Capuz Vermelho #16: "Arena dos furiosos"


CAPÍTULO 16: ARENA DOS FURIOSOS 

- Há exatamente 200 mil anos, a Ordem dos Magos do Tempo fora fundada, com o único propósito de reunir o máximo de conhecimento possível sobre tudo aquilo que parece inalcançável para a humanidade. Tudo começou quando Cronos, o deus responsável pelo equilíbrio do espaço-tempo, surgira de repente para um grupo de homens inteligentes, que almejavam nada mais do que o poder absoluto. Os conceitos daqueles homens mudaram quando Cronos disseminou entre eles sua sabedoria, e, por conta disso, a fraternidade subsistiu por um longo tempo. - contava Charlie, seguro de si mesmo.

- Há mais magos do tempo atualmente? - perguntou Adam, cocando o queixo, curioso.

Charlie ficara em silêncio, fitando a mesa com um olhar tristonho. Lembrara-se da tragédia que tirou a vida de seu pai e as de seus companheiros. Coagiu-se para ser forte e relatar aquilo sem aparentar estar tenso.

- Bem... Na verdade, eu sou o único remanescente da última geração. - revelou. - Nós obtivemos um inimigo que estávamos sempre à mercê. Alexia, o que vou revelar agora é algo que nunca lhe disse antes. - encarou-a com certo ar de preocupação.

-  Está bem, Charlie. - disse ela, fazendo que sim com a cabeça. - Sei que se sente atormentado, tem todo o direito de manifestar sua dor.

O jovem respirou fundo e encorajou-se a falar.

- O primeiro dos quinze massacres ocorreu logo na primeira geração. Todos aqueles homens eram pais de família, casados, bem sucedidos, agraciados pelo rei. - fez uma pausa, engolindo a saliva. - Foi então que Cronos lhes informou que deveriam se proteger de qualquer modo, que algo além da capacidade física e mental deles estava os tornando alvos. E assim souberam da existência dos Coletores.

O quarteto ficou apreensivo ao ouvir o nome da entidade. Cada um sabia, até certo ponto, as lendas relacionadas à Cronos, mas suas gargantas secaram ao esperarem algo que jamais lhes foi dito.

- Os Coletores são seres da mais nefasta índole, são ladrões especializados em roubar objetos valiosos. Eles cobiçavam a foice de Cronos. Historicamente, sabe-se que os Coletores possuem um poder de viajar para diversos mundos diferentes, isto ficou provado anos depois. - fizera uma pausa, tomando um gole de água em um copo de vidro posto na mesa. - Além de ladrões profissionais, são assassinos natos. As garras são as maiores armas deles. Como Cronos não permitiu dar a foice, eles ameaçaram seus seguidores de morte. Foram trucidados até os ossos.

Êmina permanecia ávida por explicações.

- Espera aí. Então são deles que você tem se escondido desde o colegial? Como foi que escapou?

- Sim, exatamente. - confirmou ele. - É estranho. Para ser honesto, nem mesmo eu sei como escapei. Talvez eu era muito veloz ou simplesmente passei despercebido, apesar de eu nunca subestimar a precisão dos Coletores em alvejar suas vítimas. Aconteceu há cinco anos. Fiquei meses sem ir ao colégio, passei por inúmeras casas, vários lares me acolheram... vivi como um forasteiro em cidades distantes por mais de dois anos.

- E foi nesta época que você sumiu... e nunca mais o vi. - disse Alexia, recordando as noites em claro que passara procurando por Charlie em qualquer lugar que fosse.

- Quando voltei, fui transferido para a Universidade bem mais cedo do que esperava. - relembrou, mantendo seu olhar fixo em Alexia. - Minha mãe desapareceu, sem deixar rastros, nem mesmo um bilhete. Alexia já não estava mais na cidade. Em resumo, minha vida mudou completamente a partir desse ponto. Passei a viver, na maior parte do tempo, recluso nesta casa, que, para minha satisfação, estava intacta. Fiquei aliviado por minha mãe não ter pensado em vendê-la.

- Se esconde por causa da ameaça deles? - perguntou Lester.

- Sim. Estou sendo perseguido pelos Coletores, e eles não vão descansar até me acharem e cravarem suas garras na minha carne. Eles possuem memória fotográfica, logicamente sabem todos os traços de meu rosto, além de poderem assumir qualquer forma, sobretudo a humana. Desde o dia que voltei, me habituei a se disfarçar. Todos aqui da vizinhança pensam que sou um idoso bastante solitário.

Todos os quatro se entreolharam intrigados. Alexia voltou seu olhar para uma caixa que, desde o início da conversa, chamara sua atenção. Era de papelão, de tamanho médio, posta em um canto da sala próximo às janelas retangulares. Nela continham roupas de pessoas idosas, máscaras, pele falsa, óculos, perucas e bigodes brancos.

- Charlie - dizia Alexia. - Não acha perigoso o fato de nós termos entrado aqui, sendo que somos jovens e as pessoas verem você como um velho? Alguém pode ter visto e pode desconfiar...

- Está tudo bem. - garantiu ele, interrompendo-a. - No instante em que entraram, eu verifiquei as proximidades. Ninguém que parecesse suspeito. Estamos seguros aqui, de fato.

Adam se empolgara com a grandiosidade da missão que estavam prestes a tentarem cumprir.

- E também não iremos sair para, por exemplo, comprar comida. - comentou o caçador. - Charlie, apenas quero saber se há alguma chance de encontrarmos esse Coletores.

Charlie adquirira um semblante sério, como se sentisse responsável pelas vidas que estavam diante dele.

- Adam... Eu gostaria muito de dizer que a possibilidade é remota. Mas comigo ligado à vocês, não é o caso, infelizmente.

- Acha que se caso nos depararmos com um deles, vão presumir que fomos enviados por um mago do tempo?  - perguntou Êmina, arranhando levemente a mesa com suas unhas, em aflição.

- Eu não duvidaria dessa hipótese. Por isso devem estar sempre alertas.

Lester se animara de repente.

- Muito bem... Que horas a gente começa? - perguntou, arregaçando as mangas.

- Lester. - disse Êmina, meio aborrecida. - Não vamos deixar sua pressa estragar o plano. Precisamos ser pacientes. Charlie ainda irá nos mostrar como ele faz para ter acesso a outros mundos.

- O que foi? Só porque meu espírito aventureiro aflorou dentro de mim, você tá com inveja porque está calma ao invés de preparada. - disse, com um sorriso irônico.

- Não é nada disso. Você está muito imaturo hoje, sabia!?

- E você parece estar quietinha demais para aceitar o fato de que chegamos a um outro nível. - retrucou ele, a voz séria.

- Espero que com "quietinha" não esteja querendo dizer que estou com medo. - semi-cerrou os olhos, mas fulminando-o com o olhar discretamente. Suas tranças laterais pareceram duas serpentes aos olhos do rapaz.

Lester cruzou os braços e assentiu positivamente com a cabeça. Estava já estressado, embora não aparentasse.

- É. Pode-se dizer que foi eufemismo. - replicou ele.

- Olha, quer saber de um co...

- Já chega, vocês dois! - esbravejou Adam, batendo sua pesada mão na mesa. - É um trabalho em equipe, pessoal. Lutarmos entre si só vai nos fazer perder tempo e confiança em nós mesmos.

- Adam está certo. - concordou Charlie. - Precisam ficar calmos, cada um que está aqui tem consciência de que é útil e não superiores um ao outro. Irei preparar o material.

- Ótimo. - disse Adam, recobrando a calma. - Acho que vou dormir um pouco.

Alexia já se aproximara da porta.

- Bem, eu vou ler um livro lá na sala, talvez eu durma no sofá...

- Não Alexia. - disse Charlie, aproximando-se dela rapidamente. - Há quatro quartos de hóspedes aqui, pode dormir em um deles.

A jovem vidente ficara sem reação ao virar-se. A prestatividade de seu velho amigo lhe parecia um tanto exagerada. Porém, sentiu-se na obrigação de agradece-lo.

- Obrigada... Charlie. - disse, com um sorriso envergonhado. - Você realmente não mudou nada.

