segunda-feira, 30 de maio de 2016

Pirofobia canina


Recentemente, publiquei um anúncio na internet, feito estupidamente às pressas, sobre minha cadela de estimação que pus para adoção. Tem sido uma tarefa árdua conviver com ela e arcar com todas as responsabilidades quanto aos seus cuidados. Aliás, não se passou nem 1 ano que estive com ela aqui em casa, acredito que uns 3 meses e umas duas semanas. Meu coração sangra por ela. Eu sentia dó de vê-la se acovardar diante de algo que eu esperava que ela se mostrasse indiferente.

É uma vira-lata, não é muito peluda, sua pelagem é amarela, orelhas caídas, e está perto de entrar na fase adulta. Ela é saudável, bem vigorada, brincalhona algumas vezes... mas extremamente medrosa.

Tudo bem, compreendo alguns medos irracionais que a maioria dos cães sofrem, como fogos de artifício, trovões, etc. Mas medo do fogo!? Bem, claro, fiquei meio desconfiado de início, por que, lá no fundo, me soava estranho que uma cadela tão forte pudesse desenvolver esse tipo de fobia, normalmente mais comum em seres humanos.

Toda vez que eu ligava o fogão - em qualquer período do dia - ela saía correndo em disparada da cozinha para o quintal. Sempre eu ia lá, ver como ela estava se sentindo e me deparava com o mesmo estado quando eu a encontro enfurnada dentro da casinha. Via ela deitada na pequena almofada, tremendo bastante, o olhar aparentemente dilatado, alerta e temeroso. E, no final, eu sempre passava minha mão na cabeça dela, acariciando-a lentamente, depois voltava para cozinha.

Nos churrascos de finais de semana, ela corria para a rua com uma rapidez espantosa. Os primeiros indícios de fumaça já eram motivos suficientes para dar o fora dali, correr sem rumo até o anoitecer - geralmente ela retornava por volta das 19h, quando a família inteira se preparava para ir embora.

No começo eu ficava desesperado, eu não chegava a vê-la correndo e logo julgava que ela havia desaparecido. Quando eu finalmente a encontrava pelos becos e esquinas e a levava para a casa, a carne já passava do ponto ou estava queimada. Ela chorava, até lacrimejava um líquido cristalino... não tenho certeza se cães derramam lágrimas, mas já ouvi que o fato de lacrimejarem pode ser um sinal de alguma doença, mas não era o caso dela.

E este comportamento foi piorando no decorrer dos dias. Ela começou a emagrecer mais. O medo dela até me forçou a parar de fumar toda noite. Àquela altura eu nem havia inventado um nome legal para ela, mas eu já sabia exatamente como seguir e o que fazer com ela a partir daquele momento: Encaminha-la para adoção urgentemente. Na terceira semana do segundo mês ela passou a ter fortes crises de tremedeiras e uma choradeira que tirava meu sono e sempre piorava quando eu a colocava para dentro. E olha que não havia fogo nenhum. Alucinações, talvez?

Custei a acreditar nisso, mas não via outra explicação mais plausível. Ela olhava para o teto, chorando e gemendo. A única saída foi pôr a focinheira que ajudava a abafar o seu choro e me deixava dormir mais tranquilo.

Depois começou a sequência de desaparecimentos diurnos e repentinos. Ainda não tinha escrito o anúncio, mas precisava encontra-la e oferece-la ao cliente em suas perfeitas condições físicas. Eu sempre a encontrava perto da casa noturna próxima ao centro da cidade. Ela sempre estava por lá, em frente, abanando a cauda ao me ver, feliz ao reencontrar seu dono... mas ainda mais relutante em querer retornar para casa.

Cuidar dela se tornou um tormento diário. Escrevi o anúncio, publiquei nos Classificados Online e aguardei alguma resposta de algum interessado. Obviamente citei o principal problema dela. Sua fobia irracional por fogo deveria ser tratada com o mínimo cuidado possível.

Gastei uma bagatela com comida, tosa e outros tratamentos caros, o que desencadeou outro problema. A companhia elétrica cortou minha luz por falta de pagamento. Não entrei em desespero, pois meu emprego de bombeiro - veja que triste ironia - me salvaria em algum momento, mesmo eu também estando aos trancos e barrancos nele e quase prestes a levar um pé na bunda chamado demissão. Meu histórico de faltas aumentava justamente por causa da minha cadela e suas necessidades. Tive que fazer minha vida girar em torno dela ou ela escapava mais uma vez e morreria de fome por aí, sem ninguém bondoso o bastante para acolhê-la em um lar decente.

Quanto eu me mostrava ser a única esperança para salva-la de uma desnutrição antes do primeiro interessado surgir, mais ela repelia minha casa, rejeitando todos os cômodos, sem para quieta em um canto, uma hiperatividade que começou a me irritar. Realmente me passou pela cabeça larga-la de uma vez e cancelar o anúncio.

Improvisei a iluminação da casa com velas. Que outro jeito teria, afinal? Ela não saía da casinha de modo algum quando eu punha as velas nas janelas. Aumentei a cerca dois metros a mais para ela não pular durante o dia e a deixei amarrada na casinha durante a noite. Faltava dinheiro para comprar abajures e meus tios avarentos não estavam dispostos a me ajudar, Meu tio era o que mais repudiava a ideia de tratar a cadela. O que era estranho, já que foi ele que a me deu de presente de aniversário. A ganhei quando ela tinha 6 meses de vida.

Segundo minha tia, ela apareceu em frente à casa deles, chorando e arfando em cansaço. Nesse mesmo dia ocorreu um acidente em uma avenida do centro, uma colisão feia entre três carros e que gerou uma explosão e algumas mortes. Nos noticiários da TV, a câmera focava os carros incendiando, mas ao fundo, à direita, no meio da multidão de curiosos, podia-se ver uma cadelinha amarela e de orelhas caídas observando a ação dos bombeiros. Ela correu assim que a câmera focou em uma parte da multidão. Nesta época eu ainda não havia me empregado como bombeiro.

O acidente aconteceu duas horas antes dela aparecer na casa dos meus tios. Duas horas é, aproximadamente, o tempo que se leva para chegar à casa dos meus tios a partir do centro.

Numa noite, o inesperado aconteceu: Meus "queridos" tios vieram me visitar.

Não pensem que foi uma visita motivada por uma suposta saudade que eles sentiam de mim ou necessidade de estarem mais próximos de seu sobrinho favorito, mas sim para conversar sobre um trágico fato relacionado à nossa família, ocorrido há 28 anos atrás. Uma verdade ocultada.

À luz de velas, na mesa da cozinha, conversamos sobre a morte de minha irmã, que nunca conheci. Disseram que meus pais - que moram no exterior - esconderam isso de mim de propósito durante a infância para que não gerasse um eventual trauma, então ficaram encarregados de me contarem quando eu atingisse a maturidade.

Minha tia mostrou-me uma foto dela. Seu aniversário de três anos. Estava feliz, sorridente... e com seu presente em mãos. Ai, caramba... o presente. Pois é... seu melhor presente de aniversário havia sido uma cadelinha amarela, ainda filhote, aparentando ter uns 3 meses.

Fiquei chocado. Era a mesma cadela que eu tinha! Até o olhar meio tristonho pude reconhecer.

Minha irmã morreu em um incêndio provocado por pessoas que possuíam uma rixa com meus pais.

Chateado com meus tios por terem cedido à exigência dos meus pais de só naquele momento me contarem aquilo, fui para meu quarto e fechei a porta batendo-a com força - acho que os assustei, o baque foi estrondoso.

Me joguei na cama, deitado de bruços e a cara enfiada no travesseiro, encharcando-o de lágrimas. Eles insistiram em conversar comigo ao ficarem batendo na porta, mas gritei, com toda minha raiva, que fossem embora e que esquecessem da minha existência. Insistiram por um hora, eu acho. As batidas e os pedidos ficaram mais desesperados. Ouvi a maçaneta da porta fazendo ruídos, eles queriam entrar de qualquer forma. Acho que adormeci por uns minutos de tanto que chorei. Quando acordei, senti um cheiro de fumaça preenchendo meu quarto. Tossi enquanto me levantava e toda minha visão estava embaçada pelo fumaceiro que se instalou ali.

