Vamos brincar


Primeiro dia de aula, estava me preparando para ir à faculdade. Não seria irresponsável a ponto de deixar minha irmã de 7 anos sozinha em casa, já que minha mãe estava trabalhando no momento, então tive a ideia de contratar uma babá. Saí do banheiro após arrumar meu penteado para enfim ir à universidade. No entanto, ouvi alguém batendo na porta. Ah, como eu odeio visitas, sempre em momentos inoportunos. Não tive que hesitar em abrir, pois a pessoa que estava do outro lado era insistente demais pra ser ignorada. Depois de inúmeras batidas irritantes, abri a porta para ver quem era o sujeito. Um pequeno susto quase fez meu coração sair pela boca. Era um homem alto, magro e vestindo roupas estranhas e pretas, até parecia um padre. O que chamava minha atenção era seu chapéu preto e sua caixa que trazia consigo. Em especial, o chapéu obscurecia seu rosto, sem falar também nos óculos escuros.

Ele ficou parado e parecia me encarar por alguns segundos, e fiz o mesmo, por ele me parecer alguém não-confiável. Direcionei minhas pupilas para a caixa que ele trazia. Aparentemente, eram apenas brinquedos, mas permaneci desconfiado. Até que ele, finalmente, disse-me o que queria.

- Deseja comprar alguns bonecos? - perguntou ele, me mostrando a caixa e deixando os tais brinquedos expostos à mim.

- Não, obrigado. Estou apressado. Pode me dar licença, por favor?

- Mas são ótimos bonecos. Presumo que tenha alguma criança aí. Se houver, tenho certeza que ela vai gostar. - disse ele, discretamente movimentando a cabeça para olhar o interior de minha casa.

- Me desculpe senhor, mas é que...

- Maninho! Maninho! Quem é que tá aí? - gritou minha irmã me interrompendo, pulando serelepe pela sala e curiosa sobre a visita.

- Bia, já disse pra você ficar no quarto, esperando pela babá.

- Quem é esse? - perguntou ela, olhando com desdém o tal homem.

- Eu sou um pobre vendedor de bonecos. Veja, sou eu mesmo que os faço. Gostaria de comprar um?

- Ah, legal. Quero um, maninho. - pediu ela, ingenuamente.

- Mas Bia... eu não posso...

- Não, deixe. Vendo esse sorriso no rosto dela vou dar este aqui de graça, especialmente pra você. - disse o homem, generosamente entregando um de seus bonecos pra minha irmã, que aceitou sem pestanejar.

- Obrigada moço. Vou cuidar dela como uma filha.

- De nada. Você me parece ser uma menina cheia de vida... o que acha de sermos amigos? - perguntou ele, estendendo sua mão negra. Negra pelo fato do mesmo estar usando luvas.

- Acho que sim. - retribuiu minha irmã também fazendo o mesmo gesto, e um lento e demorado aperto de mão foi realizado.

Mesmo feliz por minha irmã também estar feliz de ter mais uma boneca na sua coleção, algo me incomodava e era exatamente a figura daquele homem. Que tipo de vendedor de brinquedos se veste daquela forma? No máximo afugentaria os clientes com aquela aparência. E foi incrível o modo rápido que ele conseguiu convencer minha irmã.

Alegre, ela caminhou para o quarto, e eu, apressado, fechei a porta. O homem virou as costas e se foi. Antes de caminhar até o meu destino, observei-o por algum tempo, e percebi que um de seus bonecos havia caído no chão. Oportunidade indispensável para fazer uma análise. Peguei o boneco e tateei ele para analisar melhor sua espessura. Estava sujo e aparentava ser meio antigo, mesma impressão que eu tivera com os outros. O diferencial para com os bonecos comuns era que o que estava em minhas mãos tinha uma expressão quase idêntica a de um ser humano. Não era possível um boneco como aquele ser feito à mão e por apenas uma pessoa.

