segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Solidão


Quanto arrependimento pesa sobre minha mente. Depois do que houve naquele dia, passei a me ver como o ser mais desagradável existente no mundo. Não sei se posso dizer com total certeza de que aprendi uma dura lição, mas o que eu aprendi foi a testemunhar meu maior medo se realizando. No dia em questão, eu estava na casa de um amigo juntamente com outros, os quais eram colegas de classe. Estávamos numa mesa redonda jogando cartas, enquanto desenvolvíamos um papo bem interessante. Depois que o relógio deu meia-noite (ficamos cerca de 5 horas só jogando e conversando) as coisas começaram a ficar... diferentes, de certa forma. Um assunto polêmico foi jogado na conversa. Minha opinião meio que acabou gerando uma bola de neve repleta de gritos, xingamentos, falácias, mais xingamentos... enfim, repentinamente todos ficaram contra mim.

Tornado o vilão de história, joguei todas as cartas que tinha na mesa (literalmente)... mas também coloquei as cartas na mesa no outro sentido. Tentei se honesto, mas passei a imagem de um mero babaca. Disse tudo o que eu pensava a respeito deles, sem exceção. Não sei se eu estava reprimidamente insatisfeito com as amizades ou se me precipitei ao escolher errado as palavras. Já não sabia mais o que eu estava fazendo, se era certo ou errado, não importava mais. Dei meu ultimato, que soou como uma explosão de raiva quando me levantei da cadeira.

- Chega! Cansei de todos vocês! Sabem de uma coisa? Começo a perceber que seria muito melhor se eu vivesse solitário, sem ter pessoas chatas por perto que só insistem em dificultar minha vida por puro prazer! Adeus!

Saí à passos largos da sala onde estávamos, exalando uma raiva nunca antes sentida por mim. Meu sangue não parou de ferver... até que uma senhora - a avó de meu amigo - parou em frente à mim. Ao que parecia, ela ouviu toda a discussão. Ela se manteve parada me encarando friamente. Só depois de uns dois minutos ela resolveu me dizer algo.

- É melhor tomar cuidado com seus desejos, rapaz. Eles podem se realizar. - avisou-me a velha.

- Tudo bem... vou me lembrar disso quando eu estiver mais calmo. - disse eu, respondendo-a.

Me dirigi ao ponto de ônibus, pois eu morava em outro bairro praticamente vizinho. Postes com luzes enfraquecidas, quase nenhum carro ou pessoa passando na rua. Um completo cenário obscuro. Fazia frio naquela madrugada. Ajeitei meu casaco e me confortei naquele banco de espera. Mas o sossego durou pouco, quando, de repente, percebi a presença de outra pessoa ao meu lado. Era um homem vestindo um capuz preto - seu rosto estava oculto - e acariciando um gato magro e meio sinistro. A primeira coisa que pensei foi que se tratava de um assaltante.

Cerca de meia hora havia se passado. Ele continuava sentado, parado, fazendo a mesma coisa. Já era quase 01:00 da manhã, quando finalmente avistei o ônibus. Até que me aliviei ao ver que ele não subiu no mesmo ônibus. Porém, deu pra ver que ele me observava enquanto eu me sentava. Tratei de esquecer isso. Ao chegar em casa, meus pais estavam dormindo no sofá e a TV ligada em estática. Os ignorei, ainda possuído pela raiva, e fui para meu quarto. O frio intenso auxilou para que eu dormisse rapidamente, sem nem me preocupar com o amanhã.

Pois é, o amanhã me pareceu algo completamente estranho. Acordei satisfeito por ter tido uma noite excelente e ter estado mais calmo. Ainda fazia frio lá fora, quase que querendo nevar. Realizei meus afazeres de todas as manhãs: Escovei os dentes, tomei banho, fiz meu próprio café da manhã... no entanto, meus pais pareciam ter saído para trabalhar bem cedo. No relógio eram umas 06:30. Jamais sairiam tão cedo assim, ainda mais em um sábado.

Depois da refeição mais importante do dia, fui me entreter um pouco vendo TV. Curiosamente, aquela era a primeira vez que eu ficava realmente sozinho em casa. Na TV não havia nada além de estática. Mas algo interessante ocorreu. À medida que eu mudava de canal - ainda mantendo a estática - uma espécie de símbolo estranho se formava... parecia uma estrela de várias pontas. Não entendi o que significava aquilo. Somente desliguei e me aprontei para ir pedalar na rua, como sempre faço nas manhãs de sábado.

Céu cinzento, pequenos flocos de neves caindo... mas absolutamente ninguém presente nas ruas. Nem cães e nem gatos apareciam. nem mesmo pássaros. Continuei pedalando com a bicicleta, sem avistar ninguém se aproximando. "Que porra de dia estranho é esse, afinal?", "Cadê todo mundo?", eram as perguntas que fazia à mim. Fiquei tão atordoado que acabei avançando para outro bairro sem perceber. Parei em frente à uma padaria, de repente bateu uma fome. Chamei inúmeras vezes para alguém me atender, mas foi em vão. Fui à loja de quadrinhos, não havia ninguém também. Fui à todos os lugares que eu costumava frequentar nos fins de semana e estavam totalmente vazios.

