quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Capuz Vermelho #23: "Cerimônia do despertar (Parte 1)"


Nota do capítulo: Partes em itálico representam flashback ou menções específicas.

CAPÍTULO 23: CERIMÔNIA DO DESPERTAR (PARTE 1)

Notícias de última hora:

"Agora há pouco recebemos a urgente informação de que um incêndio está ocorrendo no Museu de História de Londres, cuja causa foi uma extrema explosão de altíssimo nível durante a missão prometida do Exército Britânico para invadi-lo. Nossas fontes mais seguras alegam que mais da metade dos soldados não sobreviveu ao impacto. Boa parte deles já se encontrava no interior do museu poucos minutos antes das bombas explodirem. As autoridades temem que as chamas possam se alastrar para a floresta vizinha ao prédio. Oficialmente, ainda não se sabe a quantidade de soldados mortos ou feridos na explosão, mas já sabe-se que a maioria do pelotão tiveram seus corpos carbonizados. Os bombeiros locais ainda tentam apagar o fogo que ameaça se propagar por toda a extensão do território ocupado pelo museu. 

O General Holt ainda não teve a oportunidade de conceder uma nova entrevista, mas é seguro afirmar que ele está ileso, embora completamente desnorteado pelo ocorrido. Ao que parece, o monstro ou lobisomem abandonou o museu e fugiu com seu exército. A prefeitura de Londres ainda estuda a possibilidade de organizar um plebiscito com relação ao problema da suposta "coexistência oculta" entre seres humanos e criaturas de origens sobrenaturais. 

A pergunta que o Exército mais quer responder ao povo é: Eles vivem entre nós? 

Estudiosos, professores de filosofia, historiadores e diversos formadores de opinião comentam e debatem incansavelmente este advento inesperado. Muitos deles temem que a humanidade pode estar em uma transição onde o único destino será a revelação do desconhecido em sua forma nua e crua. 

Que a humanidade deve se preparar para uma era onde o medo pelo que não entende deve ser posto à prova até o limite." 

                                                                              ***

Os olhos de Hector ardiam enquanto se abriam lentamente, como se a tímida claridade provinda do abajur da sala de estar fosse uma rajada de fogo lançada diretamente às suas pupilas. Gemera de dor ao tapar o rosto. Sentia pontadas contínuas no lado esquerdo do pescoço... onde jaziam dois pequenos furos de onde saíam estreitos filetes de sangue manchando um pouco a gola do sobretudo de couro marrom. Foi levantando-se com dificuldade, completamente tonto, ainda sentindo os efeitos colaterais do acidente. Apoiou um braço na perna do sofá virado para se ao menos poder se sentar. Espelhos quebrados, a parede próxima à estante quebrada e rachada, livros caídos, o carpete cor de vinho sujo de terra e amassado, a mesinha de centro da sala derrubada, sofás revirados... fora um completo rebuliço.

Pôs-se de pé, rapidamente pondo a mão no pescoço, ainda abatido pela dor aguda. Cambaleou ao dar alguns passos à frente, tentando reprocessar o que havia acontecido. "Meu deus, que dor!", pensou, cerrando os dentes com os olhos fechados ao pressionar a palma da mão na ferida. "Não me sinto bem... Onde está aquele lobisomem? Eleonor... Por que fez isso comigo? Se ainda estivesse aqui, eu iria esfregar na sua cara que você exagerou... O que pretendia? Me matar?". As dúvidas só cresciam à medida que a vertigem se amenizava.

Andou para um lado, quase perdendo o equilíbrio. "Preciso sentar... Meu corpo está bambo.".

Procurou uma cadeira ou a poltrona na qual antes estava sentado. Estava tudo revirado e sua indisposição alertava para não fazer nenhum esforço físico naquele momento. Sua visão foi desenturvando aos poucos, até que seu corpo readquiriu postura. A imagem da sala bagunçada ficou ainda mais clara... até não sobrar mais nenhum resquício de tontura.

Piscou os olhos, semi-cerrando-os. Os esfregou com as duas mãos para se certificar de algo. "Só posso estar sonhando.'.

Com nitidez, se viu sozinho naquele cômodo. Olhara ao redor, na esperança de não sentir mais a presença daquele monstro metade humano e metade lobo enfeitiçado. A dor sumira de repente. Para comprovar se estava certo, correu os dedos pelas marcas de presas no pescoço... a dor não surgira fisicamente, mas sim na mente. Uma vez seu pai lhe disse que quando vemos ou tocamos a cicatriz nós lembramos do que causou a ferida. Hector viu materializarem-se imagens de presas enormes e pontiagudas cravarem no seu pescoço. Fez uma cara de cansaço ao suspirar pesadamente.

Meta-simbiontes não costumavam ser exageradamente violentos em suas caças noturnas, mas suas mordidas eram potentes e contagiosas. Hector, ao lembrar desta informação, sentiu-se atingido por um raio. "Não... De alguma forma, talvez, o feitiço possa ter barrado os efeitos do vírus.", pensou ele, preocupando-se. "Lycans são difíceis de achar por essas redondezas... Meta-Simbiontes são acostumados a vida urbana, por isso conseguem se disfarçar melhor na cidade, diferentemente dos Lycans que normalmente percorrem regiões rurais e áreas florestais. Eleonor... ela sabia disso. A única característica que ambos compartilham... é a mordida contagiosa!", disse a si mesmo, adquirindo uma expressão decepcionada.

Olhou para as duas mãos para ver se alguma mudança estava ocorrendo. Nada. Porém, seus pensamentos foram cortados por um ruído... de passos lentamente se aproximando. Hector acabara por se lembrar de Rosie. "Oh, essa não! Esqueci que Rosie estava aqui, segundo Eleonor! Quem quer esteja vindo aí... pode ser ela ou aquele monstro!". Fitou a entrada do corredor com um olhar apreensivo, respirando com pressa.

Felizmente, uma silhueta feminina e voluptuosa apareceu. Seu semblante suavizou-se assim que viu duas botas rubras cruzarem a entrada para o corredor... e um par de olhos azuis pertencentes a um branco rosto o encararem surpresos.

- Hector!? - disse Rosie, franzindo as sobrancelhas.

O caçador estava sem fala. Gostaria de sorrir, mas algo ainda mais forte o impedia.

- Ro... Rosie. - disse ele, a olhando fixamente. - Fico feliz... que está aqui... viva. - afastou os cabelos pretos e suados da testa e deu um passo à frente. - Não imagina o quão preocupado fiq...

- Alto lá! - exclamou a jovem, o tom autoritário e raivoso. - Por que também está aqui? E por que está tudo revirado? Parece que passou um furação ou uma tempestade.

"Uma tempestade está acontecendo na minha mente, pode ter certeza.", pensou Hector.

- Rosie... me escute, por favor. - disse, erguendo uma mão, em um gesto para aclama-la. - Nós estávamos no templo de Abamanu, certo?

- Sim. - disse ela, o olhando friamente. - E simplesmente apareci no meu quarto de repente... Eu estava me sentindo bem... até eu ouvir você gritar. - manteve a expressão séria.

"Abamanu devolveu suas memórias. Ela somente se lembra do que ocorreu antes de ser levada. Ou seja, o que ela passou onde quer que estivesse simplesmente foi apagado. Maldito.".

Rosie se aproximou dele a passos largos.

- Quero que me fale o que houve aqui. Quem estava aqui com você?

- Agora não tenho tempo para explicar. - afirmou Hector, cabisbaixo. - Devo dizer que... se passou muito tempo desde que estivemos por lá. - tornou a olha-la. - Qual a última coisa de que se lembra, Rosie?

- Templo de Abamanu. - dizia ela, contando nos dedos, pensativa. - Você revelando o plano diabólico de Loub contra mim, você revelando ter me enganado esse tempo todo por simples medo e ter brincado com minha confiança, você tentando me convencer a lutar contra um inimigo que está lá fora, Michael querendo me matar, Michael me dando a última peça do talismã quando se deu por vencido... - fez uma pausa, encarando-o. - E um clarão ofuscante vindo da estátua de Abamanu.

Hector dera um suspiro, sem saber se de alívio ou de tristeza.

- Eu sinto muito, Rosie. - disse ele, balançando a cabeça de leve negativamente. - Posso jurar a você que, durante o tempo que você ficou longe, eu fiz o possível para me redimir. E eu consegui. Eu não sinto mais medo.

- O tempo que fiquei longe? - estranhou ela, franzindo o cenho. - Do que está falando?

- Obviamente, você não se lembra. Mas garanto que vou lhe contar tudo em detalhes. Abamanu fez algo com você. - relanceou a porta entreaberta. - Olha, não temos tempo a perder, precisamos ir agora.

- Pode esquecer. - disse Rosie, cruzando os braços. - Não vou a lugar nenhum com você. Se redimiu com o quê, afinal? Onde está Robert Loub e o que aconteceu com ele durante esse tempo?

- Percebo que está voltando a confiar em mim. - disse ele, dando um sorriso de canto de boca. -

- O que o faz pensar nisso?

- Você mencionou "tempo". - disse, gesticulando com os dedos referindo-se às aspas. - É óbvio que quer saber o que houve com Loub enquanto esteve sabe-se lá aonde. Mas já digo: Ele está morto.

Rosie descruzara os braços, sem esconder a súbita surpresa.

- Morto? - perguntou, cética. - Como ele morreu?

- Eu o matei. - afirmou Hector, sucinto e firme.

Rosie arqueara as sobrancelhas, novamente impressionada.

- E você pensou que ao fazer isso poderia reaver minha confiança como se nada tivesse acontecido? - perguntou ela, irredutível.

- Também não é assim. - retrucou Hector, a fala rápida. - Quisera eu poder arrancar estas memórias horríveis da minha cabeça... Eu só vou conseguir minha vingança definitiva quando eu matar o inimigo maior que devemos enfrentar. Rosie, eu não fiz isso só pelo meu pai. Fiz por nós dois. Pelo elo que construímos no tempo que passamos juntos. - disse ele, chegando mais perto de Rosie.

A jovem se vira em uma encruzilhada. Apoiar a causa de Hector reconsiderando a aliança contra a vontade de querer seguir um caminho incerto sozinha a fim de começar uma nova vida longe de monstros e caçadas. Ficara pensativa por vários minutos, mordendo os lábios em nervosismo. Tornou a voltar um olhar desconsolado para Hector, mas não decidido ainda.

- Eu... ainda não sei que caminho seguir. - disse ela, pouco à vontade. - É difícil superar uma traição... mesmo quando você enxerga a justificativa mas não quer assumir que ela realmente existe. Esse é o nosso caso, Hector. Sinto como se jamais conseguirei voltar a confiar em você. - involuntariamente, deixou uma lágrima escorrer pelo seu alvo rosto.

Hector, aparentemente, engolira em seco. Assentiu rapidamente com a cabeça, olhando para um lado. No entanto, sua insatisfação estava emanante ao passo em que a paciência já se esgotara por completo.

- Tudo bem, Rosie. - disse ele, aceitando o fato. - Se fosse ao contrário eu sentiria o mesmo. Não é obrigada a me seguir ou confiar em mim novamente. Mas saiba da promessa que fiz: Eu protegeria você, mesmo que soubesse se defender, não importaria, eu estaria ali do seu lado, lutando. - o olhar do caçador estava brilhante e incisivo. - Toda vez que me lembro daquela carta eu sinto como se tivesse que cumprir esta promessa como uma missão dada à mim, um propósito específico para minha vida. Seu pai me confiou esta missão. O mundo está correndo perigo com o iminente retorno de Abamanu... Se pensasse melhor, se juntaria à mim. E decidindo isso vai estar fazendo um favor à memória do seu pai. - virou as costas. - Se acha que não é boa o bastante para isso, então siga o caminho que bem entender.

O caçador fora andando vagarosamente em direção à porta. Rosie fechara os olhos, reprimindo mais lágrimas. Conteve sua ansiedade e tomara sua decisão antes que Hector cruzasse a soleira da porta.

- Está bem. - disse ela, secamente. - Está certo quando disse que não devo voltar a confiar em você por obrigação. Nem por vontade própria. Eu não farei isso. Você é filho de um Red Wolf, e não tenho certeza se posso ou não depositar toda minha confiança de novo. - ela chegara mais perto. - Mas se tem algo que me sinto obrigada a fazer... é lutar contra o mal que fez meu pai cair nas trevas. - estacou próxima à ele, determinada a fazer o que fosse preciso.

Hector se virara abruptamente, sem conseguir esconder um leve sorriso de satisfação.

- Então é isso. - disse ele, assentindo. - Vamos à luta contra Mollock.

- Argh, que nome mais careta para nosso vilão número 2. - reclamou Rosie em tom brincalhão, passando por ele e indo até a porta.

- Número 2? - indagou Hector, sem entender.

- É. Nosso inimigo número 1 é Abamanu. - parara antes que abrisse a porta . - Ahn... por falar em número 2... tem duas coisas que ainda quero te dizer, Hector.

O caçador se virou para ela totalmente, franzindo o cenho.

- E o que é?

Rosie virou-se para a sua frente, emanando um aspecto quase assustador em seu sorriso malicioso.

Uma reação inesperada por Hector quase o fez vomitar seu coração. Com um rápido soco no rosto do caçador, Rosie parecia ainda ferver de raiva.

- Isso é por ter se rendido ao blefe de Loub. - disse, vendo o caçador gemer de dor enquanto ele pressionava uma mão contra seu rosto. Saíra sangue de sua boca.

Ainda não satisfeita, a jovem erguera o pé esquerdo focando-se no bico de sua bota. Em um novo e veloz movimento, Rosie chutara as partes baixas de Hector... O caçador dera um rápido urro ao cair no chão, se contorcendo devido a dor lancinante nas áreas íntimas.

- E isso é por ter me enganado. - disse ela, sem dó.

- Ai... ai, ai! Por que fez isso? - perguntou o caçador, quase rolando pelo chão, gemendo ao comprimir suas mãos nas partes afetadas.

- Não tenho tempo para explicar, vamos logo. - disse Rosie, abrindo a porta e saindo.

Após alguns segundos, Hector decidira ignorar a dor insistente e se levantou rápido ao pensar que Rosie poderia estar seguindo sem ele já distante dali. Caminhou até a porta, trôpego, e saíra sem trancar.

Rosie o esperava a poucos metros da floresta.

- Estou bem ciente da urgência disso tudo, então é melhor me dizer para onde vamos.

- Charlie... - disse Hector, quase mancando até chegar à ela. - Devemos ir até a casa de Charlie. Sei onde fica.

- Quem é Charlie? - perguntou Rosie, enquanto Hector passava por ela indo na frente.

- Vou te contar tudo no caminho, inclusive o que Abamanu fez à você. - garantiu ele, voltando a andar com postura após a dor ter amenizado. - Vamos, depressa! Precisaremos pegar três bondes! - disse, começando a correr adentrando na floresta banhada pela luz do poderoso luar daquela noite.

                                                                                  ***

Ruínas Cinzas - 

Em meio a uma quase desértica paisagem, havia um exército de seres bestiais, lobos bípedes carregando lanças prateadas medievais, caminhando em fileiras organizadamente, como uma marcha para celebrar algum evento ou coroação deu um rei... sim, um rei já consolidado objetivava se coroar novamente... mas desta vez abraçando um acervo de relíquias roubadas e armazenadas numa parte subterrânea sob a superfície do pátio das Ruínas Cinzas. Os monumentais pilares, alguns caídos e rachados, estavam próximos de serem avistados, ao menos suas silhuetas enquanto percorria-se naquela distância. O solo era meio pedregoso e meio arejado, com pequenas áreas de vegetação em torno de morros ou planícies. O céu estrelado se estendia lindamente pelo céu noturno preto-azulado, com poucas nuvens em formações lentas, mas sem ofuscar a reluzente Superlua que se destacava pomposamente.

O pelo amarronzado escuro de Mollock era, em parte, cintilado de um azul sombrio enquanto andava esperançoso e ereto rumo à maior conquista que já tivera a sorte de obter e conduzindo seu horda de soldados como um maestro comanda a sua orquestra. A luz da lua o tornava imponente de certo modo. Sorria na maior parte das andanças pelos mais altos morros. Sentiu um fio de excitação crescer dentro de si assim que avistou um pilar erguido... ou pelo menos o que parecia ser metade dele.

- Ali está! - exclamou com ânimo, apontando para a frente, onde os pilares erguiam-se a cada vez que avançavam. - Basta subirmos aquele morro e tomaremos o caminho mais curto para enfim chegarmos!

Retomaram, por fim, a caminhada até o ponto onde poderia-se ver o que restou no desabado templo de adoração da civilização que ocupava o território outrora. A estrutura ficava na parte central da área, antes sustentada por colunas de mármore cinza. Reduzido a escombros por pelo menos 80% de seu material, o templo de adoração possuía semelhanças gritantes ao templo de Poseidon, localizado na Grécia. Uma estátua de Mitra se fazia presente bem na entrada, a alguns metros da principal abertura. Talvez fosse o único monumento que sobrevivera aos conflitos de guerra que tornaram a causar a verdadeira queda daquele ponto de encontro entre irmãos de mesma crença.

