Monstro no final do livro (parte V)


Parte V - Final 

Até aquele instante, eu estava sem entender absolutamente nada. O corpo de meu pai putrificado na minha frente! Quando dei por mim, já estava praticamente morto por dentro. Só restando apenas uma alma vazia e atormentada. Recuei alguns passos, mantendo meu olhar fixo estarrecido naquele corpo sem vida. Segui confuso para a sala de estar. O ar estava me faltando. Minha mãe estava na cozinha, provavelmente ligando para a polícia.

O telefone havia tocado, me despertando de pensamentos horrorosos em relação aquilo.

Atendi antes que pudesse chamar a atenção de minha mãe.

- Alô.

- O que achou da surpresa? - era a voz de Morgana.

- Oh, essa não... Morgana, você não...

- Sim, eu sim! Tudo isso é vindo desta minha mente brilhante.

- O que significa isso tudo? Quando o mataram? - meu sangue estava fervido em raiva extrema.

- Achou mesmo que aquele era seu pai!? Que tolinho.

- Sua desgraçada...

- Chame-me do que quiser. Sua fúria não vai aliviar o seu sofrimento, se é que ainda chegou à esse ponto. Mas vou lhe contar tudo o que deve saber.

- É bom mesmo... agora que o perdi, não posso confiar em mais ninguém. - deixei que uma lágrima caísse para demonstrar minha dor.

- Sabe a marca que você viu no meu braço? Ela é a prova definitiva de um pacto selado com os Ashuras.

- Mas por que? Por que realizou esse pacto? O que esperava conseguir com ele?

- Somente o prazer de assistir uma família inteira ser destruída. Na época em que nos víamos com mais frequência, seu pai e eu fomos ficando mais íntimos a cada conversa. Eu o enxergava como o homem perfeito para minha vida. Mas isto teve fim, quando eu soube que ele já estava noivo de sua mãe. Eu fiquei arrasada. Ele não parecia mais demonstrar interesse na nossa amizade... eu queria mais do que aquilo. Foi então que, no último dia em que nos encontramos, eu contei à ele a lenda do livro dos Ashuras. Eu o convenci de que era algo raro e ele se interessou bastante. Deixei o livro na mesa de propósito, pois eu sabia que ele o roubaria. E ele sabia que não teria problema algum, já que percebeu que era minha intenção lhe dar o livro.

- Agora tudo passa fazer mais sentido. Foi tudo uma tentativa de vingança. Você não passa de uma vadia insana e nojenta. - cerrei meu punho esquerdo, quase querendo fazer sangrar a palma de minha mão.

- E agora que finalmente estou perto de alcançar meu objetivo, só preciso que me dê o livro original.

- Por que o quer, se poderia tê-lo pego quando estive na sua casa?

- E estragar o meu plano? Você é mesmo um idiota, não é? Aquele não era o momento certo, eu precisava que se desse conta do perigo que está correndo, sobretudo ao descobrir que seu pai está morto. O que estava ao seu lado era o Ashura Observador. Você deve ter lido um trecho do capítulo no qual ele pertence e o libertou. Ele logo mais virá até aí para lhe fazer companhia.

- Quanto tempo ele esteve do meu lado? - eu ficava olhando para trás, para ver se minha mãe estava por perto, mas, estranhamente, ela parecia não estar mais em casa.

- Durante todo o trajeto para vir até aqui e quando estiveram aqui. Eu o contacto por telepatia. Ele deve ter matado o seu pai, mais precisamente, na manhã do dia de ontem. Assim que ele abriu a porta do quarto para ir ao banheiro, foi surpreendido pelo Ashura, que o matou transpassando seu corpo com suas garras. Em seguida, assumiu sua forma. Quaisquer resquícios de sangue foram apagados.

- E o que foi aquele desmaio? - aquilo já estava virando um interrogatório, entre a vítima e o criminoso.

- Bem, digamos, que adicionei um pozinho mágico no meu suco enquanto vocês estavam na sala. Nem tudo o que certas pessoas sabem sobre os Ashuras deve ser dito.

