Contos do Corvo #16


- Ué, achei que em algum momento você diria que alguém que sobreviveu fez algum ritual para prender o espírito. - disse a menina, ainda imersa na trama de Lizzie Spark.

- E você pensa que seria fácil? Que haveria tempo? - questionou o corvo.

- Há ou não?

- Sim. - respondeu a ave, parecendo ficar impaciente. - Tem como aprisionar um espírito corrompido, mas é óbvio que mesmo os melhores conhecedores de assombrações jamais conseguiria tempo o bastante para recolher todo o material para o ritual. É muito complexo. Exige tempo. E coragem também, é claro.

O coveiro retornara da delegacia, parecendo abatido.

- E então, velho? O que conseguiu? Pegaram o desgraçado? - perguntou o corvo.

- Claro que não. - respondeu ele, ríspido. - Sequer queriam vir para dar uma olhada. São um bando de incompetentes.

- Posso fazê-lo com que não reclame demais por muito tempo na nossa presença... - disse o corvo, olhando para ele. - ... se ouvir uma história. Prometo não alongar muito.

- Assim espero. - disse o coveiro, cravando a enxada na terra. - Manda aí.

- Estou surpresa. - comentou a menina, parecendo orgulhosa do homem ranzinza.

- Estou precisando de um falatório para curar minha insônia. - disse ele, dando uma piscadela para ela.

- Hahaha, muito engraçado... - ironizou o corvo, nada satisfeito com o comentário. - velho chato... - resmungou baixinho

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                                                                              O DIA DO CONTRA

Está interessado em saber o porque de Alexis Loring ter sido internada com extrema urgência em um manicômio de segurança máxima? Ela tinha certos traços de sociopatia, mas o motivo passava longe disto.

Esta é mais uma das muitas garotas rebeldes e meio neo-feministas daquela pequena cidade do Novo México. Não costumava arrumar o quarto sozinha, nem deixar as matérias da escola em ordem... Enfim, pode-se dizer que sua vida resumia-se em um punhado de bagunças grotescas. Nada parecia estar nos eixos na vida da jovem.

Em um domingo de puro tédio, Alexis ficara em casa, imersa em um ócio que qualquer pessoa que goste da rotina atarefada detestaria. Os minutos esvaíam-se. O som do relógio parecia o único que ocupava seu quarto. E ela permanecia deitada de costas na sua cama, contemplando o teto com um olhar demasiadamente vago, os cabelos dourados jogados sobre a coberta branca. Seu pensamento focava mais em um passatempo com os amigos, usando drogas de todos os tipos ou enchendo a cara até o ponto de uma overdose. Psicólogos afirmavam que sua mente deixava implícito um certo prazer pela desordem, uma vida desregrada como um todo.

No entanto, Alexis era sempre indiferente às dicas que os profissionais davam para que adotasse um estilo de vida correto e organizado. De repente, ela tivera uma ideia, que, de início, lhe pareceu meio absurda e estúpida, mas foi a saída de emergência para afugentar a monotonia da tarde.

Simplesmente pegara uma folha de papel e começara a escrever palavras aos contrário, depois frases... até pequenos textos, depois mais longos. Assumiu que aquilo era a única coisa que a afastaria da monotonia: pessoas falando sobre os mesmos assuntos, as mesmas notícias nos mesmos jornais...

Seu nome e sobrenome ao contrário eram "Gnirol Sixela". Escrevera uma carta para si mesma, como se intencionasse colocar numa cápsula do tempo e quando abrissem-a ela recebesse a carta, como se quisesse sentir nostalgia daquele tempo que deixaria saudades quando ficasse mais madura - e certamente largaria a vida "bandida".

Foram mais de dez horas passadas, escrevendo textos e mais textos, todos com frases ao contrário. Tudo soava como um divertimento descompromissado e passageiro. Durante o tal período, Alexis consumiu cerca de 19 latas de cerveja, obviamente embriagando-se e meio que perdendo a noção do tempo, indo dormir tarde da noite.

Costumava acordar com o barulho irritante do seu despertador, porém o mesmo não berrou naquele dia. Alexis percebera algo completamente atípico logo ao acordar. No relógio eram nove e meia. No entanto, tudo ainda estava um breu lá fora, nenhum facho de luz do sol no horizonte. Obviamente ela estava com a sensação de que dormiu mais do que o necessário, e o álcool a fazia pensar terem passado dias em vez de horas.

"Já devia estar de manhã... que estranho", ela sussurrou. "Por quanto tempo dormi?", ela disse.

Enquanto bebia um copo d'água, um grito apavorante de sua mãe quebrou o silêncio da casa. Deixando cair o copo e quebrar-se no chão, ela correu para seu quarto, sua mãe estava lá.

Ela estacou na entrada, pasma com o que via... e ouvia.

Alexis havia pregado na parede uma das cartas, e justamente foi a de suicídio falso. Mas aquilo não era o pior, sem dúvidas. Sua mãe, irritada com o conteúdo da carta, proferia frases aparentemente sem sentido. Demorou para Alexis compreender. Depois veio só o medo vindo tomar conta. A mãe da jovem estava exprimindo frases ao contrário, e Alexis, como ainda lembrava-se de alguns dos textos que escreveu no dia anterior, pôde "decifra-las". No entanto, algumas - eu diria que a maioria - soaram confusas, sem sentido, dando a impressão de serem anagramas, embora não fossem.

O cérebro dela parecia estar lento demais para assimilar aquele "idioma novo", mas pelo visto os textos do dia passado não a deixaram fluente. "Porra!", ela reclamou. Saiu correndo, até chegar à rua, vagueando sem rumo, desesperada.