"Seria o fim do mundo?", pensei. Peguei minha bicicleta e segui para outra parte do bairro à procura de pessoas existentes. Ruas completamente vazias. Somente as casas, carros e árvores. De longe pude avistar uma cabine telefônica e corri em disparada. Tentei ligar para o telefone do local de trabalho da minha mãe. Enquanto estava chamando, fiquei olhando assustado para todos os lados, quase enlouquecendo por querer uma resposta para aquele sumiço massivo.

Tentei o número do local onde meu pai trabalhava. Finalmente alguém havia atendido. Contudo, não parecia ser a voz de meu pai. Inicialmente ouvi um chiado muito irritante, só depois ouvi a tal voz estranha. Estranha pelo fato de ser rouca e de tom um pouco distorcido.

- Alô?

- Err... pode passar o telefone para o Dr. Hermes, por favor? Fica no escritório B-12. - disse eu, ansioso.

- Hum... consigo sentir o desespero na sua voz. - disse o homem do outro lado.

- Peraí, como assim? Quem está falando?

- Você realmente sabe onde está? - perguntou ele.

- Olha, não sei quem é você, mas eu liguei certo e esse é o número do trabalho do meu pai. Pode, por favor, passar pra ele, seu engraçadinho?

- Hehehehe. Gosto quando fica irritado. Como você pode ver ao seu redor... você conseguiu chegar ao seu objetivo.

- Está me deixando assustado. Afinal, quem é que está falando? O que está acontecendo? Todos sumiram, me sinto numa cidade fantasma. Além disso, sinto um clima muito diferente, mas nada em relação ao frio. - disse eu, começando a ficar apreensivo tanto com o tom daquela voz quanto pela estranheza da situação.

- Diga-me, meu caro: Qual é a sensação de ser o único que restou?

- Não faça joguinhos comigo. Espera aí... então você sabe o que está havendo! Quer saber como me sinto? Estou desesperado! É isso, estou com medo do que isso possa significar. - disse eu, respondendo quase aos prantos.

- Eu entendo. Mas devo informa-lo de que houve um fenômeno que levou todos os humanos embora deste mundo. Com exceção de você. Não consegue conviver com a ideia que reforçou no dia anterior.

- E por que eu? Não consigo entender. Isso é real? Você é real? - perguntei, quase gritando ao telefone.

- Tão real quanto seu desejo. Eu apenas o realizei. Conviva com ele ou morra sem ter tentado. - disse a voz monstruosa, me desafiando.

Aquilo foi o suficiente para eu ligar as coisas e a ficha finalmente cair. Que arrepio doentio senti naquele momento. Minhas mãos gelaram em nervosismo. Temerariamente, tentei explicar.

- P-por favor. Se tem algo a ver com isso, reverta de uma vez! Eu não quero sobreviver em um mundo no qual posso ter liberdade mas não tenho com quem compartilhar minhas experiências. Se não me ajudar vou ter que desligar.

- Nem pense em fazer isso. Sinta a dor que isso traz ao seu coração gelado. Pense em todos aqueles que amou, aqueles que já viu e nunca chegou a conhecer. Pense em todas as pessoas deste mundo. Sacrificadas uma à uma por conta de um desejo de um único ser de espécie semelhante, que sem dó de si mesmo desejou viver uma vida solitária. - disse-me a voz, me deixando em estado de choque de tanto medo e horror.

- Aaaaahhh!! Pára, por favor! Já chega! Sou o culpado por tudo isso, me desculpa! Faz isso parar, por favor. Eu não quero viver assim... não quero viver assim... quero eles de volta... traz eles de volta... - disse eu, debulhando-se em lágrimas.

Subitamente, senti algo me arrancar para cima. Na verdade, era apenas eu acordando na minha cama. Foi tudo um sonho. Respirava ofegantemente, olhando para qualquer lado. Da janela do meu quarto vi a neve cair lindamente. Não sabe o quão aliviado fiquei ao perceber que nada daquilo foi real. Corri até a sala de jantar e deparei-me com minha mãe chorando na mesa e meu pai a consolando.

A reação deles ao me verem foi surpreendentemente estranha. Minha mãe correu até mim, me oferecendo um forte abraço. Meu pai também fez o mesmo.

- Oh, filho! Que bom vê-lo! Sem você aqui estávamos tão sozinhos. - disse minha mãe, chorando alegremente desta vez.

- Estávamos preocupados. É muito bom tê-lo aqui conosco de novo. - disse meu pai.

Enquanto eu abraçava minha mãe, pude ver na janela a praça que ficava em frente à nossa casa. Os bancos cobertos de neve e algumas crianças brincando com ela. Mas vi também outra figura conhecida por mim. Aquele homem de capuz preto que vi no ponto de ônibus, ele estava lá, acompanhado de seu gato feioso. Não dava pra ver seu rosto. Ele parecia observar minha casa, enquanto acariciava aquele bicho.

- Por que estão agindo assim? Não entendo, vocês me viram ontem. É como se eu tivesse morrido e ressuscitado.

- Ué, você não se lembra filho? perguntou minha mãe.

- Lembrar do quê mãe?

- Você ficou desaparecido por 2 meses. 

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Creio que esperava uma trama mais mórbida.
      Mas tudo bem, fico feliz que tenha gostado mesmo assim ;)

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