sábado, 2 de julho de 2016

Alguém em casa?


Trabalho por 24 horas em uma divisão da polícia na cidade e a quase todo momento meus ouvidos são preenchidos e atormentados pelos toques irritantes do telefone do meu gabinete. Mas o que tenho para contar nesta postagem foi o estopim para que eu pudesse determinar meu pedido de demissão. Assim que alcançar um número considerável de visualizações, mesmo sem opiniões para ler, irei apaga-la para garantir minha segurança por via das dúvidas.

Foi exatamente a última ligação que atendi, já estando perto do fim do meu expediente. O relógio marcava 23:52 e meu coração palpitava para imergir no conforto da minha casa sem pensar no amanhã. Foram muitas ligações, muitos pedidos de socorro e muitas portas e janelas arrombadas naquele dia, acho que bati o recorde.

Falei com minha voz estupidamente cansada, perguntando no que eu poderia ajudar. Minhas pálpebras pesavam e minha cabeça latejava bastante, então nem todas as palavras daquele senhora desesperada foram compreendidas por mim, mas pude entender o suficiente para minha exaustão permitir.

"Olá?! É da polícia? Ahn... estou sozinha em casa, sinto que tem alguém aqui dentro... Ah, mas que droga! Ele não para de ranger! Eu quero que isso pare... pare!"

Pedi para que ela se acalmasse, mas foi inútil... ela simplesmente continuava falando daquele jeito apavorado, parecendo não dar a mínima para meu apoio. Eu insisti em tentar ajudar, mas ela, nem por um minuto sequer, parava de falar e gritar "Pare, pare, pare!" incontáveis vezes. Sem mais rodeios, pedi o endereço da casa, e foi justo no instante em que ela resolveu fazer uma pausa... no mínimo estranhamente longa. Pensei no pior, claro.

"Senhora? Ainda está aí? Por favor... fique comigo... Senhora?"

Não importava quantas perguntas eu fizesse, ela parecia estar muito mais concentrada no tal rangido estranho do que na minha voz (eu particularmente não ouvia nada do outro lado). Perguntei novamente o endereço da casa.

Após longos cinco minutos, com meu expediente já se encerrando, ela resolveu desembuchar de uma vez. Me mantive mais despertado quando ele forneceu todas as informações de que precisávamos para chegar até ela e salva-la do suposto invasor.

Anotei tudo, em uma velocidade que fez minha grafia ficar meio ilegível, mas dava para entender. Antes que pudesse fazer mais outra pergunta relevante, ela logo desligou. Olhei para o fone, desconfiado e meio chateado por aquele tratamento.

Mas era uma vítima, ora, negligencia-la por puro egoísmo custaria meu distintivo. Pelo tom de sua voz, estava em prantos, realmente aterrorizada com algum som ameaçador vindo do intruso que, especulativamente, utilizava algum aparelho ou objeto que produzia aqueles ruídos, os rangidos que a tal senhora tanto tinha medo, para intimidar a vítima. A última pergunta que eu faria à ela seria sobre em qual cômodo da casa ela estava, mais precisamente em qual ponto ela estava escondida, pois ela falou categoricamente que estava sozinha e que sentia o invasor estar dentro da casa.

Chamei meus parceiros, reuni toda uma equipe, uns seis homens, o bastante para aquele tipo de missão. Relatei todo o caráter do problema: Uma invasão domiciliar grave, a vítima sozinha em casa, supostamente escondida em algum canto da casa e ouvindo ruídos estranhos.

A casa estava localizada na região norte da cidade, pegamos uma estrada asfaltada no meio de um lugar relativamente deserto, com apenas os faróis dianteiros da viatura servindo de iluminação. Deduzimos, então, que estávamos nos encaminhando para uma área suburbana.

