Capuz Vermelho #30: "Quando se rompem as correntes"


* Nota do capítulo: Partes em itálico representam flashback ou menções específicas.

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CAPÍTULO 30: QUANDO SE ROMPEM AS CORRENTES


Era como se cada pensamento fosse uma peça de um vasto e complexo quebra-cabeças, lentamente se conectando às suas irmãs. As pálpebras pesadas denunciavam uma exaustão que indicava ser temporária, embora fosse tremendamente desgastante. Pouco a pouco abrindo os olhos, a realidade novamente se delineava à visão de Hector. Após reaver a consciência, pensou estar escutando gritos abafados... alguém desesperado próximo à ele.

- Hector! Fique comigo! Hector! - dizia Eleonor, aos prantos, tentando socorrer o caçador que havia desmaiado inesperadamente. Tocara nos ombros do caçador, balançando-o de leve para ver se o mesmo retornava. O colocara na cama de seu quarto.

A bruxa inclinara-se e encostara seu ouvido no peito de Hector, a fim de certificar-se de que ele estava respirando. "Ainda bem", pensou ela, passando suas delicadas mãos pelos cabelos pretos do caçador. Suas lágrimas escorriam e pingavam nas vestes esfarrapadas de seu parceiro.

Notara-o abrindo os olhos devagar, recuperando a lucidez. Abrindo um largo sorriso, Eleonor se prontificou a apoia-lo.

- Hector! Que bom ainda estar vivo! Nossa... não faz ideia do quanto...

O caçador arregalara os olhos repentinamente e se sentara, como que querendo se afastar da moça.

- Mas... O quê?! O que aconteceu? - fizera uma expressão de confusão. Olhara para o recinto onde se encontrava.

- Preciso que me diga, Hector... - disse Eleonor, sentando-se na cama e pegando a mão esquerda do caçador. - Qual a última coisa de que se lembra?

- Por que está me perguntando isso? Sinto que apaguei desde que... - cortara a frase, olhando para o nada, boquiaberto.

- Desde quando? - insistiu a bruxa, olhando-o ansiosa.

- Quando estávamos tendo aquela conversa sobre proteger Rosie... - disse Hector, voltando-se para ela, formando um semblante de desconfiança. - Isto explica tudo. Você apenas me enfeitiçou para me silenciar a respeito de Rosie e minha promessa. Não somente isso... mas para me manter preso aqui, um impedimento bem descarado da sua parte! - reclamou ele, fuzilando-a com os olhos.

"Impossível! O feitiço...", pensava Eleonor, estupefata, as palavras travadas na garganta. "É inconcebível! Eu treinei de modo que pudesse fazê-lo durar três dias inteiros! Não pode ser verdade... ele ainda deve estar sob o efeito... talvez ele volte ao transe em questão de minutos, o desmaio pode ter causado uma ruptura temporária.". Tudo o que ela mais gostaria naquele momento era estar errada.

- Não! - exclamou ela, levantando-se rapidamente da cama, tornando a andar de um lado para o outro com as mãos na cabeça em um evidente sinal de desespero absoluto. - Que merda! Que droga! Não era para isso acontecer de modo algum!

- Ei, ei! - repreendeu Hector, levantando-se. - O que há com você? Por que está agindo dessa forma?

- E você não me venha com sermões! - ditou ela, raivosamente, erguendo um indicador. - Eu tive minhas razões para recorrer à esse método, por mais... maldoso que fosse parecer, mas foi a única maneira que encontrei de mante-lo aqui, mante-lo em segurança.

- Eu não teria tanta certeza. - disse uma voz feminina vinda da porta do quarto.

Em simultâneo, ambos olharam para a entrada do cômodo.

Parada próxima à porta entreaberta, Alexia fitava a dupla com determinação e uma face séria. Seus cabelos ruivos estavam um pouco desarrumados e olheiras evidenciavam noites em claro.

Desconcertada com a presença da vidente, Eleonor deixou escapar um grunhido de frustração. Alexia, tomando uma posição firme, andou até Hector... que estava bastante surpreso por saber que a jovem estava morando lá.

- Eu fui a responsável. - disse Alexia, sem medo, virando-se para Eleonor. - Andei mexendo naqueles livros velhos de bruxaria enquanto você estava ocupada demais iludindo Hector... e me senti no direito de salva-lo.

A bruxa fizera uma cara de confusa, imaginando como Alexia, em tão pouco tempo, manipularia magias tão complexas... sobretudo as de reversão.

- Eu... não consigo acreditar. - disse Eleonor. - Salva-lo!? Olha... acho que fez um julgamento bem precipitado a meu respeito quando resolveu agir...

- Não, não fiz! - disse Alexia, aborrecida. - Eu vi absolutamente tudo. Você o beijou e o enfeitiçou com uma magia de ilusão, pouco ortodoxa, mas muito eficaz, o que pra mim é algo a ser usado para benefícios próprios, incluindo fins malignos.

Eleonor não conseguira reprimir uma risada.

- Está certa quando a benefícios próprios... - a bruxa continuava rindo, sem conseguir olhar para a vidente. - ... mas propósitos malignos!? - voltou-se para ela, assumindo um tom sério. - Jamais me rebaixaria a intenções assim, ainda mais se tratando de alguém que amo. É uma questão de proteção, Alexia. - apontara o dedo em direção à Hector, com um certo ar acusador. - Este não é mais o caçador que conheceu há dois anos.

- O quê!? - soltara Hector, esbaforido com o apontamento, olhando a bruxa com nítida reprovação.

- Nem tente fingir inocência agora, Hector. - disse Eleonor, colocando-se entre o caçador e a vidente. Voltou-se para sua "aprendiz". - Tentou impedir o livramento de um amaldiçoado.

Alexia engolira em seco, numa tentativa de não se abater com qualquer atitude ofensiva provinda de Eleonor. No entanto, um lampejo de curiosidade pareceu ter fragilizado suas barreiras.

- Do que está falando? O que quer insinuar? - perguntou Alexia, incomodada com as dúvidas.

- Que me tornei um monstro. - interveio Hector, antes que a bruxa respondesse prontamente. Aproximou-se da vidente, transmitindo um estado mais ameno. - Eis o motivo pelo qual ela e eu nos separamos. Presumo que ela se recusou a contar. - olhou de soslaio para Eleonor.

- Por uma boa razão. - defendeu-se a bruxa, irritada. - Que confiança ela teria em mim se caso eu revelasse o que houve naquela noite?

- Confiança esta que diminui a cada minuto que passa. - retrucou Alexia, desafiadora.

- Sob que ajuda você tentou conquistar a confiança de Alexia? - quis saber Hector, olhando-a seriamente intrigado. Naquele instante, sua avidez por respostas pulsava mais do que nunca.

- Em relação ao seu dom. Ela é uma profetisa. - disse Eleonor, olhando a vidente de relance, parecendo preocupada. - Parte de uma classe de seres humanos que vem à Terra a cada mil anos, um por vez. Me dispus a ajuda-la a superar as dificuldades que esse fardo trazia, graças a hipnose ela pôde visualizar eventos do passado. - fez uma pausa, mostrando-se hesitante.

Voltado-se para Hector rapidamente, Alexia se apresentou disposta a não esconder mais nada.

- Na primeira sessão eu viajei ao passado. Estive presenciando o exato momento em que Abamanu e seu oponente, Yuga, lutavam nos céus, exatamente nas Ruínas Cinzas... - dizia a vidente com a voz embargada de comoção ao revisitar o traumático fato em devaneios rápidos.

O caçador permanecera boquiaberto e estupefato por vários segundos. Não sabia mais a qual das duas se dirigir. Balançou a cabeça, desnorteado e confuso.

- Isto... me parece completamente implausível. Como assim, afinal? Profetas... eles veem o futuro, logo não faz sentido...

- Alimentar seu ceticismo estúpido não vai ajudar a sua mente a assumir esse fato. - provocou Eleonor, insatisfeita com o modo que o caçador reagiu á revelação.

- Já chega. - ditou Alexia, respirando fundo. - Já fiz e falei tudo o que tinha em mente. E se quer saber... - voltou-se para a bruxa. - ... não sinto culpa alguma pelo que fiz. Ameace-me se quiser. Prove o que quiser provar à mim... mas nada mais me fará confiar em você da mesma forma como quando nos conhecemos. - disse ela, enfezada.

- Ainda não me deu uma chance de me explicar. - disse Eleonor, transmitindo um ar tristonho. - Não vi outra saída a não ser esta. Eu esperava que o feitiço durasse o tempo pré-determinado para que assim a magia que utilizaria para fazer Hector controlar os impulsos de seu demônio interior estivesse em total equilíbrio sobre minhas mãos. Foi uma tentativa desesperada, eu sei... mas foi com a melhor das intenções, Alexia. - deu alguns à frente, aproximando-se da jovem. - Precisava ganhar tempo. Mas eu compreendo. Sou uma bruxa, afinal. - dera um sorriso forçado enquanto uma lágrima caía de seu olho direito. - Devido à meu clã ser rotulado como maligno e impuro pelas pessoas mais doutrinadas, não sou digna de confiança por fazer parte dele, ainda que me mostre divergente às regras. Eu perdoo o seu preconceito, Alexia. Assim como também sua atitude em tentar salvar Hector de mim. - enxugara os olhos com as duas mãos. - Talvez eu tenha errado, estou longe de ser perfeita. Talvez eu não tenha feito a escolha certa... Mas eu me senti obrigada a fazê-lo. Pelo bem de Rosie. Pelo bem de Hector.

- Nós já havíamos conversado sobre isso. - disse o caçador, austero e inflexível. - Mas você... rejeitou minha intenção de convence-la de que eu estava certo sobre mim mesmo. Eu... estou apto a proteger Rosie, custe o que custar, mesmo que eu carregue esta maldição dentro de mim. - olhou para Alexia. - Agradeço à você... por ter feito a coisa certa. - novamente voltou-se para Eleonor. - Acho que... você me impede que eu me veja pronto para confiar em você. Sairei por aquela porta de cabeça erguida. Com a certeza de ser capaz de controlar o monstro que há em mim. Eu sei o que sou. - olhou-a firmemente, de modo focado.

Alexia andara para um lado do quarto, estando aos prantos e soluços.

Sentindo-se como um pássaro livre de sua gaiola, Hector iniciara suas largas passadas, saindo do quarto e percorrendo o longo corredor que levava à sala de estar. Em estado de choque, Eleonor chorara com a face estática, atônita pelo que acabara de ouvir. Parecia que uma parte importante de sua vida desaparecera de sua frente como um fantasma. "O que foi que eu fiz? Ele... ele nunca mais vai voltar!".

Percebendo que Hector saíra do quarto, Alexia virara o rosto para a porta e andara para alcança-lo, deixando sua mentora sozinha e desolada no cômodo.

                                                                                         ***

Antes que Hector pudesse tocar na maçaneta da porta, Alexia o avisara para parar e ouvi-la.

- Hector! - disse ela, logo parando. - Sei que está afogado em dúvidas. Principalmente sobre como sobrevivi nas Ruínas Cinzas.

O caçador lentamente se virara para ela, a gola do sobretudo de couro marrom levantada. Seu olhar era de curiosidade expectativa, porém, parecia apressado e incapacitado de suportar mais do que conseguia ouvir sobre coisas das quais desconhecia.

A vidente fora chegando mais perto, vagarosa e timidamente. Seus aflitos olhos azuis e seus suaves lábios meio trêmulos indicavam forte insegurança.

- Não há tempo para falarmos sobre isso. - disse Hector, categórico. - Sinto muito, Alexia.

- Deixe-me resumir em poucas palavras. - insistiu ela. - Dois dias depois daquela noite. Aviões. Pessoas misteriosas. Sedativos. Alemanha. Campo de concentração. Magia de teleporte.

Por um instante, Hector divagara sobre o que a vidente estava tentando expressar através daquele breve resumo e nada esclarecedor. Assentiu calmamente para ela, vendo-se sem tempo e palavras para discutir as razões que levaram Alexia e Eleonor a se encontrarem.

Dera novamente as costas, andando até a porta.

- Não conte à Rosie que eu estou aqui. - pediu a vidente, a voz triste. - Muito menos sobre Eleonor.

- Pode deixar. - garantiu Hector, girando a maçaneta e abrindo a porta. - Ela não saberá... por enquanto.

- Ah! - estremecera ela, lembrando-se de algo extremamente relevante. - Hector...

- Sim. - disse o caçador, parando bem na soleira antes de sair. Olhou-a por cima do ombro.

A vidente juntara as mãos, seu semblante de pura apreensão. Para o que fosse dizer, não intencionava fazer com que Hector especulasse sobre uma visão que tivera.

- Resgate os outros. Estou torcendo por você e por Rosie. - ficara cabisbaixa. - E também Charlie...

- Não se preocupe, Alexia. - disse Hector, a voz calma. - Por mais obstáculos que surjam, não vou esmorecer. Rosie e eu iremos trazê-los de volta. Tenha a minha palavra.

E, por fim, despedira-se, fechando a porta.

                                                                                          ***

Notícias de última hora:

"Há dois dias havíamos informado que um intenso tremor foi sentido em toda a extensão do condado de South Yorkshire, mas que, por razões desconhecidas, sua causa não teria sido testemunhada. Eis que somente agora recebemos a informação complementar deste terrível fato. Vale novamente ressaltar que os dados sismográficos confirmaram um tremor na escala de 0.3, algo nunca antes visto na história da região ou do país. Uma investigação policial com o auxílio de sismólogos e cientistas conhecedores da radioatividade foi conduzida ontem, na área florestal de Sheffield, local onde pôde-se constatar a presença do epicentro que gerou o tremor. Um grupo de habitantes, que não quiseram se identificar, foi entrevistado por um dos policiais. Um deles - além de ter sentido o forte tremor - afirma ter avistado, a uma certa distância, uma densa nuvem de fumaça provinda da explosão. O relatório dos cientistas descarta a possibilidade de um uso criminoso da bomba nuclear, sendo que nenhum traço de radiação foi detectado. 

Fica, então, em aberta a questão sobre a misteriosa e colossal explosão. Lá, como sabe-se, estava instalada uma base industrial de uma empresa cujo nome nunca foi confirmado ou conhecido. Uma falha em algum mecanismo? Um crime forjado para parecer um mero acidente? 

Mais informações em breve." 

Adam desligara o rádio em um rápido movimento, girando o botão do volume e apertando no de desligar em seguida. Deixara-se cair no sofá novamente, dando um suspiro com boca denotando exaustão. A prazerosa noite que tivera ao lado de Rosie parecia estar fixa em sua mente - tão resistente à vontade do caçador em esquecer tal ocasião. Olhara para o teto, divagante. Mais cedo, implorara para a jovem permiti-lo a participar livremente das operações de resgate. Entretanto, havia esquecido que Rosie estava seguindo ordens explícitas. "Esse General Holt parece que se acha acima do bem e do mal.", pensou ele, lembrando do que a líder disse, reproduzindo as palavras do austero militar: O primeiro a ser resgatado não pode ser incluído, em hipótese alguma, na operação seguinte. Caso seja feito, uma punição recairá sob o líder que permitiu a participação. O castigo nada mais era do que uma substituição imediata e a total quebra de acordo com o líder desobediente.

"Ah, dane-se. Ela ficará bem. Rosie parece saber cuidar de si mesma.", pensou Adam, inclinando-se no sofá, pondo os cotovelos sobre os joelhos. Massageara as têmporas, preocupando-se sobre quem seria a próxima pessoa a ser resgatada. A teoria mais aceita por ele e Rosie era a de que Charlie não se encontrava em nenhuma das duas fábricas restantes, seguindo a lógica antes discutida. "Um prisioneiro para cada fábrica. Três. Contando comigo, são cinco prisioneiros. Supondo que Lester e Êmina estejam na fábrica que vai ser desmanchada daqui a três dias e Alexia e Charlie na última também no mesmo dia. Isto quebra a lógica que eu propus. Mas ela volta a ser válida, já que Charlie é o pote de ouro de Abamanu... e pode estar muito bem escondido, num lugar bastante secreto. Se é um prisioneiro em cada fábrica... não pode ser só Lester em uma e Êmina e Alexia noutra. Faz sentido.".

As batidas na porta da frente transpassaram os devaneios de Adam. Assustando-se um pouco, o caçador olhara para a porta, empertigando-se.

- Pode entrar! - concedeu ele.

O ranger fino ressoou pela espaçosa sala de estar bem arrumada. Uma figura de sobretudo de couro marrom e cabelos pretos que iam até a nuca e testa entrara ali calmamente. "Não pode ser...", pensara Adam, levantando-se depressa do sofá. Ajeitou as mangas de sua camisa branca, contemplando seus bons músculos.

Assim que terminara de fechar a porta, Hector estacara no mesmo ponto ao virar para a pessoa que estava de pé naquele cômodo. Sua expressão séria e travada logo transformou-se em espanto, deixando-o boquiaberto. Um sorriso enfraquecido foi se formando em sua face... e seus olhos ficaram marejados.

- A... Adam!? - disse o caçador-detetive, gaguejando e aproximando-se lentamente.

- Olá Hector. - disse o caçador de braços fortes, de modo sério. - Há quanto tempo, não? - perguntou, levantando uma sobrancelha.

O gesto causou rápida estranheza em Hector, que pareceu estar insatisfeito devido a falta de reciprocidade por parte de Adam. Algo aparentava estar muito errado. O que naturalmente se esperava de um reencontro parecia ter esfriado em uma estranha atmosfera negativa. Hector quase abriu os braços para abraça-lo, mas relutou em fazê-lo ao dar-se conta do quão inesperada foi a reação por parte de Adam, tendo que se limitar a encara-lo com confusão no olhar.

- Não faz... ideia do quanto eu esperei vê-lo de volta. - disse Hector, sorrindo forçadamente. - Sonhei com esse momento por inúmeras noites. Sofri com os pensamentos negativos que me atormentavam... - abrira um sorriso, olhando-o dos pés à cabeça. - Agora... estamos aqui, um diante do outro, eu não poderia estar mais feliz. Rosie, o Exército e os caçadores fizeram um ótimo trabalho. - andara para um lado, olhando para as escadas e a porta da cozinha. - A propósito, onde ela está?

