domingo, 8 de março de 2015

Imperfeita Transição



Trago aqui mais uma creepy ótima, desta vez sendo uma estória de terror com um clima de suspense (tal como fiz em alguns de meus contos recentes).

Gostei pelo fato da mesma abordar espelhos... e espelhos em contos de terror é algo que me atrai.

Quão obscuros, misteriosos e intrigantes eles podem ser?

A resposta talvez jamais saibamos.

Boa leitura.

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IMPERFEITA TRANSIÇÃO 

Eu estava sentado no escritório, no andar de cima com uma xícara de café quando ocorreu. Havia sido um dia longo e deixei meu estagiário encarregado de limpar as exibições, espanando a poeira das mesmas - após eu repetir meu aviso de que nenhuma delas deveria ser tocadas e abertas. Um grito de horror, rapidamente sufocado por uma tremedeira de um som estranho de algo sendo rasgado, levou-me às escadas. Rumo à sala dos espelhos.

Eu sabia. Ali tem um espelho antigo, com cerca de um pé ao redor, feito de obsidiana polida. Por trás de sua vitrine ele era inofensivo, apesar de algumas pessoas relatarem ter visto um rosto de uma "bruxa má" em algumas vezes. Olhar para ele desprotegido era uma loucura, ainda mais aqueles que não possuem o meu conhecimento de velhos rituais.

Ao chegar na sala dos espelhos, um cheiro horrível permanecia no ar. No chão jazia a metade de um corpo; a metade inferior, ainda com as roupas. A pele havia sido rasgada e arrancada. Já os órgãos internos, não despedaçados, derramavam o líquido no chão. As pernas estavam na parte inferior da caixa de madeira do espelho, sendo que podia-se ver o osso ilíaco contra a parede. A caixa estava quebrada e os pedaços de madeira estavam espalhados. Encontrei tufos de cabelo emaranhados, resquícios de pele e sangue estavam presos à moldura do espelho. Fiquei atento e dei mais um passo á frente, colocando, cautelosamente, minhas sandálias ao lado da poça de sangue e dos órgãos.

Ao olhar pelo reflexo escuro, vi minha duplicata novamente. Sua mão pálida levava um pedaço de vidro quebrado e um rastro de escuridão.

Enquanto ela levantava o meio-cadáver no ar, consegui reconhecer o rosto rasgado e despedaçado.


Adaptado de: Lua Pálida 

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