                            ***

Sheffield - 14h20. 

Aqueles olhares estranhos certamente não transmitiam uma sensação agradável ou uma confiança que pudesse se tornar mútua no mais tardar. A floresta esbanjava uma atmosfera amena, pouco gélida e estável. A luz solar estava enfraquecida devido às densas nuvens que passavam. Rosie não sabia o que fazer, observando o mutirão de soldados do Exército e caçadores - equipados com aparelhos modernos que eram mochilas metálicas quadradas, pesadas e grandes. A maioria estava cochichando, provocando zombarias discretas com sorrisos embargados de ironia. De fato, a escolha do General foi julgada como equivocada por boa parte da equipe. Uma rejeição daquele nível debochante não havia sido prevista.

Rosie tentou focar sua atenção no pequeno grupo que não estava caçoando dela, isto enquanto não pensava em algo que pudesse dizer para iniciar seu discurso de estratégia para a missão. "Nunca me senti tão pressionada antes.". Seus olhos azuis percorriam nervosos por todo o exército. Mordia os lábios cada vez que pensava no medo de não ser boa o bastante no comando de trinta homens aparelhados com armas de congelamento instantâneo - a tecnologia recém-inaugurada pelo Exército Britânico em parceria com cientistas inclinados no assunto abordado. "Parecem que vão fazer uma excursão na lua.", pensou Rosie, que não aprovou muito o resultado do projeto, tampouco sua aparência. A desvantagem óbvia era o peso proporcionado pelo material com o qual se fabricava a arma, mas era inegável que as horas de trabalho e os milhões investidos pareciam ter valido a pena.

Rosie fechou os olhos e respirou fundo. As conversas baixas cessaram, mas os olhares desconfiados e zombeteiros permaneceram. A jovem nunca sentira vergonha de falar em público, mas aquela ocasião lhe causava uma sensação desconfortável... ainda mais com o reforço do soldado que a fitava atentamente à sua esquerda com os braços cruzados e o semblante rígido.

- Deve começar, senhorita Campbell. O tempo urge. - falou ele, frio como um iceberg.

Descontraindo os músculos, Rosie assentiu para si mesma e olhou para cada um daqueles homens incrédulos.

- Muito bem... - disse ela, suspirando. - Me chamo Rosie Campbell e a partir de agora tenho a responsabilidade de lidera-los e incentiva-los para vencermos as forças que estão atuando com o objetivo de destruir o mundo que conhecemos. Não pensem que posso estar exagerando, essa é a mais pura verdade, é uma ameaça que vocês, que foram selecionados a dedo pelo General Holt, devem conhecer mais a fundo, pois é algo que pode aniquilar a espécie humana. - fez uma pausa. - Sei que chegaram a um ponto em que a vontade de desistir praticamente não existe... ou se tornaram fortes o bastante para resistir à ela. Conseguiram desativar 96% das fábricas e agora estou aqui para lutar junto à vocês... Eu sinto que fui escolhida no momento certo. Restam apenas três... e nestas estão aprisionados amigos meus... vidas inocentes que tiveram que pagar um preço muito alto por terem se envolvido nesta guerra.

- Só existe uma guerra. - disse um soldado do Exército na fileira da frente, parecendo descontente por estar ali.

Rosie arqueou um sobrancelha, olhando para ele.

- Então o que está fazendo aqui? - perguntou Rosie, semi-cerrando os olhos. Andou a passos lentos até o rapaz. - Prefere lutar em campos de batalha no meio de conflitos onde os egos de homens poderosos estão fervendo em uma guerra estúpida e sem sentido do que lutar para salvar vidas inocentes e evitar uma catástrofe que pode pôr fim à humanidade? - o fitou com rigorosidade. - Quanto discernimento. - disse, sorrindo com ironia.

O soldado a encarou por vários segundos, como se quisesse questionar o posicionamento de Rosie demonstrando com certo orgulho sua má vontade incompreendida. Contudo, se limitou a olhar para um canto do chão, decidindo permanecer silencioso, a expressão de incômodo estampada.

Rosie andou para um lado, percorrendo com os olhos o restante do grupo.

- Estamos a 30 km da fábrica, e, assim que conseguirmos proximidade, vocês deverão se dividir em grupos de cinco por todas as direções. Lembrem-se de colocarem as máscaras assim que ultrapassarmos a linha que foi traçada... - apontou para trás com o polegar a demarcação feita 5 km de distância de onde estavam. - Somente quando avistarem um deles... ataquem à vontade. Um dos grupos deve conseguir chegar ao vaporizador em menos de quinze ou vinte minutos e, em seguida, instalar explosivos nesta área. Ao mesmo tempo, outro grupo deve cuidar do resgate, seja encontrando alguma passagem secreta ou interrogando um dos miméticos que atacarem. Fui suficientemente clara?

- Sim! - responderam quase todos, em uníssono.

- Alguém tem uma pergunta a fazer antes de partirmos? - perguntou Rosie, temendo que alguma dúvida ficasse no ar.

- Eu! - disse um jovem e alto soldado um pouco mais afastado, levantando a mão.

- Pode falar. - permitiu Rosie, educadamente.

- Por que o General não lhe ofereceu um fardamento adequado para se portar melhor? - indagou ele, com nítido deboche na face.

Revirando os olhos, Rosie suspirou, imaginando como conseguiu manter a calma até aquele ponto - o que já considerava uma primeira vitória contra a ansiedade crescente. Andou alguns passos à frente, olhando fixamente para aquele que o insultara.

- Algum problema com minhas vestes, soldado? - perguntou ela, como que querendo transparecer ingenuidade para surpreende-lo depois.

- Ora, vê se não fala como se fosse o General. - disse ele, soltando uma risadinha. - Você não parece ter um complexo de liderança apropriado... O que o chefe viu em você para nos fazer acreditar que estamos seguros e que iremos ganhar essa? - seu tom tornara-se rude.

- Diz isso porque sou mulher? - disparou Rosie, retomando o sorriso irônico, mas sem esconder sua insatisfação.

O rapaz estremeceu, passando a olhar desconcertado para os colegas à frente que o fitavam com ar de zombaria e vergonha. Voltou-se para Rosie, parecendo nervoso por ter passado uma impressão antagônica à qual esperava.

- Bem... eu...

- Acharia engraçado se eu dissesse que roupas de bailarina ficam melhores em você? - perguntou Rosie, acertando em cheio seu alvo. A face cínica e zombeteira do soldado dera lugar ao completo desconforto e a total falta de segurança.

O jovem curvou os ombros, desviando os olhos desalentados para a floresta, indiferente à metodologia de Rosie.

A bela fitou o exército de homens com vigor.

- Alguém mais está afim de se manifestar contra ou preferem manter suas honras em prol de um bem maior?

A maioria balançara a cabeça em negação, as expressões estando sérias e, desta vez, com determinação reconhecível e autêntica. Ao que parecia, a camada que fazia Rosie ser alguém impenetrável quanto à críticas destrutivas e piadas fizera com que boa parte daqueles homens, incrédulos quanto a uma liderança executada pelo sexo oposto, levassem sua força de vontade à sério. Satisfeita, Rosie dera as costas, andando com a postura mais reta e perseverante que poderia apresentar.

- Foi o que pensei. - disse ela, subindo uma parte íngreme do solo da floresta.

O mutirão acompanhou-a, muitos andando com certa dificuldade devido ao pesado equipamento sobre as costas. As futuras dores eram as únicas recompensas visíveis após o fim do serviço. Alguns resmungavam, relutantes quanto ao colocar suas vidas em risco em uma missão cujo conteúdo era de extrema gravidade e com teor de escala extraordinária.

Ainda que suportasse as conversas em baixo tom - certamente a seu respeito -, Rosie continuava andando, mantendo sua brava coragem intacta. Ela sorriu levemente, imaginando com expectativa quem poderia estar encarcerado na prisão da fábrica. "Será Alexia? Adam? Lester ou Êmina?".

O menos provável, obviamente, era Charlie. A jovem sentiu a presença do soldado encarregado de vigia-la, mas algo parecia errado e estranho... Um instinto suspeito de perseguidor com intenções ocultas. Hesitou em olhar para trás, concentrando suas atenções no exército que a acompanhava e no destino a seguir.

Com as mãos para trás, o soldado Heller seguia tranquilamente Rosie, um pouco distante do grupo... sem tirar os olhos dela nem por um minuto.

                                                                                          ***

As ataduras nas costas pareciam mais macias sendo colocadas por aquelas mãos cuidadosas.

Os pensamentos de Hector se sobrepunham uns aos outros, enquanto seus ferimentos eram tratados por Eleonor. A bruxa detectara pequenos cortes abertos e escoriações de moderado grau no corpo do caçador. Estavam numa parte pouco iluminada da biblioteca improvisada: Hector, de costas para ela, sentado sobre uma mesa velha e Eleonor mexendo em uma caixa de primeiros socorros.

Mal acreditava que voltara a encontrar aquela mulher e da maneira mais súbita e inesperada possível. "Ela se recusa em responder minhas perguntas desde que chegamos aqui...".

Erguendo um pouco a cabeça, Hector respirou bem fundo antes de falar.

- Acho que já está bom. Me sinto bem melhor agora. - disse, lutando contra a vontade de agradecê-la.

- Não, mocinho. - ditou ela, o tom sério. - Não está nada bem. - fechara a caixa, colocando-a no chão. - Hector, preciso que me ouça... Eu sei que está profundamente chateado comigo e exige explicações, mas não se trata mais de nós.

O caçador olhara-a por cima do ombro, cético.

- É pouco para me convencer, não acha?

- Acredite... eu sacrificaria qualquer coisa para desfazer todos os meus erros. - disse Eleonor, o olhar tristonho, denotando arrependimento.

- Como o quê, por exemplo? - indagou Hector, soando irritado.

- Agora isso não importa. - disse ela, dando a volta na mesa e colocando-se diante dele. O olhou fundo nos olhos. - Nada pode mudar o que eu comecei e estou disposta a assumir os riscos que me forem impostos. Eis a razão de eu ter que mante-lo preso aqui: Rosie.

O caçador franziu o cenho, atordoado com o motivo.

- Desculpe... - disse ele, passando a mão pelo rosto, cansado. - Eu pensei ter ouvido você menciona-la enquanto me levava para fora da casa. Mas todos os sons... estavam tão vagos e abafados. Mas com certeza deve ter sido em decorrência do efeito daquela bala...

- Ah sim, eu já sei. - disse ela, sorrindo forçadamente e olhando para o chão. - Gostaria que eu fosse uma alucinação como um segundo efeito colateral.

- Agora que me encontro são e salvo, não sei se teria sido a melhor coisa que fosse me ocorrer. - respondeu ele. - Aquele homem misterioso estava prestes a me matar... e... - ele hesitou por um instante, baixando a cabeça.

Eleonor rira levemente.

- Está bem, não há necessidade de me agradecer, não quero obriga-lo à nada...

- Não, eu faço questão. - interrompeu ele, tocando-a no ombro. - Obrigado. - conseguira dizer, por fim. - Mesmo com o que me fez passar...

- Shhh... - chiou ela, colocando seu indicador nos lábios do caçador para silencia-lo. - Já chega. Que tal não remoermos o passado e nos unirmos novamente? Tive a chance de voltar, de reencontra-lo, e agora tenho uma oportunidade de me redimir. Mas apenas se você me permitir fazê-lo.

Hector a fitara por alguns segundos, parecendo confuso. Vislumbrava uma súplica ardente nos verdes olhos daquela mulher, parecendo querer fazer despertar o pouco da confiança que havia restado... as sobras de um tesouro perdido numa noite trágica. "Não sei o que pensar. O que faço? O que digo?".

