Capuz Vermelho #33: "Alfa, Beta e Ômega (Parte 2)


CAPÍTULO 33: ALFA, BETA E ÔMEGA (PARTE 2)


O corredor estava parcialmente às escuras, somente algumas lâmpadas fluorescentes um tanto azuladas ainda em funcionamento. Abamanu caminhava nitidamente trôpego, segurando um dos braços e forçando a si mesmo para aparentar um estado de bem-estar ao soldado que passava pelo sentido oposto. Sua robusta armadura prateada fazia ruídos incômodos, não tardando a chamar a atenção do subordinado. O soldado se aproximara do deus lunar demonstrando estar preocupado.

- Algum problema, senhor? Não parece estar se sentindo bem...

- Defina "bem". - retrucou o imperador, ofegando levemente e olhando para o chão. Saliva pingava de sua mandíbula forte. - Volte para seu posto. Não lhe devo explicações sobre meu estado. - disse, olhando-o de soslaio. - Quando eu voltar, quero Lenox na sala de controle. Preparem a cobaia também.

O soldado permaneceu a fita-lo por alguns segundos com suspeita na expressão.

- Já! - esbravejou Abamanu, irritando-se com a lentidão do subordinado. O mesmo se limitou a sair correndo. No entanto, o deus lunar voltara atrás, logo agarrado a cauda do lobo bípede.

- Au! - disse o soldado, sentindo dor ao ter sua cauda puxada pelo imperador. - A... A...- gaguejava ele, mal conseguindo virar o pescoço, a expressão de pânico. - A... Alguma coisa de que precisa, senhor? Perdoe-me...

- Ouça soldado... - disse Abamanu, mantendo-o fixo no ponto onde estava apertando com mais força, mantendo-se de costas. - Nem ouse compartilhar com os demais sobre meu estado. Fui suficientemente claro?

- Si...Sim. - respondeu ele, a voz trêmula e medrosa. - Totalmente claro! Eficientemente claro!

- Sabe a razão pela qual estou submetendo-o a esse teste de resistência, certo? - perguntou o deus, o tom soturno e ameaçador.

- Sim... - disse o soldado, arquejando em cansaço, a dor consumindo-o e impedindo-o de gritar. - Só... pare de puxar... Por favor!

- Hum. - riu Abamanu, de leve. - Está doendo não é? Oh, me desculpe, eu não tive intenção nenhuma de machuca-lo, embora fazer isto fosse a única forma de convence-lo do que sou capaz de fazer caso me desobedeça. Vou liberta-lo... com uma condição.

Os gemidos do soldado pareciam soar como sinfonia aos ouvidos de Abamanu. A ansiedade externara-se na forma de tremedeiras constantes e arrepios contínuos e dominadores na pelagem azul acinzentada do soldado.

Abamanu olhara-o incisivamente por cima do ombro, apertando, pela última vez, a cauda com mais força.

- Não... fale... absolutamente... nada. Ouviu bem? Mollock não está conseguindo me conter da mesma forma que antes. Sabe o que isso significa, certo? Sabe as consequências que isso causará caso eu não encontre um outro receptáculo propício e forte o bastante?

- Então... - disse o soldado, desesperando-se. - Está cogitando... ejetar-se da casca antes que ela o mate?

- Não. - respondeu ele, secamente. - Seu organismo não é prejudicial à mim. Ocorre exatamente o contrário: Eu sou o parasita maligno. Eu estou o matando aos poucos. Nem mesmo seu fator de cura está surtindo efeito. Temo que ele entre em combustão espontânea a qualquer momento ou congele até se despedaçar por inteiro, por isso preciso me antecipar quanto às probabilidades. Vocês tem muita sorte. - disse ele, logo soltando a cauda de seu soldado. - Vá.

O subordinado soltara um arquejo de alívio, correndo em disparada pelo corredor como alguém que foge de uma tentativa de homicídio ou um animal selvagem que escapa do predador.

Tornando a caminhar devagar pelo corredor, Abamanu rosnava em frustração mostrando seus brancos dentes pontiagudos enquanto seu rosto empalidecia e feridas brotavam de seu pescoço.

Uma ideia anteriormente desconsiderada começara a pairar em sua mente como sendo sua única alternativa. De fato, naquelas condições e diante das circunstâncias desesperadoras tornaria-se difícil manter o plano descartável, ainda que consequências imprevisíveis viessem a suceder o possível passo em falso. Seria arriscar ou perder.

"Aquele caçador...", pensou ele, estreitando os olhos amarelos ao imaginar com entusiasmo a figura de Hector.

                                                                                         ***

Deusa versus mortal.

O confronto que se seguia naquele corredor parecia querer alcançar um ápice brutalmente desvantajoso para ambos os lados.

Rosie executava evasivas e desvios velozes demais para os limites humanos, enquanto sua nêmese tentava, incansavelmente, desferir cortes com sua espada dourada intencionando atingir a lâmina contra o rosto da jovem. "Mas que rapidez! Isso é muito além do que esperaria, até mesmo para um mortal!", pensou Sekhmet, desiludida pela performance eficiente de Rosie.

A jovem pegara o braço direito da deusa e lhe dera uma cotovelada, logo depois aplicando um golpe para faze-la largar a lâmina, a mesma logo caindo no chão. Sekhmet, sem deixar-se vencer, avançando contra Rosie com supervelocidade, empurrando-a contra uma parede do corredor. Desvencilhando, Rosie a chutara na barriga, em seguida desferindo-lhe um soco, logo dando um giro e aplicando um novo chute no rosto.

Caindo no chão, a deusa tentava encontrar as razões que levaram a jovem a adquirir tamanha habilidade para enfrenta-la de igual nível.

Rosie a chutara no rosto antes que a mesma pudesse levantar-se. Rolando no chão, Sekhmet sentira um inconfundível gosto dominando seu paladar. "Não pode ser... Impossível!", pensou ela, arregalando os olhos ao notar sangue pingando sobre sua mão... caindo de sua boca. Rosie reouvera sua faca dourada, apanhando-a do chão e aproximando-se de sua inimiga com um olhar pretensiosamente intimidador.

- Conheço essa expressão. - disse ela, com um sorriso irônico. - Frustrada por não ser a única que sabe manobrar as vantagens. - girou a lâmina, prestes a golpear.

Para afasta-la, a deusa chutara-a mesmo caída, logo aproveitando para se reerguer. Ao limpar o sangue de sua boca, a esposa de Yuga a fitara com ódio na face.

- Agora tem um gosto ruim, não é? - perguntou Rosie, o tom irônico, largando a espada.

- Por que se desarmou? - questionou Sekhmet.

- Prefiro resolver isto com minhas próprias mãos. De um modo justo. - disse ela, estralando os dedos como aquecimento. - Esta faca é inútil quando posso usar um poder imensurável dentro de mim para destruí-la completamente.

- Você fez minha casca sangrar! - acusou a deusa, andando para um lado, mantendo a espada dourada consigo na mão direita. - E nem ao menos precisou da espada para isso. - cuspira uma mistura de saliva com sangue em sinal de ojeriza. - Como em tão pouco tempo conseguiu maximizar a energia? E se realmente o fez, como ainda não disse sim àquele serviçal?

- Decidi que vou fazê-lo somente quando eu acabar com você. - falou Rosie, olhando-a desafiadoramente, logo avançando com um chutes em sequência seguidos de giros constantes.

Em defesa, Sekhmet barrara os movimentos com os braços. Conseguira acertar um soco no rosto de Rosie, em seguida um chute no mesmo ponto. Agarrara a jovem pelo braço esquerdo, tentando esfaqueá-la, porém Rosie desestabilizara sua firmeza com um chute na perna esquerda da deusa fazendo-a perder o equilíbrio. Fizera-a largar a faca novamente, logo depois executando dois cruzados - direita e esquerda respectivamente - e empurrando-a com mais chute no busto.

Tornando a cair, Sekhmet respirara pesadamente, bufando em fúria extrema, ainda sentindo o sangue escorrer de sua boca.

- Fique onde está. - ditou Rosie, autoritária no tom. Seus olhos brilharam rapidamente uma luz amarela. - Não, melhor não. Prefiro que se levante e continue a insistir em usar seu brasão para sugar meu poder, se é que agora lhe restam forças para ser tão rápida quanto eu. Vamos lá, se erga! - pediu ela, elevando a voz.

Em uma fração de milésimos, a jovem se dera conta do sumiço de sua oponente, antes caída no chão.

Pega desprevenida, sentira a presença vinda por trás de modo alarmante.

- Não se esqueça de manter sua guarda, mortal. - disse Sekhmet, logo pegando pelo ombro esquerdo e virando-a com violência para sua frente. Rosie a fitou com aflição por poucos segundos, abrindo a deixa para que a deusa finalmente cravasse a adaga dourada em seu corpo. - Oh, tarde demais. - disse ela em tom de chacota, entortando a cabeça e arqueando as sobrancelhas. Seus frios olhos azuis soaram igualmente penetrantes e ardorosos, aliado a um sorriso vingativo de satisfação tão genuína como odiosa.

Uma mancha de sangue formara-se no corset branco que a jovem usava por baixo dos cintos de couro marrom claro, cuja finalidade era proporcionar proteção básica contra golpes físicos, exceto por lâminas com fios de corte acima dos padrões.

- Acredito que estava certa a meu respeito. - disse a deusa. - Realmente sou boa em fazer os papeis de inverterem. - erguera a mão direita, deixando reaparecer seu brasão em forma de Cruz Ansanta, prestes a iniciar a drenagem de energia.

- No seu lugar... - disse Rosie, sorrindo fracamente embora sentido uma dor intensa. -... eu não teria tanta certeza agora.

O sorriso de vitória dissipara-se, como uma máscara quebrando-se em pedaços e revelando a verdadeira face a ser expressada. Rosie permanecia a sorrir de modo fraco enquanto seu corpo desaparecia, como se estivesse tornando-se invisível ou deixando de existir... fazendo-a parecer uma doce ilusão. Sekhmet tremia seus olhos e boca em frustração, mal conseguindo acreditar no que estava vendo. "Fui enganada!".

Com o desaparecimento de "Rosie", a faca deixara-se cair no chão, o sangue impregnado nela também sumindo como mágica.

- Não! - gritara ela, enfurecendo-se.

- Sim. - disse uma voz grave, inconfundível aos ouvidos da deusa. A mesma, em seguida, recitou breves palavras no dialeto dos deuses, muito conhecidas por conjurar um eficaz tipo de armadilha.

A deusa, rangendo os dentes em seu momento de cólera, virou-se com pressa a fim de vislumbrar a figura, logo deparando-se com Áker parado próximo à entrada do corredor com um leve sorriso.

Sob seus pés, Sekhmet vira um símbolo se revelar brilhando uma luz amarelada. Voltou seus olhos desesperados para o arauto enquanto sentia suas forças serem absorvidas como se estivesse sendo engolida por um violento redemoinho.

- Seu atroz, herege! - atacou, ajoelhando-se no centro daquele sigilo inibidor.

Áker resolvera aproximar-se para contemplar o êxito de seu plano audaz, caminhando tranquilamente em direção à sua superiora desafiada.

- O farei pagar... - disse Sekhmet, suando em demasia e respirando com dificuldade. - Você... jamais seria capaz de entender as razões que me motivam a seguir com meu propósito nesse mundo inferior.

- Disposta a saber como consegui entrar? - perguntou Áker, olhando-a severamente.

- Aqueles inúteis... De nada serviram para impedi-lo de seguir adiante. - lamentou a deusa.

- A quem se refere? Os soldados do inimigo... ou aos verdadeiros hereges?

- Não importa! - vociferou ela, a expressão encolerizada. - Tire-me daqui, seu soldado patético! Mas primeiro diga-me: Onde está Rosie Campbell? Onde está aquela maldita verme?

- Primeiramente... - disse Áker, sacando sua espada dourada, andando em torno da marcação. - ... eu avisei a um dos meus aliados para espionar as ações dos seus.

- Uma infiltração... - surpreendeu-se Sekhmet. - Mas você... Como pôde?!

- Foi simples e rápido. - redarguiu ele, direto. - Assim que soubéssemos dos seus próximos movimentos, moveríamos-nos para cobrir esta área quando a hora chegasse. E veja só.

- Espere... Então, está me dizendo que...

- Exatamente o que está imaginando agora. - confirmou o arauto, firme. - Meu informante a fez acreditar que Rosie viria até esta fábrica liderar a operação. Estamos em Birmingham... - inclinou-se para ela, olhando-a com incisão. - ... e Rosie escolheu seguir para outra cidade. Liverpool é o local onde supostamente a quimera está e talvez mantenha em cárcere privado o criador da substância tóxica e mais outra vítima a ser resgatada que possui ligação íntima com Rosie. Sua relação com o General Holt, seu pacto forjado sob ameaças vazias... não foi o bastante para que pudesse estar à um passo à frente. Deixou-se iludir... pela obsessão assassina que a cega quantos aos princípios lapidados pelo nosso império. - fez uma pausa, observando o sigilo aceso. - O que acaba de acontecer... é a sua punição, Sekhmet.

Lágrimas escorriam dos olhos da deusa misturadas com o forte e profuso suor. Cabisbaixa, limitou-se a chorar sua condição, sentindo cada fio de seu poder ser sugado a cada segundo.

- Eu já tive esse sensação. - disse Áker. - É doloroso, eu sei, mas... para você é a única alternativa que restou para que eu mantivesse minha promessa, para que Rosie permanecesse ilesa.

- Você o contactou... Não foi? - perguntou a deusa, a voz enfraquecida. - Aquele mortal infame e arrogante... pactuou com você para me encurralar.

- Não afirme o que não sabe. - avisou Áker, fitando-a com rigor. - O General e eu jamais trocamos palavras. Ele apenas se recusou a informa-la sobre as duas operações simultâneas, mesmo temendo que fosse ser morto por você embora fosse improvável, afinal seu foco estava unicamente em Rosie. No entanto, Mihos está com ele... o que aumentam as chances de que ele talvez não escape de um golpe-surpresa, seja lá o que seu filho estiver planejando. O General é o líder da operação contra esta fábrica. E sobre o truque de mestre...

- Ah... não... - disse a deusa, a dor perpassando sua casca até seu âmago.

- Possuo uma intrigante habilidade de criar clones ilusórios e falsos de qualquer ser que tenha passado pelo meu campo de visão. Isso era segredo até mesmo para o Lorde. Você confrontou uma cópia barata e manipulada por mim em todos aspectos: Movimentos, fala, até pensamentos. - revelou o arauto, apontando a ponta da adaga dourada para a deusa. - Esta marcação... foi feita enquanto a cópia estava parada, movimentando discretamente os dedos, preparando a armadilha. Você coagiu os soldados da quimera a deixarem este corredor livre de sigilos, na esperança de que Rosie pudesse passar por aqui e assim você conseguir pega-la. - dera uma rápida risada. - Não teria sido mais.. inteligente colocar seus aliados para essa tarefa?

- Foi a primeira ideia que tive... - respondeu Sekhmet, fragilizando-se cada vez mais. - ... até saber que todos já estavam ao lado daquele General estúpido. Mas não entendo. Se transmitiu uma mensagem para todos os que fazem parte do pelotão que cuidará desta fábrica evitarem as marcações... - olhou-o furiosamente. - Então porque meus subordinados não me informaram antes que criasse aquela maldita ilusão? - fechara os olhos, a dor engrandecendo.

- Sou um soldado efetivado. - ressaltou Áker, categórico. - Minha posição me confere a habilidade de enviar mensagens seletivamente. Somente aqueles que a mim se guiam estão informados quanto às marcações. Recebi a mensagem dos outros assim que entrei, eles estiveram aqui antes que a ordem de Abamanu em gravar os sigilos em toda a estrutura fosse emitida. E o que é melhor: O General não pareceu tão preocupado em fazer uma listagem dos soldados que forem acompanha-lo devido à urgência da situação, logo eles não foram lembrados.

Sekhmet rira em deboche, mesmo se encontrando a beira da perda total de sua energia.

- Posso saber o que acha tão engraçado? Todas as suas forças estão sendo consumidas, em pouco tempo já estará inutilizada.. - sorrira levemente em satisfação. -... e fadada a viver e se adaptar entre os mortais.

- Nunca! - esbravejou ela, o rosto empalidecido e enrugado. - Ponha-se no seu lugar... mensageiro. Eu... ainda o tenho. Meu brasão. O emblema do meu amado... - novamente rira em escárnio. - Não pode cruzar a linha para toma-los de mim. O sigilo inibidor apenas absorve a energia de sua presa...

- É mesmo? - perguntou Áker, arqueando as sobrancelhas em ceticismo. - Será mesmo assim que vai agir? Tente. - desafiou. - Não há nada que possa tira-la daí, a menos que grite, mas em poucos minutos as cordas vocais de sua casca já não terão forças para isso, então esqueça essa saída de emergência forçada, porque não vai funcionar. - afirmou, balançando lentamente a cabeça em negação. Virara as costas para a deusa a fim de sair dali, logo caminhando para a entrada do corredor.

O medo de arriscar passara longe da mente fraquejada da deusa. Sekhmet olhara a palma da mão esquerda, dela saindo seu brasão dourado. Com a outra mão pudera retirar o minúsculo amuleto solar de um bolso do seu sobretudo cinza. Certamente havia um tortuoso dilema a ser resolvido. "Só me restou duas opções", pensou ela. "Qual de vocês é meu favorito?". Olhara para ambos os itens - seu rosto meio iluminado pela luz amarela provinda do sigilo aceso -, indecisa, ao passo em que sua força divina esvaía-se.

                                                                                        ***

Os tanques ruidosos e brutos verdes-escuro - cercando a estrutura - apontaram seus canhões diretamente para a fortaleza de concreto, tendo sua munição preparada para atirar a qualquer instante a mando do soldado selecionado pelo General a ser o encarregado de emitir as ordens de ataque, recuar e cessa-fogo. Os homens fardados corriam armados com fuzis à frente, em direção aos fundos da fábrica, onde havia um grande portão metálico gradeado prestes a ser aberto - inclinando-se para cima vagarosamente.

- Ao meu sinal! - berrou o soldado que posicionava-se mais adiante, fixando os olhos alertas na abertura lenta do portão. Aponto a arma ao escutar passos acelerados e grunhidos guturais e selvagens se avizinhando com rapidez. Ele se agachara para tentar concluir com mais exatidão sobre o que se aproximava. Logo, então, teve a confirmação. Empertigou-se e olhou para os outros por cima do ombro. - Muito bem, é agora! Atacar! - gritou, após ver pessoas histéricas ,pálidas e com olhos pretos virem na direção do grupo.

Com a ordem dada, os soldados reuniram-se, disparando com seus fuzis e metralhadoras ininterruptamente contra os miméticos de estágio inicial que se corriam ao saírem pelo portão aberto. Soavam como feras descontroladas e monstruosas, libertadas para atacar uma população inteira. Alguns corriam e deixavam gotejar a substância negra pela boca.

Vários caíam. Centenas vinham mais atrás, como um enxame interminável de insetos enfurecidos.

- Matem essas coisas como matavam formigas quando crianças! - berrou um soldado, atirando com máxima empolgação, logo rindo histericamente por estar se divertindo ao atirar na cabeça de cada um daqueles miméticos.

A saraivada de tiros parecia não ter fim. Integrantes da retaguarda recarregavam suas armas com mais munição e tornavam a disparar no mesmo ritmo que os demais da frente.

A cada cinco segundos, cerca de doze miméticos combaliam no chão, feridos gravemente.

De acordo com o que o General havia determinado, os canhões só poderiam disparar contra as paredes apenas após o resgate ser concluído e a vítima estiver seguramente distante da fábrica. Uma base montada para primeiros-socorros, se necessário, estava instalada na pequena área florestal um pouco mais longe da estrutura. Caso o resgatado não precisasse de cuidados médicos, ele ficaria seguro dentro de uma tenda armada com soldados à disposição do lado de fora para defende-lo quanto à uma eventual ameaça de ataque, seja dos miméticos ou dos soldados de Abamanu.

- Seguindo! - exclamou o líder do grupo, andando em lento ritmo para se aproximar do portão, sem deixar de atirar nos miméticos que continuavam vindo. A ideia era fazer de tudo para que nenhum deles sequer se aproximassem mais do que dois metros dos soldados. O solo já se enchia de poças de gosma preta além dos corpos espalhados e meio amontoados. Nas pequenas pilhas de corpos, alguns resistentes chafundavam nas poças para se levantarem, gemendo e rosnando constantemente em uma louca e bizarra representação de agonia e desespero. Um até mesmo chegou a gritar contra os soldados, em simultâneo vomitando uma boa quantidade da gosma. Acabara tomando um outro tiro certeiro na cabeça antes que se levantasse.

Do lado esquerdo da fábrica, outro portão se abrira, dando passagem a uma multidão grotesca de miméticos - já próximos de entrar no estágio de Inquietação.

Um veículo parara, garantindo certa distância dos monstros que corriam na direção dele. Era encimado por dois equipamentos quadrados que eram erguidos automaticamente, que na verdade serviriam para a inauguração de um novo e eficaz tipo de tecnologia militar, testado e aprovado: Um dispositivo acústico de longo alcance, que disparava onda sonoras de alta frequência e intensidade com o objetivo de ferir, imobilizar ou até mesmo matar os alvos definidos.

O controlador da máquina girara um botão em sentido anti-horário e empurrara para frente duas alavancas, iniciando a elevação da frequência sonora ultrassônica.

As ondas foram disparadas pelos dois objetos quadrados. Em vista, pareciam "argolas" invisíveis que eram dispersadas uma atrás da outra em uma intensa corrente de vento. O som que faziam era um tanto incômodo, soando mecânico e vibrante.