À medida que se aproximavam, Mollock enchia o peito de orgulho. "Esta noite ficará marcada pela minha ascensão como uma entidade suprema. Digam "Adeus" às suas regras obsoletas, humanos!", pensou ele, guardando, ao máximo, o sentimento de alegria pura. Ficara ligeiramente deslumbrado com as palavras finais da profecia que lera na cópia escrita e adaptada pelos Red Wolfs. "Meu pai... Sua morte serás vingada quando eu assumir o controle total deste mundo. O seu executor... aquele caçador miserável... será o primeiro a morrer", jurou ele a si mesmo. Porém, no exemplar original a argumentação era totalmente diferente comparada à versão adaptada da irmandade. Enquanto que no original dizia "e aquele que tornares o privilegiado da escuridão subirá ao cume da montanha realizando maravilhas e tomarás para si valiosas ostentações.", na versão adaptada com as traduções roubadas dizia "E o pupilo do Cavaleiro da Morte serás agraciado com imenso poder divino e alcunha superior ao tomar posse do montante de relíquias que jaz abaixo das ruínas de cor cinza.". 

Finalmente cruzaram a subida do último morro já a poucos quilômetros das ruínas. Atravessando o topo da pequena montanha de pedra, Mollock deixara seus olhos amarelos e penetrantes se encherem de brilho. Cerca de 92 pilares se apresentavam erguidos, mesmo com rachaduras e suas partes superiores em falta. Alguns estavam inclinados, outros tortos tal como a Torre de Piza, praticamente atolados pela metade nas densas áreas arejadas. Um chão com ladrilhos verdes meio claros podia-se ver ao longe, colocados circularmente em torno do Templo de Mitra.

Os olhos do rei estavam plenamente fixados naquelas estruturas decadentes e se perguntava onde poderia estar o principal motivo de sua vinda, o cobiçado tesouro que lhe conferiria poderes inimagináveis. Desceram uma ladeira íngreme, os passos de Mollock apressando-se e os soldados, atrás, adquirindo o mesmo ritmo.

No entanto, antes que pudessem ultrapassar o primeiro pilar, uma das quimeras, subitamente, proferira um alerta.

- Majestade! - apontou com a lança para uma direção, à esquerda de Mollock. - Ao que parece são os intrusos que haviam escapado! - disse, com orgulho.

Mollock deu alguns passos à frente, apertando os olhos para enxergar melhor aquela figura ligeiramente desconhecida por ele. Entreviu um fraco tom de vermelho na vestimenta do indivíduo mesmo com a forte luz da lua querendo ocultar esse detalhe. As vestes esvoaçavam pelo ressoante vento gélido da noite. O sujeito estava parado no morro do outro lado como um fantasma ou um ceifeiro da morte. Seu aspecto era tenebroso.

Sorrindo, Mollock suspirara com certo alívio.

- Não há o que temer, meus irmãos. - disse ele sem tirar os olhos do homem ao longe. - O homem distante nada mais é do que um companheiro da fraternidade da qual meu pai era membro anos atrás. Tendo isso em vista, devo constatar uma aliança iminente. - afirmou, deixando alguns soldados embasbacados.

Um deles se aproximou, intrigado.

- Mas mestre... - o soldado aparentava desconfortável. - Nunca cogitou firmar parcerias com humanos, o senhor sempre os desconsiderou como pragas e...

- Basta! - disse Mollock, interrompendo-o. - Posso sentir pela sua postura... está nos chamando. - deu alguns passos à frente. - Aparentemente, nos serão essencialmente úteis, embora seus destinos já estejam traçados.

- Há uma chance dos intrusos que fugiram do museu virem, majestade. O que tem a dizer a respeito? - perguntou um soldado.

- Dependendo do que proporem a nós, teremos uma vantagem que deveremos agarrar com unhas e dentes. - disse Mollock, cerrando um punho. - É óbvio que os intrusos irão voltar... mas não sozinhos. Aquele caçador insolente teve a chance de me matar... mas presumo que voltará com aliados, não tenho dúvidas. Se este homem veio acompanhado de seu exército, quem sabe, talvez esteja disposto a morrer pela nossa causa, se é que a conhece. - começou a andar vagarosamente na direção antes apontada. - Os humanos amam a vida por temerem a morte. Se ele espera que seus subordinados saiam ilesos, então eu defino isto como um verdadeiro ato de coragem. E quanto aos intrusos... dependendo dos métodos, definirei como um ato suicida.

O pupilo de Abamanu passara a andar mais depressa até o morro do outro lado, a postura devidamente erguida e as mãos para trás. O que percebera um pouco tarde foi em relação à sua visão. Descobriu uma mudança radicalmente inesperada. Por alguns instantes, sentiu enxergar o tal homem bem mais de perto, como se, de repente, seus olhos tornassem-se lentes de uma máquina fotográfica. Não lhe era nada comum o fato de estar sentindo uma estranha força percorrer em suas veias junto com seu sangue. Mas seu foco estava relacionado àquele homem, unicamente naquele momento.

Ao se aproximarem da subida do morro, o líder que ostentaria grande poder vindo de um tesouro escondido rapidamente fitou o indivíduo posicionado no topo, sorrindo levemente. O homem vestia uma túnica vermelha com um capuz - que, logo ao ver seu anfitrião, o tirara, exibindo seu rosto quadrado com uma barba por fazer e cabelos castanhos penteados que reluziam à luz lunar.

Olhou para Mollock, empertigado e sério. "Finalmente estou diante dele.".

- Olá, oh grande pupilo e privilegiado de nosso senhor. - disse Michael, a voz sombria ecoando pelo espaço. - Viemos com a nobre intenção de favorecer seus intentos através de nossos planos para barrar as investidas de nossos inimigos.

- Pelo modo como diz... - disse Mollock. - ... me parece que seus interesses são os mesmos que os nossos. São os Red Wolfs que acho que sejam?

- Mas é claro que sim - afirmou Michael, sucinto. - Somos uma geração ousada, que valoriza tudo que nossos pais construíram.

- O filho de meu pai está com você? - indagou Mollock ao lembrar-se de Max... o relutante filho de Robert Loub.

- Sim, bem aqui atrás. - disse Michael, gesticulando com o polegar. - Está pouco à vontade, mas nada que um incentivo maior não possa resolver essa hesitação. Sente saudades do pai.

- Certamente ele não irá querer ver meu rosto agora, adoraria vê-lo - disse Mollock, relanceando os olhos para um lado do topo do morro, como que querendo espiar o que havia abaixo.

- Por que quer vê-lo? - perguntou Michael.

- Gostaria de compartilhar meu luto. - afirmou Mollock, adquirindo um pesar na voz. - O incentivo que eu daria com certeza seria mais efetivo.

- É mesmo? - indagou Michael, com um ar irônico. - Insinua que Robert Loub... esteja morto?

- Ele está morto. - disse, baixando a cabeça por alguns instantes. - Um caçador chamado Hector o assassinou a sangue frio. A segunda coisa que mais desejo agora é que ele sinta uma dor ainda mais infernal do que a que sinto! - ergueu a cabeça, o tom de voz raivoso.

"Hector!", pensou Michael, não escondendo sua rápida surpresa. "Então ele se vingou. Não esperava que ele fosse conseguir isto tão cedo.".

- Oh... eu... sinto muito. - disse o Red Wolf, ainda surpreso. - Me parece que você tinha vínculos com Loub, certo? - quis saber Michael.

- Parece!? - indagou Mollock, franzindo o cenho, o tom da voz rude. - Ele era meu pai! Possuo todo o direito de me sentir abalado!

- Ei, espere, vamos com calma. - avisou Michael, erguendo um pouco as mãos ao tentar não tornar o clima tenso. - Eu gostaria de saber porque afirma que Robert Loub seja seu pai.

"A sede de poder o endoideceu?", se perguntou Michael, estranhando o argumento do rei. "Como uma besta-fera como esta pode se dizer filho de um ser humano? Inconcebível, é claro.".

- Hum. - Mollock dera um risadinha zombeteira. - Vejo que está curioso sobre minha história. Mas irei conta-la de modo breve: Eu sou aquilo que as escrituras no livro de Abamanu afirmam ser o esclarecido de Cavaleiro da Noite Eterna. Robert Loub foi o precursor da profecia narrada. Parte de mim provém da primeira de suas experiências.

"Agora entendi tudo.", pensou Michael, satisfeito, fitando Mollock. "A profecia afirma que a primeira parte do esclarecido se unificaria com um ser cuja bestialidade seria equivalente à sua. É ele mesmo. Reconhece a própria natureza. A primeira quimera unificada a um demônio vindo do Tártaro, como eu havia ordenado Dwayne a fazer. Concluindo: A primeira cobaia nutria sentimentos familiares com Loub passando a vê-lo como um pai e isto se manifestou com mais intensidade depois que a fusão foi concretizada.".

- Se lhe serve de consolo... eu também estou triste pelo meu pai. - comentou Michael, fingindo um semblante tristonho.

- Hum... - grunhiu Mollock, desconfiado. - Ele morreu?

- Não. - respondeu Michael, secamente. - Está confinado em um hospício, completamente insano. Uma disfunção no cérebro com um efeito que se prolonga a cada dia... Não fui visita-lo temendo que ele não me reconhecesse mais. - tornou a olhar bem nos olhos de Mollock. - Uma coisa é certa: Ele vai morrer. A loucura vai preceder a sua ruína.

Mollock ficara em silêncio, um tanto pensativo quanto a questão. Depois, voltou-se para Michael.

- Eu discordo. - disparou ele. - Mas o tempo a meu dispor está se esvaindo e não encontro um modo de discutir isso sem perde-lo completamente. Uma pena que meu irmão não esteja em condições de me ver.

"Irmão!?", pensou Michael, franzindo as sobrancelhas. "Se Max souber..."

- Tudo bem, então. - disse ele. - Minha horda armada já está posicionada para qualquer sinal de nossos inimigos. Qualquer coisa fora do normal vista no meio do deserto a permissão para atirar está concedida. O que acha?

Mollock expressou um semblante claramente entediado, retesando os músculos.

- Enfim uma oportunidade onde eu possa confiar em humanos e seus armamentos que, na minha opinião particular, não passam de lixo. - sorrira zombeteiramente para Michael, as presas brancas sendo mostradas.

Michael o encarou friamente, mas disfarçou a insatisfação para com o comentário maldoso com um falso sorriso de canto de boca e um olhar malicioso.

- Como Grão-Mestre e adorador incondicional espero que consiga o que tanto quer. - "E que nosso deus, Abamanu, tome conta de seu corpo logo, ao contrário de você ele pode ser bem mais agradável para se conversar.", pensou ele, não admitindo a arrogância de Mollock.

- Também desejo sucesso na missão de seus subordinados. - disse Mollock. - Apesar de armas humanas não terem nenhum efeito sobre mim, eu estou esperançoso de que consigam impedir que os vermes insolentes ultrapassem a passagem para as ruínas. - virara as costas, andando calmamente em direção aos primeiros pilares decadentes.

- Não há com o que se preocupar. - garantiu Michael, relanceando os olhos para o vasto exército do rei. - No caso de uma brecha ser aberta acidentalmente, seus soldados podem evitar novos prejuízos.

Mollock estacara repentinamente ao ouvir o Grão-Mestre com atenção.

- Meus soldados não gastarão energia com meros humanos invasores. - respondeu ele, o tom severo. - O que significa que é bom que os seus homens estejam capacitados suficientemente para fazerem o que devem. Faça bom proveito dos seus para que, assim, eu poupe os meus.

"Isto por acaso foi uma ordem?", pensou Michael, desconfiado. "Mal conseguiu se tornar o receptáculo de nosso deus e já está com o focinho empinado".

- Está bem. Boa sorte. - disse Michael, virando-se para descer o morro de onde viera. Pôs novamente o capuz sobre a cabeça, ocultando parte de seu rosto.

Mollock mal escutara o desejo de boa sorte do jovem Grão-Mestre. Na realidade ouvira as palavras, mas as ignorou por pura soberba. "Sorte... Humanos e suas crenças estúpidas.", pensou, enquanto andava à frente de seu exército, esbanjando uma confiança quase impenetrável. Parecia que à medida que se aproximava da parte central das ruínas a luz da lua tornava-se mais intensa.

                                                                                   ***

Os dois herdeiros que formavam, obrigatoriamente, o legado de seus pais participando ativamente da irmandade, observavam, atentos, o horizonte negrejante ao longe, fitando, em especial, as estrelas exibidas por trás das montanhas mais distantes. Max e Dwayne pareciam um tanto afastados um do outro, mas no mesmo local: Um dos morros altos que oferecia acesso às Ruínas Cinzas. O leve e arrepiante vento atravessava seus rostos encapuzados, fazendo farfalhar suas túnicas vermelhas. O ar esfriava consideravelmente a cada minuto. Ambos ouviram passos por trás... era Michael retornando. Dwayne virou-se para ele, enquanto Max permaneceu imóvel e nada à vontade no meio daquela loucura. O Grão-Mestre, no entanto, ignorou a presença de Nevill, passando por ele como se o tratasse como um fantasma. Foi direto à Max falar em particular com ele.

- Max. - chamou ele, quase aos sussurros. - Acabei de falar com ele.

O primogênito de Robert Loub se virou lentamente, ajeitando seus óculos e baixando o capuz da túnica. Seus cabelos castanhos semi-espetados se revelaram e seu rosto alvo e de aspecto leve também, sempre mantendo o arquétipo de gênio ou "garoto mais aplicado da classe, alvo de valentões e rejeitado pelas garotas". Não era nada difícil reparar na cicatriz próxima à sua têmpora esquerda, decorrente de um golpe dado por Mollock quando este invadiu a mansão de Robert Loub.

O rapaz não entendeu de início e fez cara de estranheza.

- Ele quem?

- Ora, não se faça de desentendido. - redarguiu Michael, a voz cada mais soturna. - Se estivesse prestando mais atenção na nossa missão saberia que eu estava falando com ninguém menos que o pupilo de nosso deus. - deixou um formar um sorriso sinistro. - Ou eu deveria dizer... seu irmão.

Max franziu ainda mais as sobrancelhas, novamente ajeitando os óculos de armação preta.

- Meu irmão!? - indagou, confuso. - Do que você...

- Tudo bem, Max, eu irei poupa-lo de histórias longas. - disse Michael, esquivando-se da pergunta.

- Nada disso. - o rapaz assumiu um tom desafiador e sério. - Me diga o que isso significa, agora.

Michael dera um suspiro pesado, o ar frio da noite saindo de seus pulmões. Devagar, aproximou-se de Max segurando-se para não se exaltar.

- Max, quantas vezes eu devo lembra-lo de quem tem a autoridade aqui? - inclinou-se para ele. - Hoje é um dia mais do que especial e não admito mais suas petulâncias.

- E eu estou cansado dessa loucura. - disse Max, fuzilando-o com os olhos. - Aquele monstro falou com você, então com certeza falaram do meu pai. - semi-cerrou os olhos. - Onde ele está?

Michael mordeu os lábios, assentindo levemente com a cabeça, tentando manter a calma.

- Seu pai... Max... infelizmente, morreu. - disse, sem rodeios. - Eu sinto muito.

- Não sente nada! - vociferou Max.

Em um rápido movimento, Michael sacou uma adaga reluzente saindo de uma das mangas de sua túnica. Posicionou, em uma fração de segundos, o objeto a pouquíssimos centímetros da garganta do rapaz, logo pressionando sua mão contra a boca dele. Max pôde ver os dilacerantes olhos do Grã-Mestre o fulminarem de raiva.

- Como ousa... Como ousa se dirigir assim a seu mestre!? - perguntou Michael, não parecendo hesitar em fazer um profundo corte na garganta de Max. - Guarde esta fúria para quando o grande momento chegar. Você terá bons motivos para liberar sua dor. Não é a mim quem deve odiar, mas sim ao assassino de seu pai!

Mesmo sem poder falar, Max aparentava não estar nem um pouco intimidado. "Vamos lá, me corte, seu covarde. Espero que morra com todos esses miseráveis!".

Michael prosseguiu:

- Só basta esperamos mais um pouco... até que eles cheguem e aí sim... aí você verá o rosto do assassino de seu pai. O mesmo homem que eu chamava de amigo. O mesmo homem que teve a família ameaçada por seu pai. O mesmo homem que seu pai chantageou para que o sacrifício da filha do herege se realizasse. O mesmo homem que deveria estar aqui... junto a nós, mas recusou seu legado e preferiu nos contrariar. É contra ele que você deve lutar, Max! Será que deu pra entender?

O jovem não teve outra saída a não ser assentir positivamente. Convencido, Michael retirou a suada palma de sua mão da boca de Max e afastou a lâmina da adaga do pescoço do irmão Red Wolf.

