domingo, 9 de agosto de 2015

Mission Mars


Era apenas para ser um sábado comum e entediante (sim, eu sempre preferi os domingos, não sei porque), mas... (suspiro). Não sei nem por onde começar. Mas me sinto tirando um peso de minhas costas dentro desse consultório, todo aquele estado de choque, aquele arrepio contínuo... é, doutor, a sua presença ameniza todos esses efeitos. Vou direto ao ponto, sei que não parece ser do tipo que aguenta delongas.

Era sábado... como falei inicialmente. Faltando cinco dias para meu aniversário, que vai ser no dia 25, logo o dia em questão foi 21. Minha mãe estava fora, fiquei cuidando da casa com o consentimento dela. Era de tarde, fazia calor como nunca. No sofá, meio distraído com o celular - por incrível que pareça -, ouvi o "toc-toc" incomum da porta para um dia como aquele. Fui lá abrir... acabei me deparando com um carteiro, segurando uma caixa de papelão, era uma encomenda. Em cima dela havia uma prancheta com um papel e uma caneta. