Contos do Corvo #15



                                                                           CALE-SE, LIZZIE

Aquele pacato bairro de Kansas City passou por períodos sombrios naquela época. Sim, no plural mesmo, afinal foram tantos casos bizarros que talvez seja difícil eleger qual teve maior destaque. E um deles é o de Lizzie Spark, a garota de 10 anos que foi encarada por poucos e temida por muitos. Todos os habitantes do tal bairro jamais se esquecerão daqueles olhos de boneca, o rosto branco e daqueles lisos cabelos pretos com uma franjinha na testa.

Por alguma estranha razão, ela nasceu com um dom extraordinário, que lhe conferia inteligência acima da média das demais crianças de sua escola - Q.I de 208, pra ser mais exato -, uma capacidade sensitiva quase sobre-humana, além de proferir adivinhações (todas muito certas) sobre todos os aspectos humanos (estados de humor, expressões faciais, capacidade de mentir e etc). Um único indício de blefe, Lizzie já notava em questão de segundos. Segundas intenções... ela desvendava antes que qualquer um percebesse. A garota possuía um invejável poder de convencimento, conseguindo tudo que queria sem dificuldades.

Seria Lizzie o prodígio definitivo?

Entretanto, sua habilidade mais notável era sua efusividade - ela era muito sociável, costumava tagarelar com todos de quem nutria certa estima e era difícil fazê-la parar, mesmo se você pedisse por isso. Lizzie lia bastante, frequentava bibliotecas sempre que precisava. Em situações em que precisaria se passar por outra pessoa no telefone, algum familiar seu presenciava-a fazendo mimetismos de vozes, bastante fiéis às originais. Até mesmo vozes masculinas ela conseguia reproduzir.

Aos 12 anos, Lizzie ganhara uma bolsa de estudos em um colégio exclusivo para jovens superdotados, tendo que se despedir de sua família e amigos pois viveria uma vida completamente nova por lá, em um ambiente no qual ela se encaixaria perfeitamente.

Bem... pelo menos foi uma das expectativas. E expectativa jamais foi sinônimo de realidade. Só se for em uma realidade alternativa, mas isto é assunto para outras histórias.

Cinco meses depois, foi informado aos pais dos alunos que resultados de enquetes organizadas pelos tutores acerca das opiniões dos alunos sobre relacionamentos seriam publicados na internet dentro de quinze dias. Os pais de Lizzie, ansiosos, esperaram durante o dia inteiro em frente ao computador.

As notícias sobre a garota superinteligente não foram nada animadoras.

A enquete enviada tinha a seguinte e simples pergunta: "O que você acha a respeito de Lizzie Spark?"

Dentre as opções estavam: "Ótima", "Amigável", "Estranha" e "Insuportável".

Os pais ficaram espantados com a opção mais votada. As três primeiras tiveram o mesmo percentual: 25%. A opção vencedora, "Insuportável", conseguiu 88% dos votos.

Ambos reclamaram, afirmando que a filha não merecia ter sua reputação manchada por colegas invejosos e por uma votação claramente manipulada pela direção do colégio. Uma resposta publicada pela diretora relatou que Lizzie estava passando por vários problemas, dentre os quais era o crescente bullying cometido pelas suas colegas de classe. A informação apenas deixou aqueles pais revoltados ainda mais furiosos, muito mais pela negligência da direção e dos professores.

Foi mandado um e-mail dos pais que parecia ser uma ameaça de invadir a escola e fazer reclamações pessoalmente. Uma semana depois a direção mandara outra resposta. O texto pareceu ter sido escrito às pressas, aumentando a aflição daqueles pais. A diretora informou que Lizzie teria dito coisas indecentes e que ferem a moral. O mais impressionante foi a declaração de que a garota, ao dizer qualquer palavra-chave para determinado desejo seu, trazia para a realidade seus pensamentos.

Um dos meninos foi encontrado morto no banheiro, completamente nu, sangrando bastante, castrado e com o membro sexual enfiado na boca. Outro episódio foi o de uma menina da mesma classe de Lizzie ter sido desmembrada, os dois braços e as duas pernas pendurados nos fios elétricos e o corpo e a cabeça no topo do poste. A diretora confirmou isso com base no que via e percebia nos comportamentos e palavras ditas por Lizzie. O último relato foi de que a garota mudara drasticamente de caráter, parecendo estar disposta a se vingar dos que a subestimam e humilham-a. 

Chocados, os pais exigiram que Lizzie fosse desmatriculada imediatamente, mas não obtiveram nenhuma resposta nas duas semanas seguintes.

