quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Meu décimo aniversário...


Elisa estava prestes a completar sua primeira década de vida. Sua empolgação era deveras contagiante, seus pais mantinham-se orgulhosos por terem tido uma menina que esbanjava felicidade por onde passava. Sua festa ocorreria no sábado, praticamente tudo estava acertado, afinal de contas o evento seria uma perfeita ocasião para mostrar o quão satisfeitos estavam com a casa nova.

A menina desejava gravar todos os momentos preparatórios para a festa com sua filmadora. Começou na semana que antecederia a festividade.

Dia 1

REC

Elisa carregava a câmera pelo corredor que levava ao seu quarto, focando em seu rosto sorridente. A intenção era apresentar o cômodo, após a mudança.

- Vejam só, pessoal. Este é meu mais novo quarto. Olhem só como ele é lindo. - dizia ela, abrindo a porta e mostrando a estrutura do quarto.

Novamente dando um close em seu rosto, logo atrás do espelho da penteadeira, ela continuou a falar.

- Bem, meu aniversário está bem próximo... e este filme é dedicado aos meus pais que me incentivam a viver da forma mais feliz possível. Ele vai mostrar todos os preparativos pra minha festa e... Ops!

Elisa virou o rosto abruptamente ao perceber a porta de seu guarda-roupa fechar-se rapidamente, pois estava entreaberta.

- Hahaha, acho que o vento bateu na porta do meu guarda-roupa. Ainda vou pedir à mamãe para fechar essa janela... alguns corvos entram na casa para fazer ninhos... e isso me incomoda. - disse ela, mostrando o guarda-roupa e focando novamente em seu rosto em seguida.

Ao mostrar a sala de estar, Elisa fez questão de ressaltar cada detalhe. A TV, os sofás, a estante, o carpete, os quadros, o abajur, e os demais itens contidos.

- Tá um pouco tarde... meu pai já tá brigando comigo pra desligar a câmera. Nos mudamos hoje a tarde, mas só agora que tive ideia de ficar filmando a casa. Acho que vou gostar daqui...


Dia 2 

Elisa tomara café com sua família, tranquilamente naquela manhã aprazível. Aprontou, em seguida, sua mochila para ir à escola, mas logo pegando a câmera para falar sobre a expectativa em um colégio novo.

REC (1)

- E é hoje. Vou para uma escola nova... e não sei o que esperar. Talvez eu faça alguns amigos, quem sabe. - comentou ela, mantendo a câmera focada em seu rosto.

- Ei, Elisa! Já tá na hora! E nem pense em levar a câmera para a escola. - ouviu-se a voz de sua mãe, fazendo-a virar o rosto escutando a ordem.

- Tá bom, mãe, prometo não levar! - disse ela, em tom alto, já que sua mãe estava distante. - Que saco... - sussurrou ela para si mesma em reclamação, logo guardando a câmera no seu quarto.


REC (2)

Elisa estava deitada na cama, com a filmadora fitando sua face risonha.

- Aconteceu o que eu nem esperava: fiz uma nova amiga. Ela se chama Melinda. Ela é tão tímida, coitada. Muitos zoavam com ela por ela ter um rosto meio pálido, ficaram chamando ela de cadáver, cosplay da Vandinha Adams e outros apelidos. Eu não gostei nem um pouco da atitude deles e a defendi. Nos tornamos amigas. Espero que um dia eu possa traze-la aqui para conhecer esse lugar maravilhoso... bem, estou falando do meu quarto, mas a casa é excelente também. Enfim, vamos ver no que vai dar.

E desligou a câmera de imediato.


Dia 3

REC (1)

Na madrugada daquele dia, Elisa acordara aflita, pensando estar sendo observada. Como modo de desabafar seu temor, ligou a filmadora novamente, ficando escondida debaixo da cama com uma lanterna do lado.

- Não consigo mais dormir. Alguma coisa tá fazendo barulho lá embaixo. Tentei chamar meus pais, mas eles não respondem, trancaram a porta. Não sei se está ouvindo. mas... - Elisa se arrastou para fora e posicionou a câmera de forma que focasse a porta de seu quarto entreaberta.

Alguns segundos se passaram. Ruídos farfalhantes puderam ser ouvidos... distantes, mas que chamavam atenção.

- Está ouvindo? - perguntou Elisa, mantendo a filmadora focada na porta. Voltou a exibir seu rosto assustado em seguida. - Não sei quem está lá embaixo. Mas eu sinto como se estivessem aqui... me olhando, me encarando sem parar. Eu tô com muito medo... acho que vou dormir no meu armário... parece mais seguro.

