Capuz Vermelho #28: "Você não suporta a mudança"


"Cansei de fugir do que penso ser a coisa certa a fazer. Estou cansada de segredos, de fatos importantes escondidos de mim como se eu não fosse forte o suficiente para encara-los. 
É hora de me libertar dessas amarras! É hora da vítima interrogar o criminoso... da presa enfrentar o predador!" 

                                                                                      Trecho do Diário de Rosie Campbell; Pág 105.

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Nota do capítulo: Partes em itálico representam flashback ou menções específicas.

CAPÍTULO 28: VOCÊ NÃO SUPORTA A MUDANÇA


4 dias depois.

Área florestal de Raizenbool; 08h50. 

Os exaustos olhos de Hector visavam, alternadamente, o chão e os ponteiros do relógio de parede. A mão que agarrava firmemente o fone tremia e suava por tamanho anseio desesperado. "Vamos logo, alguém atenda de uma vez!". A cada minuto passado, a paciência esvaía-se, dando lugar à irritabilidade iminente. Havia dedicado, nas últimas noites, todas as suas energias em fervor para parar um monstro imbatível... que residia dentro de si. Enervar-se naquela hora certamente seria um desperdício. O controle conquistado com um doloroso empenho não deveria se deixar perder por um simples telefonema demorado. Contudo, aquilo lhe era prova suficiente de que estava absurdamente distante de qualquer chance para manter o domínio sobre o "demônio da lua".

Fechou os olhos e rangeu os dentes em impaciência. Dois toques de chamada lhe fizeram sobressaltar.

- Alô? - atendeu uma voz masculina e vigorosa.

- Aqui é... - o caçador hesitou por uns segundos, suspirando pesadamente. - Aqui é Hector Crannon. Preciso que passe a ligação para o General Holt, imediatamente.

- Lamento senhor Crannon. - respondeu o homem, mantendo o tom de voz duro e frio. - No momento, ele está cuidando de outras tarefas, sem absolutamente nenhum tempo para falar com ninguém. Especialmente com pessoas que não lhe passaram boas impressões. - disse ele, atacando Hector acerca da custódia do caçador e das suspeitas do crime.

O caçador preferiu a solução mais adequada: Silêncio. A ideia de estar semi-desvinculado não lhe perturbava mais do que a própria ansiedade em reencontrar Rosie. Assim que saíra da escura e empoeirada sala, logo no início do alvorecer daquele dia, procurara pela jovem em todos os cômodos. Sem sucesso na busca - que se estendeu também pelos arredores próximos da floresta, baseado na suspeita de que ela teria armado algum tipo de barraca ou cabana improvisada por ter decidido manter distância dele -, o caçador se viu assombrado pela possibilidade restante: Rosie sequestrada e mantida em cativeiro por Abamanu, sendo qualquer resgate inegociável.

O soldado prosseguira:

- Se desconfia que seus pertences foram confiscados... então é melhor que venha aqui e falar com o General pessoalmente sobre o que ocorreu à eles.

- Não tem nada a ver com meus pertences. - respondeu Hector, o tom baixo. - Você não parece ser de nenhum pelotão de batalha. - disse ele, franzindo o cenho.

- Bem... é verdade, eu apenas cuido da manutenção de equipamentos e rastreamento. - confirmou ele. - Ainda assim, estou inteirado de alguns assuntos bem polêmicos que andam circulando por aqui. No entanto, não sei exatamente tudo. Posso repassar seu recado ao General se me disser o que quer falar com ele. Talvez ele agende um encontro com você após a missão... - o homem cortara abruptamente a frase, como se tivesse percebido que cometeu um erro.

Hector, intrigado, arqueou as sobrancelhas, adquirindo forte curiosidade para saber do que se tratava tal missão aparentemente mencionada de modo acidental.

- Do que está falando? O General autorizou a primeira missão de resgate na qual eu me revele como supervisor?

- Mais ou menos. - respondeu ele, rapidamente. - Obviamente, você participará dela de cara limpa. Nada mais de gravações com sintetizadores de voz. Além disso, a senhorita Campbell deverá estar junto do senhor. - ele fez uma pausa de suspense. - No entanto, não se trata de uma missão para resgatar os caçadores.

- E do quê então? - Hector elevara o tom, deixando transparecer seu nervosismo.

- Olha, era para ser uma informação sigilosa até que você tivesse a ideia de se encontrar com o General em algum momento. Lá mesmo você saberia disso com todos os detalhes, os quais eu não posso fornecer. Mas eu tenho a localização do grupo armado enviado, juntamente com alguns caçadores.

- Então pode-se dizer que Holt... - ele pigarreara fortemente, corrigindo a si mesmo. - Quero dizer... o General presumiu que eu fosse até o QG a tempo de Rosie ter sua licença validada?

- Exato. - confirmou o soldado, secamente. - Mas não contava que fossem se passar 4 dias em que não desse mais notícias, o que o forçou a mentir para a senhorita Campbell de que o senhor ainda estaria sob custódia, sem revelar o tempo predeterminado. - fez uma pausa um tanto longa. - Sendo assim, ela passou os últimos dias sob a supervisão de alguns soldados, recebendo orientações em períodos selecionados.

Segurando o fone tremulamente, Hector sentia-se levemente surpreso com a atitude de Holt. "Ele mentiu para Rosie, convencendo-a de que eu ainda estava preso. Talvez essas orientações serviram para que ela se familiarizasse com o Exército até que eu aparecesse. Será que Holt determinou que a licença de Rosie só seria oficializada somente quando eu surgisse e aceitasse o cancelamento do meu anonimato? Só existe um forma de descobrir, é claro.".

- Senhor Crannon? - perguntou o soldado. - O senhor ainda está na linha?

- Ah! Sim. - disse Hector, largando seus devaneios. - Se a missão for urgente, preciso que me diga onde estão.

- Não sei exatamente o caráter da missão. - disse ele, frio como um iceberg - Mas, em compensação, posso lhe dizer onde eles se encontram. É melhor que tenha caneta e papel.

"Desnecessário.", pensou Hector, enquanto o soldado começava a informar a localização, abusando de sua memória eidética ainda bastante funcional e eficiente. Respirando com mais alívio, o caçador dera uma última olhadela no relógio. "Ainda está bem cedo.".

- Ótimo. Já anotei. - mentiu Hector, a expressão séria.

- Muito bem. - disse o soldado. - Eu até gostaria que me dissesse por onde estava andando, mas isto seria abuso de minha parte. Espero que tenha a chance de dizer ao General os motivos que o levaram a ficar afastado ultimamente.

Sem nenhum aviso, Hector desligara com rapidez, deixando o soldado encarregado do rastreamento embasbacado com tal ato, dando-lhe a sensação de ter sido ignorado ou descartado. O caçador se encaminhara até a porta a passos largos e apressados. "Não tenho mais tempo a perder. Principalmente com alguém que certamente possui um pobre acervo de informações.".

Ao sair do casarão, dirigiu-se ao carro preto estacionado logo à frente, ajeitando seu surrado sobretudo de couro marrom e o sangue em ebulição. A sensação de adrenalina voltara novamente à tona. "Consegui domar a fera novamente. Se eu estiver a mercê deste fardo eternamente... que venham mais quatro anos de domínio sobre ele.".

                                                                                                ***

A névoa dificultava o trajeto, e parecia engradecer quanto mais se avançava. Hector dirigia com boa vontade, pulsando a expectativa por um encontro que fosse digno à situação que lhe foi reservada. Cofiou de leve sua barba já um tanto crescida, lembrando-se, com certa saudade, de seu único pensamento naquele instante: Rosie. "Agora que retomei o controle sobre a fera, seria sensato revelar à ela os fatos que deixei ocultos naquela noite? Não. Você está terrivelmente enganado.", pensou ele, apertando o volante com força. "Eu pagaria um preço menos alto se tivesse sido honesto desde o início. Talvez eu consiga dizer algo... se eu obliterar esse medo de como ela vai reagir.".

As árvores foram ficando mais visíveis ao longo da estrada de cascalho, a neblina parecendo se dissipar com a aproximação de Hector em direção à um veículo militar de grande porte estacionado próximo a um grande tronco seco. O caçador parara, logo saindo do carro e sentindo contínuas lufadas de ar frio em sua face séria. Se viu criando um fraco sorriso quando avistou Rosie a poucos metros ao lado de alguns soldados do Exército Britânico. No entanto, à medida em que andava, percebia um detalhe que lhe causou estranheza. "Aquele homem disse que havia caçadores também. Não vejo nenhum.". A bruma gélida dava a impressão de um inverno fora de época.

Rosie o fitava com as mãos na cintura, parecendo meio insegura estando no meio daqueles austeros homens fardados. "Uma completa estranha no ninho'.

Prontamente, um dos soldados marchara até o caçador a passos firmes e com uma expressão igualmente séria e dura.

- Bom dia, senhor Crannon, é um prazer conhece-lo. - cumprimentou o homem oferecendo um aperto de mãos.

O caçador não entendeu o significado daquele gentileza, tendo sabido que sua prisão, provavelmente, causou inúmeros cochichos pelas bases espalhadas pelo país. Retribuiu assim mesmo. O soldado se virara para Rosie e gesticulou com a cabeça para que ela se aproximasse.

- Nosso estagiário de manutenção nos avisou que viria pouco depois do senhor ter telefonado. - afirmou o soldado.

- O quê? Estagiário? - indagou Hector, franzindo a face, claramente surpreso pela mentira contada pelo homem que o atendera mais cedo. - Achava que era funcionário fixo. Agora estou desconfiado quanto as informações que ele me deu.

- As quais são...? - o soldado deixou a pergunta no ar.

Hector apontara para Rosie, que chegava mais perto.

- Em algum momento de minha custódia, Rosie recebeu treinamento por parte do Exército?

- Correto. - disse ele, assentindo.

- Ainda há outra questão. - insistiu Hector, visivelmente inquieto. - Posso não estar por dentro do agendamento das operações de resgate... mas não teria sido mais adequado o General ter me colocado como supervisor da primeira missão logo após me liberar?

- Por enquanto, não vai cumprir seu ofício até que o General autorize sua nova licença, agora desprovida da permissão de seu anonimato. - ele fez uma pausa, olhando de soslaio para Rosie. - Além do mais, ambos irão ter conhecimento do planejamento para os resgates no momento em que o General decidir.

- E quanto ao Mestre Vannoy? - questionou Hector, o tom desafiador. - Me é estranho que ele pareça totalmente excluído. Talvez nem esteja sendo bem informado.

- O que o leva a pensar assim? - perguntou o soldado, cruzando os braços. Seu tom parecia prenunciar uma inevitável irritação.

- O General deixou bem claro. - afirmou Hector, encarando o homem com fervor. - Está omitindo informações importantes à ele. Deixando-o a ver navios. Desconsiderando seu papel para com o acordo e o problema que estamos enfrentando.

Sem titubear, o soldado soltara um grunhido raivoso e levantou o queixo como se quisesse lembrar o caçador sobre quem proferia as ordens naquele dia.

- Olhe aqui, senhor Crannon...

- Está bem, já chega. - murmurou Rosie, olhando para ambos, preparada para apartar uma eventual discussão. - Que tal irmos direto ao ponto? De preferência que seja breve.

- Você não exige nada aqui. - retrucou o soldado, ríspido.

- Foi somente um pedido adequado. - disse Hector, defendendo a postura da jovem. Olhou para ela de modo amigável, depois voltando-se para o insatisfeito soldado. - Diga-nos para quê viemos até aqui.

O homem carrancudo bufara, andando alguns passos à frente. Logo apontou para um caminho de cascalho que serpenteava pela floresta rodeada de densos arbustos. Com a névoa apaziguando era possível avistar o limite da curta estrada, nada mais do que 15 km.

- Exatamente naquela direção - começou o soldado. - há uma suposta base de refugiados, provavelmente subterrânea. Nós até pensamos em ir até lá e verificar... Mas a zona de perigo se estende em um raio de 30 km, então não houve como se aproximar sem estar equipado com objetos de proteção.

- Os quais vocês ainda não providenciaram, creio. - disse Hector, estreitando os olhos.

- Não se cria tecnologia de ponta da noite para o dia, senhor Crannon. - rebateu ele, a expressão de incômodo. - Estamos investindo o quíntuplo de nosso orçamento para combater esta calamidade. Em breve todos terão suas proteções. Acredito que, com sorte, vamos estar armados com o melhor que a ciência dos homens que foram contratados pode oferecer.

Rosie se aproximou, bastante focada ao observar o caminho, percebendo a neblina esvaindo-se do ambiente.

- Tem alguma ideia de quantos estão lá? - perguntou ela, interessada.

- Ao que parece, o térreo tem estrutura suficiente para comportar cerca de 30 pessoas. - respondeu o soldado. - Certamente devem haver mais no subterrâneo, possivelmente o verdadeiro esconderijo.

Hector se empertigara, preparando-se para agir.

- Esta área parece desolada pelos efeitos do gás. - conjeturou ele, olhando em volta. - Talvez explique a névoa e a temperatura relativamente baixa. - fez uma pausa, olhando o caminho com mais atenção. - Podem ser moradores de residências próximas que foram obrigados a se refugiarem em bunkers por conta das ocorrências de infecção.

- Esta foi a hipótese que nos soou mais plausível. - disse o soldado, recuando alguns passos na intenção de dar passagem aos dois aventureiros. - Segundo o General, é uma missão de teste que servirá para avaliar o desempenho de ambos e, assim, confirmar a licença do senhor Crannon como co-supervisor.

