segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Companhia Noturna


Bem, para começar, me chamo Kate, tenho 21 anos e blá-blá-blá, enfim obviamente você pouco se importa com o que tenho a dizer sobre mim, porque, de fato, não estou escrevendo este texto relacionado a minha pessoa, você veio aqui para saber mais a respeito da minha tal companhia de todas noites. Resumidamente, eu a conheço desde meus... 06 anos? Serão 05? Dane-se, deve ter sido entre essas duas idades, talvez próximo do meu aniversário. Só sei que ela tem sido uma companhia agradável desde a minha infância. Não é coisa de amigo imaginário... É real. Ela é real. Pelo menos aparenta ser uma criatura do sexo feminino, acho até estranho nunca termos conversado sobre isso na época pré-adolescente, parecia que crescíamos juntas, como se fôssemos metades de um mesmo ser.

Seu nome é Anne. Sempre aparece a noite, quando meus pais saem para pregarem nos cultos - eles são pastores evangélicos -, logo fico sozinha em casa, ela adora isso pois proporciona mais liberdade para conversarmos sobre os mais diversos assuntos.

Como éramos amigas de longa data, pensei muito bem sobre a ideia de "psicologa-la", em retribuição a minha depressão pós-parto do meu primeiro filho que está sob os cuidados da babá no andar de cima. Anne me reergueu de uma maneira... no mínimo surreal, inexplicável demais, mas senti que seu apoio foi sincero e revigorante, me fazendo crer em dias melhores novamente. Nossa última conversa foi uma mescla de terapia e entrevista. Mais entrevista do que terapia. Anne aceitou compreensivelmente, desde que o gravador não pifasse com sua voz. É que a voz dela é meio rouca e baixinha normalmente, mas pode ficar mais grave e instável dependendo de seu estado emocional com o decorrer da conversa e isso poderia meio que atrapalhar o rumo da entrevista, então ela tratou de tentar equilibrar o tom.

Alguns fatos sobre Anne:

- Ela detesta luz. Portanto, sempre que meus pais saem deixo meu quarto as escuras, entro e fecho a porta, sem nenhuma fonte luminosa visível. Sendo assim, jamais vi sua aparência e sempre respeitei a decisão dela de nunca mostra-la pelo vínculo que temos.

- Anne adora ficar perto da cabeceira da cama. Ironicamente, minha cama fica perto do criado-mudo onde está o abajur.

- Anne sente um medo irracional de ouvir vozes além da minha enquanto conversamos. Uma vez quando meus pais chegaram mais cedo, inesperadamente, ela cortou a frase e dois minutos depois liguei a luz e ela já tinha sumido.

- Anne detesta latidos de cachorro. Quando a Dolly, minha cadela poodle, late para a janela do meu quarto, ela fica nervosa e pede que eu saia por um momento para fazê-la calar.

*As falas de Anne estão em itálico para expressar que sua voz é diferente. Ainda estou indecisa quanto a disponibilizar o áudio. Mas acho que a entrevista transcrita por enquanto é o bastante.

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K: Olá Anne.

A: Olá Kate. Como está?

K: Já ia perguntar o mesmo (risos). Estou... no meu normal, no de sempre. E você?

A: Um pouco nervosa. Agora que chegou a sua vez, não esperava que fosse assim. É uma entrevista, você disse?

K: Sim, Anne, o gravador já foi ligado. Posso começar?

A: Só um minuto. (pausa relativamente longa) Não instalou câmeras, certo? 

K: Entrevista em áudio e somente. Prometi a você. (curta pausa) Não tem câmeras infravermelho em nenhum canto, pode ficar tranquila, não ia fazer isso com você... porque é você (risos).

A: Ah sim. Obrigada. Quando quiser... 

K: Muito bem. Primeiramente: De onde você é?

A: Você nunca chegou a me perguntar isso. 

K: Não lembra do que combinamos semana passada? Perguntas inéditas. Você concordou.

A: Ah, claro... (longa pausa) Foi ideia sua. Tudo bem. (curta pausa) Eu... Não conheço muito bem o lugar onde nasci. 

K: Por que é escuro? (risos)

A: Para, não tem graça. 

K: Desculpa... Continuando: Já que não sabe muito da sua terra natal, ao menos você cresceu ao lado dos seus pais?

A: Sempre fui autossuficiente. Nunca precisei de ninguém para sobreviver. 

K: Mas você teve um pai e uma mãe... não é?

A: Não como você. 

K: O.K. Err... Honestamente, eu sempre tive uma certa dúvida sobre você, o seu... gênero. Lógico, você tem uma voz feminina, comporta-se como uma garota, mas...

A: Olha, Kate, já me conhece o bastante para saber que só falo assim para não assustar você. Você é uma fofa, mas nunca foi tão ingênua. Vamos ser realistas: Nunca fomos iguais e nunca seremos. 

K: Tudo bem, já sei disso desde o início. (curta pausa) Mas eu quero saber quem você realmente é.

A: Tipo... Minha aparência? 

