sábado, 26 de março de 2016

Contos do Corvo #14


Com a pá enterrada no solo, o coveiro observava pensativo  - e um tanto abatido - a sepultura violada. Sua grossa sobrancelha esquerda tremia constantemente. Depois, foi seu olho. Sua expressão tornava-se mais mal-humorada a cada segundo. Realmente estava difícil se concentrar na principal questão, relacionada ao responsável por aquele crime. Algo o impedia. Algo bastante próximo.

- ... e ficou por isso mesmo. - disse o corvo, finalizando mais uma de suas histórias para a menina que se dava por satisfeita.

- Olha, ainda tá um pouco cedo... - disse a menina, olhando para o relógio de pulso. - Tem tempo para mais uma?

- Você tem 10 anos e ainda é ingênua desse jeito? - perguntou o corvo, debochante no tom. - Eu praticamente moro aqui, sua tola.

A menina esboçara ar de indiferença quanto à resposta e mostrou-se ansiosa pela próxima aventura a ser narrada.

- Anda logo. - disse ela, cruzando os braços, parecendo autoritária.

- Ai, ai... só você mesmo. - disse o corvo, balançando a cabeça de leve em negação. Olhou para o coveiro compenetrado. - E você, velhote? Ah sim, acabo de me lembrar! Você me odeia e odeia meu falatório mil vezes mais.

- Não ligo. - disse o coveiro, de modo frio, sem tirar os olhos da sepultura aberta.

- O quê? - insistiu o corvo.

- Você não passa de um falastrão metido a contador de histórias, quando na verdade tudo não passa de um monte de balelas. - respondeu ele.

- Ótimo. - disse o corvo. - Todo mundo hoje é metido a crítico. Mas... esta história... a última desta noite... foi bem real e sinistra. Após aquele dia jamais vi máscaras do mesmo jeito...

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                                                                              DEMONIC FACE 

Em Missouri, um garoto chamado Albert teria sido um dos principais selecionados para ocupar a vaga de protagonista em uma peça teatral do colégio onde estudava. A trama do espetáculo, por sinal, consistia em uma aventura de crianças detetives, as quais caçariam um perigoso demônio que anda aterrorizando a fictícia cidade. No entanto, o idealizador do projeto - um homem de meia-idade, meio carrasco - resolveu, de última hora, escala-lo para o papel do vilão - no caso, o demônio.

Bem, o resultado foi bem previsível em se tratando de garotos mimados e rebeldes. Albert se irritou com a decisão e chorou, implorou e esperneou para que reconsiderassem, tentando convencer seu diretor de que possuía potencial. Sensibilizados com o apelo do pirralho, os co-autores da peça abriram uma exceção: Um pequeno teste de atuação. Aquela peça era importante e a expectativa era de que fosse o início de uma nova geração de atores-mirins.

Albert aguardou uma semana até que os co-autores lhe dissessem o que acharam de sua atuação. Para ele seria algo preliminar. Porém, o inverso ocorreu no dia exato. Outro garoto já havia assumido seu lugar, tudo por conta da insistência do principal autor - o diretor mal-humorado - em rejeitar o pobre aspirante a ator. Albert, por sinal, sofria bastante bullying na escola, e justo aquele que infernizava sua vida tomou sua vaga, mas, claro, ele seria o vilão. Para a curiosidade dos envolvidos, Albert não reivindicou seu direito de protagonizar a peça. Estranhamente, ficou mais irritado pelo seu rival ter conquistado o papel de vilão, antes recusado por ele.

Pelo comportamento petulante, Albert foi advertido por conduta desrespeitosa para com seus tutores, logo lhe sendo negado qualquer papel dentro da peça. Os pais do menino preocupavam-se com sua intensa natureza competitiva e uma precoce ambição por poder e estrelato.

Os dias foram passando. Albert era vaiado sempre que passava pelos corredores da escola, tachado de sem-expressão, inútil, descartável, bebê birrento e uma infinidade de nomes, apelidos e xingamentos.

Um dos professores passara pelo corredor onde ficava o armário de Albert... e acidentalmente deixou cair sua maleta, espalhando vários papéis pelo chão. O garoto pronta e educadamente foi ajuda-lo a apanhar o material. Curiosamente, o tutor era um dos envolvidos na peça, um co-autor (professor de artes). Enquanto recolhia os papéis e entregava, Albert focou sua atenção em um especial... estava um pouco mais distante, mas deu para ver a imagem. Era um rosto preto, raivoso, enrugado e que possuía um queixo afinado e dois pequenos chifres na cabeça.