A última frase pegara Hector desprevenido. Para ele, Holt formava totalmente suas ideias muito em cima da hora... ou fazia questão de esconde-las e revela-las no momento que achasse necessário.

- Espera, eu pensei que...

- Sim. - interrompeu o soldado, o tom frio. - Seu anonimato foi cancelado, mas não significa que deva deixar de participar das operações. No entanto, não no meio dos combatentes. É como se seu posto fosse transferido para a senhorita Campbell de um modo mais limpo... e justo. - disse ele, fitando o caçador com quem zomba de outrem internamente.

Seguiu-se vários segundos de silêncio, o vento leve e gelado ressoando por entre as vestes dos ocupantes daquele espaço.

Friorenta, Rosie aqueceu as mãos e seguiu em frente, percebendo que era inútil fazer questionamentos àquela altura do campeonato. "Isso Hector. Fique aí, perdendo tempo com esse imbecil que não está dando a mínima se vamos vencer ou falhar. Eu prefiro ir adiante e lutar.".

Vendo que foi deixado para trás, Hector desvencilhou seu olhar rebelde dos do soldado e decidira acompanhar Rosie caminhando com pressa a fim de alcança-la.

O clima se amenizava gradualmente. Enquanto isso, o descontentamento de Rosie com a metodologia só aumentava. Correu os dedos por um de seus cintos de utilidade. Puxou o zíper de um bolso tático e de lá tirara um papel que fora dobrado quatro vezes. Finalmente, Hector encontrava-se lado a lado com ela, ambos percorrendo o caminho no mesmo ritmo apressado.

- Ainda quero saber as razões que levaram o General a prender você. - disse Rosie, não escondendo sua incessante curiosidade.

- É confidencial. - redarguiu Hector, lacônico.

- Por enquanto. - respondeu ela, logo mostrando o papel que retirara. - Não vai acreditar no que tem aqui. - ela desdobrara a folha com rapidez. Exibira-a por fim, bem próximo do rosto do caçador.

O coração de Hector praticamente saltou pela boca ao dar de cara com um registro, cuja foto no canto superior direito era-lhe deveras familiar. "Mas... O que significa isso?".

- Rosie... - balbuciou ele, ainda estupefato. - Onde conseguiu isso? Aliás, como conseguiu?

- Foi durante uma das pausas das minhas aulas. - disse ela, guardando a folha. - Eu estava numa sala repleta de armários com várias gavetas, parecia ser o gabinete de algum funcionário. Acho que do criptógrafo. Na mesa haviam alguns papéis espalhados e... bem, você deve já imaginar o que fiz. - disse ela, deixando que o caçador complete o resto da história mentalmente.

Alguns instantes de reflexão passados, Hector teve um assustador lampejo de compreensão.

- Então... - proferiu ele, sem saber muito bem como falar. - Isso só pode significar uma coisa.

- Está pensando o mesmo que eu, certo? - perguntou Rosie, olhando-o com uma seriedade equilibrada.

Assentindo, ele continuou a fitar o caminho à frente, sem se desprender das divagações aterradoras que lhe vinham à mente. "Se o que penso for verdade... Supostamente isto facilitou minha liberdade.".

- Sim, exatamente. - soltou ele. - O General pode estar sendo ameaçado ou até mesmo aliado. Ela é mais rápida e esperta do que pensei. Já era óbvio que tentasse tirar proveito da situação.

Continuaram seguindo, permanecendo em silêncio e atentos à missão, embora aquele fato fosse naturalmente perturbador.

O registro que Rosie carregava consigo pertencia à espiã do Exército Britânico Betsy Rossman... também conhecida como sendo o receptáculo de Sekhmet.

                                                                                            ***

Enquanto a dupla rumava em direção à misteriosa base ocupada por supostos sobreviventes, o soldado que se encarregara de informar o caráter da missão estava falando através de um rádio-transmissor, atrás do veículo, aparentando prezar pela privacidade. Os outros se mantinham mais à frente, no início da trilha de cascalho, à espera de Rosie e Hector. Pelo que foram convencidos a acreditar, a tarefa seria rápida e não exigiria muitos esforços físicos. Aquela era somente a visão prévia.

O soldado carrancudo apertara um botão no rádio. Apertou-o contra o ouvido ao passo em que olhava de esguelha para os outros homens que estavam distraidamente pacientes.

Uma estática entrecortada se fez irritante.

Alguém, por fim, havia atendido.

- E então? Como está indo aí? - perguntou uma voz áspera e soturna do outro lado da linha.

- Tudo nos conformes, senhor. - respondeu o soldado, não deixando de olhar para seus homens. - Pode-se dizer que caíram feito patinhos. - deu uma risadinha zombeteira.

- Ótimo. Presumo que o senhor Crannon esteja armado.

- É, ao que parece ele trouxe sim uma arma. Não sei quanto à senhorita Campbell.

- Como lhe disse antes: Rosie Campbell possui algo de extraordinário. - inteirou o homem, falando de modo solene. - Vamos tirar a prova hoje mesmo. Se saírem vivos de lá, dois fatos se elucidarão: Campbell realmente possui uma força oculta dentro de si e Crannon detém algum tipo de habilidade sobre-humana.

O soldado franzira o rosto, desconfiado.

- Ué, achei que Crannon não estivesse incluído na vigilância. Qual a base dessa suspeita?

- Hoje cedo os peritos me forneceram dados muito convincentes no último relatório. Os corpos, conclusivamente, foram trucidados por mãos humanas, mas que possuíam características evidentes de um ataque animal. As digitais eram de Crannon. Se estivessem lá em pouca quantidade, poderíamos supor que ele tivesse domado um grupo de feras e mandado-as atacar as vítimas. Mas não. Ele tocou em todos os corpos... e isso o torna um assassino foragido. Além disso, se as feridas brutais nos corpos se assemelham à de ataques selvagens... ainda assim não parecem ser de nenhum animal conhecido.

A afirmação fizera o soldado ter calafrios. "Hector Crannon... parece ser um homem de vários segredos. O que ele é?"

O General Holt continuara.

- Para que cheguemos a uma conclusão definitiva, precisaríamos somente de uma amostra sanguínea. Mas, obviamente, a esta altura isso é inviável.

- É verdade, ele desconfiaria. - aquiesceu o soldado, engolindo a saliva, tenso.

- Deveria te-lo avisado quando ele ligou para sua sala hoje.

- Não acha que seria mais apropriado pega-lo de surpresa... depois que os resgates forem feitos? - sugeriu ele, pouco à vontade.

- Desculpe, soldado. Sua ideia não me é muito eficaz. - retrucou Holt, descontente. - Lembre-se que os sequestrados são membros da Legião dos Caçadores. - falou, com certo enojo na voz. - Eles vão se unir novamente, e, é claro, vão precisar do apoio de Crannon para derrotar quem está por trás disso. Se isso ocorrer, vamos intervir como último recurso e como reforços se caso solicitarem nossa ajuda.

- Ahn... - o soldado parecera um tanto inseguro. - Não acha que foi... meio equivocado deixa-los irem sem nosso equipamento de proteção? O tempo limite é de 20 minutos, assim que entrarem na base já estarão expostos.

- Ora, deixe essa preocupação desnecessária. - resmungou Holt, aborrecido. - Se forem tão especiais quanto nós suspeitamos, não há porque temer que eles sofram danos graves. - argumentou, curto e grosso.

- É... acho que faz sentido. - concordou o soldado, incerto quanto à conjectura do General.

- Muito bem. Volte ao seu posto. Mantenha-me informado.

- Pode deixar, senhor. - disse ele, logo em seguida encerrando a transmissão.

Mais uma vez, o General Holt provara sua genialidade quando o assunto era ludibriar seus alvos.

Aquele soldado era aquele com o qual confidenciara as informações que permaneceriam ocultas fora do QG principal e também encarregado de vigiar Rosie - a partir daquele momento Hector também seria observado a cada vez que pisasse no mesmo solo que os homens fardados. Além disso, fora ele quem havia falado com o caçador poucas horas mais cedo. Não havia nenhum estagiário. O soldado havia recebido, secretamente, uma sala própria, cuja linha telefônica para o número com qual Hector ligara foi transferida para lá. Praticamente um teatro armado.

Também sobre a questão da tecnologia para enfrentar os infectados e sua influência... Estavam todos prontos, aprovados após sucessivos testes.

Agora só restava aguardar os resultados da perigosa missão.

                                                                                               ***

O corredor era fétido e sujo, como se inúmeros odores estivessem misturados. As paredes eram cinzas e rachadas, com inúmeras manchas negras e secas. O teto era aberto, deixando o ar frio do ambiente adentrar abertamente.

Sob a mira daquela espingarda, Rosie e Hector se limitaram a erguer os braços, sem entender exatamente porque seriam confundidos com infectados. Ou, como o homem que os mirava, prestes a apertar o gatilho a qualquer momento, dizia: Miméticos. Eis a nomenclatura verdadeira daquelas criaturas que deixavam um fluido negro e espesso correrem por suas veias em substituição ao sangue.

Mirando o cano da arma para os dois de modo nervoso - como se não soubesse em quem atirar primeiro -, o rapaz parecia mais estar com medo do que com fúria. Usava uma bizarra máscara de gás preta, dando-lhe uma aparência tal qual a de um de ser extraterrestre. Além daquele item, vestia uma calça social marrom e um casaco preto por baixo de uma camisa branca. Suas mãos tremiam, uma reação involuntária do dedo que estava no gatilho prestes a ser acionada.

- Me digam logo quem são! De onde vieram e porque estão aqui! - exclamou ele, exasperado.

Ambos entreolharam-se, inseguros, mantendo as mãos para cima. Hector teve de se sentir obrigado a assumir as rédeas do problema.

- Nós fomos enviados por nossos superiores, sem nenhuma intenção de praticar males à você, nem aos seus companheiros. - ditou o caçador, firme no tom de voz. - Sei muito bem o que está pensando. - deu um fraco sorriso nervoso. - Nós não estamos infectados.

Sem estar convencido, o rapaz aproximou ainda mais a mira da espingarda de modo mais ameaçador desta vez.

- Ah, é mesmo? - perguntou ele, soando irônico. - Deixa eu adivinhar quem está no comando: Um deus com corpo e cabeça de lobisomem, sinistramente monstruoso, e que está afim de acabar com todo mundo. Sei disso porque tive que interrogar um daqueles vermes gosmentos. Enviados até aqui para se passarem por pessoas normais e pedirem um lugar no nosso refúgio!

Suspirando longamente, Hector fechara a cara e refletira sobre aquela tortuosa questão. "Claramente ele não vai nos deixar passar até que apresentemos uma prova definitiva.".

- Não trabalhamos para ele. - falou Rosie, já sentindo a dormência nos braços. - Se nos fizesse o favor de simplesmente abaixar esta arma... seria possível que nós explicássemos nossos motivos. - relanceou Hector com os olhos, um tanto incerta.

- Acham que é fácil pra mim? - resmungou o jovem, o tom ríspido - Não vão sair da minha mira até me provarem que possuem sangue humano. Se não estão usando máscaras significa que estão infectados... se estão infectados significa que devem morrer. Me mostrem logo os olhos pretos, droga!

- Não, nós não estamos com uma gosma preta e nojenta correndo nas nossas veias. - insistiu Rosie, sua impaciência tomando conta de sua voz. - Muito menos com olhos pretos. Mas você vai ganhar um olho roxo se não abaixar essa arma...

- Ahn, Rosie. - chamou Hector, interrompendo-a, como que querendo impedi-la de dificultar a situação. - Só existe um jeito de nós provarmos.

- E nós precisamos? - retrucou ela, franzindo o rosto em aborrecimento.

- Se ele nos permitir... - Hector voltou-se para o rapaz desesperado que os ameaçava, olhando-o com certa expectativa.

Após um breve silêncio, ambas as partes pareciam estar acertadas quanto a permissão da passagem.

- Tudo bem... - disse o jovem, lentamente abaixando a arma. - Podem se mover... mas não fujam. Estão limpos ou não?

Sem titubear, Hector baixara as mãos e sacara de um bolso externo de seu sobretudo um canivete. Tirara do objeto uma lâmina pontiaguda e média, logo em seguida afastando a manga da veste até o ombro. Rosie se desconfortara com aquela atitude, mas rapidamente percebeu que era a única forma de conseguirem passar. O caçador fizera um pequeno corte horizontal no antebraço, o sangue fresco surgindo e levemente escorrendo. Olhara para o rapaz que colocara novamente a arma em riste, logo depois ajeitando a manga com certeza de que o corte sararia depois devido à pouca profundidade do mesmo.

- Satisfeito? - perguntou Hector, sério. O acusador respondeu abaixando a arma.

O caçador entregara o canivete à Rosie, forçando-a também a provar sua humanidade.

- Ah, que droga. - reclamou ela, fitando o objeto com raiva. - Me dá isso aqui. - disse, tomando-o da mão de Hector.

Escolheu justamente a lâmina maior e com o fio mais eficaz. Exibindo seu antebraço direito, tratou de agilizar o processo, sem medo de cortar a pele horizontalmente, porém, de modo suave. Em seguida olhou para o jovem com uma visão fuzilante, mostrando o cauteloso corte.

- É o bastante pra você? - indagou ela, esperando qualquer reação por parte dele.