Dominados por uma indescritível sensação que parecia esmaga-los, os miméticos foram barrados ao sentirem na pele o poder violento das ondas sônicas sobre seus frágeis corpos. Alguns colocavam as mãos na cabeça ou nos ouvidos, se ajoelhavam, gritavam, balançavam freneticamente a cabeça, e outros já caíam sem esboçar reações muitos indiscretas, completamente impotentes até mesmo para vociferarem de dor.

O processo de neutralização durou cerca de três minutos, o tempo máximo para que aquela versão da tecnologia pudesse ser descarregada, podendo levar meia hora por recarga.

Dos outros sete veículos parados mais atrás, desceram os caçadores solicitados, todos vestindo coletes pretos ou marrom e camisas comuns ao estilo de vida que levavam, empunhando fações previamente afiados. Todos eles - cerca de 25 no total - correram em disparada contra os miméticos enfraquecidos, cambaleantes e tontos.

Aproveitando a vantagem que as ondas ultrassônicas ofereceram, ao deixar os miméticos mais lentos e desorientados, os bravos caçadores, sem medir esforços, decapitavam um à um em uma dança bárbara e feroz. Sem nenhuma chance de defesa por conta dos efeitos da poderosa arma, os miméticos tinham suas cabeças pairadas no ar por segundos, enquanto os pescoços cortados espinchavam a gosma negra em profusão além de uma leve fumaça que denotava a fervura da substância naqueles corpos decadentes.

O grupo de soldados que organizava-se com armamentos comuns para deter os infectados conseguira adentrar na fábrica antes que portão. Um remanescente até puxara a perna de um soldado, sua mão encharcada de líquido tóxico agarrando-a. Virando o rosto, o soldado, olhando com ojeriza para o inimigo, não titubeou e disparara cinco vezes com um revólver na cabeça do mimético, já que as munições para metralhadoras haviam esgotado. Por fim, correra após se libertar das garras do monstro, alcançando os outros de sua equipe a fim de encontrar o cativeiro da vítima.

O curioso fora que ninguém reparou no repentino sumiço do General após o mesmo ter guiado um grupo de soldados para entrar na fábrica pela porta da frente.

                                                                                        ***

O corpo pesado de Holt voou por entre galhos de árvores, quase batendo em um após ser jogado com violência por aquele que considerava praticamente um filho por sua lealdade e comprometimento sério com o ofício de soldado de uma das maiores organizações militares do mundo. O General caíra com forte impacto no solo cheio de folhas secas. Virara-se para um lado, com uma expressão de dor, tocando na região abdominal. A primeira impressão foi de costelas quebradas. Fragmentadas.

"Mas o que significa isso, afinal?", pensou, rangendo os dentes tamanha era a dor.

Um vulto correra em velocidade sobrenatural pela floresta, logo se aproximando do General.

- O que achou do meu belo arremesso? - perguntou Mihos, ainda com o disfarce do soldado Heller, sorrindo de modo presunçoso e maldoso para Holt caído.

- Não... - disse ele, levantando-se. - Heller... ou seja lá quem você for... - reouve o equilíbrio, a dor parecendo amenizar. Olhou-o com cólera pulsando nos olhos. - Mas quem é você, afinal? - perguntou, vociferando.

Mihos rira em deboche. Logo desfez do disfarce, voltando à forma de seu receptáculo: O caçador de olhos azuis, face e corpo meio robustos e cabelos dourados meio espetados.

- Não pode ser... - disse Holt, surpreso, os cortes pequenos em sua testa sangrando um pouco. - Você é um deles? - perguntou, olhando-o de baixo para cima, desnorteado.

- Eu não sou de ninguém. - retrucou Mihos, dando de ombros e andando calmamente por um lado. - Sempre trabalhei melhor sozinho. Não que eu tenha algo contra missões em conjunto... mas acontece que é mais empolgante quando não tem ninguém do seu lado, seja... - pôs um dedo no queixo, pensativo. - ... lhe dando ordens, se fazendo de durão ou... é, receber ordens me irrita bastante. - afirmou ele, assentindo para o General. - Prazer em conhece-lo, General. Sempre fui um grande admirador seu. - sorriu sacanamente.

Holt devolveu um olhar de ojeriza profunda, enquanto tocava na costela esquerda que ainda doía.

- Uma aberração como você... - disse ele, revoltado. - ... além de me pegar desprevenido, ter assumido a aparência do meu mais estimado soldado! - esbravejou, as veias da testa em relevo devido á raiva. - O que de fato houve à ele? Você o matou, não foi? Responda!

- Sim, matei. - disse Mihos, sem tirar o cínico sorriso da face. - E faria de novo se tivesse a oportunidade de repetir o prato.

- O quê!? - disse Holt, franzindo o cenho, perdido. - Você... - gaguejou - ... Mas que tipo de monstro você é? Por que está tão determinado a causar mortes por onde quer que passe?

- Sabe a redução do número de homens que você mandou para aquela fábrica? Pois é... - disse o filho de Yuga, assentindo, cruzando os braços. - Olha, vou encurtar nossa conversa desnecessária e todo esse questionário bobo que eu sei que você está afim de prolongar para querer se salvar: Eu... - apontou para si mesmo. - ... sou uma entidade com atributos acima da capacidade dos mortais. Matei aqueles homens por pura diversão. É, eu me divirto demais quando sacio toda a minha fome. Aliás, o coração do Heller tinha um gosto esquisito, talvez tenha passado do prazo de validade. - disse, arqueando as sobrancelhas e rindo com escárnio.

A malevolência de Mihos instigava o General a reagir de modo agressivo a qualquer custo. Holt, naquele momento, limitou-se a encara-lo com toda sua fúria e desejo de vingança por Heller.

- Espero que o seu não me cause indigestão com toda essa... enervação. - disse Mihos, zombando do estado enfezado de Holt. - Estou com pressa, então tenho que quebrar a tradição. - apontou para o General. - Você, minha diversão e meu prato principal, sendo dolorosamente morto primeiro. Um último desejo antes de eu despedaça-lo e devora-lo? - inclinou-se para querer ouvi-lo.

O limite da paciência de Holt fora atingido com ebulição nos nervos quase incontrolável. Cerrou os punhos, apertando-os com força. "Esse maldito ser... causou a morte de vários homens honestos... Não... não posso permanecer estagnado e me posicionar como vítima diante de um monstro desses! Ele não me dá escolha.", pensou ele, desabotoando a camisa da farda, logo tirando-a e jogando no chão. Por baixo, o General vestia por baixo uma regata branca e suada. No cinto havia duas bainhas com duas espadas orientais conhecidas como katanas. As tirou com um ruído rascante, logo posicionando-se para se entregar ao conflito.

- Impressionante. - disse Mihos, fingindo surpresa, olhando para as espadas de lâminas reluzentes. - Mas não, não preciso de instrumentos para fatia-lo. Sou bem mais prático.

- Isto aqui, seu verme abominável, é a minha demonstração de luto por aqueles homens. - disse Holt, respirando pesadamente, a raiva crescendo a cada minuto. - Homens honestos, cujas mortes deixaram mulheres e crianças sofrendo. Se tem algo que minha carreira militar me ensinou... É que quando se entra numa guerra, não deve ter medo de sangrar. Quero muito saber se estas duas lâminas podem fazer pelo menos um corte profundo nessa sua... casca. - afirmou ele, determinado a investir contra o deus.

- Por mim tudo bem. - retrucou Mihos, despreocupado. - Não estou aqui para impedi-lo de tentar, General. - falou, alterando a face para uma seriedade ameaçadora.

Holt avançara contra ele, executando movimentos ágeis e velozes ao manejar as duas espadas com excelente habilidade. Mihos, por sua vez, defendia-se com os antebraços no mesmo ritmo dos golpes. Holt girara para dar um chute, logo em seguida tentando golpeá-lo com uma espada em posição horizontal. Mihos desviara mantendo os pés no chão, logo tocando o solo com as duas mãos para ganhar impulso e, assim, golpear Holt com um chute duplo bem no queixo.

O General caíra à poucos metros de distância, sentindo como se um peso de chumbo houvesse atingido seu queixo. A dor veio imediatamente quando se levantou, o sangue gotejando em abundância. Mihos veio superveloz, afastando as espadas com os pés e logo atacando Holt com uma chave de braço que apertava o pescoço do militar.

- Eu poderia frita-lo...  - disse ele, aplicando mais força em seu movimento. Sorrira para si mesmo. - ... mas prefiro fazer à moda antiga. Mamãe seguiu o costume quando tentou me encontrar.

Holt mal conseguira produzir um som de sua voz ao sentir seu rosto ficar vermelho e sua pressão sanguínea aumentar consideravelmente. "Ele está apertando todo meu pescoço! As veias carótidas... sinto elas... querem romper. Mais um pouco de força e estou morto!", pensou ele, desesperando-se.

Mihos permanecera pressionando cada vez mais. Contudo, não aguardava o contra-ataque do oponente. Por mais inocente que parecesse.

Holt golpeava-o com o cotovelo no abdômen, incontáveis vezes.

- Muito bem! - disse Mihos, cansado daqueles golpes repetitivos, jogando Holt contra uma árvore.

O General batera com as costas em grande impacto com o tronco. Entreviu suas espadas enquanto se mantinha caído e recuperando pelo menos metade do fôlego, mesmo que durasse um ínfimo tempo.

O herdeiro de Yuga aquecera-se, estralando os dedos e fitando o General como que querendo impor sua óbvia vantagem para se gabar.

- Deve estar se perguntando sobre o que tenho a ver com a mulher raivosa que arrancou um olho seu. Esqueci de perguntar à ela se era apetitoso ou que gosto tinha. - disse Mihos, referindo-se à sua mãe, Sekhmet. - Ela não sabe o que deixou perder. - olhou-o com expectativa.

Uma das espadas estava bastante próxima de Holt, ocultada graças às folhas caídas. Evitou olhar por mais do que dez segundos temendo que Mihos estivesse percebendo cada movimento seu. Levantou-se com esforço, esbanjando todo seu vigor e boa forma física. Andou dois passos para o lado direito, fechando os punhos e posicionando-os afim de denotar um combate físico.

- Que fique bem claro que não estou trapaceando. - ressaltou Mihos, os olhos fixos no General. - Honestamente, não é nem 10% de toda minha força.

- Que tipo de ligação você tem com aquela vadia? - peguntou Holt, sua bota já tocando o cabo da katana caída e coberta por folhas. "É minha chance. Vou distraí-lo com esta pergunta.".

- Nada demais. - respondeu ele, dando de ombros, arregaçando as mangas. - Ela somente é a mulher carente que se relacionou com meu pai e se culpou por uma gravidez indesejada. Se alguma vez eu fui motivo de orgulho pra ela? Bem... Sim, houve uma vez. Quando fui forçado a concordar com ela, enquanto eu era torturado pelos guardas. Ela confundiu isso com rendição. - olhou para o General, preparado para mais uma rodada. - Que família exemplar, não acha?

Holt aproveitou que Mihos deu uma olhadela na manga esquerda para relancear a espada à sua direita. pronto para reavê-la. A visão não durara mais do que 3 segundos. "É agora.".