- Saiu para uma reunião com o Exército. - disse Adam, também tranquilamente andando pela sala. - Tive que ficar aqui pois Rosie não tinha como pagar uma reserva num hotel. Parece que o chefe dela é bem casca grossa. - disse, em tom brincalhão, sorrindo.

- Ah... sim... - disse Hector, pouco à vontade. - O General Holt. Ele não parece ser do tipo de pessoa com quem alguém gostaria de ter no convívio.

Adam o fitou por alguns segundos, estreitando os olhos, chegando um pouco mais perto. Sua expressão estava mais incisiva do que nunca.

- Você... está bem diferente. - comentou Hector, notando a total ausência de cabelos na cabeça do amigo. - Imagino o quanto deve ter sido difícil suportar.

- Sim, verdade. Cada minuto parecia ser um salto para a morte. - desabafou ele, continuando a andar até Hector. - Me obriguei a passar dias em jejum. Em outros, tive que comer o que encontrava pela frente. As vezes, uma carne suculenta de um rato de esgoto ou camundongo. Em outras... baratas e lagartos. Para aliviar a sede que me consumia... eu tive que cuspir e beber de volta minha saliva... apenas para manter a ideia da água fresca passando pela garganta. - sua voz embargava-se de emoção. - Mas nem de longe esta foi a pior dor.

Hector franzira o cenho. Um inconfundível sentimento de nervosismo o acometeu. Uma rememoração súbita na mente se fez, fazendo seus pelos eriçarem-se. Uma voz alarmante e colérica gritava na sua cabeça, vibrante.

- Foram dois anos da minha vida em uma cela, vivendo como um animal enjaulado. Dois anos jogados fora. - disse Adam, cerrando os punhos.

- Olha... Adam, se estiver ansiando por um abraço, saiba que... - fez uma pausa, sentindo-se inseguro. - Não, na verdade eu deveria ter feito isso desde que entrei e o vi. - tentou abrir os braços. - Pode vir... chore se quiser.

- Não vou chorar. - disse o caçador, indicando raiva no tom. - Afinal... por onde esteve? Onde estava quando Rosie veio com aqueles homens me resgatar?

- É uma longa história... - desconversou Hector, indisposto para falar sobre sua passagem pela casa de Eleonor. - Por que está falando desse jeito? Como se estivesse querendo me culpar por algo que fiz de errado. - olhou-o firmemente.

- Os escombros causaram amnésia em você, por acaso? - perguntou Adam, expressando desconforto. - Responda-me primeiro: Como sobreviveu? - aproximou-se um pouco mais, esbanjando um caráter de um interrogador ante ao criminoso.

- Achei que Rosie tivesse lhe contado. - retrucou Hector, a fala rápida e nervosa.

- Digamos que nós estávamos focados em outro assunto... - fez uma pausa, olhando para o chão, hesitante. - Mas isto não vem ao caso. Me diga. Como saiu vivo de lá? Depois da queda, tudo de que lembro é apenas... escuridão... depois uma cela imunda no subterrâneo. Eu pensei: "Sou o único sobrevivente?". Foram dias temendo o futuro, eu precisava de respostas o quanto antes. Primeiro você, Hector. - fez um rápido gesto com a mão estendida para permitir ao caçador falar.

- É difícil explicar com tantos detalhes... - resistiu Hector, intimidando-se. - Apenas sei que abri os olhos, senti o ar novamente encher meus pulmões e que a vida tornou a fazer parte de mim. Procurei por você, por Lester, Rosie, Alexia, Êmina... fui tomado pelo desespero absoluto, achando que todos haviam morrido. - fizera uma pausa, suspirando pesadamente, olhando para a janela. - Quando reencontrei Rosie... pouco tempo depois fomos até uma fábrica próxima à esta floresta. Mas ela já foi desmanchada há alguns dias atrás. Compartilhamos o mesmo temor.

- E o que temiam? - perguntou Adam, o tom duro, os olhos austeros fixados no amigo.

Hector voltara-se para ele com um semblante de angústia.

- Que Abamanu tivesse submetido-os à infecção da substância. Tendo isso em mente, os resgates não passariam de distrações, enquanto ele pressionava Charlie a aperfeiçoar suas técnicas de acesso a outros mundos. - dera alguns passos à frente, sem tirar os olhos de Adam. - Você... pelo visto, não parece demonstrar sinais claros de que está infectado...

- Não. - interrompeu Adam, balançando de leve a cabeça negativamente. - Nenhuma gosma preta e grotesca está correndo nas minhas veias. Sim, Rosie me contou sobre o hospital, o coma, o pesadelo que teve antes de acordar...

- Espere. - disse Hector, arqueando as sobrancelhas, instantaneamente tornando-se curioso. - Rosie teve um...

- Ah, sim! - disse Adam, estalando os dedos, olhando para Hector com certo deboche. - Acabo de descobrir que ela não contou à você. Sábia decisão ela teve. - dera uma piscadela rápida.

Hector, gradualmente, sentia como se o chão sob seus pés começasse a ceder e o lugar parecesse encolher até esmaga-lo ou sufoca-lo. Uma náusea perturbante pareceu arranhar sua garganta com aquela manifestação raivosa de seu grande amigo. A primeira impressão fora de um certo rancor externado pelo líder da Legião dos Caçadores. O caçador-detetive sabia muito bem a razão para tal comportamento. "Preciso sair daqui... antes que Adam fique completamente fora de si... e eu também!".

- Vamos lá, Hector, admita. - continuou Adam, sorrindo com ironia, dando mais passos em direção à Hector. - Admita que não é digno da confiança valiosa que Rosie pode oferecer a alguém com um coração sincero.

- Sim. - aquiesceu Hector, mantendo a calma. - É um mérito que talvez não me pertença... Mas não vamos por Rosie entre nós nesta questão. Minha falha com ela não é nada comparada a que cometi à você e aos outros.

- Ótimo, falemos disso então. Os outros podem até sentirem certa piedade e deixarem passar, mas eu... - balançara a cabeça em negação, passando as mãos pela cabeça e andando pela sala. Voltara-se rapidamente para Hector, fuzilando-o com os olhos. - Como pôde ter sido tão fácil ela perdoar você? - perguntou, vociferando. - Será que também pensa que será fácil pra mim? Hein? Anda, me fala! - andara até o caçador a passos rápidos, logo pegando-o pela gola do sobretudo com as duas mãos, aproximando-o.

- Adam... por favor, não vamos... - afligiu-se Hector, permanecendo passivo.

- Por que? Só me diga o porque. - exigiu saber Adam, apertando a gola da vestimenta de Hector com toda força. - A primeira coisa... que pensei depois de acordar naquela maldita prisão fétida... foi em você. Você falhou com todos nós... Aquele seu amigo... Michael. Não é esse o nome daquele cretino que ia pôr uma bala na sua cabeça? - fez uma pausa, rangendo os dentes e o fitando com ódio. - Depois... depois do que ele disse... senti como se uma pedra tivesse esmagado meu coração. Olha, eu prezo pelos meus outros amigos, preservo muita estima por eles... - olhou-o de baixo à cima tristemente. - Mas você... Você era algo que considerava mais próximo de um irmão que já tive.

- Eu era!? - redarguiu Hector, sentindo-se preso a um gigante enfurecido. - É doloroso para mim... ter a oportunidade de admitir que também sentia o mesmo por você só agora... Desde o dia em que nos conhecemos, eu percebi que tínhamos uma conexão, um vínculo, como se nada pudesse impedir o destino. Aquele legado... não me pertencia. Meu propósito era estar ao lado de vocês.

- E falhou miseravelmente quando escondeu isso de nós. - atacou Adam, irredutível. - Por que logo você, Hector? Devo dizer que também está diferente... consigo ver... - soltou-o, recuando poucos passos, deixando sua expressão de desalento definhar seu âmago. - Eu já estava preparado para quando fôssemos ficar cara à cara novamente após meu retorno... Preparado para destruir todo o mal que essa decepção causa em mim.

Hector parecia perdido. Mas a apreensão interna soava como um furioso animal querendo se desprender de suas correntes e causar uma vasta série de reações possíveis. Cerrara os punhos, respirando mais fortemente, mantendo a cabeça erguida como uma demonstração de resistência.

- Eu tive minhas razões. Mais que suficientes para ter que aceitar esse fardo. Culpe Robert Loub... por ter ameaçado minha família e me chantageado descaradamente.

- Ah, então Loub e seu pai...

- Sim! Eles eram grandes amigos! - vociferou Hector, exasperado. - Adam, não estou disposto a discutir sobre o que me levou a esconder essa verdade. Eu estava dominado pelo medo. Rosie até me culpou por isso, por ter me entregado às ameaças daquele maldito.

- Isto só significa uma coisa: Você foi fraco. - disparara Adam, olhando-o com ojeriza tremenda. - Você e Loub... ambos possuem suas parcelas de culpa. - dera uma rápida risada nervosa. - Que coisa estranha. - tornara a olhar Hector com cólera. - Me parecem tão iguais agora.