- Assim que se faz. - disse ele, guardando a arma na manga e prendendo-a numa espécie de fecho especial. Este fecho, por sinal, se rompia quando o usuário da túnica balançava levemente seu braço e o objeto que estava guardado caísse na mão. Ao contrário do que os recrutados pensavam, a fecho não se inutilizava, sendo sempre rompido e usado novamente.

Max limpou sua boca e cuspiu ao encarar Michael odiadamente.

- Vingar meu pai, à essa altura, é inútil! - disse ele, afastando-se do Grão-Mestre.

- Você não o fará. - afirmou Michael, categórico.

Max franziu o cenho novamente.

- O quê!?

Michael, adquirindo uma postura condescendente, andou em direção à ele tranquilamente. Pôs uma mão no ombro do jovem prodígio.

- Temos contas a acertar. - salientou. - Portanto, eu vingarei Loub... por você, Max. É inexperiente e imaturo demais para lidar com algo assim pela primeira vez. Quando eu conseguir sua vingança, me prometa que irá superar isso de modo que nós dois possamos construir um vínculo mais profundo. - deu uma piscadela para ele com um sorriso forçado. - E então? Confia em mim agora? Percebe que temos um inimigo em comum? Sim... consigo ver no seu olhar. - dizia ele, em claro tom manipulador.

Max permaneceu a encara-lo, enojado. Assentiu com um "não" levemente e forçou um sorriso irônico.

- O que você realmente quer Michael? Agir como se fosse meu pai enquanto age como um monstro?

Um silêncio pesado recaiu sobre os dois. Sem obter resposta de Michael, Max dera uma rápida risada e lhe deu as costas andando para uma parte do morro.

- Foi o que pensei. - disse ele, por fim, se afastando.

"Seu pai também era um monstro, seu filho de uma...!". O Grão-Mestre reprimiu um urro de fúria, canalizando todas as suas frustrações para seus punhos cerrados e trêmulos. O filho de Robert Loub acabara de cala-lo com uma questão que lhe atravessou como uma lança arremessada por um oponente julgado fraco.

Mais à frente, a alguns metros abaixo, escondidos em rochas enormes praticamente empilhadas, estavam eles... homens perversos e gananciosos capazes de matar visando um único bem material. Um deles até pensava: "Se eu for um dos poucos sobreviventes, pelo menos vai sobrar menos gente pra quando a grana for dividida. Se eu for o único... fico com tudo pra mim, he-he, fodam-se esses otários!".

Tal como felinos selvagens que espreitam furtivamente à espera de suas presas, assim estavam eles... quase invisíveis escondidos naquelas pedras, empunhando metralhadoras de alto poder destrutivo, espalhados por toda a extensão que cobria a passagem mais curta para se chegar às Ruínas Cinzas.

                                                                                 ***

- Então você já sabia!? - indagara Adam para Charlie, batendo as duas mãos na mesa fortemente, a expressão denotando uma séria exigência por explicações.

O mago do tempo, por sua vez, não se abalara com a reação do caçador, mantendo-se meio cabisbaixo, os cotovelos apoiados na mesa e as mãos cruzadas.

Segundos de silêncio tornaram-se sufocantes.

- Vamos, Charlie, diga! Por que não nos disse desde que nós entramos? - insistiu Adam, inconformado.

O jovem físico erguera a cabeça, fitando-o com um olhar triste. O azul de suas íris não parecia tão claro como se costumava ver. Os cabelos estavam meio despenteados, cobrindo quase toda a sua testa e a barba estava com seu crescimento evidente. "Senhor Rufus...Jamais terei a chance de conhece-lo. Mas isso não chega perto do real motivo da minha tristeza.", pensou ele, desnorteado.

Fechara os olhos por uns instantes e se explicou.

- Bem... Em primeiro lugar: Eu sinto muito por não ter contado a vocês logo quando chegaram. - fez uma pausa, respirando fundo e abrindo os olhos. - E em segundo lugar: Eu... não fazia a menor ideia de como falar sobre isso sem sentir um aperto no coração.

- Todos nós estamos de corações despedaçados. - disse Êmina, sentada em uma cadeira, passando seus dedos em seu giz de cera, entendiada.

Adam se recompôs.

- Ah... - suspirou pesarosamente. - Me desculpe, Charlie... eu ter agido dessa forma com você. Entendo que foi difícil pra você.... tanto ter recebido aquela última ligação de Rufus quanto ouvir sobre a morte dele.

- Não, está tudo bem. - respondeu Charlie. - Esperava que fosse reagir assim. Embora eu não conhecesse, sinto como se um membro de minha família tivesse sido tirado de mim. - voltou-se para Alexia. - Alexia... Escute bem o que vou dizer... mas, por favor, não interprete mal.

A vidente permanecia sentada em um banco de madeira, desamparada, mas séria. Quando Charlie chamou sua atenção, seus olhos passaram a brilhar. Era como se o mago do tempo possuísse uma fonte de reconforto natural com um efeito gerado através de uma única vista no seu rosto.

Ela assentiu, permitindo que ele falasse.

- Muito bem... - ele se acomodou na cadeira. - Rendição, à esta altura, não significa nos curvarmos pelo que a morte de Rufus nos causou. Rendição seria se cruzássemos os braços, esperando as coisas ruins acontecerem e deixarem que acontecessem como se fôssemos espectadores que assistem a uma peça de teatro horrenda. Nós não somos meros espectadores. Somos parte desta peça. - fez uma pausa, baixando os olhos para o chão, pensativo. - Nesta peça não há atores... mas sim pessoas reais que lutam para garantir que o bem prevaleça sobre o mal. Se há um escritor ou um diretor... eu não sei, isto desencadeia uma série de discussões sobre criação do universo e tudo mais. As cortinas desta peça se abriram quando Yuga e Abamanu se enfrentaram numa batalha titânica aqui na Terra há mais de 500 mil anos.

O mago do tempo fizera uma pausa novamente, levantando-se da cadeira e, agora, olhando para os quatro presentes na sala, cujas atenções estavam voltadas somente para ele.

- Não houve um roteiro a seguir. Não houve falas ou ações ensaiadas à exaustão, embora houve atos planejados... muito bem planejados. Mas como em toda peça... há um final feliz e um trágico.

Os olhares da Legião passaram de focados a apreensivos. Todos estavam paralisados ouvindo aquelas palavras.

Charlie continuara:

- Se quisermos evitar um final trágico, não será com a ilusão de que o luto fortalece nossas vontades. Não usaremos a morte de Rufus como desculpa para seguirmos em frente com todas as nossas armas. - respirara fundo novamente, o peito inflando, não de orgulho pelas próprias palavras, mas por se sentir encorajado por elas. - Então, meus amigos, eu digo que nós vamos reescrever o final que eles acham que possuem o controle. A cortinas vão se fechar... mas vai ser com a nossa vitória. - levemente, socou a palma de sua mão, assentindo para os quatro.

Êmina e Lester levantaram-se quase que ao mesmo tempo, exalando uma empolgação contagiante.

- Isso foi... - a caçadora deu um sorriso e uma risada rápida. - ... maravilhoso.

- Eu ia dizer que você tirou as palavras da minha boca... - disse Lester, chegando perto do mago do tempo, sorrindo. - Mas aí eu estaria mentindo. Então... só posso dizer que eu tô com você. - estendeu a mão para Charlie. - Se não for pra lamentar a morte do Rufus, que pelo menos seja pra vinga-lo.

Retribuindo o gesto amistoso do caçador estrategista, Charlie sorrira timidamente apertando sua mão.

- É isso aí. - disse Êmina, aproximando-se dos dois. - Vamos trucidar aqueles palermas dos Red Wolfs e impedirmos o tal Mollock. - afirmou, com alta confiança, pondo sua mão no ombro de Lester.

Alexia levantara-se, emocionada com as palavras reerguedoras de Charlie, abrindo a boca para dizer algo importante. "Eles precisam saber! Chega de esconder o que só eu vejo", pensou, preparada, mais do que nunca, para revelar a verdade sobre as sombrias visões que andara tendo recentemente.

Contudo, no mesmo instante em que a vidente se aproximava da mesa para falar com o amigo, três batidas na porta da sala foram ouvidas.

- Serão eles? - perguntou-se Adam, nervoso ao fitar a porta.

- Não recebo visitas de ninguém do bairro... - disse Charlie. - ... e todos que passam pela rua pensam que esta sala não é utilizada. É óbvio que são eles. - sorrira, mantendo-se de pé.

Lester se prestou a abrir a porta direcionando-se à ela a passos largos.

Girou a maçaneta a abriu cautelosamente. Duas figuras extremamente conhecidas se apresentaram.

- Não posso acreditar... - disse Lester, em tom baixo, relanceando os olhos para Hector. - Cara, e eu achando que você tinha partido dessa pra melhor. - abriu um largo sorriso.

Hector retribuíra, sorrindo timidamente. Rosie não conseguia, nem por um segundo, esconder sua emoção. Sentia que uma família estava prestes a se reunir como se tivessem passado vários anos sem que pudessem se ver novamente.

Os dois entraram rapidamente. Charlie fixou seus olhos em ambos.

Adam e Hector trocaram olhares confiantes, assentindo discretamente um para o outro.

- Rosie e Hector. - disse Charlie, logo em seguida olhando de relance para o relógio de cuco e depois voltando-se para os dois. - Devo dizer que vieram em boa hora. - sorriu levemente.

Alexia estava paralisada, emocionada ao ver os dois novamente juntos. Pôs a mão em seu coração completamente descompassado. "Preciso de um único instante... Rosie é a única pessoa com a qual eu posso confidenciar estas visões, ao menos uma parte delas. Ela vai entender, sei que vai.", pensou a jovem vidente, ansiosa.

Rosie se aproximou um pouco mais, olhando para Charlie gentilmente.

- E você deve ser o Charlie, certo?

- Exato. - disse ele, assentindo. - Digamos que eu seja o idealizador da "Missão Rosie". - disse ele, em tom brincalhão, dando uma risadinha.

- Pois é, Hector me contou tudo no caminho. É uma honra conhece-lo. - estendera a mão à ele.

- De acordo com o que seus amigos me disseram... digo que a honra é toda minha. - devolveu o gesto em um amigável aperto de mão.

Enquanto uma nova amizade estava em sua mais singela formação, uma estava se reerguendo após dias estando aparentemente perdida. Êmina dera um abraço caloroso em Hector, sussurrando em seu ouvido o quanto sentiu saudades do caçador. Lester apertara sua mão que culminou em um novo longo abraço com batidinhas nas costas.

Alexia observou o reencontro, sorrindo e chorando emotivamente. Hector logo a notara e sorriu.

- Alexia. - disse ele, aproximando-se dela calmamente.

- Hector. - disse ela, abraçando-o de imediato.

Adam se interpôs ao lado dos dois, pondo uma mão no ombro de Hector.

- Achei que a espera por vocês dois seria uma eternidade. - disse o caçador de braços fortes, fausto com a reaproximação. - Mas e aí... O caçador que estava com você conseguiu rever a família?

A pergunta pegara Hector de surpresa, fazendo-o prender a respiração enquanto olhava desconcertado para o companheiro de caçada. "Que ledo engano meu. Achando que perguntaria algo primeiro...".

- Ahn... - cofiou seu queixo barbudo. - Bem, sim, ele voltou para a casa. - subitamente lembrou do ataque sofrido na casa de Rosie, ajeitando a gola do sobretudo tentando ocultar a mordida. Tornou a fitar Adam com seriedade. - Adam... sua voz no telefone não parecia como se costumava ouvir. Conheço aquele tom. Alguma coisa terrível aconteceu... e eu quero saber o que é. - pediu ele.

O braço forte da Legião fechara os olhos, cansado demais para ter que discorrer sobre a descoberta abaladora daquela noite. Suspirou com pesar. Não demorou para que Hector compreendesse a mensagem através daquele mórbido contato visual. Alexia afastou-se com alguns passos, tornando a, novamente, ficar cabisbaixa. O caçador olhou para ambos em rápidos movimentos de suas pupilas, entendendo perfeitamente o que aquilo significava.

- Não me diga que... - disse ele, com medo de completar a frase.

Adam assentiu, a expressão de seu robusto rosto denotando um luto profundo.

- Sim, Hector. Rufus se foi. - afirmou ele, quase sussurrando na intenção de que não fizesse Rosie ouvir a triste notícia.

Hector foi acometido pela mesma sensação extasiante que outrora tivera no museu. Fitou o nada por alguns instantes de modo inexpressivo, respirando mais pesadamente. Relanceou Rosie conversando com Charlie, Êmina e Lester no outro lado da sala. A ausência de morbidez em seu semblante significava uma medida cautelosa. Rosie parecia mais determinada do que jamais estivera antes e fazê-la escutar aquele fato terrível a faria abandonar a compostura brava. Não que fosse tão intimamente apegada à Rufus como Alexia, mas o resultado seria desastroso se caso a intenção fosse abalar suas esperanças. Não houve mais lágrimas. Apenas lembrou de Josh... seu corpo jazido no chão e imerso em uma poça de sangue grosso. O caçador, sem dizer nada, andou para um lado, se afastando de Adam.

- Que estranho... - sussurrou Alexia para Adam enquanto observava Hector andar na direção onde estavam os outros. - Até parece que não sentiu nada quando você...

- Err,,. Alexia. - interrompeu ele, chegando mais perto. - Hector raramente expressa suas emoções. Mas não significa que ele seja naturalmente frio... Ele só não consegue partilhar do luto como todo mundo faz. E você ouviu o que Charlie disse: A morte de Rufus não é uma desculpa para nos motivarmos. Nós não precisamos que uma tragédia impulsione nossas vontades. Vamos lutar em memória de Rufus e vingar sua morte, mas com a mesma força de vontade que preservamos desde o início. - afirmou o caçador, veementemente.

Alexia aquiesceu sem titubear.

- É... - enxugara uma lágrima parada no rosto. - Você está certo. Mas saiba que eu também irei.

- Tem certeza? - indagou ele, olhando-a hesitante e preocupado.

- Olha... Só para constar, eu, no dia em que as quimeras invadiram Londres, consegui matar uma delas com uma espada. - disse ela com firmeza na voz e seriedade no olhar.

Adam arqueou as sobrancelhas, espantado.

- Você matou uma quimera licantrópica? E de nível 3?

- Não sei porque está surpreso. - ela sorrira, acanhada. - Eu só... agi por instinto.

- Instinto é? - perguntou ele com um sorriso de canto de boca. - Sei...

- Tá, está bem... - disse ela, rindo e se rendendo. - Fiz aquilo somente para ver se eu conseguia... me libertar. Foi a única forma, a única oportunidade que encontrei para me livrar dessa casca de "menina indefesa" que muitos sempre apontavam como uma fraqueza ou um obstáculo para que eu não conseguisse mostrar meu valor.

Adam chegara mais perto e, condescendentemente, pôs uma mão em seu ombro.

- Alexia... - sorriu levemente. - Todos nós aqui provamos nossos valores, e não pense que com você foi diferente. Você ter feito isso pode não parecer muito, mas já é um largo passo. O fato de você ser uma de nós nos prova que não devemos abrir mão da sua importância.

- Eu? Importante? - indagou Alexia, nervosa e um tanto cética diante daquela afirmação. - Só você mesmo...

- Ah, pare com isso, você tem algo especial que...

- Especial de forma que maltrata minha mente o tempo todo. - o tom calmo de Alexia desparecera e sua expressão tornara-se dura. - Adam, você conseguiria conviver com uma pessoa que guarda segredos o tempo todo?

- Eu não. - disse uma voz que se avizinhava.

Rosie se pôs no meio da conversa, enquanto Hector colocava o papo em dia com Êmina e Lester. O assunto? Certamente suas aventuras e desventuras no Museu de História de Londres.

- Rosie... - disse Adam, feliz por vê-la se juntando à eles. - Ahn... Onde está Charlie?

- Bom, ele foi até o armário pegar algumas coisas. Parece que já tem um plano em mente.

- Que tipo de plano? Ele lhe disse? - perguntou Adam, curioso.

- Não, mas que vai garantir nossa vitória de modo que todos nós possamos sair sem feridas graves. - afirmou ela, repassando o que o mago do tempo havia lhe dito minutos atrás. - Estavam falando sobre segredos? Pior do que guarda-los é conviver com alguém que os guarda. - disse ela, voltando-se à Alexia.

A vidente enrubescera de repente, encolhendo os ombros. A insegurança tomara conta de sua posição logo naquele momento em que a exigência principal era determinação.

- Ahn, eu vou deixar vocês duas se falando...- disse Adam, afastando-se delas. - Mas respondendo sua pergunta, Alexia... - estacou, olhando por cima do ombro. - ... dependendo do segredo, eu não sei como passaria a olhar para a pessoa. Acho que não seria mais a mesma coisa.

"E com certeza nada fica como antes.", pensou Rosie.

- E então, Alexia? - disse a jovem, virando-se para a vidente rapidamente, olhando com nervosismo. - Pelo visto você não sabe disfarçar quando está insegura.