O jovem assentira após uma observação um tanto minuciosa, mesmo através daquele aparentemente escuro visor de plástico de sua máscara.

- É. Passe livre à vocês. - virou as costas, dirigindo-se até o fim do corredor. - Me sigam por aqui.

A porta no fim do corredor estava praticamente em frangalhos de tão desgastada que se mostrava a madeira. Um pouco hesitantes e intrigados, a dupla seguiu o rapaz armado. Era hora de conseguir respostas acerca do porque de pessoas que se dizem sobreviventes estarem refugiadas em uma área tão próxima à uma das fábricas recém-instaladas.

- Não vai nos dar máscaras para nos protegermos? - perguntou Rosie, desconfiada.

- Primeiro... - começou o rapaz, sem demonstrar nenhum resquício de gentileza no tom. -... Devem me dizer porque estão aqui. E quem os enviou.

- O Exército. - disparou Rosie, sem temer nada.

Hector lançou-lhe um olhar de desaprovação, o qual a jovem interpretou como "O que deu em você? Não pode revelar assim algo que deveria permanecer sigiloso!".

O rapaz, curiosamente, não aparentou estar surpreso.

- Já devia imaginar. - disse, dando de ombros. - Poucos dias antes, eu avistei alguns soldados fazendo algum tipo de vistoria perto da fábrica. Estavam protegidos com o melhor que eu já vislumbrei sobre equipamentos de alta tecnologia.

A revelação caíra como um raio sobre os dois. Uma amarga sensação de desilusão acometeu Rosie na forma de um embrulho no estômago. Boquiaberta, virou-se para Hector com a expressão atônita. O outro lhe retribuiu igualmente, a face desnorteada. De repente, em ambos, o sentimento de traição deu lugar à raiva. "Então mentiram descaradamente!", pensou Rosie, inquieta.

"Provavelmente já passaram da fase de testes. Holt está fazendo questão de nos esconder mais do que é capaz, para nos cegar quanto à realidade. Querem nos manter focados, enquanto ocultam vários detalhes relevantes. Toda a tecnologia, tudo já estava pronto. Não sei quanto à Rosie, mas... tenho a impressão de que estamos, de alguma forma, sob a mira de algum plano secreto. Nada parece natural. O fato de Sekhmet estar usando o corpo de uma espiã do Exército... Será que ela já chegou a ter contato com o General? Se assim foi, não é de se estranhar que possa ter relação com minha soltura repentina.", pensava Hector, imerso nas reflexões quanto aos mistérios guardados pelo Exército Britânico e as artimanhas sórdidas que o General Holt poderia estar executando.

- Esse abrigo subterrâneo foi criado - dizia o rapaz, enquanto abria a porta e seguia por um corredor mais curto. - há 1 ano, pelos soldados do Exército Britânico. Capacidade suficiente para abrigar mais de 40 pessoas, é um dos melhores bunkers já feitos. Diziam que era para enfurnar os melhores homens para se proteger das bombas nucleares. - fez uma pausa. - Aqueles malditos miméticos arrasaram com nossa vila. - olhou para eles por cima do ombro. - Não confundam minha atitude com insensatez... é que mais máscaras estão em falta, eu sinto muito mesmo. Mas não se preocupem, só se passaram doze minutos desde que chegaram aqui.

A última frase despertou a suspicácia de Hector.

- Como sabe que não se deve passar mais do que vinte minutos exposto ao gás? Você conseguiu estudar os atributos dos infecta.. quero dizer, dos miméticos?

O jovem ficou em silêncio por vários segundos, aparentemente relutando em ter que responder mais do que julgava ser necessário. Rosie, estranhando o emudecimento rápido do garoto, cutucou Hector de leve com o cotovelo e balançou a cabeça negativamente à ele com a face séria. Um contato visual foi estabelecido, portanto cabendo ao caçador fazer sua parte. Rosie estava tentando dizer algo como "Há algo de errado nesse lugar". Baseando-se na suspeita contra o Exército após aquela revelação, fazia todo o sentido de que aquela missão poderia ter fins obscuros. Hector parecia concordar com sua companheira. O jovem continuou mudo misteriosamente, mas sua postura havia se alterado nitidamente. Os ombros estavam curvados, sua coluna não estava mais tão empertigada quanto no momento em que abordou os dois aventureiros. O instinto apurado de Rosie e a visão analítica de Hector resultou numa fusão que clareou ainda mais a desconfiança, tornando-a mais adequada.

Desceram pela escada de um alçapão. Em seguida, percorreram mais um corredor, este bem mais escuro, o que fez o rapaz se sentir obrigado a acender sua lanterna. Rasgando a escuridão, a luz do objeto passeou pelo espaço... até que, por fim, iluminou uma pesada porta metálica travada com uma corrente e três cadeados. Sacando um molho de chaves, o rapaz inseriu uma delas no primeiro cadeado.

Mediante ao ar empoeirado do recinto, Rosie tentou reprimir alguns espirros, ao passo em que ficava mais e mais ansiosa para investigar o local secreto.

Após o que pareceu ser várias horas de espera, a porta finalmente se abriu. "Caramba, já era tempo.", pensou Rosie, soltando um suspiro de alívio e entrando com pressa na sala à frente ao lado de Hector. O baque do fechamento da porta soou retumbante e ecoante. Os dois mal se assustaram. Estavam maravilhados com a austeridade que aquele lugar transparecia. Um amplo espaço com paredes de concreto imbatível e semi-quadriculado. Seu teto estava há consideráveis metros acima do chão, do qual pendia-se um candelabro cristalino e três lâmpadas fluorescentes em forma de bastão espaçadas proximamente uma ao lado da outra.

Sentindo o piso forte e resistente, também de concreto, Rosie e Hector olhavam para todas as partes observáveis. Uma paleta de tons de cinza.

As atenções de ambos voltaram-se rapidamente para os indivíduos que se aproximavam com ar amigável. Homens fortes e truculentos, vestindo roupas velhas e surradas, possuindo aspectos relativamente militares em seus cortes de cabelo e modo de andar. O rapaz que conduzira os visitantes inesperados tirara a máscara e resolveu apresentar seus companheiros.

- Bem, estes são meus amigos... - disse ele, apontando para os homens que exibiam sorrisos condescendentes para a dupla e assentiam. Contudo, o jovem pareceu pouco à vontade, olhando para os dois lados. Seu rosto era fino e pálido e seus cabelos eram pretos e ralos, além do nariz ser bem destacado. - Err... - apontou para Rosie e Hector. - Estes aqui são os enviados do Exército. Provavelmente vieram para se juntar à nós e... - parecia faltarem palavras a serem ditas. - ... Bem, eles querem nos ajudar a exterminar aqueles miméticos horrorosos. - disse, por fim, a voz estranhamente trêmula.

Hector, notando uma brusca mudança no comportamento do rapaz, não se deixou levar pela semente de dúvidas e simplesmente se manter calado. Andou alguns passos à frente, o semblante endurecido.

- O que há com você? - perguntou ele, olhando o jovem com estranheza.

- Ahn... - ele não sabia bem o que responder, passando a olhar para seus companheiros com temor. - Comigo? Do que está falando? Eu estou perfeitamente bem... Não é isso, pessoal? Vocês... irão se aliar à eles... para lutarem contra os miméticos... e... - sua tremedeira já estava ficando clara, impossibilitando-o de completar uma frase.

Rosie assistia àquilo sem saber a maneira certa de intervir.

- Está tudo bem, Erick. - disse um dos homens, este sendo careca e de pele bronzeada. Ele sorria de modo enigmático. - Você fez mais um excelente trabalho. Agora já pode sair.

Os outros foram se aproximando de Rosie e Hector, denotando querer cerca-los. A amizade nos olhos dera lugar à uma observância de um predador intencionando abocanhar sua presa. Muitos deles sacavam armas de fogo e balançavam pequenas barras de aço.

- O que significa tudo isso? - indagou Hector, recuando alguns passos juntamente com Rosie, encarando raivosamente aqueles sujeitos. - Nos diga, Erick! Este é seu nome, certo?

O rapaz se afastava, assentindo freneticamente para o caçador. O pânico estava estampado em sua face. Quando pensou estar indo até uma porta que o levasse para o corredor onde estava seu quarto, acabou por sentir a fria e cinzenta parede por trás. Desalentado, resolveu que era a hora de abrir o jogo.

- Eu não tive escolha! - vociferou ele, colérico. - Eu fui o único... o único que saiu vivo daquele massacre! Me pegaram antes que eu tivesse a chance de escapar, então eu tive que aceitar a oferta!

- Que tipo de oferta? - questionou o caçador, mantendo-se alerta diante da ameaça daqueles homens cada vez mais próximos.

- Eles... eles me prometeram poder, muito poder! Mas não algo que tornasse igual eles, mas sim melhor do que isso! O que eu fiz ali... Foi tudo uma atuação, tudo não passou de um teatro bem armado! Eles esperavam que alguém viesse... como o Exército, por exemplo. - fez uma pausa, o suor escorrendo profusamente pelo seu pescoço. - Para que assim... eles conseguissem angariar mais aliados... que pudessem infectar mais e aumentar o número!

A cortina da ilusão se rasgara por completo. Erick havia se entregado de peito aberto a um pérfido suborno executado pelos miméticos que se originaram na região de classe média próxima dali, na qual, poucos dias antes, abrigava-se uma nova fábrica instalada. Tomaram posse daquele bunker a tempo, antes que o Exército se mobilizasse para fazer uma varredura completa de toda a zona de perigo. Sobreviventes coisa nenhuma. Apenas um abrigo de "humanos" que tornaram-se seres repugnantes através da inalação de um gás negro e tóxico, dispostos a usar inocentes não-infectados para conduzir outros de mesma condição até ao covil.

Hector olhava para o lívido rapaz com uma expressão enfezada, sentindo-se enganado, e ele detestava estar submetido àquele estado. Rosie já aprontava suas adagas, fuzilando os gigantes com o olhar, enquanto se afastava cuidadosamente.

Elevando a tensão a um nível extremo, os sujeitos resolveram lançar as cartas na mesa. Mostraram, simultaneamente, seus olhos totalmente negros. Chegavam mais perto... impondo uma pressão às suas vítimas antes do primeiro ataque. Sobressaltados, a dupla se posicionou com mais vontade. Hector, sem sacar nenhuma arma, parecia soltar rosnados quase inaudíveis ao ranger os dentes.

Erick continuava a se lamentar pelo seu erro.

- Por favor. - dizia ele, chorando. - Acreditem em mim! Eu faço tudo que vocês quiserem...

Um dos homens sacara um revólver de grosso calibre do coldre. Sem olhar para o garoto, ergueu a arma e apontou-a para ele, logo disparando friamente. O som do estampido ecoou pelo recinto, a bala atingindo em cheio a testa de Erick, seu sangue espirrando na parede, formando uma grande mancha. O jovem caíra no chão, jazido morto de imediato. De fato, ele cumprira seu papel, além de que estava sob completo domínio do desespero, cegando-o quanto à possibilidade de ser morto por um daqueles asquerosos seres.

O executor partira para cima de Hector. Ambos bolaram no chão, se esmurrando intensamente. Rosie avançava, manejando suas adagas enquanto girava rapidamente, intercalando alguns bons cortes nas faces dos inimigos com chutes violentos. A cada corte, o líquido se lançava no ar. Ao dar uma rasteira num deles e logo em seguida um chute no rosto de outro, o mais forte dos seis viera até ela enquanto a mesma se levantava com rapidez. Agarrou o pescoço da jovem com o braço, prendendo-a. Rosie sentira o ar de seus pulmões terem sumido numa fração de segundos. Arquejou enquanto lutava para se libertar, debatendo-se. Dera um empurrão para trás com toda sua força, fazendo-o ir de encontro à parede mais próxima. O impacto não a rachou muito, contudo. Arriscou golpe-a-lo com a cabeça repetidas vezes a fim de conseguir se desvencilhar daquele forte braço que apertava seu pescoço. O homem, após vários golpes, já sentia o sangue negro escorrer da sua boca. Ainda assim, tentava mantê-la presa até que não lhe restasse mais forças para suportar.  Rosie já podia sentir seu rosto esquentar, tornando-se vermelho devido a dificuldade respiratória, rangendo os dentes com os olhos fechados. Continuava golpeando-o por trás com a cabeça, mesmo que ficasse dolorido depois e uma dor lancinante a torturasse mais tarde.

Já Hector... estava em um patamar bem diferente. Conseguira se livrar do primeiro que lhe atacara. Agora estava lutando contra três. Pegara um pela gola da jaqueta e o lançara contra uma mesa de vidro violentamente, fazendo o mesmo se cortar severamente com vários estilhaços. Ao que parecia, a pele de humanos infectados pela substância ficava mais frágil. Viera outro atingindo-o com uma barra de aço bem no meio do rosto. O terceiro o chutara no estômago, depois golpeando-o na face, duas vezes, com as mãos juntas e dedos cruzados. Mesmo sangrando no nariz, o caçador não se deixara abater estando parcialmente caído. "Rosie!". Era seu único pensamento e sua única preocupação naquele momento. Ficara tonto por alguns segundos... para logo depois se erguido novamente e lançado contra uma coluna de concreto que se rachou forte com o impacto. A dor nas costas veio rápida e incisiva. Conseguiu se sentar, ao menos, ignorando o incômodo na coluna vertebral. Eles se aproximavam furiosos. O caçador encarou colericamente os três homens, a ferida em seu nariz fazendo escorrer mais sangue.