Um fervor de sensações fizera o sangue de Hector adquirir ebulição. Fitara Adam com uma expressão de dor e desilusão, balançando a cabeça e tornando a ficar cabisbaixo.

- Como diz o velho ditado... - dissera Adam. - Quem cala...

Repentinamente, um rápido soco desferido por Hector cortara a frase do robusto caçador.

                                                                                          ***

Inglaterra - 1933

O som do apito soara fortemente agudo nos canais auditivos dos vigorosos jovens que se empertigavam e atentavam-se para um urgente chamado. A área florestal havia sido emprestada pelos guardas que a mantinham segura e restrita à visitantes suspeitos, sob o argumento de um importante treinamento para futuros guerreiros que lutariam contra forças além da compreensão humana - mas obviamente não justificado desta forma, e sim afirmando que eram testes para o Exército. Com a permissão concedida, as barracas de acampamento foram armadas e assim começara a última fase dos testes de qualificação, na qual passaram cerca de 30 aprendizes. 

Aproximaram-se eufóricos, os rostos ansiosos cintilados pela luz alaranjada das tochas colocadas em madeiras fixadas no solo ao redor da área. O resto da floresta era iluminado pela mortiça luz do luar esplendoroso daquela noite. Alguns guias orientavam-os para se organizarem a fim de poderem ouvir o que mentor-chefe da fase estava para dizer. 

Era um homem baixinho e careca, com uma face meio ranzinza e que vestia um uniforme de couro marrom escuro com aspecto meio militar e uma boina preta. Subira numa espécie de palco, segurando o que parecia ser uma papelada para ser entregue aos participantes. Olhara para os rostos joviais dos selecionados com calma. 

- Muito bem. É com muito orgulho que agora anuncio à vocês o início do último teste. Para os que chegaram até aqui... que enfrentaram as duras provações necessárias... e que tanto almejaram conquistar um mérito honroso por estarem aqui e agora o desfrutam... Vocês terão a chance de contemplarem o perigo e sentirem na pele o desafio de um verdadeiro caçador. - fez uma pausa, olhando de soslaio para sua direita, na qual estavam três caixas quadradas e pintadas de verde, com um orifício na superfície superior. Estavam sobre troncos de árvores retirados e posicionados ali pelos outros guias. Os participantes usavam placas redondas e brancas com um determinado número, colocadas como um broche na roupa.

O mentor da etapa continuara: 

- Vejam. - apontou para as caixas. Os jovens acompanharam o olhar o mentor. - Dentro destas caixas existem bolas com os números que vocês possuem nas placas. Para pouparmos tempo, será preciso que vocês formem filas, três grupos de dez para cada caixa. A tarefa será realizada em duplas. O participante terá de tirar a bola com o número de outro, logo este será seu parceiro na caçada. 

- Ei, espere aí! - disse um rapaz magrelo, pálido e de cabelo preto curto, levantando a mão. - Você... você disse caçada?! - perguntou, a voz trêmula e o tom incrédulo. 

O mentor o olhara com desdém, parecendo pouco se importar com as dúvidas do jovem aprendiz. 

- Sim, Cooper. - respondeu, secamente, logo voltado-se para seu público. - O último teste da fase qualificatória consiste em formar duplas que devem seguir pela floresta com o objetivo de caçar uma determinada criatura, aquela que lhe for mais atraente ou que lhe parecer despertar seus instintos de sobrevivência e coragem. - entregara a papelada para um dos guias ao seu lado, sussurrando algo rápido. O homem descera do palco e distribuíra os papéis aos jovens. - Prestem atenção. - continuara o mentor. - Estas folhas são mapas com os quais se guiarão até os trailers onde devem ir. Neles estão bibliotecas onde podem pesquisar a vontade sobre a criatura que desejarem caçar, mas isto por durante um tempo de uma hora. Há vários espalhados por aí com acervos que compreendem mais de 200 livros. Duas ou mais duplas podem compartilhar do mesmo trailer e, especificamente, de uma mesa de leitura, dentro do limite visível. Se assim for, em caso de desentendimentos ou divergências, é obrigatório que alguém relate isto á mim, pois irei punir com uma desclassificação imediata. As duplas que tiverem êxito na caçada, devem trazer a criatura morta. Porém, as que voltarem uma hora após o amanhecer, ainda que tragam seus alvos mortos, não serão classificadas para a próxima fase, mas garantirão licenças para caçadores de aluguel vitaliciamente, não podendo retornar ao Colégio para novos exames.  - olhara-os firmemente, a face séria. - Fui suficientemente claro? 

Todos responderam "sim" em uníssono. 

- Boa sorte a todos. - encerrara o mentor, dando as costas e dirigindo-se à sua tenda armada um pouco mais distante, sendo acompanhado por outros guias. 

Os 30 fizeram filas em grupos de 10. Na caixa do meio, o primeiro da fila era um jovem alto, de face séria e com cabelos pretos e lisos relativamente curtos que iam até a nuca. Seu nome era Hector Crannon. Exímio aprendiz que conseguira, com folga, avançar em todos os testes devido ao seu alto grau de estratégia. Apenas os melhores e mais dedicados estavam ali presentes, mas somente poucos conseguiriam apreciar a honra de serem aprovados para a fase preparatória, na qual ocorreria a seleção rigorosa e precisa dos membros que deveriam compor a nova formação da Legião dos Caçadores. 

Hector colocara sua mão dentro da caixa, fechando os olhos, mantendo-se esperançoso sobre quem tiraria. Aleatoriamente, escolhera uma bola e a retirara. Virou-a para ver qual número a mesma tinha. 52. Sua expressão parecia satisfeita... olhara para a fila à sua esquerda, na qual o terceiro estava prestes a sortear o seu parceiro. Rapidamente vislumbrou sua placa... e teve certeza. Não o conhecia muito bem, apenas o via sempre conversando com outros participantes em rápidos papos. Os mentores idealizavam que a última tarefa serviria também para abrandar as tensões e incitar o entrosamento entre finalistas. 

O número 52 era um rapaz de músculos fortes, truculento, rosto robusto e face sisuda. Quando chegara sua vez, demonstrou uma reação indiferente e sem expectativas. Tirara o número 44... o qual pertencia à Hector Crannon. Olhou para seu novo parceiro, que no momento andava de um lado para o outro analisando o mapa um pouco longe dali. 

                                                                                       ***

As costas de Hector impactaram-se contra parede de um modo brusco e violento. O caçador caíra de frente contra o chão, expressando dor em sua face. Uma rachadura ficara lá.

Adam se aproximava, bufando em irritabilidade extrema, os punhos fortemente fechados. Enquanto isto, Hector levantava-se, até ficar de um só joelho, recuperando a calma... ou pelo menos deixando que sua raiva recém-adquirida fosse extravasada sem que ele pagasse um preço muito alto.

Olhara para Adam com severidade.

- Não esperava que fosse reagir dessa forma! - disse Adam, bravo. - Tem muita coragem!

- Como ousa... Como ousa me comparar com aquele monstro? - vociferou Hector, revoltado. - O que há com você, afinal? Sendo franco, nem o reconheço mais! - admitiu, frustadamente.

- Eu que o diga! Igualmente Hector! - respondera Adam, aos gritos. - Não tem mais volta! Não há mais como fugir disso!

- Quem? - perguntou Hector, levantando-se. - Eu ou você?

Um silêncio pesara entre ambos por vários segundos. Adam dera um suspiro dramático, os olhos fechados. Abrira-os, fitando seu ex-parceiro ainda com ódio.

- Honestamente... acho que não existe mais nada para provar. Uma coisa é certa: Você é a ovelha negra da nossa equipe. Na verdade, sempre foi.

- Se notava algo estranho em mim desde o dia em que recebemos nossas licenças de caçadores... ao que parece não foi totalmente honesto para expressar esse incômodo. - retrucou Hector, recuando alguns passos.

- Nem pense em fugir. - disse Adam.

- E por que eu fugiria? - questionou Hector, estreitando os olhos, a testa sangrando. - Todas as saídas que eu imaginava para conquistar algum tipo de salvação foram fechadas à mim. - fez uma pausa, limpando o sangue da boca. - Não vou abaixar a cabeça... à comparação infame que você fez. Portanto, eu digo que estou profundamente arrependido. Não passa um dia sem que isso não me torture. - encarara, desta vez,  com um olhar tristonho. - Se fosse possível, eu faria tudo para desfazer. Tudo para voltar para atrás. Adam... se o que falo não bastar para que me perdoe... então a porta está aberta para que você saia...

- Então está me pedindo para ir embora? - perguntou Adam, franzindo o cenho, dando alguns passos lentos à frente. - É isso? É assim que vai ser? Pensa que isso ameniza as coisas? Deixa tudo mais fácil para nós dois? Inacreditável. - dera um riso rápido, denotando deboche. - Eu convivi por 5 anos com alguém que pensava ter um coração puro... alguém que com quem eu gostava de estar próximo e prestar apoio sempre que preciso! Convivi com uma ramificação de um maldito legado... sobre uma fraternidade maléfica. - fez uma pausa, chegando mais perto. - Sabe o que estou pensando agora? Que o inimigo esteve infiltrado na nossa equipe durante todo aquele tempo!