Decidi esquecer antes que me tornasse uma neurótico com paranoia compulsiva. Joguei o boneco em um arbusto e segui meu caminho. Na minha volta para casa, bem próximo à rua onde eu morava, pessoas comentando sobre algo que não conseguia entender. Me aproximei mais da calçada para ouvir as conversas por curiosidade, e o assunto era, no mínimo, atípico. Já era fim de tarde e era estranho ver pessoas conversando naquela rua tão cedo. Falavam sobre desparecimentos de crianças em ruas próximas, especulavam que as mesmas foram sequestradas, queriam chamar a polícia, estavam desesperadas, pelo menos a maioria delas.

Entrei em casa com inúmeros pontos de interrogação na cabeça. Um sequestrador atuando no bairro!? Era só o que faltava. Deixei minha mochila no sofá e fui comer alguma coisa na geladeira. Após minha refeição, fui verificar o quarto de minha irmã para ver se estava tudo bem. Para minha desagradável surpresa ela não estava lá. No entanto, minha aguçada percepção não deixou escapar um detalhe importante: um bilhete deixado na cama. Li o tal bilhete e nele estava escrito o seguinte: "Por favor maninho, não se preocupe comigo. A babá não veio hoje e aquele homem dos bonecos voltou para me ver. Somos melhores amigos agora. Ele me levou pra casa dele, disse que iríamos brincar e nos divertir bastante. Ass: Bia, sua querida irmãzinha."

Um sequestrador sendo comentado seriamente por pessoas próximas à minha casa... um estranho homem levou minha irmã para sua casa... não era coincidência, estava claro! Soquei a parede de tanta raiva que senti. Era para eu ter deixado minha irmã com meus tios, mas minha mãe, irredutível, insistiu em deixar ela em casa logo no dia em que eu estaria fora e sem nenhuma certeza da vinda da babá. Não perdi tempo me desesperando à toa, fui me envolver nas conversações, que após eu saber do desaparecimento de Bia ainda aconteciam. Arranquei informações valiosas de pais que ainda estão à procura de seus filhos desaparecidos. O último que perguntei foi o que mais me revelou fatos importantes.

- Bem, me disseram que esse homem vive em uma cabana numa floresta. Certa vez eu estava passeando com meu filho, e ele veio logo perguntando se eu queria comprar um boneco. Eu disse não, claro. Eu não ia confiar em uma cara vestido daquele jeito. Mas um bom tempo depois, meu filho havia sumido, e era até estranho, porque ele criou uma empatia muito forte com aquele homem.
Não posso garantir que tô certo, mas essa é a informação mais coerente que me deram sobre ele, até agora.

Baseado no que ele havia dito à mim, meus instintos investigativos vieram à tona. Nós dois ficamos caminhando e conversando sobre aquele assunto ao mesmo tempo. Até que ficamos um pouco amigos, e vendo minha disposição em investigar o caso ele me emprestou seu carro para que eu pudesse chegar ao tal lugar. Me desejou boa sorte e esperava que eu encontrasse minha irmã sã e salva. Saí em disparada com o carro e demorou cerca de meia hora para eu adentrar na floresta. Estacionei o carro próximo a uma cerca e segui a pé. Não foi fácil, obstáculos eram visíveis, e se o tal homem vivia mesmo por lá era óbvio pensar que ele mesmo tenha os colocado.

Enfim havia encontrado a cabana. Velha e acabada por fora, mas renovada e bem conservada por dentro. O ranger da porta ecoou por todo a casa, após eu abri-la. Olhei para todos os lados, perspicaz e detalhista. Várias peças de bonecos espalhadas pelo chão fétido. Não mais fétido do que o odor que, com certeza, viera de uma porta. Talvez era o armário, não sei bem ao certo, mas tal odor, que parecia ser carniça, fazia-me recuar. O que estivesse lá dentro não era para eu saber, até porque não queria mesmo. Fui para um outro compartimento, este mais intrigante do que o anterior. Uma mesa com várias ferramentas e objetos cortantes não escapou dos meus olhos. Facas, alicates, cinzeis, chaves de fenda, agulhas e até motosserras estavam sobre aquela mesa.