Com o celular na mão, ela constatou o pesadelo no qual vivia. A data estava ao contrário: 6002 ed Orbutuo ed 21.

"Eu tô ficando louca, só pode!", ouvi ela dizer. Ela largou o celular na rua e correu sem saber o que fazer, muito menos a quem recorrer. A cidade àquela hora parecia mais movimentada: carros passando normalmente, donas de casa indo nas mercearias, assaltos a bancos - que costumeiramente ocorriam em plena luz do dia na cidade.

Ouviu todos conversarem ao contrário, todos que passavam por ela. Ela abordou um homem - escolhido aleatoriamente - para descobrir respostas.

"Por favor, me diz que isso é só um sonho!", ela falou, quase suplicando.

O homem a olhou estranho, franzindo a testa. Falou que o deixasse em paz e que ficasse longe dele pra sempre. Isto, logicamente, ao contrário. Alexis captou um pouco da mensagem, mas ainda assim tudo pareceu anti-natural e surreal. A única diferença é que as pessoas andavam para frente, até aí tudo normal. Os 99% daquela situação pesavam grandemente para o intelecto ainda em recomposição de Alexis.

A jovem se isolou em um beco escuro... até "amanhecer". Encontrou um relógio de pulso largado numa lata de lixo, ainda funcionado. O pegou e viu que eram cinco e meia da manhã, depois vendo os primeiros raios do sol no horizonte. "Mas já devia ser fim de tarde!", ela disse pra si mesma.

Ela pareceu sentir que recuperou toda a capacidade de compreensão, e já entendia quase que totalmente a fala contrária das pessoas, os efeitos do álcool e das drogas em seu sangue deixando seu organismo. A toda velocidade, Alexis correu até sua casa. Na rua reouve seu celular e viu o horário, ficando ainda mais chocada: Seis e cinquenta da "manhã".

Lutando para não perder a noção de tempo e realidade - ou acabar por enlouquecer de vez -, ela entrou na casa em disparada, indo direto para o quarto, mirando nas cartas e textos que escreveu. Ela assumiu o horário real do dia, que era seis e cinquenta da noite, logo sua mãe ainda não havia chegado do trabalho. Abriu as gavetas e retirou de lá toda aquela papelada do ontem. Também tirou a que estava fixada à parede com pregos.

Ela tivera a ideia de que o que estava ocorrendo era por sua causa, ela era responsável por toda aquela loucura. Alexis assumiu que tinha até o fim do dia para dar fim naquelas cartas, e que assim conseguiria se livrar daquele "falso mundo".

Alexis jogara os papéis num balde de lixo e queimara as cartas, todas elas. Trancou-se no quarto, ignorando sua mãe, que ainda falava ao contrário. Ligou a TV e percebeu um detalhe interessante: Todos os canais estavam na ordem conhecida, as pessoas falavam corretamente sem nenhuma frase soar estranha aos ouvidos ou incompreensível. Não existia programação local. Logo, Alexis ligou os pontos. Apenas aquela cidade sofria com aquele mal inesperado.

Decidiu fechar as cortinas e a janela, sem permitir que a luz solar entrasse. Por fim, deitou-se depressa na cama, querendo dormir e desejando que, quando fosse acordar, aquele pesadelo tenha terminado. Talvez ela devesse somente esperar pelo amanhã.

No relógio marcavam oito horas em ponto. Foram várias horas de sono, ora natural, ora forçado/interrompido.

Quando acordou, Alexis viu a porta de seu quarto aberta. Claramente foi arrombada. Ela correu até a sala e sua mãe estava do lado de fora da casa à sua procura. Ela a abraçou e, felizmente, estava falando no idioma correto, sem frases ao contrário. Disse que arrombou a porta e que ficou feliz em ver que sua filha estava bem.

Sem questionar o ato da mãe, Alexis relatou sua experiência: conversas entre pessoas, número do mês, do ano, do dia, da hora... tudo ao contrário.

Curiosamente, a mãe de Alexis afirmou não lembrar de absolutamente nada, mas que, estranhamente, sabia e sentia que estava vivendo no dia 13 de Outubro. Tendo isso em mente, concluiu-se que a população daquela cidade assumiu o dia 11 como o ontem!

Alexis tivera um surto de ansiedade - praticamente beirando ao psicótico -, questionando com várias pessoas se elas lembravam ou não do dia 12.

Para seu choque, ninguém que abordou nas ruas estava lembrado de ter vivido tal dia.

Com o passar dos dias, as crises de Alexis ficaram mais intensas e sua mãe achou melhor interna-la, atribuindo-as ao consumo excessivo de drogas da garota e também pelo alcoolismo, ambos causadores da suposta paranoia.

Em 20 de Outubro de 2006, Alexis Loring foi internada em um manicômio, rotulada como "classe 2", do tipo "nocivo à moral, conduta e segurança da sociedade", classificando-a como perigosa.

Aos psiquiatras que a visitavam, a garota afirmava e reafirmava que o dia 12 foi real e que o mundo inteiro parecia retroceder no tempo. Disse também que foi a causadora de tal fenômeno por conta da escrita dos textos ao contrário. Para sua infelicidade, os profissionais exigiram provas, mas nada foi encontrado, pois, obviamente, as cartas foram destruídas, fazendo a alegação da jovem permanecer insustentável.

Alexis somente pedia por respostas. Infelizmente, jamais saberia, estando fadada a mofar numa cela branca. O que fora o assombroso fenômeno? A escrita de Alexis? Uma súbita falha na realidade? 

De qualquer forma, ninguém nunca saberá, pois a memória do fatídico dia 12 de Outubro continua somente na mente julgadamente perturbada de Alexis. 


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