Com toda sua agilidade bem trabalhada, o General batera com o pé direto no cabo da espada, fazendo-a se erguer e retornar para sua mão. Rapidamente executou um movimento, segurando a arma com as duas mãos em um golpe vindo para partir por cima.

Mihos, por reflexo, defendeu-se no exato instante, usando o braço direito. A espada quebrara-se completamente após a mesma colidir com a pele indestrutível e resistente reforçada pelo deus.

Estupefato, Holt encarou boquiaberto a destruição total da lâmina da katana,

Como contra-ataque, Mihos dera-lhe um cruzado de esquerda e outro de direita. Em seguida, chutara-o no abdômen com o joelho. Holt revidara ao agarra-lo pelos ombros e dar-lhe uma forte cabeçada e em seguida uma cotovelada no nariz. Mihos cambaleara para trás, querendo se reorientar

A outra espada ficara visível ao único e atento olho de Holt. Correra para apanha-la. No entanto, antes que seus dedos voltassem a tocar a arma, Mihos correra superveloz para impedi-lo, pisando na mão do direita do chefe militar com força contida para não quebrar todos os ossos.

Holt rosnara em dor. Olhou para seu adversário, fulminando-o com toda sua sanha externada.

- Anda. - disse o General, em voz baixa. - Acabe logo com isso. - fitou-o com um olhar ainda mais penetrante e raivoso. - Vá em frente e mate-me! - pediu ele, vendo-se sem saída.

Mihos analisava a situação em alguns segundos, ora olhando para seu pé praticamente esmagando a mão do General, ora olhando para a espada que ele recuperaria para voltar a atacar.

Tornou a olhar para Holt, o ar sério desta vez. Depois, deixou-se formar-se um sorriso de canto de boca.

- Humanos são tão persistentes. - disse ele, parecendo admirado com a bravura do General. - É isso que os tornam tão divertidos. - por fim, tirara seu pé sobre a mão do militar, recuando alguns passos. - Fiquei onde está e não se mova. - avisou, com ameaça. - Isso aí. Paradinho. Agora... - andou mais alguns passos, aparentando estar indo embora. - ... estou de saída.

- Não ia me matar, seu desgraçado? - questionou Holt, de quatro no chão, ofegando levemente. - Não nasci para seguir ordens....

- Opa, opa. - disse Mihos, arqueando as sobrancelhas. - Eu propus a luta, portanto sou eu quem faço as regras. Nem pense em pegar essa espada. Não até eu dar o fora daqui.

- Não respondeu minha pergunta! - vociferou Holt permanecendo imóvel, sem olha-lo. - Por que resolveu mudar de ideia tão de repente?

- Acabo de lembrar do pacto que você e minha mãe fizeram. - disse ele, recuando mais passos. - Não quero mais uma punição no meu histórico por matar alguém que é útil para ela.

- Então avise à ela que eu me abstenho do acordo! - disse Holt, categórico no tom.

- Eu faria isso se - disse Mihos, olhando de soslaio para a direção onde ficava a ficava a fábrica. - a aura dela não estivesse tão enfraquecida. Não sei o que está havendo... e pouco me interessa.

- Ela está na fábrica? - perguntou Holt, afligindo-se.

- Tempo para perguntas acabou. - disse Mihos, virando as costas em despedida. - Obrigado por me divertir tanto, General. É diferente dos outros mortais, você tem uma mente mais... aberta a lidar com seres como eu. Se conhecesse o papai...

Holt fervia em ódio peçonhento, tremendo enfurecido. Virou o rosto para o herdeiro de Yuga, a face vermelha e embargada de ira.

- Eu... não posso... - falou em tom baixo, comovido.  -... deixar como está. Deixar que as mortes de meus homens fique impune. - uma lágrima caíra em seu punho direito. - Mesmo que nós dois caíssemos, eu me sentiria... satisfeito... por ter me vingado. - rira de leve. - Mas que besteira estou dizendo. Estive enfrentando um monstro... que se vê como um deus... alguém acima de mim... em poder e relevância. - deslizou a mão solo, aproximando-a do cabo da espada. Tocara-o. - Não vai ser... a minha pequenez... que vai me impedir de lutar... pela memória daqueles homens! - disse, elevando o tom na última frase de maneira a chamar a atenção de Mihos.

Levantara-se depressa, logo correndo para golpear Mihos por trás, segurando a espada com as duas mãos e gritando para demonstrar sua raiva testada ao limite.

Em questão de milésimos, Mihos virara-se superveloz, chutando a lâmina da espada, partindo-a ao meio. Em seguida, empurrara Holt ao chão, logo cravando sua mão esquerda no abdômen dele.

Uma mancha vermelha formou-se de imediato na região afetada, sujando a branca camisa.

- Oh, que tipo de surpresa vou tirar daqui. Deixa eu ver... - disse Mihos, mordendo os lábios e suas pupilas direcionando-se para cima, mexendo dentro do aparelho digestivo de Holt que gritava de dor. - Não faça tanto drama. Isso me desconcentra... - tornou a olha-lo, inclinando-se até ele. - Agora fiquei entendiado. Eu fui bem claro quando disse para não se mover bruscamente. Que pena. - deu umas batidinhas na bochecha do General que agonizava. - Você é bem falastrão, o que, como pode ver, não ajudou em nada. Precisa aprender a ouvir, General.

Mihos correra dali usando sua supervelocidade, deixando o General Holt em sofreguidão angustiante com uma insuportável dor. O chefe militar respirava dificultadamente, resistindo o máximo que conseguia, tentando estancar a golfante hemorragia. Tentou alcançar o rádio-transmissor no coldre do cinto a fim de solicitar ajuda imediata através de algum soldado antes que as portas da morte fossem abertas para recebe-lo

                                                                                               ***

O baque do fechar de uma porta acordara Hector bruscamente. O caçador havia dormido na poltrona de couro bege localizada em um canto meio escuro da sala, despertando assustado. Não demorou a coçar um dos olhos ao mesmo tempo em que via Eleonor e Alexia, mentora e aprendiz, entrarem depressa na sala, ansiosas para realizar o próximo passo do plano.

- E então? Como ela se saiu? - perguntou Hector, dirigindo-se à Eleonor ao se levantar.

- A conexão, pelo que me pareceu, já está estabelecida completamente. - disse Eleonor, olhando para a vidente com certo orgulho. - Acho que nós duas fomos bem.

- Só tive receio quanto a... - Alexia cortara a frase, hesitante.

Hector mostrou-se curioso quanto a conclusão, assentindo para ela com expressão de aguardo.

- Sim...?

- Ahn... Eu... - titubeava ela, desconcertada ao olhar para os cantos. - Eu só... Só não me sinto muito confortável com essa ideia de fazer um corte na palma da mão, eu detesto ver sangue, quanto mais o meu.

O caçador esboçara uma expressão brincalhona com um sorriso.

- Então era só isso? Um medo irracional de se cortar? - perguntou, rindo internamente da fobia da amiga.

- É fácil para você falar. - retrucou Alexia, séria, levantando uma sobrancelha. - Já que boa parte da sua vida foi marcada com sangue. - disparou ela, sem medo.

Um silêncio rápido, mas incômodo, recaiu sobre o trio. Hector fitou Alexia com seriedade, como se tentasse reconhece-la novamente. Eleonor, praticamente sem ação, tentou encontrar maneiras de amenizar o clima confuso entre ambos. Por outro lado, Alexia baixara a cabeça, pondo uma mão na boca em sinal de arrependimento, enquanto Hector andara pela sala calmamente, suspirando.

- Eu... - gaguejara ela. - Me desculpe, eu só...

- Não, está tudo bem, Alexia. - disse Hector, erguendo levemente uma mão perdoando-a. - Você foi sincera, não vou julga-la por ter dito a verdade. "Melhor nem confessar que me fez lembrar do modo de falar de Rosie", disse, em pensamentos.

- Sim, mas... - disse a vidente, voltando-se para Hector com angústia na face. - ... eu toquei na ferida. - virou-se para Eleonor. - Talvez seja algo que esteja mexendo com minha personalidade...

- Não, não venha com isso, por favor. - interrompeu Eleonor, severa. - Culpar o estudo sobre uma magia inofensiva sobre algo dito sem pensar é, no mínimo, infantil, não acha? - perguntou a bruxa, olhando-a estreitamente. - Você notou o quanto fui clara: Nem todo indivíduo que estuda bruxaria primitiva está destinado a abraçar seu lado negro. É uma questão de auto-controle e auto-conhecimento. - aconselhou ela.

- Olha, vamos esquecer o que falei. Está bem? - disse Alexia, apressando-se. - Só quero que... comecemos logo com isso. Afinal, é pelo Hector e, principalmente, pelo futuro da humanidade que faremos o que acharmos ser certo.

- Agora sim uma postura madura. - disse Eleonor, sorrindo para ela e preparando a lâmina. - Prepare-se. - fizera o corte na palma com cautela.

Hector se aproximara um pouco mais para assistir ao ritual de troca de corpos. Ou, mais especificamente, da troca de duas almas humanas, uma assumindo o corpo da outra.

- Não escondo que estou ansioso para ver como será esse feitiço. - disse, esfregando de leve as mãos.

- Um dos princípios básicos desta magia... - disse a bruxa, limpando a faca em seu vestido de seda azul. - ... é que deve ser forjada uma conexão mútua entre dois indivíduos, sobretudo quando ambos possuem características em comum, conhecidas ou ocultas. - entregara a lâmina para Alexia. - Sua vez. Coragem, você consegue. - deu uma piscadela para a vidente, estimulando-a.

A vidente respirara fundo ao olhar para a lâmina reluzente. "Uma troca. É... Isso será pelo futuro.".

- Vou me sentir mais velha, mas pelo menos não vou estar me sentindo observada. - brincou Alexia, pegando a faca.

- Engraçadinha. - retrucou Eleonor, revirando os olhos.

Mantendo o máximo de precaução possível, Alexia cortara a palma direita com esmero, ainda que apresentasse uma face de desconforto. Devolvera a faca à bruxa e, novamente, suspirou olhando para sua mentora com determinação. Hector cruzou os braços, alimentando seu foco na experiência formidável que se desenrolaria diante de seus olhos.

Eleonor olhara-o séria, dando a mão direita à Alexia para que ambos os cortes estivessem unidos, algo que representava o fortalecimento da conexão e reforçar a eficácia do feitiço.

- Sugiro que se afaste. - avisou ela ao caçador. - Sei que detesta luzes ofuscantes. - sorrira para ele de modo enigmático.

Franzindo o cenho por alguns segundos, Hector resolveu ceder ao pedido ao recuar alguns passos até ficar quase encostado na parede próxima à porta.

- Assim está ótimo. - disse Eleonor, logo voltando-se para Alexia, fitando-a com confiança no olhar. - Pronta?

Alexia, um tanto trêmula devido a ansiedade, fizera que sim com a cabeça.

A bruxa, calmamente, fechara os olhos, preparada para recitar o feitiço.