Limpando a garganta, Hector assentiu.

- Sim, você possui total liberdade para fazer o que bem entender se quiser reconquistar minha confiança. Mas eu não posso... não posso correr um novo risco que coloque minha humanidade em total perda. Você é imprevisível demais e por isso devo continuar seguindo sozinho...

- Ora, mas que merda! - reclamou ela, aborrecida. - Será que vou precisar desenhar para que você entenda de uma vez? Eu quero ajuda-lo, Hector. É disso que estou falando! Agora é a hora de mostrar que posso corrigir as lembranças de minhas falhas, preenche-las com um bem que sei ser capaz de fazer.

- Ah, então acredita piamente na sua magia para tentar me salvar de algo que já se apossou completamente de mim?! - disse Hector, balançando a cabeça negativamente. - Na sua magia? Sinto em lhe dizer, mas uma ironia foi esquecida.

- Sim, Hector, é exatamente isso que quero dizer. - disse a bruxa, cruzando os braços, mostrando-se inabalável quanto à crítica. - Obviamente, não existe uma cura para o mal que eu lhe causei, mas eu posso mantê-lo sob controle absoluto.

Hector sorrira... logo deixando-se entregar por uma risada nervosa e zombeteira. Eleonor ficara pensativa, tentando manter a paciência.

- É mesmo? - perguntou o caçador, ainda rindo. - Inacreditável. E incrivelmente irônico! Depois que sou salvo de um atentado contra mim, a mesma pessoa que idealizou minha transformação e minha completa ruína como ser humano agora está bem aqui, diante de mim, tentando me convencer de que a mesma coisa que me transformou em um monstro pode me salvar. Para quê? Ah claro, para se redimir de um ato inconsequente e desesperado! - tornou a assumir um tom sério e elevado. - E agora estou sendo mantido refém por essa mesma pessoa...  que alega querer me ajudar a fortalecer um controle que já consegui faz tempo...

A bruxa, irritada, dera uma bofetada forte no rosto de Hector.

Andara para um lado, cabisbaixa e nervosa.

- Seu idiota. - disparou ela. - Como pode ser tão cego?

Esfregando de leve seu rosto, Hector gemera um pouco devido a uma certa dor na bochecha. "Que tipo de ser estúpido eu sou?", pensou, culpando-se pela maneira como havia se manifestado. Olhara para Eleonor, vendo-a com as mãos no rosto, provavelmente passando os dedos pelos olhos. "A fiz chorar? Por favor, vire-se e mostre que estou errado.", preocupou-se ele, temeroso quanto ao peso da mensagem.

Tentou se pôr de pé, sentindo algumas pontadas suaves. Seus pés descalços tocaram o frio chão da biblioteca e um intenso arrepio passou-lhe pelo corpo. Respirou fundo, aguentando o incômodo. Andara até Eleonor com certo esforço, imaginando uma forma que lhe fosse menos dolorosa para protestar a respeito do aparente cárcere privado benéfico.

- Eu propus uma reconciliação - disse Eleonor, a voz comovida. - e é assim que você se expressa. Deveria ter imaginando que essa maldição fosse torna-lo rancoroso.

- Não estou guardando rancor. - defendeu-se Hector.

- Então porque está agindo como se não se importasse mais com as pessoas que querem ajuda-lo? - perguntou ela, virando-se para ele abruptamente.

- Rosie me submeteu a um teste que quase custou minha própria vida. E eu aceitei de corpo e alma, além de conseguir provar meu auto-controle. - disse o caçador, aproximando-se mais da moça.

- E onde ela está agora? - perguntou Eleonor, apreensiva sobre a condição da neta.

- Foi levada por caçadores até uma base de acampamento para se preparar para liderar um grupo... - ele titubeou, incerto sobre o impacto que o fato teria sobre a bruxa. - ... que vai estar encarregado de desmanchar uma das últimas instalações criadas pelos soldados de Abamanu.

A afirmação de Hector parecia querer esmagar o coração da mulher. Lívida, Eleonor encarou o vazio por um instante, divagando sobre o que pode ter acontecido... ou do quanto se sentia ingênua.

- Espere. Eu achava que...

- Não. - disse Hector, balançando a cabeça negativamente. - Infelizmente... fracassamos em impedir Mollock nas Ruínas Cinzas. Além disso, fomos praticamente escravizados... e quase mortos.

Eleonor aparentava estar trêmula diante da visualização aterradora que acometia sua mente.

- Eu sinto muito. - disse ela, tristonha. - Devia ter pensado melhor... Acho que... - uma lágrima escorrera pelo seu rosto. - ... Sinto que deveria ter estado lá, lutando junto à vocês. Mas fui novamente consumida por esse... egoísmo... esse orgulho. - levou a mão ao peito. Olhou para Hector, na busca de algum consolo.

O caçador, contudo, não parecia estar disposto a considerar uma segunda chance.

- Talvez agora... possa estar conseguindo enxergar a oportunidade que teve para voltar atrás. - fez uma pausa, pondo uma mão sobre o ombro da bruxa. - Eu gostaria de poder voltar a sentir a confiança que eu tinha em você naquela época. Mas não... Eu preciso deixa-la que descubra sozinha. Não espere curar meu arrependimento me fazendo acreditar que não sou bom o bastante para salvar Rosie, mesmo depois de ter provado que sou mais forte do que meus demônios. - olhou-a bastante fundo nos olhos, aproximando seu rosto ao dela. - Eu preciso estar ao lado dela. Eu tenho que estar. Foi uma promessa... Ela precisa de mim nesse exato momento. - argumentou, seu tom baixo transmitindo certa calma.

- Não... Está completamente enganado. - disse Eleonor, tocando o caçador nos ombros, deixando-se levar por uma leveza instantânea, olhando-o de modo sedutor. - Nós precisamos um do outro. Ainda não está pronto. - foi aproximando seu rosto calmamente - Vou torna-lo merecedor. Não de cumprir esta promessa que certamente não foi algo que Richard o incumbiu. Mas sim de um poder que vai favorece-lo e muito sobre controle... força... e precisão.

Subitamente, Eleonor colidira seus lábios com os de Hector, em um beijo caloroso e ardente. Sem nenhuma chance de conseguir se desvencilhar - devido aos inebriantes olhos verdes que havia encarado -, o caçador sentiu seu âmago ser invadido por uma torrente de sensações indistintas. manteve os olhos bem fechados por vários segundos... até que os abriu arregalados, apresentando um estranho brilho azulado nas pupilas. A bruxa manteve sua boca praticamente fixa na do caçador por um longo instante, abraçando-o com uma suavidade entorpecente.

Quando, por fim, conquistara sua glória, Eleonor se afastou poucos metros, olhando seu parceiro com alegria estampada no rosto na forma de um sorriso amigável. "Fácil demais". De fato, fora uma artimanha bem calculada e prevista. Enquanto estava de costas para o caçador, a moça fingiu tristeza pelas palavras ingratas ditas pelo mesmo para que o fizesse pensar que ela estava debulhando-se em lágrimas de modo discreto. Mas, na realidade, era apenas um ganho de tempo para premeditar um feitiço. O conceito era simples: Marcações de símbolos que gerariam a magia pensada, algo que atingiria o alvo facilmente.

Primeiramente, Eleonor marcara a palma da mão com um símbolo comumente usado na bruxaria e o beijara em seguida. Por último, e não menos importante, deveria-se transferir a magia extraída da marcação para a vítima através um beijo, da mesma forma como ocorreu inicialmente. Era uma prática comum para as bruxas mais audaciosas e motivadas a verem suas vítimas da forma como querem, e que consistia em deixar o infortunado completamente imerso em uma ilusão criada pela mente dominada pela magia transferida, o que permitia-o criar mundos próprios, sejam utópicos ou desastrosos.

"Me perdoe, Hector, foi o único jeito que encontrei para fazê-lo ver que estou certa... que posso ser uma bruxa menos errática.".

- Onde estou? - perguntou o caçador, ingenuamente olhando ao redor. - Este lugar... me fornece uma sensação bem prazerosa, devo dizer. - sorrira, contente.

- O que está vendo? - perguntou Eleonor, olhando-o com expectativa.

- Um ambiente arejado... repleto de estantes, livros, mesas, lamparinas e janelas. E o teto... nossa, que incrível! - disse ele, olhando para cima, radiante, cobrindo a boca com a mão em seguida. - Este é, simplesmente, o melhor abobadamento que já vi em toda minha vida, sem dúvidas! - andou rápido pela biblioteca, maravilhado com o que estava vendo.

Eleonor pegara as roupas do caçador que estavam penduradas em um cabide afixado numa parede. Entregara-as educadamente.

- Hector, aqui está. Seria péssimo se as esquecesse.

- Oh, obrigado. - disse ele, recebendo as vestes, pegando-as com cuidado, sem deixar de passear os olhos pela sala. - É um agradecimento duplo, quero que saiba.

- Pelo quê? - indagou Eleonor, fingindo não saber.

- Por ter me trazido até aqui. - a olhou amigavelmente, mostrando-se sinceramente agradecido. - Você me fez alcançar a paz que eu tanto almejava. Graças ao seu incentivo, isso foi possível. - vestira a camisa o sobretudo apressadamente.

"O feitiço se manterá funcional por pelo menos 48 horas, devido ao meu nível de prática. É só uma questão de tempo para que eu o convença a se unir à mim e só assim poderei agir com meu método para deixa-lo mais forte.", pensou Eleonor, acompanhando-o em direção à porta de um armário... a qual ele enxergava ser a saída da "vasta" biblioteca a fim de experimentar o ar aprazível do mundo externo.

- Bem... - disse Eleonor, tocando a maçaneta. - Imagino que deve estar ansioso para ver como o mundo é lá fora. Está livre para dar pulos e cambalhotas de felicidade, se quiser. - ela rira levemente.

- Não, melhor não. - disse ele, referindo-se aos pulos, rindo também. - Prefiro apreciar a beleza desse mundo de um modo mais reservado, contido. Acho que aqui se tornou meu novo lar. Eu vou ler o que estiver a meu dispor, expandir meu conhecimento sobre tudo o que me interessa. - ele fez uma pausa, alterando a expressão. - Na verdade, sempre foi meu sonho morar numa biblioteca deste tamanho. - olhou para Eleonor com certa admiração. - Quem é você? Uma deusa no corpo de uma mortal?

A pergunta pegara-a de surpresa. "Por favor, sem exageros.", pensou ela, corada e sorrindo timidamente. A modéstia era o sentimento mais árduo de se reprimir ou esconder para a bruxa. Sem responder, abrira a porta rapidamente. Sorrindo, ela estendeu o braço direito para o lado de fora, concedendo permissão para que o caçador saísse primeiro.

Uma luz dourada banhou o rosto admirado de Hector esplendorosamente. O jovem caçador-detetive dera passos lentos para frente, sentindo a grama fresca e o frescor do ar atravessar seu corpo. A paisagem era notoriamente magnífica. Um absurdamente espaçoso campo gramado, com algumas árvores ao longe, além de um lago contendo os mais belos cisnes. O sol estava poente no horizonte, entre as montanhas longínquas. O céu azul meio alaranjado proporcionava ainda mais exuberância.

Observando tudo com atenção, Hector sentia algo que parecia não ter vislumbrado por um bom tempo: Uma felicidade genuína. Todavia, estava sério e divagante diante de toda aquela vista. Seus pensamentos mostravam-se confusos.

- Que coisa estranha. - disse ele, baixando a cabeça, pensativo. - Por qual motivo eu estaria pensando que isso tudo não me pertence?

Eleonor vinha andando a poucos metros atrás dele, olhando-o atentamente.