K: Não exatamente, apenas sobre o seu verdadeiro eu.

A: Homem, mulher, os dois... Isso importa tanto pra você? Eu sou apenas Anne. Pensei que só por me ter como companheira já te bastava para não se sentir tão solitária quando seus pais intrometidos saem para perderem tempo com bobagens. 

K: Não é bobagem. Isso foi desnecessário, Anne, esse comentário foi bem infeliz da sua parte.

A: Agora deu para defender a idiotice dos seus pais?! É uma perda de tempo, Kate, devia avisa-los. 

K: Se fosse tão simples... Mas não estou defendendo eles, eles que façam o que quiserem, tenho sorte de ter pais flexíveis que aceitam minhas decisões. (longa pausa) Você não gosta de religião?

A: Acho muita loucura. 

K: Você acredita em Deus?

A: Acredito naquilo que posso ver.

K: Eu não te vejo, mas acredito em você. É a amiga mais sincera que já tive.

A: Não vai me convencer tão fácil... 

K: Não quero te convencer de nada, sabe muito bem que não sigo doutrinas, mas acredito que o universo não veio do nada ou do acaso. Não pensa a mesma coisa? Ninguém nunca te ensinou sobre isso?

A: Próxima pergunta, por favor. 

K: OK. (curta pausa) Então você não tem um gênero definido?

A: De novo isso?!

K: Só responde, vai, por favor.

A: Não sou homem nem mulher. Sou única e original. Se estou me referindo a mim mesmo no feminino é para fazê-la se sentir confortável. 

K: E sobre a luz? Por que você a odeia tanto?

A: Não odeio a luz. Odeio a dor que ela penetra sobre mim. 

K: Então você é um tipo de vampiro e só pode interagir com seres humanos em ambientes totalmente escuros?

A: O que é um vampiro?

K: São criaturas que vivem nas trevas e se alimentam de sangue humano. Dormem em caixões, tem aversão a cruzes, alho e estacas de madeira, além de queimarem quando expostos a luz do sol.

A: Nunca ouvi falar. Não sou assim. 

K: Então jamais escutou nenhuma história de vampiro no lugar de onde veio?

A: Kate, sejamos francas: O que acha que sou?

K: Não sei... (curta pausa) Em todos esses anos, pensei em tanta coisa sobre sua natureza, sua vida, sua história que acabei inventando mil teorias sobre quem era a suposta garota que me visitava toda noite. Mas se quer a verdade... Acho que você é um fantasma.

A: Acha que estou morta?

K: Isso significa que já ouviu histórias sobre fantasmas?

A: Eu acompanho seu blog.

K: Você lê minhas histórias? Desde quando?

A: Desde sempre, ora.

K: Ma-mas... (curta pausa) É impossível. Você não liga meu computador as escondidas porque qualquer fonte de luz é prejudicial a você.

A: Na verdade, eu leio seus pensamentos, sua mente é... bem barulhenta, convenhamos. 

K: Ah, então é isso? Bem, isso é verdade (risos leves). Você me sonda à distância?

A: Somente. Quando venho até aqui essa minha habilidade se perde num instante. 

K: Como é o lugar onde você vive? Além de escuro, óbvio.

A: É frio. E apertado. 

K: Você consegue me enxergar?

A: Sim. Minha visão, com o tempo, se adaptou ao escuro, só posso ver através dele. 

K: Então quer dizer que... (curta pausa) seu lugar nem sempre foi um breu total?

A: É complicado... Não sei como te dizer, mas... (curta pausa) É meio desagradável ficar sem saber da sua própria origem e ninguém nunca se dar ao trabalho de responder. 

K: Entendo. (curta pausa) Mas você é mesmo um fantasma?

A: Não me sinto viva, tampouco morta. Eu apenas... existo. 

K: Me faz pensar que é imortal.

A: A luz pode me matar. É a única coisa neste mundo que tem o poder de acabar comigo pra sempre.

K: Já interagiu com outras pessoas antes de me conhecer?

A: Por enquanto, só você.

K: Por enquanto?!

A: É. Afinal, você, um dia, deixará de existir, certo? Daí em diante, vou ter de ser amiga de outra pessoa, talvez. 

K: Mas não vai chegar a esquecer de mim vai?

A: Não sei. (longa pausa) Sabe, esta conversa é a mais estranha que já tivemos. Não acha? Nem parece que somos tão próximas, parecemos mais como... como se fôssemos duas estranhas uma pra outra. 

K: Eu sabia que ia reclamar disso. Desculpa se meu jeito de entrevistar me faz parecer completamente diferente ou apática, mas... estou tentando ser natural com você, Anne, porque, sinceramente, eu também estou achando você um pouco diferente.

A: Continuo sendo a mesma. Você é que mudou de repente só por causa de uma entrevista com fachada de terapia. Não está ajudando em nada. 

K: Então o problema está em nós duas. (curta pausa) Quer encerrar por aqui?

A: A decisão sempre é sua, Kate, não vou obriga-la a nada. Contanto que seus pais não cheguem de surpresa... 