- Ai, Rosie... - suspirou Alexia, afastando os cabelos ruivos para trás das orelhas. - Venho me sentindo assim quase o tempo todo. Até já sei o que iria me perguntar. - a olhou com relutância.

- Foi uma das suas previsões? - indagou Rosie, com ar irônico. - De que eu perguntaria se teve alguma visão relacionada com meu futuro?

- Êmina disse à você, não foi? - perguntou Alexia, esfregando levemente as suadas mãos.

- Sim. Ela me contou que você havia tido uma visão sobre mim... onde eu estava em um local sombrio, meio opaco e que... - fez uma pausa, mordendo os lábios. - Por mais absurdo que pareça, que eu estava com os olhos brilhando uma luz vermelha.

- Exatamente. - confirmou ela, assentindo. - Não sentiu isso quando esteve lá?

- Sendo franca, não. Só uma raiva... um desejo de fúria que me pareceu relativamente familiar. - disse Rosie, pondo uma mão no queixo, relembrando a primeira discussão que tivera com Hector. - E que acabo de me lembrar onde começou. Foi antes de eu e Hector conhecermos você. Não senti que era eu, como se não possuísse nenhum controle sobre...

- É, isso aí mesmo! - interrompeu Alexia, com alarde. -  A última visão que tive... - pausou, passando a relancear Êmina no outro lado e inclinando-se para Rosie para sussurrar. - ... foi a manifestação completa desse fenômeno.

- Fenômeno? - indagou Rosie, confusa. - Então você sabe o que há dentro de mim que causou aquela reação?

- Rosie, eu vou ser honesta com você. - a vidente olhara novamente para os três que conversavam na extremidade oposta do recinto. - Eu tenho escondido minhas visões, tenho medo de revela-las e saber como vão reagir. Se eu resolvesse abrir o jogo, haveria a possibilidade de eu me tornar um estorvo... pra todos vocês. - entristecera o olhar. - Apenas não escondo o fato de que há algo muito extraordinário dentro de você.

- Extraordinário em que sentido? - o tom de Rosie começara a tornar-se sério.

- No sentido que você achar mais apropriado.

- Então diga-me. - pediu Rosie, pegando nas mãos de Alexia com delicadeza. - O que você viu? Só assim eu vou poder dizer o quão extraordinário isso é.

Alexia, engolindo a saliva, mal conseguia respirar no mesmo ritmo tamanho era seu desespero. "Ela tem o direito de saber, claro. Mas não de tudo", pensou ela, se metendo em uma encruzilhada que sua mente tortuosa colocara.

- O tempo está no seu fim. - disse ela, prolongando. - Não é só em relação à você, Rosie...

- Não diga o que viu sobre o que vai acontecer nas Ruínas Cinzas. - disse Rosie, sendo contagiada pela apreensão da amiga. - Apenas sobre mim. Por favor, me fale.

- Posso resumir em uma única palavra, é o máximo que eu posso dizer.

- Tudo bem, não me importo. - concordou ela, balançando levemente a cabeça. - Entendo sua hesitação, sei que teme as consequências... Mas diga o que acha que deve.

Respirando fundo, Alexia se sentiu decidida. Soltando o ar dos pulmões, pondo seus olhos azuis fixos nos de Rosie, ela se preparou.

- Fogo. - disse ela, direta. - Muito fogo. Por toda parte.

Uma torrente de curiosidade arrematou o coração palpitante de Rosie em frações de segundos. Como uma represa prestes a romper, a mente da jovem tornou-se um turbilhão de especulações que se amontoavam até se sobrecarregarem. Eram infinitas suposições. "Fogo?", se perguntou ela. "O que isso tem a ver comigo, afinal?".

                                                                                     ***

No relógio de parede com cuco os lentos ponteiros marcavam pontualmente 22:00.

Sobre a mesa haviam dois papéis amarelados com larguras estreitas e símbolos - dois em cada um -, de mesmo caráter do que fora usufruído para adentrar em outro universo a fim de resgatar Rosie. Charlie observava com uma calma inigualável aquele grupo fortemente preparado para iniciar a ofensiva contra as forças de Mollock.

Haviam caixas de madeira espalhadas pelo chão. Nelas continham armas do mais alto poder de destruição: metralhadoras, pistolas de variados milímetros, revólveres comuns, e até mesmo uma bazuca de uso exclusivamente militar encontrada em uma caixa maior. Àquela altura, claro, já estavam vazias. Adam vestira uma camisa branca com mangas, pois declarava que o colete dificultaria a mobilidade que a situação exigiria. Como o colete à prova de balas ainda não saíra da fase de testes, aquele item tão necessário deveria ser esquecido... por enquanto. O braço forte da Legião tinha envolto em seu corpo fileiras de munições para as duas metralhadoras que carregava, prendidas nas laterais das pernas, além de dois revólveres de reserva para no caso de um confronto de menor intensidade. Lester segurava um fuzil AK-47 juntamente à munições localizadas em seu cinto na frente, também com direito à granadas na parte de trás. Êmina insistira, minutos atrás, para carregar a bazuca em suas costas, sendo repreendida por Adam devido à diferença de pesos. Ela acabara vencendo a discussão e convencido o amigo de sua capacidade. A alquimista utilizava uma alça envolta entre o busto e a cintura para carregar a pesada arma, suportando as condições graças a sua musculatura bem delineada. A única coisa que a desanimava era que sua bem feita trança seria "esmagada" pelo metal da bazuca, podendo ser desfeita a qualquer momento e dando brecha para que a jovem, finalmente, mostre seus longos cabelos pretos e soltos.

Alexia se encontrava parada ao lado de Rosie e Hector, procurando respirar o mais tranquilamente possível. Pouco antes da preparação, Charlie relutava que ela fosse exposta no campo de batalha, mas não deu outra: Ela conseguira convence-lo, em uma similar situação entre Adam e Êmina. Rosie apenas portava suas adagas e estacas de prata presas em seus cintos, e a capa vermelha ajudaria a oculta-las favorecendo um preferencial ataque-surpresa. "Até que este capuz não me é tão ruim. Dá a exata impressão que eu quero que eles vejam: A de uma garota desarmada e incapacitada de lutar.". Hector ajeitava seu sobretudo de couro marrom, cujos bolsos internos abrigavam pistolas e revólveres de diversos tipos, todos carregados com balas de prata. Havia instruído seus companheiros a como mata-las efetivamente: "Uma única bala na cabeça é o suficiente. O cérebro é o ponto fraco delas, pois como são cognitivamente racionais elas se tornam vulneráveis quando o mecanismo que as tornam únicas é danificado.", pensou ele, satisfeito por, finalmente, estar presenciando aquela reunião. Um célebre momento que há muito aguardava. "Por Josh... Por Rufus... Pelo mundo!".

Charlie voltou seus claros olhos para os dois papéis.

- O que espera que simples pedaços de papel façam para liquidar Mollock? - perguntou Hector denotando incredulidade.

O mago do tempo achara graça da pergunta. Sorriu, compreendendo o ceticismo do caçador.

- O poder de um pedaço de papel ajudou a salvar Rosie, então não duvide do potencial destes. - respondera Charlie, relanceando os olhos para a jovem de capuz. - E sobre eles... sou o único e o primeiro de minha geração a realizar esta façanha.

Adam interveio, curioso.

- Pode ser mais específico?

- Claro. - disse ele, assentindo e fitando novamente os papeis. - Na época em que meu pai ainda executava suas funções como mago do tempo, ele não esclarecia praticamente nada relacionado ao poder que estes selos possuem. A única coisa que ele havia deixado como explicação foi um manuscrito... supostamente feito somente para mim. Se não fosse o caso, não o encontraria no seu baú trancado a sete chaves no porão.

Alexia irrompeu por entre Rosie e Hector a fim de sanar sua dúvida, pedindo licença em baixo tom aos dois.

- Charlie, você tem certeza de que consegue manobrar esta técnica? - seu semblante parecia preocupado.

- No manuscrito meu pai afirmou, detalhadamente, o processo. Requer a fala de um rito para que o efeito seja conjurado. - disse Charlie, firme.

- Então pode deixar comigo. - disse Êmina, candidatando-se para dizer as palavras que darão o possível fim à Mollock. - Você me escolheu, lembra? - perguntou ela, sorrindo levemente.

Contudo, o mago do tempo não reagira com o mesmo entusiasmo, fitando-a seriamente.

- Ahn... Êmina, lamento, mas vou deixar que sua função na missão seja apenas a de gerar alquimia. - disse ele, em tom seco. - Na verdade, os selos só podem ser conjurados por um mago do tempo. O que significa que...

- Não! - exclamou Alexia abruptamente. De imediato, todos se voltaram à ela, atônitos.

Adam entendera o que aquilo significava.

- Charlie, acredito que Alexia está com receio por você ter que ir conosco para as Ruínas Cinzas...

- Exatamente. - confirmou ela, interrompendo o caçador. - Você fingiu não ligar para o fato de eu querer ir também, agora digo que eu me preocupo e que é perigoso demais você se meter no meio.

- Mas Alexia, eu sou o único capaz de proceder com esse plano. - afirmou Charlie, categórico. - Além disso, é nosso único meio de conseguirmos neutralizar Mollock.

- E o que eles fazem, afinal? - indagou Hector, impaciente.

- À minha direita... - disse Charlie, indicando com o dedo o papel estreito. - ... está o selo de separação. - apontou para o do outro lado. - À minha esquerda está o selo de barreira. No caso do primeiro falhar, teremos somente a barreira à nossa disposição... a fim de que impeça que Abamanu possua o corpo de Mollock por inteiro.

- É bom que a primeira tentativa funcione. - disse Adam, perseverante. - Acredito que as coisas se facilitem caso consigamos desfazer a fusão.

Rosie deu alguns passos à frente, meio aflita.

- Por que teme que o primeiro selo possa falhar? - seus claros olhos azuis foram de encontro aos de mesma cor de Charlie.

- Mollock não só adquire conhecimento para usa-lo como arma. - disse Charlie. - Então devemos estar preparados para qualquer tipo de ameaça que provenha do interior de Mollock.

- Por que os símbolos? O que significam? - perguntara Hector, intrigado, sem tirar os olhos dos selos.

Charlie já os havia encontrado daquele mesmo jeito há cerca de 14 anos, pouco depois da morte de seu pai: O amarelado, a textura meio áspera, os símbolos desenhados com tinta preta permanente. Nas páginas do compilado de instruções escritas por Gusttaff Brienord constavam as utilidades pelas quais os selos de neutralização deveriam ser usados. Brienord só conseguira apenas dois, pouco tempo antes do massacre perpetrado pelos Coletores. Embora não houvesse um momento oportuno onde manipularia-os, ele conseguira transcorrer tudo o que sabia a respeito da natureza e poder daquele artifício. As 10 páginas escritas como um pequenos manual de instruções tiveram de ser ocultadas imediata e obrigatoriamente sob a ordem de Chronos para que se pudesse evitar um vazamento de informações através de uma suposta espionagem dos inimigos. Criados unicamente com o propósito de se armar uma ofensiva contra os Coletores, os 8 selos foram diversas vezes usados pelas gerações que sucederam-se após a primeira, sendo a segunda a pioneira nesta técnica para que uma frente defensiva fosse colocada para evitar um novo massacre. No entanto, os Coletores driblavam as ações dos selos "mágicos". Os únicos restantes foram os de separação e barreira. Caídos no esquecimento, não foram usados na geração a que Charlie pertencera. Talvez por alguns se darem conta de que poderiam ser inúteis. Foi então que, como medida alternativa, Chronos concebeu aos magos do tempo o direito de portarem armas - as lanças - com as quais se defendessem e atacassem no esperado novo massacre. Novamente, não havia dado certo. Os Coletores fundiam seus corpos e tornavam-se uma só entidade, unificando vários poderes criando uma só fonte.

Charlie lera minuciosamente cada trecho, cada parágrafo das instruções dadas por seu pai até que finalmente conseguisse assimilar toda a compreensão acerca do poder magnífico. Se ainda pudesse voltar ao templo onde se realizavam as reuniões, o jovem agradeceria com muito orgulho o conhecimento fornecido benevolentemente pelo deus do tempo. "Mas não posso mais voltar àquele lugar. Não com aquelas aberrações à espreita o tempo todo.". O tempo de usa-los convenientemente por fim havia chegado. "Veio numa boa hora.".

- São parte do procedimento. - respondeu Charlie. - No entanto, minhas explicações sobre eles podem sugar boa parte do nosso tempo. Só digo que podem sim ser eficazes, se eu estiver a uma distância consideravelmente favorável para que eu possa lançar um deles contra Mollock. Vai valer a tentativa.

- Isso aliado à uma boa distração. - disse Lester, idealizando.

- Mas Mollock vai estar totalmente concentrado na sua "Caça ao Tesouro Maluca". - disse Êmina, contrariando a ideia de Lester. - Então não há necessidade alguma de avançarmos para o ponto onde ele vai estar.

Charlie acrescentara um detalhe relevante.

- A cripta de Abamanu está localizada em algum ponto no centro das Ruínas Cinzas. - afirmou ele, pensativo por uns segundos. - Talvez a abertura não esteja visível a olho nu, mas considerando a posição de Mollock e sua suposta natureza...

- Ele achará a cripta, isto já é certo. - disse Rosie, interveniente.

- Rosie tem razão. - aquiesceu Hector. - Pelo que testemunhei no museu, Mollock está adquirindo alguns atributos bem convenientes para sua busca. - disse o caçador, a fatídica imagem do corpo de Josh invadir sua mente de modo súbito, fazendo-o expressar um semblante de incerteza.

- Ele não tem visão de raio-X né? - indagara Lester, franzindo o cenho, cético.

- Claro que não. - respondeu Hector, virando-se para ele. - Mas deve possuir algum tipo de visão de longo alcance, o que obviamente vai acelerar sua conquista, e é neste momento que deveremos ser mais rápidos.

Rosie voltara para Charlie novamente, sua ansiedade praticamente contagiante.

- Onde exatamente fica a cripta?

- Há uma abertura, similar a um bueiro... - respondia o mago do tempo, mantendo a calma. - ... cuja tampa pode ser encontrada em frente ao templo de Mitra, o deus que a civilização que antes vivia ali louvava. É no subterrâneo que está a cripta com o tesouro roubado.

- Espera aí, roubado? - indagou Rosie, fazendo cara de confusa. - O tesouro não pertence à Abamanu?

- Não. - disse Charlie, secamente. - Mas isto é mais outra explicação que nos roubaria tempo. - voltou-se à Hector, os olhos alardeando uma urgência verdadeiramente preocupante. - Hector, você tinha dito à Adam que Mollock já se encontra nas Ruínas Cinzas. Por mais distante que seja o caminho que ele está percorrendo, ainda há uma outra preocupação.

- Os Red Wolfs. - disse Adam, sem esconder a raiva no tom.

- Sim. Devem ter chegado há alguns dias... - disse Charlie, dando uma discreta piscadela à Hector, escondendo a verdade de Rosie sobre o fato de Rufus ter descoberto que os Red Wolfs obtinham porte do Goétia e que através dele conseguiram chegar as Ruínas Cinzas sem esforço físico. As perguntas que se sucederiam se caso o jovem físico falasse a verdade resultaria em algo desastroso e um perda de tempo frustrante. Rosie ficaria aturdida com a revelação da aliança de Rufus com a irmandade e posteriormente sua arriscada traição à mesma ... o que, inevitavelmente, desembocaria na revelação de sua brutal e inaceitável morte.

- Podem já estar aliados com Mollock. - teorizou Adam, afligindo-se, pondo a mão no queixo.

- É uma possibilidade. - afirmou Charlie, com firmeza na voz. - Sendo Mollock já conhecedor da fraternidade, é esperado que ele vá se aliar à eles em um possível acordo de proteção. - deduziu ele, baixando os olhos para o chão, reflexivo.

- Acordo de proteção? - perguntou Rosie. - Os Red Wolfs protegendo a conquista de Mollock?

- Exato. - respondeu Hector antes que Charlie falasse. - Tendo em vista o fato da sociedade ter se tornado uma facção criminosa, é seguro dizer que eles farão de tudo, darão seu sangue e corpo, para nos atrasar e poder, no final, assistir a vinda de Abamanu.

- Acho que se sairá bem tentando impedi-los, já que sabe tanto sobre eles. - disse Rosie, o olhando incisivamente.

- Eu não saberia se não tivesse os investigado enquanto você estava... fora de cena. - redarguiu ele, com ar de ironia transbordando em sua expressão.

Rosie o encarou desconfiada por alguns segundos. Um rápida troca de olhares nada apropriada para duas pessoas que deveriam agir como parceiros de batalha amigáveis. A tensão faiscava como um pavio de uma bomba entre os dois. Adam e Êmina notaram, intrigados, um clima relativamente estranho ao ver os dois dirigindo-se um ao outro daquela forma.

Charlie quebrara o silêncio no momento certo.

- Eu pensei bem em relação a impedirmos Mollock. - disse com ar misterioso. - Nós iremos "salva-lo". - disparou, sem aviso.