- Por que ainda precisa vivenciar esta nova vida de forma mais simples e forte. - aconselhou ela, sem tirar os olhos dele. - Nunca é tarde para voltar acreditar em si mesmo, Hector. - desviou a atenção para o pôr-do-sol à frente, tocando em seu belo colar de esmeralda. - Nunca é tarde demais.

                                                                                          ***

A pressa que cegara Eleonor havia deixado escapar um deslize. A porta da biblioteca estava entreaberta... uma fresta perfeita para curiosos olhos humanos espiarem sem nada a temer. Olhos azuis claros observaram cada detalhe.

Quando vira a porta do armário abrir-se e as duas pessoas entrarem, Alexia abortou a "missão" e resolveu encostar-se na parede, suando de tanta perplexidade. Sua expressão era um misto de surpresa e descrença. Contudo, era mais real do que imaginava. "O que ela fez com Hector?", perguntava-se ela, preocupando-se acerca da magia utilizada por Eleonor para manter o caçador menos tenso. "Uma ilusão... ou simplesmente um feitiço de insanidade.", conjeturou ela, sentindo-se revoltada com o que vira.

A bruxa esquecera-se de trancar a porta antes de cuidar dos ferimentos de Hector. A porta que levava ao porão não possuía chave e mantinha-se fechada sem estar trancada, logo, naturalmente, permitindo que qualquer pessoa descesse a escada que direcionava-se à porta da biblioteca.

Deu uma nova olhada pela fina brecha, desta vez bem rápida. O armário continuava aberto.

Correra até a escada, subindo desesperadamente os degraus, cautelosamente sem tentar produzir nenhum ruído. A vidente se viu obrigada a agir prontamente para reverter as possíveis consequências adversas que aquele ato poderia desencadear.

E, felizmente, sabia onde se armazenavam os prováveis livros contendo feitiços reversivos. "Não custa nada tentar. Sejam lá quais forem as intenções dela... eu preciso impedi-la! Se estiver obcecada, pode acabar o matando!".

                                                                                          ***

Estranhamente, Rosie sentia um clima estorvante. Andou com passos mais apertados pela trilha de cascalho que direcionava-se à uma das portas da instalação - que nada mais era do que um aglomerado de cubículos cinzas praticamente empilhados um no outro, dando-lhe um aspecto rústico e incômodo de certa forma.

A jovem pôs o capuz escarlate sobre a cabeça, enquanto forçava uma extrema vontade de olhar para trás... para o homem que a seguia, mantendo-se incansavelmente vigilante. "Algo não está certo aqui.".

O exército de homens já havia sido dividido, as equipes encaminhadas para várias direções nas quais pudessem se deparar com as aberrações que faziam guarda no interior do gigante de concreto e fazê-las congelar até o grau mais absolutamente baixo.

O soldado Heller pôs-se de lado à Rosie, adquirindo o mesmo ritmo da caminhada. Tirara o boné e o jogou para um lado, em seguida olhara para a jovem como quem quer emitir uma mensagem urgente.

- Senhorita Campbell... Não acha um tanto imprudente não estar usando a máscara? - perguntou ele.

Para demonstrar sua despreocupação com qualquer risco de infecção pelo gás que era expelido da alta chaminé, Rosie jogara a máscara fora.

- Pode parecer estranho para você, mas... - disse ela, incerta. - ... algo me diz que não devo temer essa substância. - ela o olhou, séria. - Como se, de alguma forma, eu fosse imune à ela. Você é quem deveria estar usando.

Heller a fitou com uma suspicácia misteriosa. Ele rira em seguida.

- A quem estou querendo enganar? Estar se dirigindo à mim de uma maneira nem um pouco formal, já é uma evidência suficiente. - ele sorriu, parando de caminhar.

Rosie franzira o cenho para ele, desconfiada.

- Do que está falando? Que evidência?

Heller parecia infantilmente empolgado, parecendo reprimir uma risada.

- Não faz a menor ideia de como seu interior está agindo sobre seus instintos. - alterou o semblante, tornando-se sério. - É uma pena que deva saber desta forma...

De repente, a aparência do esbelto soldado assumira a de outra pessoa completamente diferente em questão de milésimos. Um caçador loiro com cabelos semi-espetados, de olhos azuis, vestindo um colete de couro marrom escuro e uma camiseta branca. Um sorriso irônico se formara no rosto meio gordo do rapaz, seguido de um olhar que parecia querer captar uma reação perplexa por parte de Rosie.

A jovem balançara a cabeça, afastando-se lentamente enquanto o encarava com incredulidade.

- Isso... isso não pode estar acontecendo! - disse ela, irritando-se com a revelação repentina. - Quem é você, afinal? Aliás, o que é você?

- Vamos com calma... e por partes, se não for pedir muito. - disse ele, erguendo levemente uma mão para acalma-la. - Em primeiro lugar, passo longe de ser um inimigo. E em segundo... estou muito ansioso para começar minha diversão. - ele sorrira.

Rosie desembainhara uma adaga velozmente, apontando-a direta e proximamente à garganta do caçador. O rapaz fitara o metal da lâmina, espelhando disformemente seu rosto, todavia, parecendo fingir nervosismo.

- Então é bom começa-la me dizendo quem é você, de onde veio e o que faz aqui? - exigiu Rosie, rigorosa.

Subitamente, um calor instantâneo superaqueceu a lâmina da adaga - tornando-a alaranjada -, fazendo com que Rosie a largasse de imediato, queixando-se da sensação dolorosa ao sacudir a mão.

Olhou-o por um breve instante, estreitando os olhos. O mesmo retribuiu com um "sim" com a cabeça e um sorriso enigmático.

- Então, você é...

- Isso, exatamente o que deve estar imaginando. - concordou ele, andando para um lado. - Foi a única chance que vi para que fôssemos apresentados formalmente. Sou Mihos, herdeiro de Yuga... e, bem, filho da fêmea psicótica que quer transformar você em pó.

"Só pode ser brincadeira!", pensou Rosie, desnorteada.

- Deixa eu adivinhar: Você foi enviado por seu pai até aqui para forçar minha decisão com relação à proposta que ele fez. É isso?

Mihos dera uma risadinha.

- Honestamente, eu vim por conta própria. As ordens de meu pai, digamos, perderam seus significados, tanto é que não o vejo há tempos. - relatou ele, mostrando-se determinado. - Não me pergunte o que ocorreu à ele. Ultimamente, apenas o mensageiro é quem detém as atualizações.

- Áker!? - disse Rosie, empertigando-se e chegando mais perto. - Sabe onde ele está?

- Até parece que alguém como eu obteria o direito exclusivo de reportar fatos acerca do arauto, ainda mais para uma mortal. - disse Mihos, olhando-a com certo interesse.

- Mas você é o filho de Yuga! - insistiu Rosie, impaciente. - Além disso, não parece conivente com os ideais de Sekhmet... sua mãe, por mais incrível que isso possa parecer. - disse, revirando os olhos.

- Espere um pouco... - arqueou uma sobrancelha, seriamente desconfiado. - O que a leva a assumir como fato o que está bem diante de seus olhos? Ou o que parece estar, dependendo da forma como está me vendo.

- O que quer dizer? - perguntou Rosie, fazendo cara de confusa.

- Veja bem: Até onde eu pude saber, os mortais, em sua maioria, são céticos por natureza. - ele inclinou-se levemente à ela, estudando-a com minúcia. - Faz parte da massa de incrédulos que é incapaz de abrir a mente para fatos que lhe pareçam... extraordinários?

- Não. - respondeu Rosie, secamente. - Com toda a certeza, não. - seu tom parecia irritado.

- Hum, que bom. - disse ele, tornando a andar calmamente para um lado, com as mãos para trás, observando a estrutura gigantesca à frente. - Bom também saber que não parece me temer, nem suspeitar de mim.

- Não tenha tanta certeza. - retrucou Rosie, encarando-o. - É melhor que diga para quê veio, senão...

- Senão... - disse ele, virando-se para ela. - ... o quê? - olhou-a firmemente.

Rosie suspirara olhando para as portas dos fundos, deixando nítido seu aborrecimento.

- Pra começar... - disse Mihos, dirigindo-se à ela. -... não sei o que meu pai viu em você para prefira-la e colocar o destino de uma guerra desnecessária nas suas mãos. Mas também não posso dizer se ele fez uma boa escolha ou não.

- E como você se vê no meio de todo esse caos? - questionou Rosie.

- A neutralidade é minha arma mais eficaz. - aproximara-se da jovem, o ar um tanto soberbo. - Finalmente pude encontrar o momento mais propício para saciar esta fome que me consome desde o dia em que nasci. Sabe qual foi a pior ideia que meu pai já teve sobre mim? - fez uma pausa, tirando um palito do bolso e passa-lo entre os dentes. - Foi algo completamente absurdo. Ele tentou me prender na pior prisão do universo, só porque eu tentei esmagar alguns soldados para minha refeição diária, recomendada por... por mim mesmo. Mas se existe algo que é justo entre nós... é o amor que tenho por ele. Nunca tive a chance de confrontar aquela tirania... aquela incompreensão pelos meus motivos para matar... apenas por eu o amava... por que eu queria preservar algo que poderia ser destruído com uma única falta de respeito.

Jogara o palito fora, voltando-se novamente para Rosie.

- Se me der licença, preciso preencher o vazio... antes que meu pai acorde e me ponha no verdadeiro vazio. - dera uma risada de caráter escarniante. - Ah, também diga para seus superiores que, infelizmente, haverá baixas na equipe de mortais que acabou de entrar nesse palácio de pedra.

Estremecendo, Rosie mostrou-se inquieta com o que aquela afirmação lhe dizia.

- O que planeja fazer? Matar vários soldados!?

- Não sabia que mortais respondiam suas próprias perguntas. - zombou Mihos, recuando alguns passos, cuidadosamente. - Mas sim, é verdade. Eu preciso. Eu necessito me alimentar... não posso contrariar minha natureza. Acredito que você também não deva fazer isso. Minha mãe, cedo ou tarde saberá onde você está. E, presumo eu, que você sabe o que tem que fazer.

- Não vou me arriscar novamente lutando contra ela! - disse Rosie, fervendo em cólera. - Ela chegou perto de conseguir me matar, se não fosse por Áker isso teria acontecido.

- Ah sim, havia esquecido que o mensageiro é sua escolta... ainda que não seja permitido, até posso imaginar como minha mãe reagiu à essa irregularidade. - disse Mihos, olhando rapidamente de esguelha para a sua direita.

- O quê!? Que irregularidade? Me diga, por favor! - suplicou Rosie, logo sobressaltando-se com um estrondo abrupto. Olhou para sua esquerda e avistou cerca de quatro miméticos correndo furiosamente em direção à ela, os olhos negros pulsando de ódio. Haviam arrombado a porta após detectarem presenças indesejáveis. Rosie voltara-se para ele com pressa, desesperada. - Você tem que me dizer rápido! Áker cometeu algum erro?

- Não cabe a ele protege-la da ameaça de minha mãe. - argumentou Mihos, bastante sério. - E ela reconhece o quão grave isto é. Qualquer ato de vontade própria cometido por um servo designado a cumprir uma única ordem pode colocar a reputação do império em jogo. É uma pena mesmo. E nem vou criar especulações, já que não faço a mínima ideia de como isso vai acabar, e quero estar bem longe para não ver uma catástrofe.

Olhando novamente para o grupo de infectados que se aproximava rapidamente, Rosie percebeu que sua única chance de conseguir adentrar em um dos compartimentos era matando-os de modo rápido e preciso... mas com uma ajuda extremamente improvável.

- Ao menos me ajude a acabar com aqueles malditos. - pediu ela, o olhar demonstrando carência.

Ao vislumbrar os monstros correndo até eles ferozmente, como feras selvagens e ensandecidas, o herdeiro de Yuga não precisou pensar duas vezes na sua conclusão.