Recuei mais um pouco, pois tocar naqueles objetos poderia me causar feridas profundas. Não restava dúvidas: aquela era a casa do tal vendedor de bonecos. Virei o rosto para minha direita, pois algo chamava minha atenção, e não era qualquer coisa. Havia uma boneca, parecia estar pendurada por fios ou cabos que não eram muito visíveis. Como uma espécie de marionete. Tinha longos cabelos pretos, os quais dava para perceber que eram de verdade. Sua expressão fria consistia em um olhar penetrante e um pequeno sorriso. Parecia estar cantando, e quando percebeu minha presença ela simplesmente... falou.

- Olá! Vamos brincar? - disse a boneca, movendo sua boca.

Olhei para cima para me certificar de que havia alguém controlando ela. Não havia ninguém em cima, embora parte do teto estivesse aberta por estar deteriorada.

- Olá! Vamos brincar? - falou ela novamente, fazendo-me entrar em pânico.

Aproximei-me para vê-la melhor, não era qualquer tipo de boneca, estava praticamente viva. Seus braços moviam-se lentamente, como se quisessem tocar algo, mas como ela havia me percebido presumi que ela queria me tocar. Fiquei abismado com o que vi, nunca tinha visto algo tão... ah, não sei descrever, e pouco importa. Ela falou novamente, só que dessa vez mudando um pouco o vocabulário limitado.

- Podemos brincar um pouco? Vamos... tenho certeza que não vai se arrepender.

Me afastei rapidamente dali, já havia perdido tempo demais, só queria encontrar minha irmã e fugir dali o quanto antes. Meu recuo desenfreado me fez derrubar, acidentalmente, várias das ferramentas cortantes da mesa. Por sorte, não me cortei, mas me afastei o suficiente daquela boneca maldita.
A cada passo que eu dava eu olhava em seus olhos, que me acompanhavam, até ela virar seu pescoço. Já estava perto de entrar em outra parte daquela casa, ainda horrorizado ao ver aquela boneca não desgrudar seu olhar para mim. Ela falou mais alguma coisa antes de eu entrar na outra sala, porém, com uma voz mais macabra.

- Um dia ainda vamos brincar muito!

A porta fechou-se rapidamente, fazendo-me cair para trás e entrar na sala por completo. Fiquei sentado no chão por alguns minutos, em estado de choque. Levantei após ficar mais relaxado e me deparei com uma estante onde se encontrava uma vasta coleção de bonecos. Ainda mais estranhos do que aqueles que eu havia visto. Não deixei me abater com aquilo e segui com minha atenção aos detalhes, ajudando-me a descobrir um círculo estranho no centro da sala e vários livros empilhados em um canto da parede. É... não era para eu estar naquele lugar... a sensação de estar preso lá para sempre estava presente e parecia verdadeira.

Minha irmã... onde estava? O que aquele maldito havia feito com ela? Ele escondia coisas sinistras e não demoraria para eu descobrir. A última coisa que minha atenção detectou foram pedidos de socorro, vindos de um boneco em cima de uma cômoda, coberto por um pano preto. Aparentemente, era um boneco ainda não pronto. Os gritos eram femininos... uma boneca. Tirei o pano e a tal boneca estava com uma expressão feliz e falando, mas sem mexer a boca. Era do mesmo modelo dos outros.

- Socorro! Me tira daqui! Socorro! Quero sair daqui! - gritava ela.

Não demorou para eu reconhecer os traços. Vou caçar esse maníaco onde quer que ele esteja por ter feito essa monstruosidade. O pior não era o sentimento de ódio naquele momento.
O pior mesmo foi ver que aquela boneca era a minha irmã! 

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