domingo, 14 de setembro de 2014

O Intruso


Estou aqui... imerso neste silêncio que maltrata minha mente, alivia meu desespero mas piora meu estado de completa êxtase. Testando os limites da minha paciência, esse silêncio é o mal necessário para que as milhões de vozes que ecoam na minha cabeça se calem, pelo menos temporariamente.
Meio feliz pelos efeitos dos sedativos não estarem mais reagindo, por enquanto. Meio triste por ter desperdiçado tempo que eu gastaria se eu tivesse ignorado aquilo... bem, pra falar a verdade não existe "meio" nessa bagaça toda, estou, digamos que, uns noventa por cento deprimido. Mas deixando as dores que sinto agora um pouco de lado, quero lhe contar uma história... aconteceu há uns 6 meses atrás, mas lembro-me como se tivesse ocorrido ontem mesmo, e após conta-la saberás o porque de eu estar aqui. Sinto-me mas liberto neste momento, por não estar mais sendo sufocado por aquela droga que impossibilitava meus movimentos e dificultava minha respiração. Adorava minha família... queria saber todo o passado escondido por anos, as memórias felizes e tristes, enfim, absolutamente tudo.

Foi em um dia quente de verão, ainda estava de manhã, já havia tomado café e a falta do que fazer anunciava a chegada do tédio. Havia lembrado sobre minha extrema curiosidade em saber o passado da minha querida família, que foi diminuindo com o tempo, infelizmente. Fui no porão, pois era lá onde ficava um pequeno baú, e sabia que era lá que se encontrava o único álbum da família.
Deixei a porta encostada, eu achava aquele lugar sinistro, raras vezes entrava lá. Demorei cerca de cinco minutos para achar uma mísera chave e abrir aquela velharia que chama de baú. Quando abri, uma densa nuvem de poeira se lançou no ar, me fazendo espirrar inúmeras vezes. Depois que a poeira amenizou um pouco, dei de cara com o álbum de fotografias e o peguei sem pestanejar. Com um leve sorriso no rosto, abri aquele velho álbum e observei por bastante tempo fotos dos meus tataravôs, bisavôs e avôs. Muitos sorrisos eram vistos nas fotos, até aí tudo bem... no entanto, quando cheguei na parte dos anos 50, onde mostrava meus avôs jovens, reparei em uma coisa diferente, que não passa-se despercebida facilmente.

Em uma das fotos, a maior parte em preto e branco, meus avôs estavam lado a lado, sorrindo, na varanda da casa e próximos à uma mesa de madeira, mas algo mais estava presente e bem atrás deles. Deu pra ver um ser com chifres, parecidos com os de um touro, mais ou menos, entre os dois. Apenas deu pra ver os chifres. Nas fotos seguintes ele estava mais presente, e para o meu espanto ele mostrava metade de sua face, e finalmente vi seus olhos... bastante alvos, não pareciam ter pupila. Fiquei assustado, claro, afinal aquela coisa medonha estava entre meus avôs, e o mais estranho é que este ser macabro começou a aparecer nas fotos de 1950 à diante. Até mesmo nas fotos em que minha mãe me segura enquanto eu era recém-nascido aquele ser obscuro aparecia, e sempre atrás. As fotos mais coloridas foram aterradoras. De fato, ele tinha pele negra e seus chifres pareciam ser maiores e seu olhar mais maligno cada vez que a linha do tempo avançava quando eu virava as páginas.

Logo deduzi que aquela coisa passou a perseguir minha família a partir daquele ano. Mas o que realmente aconteceu? Será que quando as fotos foram reveladas ninguém as visualizava detalhadamente? Sei que muitas famílias escodem segredos ocultos, mas não esperava que a minha pudesse esconder tanto... ainda mais sendo algo tão amedrontador.