- Lamento. Eles não são apetitosos. - disse, fazendo uma cara de enojo. Erguera a mão, logo estalando os dedos.

Sumira num piscar de olhos, em velocidade impensável. Rosie olhara para os cantos, procurando-o, achando ser alguma brincadeira e que ele fosse tentar surpreende-la ao querer ajuda-la. Mas provou-se o contrário. "É, não tenho outra saída..."

A jovem iniciara uma frenética corrida em direção a alguma porta que houvesse do outro lado, só cogitando parar para reaver o fôlego quando já tiver entrado.

Os miméticos mudaram o curso e seguiam Rosie exatamente naquela direção. Alguns estavam completamente fora de si, babando o líquido negro e o mesmo escorrendo pelos olhos.

"Não vou conseguir!", desesperou-se ela, deparando-se com outro compartimento de concreto e a porta de entrada para o mesmo. Sentia intensamente a velocidade com a qual aquelas abominações utilizavam para abocanhar suas presas. Já os sentia próximos o suficiente para perpetrarem o ataque.

Antes que a mão de um deles acabasse agarrando e puxando sua capa vermelha, Rosie fora rápida ao empurrar com as duas mãos a porta de madeira degastada e fecha-la no mesmo ritmo. Entretanto, o antebraço de um dos miméticos impedira o fechamento, em uma insistência desesperadora para conseguir entrar e agarrar aquele corpo com força esmagadora. A mão suja de líquido preto tentava, a todo custo, forçar uma entrada dramática. Rosie podia ouvir os rosnados das criaturas, enquanto colocava seu peso contra a porta para impedi-los. Seu ombro esquerdo já começava a ficar dolorido.

Após ver que sua tentativa não duraria por muito tempo, a jovem resolvera sacar uma adaga, logo em seguida cortando verticalmente o antebraço furioso do mimético. Um jorro de líquido negro saiu em abundância do corte, parte dele espinchando na parede. A porta fora, enfim, fechada, e o membro decepado caíra imóvel no chão sobre a poça negrejante.

Encostando-se na porta, fechou os olhos, tentando recuperar o ar.

Alguns sons de estouro e bem abafados vindos do outro lado a despertaram do descanso. Virou-se e puxou o ferrolho de uma pequena abertura retangular na porta. Seus olhos esbugalharam-se em espanto ao ver o que acabara de ocorrer. Um lampejo de memória lhe deu calafrios. "Hector tinha razão! Pelo menos ele não mentiu sobre os desenhos.".

Corpos e peles estraçalhados e horrivelmente despedaçados se banharam com volumosas poças do líquido espesso. Delas, emergiam figuras, gradualmente adquirindo formato humano. Rosie pensou em correr... mas, por alguma razão, sentiu-se obrigada pelo medo a ficar e observar o final do horrendo processo. "Eles explodiram... o segundo estado...". Os seres, totalmente compostos da substância preta, pareciam serem sombras sem face, movendo-se lentamente até que se "solidificassem".

Fechando a abertura, Rosie correra novamente. O corredor era fracamente iluminado por lâmpadas fluorescentes brancas. Arrepios na barriga faziam a jovem rememorar a mesma sensação que tivera enquanto tentava escapar do bunker junto à Hector. Para o aumento de sua aflição, um medo que soava irreconhecível a dominou completamente. Uma batida na porta fora ouvida. "Mas o que é isso? Agora mesmo sinto como se estivessem prestes a me alcançar e me atacar! O que eles possuem de tão especial que me faz sentir tanto medo?".

De súbito, esbarrara fortemente com um soldado do Exército que havia vindo de outro corredor à esquerda. Tentando se reorientar, pondo a mão na cabeça, Rosie tinha a impressão de que o mundo à sua volta girava loucamente. Olhara para o soldado, lívida.

- Senhorita Campbell... err... me desculpe... - dizia ele, a voz abafada devido à máscara protetora.

- Não, está tudo bem... - respondeu Rosie, virando o rosto rapidamente para a porta. As batidas não cessavam nem por um minuto. - Não... não está! - voltou-se para o soldado, tocando seu ombro. - Há miméticos querendo arrombar. Deixe que entrem e ataque!

Assentindo com vigor, o soldado acionara a principal função do pesado aparelho que carregava nas costas. Apertara um botão em um pequeno motor de metal preto preso à sua coxa direita. Um ruído frugal se fez no interior do aparelho. O soldado sacara o disparador em formato tubular - o mesmo ligado à mochila metálica - e andara em direção á porta apressadamente.

Rosie retomara seu curso, rumando pelo restante do corredor a passos largos, mas dando constantes olhadelas nervosas para trás a fim de ver como o soldado se sairia em seu embate contra aqueles seres abomináveis.

A última batida, por fim, fora produzida, impactante. Os errantes cobertos de preto invadiram compartimento adentro à uma velocidade estarrecedora.

Uma fumaça gelada fora despejada pelo fino e comprido tubo, o qual seu portador o segurava com bastante firmeza. O soldado continuava se aproximando, girando um grande botão do motor, unicamente utilizado para aumentar a potência. Os miméticos contorciam-se agitadamente, sendo parados de modo abrupto no meio do caminho, a densa rajada congelando seus corpos em questão de segundos. Uma das regras proferidas durante o treinamento havia sido estritamente clara: Seria necessário que mantivessem-se os alvos em locais relativamente pequenos ou não muito exíguos, o que facilitaria um ataque direto e preciso, aliado ao poder congelante e os limites que a tecnologia proporciona - o que não, contudo, não incluía o zero absoluto. A temperatura mínima para deixar o alvo inerte por tempo suficiente seria de - 120ºF. Naquele caso, portanto, o número cairia bem.

O soldado ficara observando, entortando a cabeça e inclinando o corpo várias vezes para estudar os aspectos e características daqueles seres. Os quatro haviam se tornado praticamente estátuas de gelo. A observância também inclua notar se chegariam a fazer movimentos nos dedos, por mais leves e imperceptíveis que fossem.

Rosie já se encontrava um pouco longe dali, correndo para a parte menos iluminada do corredor. As portas duplas no final foram abertas por ela com estardalhaço seco. Se recostou numa parede, tentando descansar o máximo de tempo que precisaria.

Estranhamente, podia ouvir sons extremamente abafados... os quais logo distinguiu seres gritos, parecendo virem do outro lado da parede na qual estava encostada. Arregalando um pouco os olhos, Rosie compreendera. "Ele já começou! Droga!".

Embora não parecesse a intenção de Mihos arruinar com toda a missão, era sabido que o mesmo pouco se importava com as implicações desconfortáveis que seu desejo irreprimível poderia acarretar. Algum sobrevivente poderia reportar o incidente ao General ou para qualquer soldado que pudesse encontrar pelo labirinto de corredores que aquela fortaleza de concreto possuía. No caso de se perderem, deveria-se lançar granadas para explodir as paredes e portas.

Tirando o amuleto  de Yuga de um dos bolsos, Rosie intencionou chamar Áker para auxilia-la secretamente a respeito de Mihos e da possível investida de Sekhmet. Pôs o minúsculo objeto na palma da mão esquerda, recitando um pedido de ajuda urgente.

- Por favor, Áker... Preciso que venha rápido... eu preciso de você, Sekhmet pode vir a qualquer momento e vou estar em perigo. Agora mesmo, por favor.

Guardara-o, e esperava-o, olhando para os lados. Passados trinta segundos.... quarenta... um minuto... e nenhuma aparição repentina.

"Mas o que houve?", pensou ela, desconcertada. Tentara novamente... aguardara... e o mesmo insucesso. Bateu o pé direito no chão, demonstrando raiva.

- Merda! - praguejou, recostando-se na parede e olhando para o teto, angustiada.

Pensara em Hector e no que haviam feito com ele ou onde ele poderia estar naquele momento. Embora soubesse que era forte o bastante para ser imune ao gás tóxico, nada garantiria que não seria possível ser infectada pelo estado líquido da substância. "Jamais senti tanto medo antes. Foi como se algo estivesse prestes a me alcançar e me consumir por inteira. Um pesadelo se aproximando. Significa que devo me manter longe, muito longe do último estágio. Tudo começa a fazer sentido. Esse poder... está aos poucos me mostrando quem devo ser e o que devo fazer para superar cada obstáculo... e me tornar o que estou destinada a ser.".

Passos apressados ouviam-se à distância, ao longo do corredor. Pensando serem mais soldados á caça dos miméticos que ainda estavam espalhados, Rosie se lançou a correr novamente, sacando duas adagas para se prevenir de ataques-surpresas.

O silêncio de toda aquela estrutura causava tensão em nível agudo.

                                                                                          ***

- Para trás! Agora! - berrava o soldado, desmascarado, seu semblante apavorado. Apontava o disparador de fumaça congelante para seu opressor... que se avizinhava a calmos passos, mostrando-se ameaçadores.

O homem de corte militar e rosto redondo recuava rapidamente, tremendo. Seus olhos ora voltavam-se para os corpos largados e banhados em poças de sangue, ora voltavam-se para a pessoa de corpo voluptuoso e sedutor que o afrontava. Os belos cabelos pretos e bem alisados, aliados ao sobretudo cinza, as calças de couro preto bem apertadas e os coturnos lhe davam a falsa ideia de alguém designado a lutar por justiça e honra.

- O que uma mera espiã faz no meio de uma missão sigilosa e especial como esta?! - disse o soldado, mostrando-se revoltado.

- Algo que certamente não diz respeito a um mortal estúpido com suas criações patéticas. - disse Sekhmet, observando-o com seus ardentes olhos azuis e chegando mais perto. - Quero ter a certeza disto! Talvez eu esteja o julgando precipitadamente. - aproximou-se com uma velocidade assustadora, logo em seguida puxando-o pela gola da farda. O olhou suavemente no rosto. - Deixe-me ver se és puro.

Propôs um movimento rápido, embargado com uma fantástica precisão, ao juntar dois dedos - indicador e maior - e penetra-los profundamente na veia carótida direita do pescoço do soldado. O jovem homem não encontrou forças nem mesmo para se debater, a dor o paralisou por completo, apenas deixando-o mover os músculos faciais que formavam uma expressão de puro pavor.

Uma hemorragia profusa espinchou do pescoço. A deusa retirara os dois dedos totalmente sujos de sangue, largando o soldado no chão, o mesmo tentando emitir algum grito enquanto tentava parar o sangramento.

Sekhmet, para comprovar sua teoria, pôs os dedos sujos na boca, sentindo o inconfundível sabor do sangue humano arder na língua. Uma sensação excitante de adrenalina a fez pensar em seguir em frente com a caçada.

- Não. - disse, olhando com frio desdém para o soldado ferido.

Passara por cima dele, dirigindo-se à porta do fim do corredor, deixando para trás uma extensa trilha de corpos ensanguentados, todos de soldados do Exército Britânico e caçadores.

                                                                                           ***

A parte central da rústica fábrica abrigava uma extensa sala mal-iluminada, repleta de grossos cabos metálicos espalhados pelo chão - estes conectados ao gigante furioso que exalava fumaça cinzenta e reproduzia barulhos rascantes e incômodos.

Na parte mais escura do compartimento, dois homens fardados militarmente se aproximavam...

Ambos ergueram as mãos e delas surgiram esferas de luzes alaranjadas. Agacharam-se e, finalmente, assentaram as duas energias de caráter solar no chão. Parte do piso irradiou um brilho de mesma cor - como se estivesse superaquecendo -, logo em seguida, por poucos segundos, desaparecendo.