-  Duo corpora, duae animae, evoco replacement et connexio haec duo receptcula duo essentis alium!

Subitamente, dois pontos brancos e brilhantes surgiram nas mãos direitas de ambas. Logo os dois pontos se expandiram potencialmente, fazendo uma luz branca irradiar nas duas pela boca e olhos. Eleonor e Alexia, involuntariamente, abriram suas bocas, dominadas pelo procedimento.

A ondulação nos vestidos de ambas denotava a produção de uma corrente de vento que aumentava consideravelmente, fazendo o cabelo preto de Hector esvoaçar de leve, enquanto o caçador preocupava-se mais com a refulgente luz alva que parecia querer cegar seus olhos, instigando-o a protege-lo com o braço esquerdo. "Agora entendo aquele sorrisinho.", pensou ele. "Luz semi-cegante igual a Hector não verá como ocorre o feitiço!".

A sala inteira iluminou-se com a poderosa luz. As mãos ligadas pelos cortes de ambas tremiam fervorosamente durante a espantosa troca. Hector, por alguns segundos, entreviu, numa brecha ínfima formada pelos seus braços erguidos frente ao rosto para proteger seus olhos, um "raio de luz" horizontal entre a boca de Eleonor e a Alexia. "Então é isto? É assim que acontece? Incrível!", pensou, verdadeiramente impressionado.

Rapidamente a luz reduziu em questão de segundos. Eleonor e Alexia logo soltaram as mãos e inclinaram-se para frente com as cabeças baixas, como se estivessem sentindo tonturas. Por um breve instante, Hector, ao tirar os braços perto do rosto após o fim do processo, percebeu estar diante de dois manequins de tão inertes que as duas pareciam estar. "Bem, está começando a me assustar, de verdade.", pensou ele, hesitante, andando poucos passos à frente olhando-as com estranheza.

"Isso significa que funcionou? Ou não?".

- Eleonor... - disse ele, tocando delicadamente no braço da bruxa. Ele gemeu um pouco ao se empertigar. O caçador olhara para a vidente com desconfiança. - E Alexia...

- Desculpe. - disse ela, erguendo-se e olhando para Hector com uma expressão com a qual a vidente nunca pensou que exibisse à Hector. - Sou uma bruxa Ômega, mas, infelizmente, premonições não estão inclusas no pacote. - sorriu abertamente para o caçador, apresentando os belos dentes que Alexia possuía.

Hector tentou retribuir sorrindo desconcertadamente. Voltou-se para "Eleonor"...

- Eleonor... - errara, logo balançando a cabeça em negação. - Quero dizer, Alexia. Como se sente? - tocou-a no braço com condescendência.

- Exatamente como esperei. - disse ela, assentindo e olhando para sua mentora, cuja alma estava presa em seu corpo. - Mais velha.

- Como disse? - perguntou Eleonor, levantando uma sobrancelha, indicando reprovação.

- Não, estou falando sério. - disse a vidente, olhando para a pele relativamente morena do corpo da bruxa, ou seja, olhando a "si mesma". - Você... Isso é incrível. Como consegue se olhar no espelho todos os dias? - visualizou seu corpo que a observava um tanto insatisfeita. - Tantos anos assim...

- A propósito - interrompeu Hector, olhando para Eleonor (corpo de Alexia) - , quantos anos você exatamente tem, Eleonor? Você nunca me revelou sua idade, só agora que pude lembrar desse detalhe que deixar passar batido há dois anos. - sorriu levemente para ela, de modo bem-humorado.

- Tenho uma ideia melhor. - retrucou a bruxa, andando pela sala. - Começar a agir. - virou-se para os dois. - Está na hora do terceiro passo.

- Nosso estudo não havia sido o segundo? - questionou Alexia, perdida. - E agora eu posso tocar nesse lindo colar de esmeralda. Nunca entendi por sempre ficava brava quando eu pedia para usa-lo, mesmo que por um só dia. - disse ela, ostentando a pequena esmeralda presa sobre um fino fio dourado no pescoço.

- Aproveite enquanto ainda sua alma está no meu corpo. - avisou Eleonor, mexendo nos "seus" cabelos ruivos alaranjados. - E sim, é o terceiro passo, o estudo nada mais foi que uma preparação para o segundo que foi a troca. - olhou para Hector, alterando a expressão para seriedade. - Eu vou à loja de uma amiga de confiança, ela é colecionadora de antiguidades e a conheço desde a época em que o soro da juventude era o sonho de consumo de todas aquelas vadias.

- Ela também é uma bruxa? - perguntou Hector.

- Sempre tive minhas dúvidas. - respondeu Eleonor, dando de ombros. - Sendo bruxa ou não, ela é a melhor conhecedora de artefatos mágicos que já vi.

- Espere um minuto. - disse Alexia, apreensiva. - Quanto é o limite de tempo?

- Engraçado, essa é a primeira vez que me vejo com tanta insegurança. - brincou Eleonor, vendo seu corpo reagir com as sensações da vidente.

 - Quanto tempo? - insistiu Alexia, aflita. - Duas horas? Meia hora? Dez minutos?

- Acalme-se, acalme-se. - aconselhou Eleonor, erguendo levemente as duas mãos aproximando-se da aprendiz. - Tudo irá correr perfeitamente bem. Entre uma bruxa e uma pessoa com pouco conhecimento da magia, como você, a troca só pode ser desfeita apenas quando eu desejar que seja. Em outras palavras - relanceou Hector -, o recitador do feitiço é quem detém o poder de decidir quando as duas almas devem voltar para seus devidos corpos.

- Então não foi exatamente uma troca de corpos. - disse Hector, com ênfase na última palavra da frase. Olhou para ambas, parecendo estar um tanto desconfortável. - Apenas as almas foram trocadas. Eu pude ver. Dificilmente, mas vi.

- Mas é assim que sempre chamaram: Troca de corpos. - redarguiu Eleonor, ajeitando o vestido de seda púrpura que pertencia à Alexia. - Enfim, não importa. Devo contar o real motivo pelo qual Alexia teve tanto receio em realizar o feitiço? - olhou-a com as sobrancelhas arqueadas.

- Vá em frente, diga. - disse ela, virando as costas e andando pela sala, ansiosa.

- São as visões. - disparou, lacônica, pondo as mãos na cintura. - Ela teve medo de que a troca fizesse com que uma soubesse das memórias da outra. Mas, como pode sentir, Alexia, não foi o caso.

- Pelo visto, não foi muito específica no momento de explicar como funcionava. - disse Hector.

Eleonor suspirou, tentando manter paciência intacta ao olhar para o caçador.

- Na verdade, isto foi antes de começarmos os estudos. - disse ela, logo visando sua aprendiz insegura estando pensativa em um canto da sala. - Foi preciso uma pilha de livros colocada na mesa às pressas para convence-la a ficar, antes que ela saísse correndo da sala depois que tentou mudar de ideia.

Alexia afastou uma mecha do cabelo castanho e voltou-se para a dupla, dirigindo-se à eles com certa insatisfação.

- Fez muito bem em usar da minha ansiedade para ter de deixar os detalhes importantes somente quando terminasse o processo. - reclamou a vidente, olhando-a desafiadora.

- E como acha que eu devia proceder? - perguntou Eleonor, franzindo o cenho. - Informar os detalhes só a deixaria mais aflita. - andara até um canto, aparentando um ar de mistério. - Além do mais... minha ida até a loja certamente não será tão segura quanto pensam. Não achem que o fato de eu estar em um corpo diferente torna esse disfarce totalmente eficaz.

- Se refere às bruxas, certo? - indagou Hector, olhando-a intrigado. - Lembro de você ter dito sobre elas terem olhos e ouvidos por toda a extensão de Londres. Infiltrações, não é isso?

A bruxa virara-se apresentando uma postura corajosa o bastante para transparecer seu objetivo em assumir qualquer risco que viesse a arruinar com o terceiro passo do plano.

- Há uma possibilidade real de eu ser descoberta. - afirmou ela, sem medo, olhando para ambos. - Seja caminhando na rua ou até mesmo... na loja.

- A tal mulher que diz ser de sua confiança... - arriscou Alexia, não gostando nem um pouco da atmosfera que aquela discussão estava adquirindo.

- Exato. - confirmou Eleonor, suspirando com ar de incerteza. - Nunca cheguei a descobrir se ela tem ou não acesso à magia e perguntar sobre algo tão pessoal e secreto seria como dar um tiro no escuro. É arriscado eu fazer questionamentos muito profundos, mesmo que sejamos amigas de longa data. Além disso, caso eu for descoberta e o plano vir a ruir, eu posso acabar sendo pega numa emboscada e ser morta... - ela abaixou a cabeça, tentando manifestar em palavras a pior coisa que poderia ocorrer em contribuição ao fracasso do plano. - Eu... Minha alma vagará sem rumo e meu chackra se tornará rastreável. - olhou para Alexia com angústia. - A alma de Alexia jamais retornará ao seu corpo. Se caso Alexia, não aguentando mais viver nessa casa, tiver de sair, vai ser pega em qualquer lugar público que passar, sendo confundida comigo a menso que a sequestrem e a interroguem.

- Mas nesse caso elas ficariam indecisas. - apontou Hector, reflexivo como um dedo indicador no queixo. - Só de pensarem ter visto você, Eleonor, andando em um local público, e de não sentirem nenhum chackra as colocaria em um dilema. Atacar ou esperar um sinal convincente que reforce a suspeita. Alexia, obviamente, não possui nenhum chackra. Talvez ficariam confusas...

- Está enganado, Hector. - discordou Eleonor, aproximando-se do caçador com certa elegância nos passos. - Elas atacariam imediatamente assim que vissem meu corpo perambulando por aí, e a ausência do chackra revelaria que uma troca foi feita e que uma alma pura está habitando o meu corpo.

- Você não me deixou terminar. E concordo com você. - esclareceu Hector, assentindo para ela.

- Tudo bem, conclua seu ponto. - disse Eleonor, dando de ombros.

- Se estivessem em grupo, uma ou três no máximo, ficariam confusas pelo fato de estarem especulando se uma troca foi feita ou se você perdeu sua magia. - argumentou o caçador, firme.

- Eu as conheço melhor do que você pode imaginar, Hector. - retrucou a bruxa, categórica. - Jamais especulariam isso diante das circunstâncias atuais. Sou uma fugitiva por crime de roubo. Mesmo que pensassem que decidi me expor em locais públicos, elas apostariam na teoria da troca. Agora estou imaginando como seria se eu e você fizéssemos o feitiço... - dera um sorriso nervoso. - ... pelo modo como você subestima elas, o plano teria mais chances de fracassar.

- Sem querer ofender, mas tenho que concordar. - disparou Alexia, olhando para ambos de modo apreensivo, os olhos verdes realçados.

Hector fizera uma expressão de confusão, como se achasse bizarra a ideia da alma da bruxa ser fixada em seu corpo durante a imaginária troca.

- Não seria tão apropriado. - opinou o caçador, nervoso ao pensar.

