domingo, 21 de fevereiro de 2016

Nem tudo é o que parece #29


Após a morte de nossos pais, eu e meu irmão mais novo decidimos morar em uma casa próxima a um lago, suficientemente afastados da cidade perigosa em que vivíamos.

Certa noite, eu o vi tentando abrir a porta da cozinha escondido de mim. Ele queria ir ao jardim. Fui até ele, perguntando o que ele iria fazer. Ele me disse que estava indo ver os vaga-lumes. Perguntei de que cor eles brilhavam. Ele respondeu: "Vermelhos". Depois tentei convence-lo a ir pra cama, mas não... o garoto somente queria saber dos tais bichos que, por sinal, eu não via.

Ele voltou para a porta, dizendo: "Olha, tem dois bem ali!". Ainda assim, eu não enxergava nada além da escuridão da noite.

Ingênua, assim fui eu naquela noite...

Terminei de lavar o restante da louça... quando me deparei com a porta da cozinha aberta. Olhei pela janela, vi os arbustos se mexendo. Eu esperava que ele ficasse distraído, apenas na porta. Acabou que a distração foi meu mal.

Corri para fora. Do jardim até o ponto mais distante da floresta eu procurei. E nada.

Não havia vaga-lumes naquela área... e nunca mais vi meu irmão. 

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Minha avó e eu estávamos nos divertindo vendo o álbum de fotografias em preto e branco, naquela época a tecnologia não evoluiu o bastante para termos fotos coloridas.

Bem, o clima estava agradável... até chegarmos à última foto. Era uma menina sorrindo, bem penteada, vestido de linho branco... mas a foto parecia ser a da pior qualidade que já vi naquele tempo.

- Quem é esta? - perguntei.

- É sua prima distante, Claire. - respondeu minha avó. - Quer que eu lhe conte um segredo? Ela está morando aqui conosco, desde o primeiro dia das suas férias comigo.

Eu achei aquilo muito estranho, claro. E acredito que era para ser uma surpresa.

- É mesmo? - disse eu, empolgado. - Ahn.. só uma coisa, vovó... - olhei de novo para a foto. - Por que parece que ela não tem olhos?

- A máquina que usamos estava velha, e a foto saiu deste jeito. Além disso, sua prima estava em um ponto um tanto opaco da casa. Por isso ficou assim.

- Ah sim. Posso vê-la? Onde ela está?

- No porão. Foi lá que tiramos esta foto.

- Ótimo... me leva até ela. - pedi, encarecidamente.

- Rapaz, ela pode estar na foto... mas não significa que está viva. 

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Eu tive mata-lo. Não havia nenhuma outra escolha disponível. Mas agora me sinto culpado... eu destruí a felicidade de um casal que tinha incontáveis planos para o futuro.

Eu me senti amado por eles. Me adotaram, me educaram, me deram casa, comida, água... mas eu tinha fazer aquilo! Eu a amava! Ela deveria ser minha! Por mais estranho que isso pareça...

Se eu soubesse que iria morrer tão cedo... eu teria escapado das garras daqueles magos perversos e ter evitado um destino terrível para minha alma... neste corpo que não me pertence.

Agora me tornei um cachorro abandonado... literalmente. 

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Começamos a sair juntos, pela primeira vez. Ela era incrível. Inteligente, um pouco sarcástica... mas um tanto fria. Víamos diversos filmes de horror pesado, e ela não pareceu surpresa com nenhum deles, apenas assistia com uma face inexpressiva e vazia.

Foi então que ela me convidou para ir à sua casa. Fiquei empolgado, pois seria a hora perfeita de conhecer os pais dela, finalmente.

Estranho foi ela ter me conduzido até a parte mais longínqua da cidade, a parte menos habitada.

Paramos próximo a um cemitério... e foi aí que meu sangue gelou.

Os caixões... eles estavam em posição vertical, jamais vi coisa parecida. Um deles estava aberto...

Senti uma pontada aguda nas minhas costas, me senti ameaçado. Acho que era uma faca.

Foi então que ela me disse:

- Tá vendo o que está bem ao lado do meu? Pois é. É lá onde você vai ficar. Hora de nos tornarmos iguais e sermos felizes para sempre. 


O FIM?

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