Olharam para a enorme máquina barulhenta posicionada a alguns metros adiante, praticamente invisível graças ao breu do local. A fumaça negra produzida percorria um volumoso e pesado tubo de metal preto, direcionando-se à chaminé - felizmente a única daquela instalação.

- Hora de informamos ao chefe. - disse um deles, prestes a sair de lá.

- Não, não devemos tentar nenhum tipo de contato por enquanto. - decidiu o outro, categórico. - Passar pelas marcações já nos exigiu energia suficiente. Enfrentar aqueles soldados animalescos...

- Não há nenhum deles aqui.

- Como sabe disso?

- Os guardiões desta base não passam de meros combatentes temporários, o grupo de mortais pode assumir o controle facilmente. Confie neles, pelo menos por hoje. - aconselhou ele, apressado.

- Está bem. - aquiesceu o outro, andando até a saída. - Não sei se isto vai funcionar... Consigo sentir a presença de mais dois aqui.

- Um dos nossos? - perguntou seu companheiro, andando ao lado dele.

- Evidentemente não. - disse ele, o tom de preocupação, logo abrindo as portas duplas.

                                                                                                ***

A fúria das adagas de Rosie dilaceravam as cabeças daqueles malditos errantes. Desferindo golpes brutais nas faces dos miméticos, a jovem tentava encontrar uma maneira de sobressair ilesa e dar seguimento à missão. Derrubava cada um deles com um só corte, avançando aos poucos. Entretanto, um deles, ainda que estivesse combalido, agarrara velozmente a perna esquerda de Rosie. Caindo de joelhos, a jovem virou-se e tentou chuta-lo com a outra perna, dando desesperadas olhadelas para a frente, onde se aproximavam mais dois. "Seu nojento! Me larga!".

Ao perceber que certamente o tempo não seria aliado o bastante para faze-la safar-se daquela situação, Rosie sacara outra adaga e a lançara contra os que vinham. A lâmina dançou no ar, girando horizontalmente até cravar-se com força no meio da testa de um deles - este imediatamente caindo para trás no chão, o líquido negro gorgolejando do ferimento. Notando a insistência do mimético remanescente em querer puxa-la, Rosie utilizara outra de suas adagas e fizera um rápido e severo corte no braço do inimigo - o que a fez revisitar o ato de pouco tempo atrás quando conseguira entrar na fábrica. Sacudindo a perna para soltar o membro decepado, a jovem ignorou os gritos de dor do mimético. O mesmo se debatia, babando profusamente o espesso líquido, os olhos negros evidenciando seu desespero.

Levantando-se, Rosie o deixara, voltando a correr. Os gritos incessantes foram ficando mais distantes à medida que a jovem atravessava mais uma parte do excruciante labirinto de corredores às pressas. O suor descia pelo rosto. "Essa não! Eu devo estar perdida...", pensou ela, olhando aflitivamente para os corredores que se podia seguir.

"Devia ter considerado essa desvantagem. Abamanu pode ter os recursos necessários para me espionar... provavelmente, através de algum método, soube dos meus planos e da minha ligação com o Exército. Armadilhas... foi isso que ele pode ter premeditado! De tanto pensar na minha satisfação ao reencontrar um dos meus amigos... acabei não percebendo a chance de vários soldados se perderem, inclusive eu.".

Sem muitas opções, a jovem resolvera adentrar subitamente numa sala vazia, fechando as portas duplas com um baque que claramente chamaria muitas atenções. Virou-se de costas, mas voltara-se novamente para a porta, olhando pelo vidro quadrado à sua esquerda se havia alguém prestes a vir.

Suspirando de alívio, apenas se limitou a andar de um lado para o outro na iluminada sala de paredes brancas - bastante sujas dando-lhe quase uma tonalidade de cinza - e piso de concreto cinza escuro. Fechou os olhos, pensando nas possíveis saídas de emergência que teria.

- Ótimo, Rosie, você, por enquanto, está salva. - disse ela consigo mesmo, em voz baixa. - Agora só lhe resta descobrir o porque de Áker não estar respondendo. - fez uma pausa, fechando os olhos brevemente para recuperar a calma. - Mihos disse que haveria baixas... obviamente matando vários soldados... sem intenção de comprometer a missão. Ele não está aqui somente por uma diversão barata... - retirara novamente o amuleto, colocando-o na palma da mão. Inclinou-se para refazer o aviso. - Áker... eu preciso que venha, por favor. - sua voz começava a ficar trêmula.  - Mesmo não achando que eu vá morrer... sinto pelo fracasso que a missão de resgate pode ter se alguma armadilha for descoberta.

Esperara mais 30 segundos. Nenhum sinal, como na vez anterior.

- Ah, droga! Vamos, Áker, eu preciso de você! Se quer saber de algo importante... Saiba que... Eu não vou morrer... pois sou imune à substância que...

Um forte braço agarrando o tórax havia cortado a frase de Rosie. O minúsculo amuleto dourado deixou-se cair no chão, cintilante. Uma lâmina gélida e perigosamente afiada encostou em seu pescoço. Sentiu o ar escapar aos poucos.

- Adoro informações privilegiadas. - disse Sekhmet, bem ao pé do ouvido de sua refém, mantendo-a presa com bastante força. - Afinal, seria um terrível desperdício de disposição ter que se esforçar tanto para depois vê-la ser corrompida por um potente agente infeccioso. - agarrou-a com força, sem alterar a proximidade da média espada dourada que segurava para ameaça-la.

- Sua desgraçada... - disse Rosie, a voz embargada de apreensão e raiva.

- Sei que teve um contato direto com meu filho. É bom que ele apareça, pois ele terá que dar algumas explicações... antes de eu cortar sua garganta e arrancar de você aquilo que pertence ao meu amado.

- Olha... - tentou dizer Rosie, mostrando-se o mais calma possível. - Seu querido bebezão está se divertindo por aí... Nós dois prometemos nunca mais nos ver, e além do mais ele não está nem um pouco interessado em ajuda-la com essa sua insanidade...

- Tudo bem, já sei que está mentindo. Não tenho a menor intenção de debater com ele minhas motivações, ele jamais entenderia, não passa de um desinteressado que apenas quer saber de matar coisas sem o menor escrúpulo. - disse Sekhmet, andando um pouco para trás, mantendo Rosie "presa" à ela. - Mas não o condeno por isso, sendo que foi esse o aspecto que ele mais herdou de mim, e por essa razão me orgulho dele, por mais intransigente que seja. Mas... a questão, neste momento, é: Onde está seu amigo caçador? - dera um sorriso de presunção, olhando-a com máximo deboche. - Não era para ele estar junto à você nesta tarefa?

Rosie franzira o cenho, julgando estranho o interesse esboçado por Sekhmet para com Hector.

                                                                                          ***

- Parado aí! - bradou um soldado do Exército Britânico, a voz abafada por conta da máscara protetora contra gases tóxicos. Apontava o disparador do aparelho congelante para um jovem rapaz de cabelo curto e loiro-dourado e vestindo roupas características de um caçador. - Quem é você? O que faz aqui desprotegido?

- Responda! - disse o outro, um pouco mais hesitante que seu parceiro.

Estavam entre o fim de um corredor e a entrada de outro, separados por uma porta que havia sido quebrada. Palitando os dentes despreocupadamente, Mihos não exibia nenhum sinal que o tornasse alguém suspeito. Ao que parecia, a ocasião exigia que ele fosse o mais discreto possível, sem apresentar nenhum elemento que o incriminasse, o que incluía limpar as manchas de sangue das mãos toda vez que cometesse um assassinato. Por mais irritante que isto pudesse ser, era de se aceitar, tratando-se de alvos que agiam em conjunto em uma missão extremamente arriscada. "Se misturar" aos seus alvos para escapar de uma acusação e de um risco máximo de ter seus atos informados para algum superior fazia parte do plano para manter o serviço sujo nos eixos.

"Rádios-transmissores... Interessante.", pensou ele, olhando de relance para os Crip-Talks nos coldres dos coletes dos soldados. "Só há um problema...". Olhou rapidamente para trás.

- Tudo bem, está bem... - disse, largando o palito e erguendo um pouco as mãos sinalizando pacificidade. - Faço parte da equipe de reforços.

- Nós não pedimos reforços. - retrucou o soldado da direita, ríspido.

- Alguém pediu sim. E estou aqui para informar ao chefe de qualquer incidente relacionado com algum soldado... como uma morte, por exemplo.

- É sério!? - perguntou o soldado da esquerda, tentado manter distância. - Se é verdade, então onde está seu rádio?

- Ah, é mesmo... - disse Mihos, coçando a cabeça e fingindo surpresa. - Acabo de lembrar que o deixei no carro. Meu equipamento de proteção também está lá. Ora, vejam só, meus amigos... É isso que a adrenalina e a empolgação acabam fazendo com a gente. - dera uma risada divertida. - Que descuido o meu, não? Mas fiquem tranquilos, não fui infectado e não há nada a temer.

- Por que parece que está escondendo algo? Até onde sei, nem a nossa líder ou o General nos alertou sobre a vinda de reforços. - voltou-se para o companheiro. - Sabia de algo parecido?

- Não mesmo. - respondeu o outro, firmemente.

- E então... Se me derem licença, acho que vou indo buscar meu equipa...

- Não, espera. - interrompeu o soldado da direita, mostrando-se confiante. - Venha conosco. Qualquer coisa, eu e você revezamos o uso da minha máscara. O que acha? - sugeriu ele, pronto para seguir.

Mihos sorrira abertamente para seus "novos amigos". Sua face radiante, contudo, parecia um tanto quanto suspeita para ambos.

- Mas é claro! Eu adoraria! Sabe de uma coisa? Este mundo precisa de homens generosos como você. - elogiou o herdeiro de Yuga, tocando o soldado no ombro amigavelmente.

- Ora, vamos. Está me deixando envergonhado. - brincou o homem, rindo levemente, logo seguindo em frente.

- É isso aí! Adoro quando me convidam para a festa. - disse Mihos, contente, andando entre os dois e pegando-os nos ombros.

Mal sabiam eles da verdadeira "festa" ocorrida minutos antes de descobrirem o estranho "caçador".

No corredor onde Mihos estava - mais precisamente em um canto não muito perceptível - haviam dois corpos de soldados completamente mutilados... as cabeças teriam, supostamente, explodido, deixando abertas as caixas cranianas e duas enormes manchas de sangue na parede.

                                                                                           ***

"Onde está você, Áker?", pensava Rosie, desesperando-se gradualmente pela insuportável demora do retorno do arauto de Yuga. Já podia sentir o fio cortante da lâmina dourada apertar contra uma veia de seu pescoço. A cada minuto, o nível de ameaça elevava-se. Engolindo a saliva, a jovem tentou manter sua tranquilidade mediante às infâmias de Sekhmet.

- Acho que não precisará mais disso. - disse a deusa, visualizando o amuleto largado no chão. Arregalou bem os olhos, tentando forçar algo contra o objeto. - Mas o que... - algo não funcionava. Apertara a espada com mais força no pescoço de Rosie. - Por que não estou conseguindo desintegrar aquele emblema? Não minta desta vez!

- Como eu vou saber? - indagou Rosie, sem manifestar raiva.

- Não se faça de desentendida, sua verme! - disparou ela, colérica. - Algo está me impedindo de agir, sei que teve um encontro com o inimigo de meu amado... Provavelmente, preferiu à ele, mas estava tão indecisa, não sabia se preferia a morte ou o corrompimento. Isto é obra dele! Não é?

- De onde tirou essa ideia? - perguntou Rosie, franzindo a testa. - Abamanu, Yuga... Não tenho preferência por nenhum dos dois. Eu apenas quero salvar meus amigos. Eu não escolhi ter este poder dentro de mim. Se precisa culpar alguém... - sua impaciência começava a demonstrar sinais. - ... culpe à ele! O seu esposo! Para você, que é uma deusa com poder ilimitado, é muito fácil julgar um reles mortal por um erro cometido por outro. - fez uma pausa, sentindo um suor frio formar-se na testa. - Sei como se sente... sei como é se sentir traída por alguém que depositou tanta confiança.