Foram cerca de 50 minutos de estrada, logo chegamos por volta das 00:54, mais ou menos. Descemos do carro já de olho na tal casa - que possuía dois andares. Por razões evidentes, fui o que desci mais apressado, ansiando para conhecer a tal senhora desesperada e, sobretudo, o invasor de propriedades. Curiosamente, a porta estava entreaberta, enquanto eu me direcionava, só vi uma brecha escura, confirmando que as luzes estavam apagadas. As janelas próximas à porta estavam lacradas com tábuas de madeira, algo que automaticamente nos deixou mais apreensivos.

A primeira coisa que pensei: O intruso assumiu o controle da situação, tendo, àquela altura, encontrado a vítima e provavelmente a feito de refém por ter exigido informações dela, então aquilo, obviamente, já denunciava que ele sabia que a polícia estava à caminho.

Entramos no mesmo ritmo que chegamos à rua completamente deserta, porém iluminada pelos postes de qualidade aceitável. Acendemos nossas lanternas, logo nos dividimos em três para os cômodos. Eu e mais dois optamos por investigar o primeiro andar, já os outros o segundo - diferentemente de nós eles portavam armas com silenciadores junto às lanternas para no caso da haver mais de um intruso.

Atravessei um corredor perto da cozinha... que levava diretamente para um só quarto no fim.

A porta entreaberta só me causou mais ansiedade, então hesitei em aproximar demais a lanterna da brecha, fingindo focar somente na porta. Cada vez que avançava, mais me vinha a terrível sensação de que fomos enganados. Aliás, que eu fui enganado. E também de que ninguém estava em casa. Ou estava?

Bem, só pude descobrir abrindo um pouco mais a porta. Passei a luz da lanterna por todo o quarto. Havia uma cama velha, modelo arcaico, paredes azuis clara, cortinas cor-de-rosa na única janela, um guarda-roupa extremamente sujo e velho... e duas cadeiras de balanço. Na verdade... foi exatamente neste ponto que meu coração quase parou.

Entrei de vez no quarto, focando minha luz nos dois bonecos ventríloquos, do tamanho de seres humanos, sentados nas duas cadeiras. Um casal, melhor dizendo. O "senhor idoso" era calvo, face mal-humorada, vestia uma camisa xadrez vermelha com preto, calças jeans e botas. Já a velha tinha cabelos brancos desarrumados, um rosto tal sisudo e assustador quanto o do "marido" e usava um vestido azul marinho com bolinhas brancas e chinelos pretos.

As pálpebras daqueles bonecos eram completamente escuras, o que já não me causava alívio. Sempre odiava o show com bonecos daquele tipo na minha cidade quando eu era criança.

Investiguei o armário, porém estava trancado. Mas... antes que pudesse me virar totalmente para o guarda-roupa... uma música lenta e baixa começou a tocar. Não havia reparado logo de início no gramofone próximo ao guarda-roupa, passei o facho de luz rápido demais.

Me aproximei com cuidado, alerta a qualquer sinal, focando a luz no aparelho e deixando, novamente, o resto do quarto em breu. Já estava praticamente no limiar da paranoia. Eu pensei: E se a música for uma distração para me emboscar, já que eu suspeito que o invasor esteja escondido no armário? A música possuía uma melodia triste e apavorante ao mesmo tempo. Um piano misturado com um som flauta bem melancólico. Juro para você: Senti um medo indescritível tomar conta de mim, mal consegui chegar mais perto de modo a poder tocar no gramofone - uma postura vergonhosa vinda de um policial, eu sei. Só reuni minhas forças para sair daquele quarto em passos rápidos. Fechei a porta cautelosamente... no entanto, quando me virei para sair do corredor... eu... ai, minha nossa, está chegando na parte mais complicada de relatar... pois bem... eu comecei a ouvir rangidos vindos o quarto. Pensei nas cadeiras de balanço. Pensei na senhora angustiada me ligando. Ela estava naquele armário ou no guarda-roupa? Claro, eu não pude verificar nenhum dos dois, imaginei logo o pior: A vítima estava morta trancafiada em um dos dois. O intruso parece ter previsto todos os nossos movimentos. Ele já tinha feito o serviço minutos antes de chegarmos e fugiu. Agimos tarde demais.