Quando a janela de seu quarto abrira-se repentinamente, a garota dera um grito agudo, balançando a filmadora ainda ligada, logo se escondendo no lugar mencionado. Desligou o aparelho assim que entrou. As baterias pareciam estar em seus últimos minutos.


REC (2)

Elisa esquecera de levar a lanterna para dentro do armário. Ligara a filmadora de novo, desta vez focando um semblante completamente aterrorizado, embora não detectável por conta da escuridão do lugar.

- Eu vou ficar aqui... vou dormir aqui... tem alguém na casa, tenho certeza. - sussurrava para a câmera, quase aos prantos. - Me sinto num filme de terror.


REC (3)

Após o susto e o desespero ter passado, Elisa acordara radiante de alegria. Seus pais haviam relocado-a na cama depois de procurarem-na, preocupados. Estava ansiosa para seu segundo dia na escola.

- Olá! - cumprimentou, mostrando seu rosto alegre. - Eu passei uma noite meio... abalada. Mas já passou. Vou tentar esquecer isso.

Levou a câmera para dentro do carro de seu pai, pronta para ir ao seu destino. Novamente focou em seu rosto, logo ao sentar no banco de trás.

- Meus pais não sabem que vou levar a filmadora pra escola, então vou aproveitar que eles não estão vindo e falar um pouco mais do que espero do meu aniversário. Como não fiz muitos amigos ainda, então só restam as pessoas da família, por enquanto. Mas... eu andei pensando na Melinda, acho que vou convidar ela, mesmo nós duas não sendo tão próximas... enfim, vou tentar me entrosar mais com ela hoje, vamos ver como ela vai reagir ao convite.

Logo quando viu seus pais fecharem a porta da casa, Elisa desligara a câmera e guardara em sua mochila.

REC (4)

Sentada em um uma mesa do refeitório, Elisa filmara seu rosto, visivelmente animada.

- Ela aceitou! - comemorou. - Eu nunca fui de convidar amigos da escola para minhas festas de aniversário, mas.... sei lá, só estou muito feliz. Ela é um amor, tão fofa. Só uma pena eu não mostrar essa câmera pra ela, pois eu fiz uma promessa aos meus pais. Ela disse que sempre quis ter uma festa assim. Mal posso esperar para que ela conheça meus pais.

Desligou a câmera e correu para a sala de aula após o sinal.

REC (5)

Sentada no sofá, Elisa divertia-se com sua filmadora.

- Bem, tomei coragem e convidei a Melinda pra vir aqui hoje. Na verdade, ela já foi embora. Não parecia muito feliz com o ambiente. Mas meus pais até que gostaram dela... apesar de ela não ter sorrido em nenhum instante. Acho que ela não foi lá muito simpática... ou, como é tímida demais, não se habituou ainda, até porque eu quero traze-la mais vezes aqui. Sabe as coisas estranhas que vinham acontecendo aqui em casa? Pois é, elas voltaram. Ainda não contei para meus pais... espero que nada disso estrague minha festa.

 Após um chamado de sua mãe, Elisa desligou a câmera.


Dia 4

REC

Deitada na sua cama, já à tarde, Elisa parecia atônita.

- Eu... eu não sei bem o que dizer... mas eu tenho tido a impressão de ter visto a Melinda na frente da casa. Logo quando eu cheguei da escola, eu sei o que vi. Ela estava parada, no gramado, com as mesmas roupas que ela vai para a escola, aquele vestido verde escuro. Ela parecia estar com raiva... Se era ela mesmo, eu não sei. Vou perguntar pra ela amanhã. A boa notícia é que faltam dois dias pro meu aniversário. E a má notícia... ainda fico ouvindo aqueles barulhos, mas parecem que são passos. Hoje meus pais encontraram dois vasos quebrados. Sinistro. Ainda tô com medo...


Dia 5 

REC (1)

Elisa estava prestes a sair do carro para entrar em casa, depois de mais um dia de aula. Não passou mais a exibir sua conhecida face alegre. Aparentava estar profundamente preocupada.

- Melinda disse que não se lembra de nada. Ela disse também que já morou na casa onde eu vivo agora e que não se sentiu á vontade por não estar mais acostumada, mas que ainda sente saudade. Fiquei bem surpresa. Minha melhor amiga da escola já viveu na casa onde moro. Ah, ela também disse que meus pais não são tão legais assim... bem, eu não fiquei brava com ela, mas se essa é a opinião dela, não vou discutir. Acho melhor eu ir...