- Cale-se! - exclamou Sekhmet, esbaforida, agarrando-a mais fortemente. - Ou eu a mato aqui e agora.

- Então vá em frente. - arriscou Rosie, sem hesitação. - Não vou culpa-la, nem julga-la por isso. Pensando bem, seria uma libertação. Estaria me livrando de um fardo que só me consome a cada dia. - olhou para o amuleto no chão, a expressão cansada. - Não sou merecedora deste poder. Então me mate... antes que isso me mate.

A deusa, exibindo sua chacota escarniante, dera uma risada mefistofélica. Rosie sentira seus tímpanos vibrando, seguido de um eriçamento dos pelos.

- Matar você!? O que armazena dentro de si mesma?! Inacreditável... - zombou ela, forçando a espada cada vez mais no pescoço da jovem. - É mais débil do que mais imaginei. Veja bem: Você está viva... por enquanto. Se o poder avassalador de meu amado alcançasse sua pele, caso você fosse realmente indigna, seu corpo explodiria em mil pedaços instantaneamente. Não... - arqueou as sobrancelhas, novamente pondo sua boca ao pé do ouvido de Rosie. - Você não é indigna. Se fosse, seu corpo rejeitaria tamanho poder. É isso que me revolta. Ele ter escolhido um execrável mortal para em seguida utilizar como carcaça e acabar com a raça daquela quimera.

- E o que você queria que acontecesse, afinal? - perguntou Rosie, sentindo que seu tempo estava quase se esgotando.

- Que ele aceitasse o meu amor pelo império... e por ele. A salvação do reino estava diante de seus olhos... mas ele preferiu uma simples vida humana. Eu me perguntei: "Por que?". Por que ele teve de tomar uma decisão tão precipitada, alimentando um ego ferido... uma ferida que meu governo sararia, se ele confiasse nos meus instintos, nas minhas propostas, na minha gestão! - exasperara-se Sekhmet, deixando escorrer uma lágrima de seus belos olhos azuis. - Eu vou tomar de você aquilo que me foi negado.

- Não enquanto eu respirar. - disse uma voz, repentinamente surgindo no recinto. Os olhos de ambas se direcionaram ao mesmo tempo para a figura que aparecera. Um mordomo negro, vestindo um smoking e de face séria.

- Áker! - chamou Rosie, inquieta com a chegada inesperada do mensageiro.

- Calada! - ordenou a deusa, severa. Voltou-se para o arauto, fuzilando-o com o olhar. - Já devia imaginar que tomaria uma atitude para barrar minha próxima investida.

- Não é óbvio? Rosie está sob minha proteção. - disse Áker, dando alguns passos à frente. - E vou reafirmar isso quantas vezes forem necessárias quando você contrariar este fato. - fez uma pausa, olhando de relance a espada dourada na mão de Sekhmet. - Largue-a. Sei por que está aqui e não é apenas sobre Rosie.

- Ah é?! - disse a deusa, andando alguns para trás, levando Rosie. - Já posso adivinhar...

- E nem precisa. - retrucou Áker, austero. - Mihos violou uma regra. Estava sob detenção. Não vou me responsabilizar pelas imprudências que ele cometer. Aliás, já está o fazendo. Me deparei com inúmeros cadáveres humanos espalhados, e é evidente que ele é o autor destas barbáries.

Um sorriso cínico esboçou-se na face implacável de Sekhmet. O arauto, por outro lado, a fitou com olhos estreitos, suspeitando de seu envolvimento.

- Espere. Não me diga que parte daquelas matanças também foi sua obra...

- Mas é claro, seu serviçal imprestável! - redarguiu a deusa, impaciente. - Eu precisava me certificar de que ele havia escapado do castigo. Isto só foi possível graças a sua presença, que pude sentir por conta do amuleto que Rosie Campbell carrega. Havia emitido um sinal e assim o captei. Um mortal, estando na presença de um deus, pode ser detectado por outro ser superior se caso portar um emblema do império. - olhou para Rosie, permanecendo a ameaça-la. - Não consegui desintegrar o emblema, e isto também o coloca no mesmo pedestal que os mortais. Como se a traição de meu amado não fosse humilhante o bastante!

- Já chega! - disse Rosie, externando sua fúria. - Me mata de uma vez, se é o que você quer! Já disse que não me sinto merecedora, provei que estou pouco me importando se isto me torna especial ou não. Então, anda logo! - olhou para Áker, decididamente preparada.

- Rosie, não precisa ser assim. - disse o arauto. - Há sempre uma outra saída. E você sabe muito bem qual.

Um certo alarido incômodo foi tornando-se audível à medida que se avizinhava das portas duplas. A confusão resumia-se a sinistros gritos de dor, súplicas descontroladas e ruídos indistinguíveis. As atenções dos que estavam presentes na sala voltaram-se para as portas. Pegando-os de surpresa, um rápido e denso espincho de sangue manchou os vidros quadrados das portas duplas, fornecendo um indicativo de um brutal assassinato... e uma presença já imaginada por Áker e Sekhmet.

As portas foram abertas com estardalhaço, através de um chute dado por ninguém menos que o herdeiro do deus solar Yuga, Mihos.

O rapaz segurava nas mãos dois corações humanos, saboreando a carne ao morder um pedaço como se estivesse apreciando uma iguaria saborosa. Seus antebraços e mãos estavam completamente encharcados de sangue.

- E veja só... - disse, olhando para Rosie com um sorriso sacana, ainda mastigando. - A leoa feroz finalmente conseguiu agarrar sua presa. - voltou-se para Áker. - E o empregado voltou para me buscar.

- Muito pelo contrário, Mihos. Vim auxiliar esta missão. - disse o arauto, firme na sua posição. - Abomino completamente o que tem feito nas proximidades, mas por uma causa de força maior, você não será punido. Não hoje.

O assassino mordera mais um pedaço de um coração, sua boca sujando-se de sangue puro. Rosie o olhava, abismadamente enojada com o que assistia. "Preciso sair daqui o mais rápido possível!".

- Áker. - chamou a jovem. - O que realmente quis dizer com auxiliar na missão?

- Na verdade... - intrometeu-se Mihos, falando de boca cheia. - ... ele trouxe alguns companheiros de aventura. Sem querer ser dedo-duro... mas acho que ele acabou se envolvendo em algo que não lhe dizia respeito.

- O resgate de uma vida inocente, não. - argumentou Áker, parecendo irritado. - Mas a segurança de Rosie, sim. Eu já imaginava que sua mãe certamente tentaria algo contra ela, então tive que prontificar meus aliados e a mim mesmo para interceptar qualquer ação violenta contra Rosie. Deixei que cuidassem da primeira parte do plano, eu daria conta do restante. - revelou, voltando-se para Sekhmet, transparecendo certo amargor.

- E o que consiste esta primeira parte? Diga agora. - exigiu Sekhmet, mantendo sua refém imóvel.

- Abamanu não contava com a possibilidade de que eu trouxesse meus aliados até aqui para executar o plano. Por isso, há marcações invisíveis nas paredes desta fábrica, e, por esse fato, obviamente, não consigo utilizar boa parte dos meus poderes livremente. Nem mesmo você, nem Mihos. - contou Áker, sem intenção de esconder nada a respeito do que havia planejado. - Eu os orientei a agir corretamente, procurando liberar o máximo de energia possível para, ao menos, irradiar os emblemas para que pudesse encontrar marcações. Como nosso inimigo pouco sabe dos atributos de um emblema físico, foi viável a transferência de energia.

- Transferência!? - disse a deusa, intrigada com a artimanha de seu subordinado. - O que você e aqueles hereges fizeram?

- Muito simples. - disse Áker, calmamente andando pela sala com as mãos para trás. - Como as marcações, após serem descobertas, foram nulificadas após um período de 5 minutos, eles mantiveram os emblemas suspensos no ar e absorveram suas energias residuais. - fez uma pausa, dando um leve sorriso de satisfação. - Com muita sorte, não foram flagrados por nenhuma das aberrações ou mortais que participam da missão de resgate. Essa energia limitada foi suficiente para criar duas esferas de teor explosivo afixadas abaixo da terra... e assim permitir a destruição das maquinações responsáveis por produzir a substância maligna. - fitou seriamente sua superiora, querendo transmitir a urgência que a situação possuía. - Este lugar será completamente destruído daqui a 30 minutos. A escolha é sua, Sekhmet. - andara alguns passos à frente, encarando-a. - Deixe Rosie viver ou deixe-se morrer. Até o esgotamento do tempo, vai estar vulnerável demais para resistir à explosão. As marcações, mesmo invisíveis, vão consumi-la mais rápido.

Rosie conseguia sentir a pesada respiração de Sekhmet engrandecer, uma enervação desconfortável. A deusa bufara em ódio, desejando, mais do que tudo, reaver suas habilidades para fulminar seu criado até não que não houvesse sobras para que o mesmo pudesse reconstituir-se. Rosie fechara seu punho esquerdo, em uma tentativa de canalizar sua apreensão e converte-la em coragem para usar em um momento propício de escapatória. Por mais que parecesse improvável... ou sua vontade de morrer estivesse mais nítida, a sobrevivência provinda do instinto parecia possuir a voz da razão.

- Então foi isso. - disse Sekhmet, a voz carregada de rancor. - Já havia considerado essa possibilidade, isto explica sua confiança irritante. Tinha em mente me encurralar!

- Sendo honesto... - começou Áker, falando de modo solene. - ... não esperava que houvessem marcações invisíveis no interior da estrutura, embora sabendo que você estaria aqui para investir contra Rosie novamente. Mas veio a calhar.

- Seu maldito! - berrara a deusa, sem conseguir manter sob controle sua vontade em desferir um corte no pescoço de Rosie. - O que o deixa tão confiante desta forma? Está começando a construir os muros da sua arrogância, serviçal? - dera um sorriso cínico. - Eu vou mata-la e não existe nada que você possa fazer para me impedir.

- Aceite, mamãe. - disse Mihos, comendo o último pedaço de coração que restara nas mãos. - Não querendo desrespeita-la, mas... ainda existe uma chance de escapar com a cabeça erguida... e inteira. - dera uma risadinha zombeteira, olhando para a deusa e o arauto.

- Como se atreve? Está se rebelando contra sua própria tutora!? - reclamou ela, encarando-o ferozmente.

- Não sei nem porque estou aqui... mas confesso que estou me divertindo. - disse ele, sorrindo.

- Não deveria mesmo estar aqui. - retrucou Áker, olhando-o reprovativamente. Voltou-se para Sekhmet. - E você esteve tão cega pelo desespero que não usufruiu das limitações.

- Veremos quem cairá primeiro. - desafiou a deusa. - Não vou solta-la até que você decida como vai ser. No entanto, sugiro que alerte seus aliados e ordene-os a abortarem a missão. Não se esqueça, criado. Nós três estamos vulneráveis.

- Ah, é mesmo? - indagou Áker, soando irônico em sua expressão. - As marcações estão fixadas em todas as paredes. Sim, eu deveria me sentir fraco... sem forças... mas apenas me sinto sem meus mecanismos de ataque e defesa. Você não pode matar Rosie com a faca dourada. - deu um novo sorriso leve. - Estou a menos tempo nesta sala do que você. Mihos está menos do que nós. As quatro paredes podem estar marcadas, mas não estou diante de nenhum perigo. Estou posicionado de modo que me deixa afastado delas. - apontou para trás com o polegar. - A marcação desta parede está poucos metros à minha esquerda, não estou diante dela, portanto estou fora de seus efeitos. Mas você...