- Está sendo inflexível demais... - disse Hector, em uma tentativa vã de convence-lo. - Sei como se sente. Mas não seria pedir demais para que... se acalmasse e tentasse me ouvir.

- Já ouvi o bastante. Prefiro ser poupado de desculpas esfarrapadas. - atacou Adam, duramente. - Nós dois sabemos como vai terminar. E será agora.

Um mau pressentimento assaltou Hector na forma de um arrepio. "Por favor... se tiver falado a verdade... preferiria que não mostrasse olhos pretos.".

- O que irá fazer? - perguntou Hector. - Vamos, ande! Se quiser me matar, o faça neste exato momento! Faça isto se acredita ser a única saída para você se livrar dessa dor!

- Não! - exclamou Adam, grosseiramente. - Não sou um assassino de seres humanos. Sou algo que você jamais se tornará.

- Ah é? - indagou Hector, franzindo a testa, demonstrando ceticismo. - Então me diz o que nunca serei nesta vida.

- Um caçador com um mérito limpo. Autêntico. - disse Adam, parecendo soar de modo vanglorioso. - Essa é a diferença entre nós dois, Hector. - sua voz ganhara comoção novamente. - Eu não fui concebido para ser parte do mal neste mundo.

- Eu rejeitei vestir aquele manto vermelho. - argumentou Hector, cerrando os punhos.

- Mas ainda assim é filho de um deles. - redarguiu Adam, rapidamente. - Isto pra mim já é o suficiente para que você mereça meu repúdio!

- Isso é deplorável. - disse Hector, balançando a cabeça em negação. - Está completamente cego pela raiva. E pensa que é desta forma que vai conseguir ser um caçador equilibrado?

O sangue de Adam fervera de modo a deixar as veias de sua testa em relevo.

- Não me provoque, seu traidor maldito! - dissera, avançando contra Hector com um forte cruzado de direita.

                                                                                         ***

O canto dos grilos e outros insetos eram os únicos sons audíveis naquela floresta. 

Hector e Adam (números 44 e 52, respectivamente) caminhavam alertas, iluminados pelo luar. Marcaram no mapa a exata direção que determinaram em seguir. Porém, um lampejo em Hector o obrigou a expressar um detalhe aparentemente passado despercebido pelo mentor. 

- Espere um minuto. - disse ele, parando a caminhada, levantando a cabeça e fitando a floresta bastante pensativo. 

- O que foi? - perguntou Adam, olhando-o. - Está apertado? Essa floresta parece o melhor banheiro público que existe. 

- Não, não é nada disso. - disse Hector, voltando-se para ele, sério. - Será que não passou pela cabeça do mentor Gillian que mais de dois grupos podem optar pelo mesmo trailer? 

- Bem, isso é uma hipótese interessante... - disse Adam, pondo uma mão no queixo. Olhou para o parceiro, sorrindo. - Me parece que vai se encarregar em ser o cérebro da equipe. - dera uma risada. 

Hector sorrira, rindo levemente. 

- Bem... não querendo me vangloriar, mas... Sou muito grato por me sentir dedicado nas aulas físicas e teóricas. Muito disso... foi devido ao incentivo dos meus pais. - contou Hector, suspirando em seguida. Um ar de angústia fora esboçado. 

- Sobre seus pais... - quis saber Adam, interessado. - Você... deve estar sentindo falta deles. Não é? 

- Tudo bem. - amenizou Hector, balançando a cabeça, tornando a andar devagar. - Nos últimos dias, tenho resistido à saudade. Principalmente quando soube do último teste. - olhou para Adam, confiante. - Que tal fazermos um juramento? 

- Juramento? - indagou Adam, franzindo o cenho para Hector. - Olha, é o último teste, estou muito nervoso. Do jeito que você tem conquistado a admiração dos outros... a aprovação dos mentores... acredito que não passarei no teste teórico da fase preparatória. Sabe como é né? Nem minha pobre grafia é tolerada. - sorrira levemente. 

- Não perguntei se acredita na vitória, perguntei se quer fazer um juramento. - ressaltou Hector, insistente. - No qual possamos prometer um ao outro que iremos vencer... juntos. 

Adam dera um riso forçado e nervoso. 

- Eu não sei não. - hesitou ele. - Deu pra perceber que somos bem diferentes... Não estou muito de acordo com essa ideia. Tudo pode acontecer. 

- Pois eu acredito. - disse Hector, esbanjando certa determinação, andando com mais pressa por entre as árvores. - Sei que devido a meu grau de aprovação, podemos não perder juntos. Mas se agirmos em sincronia, compartilhando do mesmo ideal... você pode se juntar à mim, logo venceremos unidos. 

Adam o olhara por alguns segundos, intrigado. Voltou-se para frente, respirando fundo. 

- Você... parece ser bem otimista, Hector. - disse ele. - Uma pena só agora estarmos... nos conhecendo melhor. Aquele Lester, por exemplo, olhava você nas provas físicas com uma admiração bem cômica. Parecia que estava prestes a lhe pedir um autógrafo. - dera uma risada. 

- Sim, eu também notei. - disse Hector, também rindo. - Eu vi ele mostrando o número que havia tirado. Parece que agora está acompanhado de Êmina. 

- A garota que diz ser uma alquimista? - perguntou Adam. 

- Exatamente. - respondera ele. 

- Acha que eles tem alguma chance? - perguntou Adam, curioso sobre a opinião do parceiro. 

- Isto depende. Ela não vai poder utilizar nenhuma de suas habilidades alquímicas durante a caça, mas ela pode tentar alguns truques se a situação se tornar crítica. 

- Seria desclassificação imediata se isso acontecesse. - comentou Adam, arqueando as sobrancelhas. 

- Não se Lester for dominado pela personalidade forte dela. - disse Hector, quase aos sussurros. - Pelo que tenho visto, ela não parece ser do tipo que aceita parceiros de caçada que lhe pareçam um estorvo. 

Riram efusivamente desta vez, quebrando o clima silencioso da floresta. 

O trailer logo fora avistado por ambos alguns metros à frente. Da distância em que estavam , podiam ver sua lataria pelas brechas das árvores mais próximas à ele. 

- Vamos. - disse Adam, começando a correr. - Vem, rápido. - dera uma rápida olhadela para trás vislumbrando Hector. O rapaz de braços fortes já sumira pelos densos arbustos, embora sendo possível segui-lo e alcança-lo pelos movimentos que as folhagens realizavam devido à rapidez do jovem. 

O aprendiz de número 44 cedera ao pedido e também iniciara uma corrida na mesma direção. 

                                                                                          ***

Hector desferira um novo golpe contra o rosto de Adam na forma de um punho esquerdo fortemente fechado. O braço forte da Legião cambaleara para trás por alguns segundos. Alguns pingos de sangue que caíam de seu nariz quebrado manchavam sua camisa branca. Limpou sua boca e encarara o ex-parceiro com tamanha fúria que o fez novamente bufar como um touro raivoso prestes a avançar mais uma vez contra o toureiro. Socara Hector na face, desta vez em sequência.

Após esmurra-lo incontáveis vezes, Adam aparentava querer encerrar aquele embate de uma vez por todas, dando um giro e um chute no tórax de Hector em seguida. O caçador amaldiçoado voara contra uma estante com portas envidraçadas- a que segunda, restada após a invasão de meta-simbiontes na casa. Arrastando-se no chão pronta e rapidamente para escapar dos finos estilhaços de vidro que caíam, Hector idealizara poder escapar pela cozinha, visando a porta da mesma enquanto seu rosto repleto de hematomas cortava-se com ínfimos cacos. Usara os cotovelos para chegar até o destino... mas mãos brutas agarraram seu sobretudo e o lançou de encontro à uma pequena mesa de madeira no centro da sala. O impacto fora sentido por todas as vértebras de sua coluna. Rolara pelo chão por poucas vezes.

- Adam... - dissera Hector, a voz entrecortada, posteriormente tossindo uma certa quantidade de sangue enquanto se esforçava para se reerguer. - Isto... é completamente... desnecessário. - ficara de joelhos, sendo isto o máximo que suas forças permitiam. Seus olhos roxos e inchados visaram um ainda furioso Adam.

- Está errado. - devolveu ele, aproximando-se mais, a respiração pesada podendo ser ouvida. - Estou lhe dando o que merece. Se tem algo que não tolero são traições e segredos a longo prazo. Sinceramente, tenho que dizer que isto me deixa muito, mas muito irritado!

- Então esta punição vai culminar em minha morte... - disse Hector, mal conseguindo falar devido aos ferimentos no rosto. - Pois... não contei exatamente tudo...

- Repito: Já ouvi o bastante! - bradou Adam, fechando os olhos e abrindo-os em seguida. Rangera os dentes e agarrara Hector pela gola do sobretudo. - Isto está doendo mais em mim do que em você. Não faz a menor ideia, droga! Eu tenho que liberar esta raiva... para no futuro não ter que me sentir culpado por reprimir sentimentos que me dominam.

- Você... - tentou falar Hector, parecendo estar tonto. - ... possui todo o direito de externar sua fúria e descarrega-la em mim. Mas a agressividade... a punição através dela é vazia, irrelevante.

