Contos do Corvo #19



- Perdi alguma coisa? - perguntou o coveiro, esbanjando um ar revigorado para seus dois companheiros noturnos. Cravou a enxada no solo, como se estivesse aguardando uma reação de ambos.

- Desde quando passou a se importar? - perguntou a menina, desconfiada, apesar de aliviada com a recuperação do velho amigo.

- Problemas familiares. Preciso de algo para me entreter e a TV está quebrada. Que escolha tenho se não vir aqui e ouvir o que esse pássaro atrevido tem a dizer? - disse ele, olhando com desdém para o corvo.

- Precisou de uma TV pifada para ter que se mostrar disposto a ouvir minhas histórias?! - disse o corvo, parecendo descontente. - Nossa, nunca me senti tão... importante antes, lhe dou meus sinceros agradecimentos pelo nobre motivo que o levou a dizer que gosta de ouvir minhas experiências de vida. - disse, irônico.

- Ah, cala essa boca. - reclamou o coveiro, impaciente. - Além do mais, não disse que gosto.

- O que houve? - perguntou a menina curiosa sobre a razão que motivou o coveiro a buscar refúgio no cemitério àquela hora da noite e, surpreendentemente, necessitar de ouvir uma história do corvo para esquecer do ocorrido. - Suspeito que foi muito mais do que uma simples TV quebrada.

- Não foi nada demais. - disse ele, evasivo, dando de ombros. Olhou para o corvo. - Manda aí.

- Nunca que pensei que diria isso, mas... Obrigado. - disse o corvo. - Bem... pra começar, eu devo confessar algo: Detesto palhaços. Não confundam com fobia ou algo do tipo, só uma antipatia mesmo que desenvolvi graças a um acontecimento que investiguei na década passada na minha temporada naquele país...

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                                                                     OSCAR, O PALHAÇO

A fim de atrair mais espectadores, o proprietário de um circo, em Dakota do Sul, resolveu contratar um escultor, supostamente um amigo de confiança com quem já fez diversas trocas de favores. O circo arrastou milhares de pessoas em sua quinta semana após a "brilhante" ideia daquele homem sonhador e cego pela ambição. Eu observei a conversa dos dois no escritório e mencionaram a palavra "estátua". Sim, foi o que ocorreu, o tal escultor havia sido contratado para esculpir uma estátua de palhaço para ser posta em frente à tenda do circo.

Duas semanas depois, ainda no auge do sucesso, o circo apresentou sua mais nova atração, esta ao ar livre. Nada mais e nada menos que uma estátua de um palhaço nomeado de Oscar.

Ele vestia um macacão branco com bolinhas vermelhas e pretas, também usava luvas brancas e seu rosto magrelo tinha uma maquiagem um tanto medonha. Cabelos vermelhos meio desgrenhados, uma "pele" enrugada, olhos esbugalhados e um sorriso largo com dentes um pouco grandes.

Afinal, que tipo de reação ele esperava do seu público infantil diante daquele coisa mal-feita?

Até hoje não faço ideia do que o levou a ter essa ideia. Se deu conta bem tarde do fracasso e desperdício de dinheiro que Oscar gerou. Nenhuma criança - realmente nenhuma mesmo - desenvolveu afeição ou simpatia por aquela estátua. Pior do que isso, algumas, acompanhadas dos pais, passavam longe e, pelo que percebi, pareciam intimidadas com aquele sorriso, principal detalhe que espantava aquela pirralhada toda.

 Oscar, de fato, foi o pior investimento da vida daquele cara. O esperado depois de perceber a rejeição era que uma minoria de crianças, no mínimo, observassem-o de longe, já que tirar fotos seria praticamente sinônimo de gerar trauma em suas mentes inocentes.

Nas últimas semanas da temporada do circo na cidade, algo inesperado aconteceu.

Um garoto, acompanhado de sua mãe, esperneou para tirar uma foto com o palhaço horroroso. Ela cedeu e, com a máquina em mãos, tirou a foto. De longe, percebi um detalhe curioso na fotografia.

Os olhos de Oscar, ao invés de olharem para frente, estavam desviados para o garoto - que estava posicionado à esquerda. Acho que a mão não percebeu esse detalhe, talvez nem verificou a foto minuciosamente. O espetáculo era o que interessava, não uma estátua de um palhaço feioso.

No dia seguinte, a mesma mãe veio ao circo, lamentando o desaparecimento repentino do filho no mesmo fim de tarde, antes de entrarem na tenda, quando o garoto pediu para comprar pipoca e disse que iria sozinho. Culpando-se por ter se distraído, a mulher chorava de modo irritante. A polícia foi solicitada, mas a busca, que durou três dias, não esboçou nenhum progresso.

Curiosamente, quando a polícia decidiu encerrar a investigação, Oscar sumira do ponto onde estava fixado- sobre um bloco de pedra redondo e meio baixo - na manhã seguinte ao último dia da busca.

O proprietário do circo, ainda afetado pelo desaparecimento da primeira criança que viu algo de divertido em Oscar, entrou em desespero e ameaçou se matar caso não encontrassem a estátua - a qual acusou ter sido roubada. O escultor, claro, achou bem exagerada aquela reação, mas não soube como prosseguir com uma procura por Oscar e prometeu esculpir outra estátua, ainda mais atraente.