Mas sobre os rangidos... aqueles bonecos... olha, eu realmente não sei explicar. Só sei que era um som que ia tornando-se desconfortável quanto mais se ouvia.

E para piorar... percebi um pouco tarde, enquanto eu saía do corredor à procura dos meus parceiros, que aqueles bonecos não pareciam ser o que aparentavam. Senti respirações leves por alguns segundos, pelo menos até a música horripilante tocar.  Respirações que, em primeiro momento, pensei ter ouvido do armário, mas não... ela vinha por trás, os bonecos estavam atrás de mim naquela hora. Eu pensei: "Aquelas porras estão... vivas?". Os rangidos só aumentaram a suspeita.

Fiquei parado na cozinha, aguardando um sinal deles. Só a luz de um dos postes iluminava parte daquele cômodo, então desliguei minha lanterna e me pus a esperar, mas mantendo minhas atenções em alerta. Não parava de pensar nos bonecos, nos rangidos...

Olhei no relógio, passaram-se 15 minutos desde que eles foram vasculhar a sala e o segundo andar.

E a exaustão bateu com mais intensidade. Eu precisava dormir. Sem mais paciência, liguei a lanterna, corri até sala e subi a escada às pressas, já no auge da preocupação pelos meus colegas de trabalho. Em todos os quartos do segundo andar, não havia nenhum sinal deles!

Eu imaginei se os bonecos fossem os responsáveis por aquela "brincadeira", eu já me encontrava tão confuso a ponto de nem saber mais o que caralhos era real e surreal. Meu desespero foi só crescendo. Meus parceiros haviam sumido misteriosamente. Não tinha senhora, não encontrei telefones na sala de estar, tudo levava a crer que não passou de um trote, uma brincadeira de mal gosto feita por algum delinquente que se instalou naquela casa abandonada para enganar policiais. As outras casas desocupadas da vizinhança possuíam placas com "Vende-se", menos aquela.

Se não havia ninguém na casa... então de quem era voz que falou comigo por telefone?

Naquele ponto eu estava cansado de elaborar teorias, e fui em busca dos fatos, sem temer os riscos. De toda forma, eu estava cansado, desejando minha casa, minha cama, meu travesseiro.

No último quarto do segundo andar, para meu total espanto, encontrei um gravador, sujo e empoeirado. Deixei minha lanterna ligada e virada para mim no chão e fiquei agachado para escutar a fita dentro dele.

O liguei, aumentando o volume de modo que não fizesse tanto barulho, pois, naquele instante, eu ainda contava com a possibilidade de estarmos lidando com um invasor e de que ele ainda poderia estar na casa, muito bem escondido - mas não explicava o sumiço repentino dos meus colegas.

Meu sangue gelou. Minha pele se arrepiou inteira.

A voz falando era da senhora que atendi!

Fiquei parado, pensando em mil coisas sobre aquele caso. Me rendi a fazer mais teorias. O invasor já havia matado a vítima antes, a forçando a gravar uma mensagem de socorro para a polícia, e horas depois, justo no fim do expediente da minha equipe, ele, antes de fugir, resolveu reproduzir a mensagem contida no gravador por meio de um celular já que a linha telefônica da casa muito provavelmente tinha sido cortada. Ainda assim, minha cabeça martelava sobre os bonecos, os rangidos e o desaparecimento dos meus colegas.

Voltei ao quarto onde primeiramente fui, entrando com estardalhaço. Pus a lanterna em uma axila e chutei a porta do armário com toda força. Chutei mais, mais... incontáveis vezes... até a madeira desgastada se quebrar. A música tinha parado e o quarto estava em pleno silêncio. "Rasguei" a porta velha e só encontrei mais ventríloquos em tamanho de pessoas largados lá. Estavam "nus" e sem olhos, pareciam não estarem prontos.