O relógio da sala, pendurado na parede próximo às duas janelas, marcava 23:52. Todos foram para seus respectivos quartos, com exceção de Charlie, que decidira ficar por ali trabalhando e mentalizando a maneira como fará seus visitantes lidarem tanto com seus métodos surreais quanto com a gravidade da situação. O jovem sentia-se alarmado. Apenas o ato de mencionar seus ferozes inimigos fazia seu sangue gelar a ponto de não faze-lo enxergar nada além de visões trágicas e demoníacas. Deixou tremer as mãos, enquanto organizava alguns papeis amarelados, com laterais estreitas e de textura incomum. Pôs sobre à mesa um vidrinho de nanquim e pousou um pequeno pincel dentro do recipiente. Suspirou mais vezes objetivando conter sua tensão antes de fazer o trabalho.

Pensava na ideia de que estava pondo pessoas inocentes em um jogo sádico e perigoso, no qual seus algozes sempre estiveram um passo à frente. Tentou admitir a hipótese de não sentir-se culpado, se caso falhasse. "Você é um mago do tempo. Temer o fracasso não é sua missão. Ninguém mais irá morrer diante de você, Charlie. Ninguém.", pensou, dizendo a si mesmo. Fez o pincel dançar livremente pelo papel, acreditando que não estava ali, vivo, em vão. Um símbolo fora desenhando, com uma precisão admirável. Nenhum traço fora do lugar. Desenhara aquilo tantas vezes em suas inúmeras missões pelos vastos mundos e épocas em que passou. Um lampejo de orgulho acalentou sua aflição, logo ao soltar o pincel por um momento. Olhou para o desenho ao segurar o papel com delicadeza. Havia mais folhas espalhadas na mesa, nas quais ainda faria mais símbolos distintos.

Diminuiu a luminosidade da sala, pondo um abajur com luz ainda mais fraca sobre a mesa, e acelerou o ritmo do trabalho.

Apenas molhou a ponta do pincel com o nanquim e deixou a concentração tomar conta de sua mente. O primeiro símbolo desenhado era de tamanha relevância que o fizera reduzir seu temor. Internamente, declarou guerra àqueles que certamente dariam de encontro com seus novos amigos.

                                                                            ***

Estavam agora contemplando uma desértica paisagem, mesmo andando com dificuldade. Intensas rajadas de vento traziam consigo densas ondas de areia e deixavam o rosto de Rosie dormente, embora ela protegesse os olhos com uma mão. O sol escaldante cintilava aquela terra, deixando um ar superaquecido causar um certo desconforto na jovem, de baixo para cima.

À medida que se aproximavam do local, a tempestade de areia tornava-se cada vez mais uma barreira que impedia qualquer andarilho de seguir em frente. Rosie praguejara em voz baixa a cada 2 minutos, tentando, àquele ponto, proteger-se com a capa do capuz.

- Deve ser muito fácil para você, que pode flutuar à vontade e não sentir quase nada, sem nenhuma preocupação! - gritava ela, devido ao forte barulho das rajadas.

- No seu lugar, eu pararia com as reclamações. - disse o Guia, postando-se ao lado dela, flutuando. - Estamos bem próximos.

- Próximos do quê? - perguntou ela, ocultando ainda seu rosto com a capa, mantendo o tom de voz.

O Guia apontou seu finíssimo dedo para a estrutura que crescia cada vez que chegavam perto. No entanto, a jovem não vira nada além de areia ameaçando adentrar em seus olhos. Ignorou a espera por uma resposta... para fazer mais perguntas.

- Onde nós estamos? Por que viemos logo quando uma tempestade dessas acontece?

- Você não viu? Estamos indo em direção à um... - fez uma pausa, deixando-a rapidamente intrigada.

- Aonde? - perguntou ela, desta vez em um tom irritado.

- Você verá. - respondeu ele, friamente, enquanto se mostrava intangível para com as tsunamis de areia.

Rosie, decididamente, preferiu avançar contra a tempestade a lentos passos. Estava aliviada por, ao menos, nenhum cisco ter entrado em um de seus olhos. Minutos a fio passaram-se, percorrendo a longa estrada que levava à uma estrutura colossal. Assemelhava-se ao renomado Coliseu de Roma, diferenciando-se apenas em alguns detalhes. O lugar fora denominado de "A Arena dos Furiosos", sendo o motivo por ele ser construído no meio do deserto completamente misterioso.

A tempestade se amenizara gradativamente quanto mais o "Coliseu" mostrava-se visível. Rosie foi retirando, aos poucos, sua capa de seu rosto. Seus passos tornaram-se mais rápidos, as pegadas que suas botas cor de vinho deixavam iam ficando menos profundas. Deixou a capa voltar ao seu estado normal e encarou, em um misto de temerosidade e espanto, a construção que se erguia diante dela. Nem a luz do sol, tão inquietamente ofuscante, a fez parar de observar o gigante.

- E enfim, chegamos. - disse o Guia, indo na frente.

Rosie o acompanhara, notando sua pressa para entrar de uma vez. As pequenas montanhas de areia ficaram para trás. Lembrou-se das dúvidas que ainda a extenuavam. Tentou alcança-lo.

- Posso saber o porque da pressa? Afinal, por que será que tenho a sensação de que o próximo desafio não será nem um pouco divertido? - perguntou, enquanto seguia pelo caminho que dava na entrada.

- Então significa que gostou da experiência de ter matado um homem? - perguntou o Guia, deixando sua levitação diminuir.

- Aquilo já passou. - disse ela, endurecendo a voz. - E só agora pude perceber... Não era para eu ter recuperado uma peça do talismã? Não é esta a minha missão?

- Mão esquerda. - disse ele, novamente, frio.

A jovem arregalou os olhos ao ver a peça na palma de sua mão. O inevitável teve de ocorrer de novo: Mais dúvidas surgiram.

- M-mas... Como isso aconteceu? Você não tinha mencionado a peça em nenhum instante... Então, de que serviu tudo aquilo? - encarou-o com uma expressão confusa.

- Ouça bem, Rosie: Cada desafio que enfrenta possui um objetivo específico. A vitória lhe concede as peças. Em outras palavras, as peças são recompensas por você ter atingido a meta estipulada pelo desafio para você. - explicou, movendo seu corpo semi-esquelético em direção à entrada.

- Mas eu ainda não sei o que adquiri, o que aprendi com tudo isso. - disse Rosie, insatisfeita. - É tudo tão estranho. Não posso estar assim sem uma razão. Certamente aconteceu alguma coisa... algo que tirou minhas lembranças. - olhou para o Guia, ligeiramente desconfiada.

"Ela já está começando a suspeitar. Se continuar assim, se acabar piorando, eu sofrerei as consequências e serei obrigado a responder dúvidas das quais não sei as respostas. Além disso, mestre Abamanu, talvez, sinta-se obrigado a tirar suas memórias mais recentes e reiniciar os desafios.", pensou o Guia, seriamente preocupado.

- Como eu disse anteriormente: As respostas virão. E sim, você aprendeu bastante sobre si mesma, só ainda não está esclarecido.

Mesmo não sentindo-se convencida, Rosie achou melhor manter-se em silêncio até chegar ao portão que guardava a entrada. As grades tremeram, enquanto o imenso portão se abria subindo. Seguiram por um corredor escuro, mas ao longe podia-se ver uma larga escadaria. Vozes guturais ouviam-se, aumentando cada vez que avançavam. Subiram as escadas pacientemente, enquanto urros de dor e gritos de uma plateia ovacionando o que quer que fosse faziam doer os ouvidos.

Por fim, chegaram ao fim da escadaria, seguindo por uma abertura e, diretamente, adentrando numa arquibancada. Ao chegar a tal ponto, Rosie fora acometida pela luz solar e tratou de proteger seus olhos com uma mão. As arquibancadas possuíam proteções, sendo estas pequenas muretas. A jovem se desconfortara ao vislumbrar cada figura ali presente. Não eram humanos. Monstros de aparência demoníaca e bizarra torciam para os participantes que se esmurravam e se matavam na espaçosa arena. Os urros de torcida eram estridentes o suficiente para fazer Rosie quase cogitar tapar os ouvidos. A cada golpe, a cada resquício de sangue que pudesse ser visto, a plateia vibrava como se não houvesse outro combate a seguir.

Rosie chegara mais perto da mureta e olhou mais acima. Haviam mais aberturas que davam acesso.

- Por que foi tão seletivo quanto às entradas? - perguntou, voltando seu olhar para o Guia.

- Esta é a única em que estamos mais seguros. Um pouco mais abaixo, estão os seres mais instáveis e perversos deste mundo. Não tente olhar para eles, parecem estar concentrados assistindo a luta, mas estão sempre alertas.

- Você também é invisível para eles?

- Sim. Mas posso optar pelo contrário, já que, tendo em vista minha natureza, não me difiro muito deles.