Naquele mesmo dia, o tal garoto desaparecido finalmente foi encontrado pela mãe... mas morto dentro de casa. Seu corpo foi brutalmente retalhado.

A nova estátua chegara no dia seguinte, sendo colocada no mesmo lugar de onde antes ficava Oscar. Um palhaço com rosto infantil, gordo e um dente só no meio. Para o dono era melhor do que nada. Melhor do que ver o repúdio nos olhos dos pequenos espectadores.

Dias depois o palhaço contente foi encontrado despedaçado, destruído completamente. Bem, nem preciso contar como o dono reagiu à isso, certo?

No entanto, Oscar, no dia seguinte, foi reencontrado... estando no seu lugar de sempre.

Ambos, proprietário e escultor, ficaram extremamente confusos. O ladrão simplesmente resolveu devolve-lo? Difícil criar uma especulação sobre o que realmente significava aquilo.

Oscar estava sujo, desgastado. Para saber a opinião dos espectadores, o proprietário lançou uma pesquisa em seu site pessoal. Cada visitante deixava uma resposta sobre a pergunta como um comentário. Teve um que disse que se sentia intimidado com o olhar de Oscar e outro que relatou ter sentido como se o palhaço o vigiasse enquanto passava por ele.

O proprietário conversou com seu amigo, o escultor, sobre qual era o segredo que o deixava tão assustador para as pessoas. Todo o falatório levou a uma briga feia entre os dois. Pelo que parecia, o escultor se mostrou relativamente suspeito ao ser questionado sobre como criou Oscar e o porque dele ser tão tenebroso.

Alguns dias se passaram e as atividades no circo foram suspensas por tempo indeterminado. O proprietário checou seu blog e lá estavam mensagens de familiares das pessoas que responderam à pesquisa criada por ele, lamentando que os perderam com mortes violentas. Uma delas, revoltada, disse ter visto a sombra de um palhaço andando pelo jardim de sua casa antes de encontrar seu ente querido morto no quarto. A silhueta, segundo a pessoa anônima, era similar a de Oscar. Em resposta, o dono disse ter cortado vínculos com o escultor que contratou e não está em condições de explicar o que realmente Oscar é.

Para não ser marcado pela polícia como suspeito de ser mandante daqueles crimes, ele apagou os comentários e a pesquisa. Não demorou para o circo ser notificado com uma ordem de restrição que consistia em não atuar mais naquela cidade por conta do constrangimento e temor que a estátua de Oscar causava nos espectadores. A situação piorou ainda mais quando mais mortes de crianças vieram ao conhecimento das autoridades. Além disso, as testemunhas tinham visões muito parecidas: Um palhaço perambulando pelos arredores de suas casas, dando uma risada meio gutural e distorcida. 

Todos os pais das vítimas disseram ter frequentado o circo, o que, obviamente, elevava a suspeita contra o proprietário.

Eu segui o cara até sua residência para investiga-lo. Deixou o carro na garagem, foi até a entrada da casa, abriu a porta e se jogou no sofá aos prantos. Honestamente, tive um pouco de dó dele. Seu negócio indo ladeira abaixo por causa de uma reles estátua cujo propósito era apenas divertir pessoas que ele gostaria de ver sorrindo.

Ele - e eu também, - se assustou com um grito de dor vindo do quarto de seu filho de sete anos.

Correu até lá desesperado, mas cheguei antes dele. Quase caí da janela quando vi.

Ele reparou em mim de relance, mas só teve olhos para o corpo estraçalhado do filho na cama banhada em sangue. 

E algo mais. Sim, ele estava lá. Sorrindo naquele quarto semi-escuro.

Oscar estava parado ao lado da cama do garoto, segurando uma faca, os cabelos em frangalhos - praticamente calvo - e com seu sorriso medonho e olhando diretamente para o proprietário do circo que o rejeitou. 

Ele jogou uma bola no palhaço, mas ele mesmo assim não movia um dedo sequer. Totalmente estagnado.

Junto ao desespero pela perda do filho, veio a confusão sobre o que Oscar realmente era.

Dominado pelo pânico, ligou para a polícia. Apenas para se ferrar bonito. Acabou por ser autuado pelo assassinato após ter jurado, com todas as suas forças, que Oscar era o assassino de seu filho. Uma estátua... assassina. Claro, pareceu ilógico e surreal para os policiais que consideravam aquilo uma desculpa. Enquanto era colocado na viatura, o vi chamarem-o de burro por ter colocado a culpa numa estátua, sendo que a faca pertencia à mesma marca de utensílios para cortar da casa. Além do mais, o palhaço não tinha marcas de sangue em sua roupa, o que ligeiramente intrigou o dono do circo. A roupa que ele usava era diferente da que tinha enquanto estava em exposição.

Compreendo o que pode estar se passando na mente daquele cara preso injustamente.

Eis o mistério que vai atormenta-lo pelo resto de sua vida naquela cela: Afinal, o que Oscar, de fato, era?

Homem ou estátua? 



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