REC (2)

Elisa estava no quintal, deitada sobre a grama e iluminada pelo radiante sol daquela tarde. Manteve a filmadora totalmente focada em seu rosto, como de costume.

- Meus pais são uma comédia. Dizem que estou viciada nesta câmera. E daí? É minha. Mas mudando de assunto... É amanhã! - disse ela, adquirindo sua face animada novamente. - Comentei com a Melinda hoje, por telefone. Que estranho.. a voz dela é meio rouca e diferente no telefone. Ela também está bastante empolgada pra chegar logo amanhã, apesar daquela voz fria dela. Acredita que ela nunca foi à uma festa de aniversário? Pois é. Também ela nunca comemorou os dela. Fiquei com dó. Espero que ela se divirta amanhã à noite.

REC (3)

Elisa novamente estava com a filmadora ligada, mas escondida na parede. Filmara sua mãe falando ao telefone com alguém desconhecido.

- Tudo bem... Mas ele está bem mesmo? - ela fez uma pausa - Ah, que bom. Por favor, coloquem ele numa cela menos perigosa ou na solitária por alguns dias, por mais que terrível que seja.

Elisa focara a lente da câmera no seu rosto.

- Eu não sei o que tá acontecendo... - disse, sussurrando. - ... mas acho que é sobre meu tio. Ele tá preso. Não sabia dessa. Não sei... mas algo me diz que nos mudamos pra cá por causa do que ele fez. Sei lá... faz tempo que não o vejo, mas sinto a energia dele aqui... O que será que ele fez?

REC (4)

Elisa estava debaixo da mesa, respirando ofegantemente e apreensiva.

- Aconteceu de novo! Meus pais não estão em casa, parece que foram visitar meu tio na prisão. Os barulhos... eles estão vindo do meu quarto agora!

Dia 6

REC (1)

A festa estava em seu início. A mesa, bastante cheia de guloseimas, arrancava as atenções dos convidados mais afoitos. A câmera focara em Melinda... em pé, diante do esplêndido bolo de aniversário de Elisa. O rosto da garota estava mais pálido do que costumeiramente se via e sua face mais séria, praticamente indicando uma certa raiva.

A câmera foi se aproximando dela. Elisa parecia preocupada.

- O você tá fazendo aí? Não é hora dos parabéns.- disse Elisa.

Repentinamente, ao ganhar certa proximidade com a estranha menina, a lente foi se rachando aos poucos.

Melinda, então, disse com frieza nos olhos:

- Obrigada... por fazer deste dia o mais especial de minha vida.

Um sucessão de barulhos estridentes de coisas quebrando ocorreu. A câmera pareceu ser jogada de um lado, sua lente quebrada focando somente o chão da casa. Apenas ouvia-se gritos de horror dos convidados, um tremor leve mas apavorante e barulhos de coisas sendo atiradas e destruídas.

Uma gota de sangue pingara e escorrera sobre a lente da câmera largada.


Epílogo.

Atarantados com o alarido daquela casa, os vizinhos ligaram para a polícia suspeitando de uma ação criminosa. Julgando pelo teor da confusão, teorizaram ser uma chacina. E, de fato, foi - até mesmo os pais de Elisa foram mortos. A polícia coletou os seguintes dados: O homem que anteriormente morava na casa era parente muito próximo da família que havia se mudado para lá e guardava um diário, no qual relatava suas experiências sexuais com a mãe de uma garotinha chamada Melinda.

A última página constava um trágico ocorrido: Este homem - padrasto de Melinda e tio de Elisa - havia matado sua esposa no dia do aniversário de 10 anos da garota, que assistiu toda a violenta cena, juntamente com seus convidados - todos horrorizados. Tentando impedi-lo, Melinda usou a mesma faca que seu tio utilizou para matar sua mãe, mas não teve sucesso. Acabou sendo morta com uma arma que ele guardava consigo desde o início. A garota, por fim, caíra no chão com um buraco de bala no meio da testa. O tal homem, cego pela fúria, assassinou todas as crianças lá presentes, inescrupulosamente.

Antes de se entregar à polícia, ele havia escrito o última relato em seu diário com o máximo de detalhes possíveis.

A ligação que a mãe de Elisa havia recebido era sobre seu irmão preso. A pessoa do outro lado da linha afirmava que ele estava tendo constantes alucinações, se via morrendo de várias formas, além de escutar declarações ameaçadoras de uma garotinha que sussurrava em seu ouvido... 


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