- Você e seus mistérios. - semi-cerrou os olhos. - Não estou nem um pouco curiosa. - ironizou.

A jovem voltara suas atenções para a luta que estava ocorrendo. Um embate tremendamente injusto. De um lado, um gladiador medindo uns 2 metros e meio de altura, vestindo o que parecia ser uma "colcha de retalhos metálica", uma armadura com detalhes confusos. Usava um capacete dourado com chifres em cada lado, deixando expostos apenas seus olhos em duas aberturas - que, no entanto, não facilitavam muito se caso alguém quisesse ver seus olhos, dando a impressão de serem totalmente negros. Manejava um machado, cuja lâmina exibia um sangue impregnado e descascando, deixando à mostra um pouco de ferrugem. Do outro lado, um incauto e inibido guerreiro rendia-se aos impulsivos golpes do oponente. Este vestia uma armadura de prata, surrada e praticamente retorcida. Seu tamanho possuía uma diferença gritante em relação ao opressor.

O gigante o chutava como se o fizesse com uma bola de futebol. O corpo exausto e doído do pobre guerreiro se contorcia a cada golpe. Àquela altura, já nem tinha forças para reerguer sua espada.

- Vamos seu molenga! Reage! Hahahaha! - debochava ele, não cessando os fortes pontapés. - Pensei que baixinhos como você fossem mais rápidos!

O gladiador decadente deixava seu corpo balançar sob o efeito das pancadas. Seu rosto estava quase que inteiramente coberto de sangue, o inchaço em torno dos olhos e da boca eram nítidos para toda a plateia. O chute final fora dado. Bem na cabeça, o fazendo chocar-se contra o chão violentamente. O infame gladiador pisava no corpo do adversário como se estivesse tentando esmagar uma barata.

O público vibrara com o feito. Por outro lado, Rosie assistia à cena com ojeriza e revolta fervendo em seu sangue. Apertou com força a mureta onde estava, quase arrancando pedaços. Embrulhava-lhe o estômago ao ver tanta brutalidade em meio a tanta injustiça.

- Mas que tipo de luta é esta, afinal? - perguntou-se, tendo cautela ao não amplificar seu tom de voz. - Não é justo. Aquele homem tem o dobro do tamanho do outro.

O Guia já previra que ela se manifestasse daquela forma. Novamente, sentiu-se obrigado a explicar.

- Tudo isto é apenas organizado para saciar a vontade por violência que este povo tem. Aqui não existem regras. Matar é a prioridade. Nesse jogo visceral, de combate corpo a corpo e armado, predomina a lei do mais forte sobre o mais fraco. Tal como na sua espécie, Rosie. - explicou.

Rosie virara-se para ele, em mais um lampejo de curiosidade.

- Isso também acontece com os humanos? V-você poderia ter me dito isso na floresta... assim eu estaria mais preparada.

- E qual momento mais apropriado para dizer isto para alguém na sua condição senão este? - perguntou ele, inclinando seu rosto para ela. - Está em uma jornada de aprendizado, Rosie. Tudo lhe ocorrerá no seu devido tempo.

Inconformada, Rosie fechou a cara para o Guia. Voltou seu olhar rebelde para a luta. "Uma boa facada nessa sua cara feia também vai ocorrer no seu devido tempo", pensou, enquanto assistia.

O gigante continuava seu "ritual da vitória", tentando, insanamente, apagar todos os sentidos de seu adversário ao pisar nele, fazendo rachar o frágil solo da arena. O guerreiro gemia de dor, sem mover um músculo sequer de seu corpo, pois já estavam todos dormentes, atrofiados e latejando.

- Eu não consigo. - disse Rosie, cerrando os dentes. - Não suporto pensar em como isso vai acabar. Matam apenas por diversão? Que lugar mais... doentio.

- O que fez com o assassino do baile não foi menos brutal ou doentio que isso. - replicou o Guia, insistindo em uma trama já passada.

- O quê? Ainda com essa história!? - reclamou, virando-se para ele. - Estou tentando esquecer isso, portanto faça o favor de colaborar.

- Me perdoe, mas foi inevitável associar seu ato com o que está diante de nós. - justificou, cabisbaixo.

- Chega, não quero mais falar desse assunto. - e voltou novamente seus olhos para a arena, aborrecida. - Como se não bastasse eu não lembrar de nada do meu passado, agora tenho que aceitar um destino sombrio como uma assassina. Isso nunca.

O gladiador opressor cessara sua tortura. Observou a plateia. Intensa, louca e vibrante. Esperavam que ele fosse dizer algo.

- Ouçam! - sua voz ecoou em toda a arena, amenizando os gritos de torcida. - Eu estou com tanta preguiça... Já venci mais de 50 duelos só hoje... Portanto, eu pergunto à vocês: Como eu mato este miserável? É tão fácil que chega a dar dó!  - apontou para o corpo imóvel abaixo dele.

- Estripa ele inteiro! - disse um.

- Fatia cada pedaço dele com o machado! - bradou outro.

- Dá para sua esposa para ela usar como brinquedinho de gozar! - disse um brutamontes de pele azul e rosto demoníaco, vestindo uma jaqueta preta e com espinhos.

Rosie não escondera seu constrangimento.

- O que aquele homem disse me deu nojo. - fez uma careta, em desaprovação.

- A perversão, a obscenidade e tudo o que concerne coisas similares são bastante apreciadas neste mundo. - revelou o Guia.

- Nem quero tentar imaginar como são as vidas desses bizarros. - comentou ela, rapidamente retornando sua atenção à luta.

Reluzindo à luz flamejante do sol, o machado erguera-se sendo apertado com bastante força pelos volumosos braços do gladiador gigante. Visivelmente rendido, o guerreiro inapto mal se aguentava em pé. Movera apenas poucos músculos de sua face inchada, tentando fazer com que sua voz reproduzisse qualquer som que fosse. Suas últimas palavras? Não naquele dia. Viu a morte certa na lâmina do machado, tão previsível que imagina-la serviria como anestésico e não se surpreendesse com a dor na hora exata. Numa fração de segundo, o gigante levantara com um único pé o corpo do homem. Deixou-o suspenso no ar por alguns segundos, até que, em rápida ação, o partiu pela metade. A pesada lâmina chocou-se contra o chão, em uma vibração arrepiante. As duas metades do corpo do guerreiro caíram por lados diferentes, enquanto uma cortina de sangue, adereçada com pequenos pedaços de entranhas e vísceras, lançou-se no ar, quase ocultando o vencedor do combate.

Rosie entrara em súbito estado de choque. Suas pupilas dilataram-se em horror. A íris azulada de seus olhos parecia mais viva. Mordeu os lábios em apreensão. Não tardou para lembrar dos dois desafios anteriores, que vieram-lhe à mente como filmes executados em velocidade máxima. Se viu abrindo o tórax da quimera na floresta, tirando-lhe o coração. Viu-se também enfiando a adaga no peito do assassino na mansão, sem qualquer escrúpulo. Procurou esvaziar sua mente e acalmar sua tremedeira constante fechando os olhos. Suspirou um ar leve desta vez.

- Você está bem? - perguntou o Guia, a voz cortando o instante meditativo da jovem.

Em um sobressalto, Rosie abrira os olhos e somente vira o gigante na arena, balançando seu machado, esperando o próximo oponente para esmagar.

- O-o que aconteceu? Onde está aquele homem? - procurava-o por todos os arredores da arena.

- Já recolheram o corpo. Você estava muito pensativa... Enfim, é bom que esteja reflexiva.

- O que quer dizer? - perguntou ela, lançando-lhe um olhar intrigado.

- Quem você acha que aquele monstro enorme está esperando?

Repentinamente, um forte bater em seu coração a fez gelar de medo. Virou seu olhar novamente para o palco do combate e fitou por um instante aquela montanha de músculos repugnante. O gladiador pôs o machado sobre seu ombro, apenas para observar a plateia, que não interrompia os gritos de torcida. Já foram 53 naquele único dia. Sua envergadura inabalável denunciava a ausência de cansaço. A crueldade estava estampada em cada extremidade de seu corpo. Rosie virou sua cara depressa para o Guia, preocupando-se.

- Se for o que estou pensando...

O Guia fez que sim com a cabeça, lentamente. Rosie engoliu subitamente sua saliva. Não entendia porque sentira medo naquela situação, sendo que executou duas criaturas a sangue frio. A resposta mais convincente estava na óbvia diferença de tamanhos.

- Rosie... - disse o Guia - Sinto em você um desejo crescente de vingança. Liberte sua revolta, sua raiva. Hora de sabermos como suas habilidades combativas estão.

E, de repente, a voz gutural do gladiador atravessou como uma vibração violenta pelos tímpanos de Rosie.

- Escolham o próximo! Agora!

Havia apenas uma regra naquele torneio rústico e brutal. A plateia tinha total direito de selecionar um próximo adversário dentre eles, se caso um participante obtivesse um número considerável de vitórias. O vencedor deveria apontar para uma parte da arquibancada, na qual estariam os espectadores que decidiriam. O gigante ergueu seu indicador direito e o rodeou à sua volta, apontando para várias direções.

Apontou para a arquibancada onde Rosie se encontrava. A jovem sentiu uma pontada em seu coração ao encarar aquele grosso dedo, como uma lança prestes a ser atirada. Os espectadores mais próximos debatiam entre si sobre quem se mostraria disposto. Segundos depois, as conversas paralelas cessaram.

Em uma decisão rápida, todos se viraram e apontaram seus dedos para Rosie.

                                                                          ***

Apreciando a decoração e deleitando-se no conforto, Hector e Eleonor comemoravam a aliança já dentro do quarto de hotel, imediatamente reservado. Um relógio folheado à ouro, acima da cabeceira da cama, marcava 00:30, cada ponteiro movendo-se mais lentamente que o normal. O local possuía iluminação agradável, através de abajures com luminosidade amarelada e moderada. O caçador, sentado na dianteira da cama, mostrava-se um tanto abatido. Eleonor entendera aquilo como uma rápida mudança de humor. Minutos atrás parecia um desbravador do desconhecido, imbatível e pronto para a guerra.

- Bem, se lhe serve de consolo, eu também... me sinto como você agora, internamente. - disse Eleonor, preparando uma surpresa em uma cômoda.

O caçador virou o rosto, mas sem olhar para ela.

- Não devia esconder seu sentimento de culpa. - aconselhou ele. - Cedo ou tarde ele irá consumi-la de dentro para fora, como está ocorrendo à mim agora.

- Depende de alguns detalhes. - disse ela, deixando à escuta um barulho de líquido derramando.

- Que detalhes? - perguntou Hector, curioso.

- A intensidade da culpa, é o principal deles. Eu, neste exato momento, me culpo por ter abandonado minha mestra, a única pessoa que verdadeiramente tinha algum respeito por mim. O Coven sem ela era como um exército sem seu general. Me envergonho do quão egoísta me tornei. - contou, agora produzindo barulhos de vidro colidindo-se suavemente.

- Você abandonou seu lar por um propósito, por um bem maior. E eu... O que eu fiz? Abandonei meus amigos por deixar um medo corroer minha coragem. - disse Hector, a voz não tão calma quanto antes.

Eleonor surgira atrás dele trazendo nas mãos duas taças com champanhe.

- Talvez isto aqui nos ajude a encarar nossos demônios. - disse, entregando uma taça à Hector.

Surpreso, o caçador não deixou de comentar antes de aceitar.

- Você comprou bebida!? - deu um sorriso leve. - Não creio que tenhamos algo para comemorar.

- Somos parceiros agora, certo? - perguntou, dando a dica para o motivo do brinde. - Portanto, enquanto esteve na recepção, pensei nesta pequena festa entre nós dois. Agora tome. Não aceito "não" como resposta.

Hector, sem escolha, teve de aceitar. Empolgou-se ao ver o tom dourado do líquido espumante.

- À nossa aliança. - disse Eleonor, propondo o brinde.

- À nossa aliança. - repetiu Hector, levantando-se.

As duas taças chocaram-se em um brinde. Simultaneamente, tomaram o champanhe.

Após um gole, Eleonor tivera uma ideia que talvez amenizasse o fardo de seu companheiro.

- Acho que sei o que deve fazer. Sorte que este hotel disponibiliza telefones nos quartos.

- O que tem em mente? - perguntou ele, enxugando a boca com a mão.

- Simples. - ela andou em direção à uma pequena mesa, próxima ao espelho. - Um telefonema vai acalmar essa sua aflição. - disse, puxando o fone e o entregando para Hector.

- Eleonor, por favor. Será inútil se já tiverem saído da cabana de onde estavam.

- Como presume algo assim? Não seja tão pessimista. Não custa nada tentar saber. - disse ela, insistindo em lhe entregar o fone.

Novamente sem escolha, Hector rendeu-se à ideia. Deixou a taça na pequena mesa de madeira e pegou o fone. Discara apressado o número de telefone da cabana.

Não demorou para a grave voz de Rufus atende-lo.

- Alô?

- Rufus? É você mesmo?

- Hector! Eu é quem pergunto: É você mesmo? - sua surpresa era nítida pelo tom. - Eu, Alexia, Adam, Êmina e Lester estávamos todos preocupados com você.

- Eu imagino. - disse ele, a voz tensa ao ouvir aqueles nomes. - Apenas liguei para... para saber se eles estão aí.

- Infelizmente não. - respondeu, desta vez, de modo frio.

Na cabana, Rufus estava ao telefone, deitado na cama já de pijama. Seu tom de voz grosso permanecia mesmo após um cochilo. Decidira dormir no quarto onde ficava Alexia.

- Rufus, seja mais específico. - exigiu Hector. - Onde eles estão?

- Seja específico você primeiro, rapaz. - parecera um pouco bravo. - Coisas ruins acontecem e você simplesmente some. Seus amigos estavam aqui, aflitos, achando que alguma coisa terrível aconteceu á você também.

- Eu não tive escolha. - tentou justificar. - Eu não me vi em condições de priorizar dois casos diferentes. E quando digo isso, refiro-me ao verdadeiro mal que está aqui neste mundo.

- Se refere aos tais dos Red Wolfs?

- Sim, exatamente. Eu imaginei que a Legião iria cuidar do caso de Rosie. Eu poderia lhe contar tudo o que houve dentro daquele templo... você seria uma espécie de confidente meu. Mas no momento eu não posso falar sobre isso. - entristeceu o olhar, lembrando-se de Rosie.

- E onde você está?

- Em um quarto de hotel. Arranjei um novo parceiro. Ele é um caçador vindo de uma região distante, já havia trabalhado com ele antes. Iremos pegar os Red Wolfs juntos. - mentiu, deixando Eleonor um tanto aborrecida ao seu lado.

- Ah sim. Contanto, que esteja vivo, já ficarei aliviado.

- Ahn... Não respondeu minha pergunta anterior: Onde eles estão?

- Ah sim sim! - recobrou a atenção, após quase cochilar novamente. - Eles foram até a casa de um antigo amigo de Alexia, eles vão ficar lá por uns dias. Eu não sei bem o que ele é ou que ele faz... mas ouvi dizerem que é a única esperança de salvarem Rosie. Se você quiser, eu posso te passar o número do telefone da casa. Alexia o manteve guardado desde os tempos do colégio. - e deu uma pequena risada. - Acredita? Isso que é amizade. Não sei se estão acordados à essa hora, mas tente ligar mesmo assim. - e tirou a gaveta da mesa de cabeceira um papel amassado com o número escrito.

Hector ouvira atentamente cada número proferido por Rufus, assimilando ao mesmo tempo.

- Anotou? - perguntou o homem.

- Sim, já. Eu memorizei. - disse o caçador, firme.

- Memorizou foi? - perguntou, meio surpreso, franzindo as sobrancelhas. - Bem... Então, está certo. Boa sorte, Hector. Não é fácil ser um morador solitário.

- Consigo imaginar. - disse, pensando em como o robusto homem está sentindo a falta de Alexia. - Obrigado, Rufus. Até mais.

- Até mais. E, por favor, tente não morrer. Espero que quando for reencontra-los os faça entender.

Hector sentiu sua garganta secar ao ouvir aquela última frase. Um vazio em sua mente ocupou trazendo de volta à tona a culpa. Ambos despediram-se de novo e, por fim, desligaram. Deparou-se com a face incomodada de Eleonor.

- Caçador não é? O seu parceiro é um caçador. - cruzou os braços.

- Perdão, claro. Eu tive que mentir. O que ele iria pensar se caso eu dissesse que estava na companhia de uma bruxa?

- Poderia ter dito uma amiga que reencontrou ou até mesmo uma caçadora. - disse, aproximando dele.

- Hum, então sente desejo de se tornar uma caçadora? Interessante. - o jovem vira vantagem naquele aparente desejo reprimido de Eleonor.