Houve um misto de infelicidade e vitória ao se dar conta do único modo de sair daquela situação. "Devia ter me preparado... previamente... para uma ocasião como essa.", lamentou, arrependido por não ter revelado a verdade à Rosie antes. "Não existe outra forma. Não há outra saída... a não ser esta! Seja forte, Hector! Você consegue...".

Quando o próximo golpe estava prestes a ser perpetrado, Hector reunira toda a carga de adrenalina em seu coração, transformando-se em um turbilhão incontrolável de emoções. Levantara-se com determinação. Com a máxima velocidade com a qual pôde contar, o caçador abandonara todos os aspectos humanos ao se transformar - os pelos, as presas e unhas crescendo assustadoramente.

Voou para cima dos dois homens com uma rapidez sobre-humana. Pegara-os pelas cabeças, fazendo-os chocarem contra o chão, produzindo, assim, um choque seco e brutal. Transpassou as faces dos indivíduos com suas garras em movimentos frenéticos, quase insanos, enquanto rosnava feito um cão enfurecido. Suas mãos peludas já se encontravam encharcadas pela gosma preta e espessa. As cabeças dos inimigos foram mutiladas, tornando as faces irreconhecíveis. Uma poça da substância negrejante foi se formando em torno dos corpos já mortos.

Rosie, felizmente, conseguira se libertar das garras do mimético robusto, sacando uma adaga e perfurando a barriga do agressor várias e várias vezes. O líquido foi jorrando até o chão enquanto seu portador gritava de dor, soltando sua vítima logo em seguida. Virando-se para frente, a jovem aproveitou a deixa. Com uma maestria nítida, girou a adaga na mão, depois fazendo um veloz corte vertical na garganta do homem. Da ferida, um jorro ainda mais forte da substância viera como uma cachoeira. Caíra no chão, banhando-se com seu próprio sangue escuro e fervente.

Ao virar-se para o outro lado, Rosie estremecera, sentindo seus pelos eriçarem-se. Se viu frente à frente à um monstro. Ele se afastava dos corpos caídos e estraçalhados. Petrificada de horror, a jovem não sabia como reagir, muito menos balbuciar alguma palavra. "Não... Não pode ser...", pensou ela, levemente balançando a cabeça em negação. "Então... isso só prova que eu não estava errada. Eles não estavam errados.".

Um baque seco vindo de uma porta atrás dela a desconcentrou daquela visão horrenda. Estava fechada com uma tábua de madeira quebradiça e velha. Algo ansiava para sair de lá. Fosse o que fosse, denunciava ser algo ainda mais furioso e amedrontador do que os caídos. As batidas ficaram mais fortes e insistentes.

Ao virar-se novamente para o outro lado, Rosie já não viu mais a fera em forma de homem. Hector já se dirigia até ela correndo, a expressão preocupada. O caçador mirou seu olhar aflito na porta, já temendo que mais deles se preparavam para vir.

- Melhor nós irmos. Agora! - disse ele, puxando-a de leve pelo braço para correr.

- Podemos acabar com mais deles! - retrucou Rosie, contrariando-o. Virou o rosto para a porta - Embora não sabemos o que está do outro lado.

- Você quer ficar e esperar? - indagou o caçador, impaciente. - Algo me diz que com certeza é de uma proporção superior ao que enfrentamos. Posso sentir!

- É, eu sei que pode. - respondeu ela, assentindo, com seriedade no tom e na face.

Ambos ficaram entreolhando-se por alguns segundos. Um contato visual que denotava desconfiança quase contagiante entre os dois. A tábua na porta estava se partindo. Logo mais, o que quer que estivesse atrás daquela porta avançaria contra eles sem escrúpulos.

Dominado pela pressa, Hector a puxou com força, correndo até a porta e forçando-a a correr também no mesmo ritmo. Agarrou a maçaneta da porta metálica, puxando-a com força. Um som baqueante ressoou... vindo de poucos metros atrás.

A dupla correra o mais rápido possível, mergulhando na escuridão do corredor.

- Perceba que a porta não estava trancada! - disse Hector. - Erick estava com a intenção de nos salvar!

- Como tem tanta certeza? - questionou Rosie, correndo com avidez para chegar logo a superfície.

- Há duas especulações: Ele estaria desesperado demais para não perceber que deixou a porta escancarada ou a manteve daquele jeito para que nos salvássemos!

- Bem... Seria tolice minha dizer que não faz sentido. Ele realmente estava arrependido. - disse Rosie, sentindo-se perseguida.

Um horda de seres dantescos corria sem praticamente reproduzir nenhum ruído. Hector entreviu a fresta da porta que levava para cima, a luz iluminando fracamente a escada.

Subiram com uma pressa quase ensandecedora. Rosie pensava que, a qualquer momento, algo fosse puxar sua perna e arrasta-la com tudo. "Vai logo! Rápido!", pensou, desesperada, subindo depois de Hector.

O caçador fechara a pesada porta após a parceira ter chegado à superfície. Enquanto fechava, vislumbrou figuras humanoides... mas completamente cobertas de preto, que subiam a toda velocidade. "O estágio final.", pensou ele, atônito, logo encaixando a trava da porta, trancando-a. Podia ouvir barulhos abafados no corredor abaixo. Como se as criaturas bizarras ainda insistissem em sair.

Passado um instante... os ruídos cessaram.

A dupla se encontrava ofegante. Hector tornou a fitar o chão com um olhar neutro... imerso em pensamentos. Rosie o observava, enquanto recuperava o fôlego encostada na parede. De fato, já não o enxergava mais da mesma maneira que outrora.

- Aqueles infectados... que saíram daquela porta e nos seguiram... - disse Hector, ainda desnorteado.

- O que tem? - perguntou Rosie.

- Eram do estágio final... Os desenhos que lhe mostrei há poucos dias. - falou, com ar de preocupação. - Exatamente o que nós tememos ocorreu. Provavelmente o que estava sob minha custódia e depois escapou... foi o responsável por infectar mais pessoas. Já estou quase certo disso. Não há muitas dúvidas.

Rosie refletira por algum tempo sobre a questão. A face cansada deu lugar à um semblante pálido.

- Pareciam correr mais rápidos do que nós... mais rápidos do que qualquer coisa que já vi.

- Verdade. - aquiesceu Hector, assentindo. - A situação está piorando. Por sorte, fomos mais ágeis. Mas como eu disse anteriormente... Basta apenas um toque para conseguirem infectar alguém. Imagine quantos destes podem estar espalhados por aí...

- Por favor, não. - disse Rosie, fechando os olhos ao pôr a mão na cabeça. Sentia-se nauseada. - Já não basta o que o Exército armou para nós...

- Também tenho essa suspeita. - disse Hector, interrompendo-a. Andou até a saída do local a passos largos e firmes.

- O que pensa em fazer? - perguntou Rosie, desconfiada, seguindo-o.

- Vamos dar uma lição à eles. - afirmou o caçador, decidido. - Deixa-los esperando, talvez, assim, verão que não somos estúpidos. Abusaram de nossa boa vontade.

- E se acharem que estamos mortos? - conjeturou Rosie, não muito certa da decisão.

- Não importa o que pensem. - disse ele, dando de ombros. - O General Holt, definitivamente, passou dos limites. Estamos marcados como suspeitos.

"Você mais do que eu, com certeza.", pensou Rosie, fitando com hesitação a postura rebelde do caçador... que parecia estar disposto a declarar guerra contra Holt e suas ideias.

                                                                                             ***

A biblioteca estava uma verdadeira bagunça. Vários livros espalhados por todos os cantos, muitos abertos, se empilhavam aos montes como pequenos morros.

Para a felicidade de Eleonor aquele fora o lugar propício para realizar suas pesquisas de modo secreto, além de outros afazeres específicos que lhe requeriam concentração e calma. A tal biblioteca outrora fora um porão deixado para se empoeirar até o fim dos tempos. A luz amarelada da lamparina pendida no teto fazia reluzir de forma tenebrosa as paredes marfim descascadas.

Naquela manhã, a moça se trancara no aposento, utilizando uma chave que somente ela possuiria e soubesse da existência - inclusive a sala. Tudo para, nada mais e nada menos, esconder de Alexia o que fosse fazer lá, embora já houvesse dado a dica sobre seus métodos para localizar Hector o quanto antes. Não ter sido honesta o suficiente com a jovem vidente era a menor de suas preocupações.

Os dias anteriores serviram para o treinamento que definiria sua performance na hora de encontrar o paradeiro do caçador. Uma espécie de magia esquecida pelo Coven. Técnica que jamais fora ensinada à ela, não por negligência, mas por não ser tão útil. E também por não ser mortífera. "Dane-se a política de não usar magia inofensiva. Isto não vai rebaixar minha posição. Apenas mostra o quanto eu valorizo os ensinamentos que me foram passados, sem desdenhar dos que parecem não serem tão relevantes.", pensou ela, enquanto abria um velho mapa da Inglaterra sobre a mesa redonda. "Pois até mesmo os feitiços mais ignoráveis... tem suas conveniências.".

Pousou sobre a mesa um pequeno frasco de vidro em formato cilíndrico, mantendo-o aberto. Em seguida, pegara uma faca, anteriormente bem afiada, e fizera um ínfimo corte em seu indicador esquerdo. Uma gotícula de sangue despontou da ferida aberta, logo caindo dentro do recipiente.

Mais gotas deixaram-se cair. Uma. Duas. Três. Mais quatro...

Usou um pedaço de pano branco, enrolando-o no dedo para estancar o sangramento. Pegara outro frasco. Este contendo uma amostra de sangue de outra pessoa...

Olhou-o por alguns segundos... rememorado, com angústia, a noite em que conseguira aquilo.

                                                                                           ***

Um assovio agudo ressoou pela floresta. 

Eleonor estava à espera de seu "mascote" provisório. Seu corpo estava banhado pela luz sombria da Superlua, bem como boa parte dos hectares ao redor. 

Passos apressados... animalescos. O monstro finalmente viera, trazendo em seus lábios um gosto forte de sangue humano. 

De repente, tornara-se dócil ao se aproximar da bruxa. Inclinara-se para ela, demonstrando estar calmo ante sua presença. 

- Muito bem. Bom trabalho, garoto. - disse ela, chegando mais perto dele, tratando-o carinhosamente. - Curve-se à mim... e abra bem a boca.  pediu, erguendo uma mão. 

Obedecendo sem hesitar, o meta-simbionte enfeitiçado mostrara as presas sujas de sangue, mantendo a boca aberta. Eleonor, em um movimento preciso e melindroso, apertara a presa direita do lobisomem. Com a outra mão, sacara um frasco, o qual pôs abaixo da ponta do dente. Apertou com mais força. Um sangue fresco gotejou da presa da criatura. Uma coleta realizada com esmero. 

Satisfeita com o resultado, a bruxa fechara o frasco com um pequena rolha. 

Para sua segurança, afastou-se da criatura recuando vários passos. Logo recitou algumas palavras, tendo, assim, quebrado o feitiço que o tornara submisso. Virou-se e correu a largas passadas floresta adentro, guardando o recipiente dentro do decote de seu vestido. 

Durante aquela corrida sem rumo, lágrimas desciam pelo seu rosto... 

                                                                                              ***

Os sangues foram, enfim, misturados num mesmo frasco.

Eleonor derramara o líquido escarlate sobre o centro do mapa, proferindo as palavras específicas para o ato a ser concretizado.

- Ubi hoc ipsum. Reperietis eum. - recitou, num sussurro soturno.

A densa gotícula se avolumou de forma considerável. Num instante, o pequeno círculo de sangue já se encontrava movendo-se para vários lados do mapa de modo extremamente rápido. Ziguezagueava por alguns cantos, parando em outros e retomando o ritmo acelerado.

Até onde Eleonor sabia, o processo não chegava a durar mais do que 5 minutos.

Fitado a gotícula vermelha com ansiedade e bastante foco, a bruxa se limitou a reacender suas expectativas. "Vamos lá. Ele tem que estar no país... Tem que estar!".

O círculo parara, por fim. O ponto mostrado não lhe surpreendera, embora lhe proporcionasse um alívio reconfortante.

Ela sorrira consigo mesma. "Achei você. E mais perto do que eu imaginava".

O sangue secara rapidamente.

O círculo marcava a região florestal de Raizenbool.

                                                                                                 ***

A porta havia sido aberta apressada e subitamente. As passadas largas de Rosie denotavam seu completo descontentamento. Hector caminhava um pouco mais à frente, indo em direção à escada, aparentando estar exausto devido ao terror passado. A adrenalina em seu corpo ainda pulsava. Sabia que para Rosie só estava tentando fugir do inevitável. Estando a um passo de defrontar com a verdade, tendo isto como seu pior pesadelo do dia. "Eu assumi meu outro eu. Mas que escolha havia? Era o único jeito. O estranho é que não sei se estou disposto a pagar o preço, embora eu tenha estado consciente da urgência. Situações desesperadas exigem medidas desesperadas.".

- Aonde pensa que vai? - perguntou Rosie, equilibrando a firmeza de seu tom para fazê-lo estacar no meio do caminho, na sala de estar.

O caçador se virara, olhando-a com cansaço, dando um suspiro pesado.

- Tudo bem, diga o que Holt afirmou a meu respeito.

