Admirador Oculto



Acordei hoje dando de cara com as paredes mais rachadas, descascadas e envelhecidas do que pareciam quando eu e meu marido decidimos compra-la a um preço justo há cerca de 2 anos. Bem, se ao menos as rachaduras fossem o único problema... Ai droga, ele vai surtar se ver essa bagunça toda!
Me xingar de todos os nomes possíveis, sempre quando chegava bêbado ele fazia isso, ainda mais quando ele passou a ficar desempregado. Na verdade, atualmente ele anda enfurnado dentro de casa, um completo recluso, sempre bebendo moderadamente diante da TV, vendo o mesmo programa no mesmo horário e sentado na sua poltrona favorita, um item inseparável que começo a acreditar que ele ama mais aquela mobília velha e fedendo a suor e álcool do que a mim.

Estou seriamente preocupada com ele. O desemprego o fez ficar estável de uma maneira triste. Quando vamos para cama, não conversamos mais animadamente como nos velhos tempos, além disso mal me dá atenção na maior parte do tempo. Sempre sério, ele desenterra memórias dolorosas, como quando abortei nosso primeiro filho e quando minha sobrinha mais nova se suicidou pelo mesmo problema que eu temo que ele esteja passando.

E estas palavras escritas com sangue na parede esquerda do meu quarto vão ajudar bastante a afundar nosso casamento de vez. Juro que não fiz isso! O sangue está seco... E as palavras são: "Observo você dormir até cair no sono".

Também encontrei mais na cozinha, na sala, no banheiro... "Amo você", "Podemos recomeçar" e "Vamos tentar novamente", respectivamente.

Não sei como ele não notou hoje de manhã. Já são quase 22 horas e ele já foi dormir, sem mim! Tem algo errado nisso tudo. Larguei meu emprego só para ficar mais próxima dele, não faz sentido ele me ignorar dessa forma tão desumana. O que mais mais vou ter de sacrificar para receber mais migalhas? Nem sei mais desde quando estou reclusa. Alguém anda invadindo a casa pela madrugada e escrevendo mensagens sangrentas e somente eu, aparentemente, consigo notar! Não faz sentido! Como ele pode ser tão cego? Dormimos juntos e ele finge que não vê as letras vermelhas e garrafais!? Eu o conheço melhor do que até a mãe dele, numa situação desse nível ele teria ligado para a polícia ou ido caçar o desgraçado por conta própria apenas movido pelo ciúme.

Pode ser um vizinho...

Pode ser um colega do meu antigo trabalho... Havia um que nutria uma certa paixonite por mim, sem nunca ter coragem para admitir (mera especulação, mas tenho a impressão de que é mais meia-verdade).

Espera... Tem umas luzes vermelhas e azuis piscando do lado de fora da casa... Essa não... É a polícia!? Ele teria ligado às escondidas? Mas... parecem ser muitos, considerando que o invasor ainda está a solta. O que está havendo?

Estou escrevendo essa carta na mesa baixa, sentada no chão da sala... Ai caramba, estão vindo...

Arrombaram a porta! Estão entrando... mas só tem algo estranho: Entram sem nem notarem minha presença... E ainda continuo escrevendo... como se também não me sentisse incomodada por haver mais pessoas na casa. Um deles grita, enquanto passa por mim e depois de fazer uma varredura rápida: "A sala tá limpa!". Ou seja, além de não me notar, ele também não vê as palavras nas paredes. O que está acontecendo?

São homens de roupas pretas portando armas de calibre pesado, com coletes volumosos e capacetes. Me parece ser algum tipo de força policial de alta relevância. O caso é grave... Estou sentindo uma conceira... no meu braço esquerdo... Tenho usado muitos suéteres cor-de-rosa ultimamente... não sabia que eu tinha tantos... mas essa coceira... essa merda coça demais...

Ai meu deus... Puxei a manga do suéter e tem vários cortes horizontais no meu antebraço esquerdo! Uns cicatrizados, outros ainda despontando uns pingos de sangue. O suéter é de tecido grosso, por isso não dava para ver as manchas!

Isso... me faz lembrar o que vi e fiz na noite passada... Não, espera... De repente, só de olhar para esses cortes me veio um pensamento... uma lembrança. Fui eu! Eu escrevi as palavras... com meu próprio sangue! Ontem à noite, para chamar a atenção dele! Isso esclarece tudo... Não lembro de nada do que ocorreu do dia de ontem, exceto por isso, graças ao que fiz agora.