Uma intensa rajada de vento gelado atravessou a janela da sala. Senti uma presença na casa. Pensei ser ele, mas o silêncio que veio depois tornou tudo muito misterioso.

- Ainda está aí, Thomas?

- Ótimo, você venceu. Preciso da última página para me livrar. Você está com ela, não está?

- Que rápido hein. Sim, ela está comigo. Mas se a quer, terá que vir aqui com o livro original. Caso o contrário, sua família sofrerá nas mãos do Observador. Ele será capaz de pulveriza-los somente com um olhar.

- Está blefando. O que vai fazer se eu disser a você que queimei o livro, inclusive a cópia?

- Você fez o quê? - finalmente ela abandonou aquele tom sarcástico e irritante, aderindo para um mais sério.

- Exatamente o que você ouviu. E quanto as três páginas arrancadas? Porque o fez?

- Está me tratando como uma criminosa e não gosto disso. Eu fiz isto para ajudar a espalhar a lenda e torna-la conhecida. Em outras palavras, fiz como os ocultistas que criavam as cópias. Todos eles fizeram pactos, por isso não morreram. Mas ao invés de perder tempo transcrevendo o livro inteiro, arranquei as páginas do penúltimo capítulo e mandei para um destinatário aleatório. - neste momento me lembrei de John. Certamente fora ele.

- E por causa dessa sua conivência com esse plano, duas pessoas inocentes morreram.

- Eu não ligo. Logo os Ashuras ficarão conhecidos como a força mais poderosa das profundezas do inferno. Já que queimou os livros... só me resta ir até aí, entregar-lhe a última página. Mas, em troca, quero uma cópia do livro. Consiga-a para mim. Ligue a TV.

Achei estranho ela não ter se manifestado ou ficado louca de raiva quando disse ter queimado os livros. Ela poderia ameaçar matar minha família inteira àquela altura. Não entendo porque ela resolveu tentar "facilitar" as coisas.

Liguei a TV. Ela me pediu para colocar no noticiário da manhã.

A informação noticiada no jornal era a de um acidente ocorrido no dia anterior, com um ônibus que conduzia alunos do mesmo colégio que Ellen e John estudavam. A maioria dos passageiros não sobreviveu.. O ônibus capotou diversas vezes. Um dos alunos que sobreviveu prestou depoimento e afirmou que o guia da excursão estava contando uma história terrível e macabra.

Era somente para entreter os alunos, mas o resultado foi desastroso. Os alunos não paravam de gritar e implorar para o guia parar de contar a tal história, e consequentemente muitos deles começaram a sofrer ataques epiléticos e de pânico. O motorista, claro, também foi afetado, e logo ocasionou o acidente.

Mas as dúvidas que ficaram foram: Como o ônibus apresentava marcas de arranhões em seu interior? E por que os poucos que sobreviveram parecem não lembrar de quase nada?

A pessoa que relatou aos psicólogos da escola disse que ele carregava um livro em mãos. Sem esse detalhe, eu diria que poderia ser qualquer outra história sinistra que não fosse aquela. A priori, devia-se falar com o guia.

- Viu a notícia? - perguntou ela, desnecessariamente.

- Claro que sim. Se for o que penso, a troca já está praticamente garantida. - tentei aumentar as expectativas dela, mas no fundo gostaria que ele se ferrasse.

- Muito bem. Estarei aí as 21 horas. Vai estar sozinho?

Foi suspeito ela perguntar aquilo. Mas acabei deixando passar, por pensar que ela acharia ser um problema outros estarem presentes.

- Não. Mas vão estar dormindo, isso eu garanto. Vamos fazer a troca perto do jardim. O que acha?

- Por mim está ótimo. Não me decepcione. - essa exigência já era previsível.

Em vez de responder, desliguei na cara dela. Que justificativa estúpida para arquitetar um plano tão maquiavélico. Pensei em mata-la, logo quando eu conseguisse me livrar do tormento. Mas não seria nada fácil, eu precisava pensar com mais calma. Deixei de pensar em Morgana e me concentrei na investigação que eu faria

Minha mãe estava do lado de fora da casa, conversando com os policiais. Eu intervi e disse que não foi nada demais. Inventei uma desculpa, mas não vem ao caso. Durante a manhã do dia em questão, visitei novamente a escola. Procurei pelos psicólogos e não demorou muito para que eu os encontrasse. Eles disseram-me que o guia estava passando por tratamento psiquiátrico, pois jura estar sendo perseguido por criaturas infernais. Estava à um passo de adentrar no manicômio.