- E nada vantajoso. - completou Eleonor, enfática, cruzando os braços.

- Olha, essa discussão só nos fará perder mais tempo. - alertou Alexia, impaciente, pondo-se entre os dois, olhando-os ao virar o pescoço para ambos os lados. - Precisamos da pedra Ônix, rápido! - disse, dirigindo-se à Eleonor.

- E se estiver em falta? - perguntou Hector, pessimista. - Devemos considerar essa possibilidade também.

- Não, não acho que está. - contra-argumentou Eleonor, pensativa, olhando para um canto da sala. - Há alguns anos, na última vez em que fui até lá, vi um acervo de pedras Ônix numa caixa, numa prateleira, meio escondida dentre outras caixas. As pessoas normais que iam até lá talvez nunca tenham reparado nelas, acho que ela, hoje, pode ter escondido e guardado em algum local secreto em sua casa. - teorizou ela.

- Não está pensando em roubar, está? - perguntou Alexia, fitando-a com o cenho franzido.

- Roubar, à esta altura do campeonato, seria pedir por mais perda de tempo. - disse Eleonor, firme no tom. - Muito bem, prometo não demorar. - garantiu a bruxa, encaminhando-se para a porta da sala.

- Ei, espere aí. - chamou Hector, andando até ela. - Não acha que agilizaria mais se fosse através de um feitiço de teleporte? Você sabe a localização da loja, pode se trasportar para um ponto onde não chame muita atenção.

A bruxa o olhou como se não acreditasse no que estava ouvindo.

- É sério isso? Não pode ser... - virou o rosto, reprimindo uma risada. Voltou a fitar o caçador. - Nem nos meus piores delírios eu iria considerar essa ideia. Não se preocupe, vou tentar amenizar meu chackra se caso eu chegar a sentir o delas. Para que esse disfarce fosse de toda eficácia eu teria que abrir mão da minha magia, o que certamente seria uma péssima ideia. Prefiro guardar isso quando eu for para as Ruínas Cinzas. - girou a maçaneta, logo abrindo a porta.

- Tenho que admitir. - disse Hector, observando-as com um olhar de admiração e ajeitando seu sobretudo de couro marrom escuro. - Ainda é muito estranho estar... interagindo com as duas depois do feitiço.

- Compreendo. - disse Eleonor, sorrindo para Hector ao estar prestes a sair da sala. - É demais para sua cabecinha cética processar. Não é? - por fim, fechara a porta sem estar interessada em saber a resposta.

Alexia aproximava-se do caçador, fitando a porta, transmitindo toda a alta expectativa que nutria para o êxito do plano.

- As vezes... ela não me inspira tanta confiança quanto eu esperaria. - comentou.

- Entendo. - aquiesceu Hector, cruzando os braços e tornando a andar pela sala demonstrando impenetrável paciência em sua compostura. - Por ora, só nos resta esperar... e acreditar no sucesso.

                                                                                       ***

Por um corredor da fábrica de Birmingham, Áker andava a passos rápidos e largos, decisivo em seu propósito de frear os contra-ataques ordenados por Sekhmet. Um abafado som de um grito ecoou até chegar à sua audição sobre-humana. Vinha da sala no fim do corredor mais á frente. O arauto correra, passando por entre dois corredores à sua esquerda e direita. Erguera a mão, fazendo-a irradiar uma luz alaranjada, a mesma crepitando como se estivesse em plena combustão. A porta, por fim, fora destruída e explodida pelo poder solar do arauto, seus pedaços voando pelo ar.

O estardalhaço da chegada de Áker provocara a ira dos subordinados de Sekhmet. Um deles havia acabado de assassinar um dos aliados do arauto, cravando-lhe uma faca dourada no peito. Ao olhar desalentado para o irmão caído, cujo receptáculo estava terrivelmente carbonizado, Áker sacara sua espada dourada, desviando os olhos, agora furiosos, para aqueles que julgara como verdadeiros traidores do império.

A deusa escolhera caçadores vinculados ao Exército Britânico, que, por sorte, foram dispensados daquela operação de resgate e confinados em bases montadas como acampamentos em áreas florestais. Sendo assim, todos eles tiveram de abandonar seus postos para virem apoiar a esposa de Yuga, por quem nutriam devoção e lealdade ante suas propostas de uma nova gestão no reino.

Lutar pela salvação do império.

- E chegou o manipulador. - acusou um, vindo na direção do arauto, com uma faca dourada em mãos.

- Não. - disse outro, um caçador baixinho e ranzinza, olhando-o com deboche. - Ele é o insurgente.

- Ainda não sei como se safou de nossa rainha - disse o terceiro, alto e magro, apontando a faca para o mensageiro. -, mas nós somos três... e não vai ser seu ego moldado pela sua importância que vai salva-lo de nós.

O caçador baixinho avançara contra Áker, tentando esfaqueá-lo. O arauto defendeu-se com sua espada dourada. O mais alto veio pela direita, com o mesmo movimento do outro, Áker dera-lhe uma joelhada e um chute no estômago no outro, logo em seguida dando-lhe uma cotovelada no nariz. O assassino do aliado do arauto logo avançara com fúria. Áker o pegara pelo braço, quebrando-o com o joelho esquerdo, depois dando-lhe um golpe com o cotovelo em seu rosto, fazendo-o cair.

O baixinho viera tentando pega-lo desprevenido, mas Áker, utilizando-a de sua alta percepção, virou-se para ele, cravando verticalmente a espada dourada na cabeça do soldado. O mesmo irradiou uma luz amarela pela boca e olhos, sua casca queimando-se e carbonizando-se.

- Me perdoe, irmão. Minha luta possui a mesmo objetivo que o de vocês. - disse Áker, com pesar na voz.

- Maldito! - gritou o mais alto, desferindo um corte no rosto de Áker com a espada.

A ferida, por poucos segundos, tremeluziu uma luz alaranjada, que logo sumira. Áker o olhou com certa raiva e aproximou-se com supervelocidade, empurrando contra uma parede. O outro viera por trás, logo cravando a faca nas costas do arauto, produzindo um rápido brilho amarelo.

Áker gemera, mordendo os lábios, enquanto mantinha o caçador mais alto contra a parede. Direcionou as pupilas enviesadamente, o suor descendo pela sua testa.

- Vocês não entendem... - disse ele, tirando a mão direita que segurava um lado da gola da camisa do caçador para retirar a faca em suas costas. Por fim, retirara-a, voltando-se para aquele que matara seu aliado, mostrando a faca ensanguentado e mantendo o outro sobre seu domínio. - Sekhmet está os induzindo a uma teia de constantes manipulações.

- E que escolha nós temos? - disse ele, desafiador. - Nós já sabemos que você a enganou. O faremos pagar caro, mesmo que isso signifique nós matarmos Rosie Campbell.

Áker usara a faca para cravar no que estava contra a parede.

O outro, com telecinesia, pegara a espada do arauto para golpeá-lo pelas costas novamente. Rápido e ágil, Áker virara-se e entortara o braço do soldado antes que ele atacasse. Ele gemeu de dor, sendo forçado a largar a arma.

- Nenhum de vocês é ousado o bastante para tocar nela. Não enquanto eu estiver vivo! - vociferou ele, logo tomando sua faca de volta e cravando-a no rosto do oponente em posição horizontal. O empurrara contra o chão, olhando o desolador cenário que a sala branca se tornara.

- Lutamos pelo mesma causa. Com meios diferentes. Lados diferentes. Sem nenhuma escolha senão lutar. E vejam como termina. - disse, logo tornando a olhar para mais dois que entraram na sala. - virou-se para retirar a faca que usou para matar o mais alto, ficando com duas em mãos.

- Permaneço servindo ao Lorde. - disse Áker, olhando de soslaio para a dupla.

- Você, dentre todos os outros que estão coniventes com sua rebeldia, é o mais cego. - provocou o primeiro, um caçador vestindo um colete marrom - como os outros -, camisa branca e calças pretas. Seu rosto era caucasiano e robusto, com barba por fazer e cabelo curto e preto. - Não percebe o quão incapaz ele está contornar os danos causados pelo inimigo?

- Insiste, cegamente, em seguir as ordens de um imperador que resolve meditar ao invés de olhar para nós e entender nossa revolta. - disse o outro, barbudo e calvo.

- A vontade dele é irrevogável e absoluta. - enfatizou Áker, falando de modo rigoroso. - Se rebelar à ela é inútil. A fúria de Sekhmet dividiu nosso exército, ela manipulou todos vocês. - tentou convence-los, fitando-os de modo que os fizessem entender completamente seu lado naquela guerra.

- Basta. - disse o segundo, inquieto, segurando firme sua faca dourada.  - Afinal, onde ela está?

- Já dei minha versão dos fatos. - retrucou o arauto, respirando fundo. - Como os mortais dizem: o pior cego é aquele que não quer ver. E, obviamente, não me enquadro nesta definição.

- Nos diga agora. - disse o primeiro, dando uns dois passos adiante com ar de ameaça. - Não tente usar sua posição como argumento para justificar as decisões do Lorde Yuga.

- Quando Sekhmet demonstrou os primeiros sinais de que não mediria esforços para matar Rosie, me prontifiquei a agir como defensor. - argumentou Áker, o tom mais grave.

- Cometendo uma irregularidade passível de punição, espertinho. - redarguiu o barbudo, levantando uma sobrancelha.

- O que pode-se traduzir facilmente como um risco que estive cientemente disposto a correr. - falou o arauto, a voz adquirindo irritabilidade.

- A efetivação fez mal á sua mente, Áker. - disse o robusto, olhando-o com decepção. - Nos queremos que o faça acordar.

- E se eu recusar...? - indagou o arauto, desconfiado quando às intenções de seus irmãos.

- Nós forçaremos o despertar dele... - disse o segundo, com um sorriso sacana. - ... e contaremos que fez mais do que sua obrigação. Revelaremos que se tornou protetor da mortal, ignorando seu papel original. - ameaçou ele.

- É isso Áker. Não o deixaremos passar enquanto não se decidir. Escolha! - disse o primeiro, raivoso, deixando suas pupilas brilharem a luz amarela por poucos segundos. - Renda-se ou morra.

Como medida de evitar mais perda de tempo, o arauto piscara, logo exibindo seus olhos totalmente brancos, visualizando todo o recinto ao seu redor. A visão em preto e branco da sala mostrara marcações por toda parte.

- Isso é novo pra mim. - comentou o barbudo, estranhando a habilidade, revelando nunca tê-la visto.

- O que está pretendendo fazer? - perguntou o primeiro, segurando com mais firmeza sua faca dourada.

Áker sorrira levemente, em seguida piscando e fazendo seus olhos retornarem.

- Como pensei: Não foram avisados. - disse ele, praticamente deliciando-se com a aparente vantagem.

- Não fomos avisados de quê? - questionou o mais robusto, ríspido.

O arauto, rapidamente, largara as facas que antes segurava, jogando-as no chão.

- Então é assim que será?! Rendição. - disse o primeiro, sorrindo de canto de boca.