Repentinamente, as atenções de todos se focaram diretamente no mago do tempo. Os olhares atônitos do grupo faziam um contato visual que suplicava por uma razão que explicasse aquilo depressa.

- Você disse "salva-lo"!? - perguntou Adam, sem entender. - O que quer dizer com isso?

- Mollock pode ser nosso alvo, mas Abamanu é a verdadeira ameaça. - disse Charlie, voltando a se acalmar após ter refletido pacientemente sobre a questão. - Eu diria que ele é uma vítima.

- O quê!? - disse Hector, ainda mais confuso, fazendo cara feia.

Alexia também manifestara sua ausência de entendimento.

- Charlie, aonde quer chegar dizendo isso? - pediu a vidente olhando fixamente para ele.

- Acalmem-se, já vou explicar. - disse ele, erguendo levemente a mão pedindo paciência. - O plano de Abamanu foi bem claro, na verdade. E bem inteligente, devo ressaltar. Rosie ter sido mandada para outro universo e ter tido sua memória apagada nada mais foi do que uma distração para fazer com que Mollock não fosse perturbado... e conseguisse obter o seu bem primordial. A maior parte dos inimigos que ele declarou como seus deveriam estar focadas em salvar Rosie enquanto Mollock ascendia ao poder cada vez mais. E assim aconteceu. Ele poupou Hector pois, naquele momento, era o único que sabia da existência de Mollock e talvez nem tenha se preocupado com a intervenção dele nos planos de seu retorno. - fez uma pausa, suspirando lentamente. - Portanto, é por essa razão que devemos visualizar Mollock como uma vítima... ele está sendo conduzido a uma armadilha... a mosca sendo atraída para a teia da aranha.

Um lampejo parecera vir em velocidade máxima tal como a queda súbita de um raio. Todos passaram a compreender a real natureza daquele engenhoso plano. Estava diante deles o tempo todo e sentiam-se transtornados por se darem conta ao que parecia ser "tarde demais". Hector observou Rosie por poucos segundos, enquanto ela tentava, pasma, digerir aquela informação. "Então foi isso. Nada mais do que uma simples distração jogada bem diante de nossos olhos. Com Rosie desaparecida, Abamanu apenas ganhou tempo para assistir o progresso de Mollock. Como fomos cegos!", pensou ele, frustrado. "Charlie torna-se uma peça preciosa para nós, não podemos perde-lo. Devemos mante-lo ileso e longe da mira dos Red Wolfs.".

- Agora tudo fica mais claro... - disse Rosie, desiludida. - Eu fui usada... para atrasa-los. - "Usada duas vezes no mesmo ano!", pensara ela, revoltada internamente.

Êmina se aproximou para ampara-la.

- Rosie, não precisa se sentir culpada, tá bem? - disse ela, afagando sua mão no ombro da jovem, a bazuca em suas costas reluzindo à luz amarela da sala. - Apesar de ser um pouco tarde para sabermos, Charlie foi o único a perceber de forma mais clara, então devemos tudo a ele. Você não acha?

Rosie ergueu a cabeça e passou a fitar Charlie com suavidade.

- Sim. - aquiesceu ela. - Obrigada por nos avisar disso, Charlie.

- Não precisa agradecer. - disse o mago do tempo, modesto. - O importante é que agora sabem que não devem deixar Mollock pisar um único pé na tampa da abertura da cripta.

Adam assentira com convicção. O tempo para conversas e explicações havia expirado por completo.

Rosie se sentira confortada e, de certa forma, mais fortalecida com Alexia ao seu lado pegando em sua mão, como se quisesse transmitir o máximo que poderia de força, fé e coragem.

- Muito bem, pessoal. - disse Charlie, dobrando os dois selos e guardando-os no bolso. - É hora de partirmos. - disse ele, por fim, preparado mais do que nunca.

                                                                                 ***

Ruínas Cinzas - 22:30. 

O dito líder da gangue - declarado comandante da ofensiva armada por Michael - encarava estupefato o que assistia ao longe com a ajuda do binóculo. "Mas que merda é essa?", se perguntou, boquiaberto. O ar parecia cada vez mais ameaçar congelar aqueles homens atravessando suas túnicas vermelhas para penetrar diretamente na pele e gerar contínuos arrepios intensos. O assassino de aluguel agora estava tremendo sua mão com a qual segurava o binóculo, querendo falar... mas as palavras travaram na garganta como se jamais fossem sair.

Um deles notou a estranha reação e chegou perto.

- É só impressão minha ou você parece que tá com medo? - perguntou ele, curioso. - Ei! Não tá me ouvindo não? Tá tremendo porque?

O homem apontara para frente, indicando algo que o deixara tremendamente desesperado.

O outro, no entanto, não compreendera.

- Ué, não tô vendo nada. - olhou para a direção mostrada baixando o capuz, mostrando sua careca repleta de cicatrizes. Insatisfeito, voltou-se para o colega irritado. - Ora, fala logo o que é, porra!

- Ali, seu imbecil! - insistira ele, bravo, ainda apontando. - Não tá vendo aquele pontinho branco brilhando não?

O assassino careca tornou a olhar novamente, semi-cerrando a visão. Sentiu seu sangue gelar em uma única fração de segundo. "Puta merda!".

Recuou vários passos até que se viu correndo, quase tropeçando nas pedras e esbarrando nas altas rochas, para subir o morro e avisar ao Grão-Mestre do que estava por vir.

O líder largara o binóculo, deixando-o cair por entre as pedras abaixo, para em seguida correr para junto dos outros a fim de alerta-los como Michael os orientara inicialmente.

O que vira o deixara estarrecido de aflição. De uma rocha distante, cerca de 40 quilômetros, emergia um facho de luz branca que ia crescendo até formar um retângulo verticalmente exposto. A luz aumentava seu brilho à medida que pessoas pareciam sair de dentro da rocha. Só o que viu antes de correr foi uma garota vestindo um capuz vermelho com uma capa de mesma cor e um homem alto, com cabelos pretos e lisos que iam até a nuca, vestindo um sobretudo de couro marrom.

Ao chegar até eles, o líder fez alarde com relação aquela vista.

- Ei, seus molengas! - exclamou ele, xingando-os para chamar-lhes a atenção. - Preparem os brinquedos! Lá vem eles!

- Os intrusos?! - perguntou um se virando abruptamente.

- Não! Uma trupe de circo! - zombou ele, a paciência esgotada. - É claro, seu monte de merda! Pega o binóculo se não acreditar em mim! - apontou para a direção de onde eles vinham. - É coisa de outro mundo!

- E pensar que aquele ritual que trouxe a gente até aqui já foi o bastante. - disse um deles, com uma voz igualmente áspera a do líder, subindo na rocha com o binóculo numa mão e a metralhadora na outra. - Meu deus... de onde será que eles vem? - perguntou a si mesmo, vendo a "porta luminosa" se fechar reduzindo a um ínfimo ponto brilhoso no pé da rocha... até finalmente sumir.

- Não sei e nem quero saber. - retrucou o líder, indo em direção ao topo do morro. - Só quero ver o que o chefe tem a dizer disso. Tomara que a grana seja o dobro das balas que vou gastar metralhando esses intrusos!

- Faço de suas palavras as minhas, amigo. - disse o outro que continuava a apertar o binóculo contra os olhos, espantado com o que via.

Observava os membros que compunham a Legião parados e aparentemente tentando se esconderem nas outras rochas. "Parece que já nos viram."

                                                                                     ***

Lester ocupava-se limpando as lentes de seu binóculo com um lenço branco. estando agachado. O pôs contra os olhos, mirando novamente no morro de onde se via um verdadeiro exército de homens vestidos de vermelho... "Caramba, estão armados até os dentes.".

- E aí, Lester? - disse Adam aproximando-se dele, agachando-se. - Contabilizou quantos deles são?

O caçador estrategista se deteve antes que pudesse falar. Se certificou por alguns segundos, direcionando a cabeça para a esquerda e direita. Suspirou pesadamente, com ar desanimado.

- Olha... acho que são mais de 30 ou 40, mais ou menos. - disse, olhando para a extensão do deserto preocupado, os curtos fios de seu cabelo preto voando ao vento frio. - Já vi que a noite vai ser longa. - entregou o binóculo para Adam.

- Nem me fale - disse o caçador robusto confirmando a si mesmo o que Lester dissera ao olhar para o morro. - Façamos uma promessa, cara: Quando tudo isso terminar nós vamos tirar umas boas e merecidas férias. Fechado? - perguntou, cerrando o punho em direção a Lester.

- Tô dentro. - disse ele, cerrando a mão, ambos chocando seus punhos de leve em um gesto de companheirismo.

Alexia, Êmina, Rosie, Hector e Charlie continuavam atrás da rocha, extremamente ansiosos.

- Aqui faz muito frio. - reclamou a vidente, se aquecendo com as mãos. - Como está se sentindo, Rosie?

A jovem apenas assentiu fracamente com um "sim". No meio do caminho, enquanto ainda estavam no segundo bonde, Hector a mostrara um desenho descritivo de Mollock que fizera antes de invadir o museu junto de Eleonor. Rosie sentia-se em transe ao lembrar-se daquela figura medonha desenhada pelo caçador. "Alto, forte, musculoso... um lobisomem gigante com toques demoníacos. Era só o que faltava para completar esse pesadelo.".

                                                                                  ***

- E aqui está. - disse Hector, sacando uma amassada folha de papel com uma figura desenhada. - Este é Mollock. - apresentara a ela o "retrato falado" do pupilo de Abamanu. 

O bonde fizera uma curva repentina, o que ajudou a impulsionar o seu rápido espanto. 

- Oh! - surpreendeu-se ela. 

- Interessante ver que está surpresa ao ver uma criatura assim... de fato, ele é bem asqueroso. - disse Hector segurado-se no banco da frente enquanto o bonde seguia em linha reta novamente. 

Rosie reprimiu uma risada. 

- Não foi isso que expressei. - afirmou ela, o olhando seriamente. - Na verdade... eu estou surpresa por ver que você desenha tão bem. 

O caçador enrubescera, encolhendo os ombros. 

- É, sim... pois é, os meus dotes artísticos não se limitam só na caçada e em investigações. - disse, sorrindo timidamente. 

- Aposto que já fez um comigo segurando a cabeça de algum lobisomem. - disparara Rosie, em seguida rindo sem conseguir se segurar. 

Hector também rira junto com ela. Riu daquela forma pela primeira vez em anos. 

Após o aprazível momento, os dois se entreolharam... Contudo, deixando seus sinceros e calorosos sorrisos se desfazerem gradualmente até culminarem em expressões sérias e sem humor. Como em uma troca telepática de informações e sensações, parecia que ambos lembraram um ao outro mentalmente sobre a situação que viviam. 

Ficaram calados por vários minutos, apreciando a paisagem urbana ornamentada com luzes alaranjadas dos postes e carros do ano indo e voltando pelas ruas cruzadas.

Quebrando o silêncio, Hector fizera uma delicada pergunta. 

- Rosie. 

- Sim. - ela se voltou à ele. 

- Qual o nome de sua avó? - perguntou, com a cabeça baixa, pensativo. - Como se chama a senhora Cambpell? 

Rosie o olhou com estranheza, mas logo aquiesceu assentindo levemente. 

- Eleonor. - respondeu ela. - Eleonor Campbell. 

O caçador nada falou diante da resposta. Apenas permaneceu sério e um tanto deprimido. 

- Minha vez agora. Por que a pergunta? 

O caçador virara seu rosto para ela lentamente. 

- Nada. - assentiu negativamente. - Só curiosidade mesmo. - voltara-se a olhar para frente. - Assim como você... também estou com saudades dela. 

                                                                                    ***

Andarilhando pelo solo pedregoso e meio arejado, o grupo matinha-se concentrando em direção ao morro mais à frente, que era considerado a passagem mais facilmente acessível para se chegar às Ruínas Cinzas em relação ás outras: Morros altos e de árdua caminhada, podendo ser possível até mesmo uma escalada, mas que certamente gastaria os últimos resquícios de energia do explorador.

Lester e Adam seguiam na frente, auto-confiantes. Os sete amigos tinham seus corpos reluzidos pela luz sombria e azulada da Superlua. Charlie estava logo atrás, andando no mesmo ritmo calmo que os outros. "Acho que minha paciência deve ser contagiosa. Isso é bom.". Lembrara, de repente, sobre um detalhe urgentemente importante em um lampejo.

- Esperem. - disse, fazendo os outros pararem a caminhada subitamente e se virarem para ele.

- O que foi, Charlie? - perguntou Adam. - Esqueceu de nos dizer algo?

- Acertou em cheio. - confirmou ele. - A vinda de Abamanu à Terra tem implicações gravíssimas em relação ao espaço-tempo ou o tecido da realidade. - informou, com tom de preocupação. - É como uma corda bamba, quanto mais ela recebe corpos pesados mais frágil ela se torna. Quanto menos firme a corda fica, a incidência de portais dimensionais se torna iminente.

- O quê!? Portais? - indagou Hector, afligindo-se.

- Isso mesmo. A presença de um deus na Terra pode causar sérias alterações na realidade, podendo distorcer o equilíbrio. Coisas que não deveriam estar aqui podem acabar vindo... - fez uma pausa, vasculhando em sua mente as palavras certas para definir o caos que seria caso uma divindade pousasse seus pés em um mundo no qual seu poder pode ser altamente destrutivo, mesmo que esta não utilize nenhuma habilidade natural para exercer sua influência.

- Que tipo de coisas? - perguntou Êmina, o olhar apreensivo.

Charlie erguera a cabeça, sem esconder seu temor diante daquela possibilidade aterradora.

- Seres de outras dimensões... outros universos paralelos a este. Seria um verdadeiro pandemônio, um desequilíbrio total entre vários mundos cujas criaturas não podem cruzar certas fronteiras espaço-temporais.

- Olha... - dizia Lester, coçando a cabeça, confuso. - Não vamos encher mais nossas cabeças com esse papo de físico. Se lembra do que fazer, né?

- Gravei cada palavra que disse, Lester. - disse Charlie, assentindo.

A mensagem havia sido plenamente clara: O mago do tempo precisaria sobressair-se da missão, indo direta e furtivamente até a outra extremidade da série de morros altos em torno das ruínas. Tudo isso a fim de se deparar com Mollock, mas, obviamente, escondido. Um sinalizador lhe fora entregue para que emitisse um alerta apenas quando estivesse lá: Ou de que pudesse estar em apuros ou de que conseguira marcar Mollock com o selo de separação. Ao percorrer alguns poucos metros morro acima, a prioridade era manter Charlie fora de vista, uma ocultação que deveria se fazer eficiente. Sendo assim, isto facilitaria sua "fuga". A Legião tinha o dever de distraí-los enquanto o jovem físico percorria aqueles tortuosos caminhos.

Michael descera o morro sem se queixar das pedras irregulares e fáceis de fazer alguém cair ou tropeçar. O Grão-Mestre aspirava um ar soberbo, o qual esperava soltar bem nas faces de seus algozes para que morressem sufocados com aquele ar venenoso. Acompanhado de dois de seus subordinados assassinos, ele fizera questão de baixar o capuz... ao fitar com uma empolgação assustadora aquele grupo que se aproximava.

Ele estacara em um ponto, a poucos metros de onde os heróis haviam parado. Erguera as palmas das mãos levemente com um sorriso cínico.

- Bem, meus amigos, devo dizer que chegaram ao limite. - relanceou seus homens posicionados e armados em todos os lados. Assentiu discretamente para um deles.

Todas aquelas metralhadoras potentes passaram a alvejar os aventureiros. Nenhum deles sequer olharam para os canos daquelas armas apontados para suas cabeças. A atitude denotou que tal ação foi previsível.

Michael franziu o cenho, incrédulo.

- Ora ora... estou impressionado. - disse ele, irônico. - Continuam firmes e fortes, inalteráveis. - olhou para cada um deles com escárnio.

Hector subiu uma pedra o encarando friamente.

- Pode-se dizer que já esperávamos que agissem assim. Não seríamos tolos a ponto de levantarmos os braços em rendição.

- No seu lugar, eu não ousaria dar mais um passo. - ameaçou Michael, a expressão austera. - Vou sugerir a vocês uma escolha bem prudente, talvez a única opção: Dar a meia-volta e retornarem para suas casas se quiserem viver.

- Sem chance. - retrucou Rosie, lançando-lhe um olhar rebelde. - Não voltamos pra casa sem antes acabarmos com todos vocês, além de Mollock, é claro.

- É isso aí. - disse Lester, deixando sua AK-47 à mostra, pondo-se ao lado de Rosie. - A festa de vocês termina quando a nossa começa. Mas não vão ser os palhaços que vão rir por último.

- Veja bem como fala. - redarguiu Michael, curvando o rosto para fitar Lester. - Isto aqui passa longe de ser uma festa. É uma cerimônia de reverência. Uma demonstração de nosso louvor e proteção de nossa causa maior.