Enquanto eu seguia pelo caminho que os psicólogos me disseram para encontrar um dos alunos sobreviventes, aproveitei para dar uma olhada na biblioteca. Estava interditada. Foi impossível não lembrar de John e sua estupidez.

O tal aluno estava no intervalo, e cursava o oitavo ano. Seu nome era Samuel. Forcei uma aproximação, pois eu não levava jeito para me socializar assim, tão de repente.

- Samuel? - forcei também um sorriso, acho que foi o primeiro que dei naquela semana.

- Err... eu conheço você?

- Na verdade, não. Se importa de conversarmos um pouco?

- Sobre o quê?

- Bem, é sobre o acidente que aconteceu ontem. Vou ser bem direto: O guia estava portando algum tipo de livro?

- Sim. Olha, desculpa, é que não gosto de lembrar muito, sabe. Foi assombroso. Eu nunca ouvi uma história tão horrível antes. Mas ele tinha sim um livro.

- Tudo bem, eu vou poupar você. - tentei tranquiliza-lo. - Mas, me fale, sabe onde o livro possa estar agora?

- Hum... parece que pode estar na biblioteca, não sei bem ao certo. Ou pode estar com o guia, talvez.

As coisas se complicaram para mim naquele momento. O guia estava indisponível e a biblioteca interditada, então não haveria como acha-lo. Qualquer tipo de busca seria pura perda de tempo.

- Nossa... Bem, Samuel, obrigado. Foi um prazer conhece-lo.

O garoto tomou o papel de interrogador, assim que virei as costas.

- Você é algum agente do FBI disfarçado?

- Bem...  não. Por que acha isso?

- Nada. Só acho estranho você estar interessado nesse livro.

- É só curiosidade, nada mais. Até logo, Samuel.

Não conseguindo nada com o garoto, fui até o hospital psiquiátrico, seguindo o que os psicólogos da escola me disseram: endereço, nome do guia, nome do hospital e o pretexto que eu usaria. Conversei com o médico responsável por cuidar dele. Me passar por um amigo foi o suficiente para conseguir entrar. O psiquiatra alegou que ele sofria de alucinações constantes e sempre se mantinha recluso no quarto, sem interagir com os outros pacientes.

Não consegui falar com ele, mas, para minha felicidade (nem tanto), havia conseguido o livro. Ele só soltou aquele livro depois de ser transferido para o hospital. O livro foi colocado no banco de achados e perdidos. Usei mais uma de minhas desculpas, e o consegui facilmente. No retorno para casa, só continuava a sentir os calafrios e a brisa gelada. Era uma cópia, com a fechadura sendo falsa.

Morgana não me deixaria em paz se não recebesse a cópia. Ela tinha lá seus planos em conjunto com os Ashuras. Eu tentava não imaginar o que seria, e certamente foi o melhor a se fazer. Era a minha família e minha vida que estava em jogo. Mal pude esperar chegar a noite.

Havia dito à minha mãe que o papai só voltaria dentro de um mês, pois o tio Michael adoeceu. Mentir mais uma vez só me causou mais aperto no coração. O dia seguiu completamente estranho. Meu futuro estava incerto, após abandonar aquela prova. Eu já estava cansado da mesma pergunta que dirigiam à mim: "Você está bem?". Já tinha perdido a conta.

Todos notavam meu desespero crescente. Até mesmo os vizinhos chatos. Quando, em determinado momento, eu estava sozinho, como, por exemplo, ao entrar no banheiro, eu sentia a temperatura ambiente baixar gradativamente. A luz do banheiro foi enfraquecendo aos poucos, até começar a piscar. O intervalo de tempo entre um "pisca" e um "acende" ficava mais longo a cada minuto.