- Não é sobre isso. - falou ela, severa. - O que foi aquilo? - fitou-o suspicazmente.

- A que se refere? - indagou ele, franzido a testa.

Rosie dera alguns passos á frente, desafiadora.

- Não se finja de desentendido. Sabe muito bem o que vi... - fez uma pausa, relutante. - Não, agora sim faz sentido. - apontou-o com o dedo indicador de modo acusador. - O fato de você ter matado aqueles soldados de Abamanu tão facilmente. Ter matado o psiquiatra que tentou me envenenar. Tudo isso vinha desse seu outro lado! Há quanto tempo você está assim?

Hector engolira em seco. Obviamente, sua expressão impassível indicava que já esperava por aquele sermão.

- Você não entenderia. - disse ele, resistente.

- Como assim? - indagou Rosie, balançando a cabeça em negação. - Se eu não fosse capaz de entender, então como você, nessa situação, conseguiria entender a si mesmo?

- Você está certa, devo admitir. - concordou Hector, respirando fundo. - Nem mesmo eu me compreendo mais, muito menos me reconhecer no espelho. Estou vivendo uma das maiores ironias de toda minha vida, Rosie. Me tornei minha própria presa... meu próprio inimigo. - fez uma pausa, olhando para o chão, cabisbaixo. - E, para começo de conversa, o General Holt me libertou antes do previsto.

- Por quê? - questionou Rosie, cada vez mais se aborrecendo.

- Algo aconteceu no QG, o suficiente para que fosse ordenado um sigilo absoluto e rigoroso. Vi alguns soldados conversando em baixo som, mas consegui abstrair o tom das conversas. Certamente foi algo de impacto. Ainda não sei porque... mas tenho quase certeza que minha liberdade foi concedida graças ao incidente que houve lá.

Rosie ficara pensativa por alguns instantes. Voltou a olha-lo, sem alterar sua postura.

- Arrisca considerar que Sekhmet possa ter alguma coisa a ver com isso? Afinal de contas, ela controla um corpo de uma espiã do Exército, logo está infiltrada lá.

- É o único palpite plausível. - salientou ele.

- Disse que queria saber o que o General me falou sobre você... - continuou Rosie, numa tentativa segura de não desviar da questão principal e gritante. Baixou a mão esquerda até sua bota, tirando de dentro um papel dobrado. Abriu-o por inteiro, logo exibindo seu conteúdo. - O desenho está bem fiel, devo dizer.

A figura estampada na folha fizera o sangue do caçador gelar. Seu semblante tornara-se apreensivo, enquanto Rosie mantinha-se séria, mas com uma certa satisfação por estar certa de que, cedo ou tarde, saberia toda a verdade. "A diferença entre mim e ele é que não devo nada a ninguém.".

Lívido, Hector encarou o papel com um misto de surpresa e raiva.

- Onde conseguiu isso?

- Quando estávamos comprando mantimentos. Você se distraiu e aproveitei para pegar isso aqui que estava fixado numa parede. - revelou Rosie, mantendo a folha à mostra. - Parece que o caçador se tornou a caça.

- O que Holt lhe disse? - perguntou Hector, seu tom tornando-se um tanto ríspido.

- O que ele partilhou comigo me ajudou a chegar a uma conclusão. - disse a jovem, amassando a folha.  - Os corpos das vítimas... das pessoas que você matou... - sua voz se embargara de comoção. - ... haviam sido mantidos em câmaras criogênicas, uma tecnologia nova e ainda exclusiva do Exército. Concluíram que você foi o autor do crime através das digitais e dos aspectos dos cortes profundos.

- Isso foi há muito tempo... no dia em que acordei nas Ruínas Cinzas. - disse o caçador, em tom baixo, balançando a cabeça negativamente. - Foi durante uma missão... a qual o General considerou um teste para constatar se eu tinha a desenvoltura requerida para supervisionar as operações. Eu saí de mim completamente. Uma crise de descontrole total. Aliás, eu tive esta crise no dia em que fui libertado.

Rosie arqueou uma sobrancelha, transparecendo sua curiosidade e desconfiança.

- Onde esteve naquela noite? - exigiu ela.

- Aqui mesmo. Além disso, Áker estava aqui, e parecia aflito. Mas não reparei nesse detalhe e tive de pedir ajuda à ele antes que eu perdesse a cabeça. Nós... - ele hesitou, olhando para um canto do chão. - Nós discutimos...

- Se desentenderam? - especulou Rosie, sem deixa-lo terminar.

- Não. Na verdade, eu... Expressei meu completo arrependimento.

- Pelo quê? - indagou ela, como se fingisse não saber. O caçador a olhou sem entender.

- De todos os erros que cometi, é óbvio. Eu... até pediria algo totalmente desesperador à ele. Como, por exemplo, me matar. Mas àquela altura eu já sentia... todo o meu eu ser consumido. É como se a cada transformação uma parte de mim morria, isso em todas as vezes. Eu posso jurar à você, Rosie. Eu consegui me controlar... Os últimos dois anos foram intensos, senti meus instintos de caça e sobrevivência serem elevados de um jeito que você nem pode imaginar.

- E o que esperava ganhar se entregando à essa maldição? - perguntou Rosie, ficando mais aturdida a cada minuto.

- É complicado. - disse ele, tentando desconversar.

- Complicado, nesse contexto, tem muito mais a ver com a minha situação! - argumentou Rosie, aproximando-se dele, colérica. - Qual é o seu problema, afinal? Guardar segredos agora se iguala a tentar proteger alguém?!

- Fiz uma promessa, e estou disposto a cumpri-la até o fim, com o objetivo de sobrepujar essa maldita licantropia. - disse Hector, endurecendo a face.

- Uma promessa feita a si mesmo. - retrucou Rosie. - Por que meu pai... estaria tão decepcionado quanto eu se soubesse de seus podres.

- De fato, ele se arrependeria de ter se referido a mim naquela carta.

- Da mesma forma como me arrependo de ter conhecido você. - disparou ela, fuzilando-o com os olhos. Levou a mão esquerda ao cinto de utilidades, de lá retirando uma pistola. Apontou a arma para o caçador, segurando-a firmemente. - Já chega. Eu cansei!

Hector estremecera, recuando vários passos, o olhar fixo no cano da arma. Depois voltou-se para Rosie, suando em demasia, a respiração acelerada. Certamente fora um movimento inesperado por parte da jovem. Contudo, bastou um minuto para que pudesse realmente compreender a necessidade e o sentido daquela atitude subitamente desesperada. Tentou fazer parecer que tivera engolido em seco, mas foi em vão. Expressou mais medo do que segurança.

- Rosie... Não precisamos ir tão longe...

- Cala a boca. - redarguiu ela, enfurecida. - Aqui nessa arma tem uma bala de prata. Eu tinha bisbilhotado seu arsenal na primeira noite que passei aqui... e a peguei. Tendo em mente do quão fácil você matou aqueles soldados de Abamanu... eu não tive mais dúvidas do que fazer depois. Tive que garantir minha segurança.

- Então você já presumia desde o início?

- Sim. Só precisei das informações do General Holt para juntar as peças. E aqui está meu movimento para que eu ganhe este jogo. Sabia que em algum momento eu tinha que fazer isso, só não queria aceitar o quanto você havia mudado. - uma lágrima escorrera pelo seu rosto.

O caçador baixara um pouco a cabeça, entristecendo-se com aquele fato.

- Sim... é verdade. Eu mudei. Talvez tarde demais.

- O quê?! - exclamou Rosie, revoltada, ganhando mais proximidade.

- Você não entende! - disse ele, erguendo a cabeça, passando a olha-la com fúria. - Isto me tornou mais forte. Enquanto eu prosseguia com minhas investigações eu pude enxergar os benefícios, do quanto isso me fez sentir o melhor caçador que existe neste mundo.

- Está errado. - insistia Rosie, confrontando seu ponto de vista, sem deixar de mirar a arma no peito do caçador. - Você abraçou um fardo que já estava disposto a tomar conta de sua vida. Plantou as sementes sem antes pensar nos frutos que ia colher.

De repente, Hector tivera a estranha sensação de não estar a sós com Rosie no casarão. Sua visão periférica parecia ter acionado um alarme, obrigando-o a olhar lentamente para a direita... para a figura que se postava próxima à ele e Rosie. Ele sorria com escárnio nos olhos. As presas brancas à mostra. Os pelos crescidos que lhe davam todo o aspecto de um verdadeiro monstro. E os olhos amedrontadores com pupilas diminuídas. Nada mais parecia real. Uma pérfida alucinação havia surgido para lhe atormentar até que não vesse o fim.

Tentando disfarçar o temor, o caçador forçou ignora-lo. Mas era impossível. Era tentadora sua carência de atenção. "Eu devo estar.... a um passo da loucura absoluta.", pensou, sentindo-se a beira da insanidade, resistindo ao máximo.

- Ela está errada, Hector. - disse a visão horrenda com uma voz monstruosa e aterradora. - Nós dois... Juntos somos mais fortes. É a única coisa que deve provar agora.

- Cale-se. - disse o caçador, baixinho, de modo contido.

Rosie franziu o cenho, confusa.

- O quê? - indagou. - Hector... Você está bem?

A ilusão insistira mais perversamente.

- Vamos lá. Liberte-me. Experimente para ver quem é mais rápido: Você ou a bala. - desafiou ele. Nós dois sabemos a resposta. E o resultado da soma... você e eu... é a morte dela.

Trêmulo de raiva, o caçador se limitara a apenas vislumbrar uma terrível possibilidade. "Posso acabar me transformando aqui e agora, seu caso eu cair na lábia desse monstro... Tudo vai estar perdido! A prova de que obtive controle vai se arruinar. Rosie vai apertar o gatilho assim que notar algo diferente em meu rosto... O bom é que não sinto nada nesse momento. Eu precisei perder o controle para reencontrar o equilíbrio. Nada pode romper esse equilíbrio, a não ser por eu me deixar ludibriar.".

Hector passara a mão no rosto, como se mostrasse-se cansado.

- Pra ser honesta... - começou Rosie - Eu estou testando você. Se seus limites se fortaleceram diante dessa maldição. Não vou incentivar que o controle, sei que pode muito bem fazer isso sozinho. Essa vai ser... a última vez que esconde algo de mim.

- E pretende arrancar de mim todas as respostas me apontando uma arma!? - reclamou Hector, ainda inconformado com a ideia. - Rosie, neste exato momento, ele está na minha cabeça. - cutucou a têmpora com o indicador. - Me dizendo o que eu devo ou não fazer. E então... surge a dúvida cruel: Quem realmente está no comando deste corpo?

- Lamento. - ditou ela, sucinta e fria. - Esse... é o único modo de fazê-lo ser sincero comigo. - deixara mais uma lágrima cair, sua voz adquirindo um tom angustiado. - Me diga o que o deixou desse jeito. Só vou pedir uma vez. Eu preciso que me fale toda a verdade... ou não vou hesitar em atirar.

- E porque considera isto uma opção?

O monstro tornara a intervir novamente.

- Não está claro pra você? - perguntou ele, com um sorriso presunçoso. - De todos os seus propósitos, o único em que você falhou foi em protege-la. Agora que somos um só, tudo o que ela consegue ver não é nada além de uma ameaça. Ela é seu fardo, não eu. Sua fraqueza também, devo ressaltar. - o olhou como quem gosta de se aproveitar de outrem. - Mate-a enquanto ainda resta tempo. Estará se livrando de um estorvo, um peso desnecessário. Apague a estrela brilhante que destrói a escuridão que o deixa mais forte. - pediu ele, relanceando Rosie, logo fitando-a com desprezo.

As dúvidas pairaram no ar por um silêncio dramático. A mão de Rosie que segurava a arma estava começando a tornar-se instável. Para ela não restou outra escolha a não ser acreditar no argumento de que Hector pudesse estar sendo vítima de uma alucinação que o ordenava a fazer coisas que confrontavam suas princípios.

- O que ele lhe diz?

Suspirando com os olhos fechados, Hector tentava se desligar de seus pensamentos ruins... sobretudo fazer uma varredura mental que obliterasse aquela ilusão.

- Que eu devo mata-la. - revelou ele, direto.

- Sei que está lutando, o máximo que pode. - disse Rosie, depositando certa confiança nos instintos de Hector, embora não desistisse de sua estratégia para fazê-lo falar de uma vez. - Eu sei... sei que não se tornou o que é antes de irmos às Ruínas Cinzas. Você assassinou vidas inocentes... a sangue frio. Nós dois concordamos que você deveria estar pagando pelo que fez. Que o General foi complacente demais com sua sentença, sem excluir sua licença.

Sem esperar nenhum segundo a mais, o caçador respirou fundo mais uma vez, preparado para afirmar tudo o que deveria ser revelado.

O monstro se mostrou descontente com a posição de Hector.

- O que vai fazer? Não fique parado aí, vamos logo, mate-a! - esbravejou ele, selvagemente. - Vai desperdiçar esta chance valiosa caindo nesta conversa fiada?! Prove que você é forte, mostrando seu verdadeiro eu. Eu!

O caçador desviara o olhar firme para sua direita. Para Rosie, entretanto, ele apenas observava o nada.

- Está enganado. - disse ele, como se estivesse falando com um fantasma. - Você nada mais é do que um artifício, um impulso para libertar toda minha fúria. Se possuo controle, então eu posso manipula-lo, em vez de permitir que seja o contrário. Pertencemos um ao outro. Mas não somos iguais. Nunca fomos e jamais seremos. - afirmou, mostrando-se categórico.