Mihos parecia não conseguir reprimir uma gargalhada de escárnio contra sua mãe, segurando-se ao máximo.

A expressão da deusa alterou-se para um pânico repentino.

- Atrás... de mim?! - disse ela, frustrada. Olhara para o chão, desalentada. - Mas que... - fechou os olhos, apertando-os intensamente enquanto rangia os dentes em sua fúria interna.

Rosie sorrira consigo mesma ao perceber e entender a insinuação de Áker perfeitamente. Obcecada pelo desejo incontrolável em querer assassinar Rosie, Sekhmet compenetrou-se em sua missão. Contudo, sem antes verificar sua segurança, visto que estava em território inimigo, nem ao menos cogitando usar seu emblema para certificar-se quanto à presença de marcações de aprisionamento e enfraquecimento. A cortina da ilusão rasgara-se, fazendo-a sentir-se mais humilhada.

Agindo rapidamente, Áker abrira sua mão direita, telecineticamente pegando o amuleto que pertencia à Rosie. Fechara o punho, sentindo novamente o poder ser restabelecido em seu receptáculo, seus olhos brilhando uma luz alaranjada. A absorção fora apressada, mas necessária para aquele instante de pura tensão.

Erguera a mão esquerda diretamente à Sekhmet, utilizando sua telecinesia para tirar a espada dourada das mãos da deusa. Vendo a arma cair no chão, Rosie sorrira, se desvencilhando das garras da esposa de Yuga, logo em seguida desferindo uma cotovelada em seu rosto, depois virando-se e aplicando um chute na barriga da mesma. Sekhmet, sentindo o peso do golpe como jamais pensaria, tivera suas costas chocando-se contra a parede - na qual estava gravada a marcação invisível.

A fim de mante-la o mais distante possível de Rosie naquele instante, Áker a jogou, telecineticamente, direto para a parede à esquerda. A deusa soltou grunhidos de dor enquanto seu corpo chocava-se contra o concreto - que se rachou com o impacto - e tombara no chão.

- Obrigada. - agradeceu Rosie, aproximando-se de Áker, respirando com mais alívio. Colocou-se lado à lado com ele, voltando-se para Mihos. - Ainda não estou muito certa se foi interessante conhece-lo.

- Pode ter certeza que pra mim foi. - disse o filho de Yuga, sorrindo para ela, com malícia no olhar.

- Espero não vê-lo tão cedo novamente. - disse Áker, a face séria ao encara-lo.

- Idem. - respondeu Mihos, friamente, em seguida limpando sua boca antes suja de sangue.

Enquanto Sekhmet levantava-se, começando a sentir as limitações das marcações corroê-la aos poucos, um tremor leve ocorrera, fazendo cair do teto um pó fino e alguns pedaços pequenos de concreto. Estremecendo, Rosie virara-se para Áker, preocupada.

- O que foi isso?

- Acabou o tempo. - disse ele. - Hora de irmos. - tocara-a no ombro. Ambos desapareceram da sala na velocidade de um pensamento.

Respirando fundo satisfatoriamente, Mihos andara tranquilamente até sua mãe, combalida pelos efeitos das marcações. Os tremores ficaram mais contínuos e elevados.

- É difícil de acreditar. - disse ele, logo fazendo ruídos com a boca e balançando a cabeça, decepcionado. - O que esperava, afinal? Tudo bem que ninguém disse que seria fácil, mas adentrou no território do inimigo. - fizera uma cara de incômodo. - Era óbvio que haveria armadilhas para qualquer um de nós. A senhora, melhor do que ninguém, deveria saber disso.

- Ora, cale-se, seu insolente. - disse Sekhmet, apoiando-se na parede, mal aguentando a pressão. - Você também deveria estar sendo afetado... - estreitou os olhos, a expressão de desconforto. - Por que?

- Mãe... - disse Mihos, dando um sorriso seguido de uma risada rápida. - Ficou estagnada atrás da marcação o tempo todo, mantendo aquela mortal como refém... E veja só. Não estou sentindo coisas estranhas pela mesma razão que o mensageiro: Reconheci as marcações com meus próprios instintos e não fiquei posicionado diante de nenhuma delas. A senhora costumava ser mais esperta.

- E o que pretende fazer? Me deixar aqui para morrer? - questionou a deusa, tentando suportar a fraqueza. - Pretende se aliar com Rosie Campbell e seus compatriotas medíocres? Nem pense em me trair... como seu pai o fez.

O herdeiro suspirara, sem abandonar o sorriso de cinismo na face.

- Consigo me virar melhor como espectador. E quero estar no melhor lugar da plateia para ver um desfecho surpreendente. - fez uma pausa, sacando um palito e tirando os restos de sua refeição nos dentes. - Sempre esteve tão aberta a desafios. Por que não experimenta sair correndo? Como uma vigorosa mortal. - sorrira com sarcasmo.

Soltando rosnados de raiva, Sekhmet vira seu filho desaparecer rapidamente. Seus olhos alteraram-se, adquirindo um aspecto animalesco... especificamente felino. Os tremores continuaram e a deusa resolvera, por fim, cambalear em direção as portas, saindo trôpega da sala e amaldiçoando internamente seu filho.

                                                                                              ***

Rosie podia sentir a terra vibrar sob seus pés. Talvez parte daquela terra estava começando a rachar-se gradativamente. Vendo-se do lado de fora da fábrica, a jovem voltara a respirar o ar puro... ainda mais após olhar para cima e vislumbrar a chaminé deixando de expelir o gás tóxico e negro. Um fraco sorriso surgiu em seu rosto. Áker a fitava com orgulho.

- Sinto muito se eu tiver arruinado sua performance como líder... - disse o arauto, encabulado.

- Não, de forma alguma. - disse Rosie, mostrando-se grata. - Eu também já temia que Sekhmet fosse me pegar desprevenida.

O arauto, de repente, olhou de esguelha para a esquerda. Voltou-se à Rosie, decidido.

- Encontro você na sua casa. Preciso ir.

E sumira desafiando a percepção. Desconfiada, Rosie imaginou o que estaria para ser falado particularmente com ela. Dos fundos da fábrica uma porta se abrira, dando passagem para dois soldados carregando o pesado corpo de um homem vestindo uma camisa branca, molhada e suja. O sol voltara a brilhar com mais nitidez, as nuvens tornando-se menos volumosas.

Notara também, do outro lado, vários caçadores e soldados apressados e desesperados com o tremor, saindo e carregando caixas retangulares do tamanho de um ser humano, dirigindo-se à um dos veículos estacionados na floresta à frente. Contudo, as atenções da jovem retornaram para o resgatado que estava sendo trazido de volta ao mundo externo...

- Ei! - gritou ela, correndo, sua capa vermelha ondulando com o brisa. "Se for quem eu penso que é...". Ela já se via sorrindo levemente.

Por fim, Rosie estava frente à frente com os soldados... e a vítima resgatada, que parecia estar fraca demais para compreender a realidade à sua volta.

- Senhorita Campbell, estávamos preocupados. - disse o caçador, ainda com a máscara de proteção, ofegando. - Cuidamos de tudo lá embaixo.

- Sim, é verdade. - disse o outro, eufórico. - Fomos até o subterrâneo, ele estava trancafiado lá, completamente pálido, acho que também está desidratado.

- Conseguimos acha-lo graças a um interrogatório conduzido por nós com um mimético. - disse o primeiro.

- Tivemos sorte em arrancar a revelação dele. Dois minutos depois de sairmos, ele estourou feito balão, deixando a sala encharcada de gosma preta. - fez uma pausa. - No entanto, ele pareceu ter sobrevivido... de uma forma estranha... foi muito grotesco e bizarro, era como se aquela gosma tivesse vida própria e criasse outro ser com aspectos humanos.

- Entendo. - respondeu Rosie, secamente. - Presumo que houve tempo para congelarem ele.

- Sim, precisamente. - disse o segundo, assentindo. - Como não participou de boa parte da missão, terá que fazer o relatório ao General, sobretudo em relação ao resgate.

- E agora não sabemos a causa desse terremoto... - disse o primeiro, aflito. - Ouvi suspeitarem de uma bomba ou algum outro dispositivo de explosão.

- Então é melhor irmos, rápido. - decretou Rosie, apressando-se. - Parece que vai mesmo explodir, não temos muito tempo. - correra até o veículo militar, os caçadores indo atrás dela e trazendo o resgatado.

Não havia contagem, mas certamente o tempo estava em seu fim. As estruturas de concreto da fábrica começaram a criar rachaduras continuamente. A primeira explosão ocorrera, próxima à chaminé, derrubando sobre algum teto de um corredor ou sala. Os baques foram sentidos de forma vibrante e retumbante.

Os veículos militares haviam iniciado a ignição dos motores, todos eles partindo para longe daquele território prestes a virar cinzas. Temia-se que a provável explosão cobriria um raio de 10 km até floresta, liberando uma densa nuvem de poeira e fumaça. Um papel foi entregue à Rosie por um dos soldados do Exército Britânico. Ela e alguns outros estavam na carroceria de um veículo em alta velocidade no solo da floresta. Lendo as especificações do relatório, ela compreendeu a forma selecionada para desativar a máquina produtora da substância. Todavia, algo a intrigou. Em uma linha dizia-se que "um estranho calor subia do chão, abafando o ambiente a uma temperatura relativamente alta na sala central, onde se encontra a enorme máquina que produz a substância tóxica em sua forma gasosa."

Franzindo as sobrancelhas, a jovem imergiu em devaneios profundos sobre a causa. "Áker havia mencionado esferas de energia com teor explosivo... seus aliados driblaram as marcações e assim conseguiram seguir sem se preocupar com nenhum outro obstáculo... Sim, não há dúvidas. Eles invadiram a sala central antes dos soldados chegarem para desativar a máquina.".

Um gemido do resgatado a desprendeu das divagações. Ele estava ao seu lado, seu rosto robusto iluminado pelo sol daquela tarde de verão. Abria devagar os olhos. Rosie sorrira de leve, observando-o acordar. Parecia ser o mesmo, mas com duas diferenças: Estava totalmente careca e pálido.

Em sua face formou-se um belo sorriso direcionado à Rosie. Policiou-se quanto a conter sua alegria ao revê-la.

- Está tudo bem. Você está livre. - disse Rosie, condescendente. - Bem-vindo de volta... Adam.

Um tremor súbito sacudira o veículo, como se a terra estivesse cedendo. Um intenso estrondo ecoou pelo ar, fazendo a brisa tornar-se uma violenta corrente de vento. Sobressaltados, os soldados observavam atônitos o que havia acabado de ocorrer. Rosie e Adam, alarmados e assustados, empertigaram-se e viraram-se para ver.

Ambos fitavam estupefatos a gigantesca explosão praticamente alcançando as nuvens.

                                                                                          ***

O casarão se encontrava banhado pela luz suave do pôr-do-sol, sobretudo a sala de estar com a ajuda das janelas descortinadas. Rosie e Adam chegaram esbanjando certa felicidade, compartilhando um sentimento mútuo proporcionado pelo reencontro. Antes disso, o caçador de braços fortes passara pela enfermaria de uma base do Exército Britânico, tendo sido medicado com várias pílulas revigorantes e reidratantes orais. Brincara com sua incomum condição natural de ganhar massa muscular em questão de anos, dizendo que as cápsulas continham drogas para deixa-lo mais corpulento do que já era.

- Que estranho... Parece mais alto. - comentou Rosie, estudando-o enquanto entrava na sala de estar.

- Impressão sua. - disse ele, com um sorriso misterioso. - Você que ficou mais baixa.

Ambos deram gargalhadas.