Malditos Ashuras. Um ruído ensurdecedor de algo sendo arranhado - pior do que uma unha num quadro negro, posso jurar - surgiu segundos depois. Tapei meus ouvidos e me agachei próximo à pia.
Fazia muito frio, eu pensava que, talvez, eu morreria congelado. Só após alguns minutos pude ter coragem para me levantar. Involuntariamente, olhei para o espelho.

Somente para se arrepender depois. Vi o rosto da criatura. Parada atrás de mim, ela me encarava com um sorriso malévolo e seus olhos vermelhos. Sua face era negra, como a escuridão da noite, e tinha pequenos chifres que lembravam os de um filhote de bode. Percebi seus dentes sujos de sangue.

Apenas me mantive atônito e congelado. Como não fosse o bastante, ela proferiu algumas palavras, porém, elas foram ditas sendo escritas no espelho, já que eu não podia ouvir sua voz.

As palavras foram: "Sangue. Quero sangue. O seu sangue."

Saí correndo dali e quando percebi já estava na sala, respirando ofegante.

A perseguição parecia estar chegando ao seu auge. Depois de muito esperar, me mantendo o mais calmo possível, pude avistar no relógio os ponteiros marcando 21:05.

Cinco minutos de atraso não fariam diferença. Eu já havia preparado tudo. Era o único jeito, o único modo de tirar aquele peso de mim. Mas eu carregaria outro peso como resultado. Mas fazer o quê, né? O destino brinca com nossas expectativas.

Ouvi um assovio. Finalmente ela chegara. Controlei minha raiva, ao abrir a porta, para não deixar esvair toda a calma que preservei durante a espera. Morgana estava acompanhada do Ashura que tomou a forma de meu pai. Aquele maldito ficou me olhando com um sorrisinho de canto de boca que me deu nojo.

Ela cumpriu com o prometido, havia trazido a última o página. Deixei a porta entreaberta, para no caso de ocorrer o que eu estava presumindo. É, eu estava confiante demais, eu poderia me decepcionar e acabar me ferrando, mas não custava nada acreditar que aconteceria.

Com o livro em mãos, parei na frente de Morgana, encarando-a com grande seriedade. Confesso que naturalmente sou um cara que gosta de rir e se divertir, praticamente o zueiro da turma, mas naquela ocasião era impossível ser o que eu era. Aquela situação claramente me mudaria de forma irreversível. Morgana sorriu para mim, acompanhando seu olhar denotando interesse e desejo de poder.

- Bom menino. Fico feliz que tenha feito o dever de casa. - como eu adoraria esgana-la até a morte naquele instante.

- Não fale como se fosse minha mãe.

- Eu confesso que adoraria ser sua mãe. Sabe que seu pai deveria ser somente meu. Dê-me o livro.

Entreguei-lhe a cópia do livro original em suas mãos, e ela teve a coragem de dar um simpático "obrigado", depois de tudo que fez.

- Aqui está. Sei o que vai fazer, mas não se preocupe, não vou dedura-lo. - disse ela, me entregando a última página, virada no verso.

- Percebe o meu estado? Todos à minha volta estão perigo, com exceção de você e seu guarda-costas. Ele está me perseguindo o tempo todo... cortes profundos ficam surgindo do nada, escuto barulhos distantes que ficam agudos, as luzes começam a piscar... como nesse exato momento, naquele poste, veja lá! Aquela luz está piscando sem parar. Meu tempo está acabando.

- E o que quer que eu faça? Siga o que o seu coração diz. Se acha que queimar a página o livrará do tormento, faça-o. Não espere que eu o ajude após isso, sou leal à eles. Certamente está sendo perseguido pelo Ashura sanguinolento, o mesmo que matou sua amiga. O tempo da morte de cada vítima varia para cada Ashura que as persegue.

- Obrigado pela informação. Mas eu não confio em você. Mas, mesmo assim, vou seguir à risca.

Naquele instante, a imitação barata do meu pai finalmente abriu a boca.

- Eu ainda tenho o direito de mata-lo, caso não saiba,

- Você tem o direito de sumir da minha vida, junto com essa desgraçada e sua "turma do fundão". Eu devia ter desconfiado desde o início. Ficou quieto na maior parte do tempo. Meu pai era um tagarela nato, principalmente em conversas importantes.