- Não seja hipócrita, você começou e revidou várias vezes...

- Por que é assim que funciona, Adam! - disse Hector, esbaforido, aproximando seu rosto altamente machucado ao do ex-parceiro. - Não foi isso que aprendemos juntos... no acampamento? Ação e reação. Acho que... deve se lembrar... tem que se lembrar... do juramento que fizemos... sobre lutarmos juntos, vencermos juntos.

Adam virara o rosto em ojeriza, fechando com intensidade os olhos e rangendo os dentes. seu rosto estava vermelho em ira e suas mãos agarravam Hector cada vez mais apertadamente.

- Nós lutamos com todas as nossas forças naquela noite... e perdemos. Perdemos feio! - retrucou o caçador robusto. - Abamanu está comandando seus novos monstros e liberando um veneno para matar a raça humana. Acha que depois daquilo eu vou retomar aquela ideia? Não existe mais juramento algum. - uma lágrima caíra de seu olho esquerdo. - Eu estou vendo... tudo o que construímos juntos... ruir diante de mim. Você vencia sozinho... Será que é forte o bastante para perder sozinho?

Um minuto de silêncio parecia durar mais do que deveria. Apenas o tic-tac do relógio ocupava o emudecimento. Hector pegara no braço esquerdo de Adam, denotando querer levantar-se.

- Ao menos... deixe-me levantar. - pediu, com carência.

Olhando-o com desprezo puro, o caçador o soltara rápido, afastando-se.

- E não me toque! - afastara seu braço esquerdo das mãos de Hector.

- Sobre eu não ter contado tudo à você... - disse Hector, sem temer as possíveis consequências que sua última revelação traria. - Lamento profundamente... que seja dessa forma. Lamento que duvide do meu arrependimento. - fez uma pausa, virando as costas, cabisbaixo. - Não tenho outra escolha...

Numa fração de segundos, de modo súbito, Hector virara-se para Adam dando um rugido feroz e apresentando uma face monstruosa. Pelos em seu rosto, sua pele meio enrugada e, sobretudo, presas pontiagudas.

O líder da Legião imediatamente recuara vários passos, encarando com horror, logo dando um gutural urro de susto... e principalmente de decepção.

                                                                                            ***

- E aqui está! - dissera Adam, levantando da cadeira de modo abrupto e apontando para uma página do livro que estava utilizando para pesquisar. 

Hector o fitara com uma expressão neutra, depois levantando uma sobrancelha em denotação de espera pelo caçador dizer o que descobrira. 

Desfazendo o sorriso, Adam franziu o rosto e virara o livro para Hector a fim de que o mesmo visse a criatura alvejada e selecionada. Ao lado do número 44 havia uma pilha de livros sobre seres das mais diversas espécies, naturezas e singularidades extraordinárias. Ambos estavam frente à frente, sentados em uma mesa redonda branca no interior do trailer que mais assemelhava-se a uma biblioteca de uso gratuito. Luminárias esguias na mesa com luminosidade amarelada proporcionavam toda a facilidade para a compenetração necessária, além de tornarem o lugar menos tenebroso. 

As estantes de madeira vermelha abrigavam coletâneas de valores incalculáveis, todas pertencentes ao vasto acervo do Colégio dos Caçadores e retiradas das bibliotecas extensas da base principal e postas naqueles veículos imóveis nos arredores da floresta especialmente para aquela importante batalha final para a garantia de uma vaga na fase preparatória. 

Adam empurrara o livro aberto até Hector, mantendo-se levantado. Apoiou as grossas mãos na mesa e ficara no aguardo da opinião do parceiro acerca do escolhido. Hector colocara a mão no queixo, avaliando os atributos da criatura. 

- E então, o que acha? - perguntou Adam, ansioso. - Lupus. - deu um sorriso de canto de boca, em satisfação. 

- 'Conhecidos por deterem código genético totalmente mutável quando transformados. Influenciados pela lua cheia, embora possam metamorfosear livremente durante qualquer hora do dia. - olhou para Adam. - Há uma lua cheia lá fora? 

- Sendo tão detalhista, pensei que já havia percebido antes. - disse Adam, em tom brincalhão. 

- Bem... - disse Hector, voltando à leitura. - Seletivamente, posso reunir as informações que nos são úteis, tais como: São quadrúpedes, bastante semelhantes à lobos selvagens, demarcam território assim que veem humanos ou outros que não pertencem a seu clã, também adquirem olhos vermelhos quando incitados a atacar... e são vulneráveis á prata. Ah, e uma informação adicional: Suas habilidades são amplificadas em ocorrências de eclipses lunares. - fechara o livro, por fim. Com um fino baque, uma pequena nuvem de poeira saíra e lançara-se no ar, evidenciada pela luz da luminária. - Tem mesmo certeza? 

- Tem uma sugestão melhor? - indagou Adam, arqueando as sobrancelhas. - Pelo que percebi, os livros que estava lendo não pareciam tão interessantes. Além do mais, é vantajoso para nós dois, ainda mais se formos vitoriosos. É um licantropo, uma das criaturas mais temidas em todo o país e nos fronteiriços, mesmo sua existência não sendo de conhecimento geral. 

- Parabéns, acabo de descobrir que Adam Bolton possui um gracioso poder de convencimento. - disse Hector, sorrindo satisfeito, levantando-se. - Será que teríamos chance contra um Wendigo ou um vampiro ? Eu creio que nos sairíamos bem. - pegara sua mochila com armas e dirigira-se à porta do trailer. 

- Vamos logo, não reclama. - disse Adam, empurrando-o de leve e rindo. Hector rira em seguida ao sair, inflando o peito ao adentrar novamente na sombria noite, indo na frente. Seu peito carregado de bravura o convencia de seu possível êxito. 

Após cerca de meia hora, os dois andarilhos noturnos empunhavam rifles médios munidos de balas de prata. Ambos olhavam para os lados, os instintos em alerta. Por um instante, Hector pegou-se reparando nos braços musculosos do parceiro, rapidamente fazendo uma comparação e refletindo sobre a importância daquilo para a missão. 

- De fato, esses músculos serão de grande ajuda. - disse, voltando as atenções para os arredores, mirando a arma próximo às árvores mais altas. - Para no caso de um ataque-surpresa. 

- Queria ter os usado para algo útil num passado distante. - disse Adam. - Queria ter evitado a tragédia.

- Do que está falando? - perguntou Hector, apto a saber, andando mais alguns passos lentos. 

- Você tinha me contado sobre seus pais... - olhou para o parceiro, sério. - Eu sinto muito. Principalmente sobre seu pai.

- Acha que é sua vez agora? Se for doloroso, não tem obrigatoriedade... 

- Não, está bem, faço questão. - disse Adam, parando de caminhar, abaixando a arma. Suspirara longamente, reflexivo. - Excursão da escola. Foi o dia mais divertido da minha vida. Depois veio a pior noite de todas... 

Hector virara-se para ele, interessado em ouvi-lo, aproximando-se um pouco. 

Adam prosseguira: 

- O sol já havia se posto. Cheguei em casa, eufórico, quase dando cambalhotas de alegria. Senti um cheiro estranho. Algo estava... apodrecendo... e então eu entrei... e os vi no chão... - deu de ombros, olhando de modo tristonho para frente. - Só lembro de ter me ajoelhado e petrificado. Depois eu fugi sem rumo. Não conseguia sentir mais nada além das lágrimas. E aquela imagem ficou gravada na minha mente. Eles me apoiavam... sobre vencer meus piores medos. Eu temia lobisomens. Quando relatei à polícia sobre o assassinato deles, fiquei sem chão, pois não acreditaram em nenhuma palavra do que eu disse. Mas eu tinha absoluta certeza - olhou para Hector. - Acho que é isso que nos torna iguais. Partilhamos de tragédias semelhantes... com pessoas que amamos. 

- Eu sinto muito. - disse Hector, parecendo desalentado. - Também posso imaginar... que isto, de certa forma, o encorajou a seguir esse rumo. A ser um caçador. 

- Não faz ideia. - disse Adam, enxugando uma lágrima. - O mesmo deve ter acontecido com você. 

- Sim. - respondeu Hector, abaixando a cabeça. - Sinto presenças estranhas ao nosso redor. Acho que havíamos entrado no território há alguns minutos. - voltou-se para Adam, empertigando-se e puxando a trava do rifle. - É a nossa chance, Adam. Se quisermos amenizar nossas dores. 

- Então são duas metas. - disse o caçador robusto, também puxando a trava de sua arma. - Hora de pôr em prática nossos dons para atiradores. - andou alguns passos, à procura de algum sinal da presença dos Lupus. - Vamos lá, seus vira-latas, apareçam. 

Um estrondo provocado por uma forte trovoada o fez sobressaltarem. Olharam rapidamente para o céu, contemplando as nuvens preto-azuladas e carregadas que se avizinhavam com certa velocidade. Hector, permanecendo alerta, olhara de esguelha para sua direita, percebendo um inconfundível movimento das folhagens de arbustos próximos. O caráter era definitivamente selvagem. 

- Hector. - chamou Adam, baixinho, seu rosto iluminando-se por um relâmpago. 

