Além das aparências


Quantos dias já terão se passado se eu finalmente tomar a pílula sedativa?

Não estou nada bem... A exaustão possuiu cada parte do meu corpo, mas não é uma exaustão apenas física... é psicológica, principalmente. Quem nunca uma vez na vida sentiu um cansaço passageiro da vida? Parece que todas as coisas perdem valor de uma hora pra outra. A minha vida já não tem valor.

Estou aqui, cobrida por esse edredom gelado, especificamente reclusa por... ah, esqueci de conferir no calendário pequeno que é um imã de geladeira... eu marquei os dias que fiquei trancafiada em casa.

Vou explicar porque resolvi me esconder. O meu médico particular receitou pílulas para controlar a minha insônia que era ocasionada pelo meu medo de dormir, não era uma insônia normal, eu sentia o sono pesar a cada noite mas eu resistia, resistia, resistia... até que eu venci a batalha e o sono foi afugentado para talvez nunca mais fazer minhas pálpebras fecharem.

O medo de fechar os olhos e deixar a escuridão invadir sua alma... o pior mesmo era o que vinha depois. O sonho. Não, pesadelo. Ossos, essa é palavra-chave e a única que posso usar para dar uma dica porque se fosse descrever eu teria ataque de pânico no meio da história e ficaria com medo de me olhar no espelho. O médico agiu com desonestidade e negligência por não avisar sobre efeitos colaterais? Nem pra me dar a merda de uma bula? Pensei que no frasco teria, mas não tinha rótulo, era apenas um frasco verde cheio de pílulas do tamanho de um feijão.

Na primeira semana, a insônia me dominou, tomava uma pílula por noite.

Na segunda veio a dependência, passei a tomar quatro pílulas por turno.

Na terceira vieram os efeitos que o médico deveria ter me contado. Dez pílulas de manhã e à noite. Pareciam alucinações... melhor dizendo, aparentemente enxergava marcas vermelhas, tipo feridas, nos rostos das pessoas. Todo mundo no trabalho estava preocupado com meu estado, eu havia emagrecido bastante e tinha adquirido olheiras de panda pelas noite não-dormidas. As "feridas" nas faces de cada pessoa que eu via aumentavam dia após dia.

Na quarta semana o vício se fortaleceu e mesmo tendo ideia desse padrão nocivo eu continuava tomando em superdoses absurdas, ficando pasma como até agora não sofri uma overdose. Nesse ponto, as coisas viraram um filme de terror. As pessoas perderam as peles, apenas a carne viva, os músculos, as veias, capilares e artérias... tudo à mostra... só pra mim. Foi aí que comecei a ser dada como desaparecida. Recebi uma carta do meu chefe informando a demissão. Ótimo. Era previsível. Perdido o sono, perdida a qualidade de vida, perdido o emprego...

Nenhum outro remédio tinha espaço na minha pequena "farmácia" na dispensa. Me antecipei antes que o primeiro frasco se esvaziasse, obviamente não duraria um mês inteiro, e liguei para o meu médico pedindo que enviasse por correio mais 50 frascos no prazo de 48 horas e nesse período daria para tomar as últimas 15 pílulas. Não reclamei sobre a falsidade que ele provavelmente cometeu. Eu estava num impasse terrível com meu organismo. Se eu abandonasse as pílulas de vez, o sono retornaria e o pior pesadelo que já tive também, mas minha saúde ia se reerguer me fazendo voltar a viver minha vida normal como antes. Continuando nas pílulas, me manteria acordada sem o tormento do pesadelo à espreita no meu subconsciente, mas minha saúde iria para o ralo junto com minha esperança de reviver minha velha rotina.

A encomenda chegou um dia antes do prazo. Duas caixas que preservei como tesouros que se fossem roubados eu iria até o inferno para recupera-los. Eu era uma viciada, caramba. Digo... ainda sou. É como ser fumante em tempo integral tendo consciência do mal que isso causa. O mal que te mata por dentro e você não está nem aí. Cria um demônio psicológico que drena suas energias a cada vez que o alimenta. O crio com tanto esforço e ele me retribui com doença. Demônios são traiçoeiros mesmo. Mas eu queria ver até onde poderia ir, o quão longe isso podia chegar.