- Negativo. - disse Áker, lacônico. O arauto de Yuga, sem perder mais nenhum segundo, erguera os dois braços à frente, recitando, em ritmo veloz, o conhecido rito para ativação de sigilos, totalmente em dialeto dos deuses. Ambos os asseclas de Sekhmet entreolharam-se abismados em um contato visual que denotava uma fuga rápida antes do término do ritual.

Estalando os dedos das duas mãos ao mesmo tempo, Áker olhara para as duas paredes que revelaram duas marcações acendendo-se.

Os dois soldados, como esperado, foram atraídos pelos sigilos acesos tal como a ação de um metal para com um imã. Ambos gemiam, presos e inertes nas paredes, enquanto a marcação começava a exercer sua principal função.

- Depois que Rosie dizer sim - disse Áker, tranquilamente andando até a entrada e ignorando os dois asseclas em seus sofrimentos. -, a punição para minha conduta irregular perderá sua legitimidade.

- Há marcações... - disse o barbudo, desesperando-se ao sentir suas forças sendo absorvidas pelo símbolo brilhante. - ... em toda a parte!! - gritou ele, numa tentativa vã e estúpida em querer chamar a atenção de qualquer aliado de Sekhmet que estivesse próximo.

Áker parou na soleira, próximo aos pedaços chamuscados da porta destruída.

- Evitem gritar alto demais, suas cascas podem ser danificadas e a situação em que estão pode piorar. - alertou ele, calmo. - Se querem saber... Ela está neutralizada, sem qualquer brecha para estabelecer contato com nenhum de vocês.

- Maldito... - disse o mais robusto, a voz fraca, rangendo os dentes em cólera.

"Pior que não adianta tentar contactar Mihos.", pensou Áker, saindo da sala em passos vagarosos, sem nada a temer. "Fiquei como responsável por ele na ausência do pai, mas é inútil controla-lo ou convence-lo. Só pensa em saciar sua sede de morte, sangue e luta. Caso eu pedisse que se encarregasse de matar os rebeldes de Sekhmet, seria como tentar dialogar com uma pilastra. Ele não cederia, mesmo que fosse para simplesmente matar com uma facada. Não aceita um serviço se este não inclui sujar as próprias mãos. Temos quase o mesmo nível de poder, mas posso fazer isso sozinho.".

Repentinamente, surgiram dois asseclas da deusa solar, após virem de outro corredor à direita. Assim que avistaram o arauto, seus olhos brilharam e suas faces o encararam com ódio. Logo correram na direção do mensageiro de Yuga, sacando suas facas douradas.

Áker rapidamente retirara seu amuleto do bolso do smoking, o objeto já totalmente recarregado, e acelerara o ritmo dos passos. Dissera algo no dialeto divino com o amuleto próximo à boca e logo o jogara à alguns metros à frente no chão. Parara e estendera a mão direita em direção ao minúsculo objeto, os dedos dobrados em formato de garra.

O amuleto vibrara de modo leve, para em seguida brilhar e, por fim,provocar uma explosão que liberou uma feroz rajada solar em direção aos asseclas, que mal gritaram de dor enquanto eram incinerados em segundos, seus corpos queimados e sendo varridos feito cinzas ao vento.

A rajada deixara alguns brasas no chão do corredor, mas Áker pouco se preocupou com isso, tornando a andar, seu amuleto telecineticamente indo de volta para sua mão.

"Preciso ir à Liverpool. Só mais três horas de recarga. Sekhmet está fora de rastreamento por seus soldados, já deve ter perdido mais da metade de sua força de vida. Não é somente você Rosie... que tentará evitar que o pesadelo que testemunhamos seja concretizado.".

                                                                                                 ***

O sino que indicava a chegada de um cliente ou visitante tocara rápido com o abrir da porta da loja, balançando levemente.

O estabelecimento, como um todo, era de um caráter simples e modesto, com paredes de um amarelo meio escurecido, umas quatro colunas fixadas entre o piso de madeira e o teto forrado com concreto resistente. Na entrada havia um curto corredor que direcionava o cliente ao balcão de madeira, onde ficava uma senhora meio gorducha, parda, de cabelos brancos e desgrenhados usando um óculos de armação pequena. Não tardou para notar a estonteante presença que se avizinhava, ao erguer as pupilas para a bela garota ruiva se aproximando, tirando sua atenção do pequeno livro que estava lendo no momento.

Eleonor, fingindo ser Alexia e uma cliente que entrara na loja pela primeira vez, passeava os olhos interessados por toda a estrutura, visualizando as prateleiras com diversos itens acerca de magia e ocultismo - indo do primitivo ao mais renovado, consistindo em um acervo atraente para os apreciadores do místico sobrenatural.

 - Em que posso ajudar? - perguntou a senhora, a voz rascante e rouca, olhando para a moça caucasiana de cabelos ruivos alaranjados.

- Ahn... Olá. - disse ela, fingindo timidez e forçando um sorriso. Relanceou uma prateleira atrás da dona. - Devo dizer que... sua loja me pareceu bastante interessante à primeira vista, e que... - baixou a cabeça, tornando-se séria, como se não soubesse. "Acho que os atributos deste corpo inibem meu dom para atuação", pensou a bruxa, frustrada. Voltou-se para a senhora, sorrindo mais abertamente. - Bem... estou um pouco sem tempo, então gostaria de comprar um destes artefatos que estão... - apontou com o indicador. - ... naquela caixa ali. - disse, tendo notado anteriormente as pedras Ônix.

A senhora virou o pescoço para vislumbrar a caixa apontada. Voltou-se para Eleonor com tédio na face. Olhou de cima à baixo.

- Bela garota você é. - deu um sorriso misterioso. - Mas nova demais para manobrar magia de absorção, não acha?

- A prática leva à perfeição, certo? - disse a bruxa, levantando uma sobrancelha.

A mulher idosa inclinou-se, analisando-a com uma minúcia que parecia transpassar a alma.

"Yvette é extremamente analítica, um detalhe que decidi ocultar para não prolongar mais aquela discussão. Ela não mudou absolutamente nada. Preciso agilizar, antes que ela descubra.", pensou Eleonor.

- Seu chackra me é muito familiar... - disparou ela, olhando a cliente desconfiada. - Instruído e equilibrado para uma jovem aparentemente iniciante. Há quanto tempo anda exercitando sua magia? - questionou, suspeitosa.

- Não vim para responder perguntas. - apressou-se Eleonor, pondo as mãos sobre o balcão e fitando a senhora com urgência no olhar. - Preciso de uma Ônix. - aproximou-se mais um pouco. - É uma emergência. - sussurrou.

- Para qual clã você trabalha? - insistiu ela, ignorando a recusa da bruxa.

- Nenhum. - respondeu ela, a fala rápida. - Sou uma bruxa altamente independente. E se reconhece meu chackra, isto só pode significar uma coisa...

- Já basta! - ditou a senhora, ríspida, afastando-se alguns passos. Sorriu presunçosamente ao olha-la com suspicácia. Balanço o indicador esquerdo para ela. - Você não é quem penso ser.

- Do que está falando? - perguntou Eleonor, adquirindo nervosismo na face.

- Consigo notar uma curiosidade em você... - disse ela, novamente analítica, estreitando os olhos envelhecidos. - Uma curiosidade que me faz lembrar de um certo alguém que costumava frequentar esta loja quando necessitava treinar sua magia para conseguir se enquadrar no Coven inglês.

- Deve estar me confundindo com outra pessoa. Olha... - apressou-se Eleonor, impaciente. - Me dê a pedra, pago o preço que for, mas dê-me agora. É urgente.

- Seu comportamento também não é lá muito típico de uma jovem bruxa. - disse a senhora, dando de ombros, visualizando-a de cima à baixo novamente. - E agora consigo sentir seu chackra oscilando lentamente, um chackra facilmente reconhecível... - inclinou-se para ela, desafiadora. - Um chackra nível ômega. - afirmou, sorrindo como se tivesse vencido uma competição. - Nunca me enganou, mocinha.

Engolindo a saliva, Eleonor somente pensava no temor de ser descoberta. Apenas não pensou que seria tão rápido. "Yvette, maldita é sua visão estudiosa, mas não a culpo por ser uma das poucas pessoas que conseguem ver além das aparências. Como sempre, você é a melhor neste quesito.".

- O que quer desta vez... Eleonor? - perguntou Yvette, apoiando o cotovelo direito no balcão, levantando uma sobrancelha. - A posição que ocupa não abrandou sua ingenuidade, pelo visto. Troca de corpos?! É sério isto? Na época em que éramos mais próximas a fiz aceitar que não sou fácil de enganar. O que a fez regredir suas intuições?

- Olha, Yvette... - disse a bruxa, respirando fundo e fechando os olhos. Abrira-os, olhando-a com certa raiva aliada à crescente pressa. - Infelizmente, não estou com o menor tempo para matar as saudades, muito menos para ouvir você tentar me convencer de que é boa em detectar disfarces, mas não tive escolha. Na verdade, nem mesmo posso falar o porque.

- Compreendo sua impaciência. - disse ela, andando em direção à caixa antes mostrada.

- O que quer dizer com isso? - perguntou Eleonor, desconfiada.

- Nem eu mesmo acreditei quando ouvi. - disse Yvette, pegando a caixa e trazendo-a ao balcão.

- O quê, Yvette? O que lhe disseram? Aliás, quem disse? - questionou a bruxa, cada vez mais nervosa.

- De boa menina você nunca teve a postura. - disparou ela, pondo a caixa sobre o balcão. - Mas ser uma criminosa perseguida pelas suas colegas... - suspirou com ar de decepção. - Confesso que esperava menos de você.

- Uma delas veio aqui? - perguntou Eleonor, alarmada. - Quando?

- Fui coagida a não revelar mais do que isso. - relatou Yvette, categórica no tom.

- Então deve ser isso. - disse Eleonor, pensando a respeito da tal visita. - Elas contaram com a possibilidade de que eu recorreria à você e agiram previamente para impedir que você me revelasse maiores detalhes sobre o que estão planejando para me emboscar. - voltou-se para a amiga com alarme pulsando nos olhos e retirando o dinheiro do vestido, logo entregando-o. - Tome. Me dê uma Ônix. E não questione.

- Por que não? - indagou Yvette, rigorosa.

- Não pense nisso, por favor. Jamais desconfiaria de você, sei, só de ver como está se sentindo, que foi ameaçada de morte. - disse ela, demonstrando toda sua amizade e lealdade à lojista. - Mas me responda uma coisa: Há quanto tempo você pratica magia?

Yvette virara o rosto devagar para um lado, apresentando uma aparente hesitação.

- Vamos lá, ora! - pediu Eleonor, aborrecida. - Por durante décadas, confidenciamos segredos uma à outra, coisas que só de pensar em revelar à pessoas que nós amamos já nos causava arrepios. Não espero que você limpe minha bagunça com uma corda posta no seu pescoço, mas preciso que me diga, por favor. - olhou-a com ar de necessidade.

- Há mais tempo do que imagina. - respondeu ela, sem a menor pretensão de fornecer maiores detalhes.