Minha tia gritava, me pedindo para abrir a porta - que estava trancada - e meu tio tentava arrombar, mas não adiantava de nada. Quando dei por mim, completamente desperto, me deparei com parte do meu quarto pegando fogo.

Apenas senti que minha morte estava certa e definida naquele momento. A janela estava trancada também. Optei por quebrar o vidro com meu taco de beisebol e consegui sair... pela metade.

Escapei, porém com meu corpo pegando fogo da cintura para baixo. Rolei no chão por vários minutos para apagar aquele maldito fogo que consumia minhas pernas.

Tropeçando, fui até a casinha da Lily - eu já havia chamada-a assim àquela altura. Não a encontrei, para meu profundo desespero.

Virei para trás e assisti minha casa ser totalmente destruída e incendiada. Lily, naquela noite, desaparecera novamente.

Tive queimaduras de segundo grau e meus tios provavelmente estão mortos. Acredito que estavam tentando me avisar sobre o incêndio ao verem a fumaça que vinha do meu quarto. A batida pesada da porta balançou uma vela que estava perto do meu guarda-roupa e a fez cair.

Curiosamente no dia seguinte ela foi encontrada por vizinhos em frente à casa destruída. Eu estava no hospital quando soube da notícia.

Eles também acharam algumas coisas enterradas perto da casinha dela: Uma foto da minha irmã e um isqueiro antigo e chamuscado - provavelmente o mesmo usado pelos inimigos dos meus pais quando incendiaram a casa deles com minha irmã lá dentro. Acredito que estavam enterrados há um bom tempo.

A foto era diferente da que meus tios me mostraram. O completo oposto, na verdade.

Na fotografia estava minha irmã deitada em uma suposta cama de hospital, o corpo reduzido à carvão, completamente carbonizado. Não sei quem a tirou, se foi o legista (duvido) ou os mal-feitores (muito provável).

Lily ansiava para provar algo, tenho certeza. Para uma vira-lata, ela gozava de uma esperteza de fazer inveja à muitos donos de cães de raças. Uma ânsia de provar aquilo, especialmente, para mim.

Quando me recuperei, me mudei para casa dos meus tios e me apossei dela como herança. Só queria esquecer toda aquela tragédia e dar uma guinada na minha vida. Lily não seria mais parte dela, certamente. Sua fobia incontrolável apenas me proporcionou atrasos e problemas.

Chequei os Classificados Online e ninguém interessado surgiu para adotar Lily. O apaguei, sabendo que a citação sobre a fobia os deixou receosos.

Rasguei a foto da minha irmã morta e joguei o isqueiro fora. A mesma cadela... a única sobrevivente do incêndio que matou meus pais e sua primeira filha. Tardei a acreditar, mas me forcei a encarar a realidade.

Sem dúvida alguma, eu conheci minha irmã, mesmo que de modo bem inconvencional. E não sei qual reação escolher: felicidade ou tristeza.

Lily surgiu na porta da casa, rosnando para mim. Ela jamais me encarou daquela forma.

Fechei a porta e não soube mais o que pensar.

No dia seguinte, quando a abri para sair à procura de emprego, me deparei com uma estranha mensagem na madeira da porta... parecendo ter sido feita através de arranhões. Incrivelmente, a grafia estava bem legível.

"Você teve a chance de fazer da minha vida um paraíso, mas a transformou em um inferno. Espero que arda eternamente no fogo deste inferno... o mesmo pelo qual passei. Uma pena que não posso fazê-lo, pois mal consigo chegar perto da coisa que me matou. Adeus, irmão.". 

Lily desapareceu para sempre da minha vida e sua passagem por ela me ensinou a não "brincar" mais com fogo.



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