Pegando-o, Albert o analisou por uns segundos... até que o papel foi lhe tomado com pressa de suas mãos. O professor agradeceu rápido e andou de um jeito nervoso até sua sala. Albert jamais vira uma figura como aquela, logo ficou curioso.

Foi então que o inesperado ocorreu. Dois dias depois, Albert havia sido dado como desaparecido. Claro, ninguém no colégio notou sua ausência, mas alguns professores ficaram preocupados.

No dia da peça... especificamente no momento em que o vilão entra em cena, tinha uma faca reluzente em suas mãos. Parecia bem afiada e perigosa demais para ser portada por uma criança. O garoto estava com a fantasia do vilão, inclusive sua máscara... a mesma que Albert vira em um dos papéis do professor.

Para o espanto e estranheza do público... as expressões das crianças pareciam meio artificiais. No fim do espetáculo, todas as luzes apagaram-se de repente. Dez segundos depois acenderam novamente...

Uma cena chocante se revelou para as atordoadas pessoas que assistiam.

Os corpos ensaguentados dos quatro idealizadores do projeto - incluindo o carrasco que subestimou Albert - estavam pendurados por cordas no teto, amarradas em seus pescoços. O intrigante foi que as vítimas estavam mascaradas. Máscaras brancas que representavam quatro estados de humor. O primeiro mascarado com uma face feliz, o segundo com uma mais triste, já o terceiro tinha raiva e o quarto e último possuía um semblante de seriedade. Aos gritos e desesperos, as pessoas correram para fora da sala... ou pelo menos tentaram.

O garoto com a máscara do vilão da peça estava diante da porta. Virou-se para as pessoas em pânico e apontou para um deles - um homem meio gordo de paletó. O corpo do homem entrara em rápida combustão espontânea, entrando em chamas completamente. Tocando nas pessoas mais próximas completamente desesperado, acabou transferindo o fogo para elas... em um terrível "efeito-dominó".

A polícia e os bombeiros foram chamados. O relatório final foi tragicamente assustador. Todas as pessoas dentro da sala de teatro morreram queimadas, seus corpos irreconhecíveis de tão carbonizados.

Nos quatro corpos dos idealizadores, os policiais constataram que as máscaras foram coladas. Aprofundando mais a questão, uma caixa de papelão foi encontrada durante uma varredura na sala conhecida como "recinto da criatividade", onde os autores expressavam suas ideias para a peça. Nela foi encontrada uma pilha de papéis. Em uma delas estavam escritas passagens de um macabro ritual sacrificial, no qual seriam necessários quatro corpos pré-selecionados pelo indivíduo considerado como Escolhido. 

Em uma das fotos arquivadas era mostrado uma sala espaçosa, com um símbolo desconhecido no centro, além de quatro pessoas ao redor uma máscara colocada no meio do tal símbolo. 

Ao descolarem as máscaras dos quatro, ficaram pasmados. Seus rostos foram completamente desfigurados, de um modo brutal e bárbaro.

O sequestro de Albert foi ocultado pela tragédia, mas o garoto, dias depois, voltou à escola. A princípio, imaginaram que o sumiço do garoto nada tinha a ver com a tragédia ocorrida no teatro... mas se enganaram feio.

Um dos colegas de classe de Albert achou em sua mochila as evidências que o incriminavam: Uma faca suja de sangue, uma fantasia horrenda... e uma máscara monstruosa de um demônio. Os mesmos itens daquela noite, obviamente.

Desconfiadamente, Albert não foi autuado pelo crime por alegar não estar lembrado de nada do que ocorreu antes de ter sido sequestrado na escola. 

Os policiais - assumindo o caráter paranormal do caso - teorizaram que Albert foi coagido a fazer um pacto com o tal demônio e que o mesmo roubou suas lembranças.

Entretanto, algo dificultou ainda mais a possibilidade de uma conclusão definitiva durante uma última investigação na sala dos autores... como se tudo aquilo já não bastasse.

Em uma das gavetas de um armário foi encontrado um saco plástico... e dentro dele estava a verdadeira face de Albert... juntamente com outros nos quais também estavam as das outras crianças que participaram da peça! 

Albert continuou indo para o colégio, demonstrando um (diferente) bom comportamento... mas nada mais se ouviu falar sobre as outras quatro crianças desaparecidas desde aquela noite. 



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