Para confirmar minha teoria, fui até o banheiro levando consigo meu celular. Tranquei a porta e acendi as luzes. Tirei um selfie próximo ao espelho e o resultado foi terrivelmente alertante. Após tirar a foto, conferi-a e advinha só: lá estava ele! Aqueles chifres - ainda maiores, por sinal -, aqueles olhos brancos e sua face cada vez mais visível bem atrás de mim, me fez sair daquele banheiro desesperadamente. Meu coração disparava, pois praticamente "voei" para a sala. Havia deixado meu celular caído no chão do banheiro e sequer tinha coragem de ir lá busca-lo.

Não era coincidência ou ilusão, eu estava sendo vigiado por algo cruel e monstruoso, e levando em conta o fato de alguns membros da família terem morrido misteriosamente no passado, torna a teoria ainda mais assustadora. Liguei para um de meus amigos, pois meu pai, naquele dia, havia saído e estava com o celular desligado. Passados uns vinte minutos, meu amigo chegou. Conversei com ele sobre o álbum. o suposto passado negro da minha família e o selfie sinistro que havia tirado. Ele, rindo da minha cara, foi até o banheiro buscar meu celular e não viu nada na foto além de mim com um sorriso forçado. Ele teve uma crise de riso e ficou tirando sarro de mim por me ver tão abismado e nervoso por nada. Eu já esperava que ele não fosse acreditar, mas era estranho... eu sei o que vi, e o que vi foi aquele monstro atrás de mim! Tapando um pouco meus olhos, peguei o celular e foquei somente no botão "Excluir". Feito isso, fechei a porta do banheiro e caminhei até a sala conversando com meu amigo. O telefone tocou e corri para atender, quase que derrubando a mesa onde ele ficava.

Era uma voz não reconhecida por mim, mas dizia ser um policial. Ele informou a trágica morte do meu pai em um acidente de carro e disse que um dos amigos da família estava com ele e sobreviveu, contando todos os detalhes. No entanto, o tal amigo morreu minutos depois de uma parada cardíaca, intrigando os policiais. Usei a bicicleta emprestada do meu amigo e fui até o local do acidente. Chegando lá, deparei-me com um fotógrafo fazendo inúmeros cliques em frente ao corpo estraçalhado do meu pai.
Depois de lamentar a perda daquele que cuidara de mim sozinho desde os 10 anos, perguntei ao fotógrafo se podia me oferecer uma cópia da foto do acidente. Ele aceitou e disse que ficariam prontas em 3 dias.

Durante os 3 dias liguei para vários dos meus amigos íntimos falando sobre o tal ser, porém, ninguém quis acreditar e me aconselharam a frequentar sessões de psicoterapia. Passei a odiar todos eles por demonstrarem negligência e incredulidade. Quando o grande dia finalmente chegou, o tal fotógrafo me entregou a cópia e saiu calado e meio cabisbaixo... talvez por sentir pena de mim... idiota.
Analisei a foto e quase caí para trás... ele também estava lá! Milhões de pensamentos passaram na minha cabeça como um filme. Ele estava bem atrás do carro bastante amassado, mas outro detalhe veio à tona: sua mãos. Para esquecer disso tudo, tomei um banho. Voltei ao porão em seguida, para ver novamente o álbum e fazer uma análise mais profunda. Eis que na última página do álbum estava a foto do acidente do meu pai. Mas como? Dúvida que ficou persistindo por dias e nunca foi respondida.

Quanto mais os dias foram passando, mais meus amigos preocupavam-se com minha saúde física e mental. E foi então que o ápice de tudo isso culminou no estado no qual me encontro atualmente.
Certa vez, já neste lugar, estava comendo e após o término de minha refeição dei uma olhada no espelho, que era a única coisa que há na parede dessa sala. Fiquei minutos me encarando, até que pude, finalmente, ver o rosto da criatura que me fez parar neste lugar. Seus chifres... ah, aqueles chifres...

Ela sorriu para mim, e quando dei por mim estava sorrindo também. A razão estava pouco a pouco corrompendo-se pela loucura, cada vez mais evidente.
O intruso que antes era parte da família... agora é parte de mim! 



2 comentários:

  1. Respostas
    1. Não querendo desaponta-la, mas a estória já encerrou-se aí, mal consigo imaginar uma continuação ._.
      Mas fico feliz que tenha gostado.

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