- Não é bem assim, querido. Valorizo minha magia e não a trocaria por estacas de prata e balestras tão facilmente.

- Ótimo, agora que já explicou, vou ligar para a casa onde eles estão. - disse, pegando o fone novamente.

Sua discagem fora mais rápida do que anteriormente. Mais uma vez não vira uma falha em sua memória eidética.

Uma voz feminina atendera.

- Alô?

- É você Alexia?

- Não posso acreditar. Hector!? - dera um sorriso largo. - O-onde você está? Por que só agora está ligando?

Alexia estava sentada no sofá da sala de estar, apreciando uma aprazível leitura. Largou seu livro no móvel apenas para viver a felicidade que era ouvir a voz de Hector novamente.

- É uma história bem longa. Acho que é necessário que alguém em especial repasse para você e para os outros. Estou em um quarto de hotel.

- E quem é, afinal?

- Adam. Ele lidera a Legião atualmente, então tem o direito de saber primeiro. Será que você pode chama-lo para mim?

Sabendo que informações cruciais seriam fornecidas, Alexia não perdera tempo nem discutira sobre o pedido de Hector. Dirigiu-se ao quarto onde o caçador estava, correndo depressa. Do outro lado da linha, Hector segurava o fone com a mão demasiadamente suada, denunciando seu nervosismo ascendente.

- Não posso acreditar! É ele mesmo? - espantou-se Adam, arregalando os olhos.

Alguns minutos depois, Hector finalmente pudera ouvir a voz de seu estimado companheiro de caçada. Eleonor o observava com ar levemente aflito, mantendo os braços cruzados, temendo que ele não se portasse de maneira segura diante do problema que o afetava.

Enfim, Adam atendera.

- Hector!? Como descobriu o número daqui?

- Err... Adam, olá. - cumprimentou-o, timidamente. - Rufus me deu o número. Eu não tenho muito tempo, eu só liguei para lhes alertar.

- Hector, por favor, você tem que me responder: Onde esteve durante todo esse tempo? Ficamos preocupados.

- Sim, eu sei, mas eu tive minhas razões. Enfim, serei direto: Não foi Loub quem comandou o ataque à Londres. - revelou, em uma tentativa de driblar qualquer pergunta que fosse feita relacionada ao que ocorreu no templo dos Red Wolfs.

- Mas o quê? - franziu o cenho. -  Bem, obviamente ele estava preso. Eu tive uma teoria: Ele fez um aviso prévio à seu exército para que conseguisse sua liberdade, explicando o ataque à delegacia.

- Mas é aí que você se engana. - contrariou, retomando o tom firme. - Loub, àquela altura, já perdera o controle de seu exército. Não era nada além de uma vítima fácil. Portanto, a invasão à Londres e à delegacia foram comandadas por algo ainda mais perigoso.

Adam sentou-se no banquinho de madeira próximo do sofá, atordoado com a revelação. Alexia escutara tudo atrás da parede do corredor. A luz alaranjada do abajur cintilando sua expressão ansiosa e estática.

- Hector, isto está me assustando, confesso. O que você descobriu?

- Eu sei que estão focados em salvar Rosie. Temos dois graves problemas. E um deles se chama Mollock. Ainda se lembra do caso da mansão de Ethan Nevill, certo? - perguntou, remoendo a investigação feita na residência do ex-Red Wolf.

Não demorou para Adam ligar as coisas enquanto fizera um silêncio preocupante para Hector.

- Não pode ser... Então há um monstro à solta por aí que tomou o exército de Loub, é isso? - veias saltaram na sua testa em desespero.

- Exato. - disse, em tom seco. - Além disso, no meu último encontro com Loub, ele havia me contado que sua primeira cobaia se fundiu à criatura, originando, assim, Mollock. No ataque à delegacia, inúmeros policiais fora mortos, mas prisioneiros foram libertados por ele. Também, na manhã de hoje, ele tomou o Museu de História de Londres.

O braço forte da Legião tombara em ansiedade.

- E-eu não posso acreditar... Então, ele é a razão por você ainda não ter vindo até nós? Deseja acabar com ele?

- Sim. Se Loub foi levado por ele, irei entrar escondido lá... e vou ter minha vingança. Mesmo que isso custe minha própria vida no final. - disse, com uma convicção aterradora. - Mas antes disso, tenho que arrancar informações do filho de Ethan Nevill.

- É... parece que nós estamos jogando um jogo perigoso... de novo. - sorriu, desconcertado. - Vou ser sincero com você, Hector: Tenho a leve impressão de que o desaparecimento de Rosie e esse tal Mollock tem um ligação direta.

- Por que diz isso? Aliás, você sabe o que realmente aconteceu com Rosie? - empolgou-se Hector, num lampejo de esperança.

Eleonor, um tanto tensa, teve de intervir na conversa.

- Ahn... Hector... - pôs a mão em seu ombro. - O hotel, infelizmente, não permite ligações muito longas, ainda mais á essa hora. Acho que deve deixar os detalhes para quando se reencontrarem.

Hector lançou um olhar desconfiado para ela. Justo naquele instante, a chance de saber o que acontecera à sua grande parceira e protegida. Viu uma brecha para se encorajar e desabafar algo para Adam.

- Hector? Ainda está aí?

- Err... Adam, me desculpe, mas preciso desligar. Estou em um quarto de hotel e não permitem ligações longas. Eu acredito em você e em todos os outros. Salvem Rosie, onde quer que ela esteja. Eu falhei em protege-la. Portanto, eu não sou digno para a tarefa que estão designados.

- Bom... está bem. - concordou, intrigado. - Eu ainda quero te ver vivo, amigo. Ouviu bem? Não morra. Me prometa isso.

Hector sentira como se inúmeras mãos quisessem esmagar seu coração. Pensou, naquele exato instante, em revelar toda a verdade de uma vez. Mas não. Dois sentimentos lutavam para conseguir um espaço onde brilhar, como duas feras ensandecidas apostando uma corrida. Coragem e hesitação. A garganta de Hector secara por completo, fazendo restar apenas o cair de uma lágrima nascida de seu olhar entristecido. E desligou o telefone, sem mais uma palavra à seu amigo.

Adam estranhara logo o ato repentino.

- Ué... - disse olhando desconfiado para o fone. - O hotel cortou as linhas telefônicas? - perguntou-se.

Enquanto ele pusera de volta o fone no seu devido lugar, Alexia correra para seu quarto, a fim de não ser vista. A palavra monstro a apavorou. Trancou-se no quarto em que ficaria e encostou-se na porta, arquejando de pânico. Pensou em Rosie, em Rufus... em sua família, que residia na Alemanha, na época já à sombra das primeiras ações do nazismo.

"Controle-se Alexia.", pensava consigo mesma, repetindo. Agachou-se e juntou os joelhos, abraçando-os depois. Fechou os olhos, deixando os ruivos e alaranjados cabelos tomarem conta de sua face ao abaixar a cabeça.

Tamanha tensão só poderia significar uma coisa para ela: O prenúncio de uma nova visão.

                                                                          ***

Através da janela de seu escritório, Dwayne Nevill reverberava à luz do sol que transpassava o vidro atrás dele, enquanto focadamente datilografava recibos e documentos. Seu loiro cabelo partido à esquerda reluzia. Abriu um largo sorriso ao lembrar da viagem que seu pai fizera. Longe dele sentia-se mais livre. Porém, tal fato o fez remoer o incidente em sua casa. Novamente, o arrependimento lhe forçou a digitar com mais velocidade. Lembrou-se de seu mestre, da ordem dada por ele. Imagens sufocantes vinham-lhe à mente.

Quando a porta abriu-se abruptamente, deixou errar uma palavra. Quando deu-se conta da falha, voltou à realidade. Distraiu-se muito facilmente para quem se gabava da credibilidade de seu trabalho. Voltou-se para a porta, o olhar esverdeado pulsando de raiva.

Hector e Eleonor estavam bem á sua frente, andando devagar e silenciosos. A porta ficou escancarada, denotando a brevidade com a qual Hector queria que a conversa tivesse.

- Quem permitiu a entrada de vocês? - levantou-se, não tirando o olho de ambos.

- Não importa. - disse Hector, áspero. - Dwayne Nevill, não é mesmo? - aproximou-se da mesa do rapaz.

- S-sim... Quem são vocês? O que querem comigo?

- Olha, não fica nervoso. - disse Eleonor, postando-se ao lado de Hector. - Somos generosos com crianças más. - sorriu cinicamente.