- Estou vendo. - disse Adam, com um sorriso sarcástico, olhando em volta. - Abamanu deve estar bastante orgulhoso de homens segurando armas pesadas e vestindo roupas com... - ele parara no meio da frase, a expressão mudando drasticamente. - Mas o que... - apertou os olhos para ver melhor as túnicas vermelhas dos assassinos.

Hector também reparou no mesmo instante, igualmente estupefato. "Símbolos gravados nos mantos!?".

As túnicas dos homens, especificamente na parte central, estampavam imagens conhecidas. Demoraram a perceber devido ao nervosismo crescente. Algumas túnicas apresentavam luas minguantes, outras crescentes, cheias e novas gravadas com um contorno negro. Michael reprimiu um riso ao perceber a embasbacação dos dois caçadores.

- Como podem ver... estes homens se curvaram aos seus destinos, sacrificando suas antigas vidas para abraçarem nossa causa. - "Estou sendo generoso com você, Hector. Só estou esperando o momento certo para que a verdade apareça. E ela sairá de minha boca.".

Rosie também olhava para aquilo, imaginando o pior.

- O que você fez? - perguntou ela, ríspida.

De repente, uma voz diferente saiu por detrás de Michael... revelando, logo, uma figura jovem, de cabelos loiros bem penteados e partidos.

- Eles sofreram a modificação necessária. A transformação para o esclarecimento. - disse Dwayne, empertigado.

- E o que incluiu tal esclarecimento? - indagou Hector, desconfiado.

- Nada demais! - gritou uma voz grossa e rude do outro lado. - Só um ferro em brasas nos nossos peitos que doía pra cacete! - disse a voz estrondosa do assassino.

"Marcação a fogo!", pensou Hector, exasperado com a revelação. "Isso... isso remete a uma técnica radical utilizada pela Igreja Católica no período das Cruzadas! Marcavam aqueles declarados inimigos de Deus com ferros em brasas como forma de expiação dos pecados! Michael, você não passa de um monstro, um demônio!". O caçador rangera os dentes, enraivecido diante daquilo.

- Como você pôde?! - questionou Hector, vociferando. - Por mais que estes homens não passem de almas ardilosas não mereciam se tornar parte das suas loucuras!

- Hector! - disse Rosie, virando-se para ele. - Vai ter pena deles agora? Eles aceitaram esse destino, então mereceram o que tiveram. É fácil de assumir isso só pelo fato de estamos sob a mira de armas!

- Veja só, a filha do herege finalmente despertou sua coragem para este momento. - provocou Michael.

- Pensando bem... - disse Rosie, olhando para ele. - ... também vim para virar o jogo entre mim e você.

- Uma vez fugitiva do sacrifício, sempre fadada a ser perseguida... para enfim ser sacrificada!  - disse ele, arregalando os olhos e erguendo um punho fechado.

Adam deu um passo à frente, protetor.

- Toque um fio de cabelo de Rosie e vai se arrepender antes que perceba!

- Ameacem o quanto podem. - disse Michael, olhando-os com desdém. - Vocês chegaram ao fim da linha! Daqui não passam. Nossa frente, além de mais numerosa, é ainda mais poderosa com armamentos.

- Eles possuem conhecimentos alquímicos, por exemplo? - perguntou Êmina, claramente despreocupada com relação a evidente vantagem do exército.

- Quem precisa de alquimia quando se tem um vasto exército lutando por um ideal. Lutando por adoração e, sobretudo, fé. - afirmou Michael, pondo a mão no peito, convicto. O emblema no centro de sua túnica era o de uma lua maior e de um vermelho escuro... a lua de sangue.

- Diz isso por que não precisa sujar as mãos contra nós. - disse Alexia, avançando, corajosamente, entre Êmina e Adam, clocando-se lado a lado entre Rosie e Hector. - Admita logo de uma vez: É a mim que você quer. - cravou seus azulados olhos em Michael.

- Alexia... - disse Êmina, olhando-a preocupada. - Não é uma boa hora...

- Está tudo bem, pessoal. - disse ela, confiante. - Me disponho, por livre e espontânea vontade, a me entregar as mãos dele.

Todos se sobressaltaram, alarmados como se tivessem sido atingidos por um raio e passaram a fita-la abismados como se a vidente tivesse ficado louca.

Michael, por outro lado, deu um sorriso de satisfação. "A profetisa simplesmente vai abrir mão de sua resistência?! Não imaginava que fosse ser tão fácil.".

- Alexia, não faça isso! - alertou Rosie, desesperada, tocando em sua mão. - O que você espera que aconteça fazendo uma coisa dessas?

Hector também aconselhara-a.

- Por favor, Alexia, por mais especial que seja para Abamanu, não deve se sentir obrigada a se arriscar desse jeito. - avisou o caçador, sério.

- Ouviram a profetisa, ela já decidiu de qual lado está. - proferiu Michael, sorrindo ardilosamente.

- Não confunda as coisas! - explodiu Alexia, para o espanto dos outros. - Eu me dispus porque foi a única saída que encontrei para evitar um desastre. Sou eu em troca da passagem dos meus amigos.

- O quê!? - assustou-se Adam, virando-se para ela. - Alexia, não vamos entrega-la!

Michael pigarreou, interrompendo.

- Esqueceu de perguntar se eu aceitaria.

- E nem precisa. - disparou a vidente, fazendo que não com a cabeça. - Já vejo a resposta nos seus olhos demoníacos. Acredita que Abamanu me queira para fazer de mim o que bem entender só por eu ser sua profetisa neste mundo que ele escolheu para iniciar seu novo reinado. Ainda custo a aceitar como pode ser tão cego... mas se é assim que deve ser, então assim será. - afirmou ela, com ar decidido.

Michael respirou fundo, prevendo as possibilidades e as implicações caso for flexível àquele plano. Soltara lentamente o ar dos pulmões sem desgrudar os olhos de Alexia.

- Não pensem que sou tão ingênuo. - disse ele, o tom torando-se grave. - Não vou ceder. Vocês tem um trunfo, é claro que não vieram aqui sem bolar um estratagema.

- O que o faz pensar nisso? - perguntou Alexia, a voz ficando um tanto trêmula. "Essa não, Charlie.".

O Grão-Mestre dera uma risadinha.

- O nosso ex-informante revelou os nomes de cada um de vocês. - inclinou a cabeça para um lado, espiando por detrás de Adam e Êmina. - São sete, ao todo. Estão presentes somente seis. - olhou para cada um deles desafiador. - Onde está o mago do tempo?

A pergunta fez Alexia sentir um calafrio tremendo percorrer-lhe o corpo inteiro. Hector e Rosie estremeceram, eriçados. O trio da Legião de Caçadores fora pego desprevenido, passando a olhar Michael com mais revolta.

- Muito bem, pelo visto eu consegui faze-los reféns esta noite. - disse ele, sorrindo presunçosamente. - Eis a condição: A profetisa se entrega, mas para deixa-los passar terão que me dizer onde está o mago do tempo. Aliás, para qual direção ele foi. - avisou, o tom autoritário.

Rosie, Hector, Alexia e Adam se entreolharam nervosos. "Esse maldito é mais esperto do que pensávamos!", pensou o corpulento caçador, possesso de aflição. Lester recuou alguns passos, descendo alguns "degraus" da pedra do morro, alerta e empunhando o fuzil. Um longo silêncio arrebatador se fez naquele espaço, deixando como som ativo apenas o ressoar da gélida brisa noturna.

Justamente, a pessoa mais improvável quebrara o emudecimento sufocante.

Êmina estourara de impaciência. Resistiu até o seu limite. "Acho que bati meu recorde do ano.". A caçadora pôs uma mão na pedra atrás dela, o olhar faiscando.

- Foi mal fanático, mas não essa condição não vai rolar! - disse ela firmemente pressionando sua mão contra a pedra... especificamente num círculo de transmutação desenhado alguns minutos atrás. - Digamos que estamos com um pouco de pressa. - sorrira, por fim, quando uma luz azulada brilhou atrás de seu braço esquerdo.

Pegando os assassinos de surpresa e desatentos, a pedra se materializara, alquimicamente, em um enorme punho rochoso cerrado. Um deles gritou de horror aterrorizado com o gigante braço de pedra que emergiu contra seus companheiros. Os atingidos, de imediato, atiraram contra o "soco pedregoso", mas foram rapidamente acertados e arremessados morro abaixo com as metralhadoras disparando contra o ar. Aproveitando aquela primorosa deixa, Adam, Hector e Êmina finalmente sacaram suas armas. Os Red Wolfs investiram com violência, muitos deles pulando as rochas do morro e atirando a esmo por todos os lados, eufóricos e ensandecidos.

- Minguante, Nova, Cheia, Crescente: Avancem! - ordenara Michael aos berros correndo para se esconder.

Hector se esquivara de inúmeros tiros girando o corpo diversas vezes por entre as rochas, focando-se em Michael, que naquele instante descia um parte perigosa do morro às pressas. Atirou com suas pistolas, estando escondido, em três assassinos e em seguida correra no meio do fogo cruzado atrás do Grão-mestre usando as altas rochas como escudo. Sentira Rosie o seguindo.

No entanto, a jovem se viu parada por dois pesos que a interceptaram. Dois corpos pularam em cima dela, fazendo-a cair no chão. Num movimento veloz, Rosie usou duas adagas para perfurar os rostos dos homens, acertando-os nos olhos de ambos lados. Gritaram de dor. A jovem se levantou e chutou as duas metralhadoras das mãos dos malfeitores. Outro irrompeu por uma brecha entre duas rochas atirando desesperadamente e gritando.

Rosie se esquivou das balas com rapidez pulando por várias rochas com a ponta dos pés até acertar, com um chute, o rosto do homem insano que tentara mata-la. Outro Red Wolf veio por trás carregando a arma e ela sentiu o gelado cano bem na sua nuca.

Paralisada, não visualizou outra escolha... a não ser puxar, discretamente, uma adaga de seu cinto. Numa fração de segundos, girando o corpo para ficar de frente ao homem, Rosie lançara a adaga contra o rosto dele atingindo sua testa. A metralhadora, contudo, não disparou. Não estava totalmente destravada. Caíra no chão, a testa jorrando sangue.

- Hector!! - gritara ela, voltando a correr na direção em que o caçador havia seguido.

Adam e Alexia corriam em disparada sem parada para reaver fôlego. Estavam em um ponto menos íngreme do morro, passando por várias e várias rochas espalhadas e próximas demais umas das outras, sem um rumo definido. O caçador, no instante em que o "alarme" foi soado, pegara o corpo de Alexia e o colara ao seu enquanto disparava com sua pistola de 90mm em vários Red Wolf,s que revidavam com toda a vontade.

Por sorte, nenhuma bala os atingiu e, agora, estavam escapando, desesperados. "Preciso melhorar minha mira, só consegui acertar uns três!", pensou, insatisfeito. Mais tiros foram dados nas rochas próximas á eles. Ouviam passos apressados perseguindo-os. Alexia sentia-se em um apertado labirinto de pedras interminável. O pânico estava estampado em sua face e seu coração aparentava querer ser vomitado.

Adam, de repente, estacou, encostando-se numa rocha, segurando Alexia pela cintura. Pôs o indicador nos lábios pedindo silêncio.

- Shhh. - esgueirou os olhos pela lateral da pedra, a arma em riste.

"Ele deveria estar olhando para todos os lados!", pensou Alexia, aflita e ofegante. "Não tem como saber de onde eles vão vir! Foi um erro termos vindo direto pra cá!".

- Adam... - gaguejou ela, sussurrando.

De repente, tiros inesperados atingiram a lateral por onde o caçador olhava. Adam escondeu o rosto no exato momento e voltou a correr, agora enveredando por outro caminho. Na metade do "labirinto" deparou-se com dois Red Wolfs pulando as rochas mais altas, atirando a esmo. Pôs Alexia por trás empurrando-a e sacou, com enorme força de vontade, suas duas metralhadoras. "Hora de usar estas meninas malvadas!". Atirou por todos os lados, derrubando-os facilmente. Mais quatro vieram pela sua direita, prontos para disparar.

Sendo mais rápido, Adam dera um pulo para um lado e, em câmera lenta, mirou as duas armas nos quatro indivíduos, logo atirando sem se preocupar com a quantidade de munição gasta. Seus ombros chocaram-se contra o chão com violência e ele deslizou fazendo poeira. Os assassinos haviam revidado, mas caído na mesma hora, manchando as pedras com seus sangues.

Alexia correra até ele, alarmada de preocupação. Seu desespero só aumentou assim que enxergou um tom de vermelho na camisa branca do caçador.

- Adam! - gritou ela, ajoelhando-se para ajuda-lo. - Você... está sangrando! - exclamou, visualizando a ferida na lateral do corpo de Adam.

- Tudo bem, Alexia, tudo bem, não foi nada demais!- disse ele, tentando se levantar, mas gemendo de dor. - Eu... Argh! - cerrou os dentes e os olhos, não aguentando.

- Ai meu deus... - afligiu-se ela, olhando para todos os lados. - E agora? O que eu faço? Se vir mais deles...

- Pressione! - disse ele, interrompendo-a. - Com as duas mãos...

- Ah sim! Estancar a hemorragia! - percebeu Alexia, logo pondo as duas mãos contra a ferida aberta com o máximo de cautela. - Fica calmo.

- Olha quem fala. - disse ele, rindo apesar da dor insuportável que sentia. - Você aí desesperada e me pedindo pra ficar calmo?

- Cale-se. - pediu ela, com mais seriedade agora. - Tenho que terminar isso logo... podem nos achar.

- Fique tranquila. - garantiu Adam, olhando rapidamente para os lados. - Ao que parece... Lester e Êmina estão cuidando da maior parte deles sem problemas. - podia ouvir com clareza os abafados ruídos das transmutações de Êmina ocorrendo em sequências nunca antes feitas.

- Como você sabe?

- Não escuto mais passos na nossa direção. E os tiros estão bem distantes. - ele arfava constantemente. - Está indo bem, continue. Se Rosie e Hector, ou Êmina e Lester, conseguirem atraí-los para longe, vamos ganhar tempo para ficarmos em segurança por enquanto.

- Mas e Charlie? Como acha que ele está se saindo? - perguntou Alexia, não escondendo suas más expectativas para a árdua e perigosa missão do rapaz.

Adam sorriu timidamente para ela.

- Confio na esperteza dele. Ele vai conseguir. - disse ele, esperançoso.

                                                                                   ***

O topo parecia se afastar à medida que se subia com mais dificuldade ainda por aquele morro. Charlie sentia seu corpo inclinar-se para trás vertiginosamente, uma dor em sua coluna lhe impedindo de continuar a quase escalada. "Esse esforço precisa valer a pena.". Segurava nas pedras irregulares que se sucediam ao passo em que ia subindo mais depressa. "Não olhe para baixo". A arma secreta abrigava-se em um dos bolsos de sua calça marrom. Teve a impressão de senti-lo brilhar por uns instantes, como se tivesse ganhado vida própria e querendo alcançar de uma vez por todas o seu alvo.

O suor que antes eram só gotículas ínfimas agora derramava-se pelo rosto e corpo em demasia. Aquele, definitivamente, era o conjunto de morros mais sofrível de se subir. Se queixava da lentidão a cada dois minutos. "Mollock pode estar a vários quilômetros de distância do templo... mas ainda assim é altamente perigoso relaxar e se desatentar.", pensou ele, olhando fixamente para o topo.

Enfim, chegara. Suas mãos sujas de terra úmida finalmente haviam tocado o rochoso topo do morro. Deixara apenas metade do corpo visível, o vento frio soprando por seu cabelo castanho. Sentiu calafrios instantâneos. Semi-cerrou os olhos na tentativa de enxergar à distância algum ponto "estranho". Tudo o que viu foram apenas pilares e blocos de mármore cinza espalhados por toda parte. Sem sucesso, pegara o binóculo para visualizar melhor todos os cantos de seu campo de visão.

Ficara embasbacado com o que assistia. "Mas o que... O que houve, afinal?", pensou ele, sem entender.

"Mollock... está sozinho!?". Aparentemente, o rei dispensara seu exército por tempo indeterminado e não se sabia para onde.

"Isso não é nada bom.". Baixou o binóculo e voltou a encarar o "deserto".

O Templo de Mitra ainda estava a implacável distância, tendo somente sua silhueta à vista e um tanto disforme daquele ponto de onde Charlie estava. "É óbvio que ele está muito longe, mas... Duas coisas me intrigam: Por que ele decidiu caminhar sem seu exército? E por que está andando tão tranquilo como se nada fosse o impedir?". Franzira o cenho, desconfiado.

"Alerte-se, Charlie.", disse a si mesmo. "Uma emboscada pode ter sido armada de última hora.".

Descera cautelosamente a parte íngreme do morro, sem produzir um único ruído.