O aprendiz de número 44 ergueu uma mão levemente, sinalizando para que o parceiro ficasse em silêncio. Inconformado e altamente apreensivo, Adam não conseguiu conter a sensação estranha que o acometera. Apenas previa um desfecho negativo, preocupação incentivada pela vindoura tempestade que ameaçava arruinar com o teste. 

- Hector.- insistiu ele, sussurrando, irritado. 

Os arbustos mexiam-se cada vez mais intensamente. Hector continuava sua aproximação cautelosa e arriscada, deixando que o papel dos barulhos incômodos ficasse para os trovões do que para seus passos. Apontara o cano do rifle para o ponto onde as folhagens estavam mais agitadas... 

Mais dois vagarosos passos. Enfim, a proximidade adequada. O dedo no gatilho começava a suar. 

Mais uma trovoada, desta vez seguida de um raio. 

Repentinamente, um borrão cinza irrompera do arbusto de modo veloz e animalesco, seguido de um poderoso rugido. Hector sentira nos ombros as cortantes garras da fera enquanto seu corpo era derrubado ao chão. 

Ambos, caça e caçador, rolavam pelo chão. Hector lutava para evitar que os presas daquele lobo de olhos vermelhos alcançassem seu rosto. A saliva pegajosa já mostrava-se o limite. 

Adam prontamente atirara contra o Lupus ensandecido, o estampido ecoando por todo o espaço. 

A fera tombou no chão, rolando por alguns metros até uma árvore, mas ainda resistente. Adam, apreensivo, olhou de soslaio para sua esquerda, cedendo a sensação de estar sendo observado. Hector levantava-se com dificuldade, visando o que o atacara. 

Além dos primeiros pingos de chuva, Adam se deparara com um Lupus de pelagem cinza, rosnando e mostrando seus olhos vermelhos e os brancos dentes pontudos - a face logo sendo iluminada rapidamente por relâmpago como um flash de uma câmera. Foi aproximando-se do corpulento caçador, prestes a aplicar seu ataque mortífero. 

No entanto, viera outro golpe surpresa, para o espanto súbito da dupla. Um Lupus viera de encontro à Adam em alta velocidade, através de um forte salto que havia dado. Seu rugido fora simultâneo a uma trovoada. A imagem daquele lobo selvagem extraordinário pairando no ar por poucos segundos surpreendera Adam, fazendo-o arregalar os olhos, mas, por instinto, mirar o rifle em um ponto específico. 

O tiro acertara-o no meio da cabeça, rapidamente o abatendo contra o chão. O outro que estava encarando-o já corria ao seu encontro, mas Hector logo disparara em sua costela esquerda, salvando o parceiro. Outros dois surgiram pelas costas de Adam, rugindo e intencionando abocanhar a presa mais próxima. O caçador número 52 virara-se velozmente e disparara nos dois antes que o atacassem. 

A chuva iniciara-se, ficando mais forte a cada segundo. 

- Adam! - gritou Hector, a voz meio abafada por conta do intenso barulho da chuva. Corria até o parceiro. 

- Hector! Não baixe a guarda! - retrucou Adam, afoito. Sentira mais um próximo à ele, logo virando-se e sendo atacado. 

- Não! - berrou Hector, tentando mirar no Lupus que tentava esforçadamente desfigurar o rosto de Adam com várias mordidas. As trovoadas e a chuva excessiva dificultavam a precisão. 

Infelizmente, antes que pudesse correr para salvar o amigo, Hector sentiu o chão perder-se sob seus pés. Algo abocanhara sua perna direita e o derrubara, fazendo-o cair para frente, o rosto batendo contra o solo molhado da floresta. 

Um Lupus faminto o arrastava para um denso arbusto. Para sua sorte, usava calças resistentes. Porém, as presas foram cravadas de modo que o fazia sentir pontadas agudas em sua canela. 

Sem conseguir ver muito bem a face da criatura por conta da chuva, Hector tentava manter o rifle em sua mão esquerda, por mais escorregadia que estivesse. Rangia os dentes, tentando livrar-se e soltar sua perna. O furioso Lupus mordia-a ferozmente, balançando a cabeça de modo frenético como se estivesse afim de rasgar um pedaço suculento de carne. 

- Adam! - gritara novamente, preocupado com o parceiro que ainda lutava com todas as suas forças... desta vez com dois Lupus. Os socava e os chutava sem cessar. Pelo visto, sua arma perdera-se. O último restante teve seu pescoço quebrado pelos fortes braços do caçador, que o mantivera preso e envolvido. Os trovões deixavam a cena cada vez mais bizarra, enquanto Hector lutava para se ver livre daquele monstro de uma vez por todas e salvar Adam de mais um iminente ataque. 

Com a chuva ficando mais forte, Hector só pôde escutar um estampido abafado próximo à ele. 

Tentou olhar para onde Adam estava... e já não sentia mais sua perna sendo mordida e arrastada. Entreviu uma grossa mão estendida para levanta-lo. A segurou com força e reergueu-se com esforço. 

- Obrigado. - agradeceu Hector, em voz baixa, tocando-o nos ombros. 

- Hã? O quê? O que você disse? - perguntou Adam,inclinando sua cabeça, sem conseguir ouvir nada além da implacável chuva. 

Antes que fosse responder, Hector olhara para baixo... e percebera um alarmante detalhe... no corpo de Adam. Um profundo corte no abdômen, em grave estado hemorrágico. 

- Precisamos sair daqui! - exclamou ele, denotando urgência. Olhou novamente, preocupando-se. - Como você não sentiu? - perguntou em voz alta. 

Chocado, Adam logo se dera conta da gravidade da situação, começando a sentir uma leve tontura e uma excruciante dor. 

- Tudo bem! - fizera cara de desconforto, apoiando-se no ombro de Hector. - Não deve ser nada... 

- Ande, venha comigo... - disse Hector, colocando o braço do parceiro sobre sua nuca para carrega-lo a qualquer lugar seguro. - Vamos voltar para o trailer agora! 

- Não Hector! - recusou-se Adam, fechando os olhos devido a dor. - É melhor... melhor que me deixe aqui! Você quem deve ir! Portanto, vá, salve-se! 

- Não! - confrontou Hector, discordando veementemente. - O que está pensando? Não vou abandona-lo, não vou deixa-lo morrer aqui! 

Por um instante, Hector percebera lágrimas jorrando do rosto do novo amigo. Lágrimas misturadas com as gotas da chuva que banhavam ambos e castigava aquela floresta. Seu rosto sôfrego ficou mais evidente graças ao clarão de um relâmpago. Adam o olhava com uma angústia jamais antes vista por Hector... algo que reconhecera como desistência pura e sincera. Adam estava disposto a abrir mão da promessa. 

- Você sentiu a dor diminuir ao matar aquele Lupus... eu tenho certeza disso. - disse ele. - Assistiu a morte de seu pai. Eu nem sequer vi os meus antes de morrerem, passei o dia inteiro naquele lugar... o lugar onde eu deveria ter ficado por mais tempo... assim talvez eu não sofresse tanto quanto me vejo sofrendo agora. - fez uma pausa, gemendo de dor e rangendo os dentes. - Você tem um ambição que eu gostaria muito de ter. Mas não o invejo. Eu estou admirado... pelo seu potencial. Por isso, deve correr atrás... Leve o corpo de um Lupus e saia daqui! 

- Não... - negou Hector, balançando a cabeça, o rosto bastante molhado. - Não sem você! Fizemos um juramento! Vou me arrepender pelo resto da minha vida se me fizer o que está pedindo! Posso ganhar uma vaga para integrar a Legião se eu vencer a última fase... mas vou me sentir um caçador incompleto e envergonhado de si mesmo se eu deixa-lo para morrer! É assim que vai ser, Adam. Se lutamos juntos... 

                                                                                       ***

- ... nós venceremos juntos. - disse Hector, voltando ao seu estado humano. - Foi essa a nossa promessa inquebrável.

Um impulso de fúria estimulou Adam a exteriorizar toda a carga negativa que tal decepção fazia aflorar em seus instáveis nervos. Virou-se abruptamente para trás e socara com forte impacto o espelho oval com o punho direito. No reflexo, havia uma face encolerizada, um rosto quebrado em vários pedaços... e uma alma destruída e praticamente corrompida pelo desejo de aniquilar a dor provinda do sentimento de traição. Sangue escorria por entre as rachaduras do espelho e gotejando no chão, ao passo que Adam pressionava seu punho.

Voltara-se para Hector, os olhos vermelhos após vários choros e raivas consecutivas.

- Eu faço questão de quebra-la. - decretou ele, sem dó. - Naquele dia... vocês carregou dois fardos nas costas. Eu e meu corpo ferido... e o cadáver do Lupus que matei. Você resolveu levar justo o que matei do modo mais brutal. Encontramos uma caverna. Antes de perder a consciência, vi você fazendo uma fogueira... Senti algo cobrir meus ferimentos. - fez uma pausa, levantando um pouco a camisa branca, mostrando a cicatriz do corte profundo que levara. Baixara a camisa, voltando a olhar o caçador desalentado e surrado. - Passamos a noite lá até a chuva passar. Voltamos para o acampamento ao amanhecer. Minha ferida estava curada com uma folha, uma erva especial que sabe-se lá onde você encontrou... - colocara a mão ensaguentada no peito esquerdo, apertando-o. - Suas palavras não são capazes de curar as feridas da minha alma. Por mais que você tente, será inútil.