Dwayne deu uma risadinha escabrosa. Seu rosto largo e alvo ficara mais marcante.

- Isso não pode estar acontecendo...

- Ah sim, está sim... Red Wolf - disse Hector, com ar desafiador. - O que sabe sobre Mollock? - perguntou, indo direto ao ponto.

- O quê? - franziu as sobrancelhas, seguido de uma careta. - Olha, eu vou ser bem sincero com vocês. Eu sou um Red Wolf, mas não significa que a fraternidade esteja ligada a qualquer problema que vocês caçadores enfrentem. Para ser mais claro, nunca estivemos em seu encalço, até porque mancharia nossa honra além de ser uma perda de tempo.

- Onde está seu pai? - perguntou Eleonor, tornando sua face séria desta vez.

- Está viajando. Para onde? Não sei. Ele queria fugir comigo, mas o velho foi ainda mais esperto.

- O que ele fez? - Hector inclinara um pouco seu rosto para frente.

- Disse que havia sido selecionado para uma expedição no Ártico. Negócio sigiloso. - afirmou, limpando o suor de seu rosto. - Mas não sei do que está falando e nem onde quer chegar. Portanto, eu quero que saiam agora. Não devo a nada à vocês.

- Ah sim, deve. - o rosto de Hector endureceu, o suor prendendo seus lisos cabelos na testa. - Vai nos dizer a verdadeira jogada de vocês. Por que contrataram assassinos profissionais para se passarem por vocês?

- Espera... - Dwayne passou a analisar a face de Hector, tal como o tom da voz. - Acho que é você. - e apontou o indicador para ele, sorrindo.

- Do que está falando?

- Michael, seu velho amigo. Nosso atual Mestre de Cerimônias. Ele havia me feito um desenho seu, com todos os traços em perfeitos detalhes. Disse que era uma das pessoas que eu deveria tomar cuidado. Isto, aliás, antes de ordenar... uma coisa sinistra.

A fala rápida de Dwayne ao pronunciar o nome de Michael fez Hector prender a respiração por uns segundos. Estava, pouco a pouco, predizendo a si mesmo que as peças se encaixariam.

- Michael, não é? - assentiu com a cabeça, mordendo os lábios, quase não acreditando. - O que ele lhe ordenou?

- Dias antes do ataque à Londres, um de nós visitou a mansão do tio de Michael. Descobrimos que a bíblia de nosso senhor Abamanu havia sido roubada. E adivinha só qual é minha suspeita...

- Vá direto ao assunto! - vociferou Eleonor, visivelmente impaciente.

Dwayne a olhou com certo desprezo. Prosseguiu.

- Bem... Eu fiz para manter meu grau. Michael me obrigou a usar um livro de bruxaria e invocar um demônio-alfa provindo do Tártaro, baseado nas escrituras da bíblia de Abamanu.

- Espera. - interrompeu Eleonor. - Que história é essa de grau?

- Digamos que as regras mudaram um pouquinho. - disse, dando um sorriso misterioso.

- Continue. - exigiu Hector, a voz firme como um pilar.

- Tudo ocorreu para que a profecia fosse cumprida. E eu libertei aquele monstro... testemunhei o maior horror de toda a minha vida. - lembrou o par de olhos avermelhados do demônio o encarando por breves segundos.

- O pupilo de Abamanu, estou correto? - presumiu Hector, semi-cerrando os olhos.

- Sim. E com as notícias recentes, parece que ele já está reinando. - sorriu novamente, mantendo o ar de escárnio que rosto exalava.

- Mollock. - disse Hector, quase cerrando os dentes.

Eleonor não se segurava.

- Mas o que "pupilo" realmente quer dizer? Como tem tanta certeza se a profecia está se encaminhando para o rumo que vocês desejam?

- O primeiro herege. O sacrifício que não foi feito, mas houve a lua de sangue e o exército marchando sob a luz dela. Tudo isto está escrito na nossa bíblia. A última profecia diz respeito àquele servirá como receptáculo de nosso deus. - explicou Dwayne.

- Agora já entendi. - disse Eleonor, pensativa, fitando um canto da sala.

- Presume-se que a bíblia que era de vocês foi escrita por um dos Red Wolfs da geração anterior. - lembrou Hector, com um lampejo de certeza. - Provavelmente há um exemplar autêntico... e bem mais abrangente. - lançou para Dwayne um olhar penetrante.

- Hum. - riu baixinho. - "Para o que for a imagem, corpo e alma de nosso senhor, deverá construir seu império a partir dos restos das ruínas de outro." - disse, citando uma parte do capítulo da última profecia.

Hector dera um sorriso de canto de boca, apreciando uma aparente deixa.

- Isto é algum tipo de pista?

- Pense o que quiser. Não pode evitar. Ninguém pode.

- Cedo ou tarde vocês serão encontrados. Se houver tempo suficiente, faremos isso. - desafiou Hector, apoiando sua mão na mesa.

- Nunca acharão nosso esconderijo. Temos um exército a nosso favor. E sabem o que temos que fazer... ou você pensou que não estaríamos no lugar certo para ver a chegada de nosso deus? - Dwayne inclinou a cabeça, encarando Hector com seus olhos ardentes.

Silêncio na sala. Ambos se entreolhavam firmes e desafiantes, como se um quisesse adivinhar o pensamento do outro. O que seria o "lugar certo"? Tal informação levantou fortíssimas suspeitas, fazendo a mente de Hector adquirir uma avidez ainda mais ambiciosa. Eleonor observava, calada. Fizera de tudo para se portar como uma mulher comum ao chegar no local.

O clima fragmentou-se com a voz de Eleonor lançando-se como uma chicotada no ar.

- É! Talvez seja perda de tempo nos importarmos com uma ameaça desse tamanho. São descartáveis.

- Tão auto-confiante, mas tão insegura ao mesmo tempo. - zombou Dwayne. - Mas tão bonita...

- Tão novo, mas tão ludibriado... e triste. Não sabe com quem está lidando. - sorriu, provocando-o.

Dwayne a analisou dos pés à cabeça, lenta e calmamente. Uma excitação involuntária irrompeu de imediato. Já tinha uma resposta pronta, na ponta de sua língua de serpente venenosa.

- Pelo olhos, pela roupa, o decote... Só posso dizer que é uma...

Hector se viu obrigado a interromper. Quando o fez, sentiu-se mais seguro quanto à preservação de Eleonor e seu auto-domínio.

- Muito bem! - se pôs no meio de ambos. - Acho que estamos conversados. Iremos ignora-los, por enquanto.

- Ótimo. Agora saiam do meu escritório, ainda tenho muito trabalho a fazer.

O caçador puxou levemente sua companheira pelo braço, acompanhando-a até a porta.

- Sabe que inevitavelmente vamos estar no caminho de vocês de novo. Nós vamos vencer esta guerra, caçador tolo! - exclamou, convicto. - Você e sua mãe, sozinhos, não tem a menor chance contra o poder da fraternidade.

Os dois fizeram uma parada brusca, logo quando estavam prestes a sair. Viraram-se franzindo as sobrancelhas, claramente desconfortáveis com a declaração.

- O quê? Ela não é a minha mãe.

- Ele não é o meu filho.

Dwayne deu de ombros, não se importando com tal detalhe.

- Que seja.

Hector saíra na frente, a passos largos, emanando uma aura aborrecida. Porém, Eleonor, por sua vez, insistira em esclarecer algo. O fez dando meia-volta e reabrindo a porta.

- Sim, você estava certo. Eu sou uma bruxa.

E fechou a porta em um estrondo ecoante.

Dwayne encarou a porta por alguns segundos, simultaneamente feliz pela certeza e preocupado com o futuro. O seu futuro, para ser mais preciso. Arrancou a folha da máquina de escrever em um rasgo violento e a amassou forte como se quisesse faze-la encolher em suas mãos. Sentiu ojeriza pelo comportamento de Hector... mas sentira ainda mais mágoa pelo profundo olhar de Eleonor.

- Um reles caçador... e uma bruxa vadia. - disse, continuando a amassar a bola de papel.

Enveredando-se para a saída do corredor do prédio, Hector destacara um detalhe que aparentemente fora esquecido. Entretanto, a preocupação de Eleonor com seu estado cortou sua linha de raciocínio perfeitamente concentrada.

- E então, o que planeja fazer de agora em diante? - alcançou-o, pondo-se ao lado dele.

- Hoje à noite. As dez e meia. Mollock e seu exército que se prepare. - disse, com uma empolgação assustadora até para ele.