                                                                                     ***

A desesperada correria de Hector por aquela trilha estreita e "emparedada" por rochas, que tornavam-se mais altas a cada passo, parecia não ter fim. "Michael, seu maldito, onde você se enfiou?!". A pulsação acelerada aliada à profunda raiva do ex-amigo colocava seu sangue em constante ebulição, o coração bombeando como se alguém estivesse batendo um tambor. Ao sair por uma abertura mais espaçosa por entre as pedras, olhou para ambos os lados... afastou os lisos cabelos da testa com as duas mãos, preocupado com a possibilidade de estar preso em uma armadilha ou ter perdido Michael de vista definitivamente. Seu semblante era de tensão genuína.

Contudo, uma sensação o fez acalmar seus nervos. Uma concentração sem tamanho capacitou seus ouvidos de modo a faze-lo focar-se em somente um elemento: o farfalhar incessante de uma vestimenta a quilômetros dali... constatando não estar tão distante como se percebia sem aquela sensação repentina... "Michael? Espera... Estou ouvindo seus passos... mas...", pensou o caçador, confuso por se sentir daquela forma. Ao que tudo indicava, fora acometido por uma espécie de audição a longo alcance que surgira sem aviso e o espantara de imediato.

Obedecendo ao instinto, o caçador correra na direção pela qual seus ouvidos indicavam, seguindo o barulho. A surpresa havia dado lugar a uma rápida adaptação àquele sentido aprimorado. Agora estava correndo mais velozmente do que o normal, praticamente facilitando-o a saltar alguns metros. No entanto, ignorou tal proeza, deixando sua mente e atenção serem preenchidas pela figura odiosa de Michael.

                                                                                      ***

Michael tropeçara em um pequena pedra ao se desatentar quando olhara para trás. "Merda!", pensou, enquanto caía no chão.

Rolou por duas vezes no solo arejado. Os ruídos de tiros ainda ecoavam baixinho pelo espaço, longínquos, beirando ao inaudível. Se levantara, tirando a areia fina ao limpar sua túnica.

"Parece que me encontro fora da zona de perigo.". Segundos depois, tal pensamento se tornara um frustrante e ledo engano.

A sola de uma bota preta veio de encontro ao seu rosto, bem na sua bochecha. Um chute dado com extrema precisão que o fizera sair do chão e voar alguns poucos metros, quase batendo a cabeça numa rocha. O corpo de Michael se retesou e ele pôde, rapidamente, ver o responsável pelo golpe que o pegou despreparado. "Maldição!"

A silhueta de um homem alto, moderadamente truculento e com um sobretudo fazia-se reluzir à luz do luar dando-lhe um aspecto quase fantasmagórico. Estava parado diante dele... não se via seus olhos com clareza, mas Michael sentiu que fumegavam de ódio.

O Grã-Mestre se levantou e deu alguns poucos passos à frente, cambaleando. Sorriu cinicamente ao ver o semblante enraivecido de Hector.

- Nós dois somos fugitivos, meu velho amigo. - disse Michael.

- Não... - disse Hector, se aproximando com ameaça - ... me chame... de amigo! - vociferou, logo avançando contra Michael o pegando pela túnica com as duas mãos e o jogando contra o chão com violência.

Michael desatou a rir com escárnio.

- E eu que pensava que resolveríamos isto como adultos, como estou decepcionado! - zombou ele, se levantando. Virou o rosto para Hector convertendo sua expressão em seriedade. - Acha que vai escapar do destino cruel que lhe foi reservado?

- Não faço a menor ideia do que está dizendo. - disse Hector, tentando impor uma calma impossível a si mesmo, logo desferindo um potente soco em Michael.

O caçador tentou novamente ataca-lo, mas o Grão-Mestre se defendera com o antebraço, "prendendo" o do outro. Ambos trocaram olhares enfezados, competitivos.

Michael aproveitara a chance e revidou com um soco e, em seguida, um chute no abdômen de Hector. Uma joelhada no queixo do caçador quase quebrara os ossos de ambos. Depois, Michael agarrara seus cabelos e o conduziu até uma rocha, colocando suas costas contra ela.

Tentou apertar o pescoço de Hector, intencionando estrangula-lo. O caçador rangeu os dentes e se debateu tentando se desvencilhar.

De sua manga direita saíra uma faca com um cabo dourado e que logo apontara para Hector, ameaçando perfurar um de seus olhos.

O caçador mal conseguia respirar com aquela pesada mão quase o enforcando. Balbuciava palavras ininteligíveis enquanto fitava o algoz com fúria extrema, as veias de sua testa em relevo e quase saltando para fora. Michael, por outro lado, sorriu de modo presunçoso.

- Naquele momento eu estava sendo complacente demais com você, Hector! Agora sentirá a verdadeira dor por ter nos traído! - esbravejou ele, a ponta da faca brilhando ameaçadora. - Os seus amigos... eles tem o direito de saber! Você seria libertado da mentira saindo ileso da situação, mas agora vejo que você merece ser torturado pela verdade. O passado em que você viveu guardando seu segredo irá atormenta-lo para sempre! - vociferou Michael, apertando o pescoço de Hector com mais força.

No exato instante em que o Grão-Mestre inclinava a lâmina diretamente para o olho esquerdo de Hector, pronto para dilacerar o tecido ocular... o caçador, por frações de segundos, ouvira um zumbido que aumentava de volume até tornar-se ensurdecedor. Ao invés de queixar-se da dor lancinante em seus tímpanos, ele sorrira por ter ciência do que realmente era. Repentinamente, um risco brilhante cortou o ar velozmente, atingindo a adaga de Michael soltando-a de suas mãos. O Grã-Mestre logo se afastara dando um rápido grito de susto, sacudindo, freneticamente, a mão direita dormente, como se tivesse levado um choque elétrico.

A adaga cravou com barulho numa rocha. Já a outra... cravara-se no chão e passou a ser reconhecida por Hector logo quando o mesmo virou o rosto, livre do estrangulamento, para a sua direita. Sorriu discretamente e voltou-se para o outro lado... visualizando uma figura voluptuosa e feminina se aproximar com determinação.

Michael grunhira de raiva, fuzilando Rosie com o olhar.

- Chegou em boa hora, filha do herege. - provocou ele, relanceando Hector e recuando lentamente. -Permita-me elogia-la pela precisão para lançar objetos cortantes, confesso que estou surpreso.

- Guarde os elogios para si mesmo, não precisa admira-la, apenas senti-la. - redarguiu Rosie, caminhando em direção à ele, desafiante.

- Quem a ensinou este truque? Hector? - perguntou, olhando para Hector novamente. - Eu iria fazer um favor à você.

- Ah, é mesmo? - indagou Rosie, soando irônica. - O quê, afinal? Mata-lo a sangue frio? Acha que isso aliviaria a minha dor ou o seu ódio? - perguntara ela, o tom de voz ríspido.

Michael dera uma risada espalhafatosa e assustadora. Hector o olhou horrorizado, como se o ex-amigo houvesse perdido a sanidade.

- Você realmente é tão ingênua assim?! - zombara ele, sorrindo maliciosamente. - Se tenho os recursos para fazer Hector pagar pelo que fez, com certeza eu não pensaria na sua frustração. Afinal de contas, fazendo isso eu estaria me opondo aos preceitos da irmandade. Eu o mataria pela minha própria satisfação. - passou a fita-la incisivamente. - Você, claramente, perdoou a traição como se não tivesse sentido nada. Ninguém sai sem se ferir após uma traição. Ela pode vir de quem você menos espera e todos os outros sofrem as consequências! Então, pare de fingir que não está ressentida e admita que se sente como uma marionete manipulada durante todo...

- Cala a boca!! - explodiu Hector, avançando contra ele exalando uma fúria incomum.

Michael aproveitara que estava próximo o suficiente da rocha onde estava cravada a adaga, e a pegara de volta em um rápido movimento ao atacar Hector. O caçador se defendera segurando a lâmina, sentindo o extremo fio de corte atravessar a palma de sua mão. Dera uma cabeçada contra o nariz de Michael, fazendo-o soltar a arma e cair no chão. Hector chutara-a para longe, mas, nesse breve tempo, Michael abraçou a deixa e prendeu as pernas do caçador usando as suas. Praticamente perdendo o equilíbrio, Hector sentiu que seria derrubado com um golpe, os ligamentos de seus joelhos e canelas ficando doloridos tamanha era a força aplicada. Rosie pegara a adaga e a cravara na perna direita de Michael.

Se libertando, Hector tapou os ouvidos devido ao urro de dor do Grão-Mestre. "Mas o que está havendo? É como se uma infinidade de sons... estivesse me matando aos poucos!", pensou ele, pressionando as mãos contras as orelhas não suportando a dor.

Michael se apoiou numa rocha tentando se levantar. Ao se ajoelhar, sentiu o grosso bico da bota de Rosie acertar seu queixo brutalmente. Se vendo novamente caído, ele arfou quase sem fôlego.

Rosie viu que ele insistia em se reerguer. Como medida desesperada, chutou uma boa quantidade de areia fina diretamente nos olhos de Michael. O homem gritara novamente com as mãos no rosto.

- Sua maldita! Vadia! Aaaaaahhh!!! - berrou ele, se contorcendo de ardência nos olhos.

Rosie se pusera acima dele, apertando seu tórax com os joelhos e prendendo seus braços com as mãos utilizando toda a força que acumulara em seus músculos. Mordia os lábios constantemente, tentando faze-lo ficar parado. "Anda! Fique quieto, seu idiota!".

Hector assistia à cena com angústia nos olhos. "Rosie... O que pretende?", pensou, temeroso com a possibilidade da jovem tentar mata-lo. A dor havia sumido de instantâneo e ele se aproximou lentamente.

Michael aquietara-se, com os olhos fechados e respirando pesadamente.

- Vamos, ande logo com isso! Me mate!

- Não. - disse ela, com frieza na voz. - Primeiro vai nos dizer para qual direção Mollock foi.

- Eu possuo a autoridade máxima aqui, por enquanto. - disse Michael, gabando-se. - Portanto, vocês primeiro: Onde estão a profetisa e o mago do tempo?

Torturando-o, Rosie pressionara ainda mais seus joelhos contra o torso do Grã-Mestre, que respondeu com um gemido fraco em resistência.

- Vai precisar mais do que isso... se quiser obter a informação que deseja. - rangera os dentes, apertando os olhos fechados. - Você perdoou Hector. Como pôde?

- Eu não o perdoei. - respondeu Rosie, franzindo o cenho. - Só estamos unidos agora por termos um objetivo em comum. Vamos seguir nossas vidas separados como se nunca tivéssemos nos conhecido, isso depois de impedirmos Mollock...

- Vocês impedirem!? - questionou Michael, com incredulidade na voz. - Fujam daqui e vão se tratar em um sanatório porque estão precisando! O pupilo de nosso senhor é imbatível. - "Apesar de descaradamente ter me enganado!".

Hector chegara até ambos, interveniente.

- Diz o homem que perdeu seu exército em combate.

- O quê? - disse Michael, virando o rosto na direção da voz do caçador. - Não diga besteiras!

- Sim, é verdade, Michael. - afirmou Hector, com firmeza. - Seus homens caíram. Não ouço mais tiros. Talvez restaram poucos e tiveram suas armas neutralizadas.

- Chega de enrolar. - disse Rosie, denotando impaciência. - Para qual direção Mollock foi?

Embora incapacitado de movimentar os membros superiores e inferiores, Michael acenou rapidamente com o indicador esquerdo, apontando para a direção. Rosie seguiu com os olhos o caminho apresentado. O morro subia mais alguns metros.

- Muito bem. Obrigada pela cooperação. - disse Rosie, se preparando para se levantar.

No entanto, Hector a repreendera, demonstrando que o interrogatório ainda não havia encerrado-se.

- O filho de Robert Loub... Onde ele está? - perguntou Hector, severo, se agachando ao lado dele.

- Max se foi. - disparou Michael, com pressa.

- O quê!? - exclamaram Rosie Hector em uníssono, as expressões de espanto.

- Sim, ele morreu... merecia morrer por sua insurgência.

- Você o matou? - perguntou Hector, revoltado.

- Não. - disse Michael, dando uma risadinha. - Um Mestre jamais suja suas mãos com sangue impuro. Dwayne fez isso por mim, discretamente.

"Dwayne Nevill!", pensou Hector, estupefato. "Então... o filho de Loub era contrário às ideologias dos Red Wolfs. Talvez Mollock tenha revelado à Michael sobre a morte de Loub... cometida por mim. Sim, isto é certo, e Michael repassou para Max que, de alguma forma, se rebelou e acabou vítima de uma armadilha.".

- Ele sabe o nome do assassino de seu pai. - dizia Michael, sentindo a presença de Hector. - Só foi uma pena ão feito o retrato falado do sujeito... Mas o que ele ouviu foi o suficiente.

Rosie voltou-se para Hector lentamente, até encara-lo. Virou-se para Michael em seguida.

- Como Dwayne o matou? - perguntou ela, apertando cada vez mais forte os braços do Grã-Mestre.

- Muito simples. Uma pequena passagem por Max, depois um afago no ombro... com um "Ferrão de Vespa" penetrado na veia atravessando o tecido do manto. - contou Michael, com certo orgulho.

Rosie fizera cara de confusa ao olhar para Hector.

- Ferrão de Vespa? Mas o veneno da vespa não é neutralizado quando se tira o ferrão dela? - perguntou a jovem, olhando para ambos.

- É verdade. - confirmou Hector. - Mas não é desse ferrão que Michael está falando. Ele se refere a uma antiga forma das bruxas do século XIX em liquidar seus alvos sem estardalhaço.

O denominado "Ferrão de Vespa" era uma arma letalmente implacável para quem quisesse se livrar de um inimigo sem quaisquer grandes esforços. Uma garra, semelhante a uma de uma águia, folheada a ouro, cuja ponta possuía um diminuto furo de onde saía o líquido venenoso para ser injetado na corrente sanguínea. Cabia perfeitamente no dedo indicador e não levantaria suspeitas pelos mais leigos, já que tal artefato mortífero e sua utilidade somente eram discutidos em reuniões secretas de Covens de bruxas espalhados em toda a Europa. Quando adquiriu o Goétia, Michael brincara consigo mesmo ao dizer que o "Ferrão de vespa" viera-lhe de brinde em das páginas. Comprara-o de uma velha vendedora, obviamente veterana no maior e mais longevo Coven de todo o país.

Rosie escutava com atenção o breve resumo de Hector sobre o tal objeto. Voltou-se para Michael, encarando-o com ojeriza.

- Você planejou isso, não foi?

- Mais uma pergunta desnecessária para faze-los perder tempo. - disse Michael, querendo abrir os olhos. - É melhor irem logo, mas quero que saibam de um coisa: Quando estive perto do pupilo senti uma tremenda energia irradiando pelo espaço... não era visível, mas era incomum... poderosa e bestial. Ele está perto, meus amigos, muito perto de conquistar a ascensão.

Rosie e Hector entreolharam-se bastante sérios.

- Sei muito bem - prosseguiu Michael. - que o seu mago do tempo é a carta coringa de vocês. - ele rira com zombaria. - Posso garanti-los de que nada do que tentem irá funcionar. O poder que ele emana só irá aumentar exponencialmente quando nosso senhor, Abamanu, se apoderar de seu corpo. - fez uma pausa, inspirando - E quando a profecia se cumprir por definitivo... eu vou aplaudir de pé, mesmo que sem meus irmãos ao meu lado, a decadência de vocês... resumida a corpos caídos no chão!

Em um ato de pura segurança, Rosie socara o rosto de Michael, fazendo-o, no mesmo instante, perder a consciência.

A jovem, visivelmente exausta, levantara-se fitando o corpo desmaiado do Grão-Mestre. Hector a olhara impressionando, arqueando as sobrancelhas.

- Desde quando sabe dar socos para deixar vítimas inconscientes?

- Desde que Êmina me treinou, há dois meses. - respondeu ela, baixando o capuz para passar as mãos pelos cabelos pretos lisos e ondulados. - Chega de conversa, temos que ir. - pôs novamente o manto sobre a cabeça e correra até a subida ao morro.

Hector relanceou por um segundo o corpo de Michael caído e acompanhar Rosie também correndo em disparada. Ambos irrompiam por entre as rochas em uma frenética corrida para chegar até Mollock.

                                                                                     ***

Os grunhidos de dor proferidos por Adam deixavam Alexia apavorada a cada minuto que se passava. Estava calmamente envolvendo a cintura do caçador com ataduras. "Aguente firme, Adam. Vai passar.". Um círculo vermelho podia-se ver na lateral direita do corpo, região onde se encontravam os rins. "Quando removi a bala pude sentir que não afetou nenhum órgão, nem o rim ou o apêndice.".

- Alexia... - gaguejava ele, a voz embargada de dor. - Já pode parar. Agradeço o apoio e toda a preocupação, mas já estou bem. - garantiu ele, erguendo levemente a grossa mão.

- Não está não. - retrucou ela, discordante. - Preciso leva-lo a um lugar seguro...

- Não, Alexia. - recusou Adam, engrossando o tom. - Você mal aguentaria meu peso, iria cair no primeiro passo. - disse ele, com um pontada de riso.

Percebendo o tom cômico que o caçador atribuíra a resposta, a vidente tornou a sorrir, envergonhada e quase tornando a rir também.