Na quinta e na sexta semana, começou minha reclusão, então via pessoas somente pela TV. Após terem perdido as peles, naquele momento a carne abandonava seus corpos. Eu começava a ver pontinhos amarelados e meio brancos... sim, eram os ossos. As pílulas permaneciam inseparáveis de mim. Eu me enxergava no espelho como eu era realmente, sem marcas ou feridas.

Na sétima semana, os ossos e crânios ficaram mais explícitos.

Na oitava essa maldição enfim alcançou o último estágio. Daí em diante fui percebendo que acompanhei pessoas deteriorem gradualmente. Ligava a TV para assistir um talk show à noite e tudo que meus olhos viam eram esqueletos vestidos interagindo como humanos vivos. Um espetáculo de mortos-vivos. Os dias foram passando... e tudo o que restou de traço de humanidade foi o meu reflexo no espelho. Essas pílulas malditas... lá no fundo não quero parar... não consigo parar.

O telefone tocou. Era o médico me ligando, após dois anos fora de contato, fingindo preocupação com a típica pergunta "Você está bem?". Menti dizendo que sim. Perguntou se deveria me visitar, eu respondi no impulso que por tudo que é mais sagrado ele não viesse de jeito nenhum, já era horrível ver programas de TV com esqueletos falantes, a última coisa que eu queria era estar diante de um pessoalmente e agir naturalmente. A minha reação contradisse a resposta anterior. Ele fez um diagnóstico à distância. Que legal... Mas ele me deu uma escolha decisiva. Sabia que era demais para eu suportar. A melhor paciente dele não deveria morrer aos poucos.

Sou esquizofrênica. Pois é... antes de ele me propor o desafio, contei toda a verdade e ele chegou a tal conclusão. Fiz uma pergunta. Quis saber se ele confundiu as pílulas. O site da farmacêutica responsável pela distribuição na clínica não tinha essa medicação no catálogo. Onde foram parar os remédios contra insônia? Ele disse que se enganou. Que mentira! Vou matar esse safado... Não, respira fundo, fica bem calma. A enganada sou eu em acreditar nesse pilantra, nesse arremedo de médico. Sobre o desafio... Ele prometeu me mandar uma última encomenda, mesmo não querendo mais nada vindo dele, não posso mentir pra mim... Foi tentador.

Tomar uma última pílula, a sedativa, assim as alucinações terminariam mas era necessário ficar inconsciente por tempo indeterminado até que o núcleo da pílula limpasse meu organismo e minha mente. Ele não me explicou porque aquelas pílulas faziam isso, sabia como funcionavam e recusou-se a falar... Se não foi engano, o que ele pretendia fazer comigo? Matar sua melhor paciente lentamente? Não importa o quanto eu perguntasse, ele se esquivava dizendo que vai ficar tudo bem, que alguém vai chegar aqui com a pílula sedativa e me levar para reabilitação e...

A campainha. Isso... é bizarramente estranho e coincidência demais acontecer em tão pouco tempo após a ligação do doutor maluco. Não vou a lugar nenhum. Sou viciada, entorpecida pelos meus demônios internos, mas não insana.

Pelo olho mágico eu vi a primeira visita que recebo em dois anos. A última pílula foi tomada há 8 horas. A TV está ligada e ainda vejo pessoas como esqueletos tagarelas.

Então quem é esse cara na minha porta que eu posso ver como completamente humano?

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Este conto foi escrito e publicado exclusivamente para o Universo Leitura. Caso o encontre em algum outro site com créditos e fonte ausentes, não hesite em avisar! 


*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Arte de Nick Veasey. Imagem retirada de: http://obviousmag.org/archives/2008/11/nick_veasey.html

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