Respirando profundamente, Hector se mantivera em silêncio e deprimido por alguns segundos. Razões para convence-lo já se mostravam em completa falta. Sentia-se desarmado contra o profundo ódio que seu ex-parceiro de caçada alimentava. "Não há mais como reverter o que já se corrompeu.".

- Apenas para que saiba... - começou Hector, explicando. - ... minha transformação é voluntária, ao contrário do restante desta espécie. O lobisomem que me infectou... havia sido estimulado por algo obscuro e dominador. Esta é a razão pela qual assumo controle sobre essa maldição. Em períodos de crise, sou facilmente influenciado pela lua cheia, me igualo á maioria da espécie. Mas quando ela termina reassumo o domínio. Isto ocorreu na mesma noite em que fomos às Ruínas Cinzas impedir Mollock, antes de reencontrar Rosie e irmos à casa de Charlie. - relatou, tornando a ficar cabisbaixo.

- Então foi assim. - disse Adam, andando para um lado da sala, chegando perto da entrada à cozinha. - E pensar que minha suspeita, a cada vez que eu imaginava, sobre o responsável pela morte dos meus pais... tinha sido um meta-simbionte. Não sei como ousa estar ao lado de Rosie, insistir em querer resgatar nossos amigos... - esboçara ojeriza na face, olhando-o de baixo para cima. - ... desse jeito. Como se olha no espelho... sabendo que se tornou algo que você tanto desprezava?

Um instante de silêncio pareceu esmorecer ainda mais as forças de Hector perante àquele ultimato.

- Se eu tivesse uma estaca de prata na minha mão, agora mesmo, eu mataria você... - confessou Adam, honesta e corajosamente. - Rosie esteve e vai estar ao lado de um monstro, indecisa sobre se confia ou não em você. - fizera uma pausa, passando as duas mãos no rosto, demonstrando estar exausto. - Preciso... sair daqui. Agora mesmo... antes que eu enlouqueça.

- Adam... ainda há...

- Não há mais nada! - ditou ele, rigoroso. - Nada que você possa fazer para resgatar a confiança, o bem mais precioso que eu ofereci à você. Você viveu com ela... mais eu prefiro que morra sem meu perdão por ter quebrado-a. - andara para o corredor que levava aos três quartos. - Adeus, Hector.

"Eu o perdi... O que vira depois? Rosie? Não. Perder a amizade de Adam só me prova que devo lutar pelo que é meu. Eu causei essa quebra. Não posso reconstituir o juramento. Se devo me redimir... desta vez será por definitivo. É me tornando mais forte!", pensou Hector, sentindo suas pernas ficarem bambas.

Ajoelhou-se, fechando o punho direito e olhando-o. "Estas mãos... que banharam-se em oceanos de sangue... não serão mais utilizadas para matar inocentes. Não serão mais dominadas pela minha contraparte obscura. Talvez nadar contra a corrente seja o único caminho próximo.".

Reerguera a cabeça, sentindo-se decidido a rumar para a trilha que o levará à conquista do controle absoluto. Olhou para o corredor, o semblante de decisão e, sobretudo, de aceitação. "Por mais difícil que seja... Adeus, Adam.".

                                                                                        ***

"Esta mensagem vai para você, Rosie. Hector esteve aqui na manhã de hoje, e aproveitei minha deixa: Expressei toda minha decepção, tudo o que estava engasgado durante o tempo que fiquei naquele pesadelo em forma de prisão subterrânea. Quero dizer também que não contei à ele sobre como passamos a noite de ontem. Optei por não fazê-lo, já que sei exatamente o que ele sente por você... ele deixa isso bem claro só de mencionar seu nome. Indo direto ao ponto: Decidi partir. Não conseguiria conviver com esse fardo, essa desilusão por tanto tempo, não sei o quanto eu suportaria ou se eu suportaria. Me desculpe, Rosie. Sei que adoraria me ter ao seu lado, lutando para resgatar nossos amigos... Sinto uma imensa falta deles. Eu voltaria atrás se caso Hector estivesse excluído. Ainda não sei como o Exército o admitiu. Aliás, nem sei como o Mestre Vannoy resolveu se aliar com o Exército. Talvez casado com uma bruxa disfarçada e resolvendo negócios enfeitiçado? Quem sabe. Uma coisa é certa: Não pretendo voltar tão cedo. Não enquanto ele estiver presente nas vidas dos meus amigos. Vou para o Himalaia, dissipar essa nuvem negra na minha cabeça e aprimorar minhas habilidades. Acho que depois de um tempo, é provável que volte para devolver minha licença de caçador da Legião, e, talvez, me tornar um caçador independente fora do país. É a decisão mais sensata, ao meu ver. Desfrutei cada momento que tivemos juntos. Adeus, Rosie. Ah, e continue negando a proposta daquele tal de Áker. Não sei não... mas, por via das dúvidas, é bom manter sua convicção. Boa sorte à você e aos caçadores. Salve-os, por favor. Talvez seja você... a luz que vai impedir as trevas de recaírem sobre o mundo."

As mãos de Rosie pareciam querer amassar aquele papel amarelado. A jovem estava ajoelhada sobre a lateral de sua cama, segurando tremulamente a carta escrita por Adam. De fato, o coração de Rosie era frágil contra despedidas e ela sentia como se o mesmo estivesse sob tortura naquele momento.

Olhara de modo taciturno para aquelas palavras, relendo palavra por palavra para ter certeza de que era real.

Cabisbaixa, levantara-se devagar, deixando o papel sobre a cama. Reprimindo lágrimas, a jovem encarou o nada, pensativa e, acima de tudo, aflita. A luz do pôr-do-sol adentrava pela janela de seu quarto, localizada atrás da cama.

- Mas que droga. - disse ela, sem conter sua rápida insatisfação. - Aonde você está agora, Hector?

                                                                                        ***

Quatro batidas na porta foram necessárias.

Hector aguardava de modo tranquilo a recepção de Eleonor, dando algumas olhadelas para o seu relógio de pulso. Saíra do casarão após Adam arrumar suas malas e partir para longe. A razão por ter voltado naquela hora tardia resumia-se em horas trancado em um dos quartos de hóspede no segundo andar, ora imerso em uma série de divagações, ora dando dormidas efêmeras. Lutar pelo que lhe pertencia não significava lutar sozinho. Não mais naquele período. O caçador intencionava fazer algo que Adam claramente mostrava-se incapaz: Oferecer uma segunda chance.

As trancas fizeram ruído de cima à baixo, logo em seguida a maçaneta girando.

Quase levando um susto, Eleonor, após abrir a porta, sabia que seu coração descompassara numa fração de segundos ao encarar, atônita, o visitante. Seus olhos verdes brilharam em emoção e espanto, e sua pele suavemente morena aparentava estar mais límpida e jovial.

Mas do que a estupefação devido à aparição inesperada de Hector, prevalecia a preocupação pelo rosto do mesmo.

- Hector... - gaguejou ela, notando os hematomas. - O seu rosto... - ergueu uma mão para toca-lo.

- Não, não... - interrompeu o caçador, impedindo-a. - Está tudo bem.

- Tem certeza? - perguntou ela, intrigada. - Não entendo. Pensei que jamais voltaria. O que o motivou a mudar de ideia?

- Você tinha razão. - disse ele, seguro de si.

- Sobre o quê? - indagou a bruxa, parecendo fingir não saber.

- Eu sinto raiva. - confessou Hector, suspirando longamente depois. - E quero assumir qualquer risco que seus métodos me submetam... somente para obter o controle absoluto. Não tem a ver apenas com proteger Rosie.

- Abamanu, creio eu. - arriscou Eleonor, assentindo.

- Sim. - confirmou Hector, determinado. - Acredito que saiba uma maneira de me tornar imune ao poder destrutivo dele, da mesma forma como suspeito que Rosie seja. Me sinto... - hesitou, fazendo uma pausa. - ... mais motivado do que nunca a enfrenta-lo. Percebi pelo modo como ele me olhava nas Ruínas Cinzas. Foi um desprezo fingido.

- E o que concluiu? - questionou a moça, aumentando a curiosidade, olhando-o fixamente.

O desamparo do caçador estava nítido em seu rosto machucado.

- Rosie e eu fomos tratados como as testemunhas priorizadas. Ela não é seu único interesse. Posso sentir. E preciso de ajuda para barrar qualquer atração involuntária que eu possa ter.

O olhar de Eleonor adquirira amabilidade pura, mas com certa tristeza ocultada. Um fraco sorriso em seu rosto externou-se.

- Veio numa boa hora. - disse ela, abrindo passagem.

Hector entrara devagar, sentindo-se pouco à vontade. Ao fechar a porta lentamente, Eleonor não enganara a si mesma ao respirar o mais genuíno alívio com um sagaz sorriso de satisfação.


                                                                                    CONTINUA... 

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