Rosie sentia-se desconfortável ao assistir àquilo. À primeira vista parecia que seu parceiro tivesse enlouquecido. "Que coisa estranha.". Jurou a si mesma não se pôr no lugar dele. Praticamente estava cogitando abaixar a arma naquele instante.

Hector virara-se para Rosie, retesando os músculos e preparando-se.

- Sua avó é a culpada, Rosie. - disparara ele, permitindo-se ser o mais lacônico possível. - Na época em que você esteve desaparecida, eu estava em um bar lamentando meu fracasso e me odiando profundamente. Foi lá que a encontrei. Pensei ter conhecido uma pessoa diferente... - seus olhos marejaram-se de repente, adquirindo caráter tristonho. - Nós lutamos juntos para deter Mollock no museu após firmarmos uma aliança. Na noite... em que Michael revelou tudo sobre mim... ele mencionou algo sobre sua avó relacionado a um soro da juventude. - fez uma pausa, rememorando novamente aquele fatídico evento, fitando o chão com tristeza na face. - Ela me enganou... com esse elemento. Ela se apresentou à mim rejuvenescida... tentando me fazer acreditar que eu estava diante de alguém que nunca vi antes em minha vida. E quando fracassamos em impedir Mollock de chegar às Ruínas Cinzas... ela me revelou quem realmente era. Revelou também que estava sendo alvejada e perseguida por seu clã por ter roubado o soro. - tornou a olhar para Rosie. - Ele não me permitiu que eu a acompanhasse nessa fuga. Se recusou a lutar junto à nós. E para me impedir... ela enfeitiçou um lobisomem meta-simbionte. Baixei a guarda e fui mordido. E logo depois...

- Não diga mais nada! - disse Rosie em voz alta. Sua pele estava pálida como a neve, sua expressão de completo horror. Tentou em minutos assimilar o que o caçador dissera, sendo que conseguiria melhor em dias. Uma sensação de trauma causou-lhe calafrios. "Hector e minha avó juntos!? Mas como? Isso não faz sentido!".

- Rosie, por favor...

- Não! - disse ela, raivosa, tentando manter a arma apontada e firme. - Minha avó está desaparecida há anos. Sequer deu notícias. Como você se atreve... a usar a única coisa que restou da minha família para sustentar seu argumento? Como você pode ser tão baixo? - agora se encontrava em prantos, as lágrimas saindo com mais abundância.

- Mas essa é a mais pura e crua verdade. - defendeu-se o caçador, assumindo um tom rigoroso. - Tem que acreditar em mim. Eleonor deve estar na Alemanha ou na França, à mercê de qualquer coisa relacionada à guerra. Posso provar...

- Com quê? - perguntou Rosie, enxugando os olhos com uma mão.

O caçador lembrara-se onde teria guardado a carta escrita e enviada por Eleonor há quase 1 ano. Emudeceu diante da obrigação que tinha a cumprir. Sentia-se no olho de um furacão naquele instante. Ao avaliar o estado de Rosie, era sabido que não bastaria muito para intensificar o torpor da jovem. As palavras escritas naquele amassado papel a fariam desabar em prantos. "Péssima ideia". Vasculhou mentalmente as palavras corretas para desviar o curso daquela tempestade.

- Vamos Hector, fale! - sua paciência estava absurdamente limitada, a arma ainda em punho.

- Não creio que importa agora. - disse ele, incerto, temendo como ela reagiria.

- Por que?

- Se quisermos que tenhamos sucesso no resgate dos nossos amigos... vamos ter de superar nossas diferenças. Aceitarmos um ao outro da forma como somos. - fez uma pausa, assumindo uma postura tranquila. - Talvez um dia ela ligue. Envie uma carta. Mas, estranhamente, não passei a ter raiva dela. Sei que ela teve uma razão. Estava aflita, desesperada. Ao contrário do que ela pode estar imaginando sobre mim... me sinto satisfeito por te-la conhecido melhor. - disse, suspirando em seguida.

Rosie, por alguns segundos, sentiu-se reconfortada. Olhava-o ainda atônita, segurando tremulamente a pistola. "Se ele tem a prova... eu devo saber onde está!".

Hector tentou uma aproximação de modo que a convencesse a reconsiderar a parceria.

- Sei que é sensata o bastante para assumir o que acabou de confirmar, o que está diante de seus olhos. Esta arma apontada para mim não tem mais nenhum sentido. Pense bem: Eu teria me transformado assim que eu vislumbrasse o cano desta arma. - tentou formar um sorriso, mas parecia difícil mediante o semblante inflexível de Rosie. - Se estivéssemos aqui, um diante do outro, no dia em que fui libertado, seria completamente diferente. Não estou mais submetido à crise. Eu consigo controla-lo agora, voltei a domina-lo por conta daquela manifestação.

- É, acho melhor pararmos por aqui. - disse Rosie, rapidamente guardando a arma em seu cinto. - Como eu disse: Estava testando-o. E você passou. Com muita sorte, mas passou.

Um lampejo de alívio instantâneo acometeu o caçador. Deixou forma-se um leve sorriso amigável.

- Não me olha desse jeito. - disse ela, virando o rosto. - Eu... achei que dizendo ter colocado uma bala de prata na arma você surtaria e acabaria se transformando, pensei que seria o suficiente para despertar seu outro lado...

- Agora está tudo bem. - interrompeu ele, chegando mais perto. - Tenho quase certeza de que poderei garantir mais dois ou quatro anos de estabilidade. - disse Hector, esperançoso.

- E se isso chegar a um ponto em que... - ela hesitou, dando de ombros. - Não sei... Você não consiga suportar mais.

- Isso não vai acontecer. - garantiu ele, parecendo confiante. - Viver como homem e animal ao mesmo tempo requer adaptação... e posso dizer que a obtive.

- É bom que esteja certo. - disse Rosie, em tom firme e sério, assentindo para ele. - Porque enquanto estivermos juntos esta arma vai permanecer comigo, e da próxima vez não vai ser um teste. Você entendeu?

- Claro. - respondeu ele. - Se me ver perdendo o controle... não hesite. Atire para matar. É sério.

- Quanta firmeza. - elogiou ela, dando um sorriso irônico.

- Ainda não me desliguei de quem realmente sou. Meus instintos investigativos me dizem... que devemos ficar atentos quanto aos movimentos do General, tanto quanto ele vai estar aos nossos.

- E quanto à acusação de assassinato? - perguntou Rosie, ainda incerta quanto ao ato do caçador. - As evidências estão lá. Se estiverem armando alguma cilada...

- Holt só conseguiria uma prova definitiva se me visse transformado. Ele não vai tentar nenhuma estratégia desnecessária. Não, na verdade ele tentou conseguir uma prova hoje mesmo. - disse Hector, novamente tornando a refletir a respeito da suposta armadilha idealizada pelo General com a única finalidade de extrair uma prova definitiva das especialidades da dupla. - Se caso matássemos os miméticos com facilidade, resolvendo tudo em um curto período de tempo... Sim, é isso! - estalara os dedos, empertigando-se.

Rosie o olhou intrigada.

- O que foi?

- Ele queria matar dois coelhos em uma só cajadada. - afirmou ele, com total segurança, mas, naturalmente, sem utilizar da clareza.

A jovem fez cara de confusa, balançando a cabeça.

- O que quer dizer com isso? Eu pensava que o General só estivesse de olho em você...

- Não, de modo algum. - dera um sorriso misterioso. - Em nós dois, Rosie. Nós dois estamos sendo empurrados para um cerco que dificilmente sairemos. Ouso suspeitar que ate mesmo uma vigilância esteja sendo preparada quando formos assumir nossos papéis.

- Mas... - ela andou para um lado, tentando depreender alguma explicação. - ... o General não pareceu desconfiar de mim quando eu estava lá...

- O amuleto. - disparou o caçador, a fala rápida. - Enquanto você e Sekhmet estavam lutando... eu fui levado para o QG e lá me submeteram a interrogatório. Num momento, Holt me perguntou o que você tinha de tão especial.

- Espera, não faz sentido. - objetou Rosie, erguendo levemente uma mão para pedir que ele a escute. - O General nem sabia da minha existência enquanto você estava sendo levado... - ela fez uma pausa, desviando o olhar para um canto da sala, a expressão tornando-se vaga. - A menos que... Não, autoridades que agem a favor da justiça não permitem que seus incriminados digam alguma coisa para se defenderem enquanto está sendo algemado. Não havia como você me mencionar.

- Mas mencionei. - retrucou ele, seguro de si. - Afinal, estava engajada tanto quanto eu a participar dos resgates, cedo ou tarde saberiam quem é você.

- O que o General disse sobre o amuleto? - perguntou Rosie, com certa urgência.

- Ele o confiscou. - Hector se aproximara dela. - Veja bem: O Exército possui aparelhagens capazes de detectar atividades extraordinárias em qualquer parte do mundo. É uma tecnologia compartilhada com os caçadores. Foi assim que chegaram até o antiquário, onde Sekhmet estava irradiando muita energia...

- E como ela se apossou de alguém que é ligado ao Exército... - disse Rosie, fazendo com que as linhas de raciocínio fossem se igualando gradualmente.

- Provavelmente Sekhmet achou uma oportunidade segura para conseguir o que quer através do General. - disse Hector, extremamente compenetrado na questão. - Fosse o que tenha acontecido lá... tem a ver com ela. Tem a ver com o fato de você ter sido requisitada. As aulas, as orientações que recebeu...

Rosie estava com a mão no queixo, bastante pensativa.

- Então acredita que o General foi manipulado?

- E subornado, talvez. - especulou Hector, esfregando as mãos, mal aguentando sua ansiedade. - Se o General e Sekhmet de fato se encontraram... ela revelou mais do que ele necessariamente deve saber, inclusive sobre você. - a olhou preocupado.

A pausa dada fizera a sala mergulhar em um sinistro silêncio. A verdade estava começando a se deseclipsar. A suspeita mirada na acusação de que foi uma armadilha poderia ser entendida como a tentativa de confrontar a autoridade do General, se caso seus mais fiéis discípulos soubessem da escapada que os dois vigiados fizeram para se esquivar de qualquer afirmação que fosse feita sobre suas naturezas. Ou se caso escutassem aquela conversa por meios eletrônicos e, certamente, pouco discretos. Holt havia pensado na possibilidade de que poderia te-los conduzido à morte enquanto proferia a ordem? Era algo a se pensar. Há quem dizia que algumas ideias que se materializavam da mente carregada do corpulento homem passavam longe da sensatez, sempre imergindo a equipe de soldados em um risco relativamente desnecessário.

- Agora sabemos que há tecnologia pronta para ser usada nas operações. - disse Hector, sem esquecer de Erick e sua bem-vinda incapacidade de manter sigilo.

- Se Sekhmet e o General estiverem mesmo aliados... - conjeturou Rosie, afligindo-se ao baixar o capuz. - Então de nada servirá uma vigilância à mim. Agora não sei se será para vigiar cada passo meu ou garantir minha segurança.

- Ele pode ter tentado abafar o incidente. - presumiu Hector, indo mais além. - Seja lá o que conversaram, de qualquer forma você ainda é o alvo. O Exército é especialista em esconder segredos.

- Por isso o General viu algo vantajoso em você. - provocou Rosie.

De repente, um estridente barulho ecoou pela sala. Como se algo tivesse sido severamente quebrado. Sobressaltados, Rosie e Hector viraram-se exatamente na direção do estrondo, atônitos. Uma pequena parcela do teto da sala havia sido destruída. Dois indivíduos ergueram-se na penumbra próxima à janela, andando na direção da dupla ameaçadoramente. Ambos exibiam um característico e inconfundível aspecto selvagem, sendo logo reconhecidos por suas presas afiadas, pelos acentuados e olhos penetrantes.

Outros três meta-simbiontes surgiram com estardalhaço na porta dos fundos, quebrando as vidraças das mesmas e rosnando. Relanceando os dois lados, apreensiva, Rosie ficara sem saber como agir primeiramente, sentindo-se cercada por um bando de feras indomáveis. Hector, por outro lado, se afastava lentamente, mas mostrando-se auto-confiante, embora intrigado quanto ao motivo daquele ataque inesperado.

- São seus amigos? - perguntou Rosie, com ironia no ar.

- É claro que não. - respondera Hector, olhando-a com reprovação.

- Então acho que é uma boa hora para se transformar. - sugeriu ela, desembainhando duas adagas, atenta e alerta quanto aos dois lados. - Vamos discutir sobre quem pode ter soltado esses cachorros, se sairmos vivos dessa.

- Odeio admitir... - disse Hector, vendo-se sem saída. Sem completar a frase, despertara seu monstro interior em questão de milésimos com um rosnado, alterando a face segura para raivosa.

                                                                                            ***

Aquelas inocentes pessoas se encolhiam de pavor diante da visão horrenda que se avizinhava-se. A porta fora arrombada com brutalidade, praticamente destruindo-se. Um homem surgira cambaleando por trás da assombrosa figura que ameaçava os desafortunados. A família estava sentada no chão, encostados na parede da sala. Uma mulher e seu esposo abraçados com seus dois filhos.

- Por favor, não nos machuque! - suplicava a moça, fechando os olhos e chorando. 