- Eu fiz o possível para que soasse idêntico.

Morgana decidiu interromper a conversa, "mudando" de assunto.

- Thomas, onde conseguiu a cópia?

- Num hospital psiquiátrico. O guia da excursão na qual houve o acidente está internado lá. Fui até o colégio e conversei com um dos sobreviventes, mas não consegui nada.

- Muito bem. Creio que o tal guia possa ter lido o livro até a última página... acho que já deve estar morto. - a falta de sensibilidade dela chegava a ser assustadora.

- Ótimo, já chega. Melhor eu ir queimar essa página logo.

- Ué, mas sem me convidar para entrar? - ela achou que era algum tipo de convidada especial.

Me virei novamente para ela e tentei disfarçar meu sorriso de "vitória".

- Você quer entrar? O que quer fazer?

- Essa discussão toda me deixou faminta. Tem algo na geladeira? - quão empolgada ela estava.

- Sim, tem. Fique à vontade, mas não pense que foi por ter garantido que nós dois saíssemos ganhando. O que fez ao meu pai, à mim e à minha família não tem perdão.

- Isso, torne-se um ser rancoroso e frio como seu pai. Enquanto isso, irei ama-lo para sempre. De verdade, Thomas. - disse ela, andando lentamente em direção à casa.

Ela me pareceu ainda mais louca depois dessa declaração. Após Morgana ter entrado, aquele Ashura permaneceu de guarda olhando para mim, com os braços cruzados, como se estivesse suspeitando de algo.

Antes de agir, também fiquei imóvel, no mesmo ponto.

- O que foi? Vai ficar aí me olhando? - franzi as sobrancelhas.

- Não sei o que está pensando garoto, mas prefiro ficar aqui. Para garantir que nada errado aconteça.

- O que aconteceria de errado, no seu ponto de vista, à esta altura do campeonato? - enquanto eu dizia isto, fui me aproximando lentamente de um arbusto, próximo ao cercado. Acabei deixando revelar um fio... o que prontamente o deixou desesperado.

- O que é este fio? O que esteve planejando? - ele veio até mim exalando um instinto violento, e deixando escapar um pouco da sua voz original.

- Eu sei que isso vai gerar perdas terríveis. Posso estar sendo egoísta, mas acredite: Eu iria até o fim, se fosse possível, para garantir a sobrevivência de todas as pessoas que amo! Mas infelizmente esse é o único jeito!!!

Revelei o pequeno detonador. Meu polegar esquerdo estava prestes a apertar aquele botão vermelho, sem hesitação.

- Aqui está. Armei explosivos na casa inteira. Não posso mais esperar, agora que tenho a chance de acabar com isso de uma vez por todas.

- Ora seu... senhorita Morgana!!! - ele correu até a casa para avisa-la, mas seria inútil, ela provavelmente estava se empanturrando de comida, talvez bastante desatenta.

- Seu idiota! Diga adeus à sua parceira!

Finalmente havia apertado o botão. Uma explosão seguido de um barulho estridente foi só o que ocorreu. Não ouvi mais gritos. Não ouvi últimos suspiros. Eu os sacrifiquei para que ficassem longe de mim, longe dessa loucura toda. Lágrimas rolaram pelo meu rosto pálido, ao observar aquela montanha de fogo crescer diante de mim.

Ao que parecia, não sobrou nada. Todas as lembranças, pessoas que amei e, sobretudo, aquele tormento, foram reduzidos à cinzas.

Algumas pequenos pedaços do telhado pegando fogo caíram no jardim. Joguei a última página ali e virei as costas sem vê-la queimar. O único lugar que poupei foi a garagem. Peguei o carro de minha mãe e saí sem rumo. Saí sem pensar em como eu recomeçaria a minha vida. Temi o futuro. Segurando aquele volante, numa estrada desconhecida e obscura, eu me sentia livre e perdido ao mesmo tempo. O dilema: chorar ou sorrir?

Ellen, John... suas mortes não foram em vão. Eu os vinguei. Podem ficar em paz agora, onde quer que suas almas estejam.

Enquanto eu dirigia, liguei para os bombeiros, informando o incêndio, através do celular de minha mãe.