- Iremos invadir o museu!? Furtivamente, claro. - concordou Eleonor.

- Exato. Loub está lá, deve estar em cativeiro. Minha vingança liga-se aos dois. O que acha de preparar uma lista de feitiços? - voltou-se para sua parceira, com ar confiante.

- Não preciso de uma lista. Qualquer feitiço que caiba à situação já será válido. - afirmou, afastando uma mecha do cabelo.

- Parece que Michael já havia se dado conta de que eu seria um estorvo, se caso eu aceitasse me juntar à eles. - o caçador apressara mais seu passo.

Eleonor voltou-se para ele, o olhar acompanhando a estática expressão corajosa de Hector.

- Espera... Que história é essa de "me juntar à eles"?

- Eu sou filho de um Red Wolf. - disse, sem medo de sua concisão. - Por essa razão, Rosie se sentiu traída. E agora sinto-me culpado.

A revelação caíra como uma bomba em extremo perigo de proximidade para Eleonor. Encolheu os ombros, enquanto caminhava para a porta do corredor com um semblante desnorteado.

- Venha. - apressou-se mais. - O que acha de um belo café da manhã num dos melhores restaurantes do bairro?

Apenas fez que sim com a cabeça. Procurou não expor seu choque. Mas ela disfarçaria sua surpresa com uma excitação arrepiante, igualmente genuína.

                                                                          ***

A plateia fizera um silêncio aterrador, como se todos, de alguma forma, perdessem suas vozes. Na arquibancada onde Rosie estava, os dedos indicadores achatados daquelas criaturas apontavam para ela, os rostos demoníacos e nojentos expressando decisão ao escolhe-la. A jovem deixou cair os ombros, olhava para aqueles dedos como se não acreditasse.

- Só pode ser brincadeira. - fitava, estarrecida, os torcedores.

- Desça! - berrou o gigante, olhando diretamente para Rosie.

Ela recuou alguns passos. Seu instinto lhe dizia para fugir dali o mais rápido que pudesse. Deu-se conta, em reflexão mais profunda, que se o fizesse talvez seria caçada. Tentou ver alternativas para contornar seu medo. Não viu sequer uma vantagem sobre aquele ser de 2 metros e meio. Pensou no Guia. Ele apoiaria sua fuga? Não. Estava desconfiada demais para recorrer àquela escolha, levando-a a achar que ele a impediria de qualquer modo.

Era um desafio, afinal. Tinha obrigatoriedade de cumpri-lo, já que estava envolvida em um engenhoso plano divino. Arriscar era a única opção.

- Vamos, Rosie. Você deve ir à arena. Você foi escolhida. - disse o Guia, autoritário, sem voltar-se para ela.

Não questionou. Nenhuma palavra foi necessária. Apenas desceu a mureta e as escadas, sem vislumbrar as faces horrendas que a encaravam, que lhe davam passagem. Olhava fixamente para o gigante, em uma lenta análise de sua fisionomia, objetivava enxergar um ponto fraco. Sua concentração enquanto descia a mal-feita escadaria da arquibancada era impenetrável de modo que nem a fez ouvir uma cusparada dada por um dos torcedores em seus pés, em claro sinal de repulsa e intolerância.

Sussurros ardilosos. Cochichos infames. Risadas baixas querendo tomar escárnio. Não havia mais nada no campo de visão de Rosie além da circular arena e o gigante no centro dela, manejando seu machado. Para a surpresa do Guia, a jovem, ao terminar de descer a escada, desprotegeu a cabeça removendo o capuz. O preto de seus cabelos reluzia forte por meio do sol, cada vez mais ardente.

Por fim, entrou na arena em um pulo. Uma cortina de poeira levantou com o impacto dos pés da jovem ao chão. Da poeira que se dissipava rápido, surgia ela. A capa vermelha balançando ao vento para um lado. Manteve o olhar frio e intenso para o gigante.

- Vamos! - exclamou ela. - Ria de mim! Faça chacota! Afinal, eu sou apenas uma reles e fraca humana!

O gigante inclinou a cabeça, mas pareceu segurar uma gargalhada.

- Não. - disse, fazendo que não com a cabeça. - Meus adoradores fazem isso por mim! - e apontou para a plateia, que, em questão de segundos, voltou a vibrar.

Rosie nem movera a cabeça. Ficou a escutar os gritos de "Perdedora!", "Morra!", "Acaba com ela!", entre outros. O gigante julgara-a cedo demais.

- Tsc Tsc - balançou a cabeça, em desaprovação. Um sorriso amarelo e repugnante pôde ser visto, escondido na volumosa barba ruiva do gigante.

- Acho que devia ter afiado a lâmina do seu machado. - afirmou Rosie, andando para um lado, sacando discretamente sua adaga.

- Você não é ninguém para falar do meu machado! - irritou-se. - Vai ser tão rápido acabar com você... é só uma criança ingênua.

Rosie não tolerara o comentário. Mostrou sua adaga, em posição de ataque.

- Muito bem... - ela sorriu, emanando uma confiança repentina. - Pelo visto, vou ser uma criança muito má.

O gigante, sem esperar um segundo a mais, balançou seu machado, a lâmina cortando o ar em um som rápido, visando uma flexibilidade. Erguera a arma, fazendo-a reluzir à luz solar juntamente ao capacete, estando pronto para um golpe certeiro. Rosie o encarou como uma montanha prestes a desmoronar. O som sibilante do machado caindo em sua direção veio como uma avalanche de neve.

Em um pulo rápido, Rosie esquivara-se do golpe, caindo para a frente após dar uma cambalhota. Seus pés firmaram-se no chão abruptamente. Vislumbrou o chão rachado do ponto em que estava ao olhar para trás. De instantâneo, ouvira a voz do Guia, em tom orientador.

- Cuidado, Rosie! Na sua frente! - avisou ele.

Sem esboçar surpresa alguma pela voz cavernosa na sua mente, a jovem vira a lâmina ensanguentada vindo em alta velocidade na sua direção. Deu novamente um pulo, desta vez para cima. O som cortante do machado atravessou seus tímpanos enquanto pairava no ar por poucos segundos. O gigante jogara a arma, mirando na face de Rosie com evidente precisão. Sorte a dela não ser um bumerangue laminado. O machado cravou-se no solo infértil e de aspecto bege, rachando-o. Enquanto descia de cabeça para baixo, em rapidíssimo ato, lançou uma adaga contra o peito da armadura. Novamente, um impacto forte entre o chão e seus pés fora dado.

Deixando dissipar-se a poeira que se formara em torno de si com a capa, Rosie, agachada e de costas para seu adversário, presenciou um esperado momento de dor. Voltou seus olhos para o gigante, fulminante, a face frígida como a morte. O gladiador arrogante andava na direção dela, cambaleando, os dentes rangendo de raiva. Raiva esta compartilhada com a plateia, que se enfurecia em um único tom. O Guia, imóvel e pairante, refletiu sobre o momento.

"Ela possui uma desenvoltura única. Certamente, Lorde Abamanu não errou na escolha, o que não é de se espantar. Se continuar a não baixar a guarda, ela conseguirá o prêmio e passaremos para o desafio extra.", pensou ele.

Rosie se levantou, sacando mais uma de suas adagas. O ruído da lâmina soou seco e agudo, para o esterrecimento de todos que assistiam. O formato era mais grosso e largo, com a ponta de mesma tangibilidade que uma agulha. Posicionou-se, de novo, mostrando uma aura imponente, seus negros cabelos balançando com o vento.

O sangue gorgolejava do peito do gigante, cada vez mais cambaleante. A adaga caíra, suja.

- O que foi? Vem! - disse Rosie, contente por ver o ar prepotente do adversário evaporar com um só golpe. - Está com medo por que sou uma garota? - provocou.

O gigante, andando até ela, rosnara, seus passos cantando barulhos pesados. Pondo sua mão no peito esquerdo para estancar a hemorragia incessante, ele deixou se formar uma trilha de sangue no centro da arena. Com rapidez incrível, Rosie lançou a adaga, a mesma girando horizontalmente. Fora barrada por um movimento do gigante, tendo ele protegido-se com o bracelete dourado. A arma cortante, em segundos, foi de encontro ao chão.

- Você me pegou desprevenido, sua pequena vadia insolente! - reclamou, pressionando a ferida - É bom ter adversários como você por perto.

- O que quer dizer? Se vai me elogiar, fale logo, não seja tímido. - teve de recuar alguns passos, já que estava de mãos vazias.