- Tem mesmo certeza de que consegue ao menos andar?

- Absoluta, eu juro. - afirmou ele, fazendo que sim com a cabeça. - Mas seria bem-vinda uma ajudinha pra levantar. - disse, desatando a rir.

- Tudo bem... - aquiesceu ela, estendendo os braços para tira-lo do chão. - Vamos lá. No 3. Um... - agarrou os antebraços robustos do caçador com firmeza. - .... dois... três! - e, por fim, levantara-o com um arranco, quase fazendo-a cair para trás.

Vendo que Alexia perdera o equilíbrio, Adam a puxara de volta antes mesmo que caísse segurando-a pela cintura. Os corpos de ambos ficaram colados... e seus rostos logo se enrubesceram.

Com os pés firmes no chão, Adam a soltara de imediato, suspirando de alívio.

- Ahn... obrigada?! - disse Alexia, incerta sobre o agradecimento.

Adam sorrira.

- Tudo bem. Estamos quites.

Olharam para a esquerda, escutando os incessantes barulhos de transmutações, intercalados por tiros. Após alguns segundos de reflexão sobre se deveriam voltar ou não a seguir, entreolharam-se no mesmo momento.

- Precisamos chegar até Êmina e Lester. Ouça... os sons estão se distanciando... talvez tenham conseguido ultrapassar o topo do morro.

- Tem razão. - disse Alexia, apurando a audição. - Mas com você nessas condições, nunca vam...

- Não, fique tranquila. - disse, pondo uma mão no ombro dela. - Meu corpo é resistente, os pontos não vão romper. Além disso, eu tenho um sinalizador aqui comigo, posso usa-lo para chamar a atenção dos Red Wolfs ou para avisar Lester e Êmina de que estamos vivos. OK?

Alexia acenou com um "sim", a expressão séria e determinada.

- É isso aí, vamos. - disse Adam, tornando a correr sem dificuldades, para a surpresa da vidente.

                                                                                    ***

Sob os pilares decadentes, frios e rachados, um dos assassinos corria aflitivamente pelos arredores, sem decidir exatamente qual rumo tomar, olhando para trás a cada um minuto. Em um instante de pura distração e temor, esbarrara com força em uma fonte. Quase caíra dentro, segurando-se firme na borda, sentindo com as mãos o mármore gelado e uma lufada de ar frio bem no meio do rosto cheio de cicatrizes.

A fonte parecera tomar conta de boa parte do espaço a sua frente. Desesperado, olhou em volta e só enxergou pilares, alguns caídos e outros erguidos e ladeados estreitamente, onde nenhum corpo humano, por mais magro e esguio que fosse, não passaria. "Completamente sem saída! Puta merda!", praguejara mentalmente, com as mãos na cabeça.

Um ruído de arma de fogo sendo carregada ressoou bem próximo de seus ouvidos. Virou-se para trás lentamente... deparando-se com uma figura que ele julgara indesejável. "Só pode ser brincadeira!"

O cano de um fuzil AK-47 estava alvejando-o diretamente na cabeça.

O homem ficara paralisado, seu sangue havia gelado, o suor esfriado. "Só há uma saída.".

Os passos do atirador foram se aproximando... até que homem resolvera tomar uma atitude extrema. Olhava para a arma e para o rosto de seu proprietário.

Tirado de sua manga, um revólver calibre 38 se revelara inesperadamente.

O homem mal percebeu o que havia feito tamanha era a rapidez com a qual havia feito.Apontou o cano do revólver para sua cabeça... tomado pelo descontrole emocional. "Só há uma pessoa nesse mundo que é digna de me matar!"

Seu dedo apertando o gatilho foi um movimento quase automático. O estampido ecoou pelo espaço.

Uma cachoeira de sangue jorrou em abundância aliada ao impacto da bala na cabeça do homem, havia transpassado seu cérebro.

Caíra de lado, a cabeça baleada afundando em uma densa poça de sangue. Trevor Sincoln se suicidara. O mesmo homem que era forte candidato a braço direito de Michael.

A figura que se aproximava de seu corpo parecia demonstrar um semblante de tristeza.

Lester foi tomado por uma angústia terrível ao olhar o corpo do assassino jazido.

- Poxa... Você roubou minha cena, cara. - disse ele, franzindo os lábios.

Assim que se preparava para sair dali, o caçador estremecera ao vislumbrar um avermelhado ponto luminoso emergir no horizonte. Reconheceu a fumaça que saía por baixo e seu peito se inflou de esperança. "Com certeza não é Charlie, mas só há uma pessoa na Legião que consegue lançar um sinalizador melhor do que eu: Adam!", pensou ele, correndo na direção do sinal brilhante.

                                                                                  ***

Após uma corrida que durara 10 minutos, Lester, finalmente, conseguira alcançar Adam, Alexia e Êmina, se juntando á eles sem cessar a correria. Agora suas pernas se movimentavam a toda velocidade para a direita, atravessando obstáculos - escombros de pilares largados e alguns até empilhados -, enquanto Êmina carregava a bazuca sem reclamar do peso ao mesmo tempo em que corria na frente, enfrentando o vento frio que penetrava na sua pele branca, nas bochechas coradas e nos lábios carnudos. "Nada pode nos barrar agora! É tudo ou nada!"

Adam lhe contara no caminho sobre o acidente que sofrera e como Alexia lhe foi importante. A vidente ainda o fitava orgulhosa, embora o mesmo estivesse correndo na sua frente e ela atrás. "Adam, eu havia esquecido de te agradecer por ter me convencido de que fui útil nessa missão.", pensou ela, os olhos marejados de emoção. Seus cabelos ruivos esvoaçavam ao vento enquanto corria e passava pelos blocos de mármore.

Lester agora corria lado a lado à alquimista. Sua preocupação agora estava focada em Charlie.

- Algum sinal do Charlie? - perguntou ele, ao pular um pedaço de um pilar.

- Nada ainda, infelizmente. - respondeu Êmina, o tom de emergência. - Não podemos se esquecer de Rosie e Hector! Viu eles?

- Nadica. - disse Lester. - Tomaram chá de sumiço.

- Talvez podem estar do outro lado! - deduziu Adam, otimista. - Desde que o tiroteio começou, não vi mais eles!

- Ah, essa não. - disse Êmina, desalentada e preocupada com ambos.

- Provavelmente, Charlie ainda não decidiu uma distância precisa de onde possa lançar o selo ou sinalizador! - disse Lester, suas pernas já indicando cansaço.

- Mas ele tinha que lançar o sinalizador assim que alcançasse o topo do morro! - acrescentou Êmina.

- Foi exatamente isso que expliquei pra ele! - afirmou o caçador estrategista, inconformado. - Não pode ser, cacete! Disse tudo sobre o plano e agora parece que esqueceu!

- Charlie tem memória eidética, só pra constar! - informou Alexia para Lester. - Ele jamais se esqueceria de algo tão importante, eu juro!

- Vamos descobrir assim que chegarmos lá! - retrucou Lester, impaciente e ansioso.

- Êmina! - chamou Adam, correndo por trás dela. - Não vi explosão alguma. Por que não usou a bazuca para acabar com uma boa quantidade de Red Wolfs?

- Olha, eu pensei bem e decidi reservar o único tiro que trouxemos para quando estivermos frente à frente com Mollock! - disse ela, a fala rápida como um míssil.

- O quê!? - questionou Adam, em reprovação. - O que vocês tem na cabeça? Por que não pensaram sobre levar dois ou três projéteis? Um só tiro não acabaria com mais da metade deles, mas acabar com Mollock!? Sem chance!

- Não esperamos acabar com Mollock com um tiro só. - redarguiu Lester, convicto. - Êmina e eu planejamos usar isso como parte da distração enquanto o Charlie prepara o selo.

Adam parecera refletir sobre a questão, ficando alguns segundos em silêncio.

- Tudo bem, então. É bom que funcione. - aquiesceu ele.

                                                                                    ***

Rosie e Hector corriam por entre as colunas decrépitas, ziguezagueando para lados diferentes o tempo todo. Quando puderam chegar ao topo e descer a ladeira até as ruínas, tinham combinado um plano incerto e arriscado. A separação de ambos acarretaria a resultados imprevisíveis. Por um breve momento, Hector achava a ideia inaceitável por valorizar seu puro instinto protetor para com a parceira de caçada. Rosie, por outro lado, persistira sem relutância em avançar sozinha ao encontro de Mollock. Visando uma menor perda de tempo, Hector acabara cedendo à vontade. Discutir era a última coisa que ele queria naquela noite e, certamente, não era nada apropriado naquela hora.

Agora estavam como competidores em uma corrida de atletismo, sendo iluminados pelo luar intenso.

Sem aviso, Hector enveredara para outra direção, como se conhecesse um atalho, sendo que somente conhecia as Ruínas Cinzas nos livros e nenhum deles constava uma mapa detalhado para se memorizar. Rosie achou estranho, mas preferiu não diminuir o ritmo de suas pernas para parar e pensar a respeito. "Pelo menos volte vivo, por favor.", pensou, logo se dando do quanto se preocupava com o caçador, embora, se dissesse isso oralmente, não quisesse admitir.

Sua capa vermelha voava às correntes de vento gélido. Os olhos da jovem faiscavam de bravura.

                                                                                   ***

Minutos de corrida desenfreada passaram como segundos. Hector passara por uma casa de mármore semi-destruída, pulando as muretas, sem olhar para trás.

Entretanto, sua concentração em seguir em frente o mais rápido que podia foi abalada por um peso que desabou em cima de seu corpo. Tal peso tinha braços que insistiam em agarra-lo e mante-lo no chão. Os dois corpos rolaram pelo solo arejado, fazendo pequenas nuvens de poeira.

Hector havia pensado que um bloco de pedra de mármore tinha caído sobre ele de alguma coluna.

O homem que o assaltara baixou o capuz, revelando um homem de meia idade com mal penteados cabelos grisalhos e curtos. Tinha um olho cego e um sorriso amarelado.

Hector o encarou com raiva, preso por seus fortes braços.

- O que acha de brincarmos um pouco antes do espetáculo começar hein? - perguntou-lhe o homem, sorrindo ameaçadoramente.

                                                                                     ***

Aquela já poderia ser, sem nenhuma sombra de dúvida, a metade do caminho até o Templo de Mitra. Mollock continuava caminhando tranquilamente, cintilado pela Superlua estonteante no céu. "Paz ao meu lado... guerra no outro.". Percorria uma área mais espaçosa e com menos pilares.

Do outro lado, Charlie se metia em uma das pilhas de blocos maciços de mármore para se esconder, sentindo próximo o bastante para alvejar Mollock. Para sua felicidade, as palavras para se fazer o rito de selagem poderiam ser proferidas por qualquer idioma, sejam eles de origem humana ou extra-mundana. Olhou por uma brecha, com máxima discrição. "Aqui já está bom. É o limite mais preciso que consigo acreditar. É uma pena não terem chegado ainda, meus amigos.", pensou ele, lamentando pelo fato de algo crucial no plano ter dado errado. Inicialmente, a estratégia consistia em distrair Mollock no exato momento em que Charlie estaria preparando o selo de separação e pega-lo de surpresa. Ao que parecia, na realidade, teria de contar com uma sorte improvável. "O sucesso da prática nem sempre é o reflexo do sucesso da teoria.".

Queria dizer algo a si mesmo, mas se limitava apenas aos pensamentos em turbilhão... por enquanto.

"Chegou a hora."

Pôs-se de lado ao último bloco da fileira empilhada daquelas pedras, olhando com cautela para Mollock. Sacou do bolso o selo e o desdobrou... sem descravar o olhar apreensivo do monstro.

"E ele continua andando... sem desconfiar de nada. Está muito focado.".

Erguera o papel estreito e amarelado diante de si, segurando-o. Por fim, abriu a boca para recitar, em eficazes sussurros, o rito de selagem.

- Para a destruição de qualquer unificação indesejável, quebre, separe, rompa o elo vivente entre dois corpos que existem como um só. 

Os dois símbolos desenhados um abaixo do outro emitiram um brilho amarelado e tremeluzente. Charlie soltara o papel... que permaneceu flutuando em pelo ar.

O mago do tempo estendera a mão novamente, com máxima confiança. Deu um pequeno empurrão no selo.

O papel, literalmente, voou em linha reta na direção de Mollock com grande rapidez.

O rei sentira algo se aproximando como um animal selvagem prestes a abocanhar sua presa e virara-se abruptamente para ver o que era. Como que por instinto, abrira a boca para rugir... mas ao invés de um som gutural e animalesco, de sua boca saíram labaredas de fogo crescente, sendo cuspidas contra o selo que se pulverizava de cima à baixo, até não restar mais nenhum pedaço.

O selo se perdera. Aquele fogo fora tão poderoso que nem o transformara em pó... tinha-se a impressão de que fizera-o evaporar junto a fumaça.

Charlie esbugalhara os olhos e entrara em completo transe de estado de choque.

Seus pelos eriçaram-se. Se escondeu rapidamente, pondo-se de costas aos blocos. "Eu não posso acreditar! Mas... Não pode ser! Mollock simplesmente cuspiu fogo e destruiu o selo!? Como isso...?". Um oceano de dúvidas enchia sua mente. Sentia que o ar se perdeu. Ofegou baixinho, tomando fôlego, não se entregando ao nervosismo completo. "Respire, Charlie.".

Pensou ter sua vida por fio ao pensar que Mollock se aproximava para encontra-lo.

Foi quanto uma voz familiar soou como um verdadeiro sinal de esperança. Sua expressão se suavizou... e o rapaz passara a ver pela brecha quem era, por curiosidade. "Ah, finalmente".

Nem mesmo o próprio Mollock conseguia acreditar que fizera aquele movimento. Sua boca fumaçava de leve, e isto parecia não incomoda-lo. "Isso foi fogo? É! Isto é um sinal! Estou na direção correta!".

- Ei você, seu feioso! - gritou a autoritária voz feminina.

Virando-se lentamente a fim de ver quem o desafiara com aquele tom que lhe era inadmissível, Mollock mostrou paciência.

Seus amarelos e penetrantes olhos foram de encontro aos azuis fuzilantes de Rosie... que o encaravam a uma certa distância.

A jovem empunhava uma arma colossal de aspecto antigo. Uma espécie de "foice" com duas lâminas grossas e curvas dos dois lados, prendida em um cabo de ferro descascado. Encontrara-a perto dali e teorizou ser pertencente a algum povo da civilização que antes habitava as Ruínas Cinzas... muito antes do local ser denominado assim.

- Presumo que veio acompanhada daquele caçador medíocre. - disse Mollock, ficando totalmente frente à ela.

- Sim. - respondeu ela, fria. - Seus amigos humanos nos impediram de passar. Confesso que me sinto bem melhor pelo jogo ter virado. - sorrira com elegância. - Agora sou eu quem estabeleço o limite.

- Eu já esperava que algo assim acontecesse. - disse Mollock, relanceando os olhos para a direção de onde viera o selo. - Alguém armar uma emboscada contra mim... me por na palma da mão. Você sabe quem foi, não é? - tornou a andar alguns passos.

- Sei sim. - respondeu Rosie, examinando a lâmina da arma, parecendo esnobar a estatura de Mollock. - Mas, é claro, não espere que eu vá revelar quem seja.

- O que a torna tão confiante a ponto de nem sequer se surpreender com o que fiz ou o que sou?

- Hector me contou tudo sobre você. -  disse ela, voltando a encara-lo.

- Ele não sabe nada sobre mim. - retrucou o outro.

- Parte de você assassinou o pai dele. - disparou Rosie, sem aviso. - E eu entro nessa briga pela memória do meu pai, não só pela causa de Hector.

- Seu pai!? - Mollock demonstrou ceticismo. - O que seu pai tem a ver comigo? Aliás, quem é você, afinal?

- Meu pai era um Red Wolf. - disse Rosie, com um tom emotivo. - Ele morreu por causa de um ataque cardíaco. E estou disposta a fazer qualquer coisa para impedir que Abamanu e você triunfem juntos. - elevara a voz, intensificando-se.

- Agora vejo bem. Esse manto vermelho que veste lembra bastante os que aqueles humanos usavam... mas é diferente, apenas uma capa com um capuz. Que desagradável. - disse ele, com um olhar entendiado. - E quanto à Abamanu... Ele terá que deixar eu triunfar primeiro.

- Não se eu evitar. - ameaçou Rosie, dando passos à frente segurando firme a arma.

- Humana tola. Espera me atrasar com um simples lâmina? - indagou Mollock, também andando.

- Não, tenho uma ideia melhor. - disse Rosie, passando a caminhar a passos largos. - Que tal chutar o seu traseiro?

- Ótimo. - disse ele, sorrindo, mostrando as presas. - Façamos um teste!

Ambos passaram a correr, um na direção do outro, tal como dois mísseis prestes a colidirem e gerarem uma explosão arrasadora.

Era o prenúncio de um furioso embate entre o bem e o mal.


                                                                           CONTINUA...

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