Os policiais estão conversando... dá para ouvir suas vozes alteradas daqui da sala, estão no meu quarto. Ouço um deles dizerem: "Quem em sã consciência escreveria a mesma carta todos os dias?"

"Contando... são 100 ao todo!", diz outro.

Parece que... Não, não parece, é! Eu já escrevi esta carta antes... várias vezes! Ou pelo menos os primeiros parágrafos, sempre contando sobre as "misteriosas" palavras escritas com (meu) sangue na parede. Elas desapareciam a cada 24 horas... porque eu esqueço de tudo a cada 24 horas! Ótimo, tudo foi explicado! Afinal, meu marido ficou desempregado há 3 meses e 10 dias. E o sangue na parede, sei lá, desaparecia, talvez quando eu escrevesse mais, as outras que fiz no dia anterior sumissem...

Já faltam quase dois minutos para as 23 horas... significa que daqui a uma hora eu vou adormecer e quando for amanhã bem cedo já nem lembrarei mais do dia de hoje, dessa carta, da visita inconveniente dos policiais...

Esta carta, em especial, será a única a se diferenciar das outras graças aos policiais, já que os últimos 100 dias foram todos iguais para mim e para ele.

Mas aí me pergunto: O que eles fazem aqui? Eu estou bem aqui! Por que não me notam?

Espera... Vem vindo um deles de volta à sala... está olhando com pavor diretamente para minha mão escrevendo. Ele grita: "Venham ver isso aqui!".

Os outros chegam até aqui... e ficam apavorados com uma "caneta que escreve sozinha numa folha de papel sobre a mesa da sala".

Dizem uns palavrões, incrédulos e cagando as calças de medo provavelmente. Agora sinto a respiração instável de um deles sobre meu pescoço. Ele está lendo o que escrevo. E grita: "Meu Deus!", enquanto se afasta com rapidez.

"Essa coisa ou sei lá o que é isso está descrevendo nossas ações e até nossas palavras!", diz ele para os outros que preferiram manter distância.

Acho que, na pressa, ele não percebeu a caneta "escrevendo sozinha".

Um grito exasperado veio do porão agora mesmo, atraindo-os. Por alguma razão, eu passei a ter receio de entrar lá... desde quando meu marido perdeu o emprego. Agora lembro: Ele foi demitido.

Como não me veem, estou em pé neste momento, escrevendo no papel usando a parede, próxima da entrada do porão, como forro. Descobriram algo...

"Olha isso aqui... Foram completamente esquartejados..."

Ouvi o som de estática de rádio.

"Atenção, aqui é a Unidade A-321. Identificamos os corpos. Ambos em estado avançado de decomposição, cuja conservação especularmos ser de 3 meses. A princípio, pensamos se tratar de um alarme falso. Mas a denúncia se comprovou autêntica. Um homem e uma mulher, esquartejados e deixados em cárcere privado no porão da residência. O informante anônimo, um vizinho, suspeitava da ação de um sequestrador, mas acabou voltando atrás, alterando a teoria para vingança pessoal, muito provavelmente contra o homem, pelo fato do criminoso não ter mais retornado ao local. No entanto, a mulher também pagou o preço, sendo morta da mesma forma brutal que o marido.".

Então, era isso. Agora entendo. Apenas eu vejo o que escrevi na parede com meu sangue. O cara que invadiu nossa casa - do qual eu não lembrava - se chamava Robert... sim, o Robert, lembro, com muita vergonha, de termos tido um caso há 1 ano. Menti sobre não ser casada. E quando descobriu, ele ficou furioso, possesso de ódio e... é, estou lembrando, ele chegou em casa dando um chute na porta. Nós dois estávamos vendo TV, quando nos deparamos com Robert portando uma faca enorme. E, aos gritos, ele partiu pra cima de nós. Se eu estivesse vendo pedaços do meu corpo agora eu me lembraria com mais detalhes da hora em que ele cometia sua loucura.

O quê? Vão recolher nossos corpos?! Não quero sair daqui!

Não... Não posso deixa-los fazerem isso. Vão se arrepender.

Será que sou boa o bastante para causar um incêndio? Hora de testar... começando pelo vazamento de gás do botijão...

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Este conto foi escrito e publicado exclusivamente para o Universo Leitura. Caso o encontre em algum outro site com créditos e fonte ausentes, não hesite em avisar! 





*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem ifns lucrativos ou intenções relativas a ferir direitos autorais.

*Fonte da imagem: http://100pepinos.com.br/trinca-na-parede/



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