Depois eu não sei se eu ria ou chorava. Estive tão focado naquele armário de merda que... não tinha percebido que o "casal de velhinhos" já não estavam mais sentados nas cadeiras! Corri para fora daquele quarto, atravessando a cozinha, indo direto para a sala. Só antes de escrever este texto é que pude lembrar da lanterna que deixei no quarto. Eu estava possesso de medo. Nada mais importava do que minha sobrevivência e a segurança dos meus parceiros.

Saí da casa e dei a volta até o quintal. Encontrei uma lanterna de um dos meus colegas... seguido de rastros curvos de sangue. Sem me surpreender com mais nada naquela noite, fui seguindo a trilha... até que cheguei na parte mais distante do quintal, perto de um bosque nada convidativo para aquele clima pavoroso.

Encontrei uma porta quadrada de madeira no solo. Um alçapão fora da casa. Na madeira tinha sido escrito, supostamente com carvão: "Não perturbe!!!". Isso mesmo, com três pontos de exclamação. Algo muito profundo dentro de mim me instigou a seguir o aviso.

Olhei em volta... nada. Os rastros levavam diretamente para aquele maldito alçapão. Meus parceiros, sem dúvidas, estavam mortos. Seja lá o que tenha os levado... dificilmente será punido. Se depender de mim, jamais será. Pois... não vou me aprofundar mais nesse caso, com receio de ter o mesmo destino. Tenho uma vida a preservar, tenho metas a cumprir.

No dia seguinte, eu iria apresentar o relatório da missão ao chefe, mas, ao invés disso, apresentei minha carta de demissão. Inventei uma desculpa absurda demais sobre o motivo da minha decisão.

E se eu tivesse que enfrentar mais casos dessa natureza se eu permanecesse?

O fato dos bonecos serem tão estranhos (na falta de um termo melhor) explica não haver a placa com "Vende-se" naquela casa, diferentemente das demais. Ninguém da vizinhança da frente - sim, eu voltei lá no dia seguinte -, ninguém mesmo... sabia quem morava lá, muito menos tinham coragem de entrar na casa, com alguns alegando que algo maligno residia nela. Nem mesmo souberam informar de antigos moradores. Eu entraria novamente na casa, pelo menos para verificar se existia registros de família, de alguma família que morou naquela casa e que, sei lá, poderia tê-los esquecido. Mas dei como encerrado. Não falei nada sobre a noite anterior para meus "entrevistados", para não choca-los e estimula-los a fazer denúncias precipitadas. Caso fosse assim, só geraria mais vítimas nessa história toda.

Antes de ir embora daquela área, verifiquei meu celular. Nenhuma mensagem do meu chefe. Felizmente, ele tinha ido embora antes de eu atender aquela ligação, logo ele jamais saberá que tínhamos ido para uma missão após o fim do expediente. Naquele mesmo instante, notei também que tinha um bom sinal de wi-fi por lá. E aí está a verdadeira razão pela qual eu devo excluir este texto. Quem quer que tenha levado e assassinado meus colegas, tem acesso ilimitado à internet e corro o risco de ser descoberto e talvez a coisa que matou meus parceiros venha atrás de mim e me transforme num deles. Aquele gravador não passou de um chamariz que o morador misterioso utilizou para atrair novas presas. Ninguém mais deve saber. Ninguém mais deve entrar naquela casa. Outros departamentos de polícia também correm o mesmo risco, então nesse caso não posso fazer nada para evitar pois já me desvinculei.

Este foi o caso mais incomum de toda a minha carreira policial. E, infelizmente, o último dela.


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Este conto foi escrito e publicado exclusivamente para o Universo Leitura. Caso o encontre em algum outro site com créditos e fonte ausentes, não hesite em avisar!


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