 - Ótimo. - disse Eleonor, mordendo os lábios e pegando uma pedra Ônix na caixa. - Obrigada pelo atendimento. - olhou para ela com angústia. - Espero conseguir retribuir um dia. E, por favor, se elas voltarem, não ceda às ameaças.

Yvette rira com leveza.

- Por anos treinei minha magia secretamente, e, tenho que confessar, ela não é a mesma de outrora. Talvez muito devido à inatividade. Que chances eu teria contra aqueles demônios em pele de mulheres? Eis meu conselho, Eleonor: Nunca subestime algo que você tem certeza de que não pode vencer facilmente. - avisou ela, séria no tom.

Entendendo o conselho alertante quanto ao uso abusivo da auto-confiança, a bruxa assentiu vagarosamente com uma face embargada de seriedade. "É ela mesmo", pensou, abandonando a suspeita não totalmente externando.

Poucos milésimos após virar as costas, a atenção de Eleonor fora chamada novamente.

- Quem é a pobre coitada com quem realizou a troca? - perguntou Yvette, sem medir sua curiosidade.

Eleonor ficara sem responder por alguns segundos. Estava atenta fitando um exemplar raro sobre Profetas localizado na prateleira à sua esquerda. A bruxa, logo lembrando-se de responder a pergunta, voltara-se para Yvette, quase que sem desgrudar os olhos do livro de lombada quadrada, na qual podia-se ver o título "Prophets", escrito em relevo e em cor dourada.

- É... é uma profetisa. - disse ela, involuntariamente erguendo o indicador direito em direção à prateleira. - E por falar nisso... - olhou para Yvette. - Quanto custa aquele? Aposto que é extremamente raro, tão raro quanto o Goétia.

- E por falar nisso... - disse Yvette, saindo de perto do balcão e dirigindo-se à prateleira, ajeitando os óculos. - ... há duas semanas, um rapaz, bem apessoado diga-se de passagem, veio até aqui à procura do Goétia. Era o único aqui na loja. Acho que era um servidor da lei, pois notei algo parecido com um distintivo na parte de dentro do casaco dele. - passou os dedos por entre os livros.

- Muito estranho. - opinou a bruxa, pensativa. - Não me entra na cabeça o interesse que o Goétia pode despertar em alguém... assim. - disse ela, reprimindo a surpresa por Yvette ter posto uma cópia do livro de invocações demoníacas à venda.

- Penso o mesmo. - respondeu ela, parado o dedo no livro apontado por Eleonor. - Este aqui?

- Sim, é. - confirmou ela, empolgada.

Após retira-lo, Yvette assoprou a poeira que formou uma nuvem pairando no ar e na luminosidade amarelada produzida pela luminária de piso posta próxima à prateleira.

- São 30 euros. - disse ela, entregando o livro.

- Não. - disse Eleonor, um tanto pensativa, balançando a cabeça negativamente. - Melhor não. - voltou-se para a amiga, mudando de ideia. - Olha... Você ainda tem vínculo com a agência de correio?

- Como sempre. Por que? - perguntou Yvette, o cenho franzido, parecendo fingir não saber.

Eleonor olhara para os lados, apressada.

- Preciso de lápis e papel. - pediu ela.

- Segure aqui. - disse Yvette, entregando o livro à bruxa, logo andando até o balcão, visando um ínfimo bloco de notas próximo à uma máquina de escrever. O lápis pegara em um caixa pequena onde guardava bijuterias antigas encontrada do outro lado do balcão.

Eleonor anotara, com rapidez na escrita, sua localização exata. Por fim, entregara com pressa o papel à amiga.

- Aqui está. Prefiro uma entrega em domicílio. Por favor. - disse ela, suando em profusão.

- Você está nervosa. - comentou Yvette, dobrando o papel e sorrindo enigmaticamente para a bruxa. - Ao que parece, deve ser algo de extrema importância.

- Acho que está bem óbvio. - retrucou Eleonor, dando uma risadinha nervosa.

- Seu chackra está muito instável. - disse Yvette, aproximando-se dela com preocupação. - Tem mesmo certeza... de que quer sair lá fora sem nenhuma proteção? Convenhamos... uma troca de corpos não foi, nem de longe, a melhor ideia para se driblar uma perseguição.

- Sim, Yvette... - disse Eleonor, sentindo-se cansada e respirando com dificuldade. - Você... está coberta de razão.

- E você coberta de insegurança. Nunca a vi assim. - disse ela, insatisfeita. - Não parece estar bem, ande, venha, vou preparar um chá para nós duas.

Eleonor sentira uma tontura instantânea abatê-la como uma descarga elétrica. O mundo ao seu redor girava em câmera lenta em uma confusão entorpecedora. "Mas o que... Mas que merda! Quando o chackra ganha muita instabilidade após o feitiço... causa a rejeição. Se eu não controlar essa pressa... se essa ansiedade toda me dominar completamente, tudo vai estar arruinado! Minha alma será ejetada do corpo de Alexia. Não quero nem pensar...". Pôs a mão no rosto, tentando se reorientar e manter o equilíbrio.

- Vamos, venha. - pediu Yvette, olhando-a com aflição. - Sei o que está causando isso. É o feitiço, óbvio! Você pulou várias páginas, pelo visto. Quando entrar, garanto que se sentirá melhor. - tocou na mão direita da bruxa.

- Não, Yvette... - disse Eleonor, recobrando a orientação. - Eu falei que estava sem tempo. Portanto, não tenho tempo para conversas... Preciso ir. - disse ela, caminhando a passos largos em direção à porta. - Ainda nos veremos de novo.

Por fim, a bruxa fechara a porta e andara pela calcada sem olhar para trás ou para os lados, salvaguardando a pedra Ônix dentro do vestido e se misturando entre as pessoas que iam e vinham pela rua naquela manhã ensolarada.

Yvette desdobrara o papel para olha-lo com mais atenção. Sorriu com certo maquiavelismo.

De repente, a ilusão se desfizera. Yvette "transformara-se" magicamente, em segundos, numa linda mulher de pele alva como a neve, com cabelo preto estilo chanel e batom escarlate. Abriu mais o sorriso e olhou para a porta com júbilo contido. Além disso, usava um colar cujo pingente era um objeto similar a uma garra de águia... ou, como era comumente chamado, um Ferrão de Vespa... bastante usual entre bruxas.

- Com certeza iremos nos ver de novo. - disse ela, amassando o papel em seguida.

Do outro lado do balcão, mais especificamente na parte de baixo dele, escondido entre caixas de papelão, estava o cadáver de Yvette, boquiaberto e com olhos anormalmente esbugalhados.

                                                                                         ***

Liverpool; 10h40. 

Uma multidão composta de 62 soldados acompanhava Rosie subindo uma parte meio íngreme da floresta com árvores mais finas e altas. As botas dos integrantes daquele exército deixavam marcas no verdejante gramado bem preservado. Fachos de luz solar irrompiam dos galhos e folhas, iluminando algumas partes do solo e parte dos rostos dos soldados. A jovem, olhando fixa e bravamente para frente, somente possuía pensamentos em sua única meta. "Resgatar Êmina e o Dr. Lenox e conseguir a fórmula da cura, se caso houver. Droga, Hector, onde diabos você se meteu?", pensou ela, a figura do caçador-detetive ocupando seus devaneios e a aflição novamente vindo à tona sobre o suposto sequestro do companheiro. De fato, um sumiço sem qualquer presença de vestígio que reforce uma suspeita. Fuga ou sequestro? Já não importava mais. O General tinha razão sobre desconsidera-lo àquela altura, embora cometesse um erro ao mentir para Rosie sobre uma busca que certamente não foi planejada e muito menos iniciada. No entanto, a imagem mais persistente era aquela que vira no futuro caótico. O fato do desaparecimento do caçador aliado àquele pensamento lhe causava arrepios constantes. "Não. Não pode ter sido isso. Vamos lá, Rosie, tenha um pouco de fé. Isso não aconteceu. Nenhum soldado de Abamanu simplesmente apareceu no casarão depois da luta contra aqueles lobisomens e depois de eu ter sido levada apenas para sequestrar Hector. É implausível demais. Abamanu só possui olhos para mim, deveria estar muito desesperado para mudar os planos assim tão rapidamente. Mas... quando eu estava naquele futuro desastroso... Abamanu disse que ele pediu por isso. Que foi uma escolha dele. Ah, Rosie! Concentre-se na missão! A partir de agora, você está sujeita a um mar de eventos imprevisíveis, então é isso... Vou limpar minha mente e me focar somente nos resgates. Áker está ocupado atrasando Sekhmet e os aliados dela. Mihos também está lá junto com o General. Tudo está em perfeita ordem. Pelo menos por enquanto, eu acho.".

A fábrica finalmente ficara visível. À primeira vista, Rosie se surpreendeu um pouco pela mesma ter uma estrutura mais opulenta que as outras e parecer um palácio cujo objetivo era intimidar visitantes indesejáveis apenas com aquela aparência robusta e impenetrável. "Maior do que as outras... mas não significa que Charlie possa estar lá. A menos que ele esteja agindo com mais agilidade do que nós. Talvez tenha se preparado para várias contingências.", pensou Rosie, formulando inúmeras teorias na mente.

No fim da parte íngreme podia-se ver cerca de quatro homens, aguardando a chegada do Exército.

Rosie pareceu a primeira a notar, franzindo o cenho, desconfiada. "Afinal, quem são?".

- Devem ser os caçadores enviados para auxiliar nos resgates, certo? - perguntou um soldado, próximo de Rosie à direita.

- Afirmativo. - respondeu Edgar, logo olhando para Rosie com certa satisfação ao vê-la pela primeira vez. - E você... deve ser a tão falada Rosie Campbell, não é?

- Sim. - disse ela, olhando de relance para os outros três caçadores. - Hector me falou de você. - estendeu a mão esquerda para cumprimenta-lo. - Prazer.

- O prazer é todo meu. - disse ele, retribuindo com um aperto de mão. - Bem, estes aqui atrás são Gerald, Paul e Victor. - apontou com o polegar.

O trio de caçadores assentiu com sorrisos leves.

- Hector me falava muito bem de você. - disse Edgar, com um olhar misterioso. - Uma pena ele não estar aqui.

- Então sabe que ele desapareceu? - perguntou Rosie.

- O General me informou. - revelou ele. - Fui o único caçador selecionado a fazer contato via rádio com ele caso alguma informação tivesse de ser repassada aos outros.

- Hector já tinha me dito isso. Então é melhor irmos. - disse Rosie, tornando-se apressada, aproximando-se mais do caçador. - Você agora é meu parceiro número 2. Até tudo isso acabar.

- Hum... ótimo. - disse Edgar, dando um sorriso de canto de boca. - Acho que será interessante. - tirou o facão com dentes de seu cinto. - Vamos lá cortar umas cabeças. - falou, olhando para o exército com seriedade na face, parecendo querer transmitir toda sua confiança no sucesso da missão.


                                                                                       
                                                                               CONTINUA...

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