Eu, arrependido, digo que eu trouxe aquilo para mim, apesar da culpa maior ser de Morgana. Minha teimosia custou vidas inocentes. Se este mal me trouxe perdas irreparáveis, era hora de conseguir novos ganhos.

Eu tinha minhas alternativas.


Duas semanas depois 

Eu havia decidido ficar na casa de meus tios, por algum tempo, até tudo entrar nos eixos novamente. Na verdade, eu ainda estou aqui. Inventei que fui expulso de casa por conta de uma briga. Meus tios não costumavam telefonar para meus pais, então não havia risco deles descobrirem a tragédia.

Foi o tempo suficiente para me aliviar com relação à perseguição dos Ashuras. Eu pude dizer que acabou, que eu estava salvo. Mentir novamente me doeu ainda mais. Eu choro todas as noites, me chamando de assassino.

Minha saúde voltou a ficar normal. Os cortes estavam cicatrizando. Entretanto, há poucos dias, recebi uma visita completamente inesperada.

À primeira vista, eu pensei estar enganado. Eu não estava salvo. O Ashura Observador, sob outra forma, desta vez de um policial, bateu na minha porta pela manhã. Reconheci-o pela sombra, de aspecto macabro - pude ver que ele tinha asas. Não sei se era por causa do sol, mas sua sombra tinha um preto vivo e incomum.

- Não pode ser! O que faz aqui? - dei vários passos para trás, e acabei quebrando um vaso.

- Olá, Thomas. Deve estar confuso demais para aceitar isto.

- Não pode ser... eu deveria estar livre... livre de todos vocês. - eu apontava o dedo indicador, tremendo de tanta surpresa.

- Não seja tolo. O motivo pelo qual estou aqui tem a ver com o quão longe você foi. É a primeira vítima que conseguiu tentar sobreviver, mantendo o foco no seu desespero.

- Sorte sua meus tios não estarem aqui. Dá pra ser um pouco mais específico? Eu queimei a droga do livro, portanto eu deveria estar livre.

- Não é bem assim. Primeiro, que queimando o livro não livra a vítima do seu destino, no caso, a morte. Eu vim para um propósito maior.

Todo aquele mistério estava me dando nos nervos.

- Vamos aos fatos: Não estou sendo mais perseguido e estou tentando reconstruir minha vida. Não entendo você vir aqui me procurar se diz que meu destino é a morte porque queimar o livro não é um método de salvação. Eu libertei somente dois Ashuras. O que desejava meu sangue se foi. Por que mandaram você?

- Por que sou aquele que é responsável por propor alianças, apesar de estar aqui contra minha vontade, o meu chefe viu o seu potencial. Nós temos planos para você, Thomas. - ele mostrou um livro. Uma cópia, aliás.

- Há uma maneira de trazer sua família de volta, inclusive seu pai. Apenas leia o que está escrito na primeira página e pense muito bem. Não tenha medo.

Não tinha outra escolha. Peguei aquele livro e vi o que estava para me ser mostrado.

Eu me sinto fortemente convencido.

- É isso, Thomas. Pegue. Escreva nossa nova história. - ele me deu uma daquelas penas que antigamente usavam para escrever.

Foi por minha família. Pelas vítimas que aquilo gerou. A mais difícil das escolhas foi feita pelo bem daqueles com quem eu me importava. Acho que todas as decisões que tomo sempre me acarretam perdas.

Aquela não foi diferente. Neste caderno, no qual escrevo, deveria estar a minha auto-biografia, como inicialmente planejei. Eu comecei este relato afirmando ser um sobrevivente. E é verdade, eu realmente sobrevivi.

Todos nós escrevemos nossa própria história. Este só foi mais um capítulo ruim da minha. Agora estou pronto para escrever um novo e melhor, para trazer de volta tudo aquilo que me fez bem, mesmo sacrificando aquilo que faz ser eu.

Falta pouco para eu dar uma resposta definitiva. Ele virá aqui novamente.

Pouco para se tornar algo aquilo que jamais esperei. Para tornar-se algo novo...

Uma nova criatura. 


FIM. 

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