- Olha, Rosie... - disse Adam, parando de andar e virando-se para a jovem. - Novamente: Obrigado. Eu não sei o que pensar... Tudo ainda está tão... embaralhado, confuso. Você me disse coisas que ainda estou tentando processar... ou talvez tentando acreditar. - olhou para ela com semblante de incredulidade. - Você? Servindo de recipiente para um deus solar? Me desculpe... mas é muito difícil de engolir essa.

- Eu que o diga. - disse Rosie, seriamente. - Mas é a verdade, infelizmente. Também me senti da mesma forma como você, só que com mais intensidade é claro. É como se... o destino me amaldiçoasse. Como se eu não estivesse destinada a seguir com minha vida da forma como eu queria.

- Entendo. - respondeu Adam, olhando-a analiticamente. - Que coisa estranha é essa vida. Cada dia é uma nova caixinha de surpresas diferente. - fez uma pausa, abaixando um pouco a cabeça, parecendo fitar o chão.

- O que foi? - perguntou Rosie, notando uma certa alteração no humor do caçador. - Está se sentindo bem?

- Hã? Ah sim... - disse ele, tornando a olha-la. - É que... andei pensando. No tempo que passei naquela gaiola subterrânea. Foi como se algo estivesse me apunhalando aos poucos, me arrancando todas as esperanças... - fitou um canto da sala, tristonho. - Acho que uma temporada no Tártaro seria menos doloroso. Eu pensava em Êmina... Lester... na Alexia...

- Alexia... - disse Rosie, sentindo-se preocupada ao imaginar como e onde está a vidente. - Só existem mais duas fábricas a serem desmanchadas, me pergunto se ela pode estar em uma delas.

- Se formos pela lógica... - sugeriu Adam. - ... se havia apenas eu na que foi destruída hoje... então pode-se presumir que Abamanu determinou que as três maiores fábricas devam ter apenas um prisioneiro.

- Ainda há Charlie... aliás, ele é o resgate mais difícil. - disse Rosie, pensativa. - Não adianta especular, só vamos descobrir se avançarmos com as operações.

- Estou interrompendo algo? - disse uma voz grave surgindo na sala.

Os dois olharam para a figura séria de pé no centro da sala. Adam fizera uma expressão de confuso.

- Estou surpreso. Não me contou sobre ter contratado empregados. - disse ele, aproximando-se para ver melhor o mordomo vestido de smoking e de face amigável.

Rosie dera uma risadinha nervosa.

- Não é bem o que você está pensando...

- Muito prazer, me chamo Áker. - disse o arauto, estendendo a mão para o caçador.

Adam franzira o cenho, sorrindo.

- Nome bem incomum para um norte-americano. - disse ele, apertando a mão do mensageiro.

- Esta casca possui duas origens étnicas. - revelou Áker, sem hesitar em esconder o jogo. Rosie, atrás de Adam, fazia uma cara de desconcertada.

- Ahn... Como disse? - indagou Adam, parecendo não ter entendido direito.

- Este receptáculo, é a única maneira possível para que eu estabeleça uma comunicação direta com os mortais. - fez uma pausa, olhando para Rosie de relance. - Em outras palavras, é a forma mais discreta com a qual posso interagir com Rosie. Aliás, sou o arauto de Yuga, aquele que deve...

- Para, para, para, para! - disse Adam, erguendo levemente uma mão e fechando os olhos, incomodado com os detalhes dados por Áker. - Você disse... Yuga?! - olhou-o com ceticismo. - Mas... o que...

- Err... - interviu Rosie, rapidamente andando até eles. - Simplificando: Ele está aqui para saber da minha decisão sobre a proposta que Yuga me fez. Uma vez dada a resposta com total certeza, ele vai até Yuga e o informa a respeito. - olhou para Áker firmemente. - E por falar nisso... a resposta continua sendo não.

- Estranhamente, não consigo depreender uma total certeza no seu tom. - disse Áker, aparentando estar sendo irônico no modo de falar.

Rosie voltara-se à Adam, tendo algo em mente para evitar uma possível longa discussão.

- Err... Adam, se você quiser, tem comida na dispensa. A propósito, onde você vai dormir?

- Não sei. - disse o caçador, dando de ombros. - Ele dorme aqui? - apontou para Áker com as pupilas.

- Definitivamente, não. - disse Rosie, sorrindo. - Você quem sabe. Mas os quartos de hóspedes lá em cima estão bem empoeirados e ainda não tive tempo para limpar tudo...

- Não, tudo bem, eu durmo em qualquer um do corredor. - disse Adam, seguindo até a cozinha.

- Sim... mas o do meio é o meu. - avisou Rosie, dando uma risada rápida em seguida.

- Tranquilo. - respondeu Adam, saindo da sala

O semblante de Rosie alterara-se drasticamente quando a mesma virou-se para seu auto-proclamado protetor.

- Poderia ter sido mais específico quando disse que queria conversar comigo aqui depois que eu voltasse.

- E você poderia ter sido um pouco menos invasiva em minha interação com seu amigo. - disse Áker, reprovando a atitude da jovem.

- Muito bem. - apressou Rosie, chegando mais perto. - Eu queria muito ter aproveitado a chance e dado uma boa surra na Sekhmet.

- Não é sobre isso. - disse o arauto, tentando ir direto ao ponto. Andara pela sala, calmamente, contemplando a luz solar poente adentrando no recinto. - Eu fui até ele, Rosie. Sekhmet jamais entenderá os motivos que o levaram a escolher você.

- Então talvez essa seja a única coisa que nós duas temos em comum. - disparou a jovem, friamente.

- Não vim para força-la. - disse ele, virando-se para ela, a luz solar na janela iluminando-o. - Apenas... quis compartilhar com você a sensação que é... ver seu superior meditando incansavelmente, com uma aura inabalável e impenetrável. Mas, ainda assim, tendo a impressão de que ele está temeroso e sentindo-se impotente com o pensamento de que algo possa estar dando errado, algo possa estar tentando frustrar seus planos.

- E o que você quer que eu faça? - perguntou Rosie, a fala cansada. - Me sinto capaz de vencer Abamanu apenas com o poder que reservo dentro de mim.

- O que a leva a estar tão certa disto? - questionou Áker, aproximando-se de Rosie, sentindo-se contrariado.

- Hoje... aqui próximo à casa... - ela hesitou por um momento, olhando para o nada. - Se alguém tivesse flagrado, teria ficado tão espantado quanto eu. - tornou a fita-lo. - Eu senti, Áker. Ardendo dentro de mim. Eu... assassinei um lobisomem, incinerando-o, transformando-o em pó, literalmente. Depois que me dei conta... não tive mais dúvidas.

O arauto suspirara, dando a impressão de não estar totalmente convencido.

- Está adotando uma perspectiva equivocada. - disse ele. - Pode armazenar um poder inigualável em seu interior, mas é uma tolice acreditar que conseguirá sair vitoriosa se alimentar algo que talvez não consiga controlar sozinha.

- Quer saber de uma coisa? Essa é minha única certeza. Se isto foi atribuído à mim, se fui presenteada com esse poder, então não há necessidade alguma de me entregar à Yuga. - argumentou Rosie, categórica e séria. - Eu posso controla-lo, quer você acredite ou não. E quando a hora chegar, eu quero estar mais forte do que penso ser capaz.

A sala mergulhara em um irritativo silêncio. Em um suspiro de cansaço, Rosie já determinara sua decisão, ou pelo menos tentando fazê-la parecer suficientemente convincente.

- Sei que ainda está indecisa. - disse Áker, por fim. - Mas é bom se apressar.

O arauto desparecera em milésimos, deixando Rosie sozinha na sala de estar. A jovem contemplou o pôr-do-sol, bastante reflexiva.

"Alcançar o sol...".

                                                                                      ***

Uma batida na porta do quarto escolhido por Adam quebrara o clima silencioso.

Adam vestia a camisa de seu pijama branco ao ouvir os sons.

- Pode entrar. - permitiu ele.

As dobradiças rangeram longamente. Rosie entrava devagar, logo deixando a porta entreaberta.

- Oi. - disse Adam, afofando o travesseiro, sorrindo amigavelmente para ela.

- Oi. - disse Rosie, parecendo tímida. - Só vim ver se estava se sentindo confortável. Não é a melhor casa na floresta que existe no mundo, mas a decoração dos quartos é bem modesta. - olhara para as paredes verde-escuro do quarto.

- Não podia estar melhor. - respondeu Adam, colocando o travesseiro de volta na cama. - Eu só espero que minha estadia aqui não a deixe pouco à vontade.

- Eu lhe ajudaria a pagar uma reserva num hotel barato. - sugeriu Rosie, aproximando-se vagarosamente. - Mas não tenho dinheiro.

Um breve silêncio entre os dois parecia sufocante. Adam parecia impaciente, com um sentimento irreprimível.  Olhou para Rosie de modo sério.

- Preciso que seja honesta comigo: Hector morou com você aqui por alguns dias?

A pergunta pegara-a de surpresa. Arregalara os olhos, sem saber muito bem como responder.

- Sim. - respondeu, lacônica. - Além disso, esqueci de falar com Áker sobre ele ter desaparecido...

- Ele sumiu? - perguntou Adam, desconfiado. - Como?

- Não sei. Na verdade, eu esperava que ele se juntasse à mim na operação. Assim nós dois iríamos resgatar você juntos.

- Talvez ele tenha decidido abandonar você. - conjeturou Adam, dando de ombros.

Rosie franzira a testa, um tanto intrigada.

- Por que diz isso? - perguntou ela, soando desconfiada.

- Esqueça. - desconversou Adam, balançando a cabeça negativamente.

- Há algo te incomodando? - perguntou Rosie, interessada em ajuda-lo em qualquer coisa.

- Na verdade... sim. - disse Adam, olhando-a suavemente, aproximando-se cada vez mais. - Odeio conter meus desejos mais profundos. Entende?

- Sim... entendo perfeitamente. - respondeu Rosie em voz baixa. Uma estranha atração acometeu-a inesperada e repentinamente. - Gostaria muito que fôssemos mais próximos...

- Eu também. - disse o caçador, seu rosto ganhando proximidade com o de Rosie aos poucos. Sua fala mais calma a inebriava. - Não posso mais... não consigo...

Ambos os lábios tocaram-se até transformar-se em um acalorado beijo. As mãos de Rosie automaticamente envolveram o robusto corpo. O caçador o fizera também, criando um forte abraço. À medida que a sensação fervia cada vez mais, os dois corpos se envolviam mais intensamente. Rosie tirara a camisa de Adam. O caçador a despira completamente, beijando seus seios.

Deitaram-se na cama... hipnotizados pelo desejo que acabavam de abraçar e que ambos compartilhavam desde o primeiro em que se viram. Nus, entrelaçavam seus sexos como um perfeito elo. Fazendo balançar um pouco a cama, Adam forçava o máximo, simultaneamente beijando-a na nuca.

Os gemidos de Rosie eram inquietantes, mas ignoráveis.

- Esqueceu de fechar a porta. - disse Adam, no pé do ouvido de Rosie, baixinho.

- Ela ficará assim... durante a noite inteira. - disse ela, no mesmo tom, logo sorrindo de olhos fechados, sentindo um prazer há muito desejado.

                                                                                           ***

A vários quilômetros da área florestal de Raizenbool, em um corredor do QG do Exército Britânico jazia um soldado no chão. Estava inconsciente.

Próximo à ele havia a figura visivelmente soberba de um homem poderoso.

O General Holt segurava uma seringa com agulha... cujo conteúdo era um líquido negro e espesso.

Olhara para o homem caído com certa expectativa.

- Muito bem. É hora do teste.


                                                                                     CONTINUA...

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