Inesperadamente, a alta e robusta figura de olhos negros tivera sua cabeça decepada por um facão com dentes antes que pudesse desferir um golpe. Um sangue preto espirrara no quarteto. Se protegeram com os braços em vão. 

O homem de sobretudo de couro marrom que lhes salvara parecia estar com a visão turva e vaga. 

Sua expressão era de completa obsessão, como se quisesse desesperadamente saciar uma fome ou sede imparável. 

A cabeça do indivíduo rolara pela sala, derramando o líquido negro e espesso, bem como o corpo, que combalira no chão. O pai olhara para o pobre homem desesperado que entrara, parecendo querer agradecê-lo. 

- Pode nos dizer o que está acontecendo? - perguntou ele, a voz trêmula. - Porque estão invadindo as casas e sequestrando a todos? 

Hector se apoiou em uma estante, tentando se orientar. "Por que? Por que logo agora?!". Passou a mão pelo rosto, sentindo um forte tontura. 

- Você... - gaguejou a mulher, querendo se levantar, mas hesitando depois. - Você está bem?

Aquela era a última residência da vizinhança que estava sendo assaltada por uma violenta horda de miméticos. Colocavam as vítimas presas com coleiras e correntes nos pescoços, ligadas umas às outras, nas vans brancas estacionadas na pequena floresta que fazia fronteira com um parque. Conduzidas até o palácio de Abamanu, seriam recebidas pelos soldados e levadas para "aprimoramento" no laboratório subterrâneo. Em seguida, após jurarem lealdade eterna a seu novo Rei, seriam, por fim, liberadas para o mundo exterior no mesmo dia, sendo responsáveis por sequestrar uma nova leva de pessoas para mais experiências, ao passo em que mais fábricas iam sendo instaladas e a substância continuaria a ser produzida abundantemente. 

O caçador tentou olhar para um deles, com dificuldades para distinguir as formas. Após alguns breves instantes - e com certo esforço - conseguiu entrever formas humanas tentando se comunicar. O mundo lá fora não passava de um caos enlouquecido e cacofônico. 

- Por favor, nos diga! - pedia a mulher, aflita. 

- Vocês... - tentou dizer Hector, respirando pesadamente. - ... precisam sair daqui! 

Estranhando a fala do caçador, o pai balançara a cabeça frenética e desesperadamente. 

- Não há pra onde fugir! Está um verdadeiro pandemônio lá fora! 

Sentindo seu canal auditivo emitir um nítido alerta, Hector virara o rosto abruptamente para a porta, entrevendo uma van que acabara de estacionar próximo ao jardim da casa. As portas traseiras abriram-se, dando passagem para dois homens fortes e vestindo ternos pretos segurando objetos de ferro. Voltando-se para a família, Hector transparecera certo dó. O suor que se formava em seu rosto estava forte e abundante. 

"Abamanu... está recebendo mais infectados a cada três horas, provavelmente. Isto tem que parar. Não, posso pelo menos evitar... com o único modo ao qual posso recorrer!". 

Hector, trôpego, se dirigira à família, rangendo os dentes. Mal conseguia conter a reação terrível que estava ocorrendo em seu âmago. "Se eu liberar isso de mim... talvez eu consiga evitar que estes inocentes sofram com o mal que aquele maldito deus está propagando pelo mundo! Por mais que doa em mim! Por mais que isto fira meus princípios! É o único jeito!". Pôs a mão em seu peito, apertando-o com força. "Eu nunca antes senti... uma força tão imensa tentar me controlar por inteiro!". 

As crianças o olhavam aterrorizadas, abraçadas aos seus pais. A garotinha apontou para o caçador, especificamente notando as alterações mínimas que se delineavam em sua face. 

- Olhem! Ele... - ela gaguejou, lívida. - Os dentes dele! 

Os pais passaram a perceber em poucos segundos, em seguida ficando ainda mais apavorados. 

- Mas quem é você, afinal? - berrou o pai, afastando-se, tentando manter os filhos próximo de si. 

A mãe debulhava-se em lágrimas, desesperada, encarando as mudanças sombrias na aparência do caçador. 

- Me perdoem! - disse ele, o tom de voz já alterado, chegando mais perto. - Você são os últimos a serem levados... E não posso deixar que mais deles sejam criados! - fechou os olhos. Abriu-os novamente, totalmente modificados e carregados de fúria. Empertigando-se, ergueu as duas mãos, as unhas crescidas. - Eu sinto muito. - disse, de modo tenebroso.

Baixara as garras contra os corpos na velocidade de um pensamento, seguido de um rosnado. Um denso espirro de sangue manchara a parede amarela. A sombra de Hector descrevia uma fera em forma humana, trucidando loucamente as cabeças e corpos daquela família, à medida em que um oceano de sangue fresco e quente corria por seus pés como uma correnteza forte. Os gritos de dor iam se abafando a cada rugido e rosnado dado por Hector... que aparentava estar disposto a não parar até que estivessem completamente mutilados e, sobretudo, mortos. 

Quando os homens de terno preto chegaram, depararam-se com a dantesca cena, parando logo na soleira da porta. Mostraram seus olhos negros, franzindo seus rostos severos. 

Hector olhara-os por cima do ombro, sorrindo... a boca, os dentes pontiagudos e as mãos tingidas de vermelho. 

                                                                                              ***

Rosie desferira um veloz golpe contra o rosto de um dos meta-simbionte através do excelente fio cortante de sua adaga. Outro viera por trás agarrando-a pelo capuz, depois lançando contra a uma estante de madeira com portas envidraçadas. Caíra junto com os vários e ínfimos estilhaços de vidro, sentindo um gosto de sangue na boca. "Droga!", pensou, passando a mão pelo lábio inferior e sentindo o corte sofrido. Levantou-se com esforço e sacara mais duas adagas - estas com as lâminas curvadas e pontas mais mortais -, avançando contra o seu agressor. Desviou das garras do mesmo, logo depois cravando uma adaga em seu braço esquerdo. O meta-simbionte urrara dolorosamente, olhando-a com enervação, as presas bem acentuadas e os olhos arregalados. Rosie, em seguida, lhe dera um brusco chute no rosto, fazendo-o chocar sobre uma média mesa de madeira, deslizando e caindo no chão.

Hector batalhava sem nenhuma dificuldade aparente. Rasgava as peles dos inimigos sem escrúpulos. Jogara um contra uma janela, quebrando o vidro da mesma com o impacto.

- Se recebermos algum salário, lembre-se de comprar vidros novos. - disse Rosie para ele, com ar cômico no tom.

Hector virara-se e a alertou de imediato.

- Atrás de você! - gritou, a voz retumbante e monstruosa.

Mais dois meta-simbiontes avançaram contra Rosie. A jovem girara, dando um chute no rosto de um deles e, em seguida, desferindo um cruzado de direita noutro. Sacou um adaga de lâmina curvava e segurara-o pelo pescoço, passando o metal da arma sobre a garganta do mesmo. O corte fora rigoroso. Deixou-o cair no chão com a garganta golfando sangue profusamente, passando a concentrar-se no outro que se levantava, estando pronto para ataca-la novamente.

Antes que pudesse sair do ponto onde estava para ajuda-la, foi abordado por outro que agarrara seu pescoço, na tentativa de quebra-lo. Golpeou-o com o cotovelo diretamente no nariz, logo em seguida empurrando contra a parede e cravando as garras das duas mãos contra os olhos do mesmo. Se debatendo intensamente, o meta-simbionte rugia de dor, sentindo pontadas agudas estremecerem nos canais oculares. Sem misericórdia, o caçador baixara as garras, rasgando o resto da face do lobisomem, com vários pingos de sangue espichando em seu rosto selvagemente furioso. As garras desceram o corpo da criatura, parando no abdômen.

Rosie fora jogada contra a porta envidraçada dos fundos. Com os olhos fechados, rangendo os dentes e gemendo de dor no solo arenoso e meio gramado, a jovem tentou se reorientar. Alguns pequenos cacos de vidro estavam fixados na sua pele, desencadeando em leves sangramentos nos bracos.

O meta-simbionte responsável pela última investida se aproximava a toda velocidade e ira.

Conseguira chuta-lo com os dois pés, mesmo se mantendo no chão. Apenas gerou um empurrão, não fazendo-o desistir. Rosie, vendo como sendo a úncia alternativa, rolara pelo solo, só depois conseguindo reunir forças para se reerguer e manter a guarda. Voltara-se para a criatura, erguendo a mão contra ela. Repentinamente, o licantropo perdera seus movimentos, apenas soltando rosnados incessantes e desesperados. Com uma estranha telecinesia, Rosie conseguira joga-lo contra a parede à sua direita, deixando que seus olhos azuis adquirem-se um calor misterioso. Um fraco e intermitente brilho amarelado surgindo neles...

De instantâneo, o corpo do meta-simbionte queimara completamente, carbonizando-se em seguida, deixando um contorno chamuscado na parede. Poucos segundos depois, o corpo reduzira-se à cinzas, que se amontoavam no chão formando uma "montanha".

"Essa não! Aconteceu de novo!", pensou Rosie, desnorteada, olhando para sua mão direita com espanto. Não tardou para que pudesse se lembrar do poder oculto que guardava dentro de si, o verdadeiro motivo pelo qual Yuga desejava assumir seu corpo como um receptáculo, tendo aquele elemento um fator crucial para propiciar o ato do deus solar. "Está piorando...". Cogitou contatar Áker longe dali para confidenciar aquela manifestação - a mais intensa desde a noite nas Ruínas Cinzas. "Seria um sinal?". Antes que corresse e usasse o amuleto para sanar a dúvida, uma mão tocara em seu ombro esquerdo.

- O que é? - gritou ela, virando-se para trás, sobressaltada.

Deparou-se com um caçador de aluguel vestindo um colete preto com um distintivo do Exército Britânico na parte esquerda e uma camisa branca. Demonstrava amizade com seu rosto jovial e atraente. Olhou para Rosie com preocupação.

- Rosie Campbell.. é melhor que venha conosco...

- Hector está lá dentro e... - disse, virando o rosto para a porta dos fundos quebrada.

- Está tudo bem, os outros irão tratar de falar com ele depois. - disse ele, puxando-a de leve, querendo distancia-la do local. - Ao que parece, os planos para a primeira operação se adiantaram.

- Espera aí. Como é? - indagou ela, incrédula.

- Exatamente. - confirmou, assentindo. - Mas só vai saber dos detalhes se vier conosco. Acredito que o General Holt quer falar com você. Mas antes disso terá que passar pela nossa enfermaria. Vamos. - conduziu-a de modo condescendente.

"O General modificou o cronograma!?", pensou Rosie, andando rápido até um veículo militar ao lado do caçador. À primeira vista, podia-se dizer que a fuga escondida de Rosie e Hector despertara no general uma pressa que denotava urgência.

O nervosismo dera lugar, novamente, à desconfiança extrema.

                                                                                                 ***

À procura de Rosie, Hector percorrera por todos os cômodos da casa. Pôs as mãos na cabeça, desesperado, fitando os corpos ensanguentados e esfacelados espalhados pela espaçosa sala de estar. "Ela não pode ter desaparecido assim tão depressa.", pensou ele, olhando ao redor. Restava averiguar do lado de fora. Durante o tempo em que a jovem travava seu confronto com o meta-simbionte remanescente, o caçador ganhava tempo para regressar ao seu estado racional e humano. Tal processo lhe privava, temporariamente, de estímulos externos, fazendo-o imergir em um transe enquanto voltava a se sentir como outrora.

Suspirando longamente, fora assaltado por um sentimento corroedor. "Não passo de um desertor!".

Se Rosie de fato havia desaparecido, certamente ele atribuiria a culpa a si mesmo. E assim o fez. O silêncio durara pouco. Alguém entrara de modo abrupto na casa. Sobressaltando-se, Hector olhara para a figura que adentrava, exibindo surpresa na face.

- Edgar!? O que faz aqui? - andara até o amigo apressadamente.

- Detectamos atividade vinda daqui. - disse o caçador, sem deixar de olhar para os corpos. - Parece que tiveram sucesso na hora de deixar tudo sob controle. Não sobrou nenhum para ser esmagado pelo meu grupo? - perguntou ele, olhando para Hector, parecendo bem-humorado.

- Rosie sumiu de repente. - informou Hector, ignorando a pergunta. - Você e seu grupo chegaram nesse exato momento?

- Não há nada com o que se preocupar. - afirmou ele, otimista, sorrindo levemente. - Ela pode ter decidido escapar pela floresta, mas lhe garanto que um dos meus pode ter encontrado-a e a levado para a base.

O caçador o fitou, nem um pouco convencido.

- Se você veio tão depressa e diretamente para cá, como sabe que Rosie fugiu floresta adentro?

Edgar tirara de seu cinto um rádio-transmissor e o mostrara.

- Já era tempo de nos darem um desses.

- Então um dos seus homens contatou você e o avisou sobre Rosie. Estou certo? - perguntou Hector, ansioso.

- Bem... sim. - confirmou Edgar, o olhando estranho. - Você me parece afoito demais para um caçador da Legião que, obviamente, está acostumado a enfrentar licantropos dessa espécie. Foi tão agitado assim?

- Não faz ideia. - disse Hector, baixando a cabeça timidamente.

Andando pela sala, Edgar analisava com minúcia os pormenores dos resultados do confronto.

- É, pelo visto, não sobrou nenhum para contar história. Tem alguma suspeita em mente?