Mais um mês, então, se passou. Outro e-mail foi enviado, desta vez com algo diferente. Em vez de um texto, estavam duas fotos - uma ao lado outra - completamente estarrecedoras. Na primeira foto estava o quarto onde Lizzie dormia - todas as luzes acesas -, mas inteiramente banhado em sangue. Na outra apenas o abajur estava ligado e o resto as escuras, e também estava Lizzie... sentada e amarrada numa cadeira bem perto de sua cama, com os olhos vendados por um pano branco sujo de sangue e a boca costurada. 

Curiosamente, outra mensagem foi mandada aos pais naquele exato. Era novamente a diretora, confessando seu envolvimento no assassinato. Argumentou que Lizzie era um completo monstro no corpo de um ser humano e que sentiu-se obrigada a cooperar com as alunas antes que o colégio explodisse (literalmente) sob qualquer palavra dita por ela. Por causa de Lizzie, o marido da diretora cometeu suicídio após, horas atrás, a mesma ter conversado com ela sobre querer se matar - sempre com ênfase em uma determinada ou uma expressão - por conta da implicância que sofria.

Segundo ela, Lizzie não tolerava repúdios a sua pessoa, nem aceitava visões negativas sobre seu jeito de ser. Boatos contavam que Lizzie, secretamente, maltratava e menosprezava os colegas mais reservados, chegando a ameaça-los de morte se caso conspirassem contra ela.

A verdade é que a oportunidade de estar em um lugar onde pode-se usar toda sua inteligência livremente, sem sofrer julgamentos de pessoas ignorantes, subiu à cabeça de Lizzie, tornando-a, muito precocemente, em um ser humano arrogante e capaz de qualquer ato para provar seu valor, seja para o bem ou para o mal.

Os pais, ao mesmo tempo em que sentiam a dor da perda, sentiam-se culpados pelo erro que cometeram.

"Ainda que permanecesse com vocês, Lizzie não estaria livre de abraçar seu destino em ser uma perigosa desordeira com traços de psicopatia nítidos.", disse a diretora na última mensagem enviada.

Após dois meses, viera a notícia de que o colégio foi destruído em um grave incêndio na madrugada.

Apenas os pais sabiam que Lizzie era tão especial a ponto de causar enormes estragos, apenas com o poder mortal de sua mente e oratória.

Pelo menos até pipocarem em sites e blogs os diversos casos de aparições surreais. 

Neles estavam descritas mortes viscerais de pessoas que cruzaram com a imagem de uma garota pré-adolescente, vestindo roupas colegiais (casaco preto, gravata listrada e saia marrom), com os olhos arregalados e a boca costurada. 

Algumas vítimas conhecidas tiveram suas gargantas cortadas. Já outras perderam suas línguas, que foram arrancadas. E também aquelas que enlouqueceram ou se suicidaram por ouvirem constantemente as frases perturbadoras que Lizzie sussurrava nos ouvidos. 

Desde então, pronunciar o nome de Lizzie Spark em uma longa conversa tornou-se sinônimo de sentença de morte certa. 

Falar demais nunca custou tão caro. 



Comentários

  1. Boa noite, Lucas.

    Ficou com um prato cheio(!) se você transformar este
    pequeno conto num desfecho a fim de explicar as apa-
    rições do fantasma de Lizzie - se for continuar.

    será que ela foi vitima de crimes de ódio? A escola
    tem sido um grande campo de batalha contra esse mal.

    Sucesso! Se possivel, faz a leitura do meu conto.
    Bençãos Brutais, via Poemas Góticos, Lady Dark.

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    Respostas
    1. Olá! :)
      Bem, os contos que são narrados nesta série geralmente possuem tramas fechadas, que não exigem uma sequência direta, e isso favorece todo o ar de mistério. Futuramente poderão haver histórias com duas ou até três partes, no entanto não é o caso deste. Lizzie sofreu a morte brutal por conta da intolerância de seus colegas e, principalmente, de seu dom destrutivo. Logo, ela tornou-se um espírito vingativo, uma alma que está insatisfeita com o mundo em que viveu enquanto em vida e não descansará tão cedo até matar o maior número de pessoas possível com o padrão de assassinato que definiu: Roubar aquilo que confere aos seres humanos a fala e a comunicação. Se ela não tem mais esse direito, ninguém mais terá.
      Muito obrigado pelo comentário, fico feliz que tenha gostado. Dei uma conferida no arquivo do Poemas Góticos (blog que sigo fielmente) e não achei seu conto (darei uma outra olhada depois) :/
      Até mais.

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