- Mais de 50 vitórias! - disse, cada vez mais próximo dela. - Mais de 50 fracotes derrotados por mim! Eu, Tharbor, não serei abatido por um inseto como você!

- Meus reflexos foram aprimorados naturalmente. - salientou ela, recuando ainda mais. - Ainda dá tempo de desistir, sabia? Sua armadura não é resistente o bastante, qualquer golpe, qualquer impacto contra ela é uma chance a menos de vencer. O seu ferreiro era um estagiário?

Em um lampejo de fúria absoluta em seu interior, o gigante entoou uma voz calma antes de dar sua cartada final.

- Que tal eu responder com isto!?

Rosie fitou dois pontos brilhantes e vermelhos nos olhos do gigante. Os orifícios negros do capacete, que não possibilitavam ver suas pupilas, de repente iluminaram-se. Sem perceber precisamente, Rosie foi alvejada com duas e surpreendentes rajadas de raios vermelhos saindo pelos olhos do gladiador.

Correu. Uma corrida que ganhara da que fizera na floresta desabitada. A plateia, impressionada, alardeou com gritos o poder oculto do campeão do torneio. Os raios perseguiam Rosie como um maremoto arrasando com tudo. Um imenso rastro de destruição podia ser visto se formando ao redor da arena. O gigante manifestava sua raiva através daquele poder, algo que fazia questão de esconder nos campeonatos em que participava. Usara como último recurso para casos em que o oponente era habilidoso demais, talvez com uma agilidade equivalente à sua. Enfim, encontrara o que se encaixava neste perfil. Lutar de igual para igual lhe era inadmissível.

Telepaticamente conversando com o Guia enquanto corria freneticamente pela arena, Rosie mostrara-se indignada com a falta de informações.

- Seu idiota! Por que não me avisou que ele tinha uma habilidade dessas?

- Pensei que estivesse aberta à surpresas. - disse ele, calmo como uma folha voando devagar ao vento.

Os raios aumentavam de tamanho, em linha reta, cada vez mais próximos de Rosie. O gigante era um trem desgovernado. Pulverizar aquela petulante alma humana seria uma conquista e tanto.

Viu todo o ambiente ao seu redor tomar um tom de vermelho intenso. Sem saída, jogou seu corpo para o lado direito, quicando naquele solo arejado. O gigante abaixara a cabeça, conduzindo os raios para a direção de Rosie, aproveitando que a mesma estava caída.

Virando seu rosto depressa, a jovem dera um pulo, comprimindo seu corpo para que passasse na abertura entre um raio e outro. O risco, no fim, valera a pena. Percebeu mais claramente que a gravidade do lugar era favorável às suas características. Jogou seu corpo mais para o alto, com a intenção de passar por cima do gigante, girando lentamente. A consequência evidente era de que os raios mirariam diretamente na plateia. E assim ocorreu. Uma vasta fileira de torcedores foi pulverizada verticalmente. Parte da arquibancada tornou-se pó junto com os ocupantes.

Assim que "desligou sua máquina mortífera", o gigante não percebeu o estrago que fizera. Estava aguardando sua presa, mas seus olhos ardiam e a claridade vermelha ocultava. Teria de esperar alguns segundos até que recuperasse a visão para lançar os raios novamente, logo quando avistasse Rosie.

- Ah, sua menina desprezível! Tem sorte que essa minha habilidade especial me deixa cego temporariamente! Se não fosse por isso, eu te fritaria inteira!

Voltando ao chão, Rosie ficara estática ao ouvir a palavra "cego". Seu coração ritmava batimentos acelerados, mas não de desespero. Mas sim de esperança. A vantagem estava à suas costas. A deixa perfeita.

O gigante gemia de dor. Mesmo de pé, qualquer um percebia suas pernas bambearem trêmulas.

- 20 segundos, Rosie, - avisou o Guia, por telepatia.

Virara-se para o adversário, encarando-o com certa pena. Duas adagas foram sacadas ao mesmo tempo. Girou-as, em demonstração de poder sobre a luta, até pega-las firmemente. Sabia exatamente o que fazer logo em seguida.

Calculou a distância olhando-o de baixo para cima. Guardou as adagas, já sabendo como proceder com elas no final.

O Guia, impaciente, não deixou de alertar mais uma vez.

- 8 segundos! Faça alguma coisa!

O tempo bem estava ao seu lado. Em uma furiosa e arriscada escalada, Rosie subira, através de um pulo, o corpo do gigante. Escalou as costas segurando as saliências da armadura, com extrema velocidade.

4 segundos.

3 segundos.

2... 1... Com os braços erguidos, postando-se em sua nuca, Rosie segurou fortemente as duas adagas e as cravou profundamente nos olhos do gigante. Respingos de sangue lançarem-se em linha reta no ar, o líquido puro e quente cintilando à luz da estrela de fogo.

- Isto é pelo guerreiro que você matou. - disse, satisfeita com a vingança.

O estridente urro de dor do gigante calou a multidão que assistia atônita à queda do campeão. Pressentindo um desatino vindo do maior lutador do torneio, Rosie pulou do corpo, realizando uma descida vertiginosa. Viu o Guia, parado, mas parecendo estar convencido de sua performance.

A jovem estava exausta. E faminta. O Guia materializou-se ao lado dela, logo apontando para o alto de uma torre localizada atrás de uma parte de arquibancada. Semi-cerrando os olhos, Rosie avistara uma manopla cuja cor não era facilmente distinguível. Sanou a dúvida quando o Guia, agindo rápido, pegara o prêmio em um teleporte, desafiando a percepção de Rosie.

- Como você pegou tão ráp...

- Esqueça. Este é o prêmio do campeão. - e mostrou a manopla, folheada à ouro autêntico.

- Não seria justo... - hesitou ela, recobrando a calma. - Afinal, ele venceu a maior parte das lutas. - voltou seu olhar para o gigante, se queixando da dor aguda em seus olhos em gritos imparáveis.

- Deixe-o sofrer. - declarou o Guia. - Pelos menos por enquanto...

O gigante, com uma mão, tentava agarrar algo, e com a outra tapava os visores do capacete com o sangue escorrendo por entre seus dedos.

- O troféu é seu, Rosie. Aquele que consegue a proeza de derrotar o campeão de mais de 50 lutas é considerado o vencedor de todo o torneio. - revelou o Guia, entregando a manopla nas mãos dela. - Repare na palma da mão.

Rosie viu a peça do talismã atraída a palma do artefato. Franziu o cenho, estranhando.

- Que estranho... Como pode estar presa à manopla se não tem encaixe? - ficou a girar o objeto.

- Ela tem a incrível função de atrair magneticamente qualquer coisa de valor equivalente à ela. - explicou o Guia. - Agora devemos ir. Há um desafio-extra à sua espera. - e saiu, flutuando para uma alta abertura quadrada, provavelmente dando em um corredor.

Por fim, foram envolvidos pela escuridão quando adentraram.

- Espera! Que história é essa de "desafio-extra"? - a voz de Rosie ecoava por todo o espaço sombrio.

Um portão secreto, praticamente invisível quando está fechado, fora aberto nos arredores da arena, inclinando-se para cima. Era revestido com os mesmos tijolos que formavam o "Coliseu" no meio do deserto, sendo a linha que o contorna dando a impressão de que o mesmo não existe. O gigante ainda berrava de dor, com uma frustração ainda maior por não sentir mais a presença de Rosie.

Do portão, surgira um enorme leão, avançando loucamente contra o gigante, amassando seu capacete metálico. Toda a plateia se alvoroçou com a cena que se seguiu. Após dar um imenso rugido, a fera derrubou o gigante em uma mordida certeira na sua cabeça.

Na arquibancada, os torcedores discutiam aos gritos em uma linguagem totalmente desconhecida. Enquanto o leão saboreava vorazmente a carne do gigante perdedor, os espectadores culminavam no limiar da loucura e violência, dando término ao show rústico em um confronto com pedras, paus e garras.

                                                                         ***

Num universo não tão distante, mais precisamente em uma casa simples e pequena, iluminada apenas por poucas velas vermelhas, havia um homem... trabalhando em um conserto de um relógio de ouro do século XIX. Apenas uma pilha de relógios quebrados ficava à penumbra.

Sua silhueta denotava uma idade avançada. Relógios tiquetaqueando faziam ser o único som predominante.

Interrompeu seu trabalho só para reclamar consigo mesmo.

- Ah... como eu odeio a sensação de que vou ter visitas.


                                                                       CONTINUA...

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