- Por ora, ainda não. - respondeu Hector, viando-se para ele. - Raizenbool não parece ser o tipo de cidade que abriga meta-simbiontes disfarçados, e soa até estranho a área florestal os atrair de tal forma que ataquem a primeira casa que encontram. Geralmente, quando estão em bando, eles preferem caçar o máximo de animais selvagens que avistarem pelo caminho. Casas em florestas raramente são seus alvos, a menos que estejam elaborando um ataque se souberem que há inocentes no local.

- Bem observado. - comentou Edgar, voltando-se para ele com um sorriso de satisfação. - No entanto, devemos classificar uma investigação sobre isso como fora de questão. - argumentou ele, olhando para Hector de modo sério.

- Concordo. - assentiu Hector, firmemente. - Afinal de contas, nosso foco deve se direcionar unicamente para as operações de resgate.

- E por falar nisso... - começou Edgar, andando calmamente. - Pelo que me foi repassado, o General pretende adiantar um pouco as coisas.

- O quê? - indagou Hector, franzindo o cenho.

- Restam somente três fábricas. Se seguirmos pela ideia de que o cabeça ordena que mais sejam instaladas em um intervalo de três dias após o desmanche de uma, então o adiantamento se torna oportuno.

Pensando um pouco, Hector compreendera a necessidade da mudança. "Ainda assim, não abandono nenhuma suspeita contra o General. Ele parece querer apressar as coisas de forma que eu e Rosie possamos estar alvejados enquanto estivermos sob a vigilância de alguém do Exército.".

- Eu tentei convence-lo - continuou Edgar - a deixa-lo de fora dessa primeira missão.

- Por que?

- Usei uma argumentação que só cabia a mim. O seu anonimato, Hector. - aproximou-se dele. - Sei o quanto ele é importante é para você. Estou disposto a ajuda-lo a preserva-lo, podemos pressionar o General a reconsiderar sua antiga licença ou, talvez, convence-lo a enquadrar você em um novo posto.

Hector rira fracamente.

- Apoio sua ideia, Edgar, e agradeço de coração pela ajuda... Mas é impossível. Já deve estar inteirado dos últimos fatos que andaram circulando no QG a meu respeito...

- Curiosamente... não. - negou Edgar, franzindo a testa. - Na verdade, é a resposta do General em relação ao interrogatório que ele conduziu que quero conseguir. Mas ele se esquivou espertamente da pergunta. Como se quisesse me omitir algo que eu deveria saber... - ele pigarreou subitamente.

- Meu anonimato se foi, não há mais volta. Impor algum tipo de pressão contra ele pode piorar minha situação, fazendo ele acreditar que eu tive a ideia. - decretou Hector, tentando encerrar aquele assunto. - Agora me diga: Rosie foi levada à base... Mas já para se preparar para liderar o grupo de caçadores selecionados?

- Parece ser verdade. O General, hoje mais cedo, soube dos últimos dados em relação às fábricas. Só resta ele confirmar sua participação. - disse, com certo desânimo. - Perdoe-me... é que eu partilho do seu entendimento quanto a preservar sua identidade para caçadores de aluguel e toda a justificativa que você apresentou. Mas acredita mesmo que o fato de você ter sido interrogado pelo General sob uma acusação não revelada às tropas vai permanecer omitido aos caçadores? Principalmente aos que vão participar da primeira operação de resgate?

Era uma possibilidade a ser refletida. Alguém audacioso o bastante para causar burburinho ainda maior se responsabilizaria por um vazamento de informações secreto, de forma que os caçadores, antes do início da operação, soubessem da custódia temporária do supervisor e das supostas acusações que o miravam, além da revelação da identidade do mesmo. O resultado seria desastroso para Hector. Uma mancha negra destruiria a imagem do caçador em questão de pouquíssimo tempo. O ponto em que Edgar estava querendo chegar era exatamente a exclusão de Hector na co-supervisão, uma decisão que só seria tomada pelo próprio. Recusar a nova licença e fugir de uma provável rejeição abriria vantagens tentadoras. "O Exército não contacta exclusivamente Edgar para compartilhar informações, tendo os outros caçadores também o direito de serem informados. Não há uma regra específica que proíba outros caçadores de receberem chamadas de soldados. Mas, contudo, somente Edgar é quem possui o direito de falar com o General por telefone ou pessoalmente, dependendo do caso. Mesmo a política rigorosa que evita vazamentos estando vigente... não garante que um soldado, qualquer um, telefone para algum caçador repassando fatos que devem permanecer sigilosos. Se eu decidir me ausentar da primeira operação... considerando essa possibilidade real... vou estar fora da mira do vigilante escolhido por Holt, embora Rosie estará exposta e à mercê dos olhos atentos de Sekhmet... que está aliada ao General com intenções escusas. Estou numa maldita encruzilhada.", pensou Hector, divagando em pensamentos, tentando decidir o caminho correto a ser seguido.

Para sua infelicidade, um rápido estampido rompera as linhas de sua concentração. Estremecendo, o caçador vira o corpo de Edgar tombar no chão, sangrando no braço.

- Edgar! - exclamou Hector, correndo para ajuda-lo. O caçador de aluguel parecia já se encontrar inconsciente.

Antes que se agachasse, sentira algo atravessar o couro de seu sobretudo nas costas... até se alojar na pele. Parara rapidamente, ficando com um só joelho dobrado. Esbugalhando os olhos, o caçador passeara a mão direita pelas costas, não demorado a tatear o buraco feito. Sentiu todo seu sistema nervoso e articulações petrificarem. "Não consigo mover nem mesmo minha boca!".

Caíra de lado, duro tal qual uma estátua, próximo a Edgar. "Apareça, seu desgraçado!", pensou, desejando, mais do que tudo, olhar nos olhos do atirador.

Um som calmo de passos foi se aproximando.

Hector, com a visão enturvando-se, entrevia um ser espectral vindo em sua direção. "Quem é você?", disse mentalmente o que não conseguia proferir oralmente.

Quando o indivíduo misterioso tornara-se aceitavelmente mais nítido, uma confusão de ideias pegara o caçador desprevenido. A figura era assustadoramente extravagante.

O atirador utilizava uma máscara preta e metálica que lhe cobria toda a cabeça, com um par de olhos redondos e vermelhos. Suas vestes se resumiam em um macacão de couro preto bastante apertado. O sujeito andava de maneira intimidadora, algo aparentemente já calculado para que soasse o mais ameaçador possível. Além disso, uma parafernália de aparelhos e fios estava acoplada ao uniforme.

Erguera uma pistola de grosso calibre na mão direita, puxando o ferrolho após adicionar mais balas.

Dissera algo com uma voz sintetizada e aterrorizante.

- Hector Crannon, espero por esse momento há bastante tempo. Você pode não ter me notado naquele fatídico dia, mas eu vi, com todos os detalhes, a sua barbárie exposta aos meus inocentes olhos. Tão inocentes quanto aos seres humanos que você assassinou. Eu sou a testemunha. E vim para tomar de você o que você tomou daquelas pessoas. De modo justo e igualmente frio. - afirmou o homem, mirando a arma na cabeça de Hector.

O caçador lutava para se levantar, mas seus membros não correspondiam. seu rosto estava vermelho tamanha era a sofreguidão. As palavras daquele sujeito ficaram gravadas em sua mente, causando-lhe arrepios e contínuas reprises torturantes, nas quais via olhos penetrantes e um sorriso sanguinolento e macabro. "Aquele dia não!".

O som de uma forte trovoada retumbou sobre o espaço. Hector sentira o chão vibrar.

As nuvens se carregavam, concentrando-se velozmente. Delas, um raio foi disparado atravessando a abertura feita no telhado da casa, logo atingindo certeiramente o homem de máscara negra. O indivíduo contorcia-se loucamente, deixando a pistola largar-se facilmente. Caiu no chão, sem movimentar um dedo sequer, seu corpo exalando uma densa fumaça vinda de seu uniforme queimado.

Ao conseguir ver a figura que se postava na soleira da porta, Hector teve um lampejo súbito de surpresa e empolgação. A vontade de se levantar lhe consumiu, mas a dormência nas articulações parecia crescer a cada minuto.

A mulher foi se aproximando depressa, desviando dos corpos dos meta-simbiontes, inclusive do tal homem mascarado. Agachou-se e, delicadamente, pousou suas mãos no corpo de Hector para ajuda-lo a se levantar. O toque foi inconfundível. Os cabelos castanhos e o vestido de seda azul também. "Só posso estar sonhando...".

- Vamos... - disse ela, carregando-o com o braço direito dele sobre sua nuca, levando-o até a porta.

Finalmente sentindo-se capaz de falar, o caçador olhara para ela, grogue, pedindo explicações.

- Você quem fez... aquilo?

- Sim. Uma rara oportunidade indispensável para se usar magia de controle climático pela primeira vez. Acho que me saí bem. - disse Eleonor, sorrindo para si mesma.

- Para onde está me levando? - perguntou Hector, vendo o mundo a sua volta girar.

- Para um lugar seguro. - disse ela, carregando-o com mais vontade. - Aliás... um lugar no qual você fique longe de Rosie e se mantenha seguro... para deixa-la segura.

                                                                                              ***


QG Alternativo do Exército Britânico - Londres; 11h05. 

Num corredor pessimamente iluminado, o soldado que fora designado a observar cada movimento de Rosie Campbell falava com o General Holt no transmissor, enquanto andava vagarosa e tranquilamente. Não estava nada confortável com o tom de seu chefe, após te-lo informado do "desaparecimento misterioso" de Rosie e Hector. Fortalecendo suas incertezas, o homem passou a assumir a ideia de que ambos pudessem estar mortos ou infectados. A especulação, contudo, agravou ainda mais a irritabilidade do General.

- Como assim simplesmente sumiram? Vasculharam a área, ao menos? - perguntou Holt, impaciente.

- Nós presumimos que os falsos sobreviventes tivessem oferecido algum tipo de proteção. Meia hora se passou e não voltaram mais. - informou o soldado, andando mais rápido. - Baseado nas suspeitas do senhor, nenhum deles deu sinais claros de que possuem alguma especialidade. O tempo em que eles ficaram lá comprova isso.

- Engana-se, soldado. - objetou Holt. - A sua teoria de que estejam mortos não faz minhas suspeitas caírem por terra. Suponho que fugiram, é nessa dedução que confio.

- É, pode ter sido. - respondeu o soldado, desabotoando sua farda até o tórax. Sua voz parecia carregada de exaustão.

- Algum problema? Você está bem? - perguntou o General, preocupando-se.

- Não é nada, senhor. Só... - olhou para os lados, sentindo forte incômodo. - ... é só um calor, nada demais. - fez uma pausa, tossindo. - O que sugere que façamos para proceder, senhor?

- Contactem os caçadores, eles devem ir à residência de Campbell para se certificar de que ela está presente lá e viva. Quanto à Crannon... bem, acredito que ele tenha dado a ideia de escaparem do local, sem informar a você e os outros.

- Se Crannon omitir informações à nós... - disse o soldado, começando a suar em profusão. - ... será um péssimo adendo à ficha criminal dele.

- Certamente. - concordou Holt. - Mas não será assim por muito tempo. Por enquanto que a primeira operação de resgate não começa, estou estudando a possibilidade de submete-lo a um novo interrogatório antes de iniciar sua nova função.

- Parece justo, senhor. - disse o soldado, a expressão de insegurança corroendo sua calma. "Que sensação estranha é essa?".

- Ótimo. Faça o que pedi, e rápido. Quero boas novas dentro das próximas duas horas. - ordenou ele, austero.

- Sim, senhor. - disse ele, rapidamente, logo em seguida desligando.

Antes que pudesse olhar para trás, completamente dominado pelo sentimento de perseguição, dois raios retos e luminosamente amarelados atravessaram seus olhos. Um ataque perpetrado por trás, de modo preciso e rápido. Com os olhos totalmente incinerados, o soldado perecera, caindo de bruços no chão, imediatamente morto.

Passos tranquilos vinham se aproximando...

Um belo rapaz loiro de rosto quadrado, cabelos semi-espetados e caucasiano se aproximava do cadáver do soldado. Tratava-se de um dos caçadores de aluguel selecionados para serem notificados quanto a qualquer evento ou decisão relacionado às operações de resgate nas três últimas fábricas a serem desmanchadas.

Ele sorria com certo escárnio, zombando mentalmente da fragilidade daquele corpo. Circundou o cadáver por alguns segundos, até se agachar e vira-lo com rapidez. Na parte de trás da cabeça do soldado podia-se ver dois profundos orifícios que fumaçavam levemente, tal profundidade se estendendo até os canais oculares tragicamente tostados. Os olhos azuis bem delineados do jovem brilhavam de emoção e satisfação.

- Agora que a prometida está oficialmente eleita como a líder do grupo que irá guerrear contra as tropas daquela infame quimera... tenho certeza que farei uma excelente vigilância. - afirmou ele, sorrindo abertamente depois.

Subitamente erguera uma mão e cravara-a no peito do soldado, o sangue espirrando no seu branco rosto. Mesmo em pequenas gotas, sentia que qualquer sangue lhe despertava seus desejos mais intensos.

O rapaz, na velocidade de um piscar, assumira a forma e aparência de sua vítima. Sorriu para si mesmo de modo canalha e suspeito, visualizando e calculando seus próximos movimentos.

                                                                                             
                                                                             CONTINUA...

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