K: Ótimo, mais uma pergunta: Como chegou até aqui e porque eu?

A: Você está nervosa... 

K: Só responde a pergunta, Anne.

A: Eu fugi. Nenhum deles sabe que me conectei a um tocável. 

K: Tocável?

A: É como eles chamam vocês.

K: Os seus supostos pais? (curta pausa) Quero dizer... criadores?

A: Dane-se, chame do que quiser. Jamais vão conseguir me pegar. 

K: E por que me escolheu?

A: Não escolhi. Quando cheguei... já me instalei aqui. 

K: Então nossa amizade... foi um presente do destino. (longa pausa) Eu quero dizer, Anne, que não importa quantas barreiras surjam para nos separar, eu sempre vou ama-la.

A: Falou muito rápido. E não foi nada natural. 

K: Eu tô nervosa, sim, porque... (curta pausa) É tudo muito novo sobre o que descobri ao seu respeito, estou tentando processar...

A: Sinto que isso abalou com o que você acreditava. 

K: Verdade. Pensei que... (pausa - soluço choroso) pensei que você fosse como eu...

A: Quer dizer humana?

K: É! (choro)

A: E minhas revelações decepcionaram você?

K: Sendo franca, não correspondeu às minhas expectativas, lamento.

A: É assim que me vê então? (curta pausa) Para de chorar, sua vadia falsa! 

*Nessa fala a voz de Anne ficou grave de um jeito apavorante. Quase pulei da cama.

K: Anne, não quis te magoar...

A: Desliga isso, por favor... 

K: Ainda não terminamos.

A: Não é mais sua decisão.

K: Por favor, tenta entender como me sinto. Só tenta.

A: Você nunca me amou! Sempre me imaginou como um fantasma de uma garotinha bem vestida que mouro nessa casa?! Vai se ferrar! * A Dolly começou a latir * Faz a porra desse cachorro calar a boca!!

*Comecei a chorar mais intensamente. A voz... ficou aterrorizante, cada palavra era um arrepio. Poxa vida... já nem parecia mais ela. Até o fim ela falou desse jeito.

A: Você me vê como um monstro!

K: Não é isso... Anne, por favor, me perdoa, não quis passar essa... impressão.

A: Por que você não mata a porra desse cachorro logo? Tá me dando nos nervos!

K: Para de falar palavrão! *Gritei, quase querendo empurra-la... mas não senti nada.

A: Não pode me tocar, sua vadia burra!

K: Eu vou acender a luz...

A: Nem pense nisso! 

K: Vai me impedir? Quero ver você tentar!

A: O seu filho está lá em cima... Não é? 

K: Por que? O que tem ele?

A: Ele é meu!

K: O quê?

A: Ficou surda? Então vou repetir: O seu filho é meu! Tenho certeza que ele será uma ótima companhia!

K: O que vai fazer?

A: Leva-lo a um passeio!

K: Não!! (longa pausa) (barulhos de maçaneta sendo mexida) Socorro! Vovó! (batidas fortes na porta)

*Desliguei o gravador e esse horror de entrevista finamente tinha acabado, mas algo pior estava por vir logo depois.

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Minha avó já havia ido embora, deixando meu filho dormindo, muito provavelmente antes da entrevista começar. Liguei e desliguei o interruptor várias vezes e nada de luz. A situação estava perfeita. Além de trancada no próprio quarto escuro, tive que ser torturada pelo desespero. Não existe desespero que se compare ao de uma mãe quanto a vida de seu filho! O blecaute atingiu a cidade inteira. E Anne estava, no mínimo, bastante insegura durante toda a entrevista, meio monossilábica, fingindo não saber responder... Ela era uma fugitiva, e espero que esses seres da escuridão façam a justiça por mim (nunca pensei que diria isso, acho que vou... enlouquecer).

Anne o tirou de mim. Em compensação, me livrei dela. No fundo, era uma má influência. Agora está com meu bebê fazendo sabe-se lá o quê em alguma dimensão das trevas ou seja lá de qual inferno ela veio. Sendo honesta, eu estive nervosa o tempo todo. Os risos? Forçados. A verdade que tardei muito a enxergar: Anne nunca teve boas intenções. O consolo pela depressão foi só uma maneira disfarçada de dizer que estava feliz por eu ter dado à luz a uma criança vulnerável que cedo ou tarde arrancaria dos meus braços. Só bastava um motivo, por menor que fosse.

Não enxerguei a real natureza de Anne por sempre interagir com ela na escuridão.

Por isso me arrependo de não ter acendido a luz.

Se eu tivesse que nascer de novo... desejaria ser uma criança comum... do tipo que tem medo do escuro... e sobretudo do que se esconde nele.

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Este conto foi escrito e publicado exclusivamente para o Universo Leitura. Caso o encontre em algum outro site com créditos e fonte ausentes, não hesite em avisar. 




*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos ou intenções relativas a ferir direitos autorais. 

*Fonte da imagem; http://sonhoesignificado.blogspot.com.br/2013/05/sonhar-com-escuridao-quarto-escuro.html




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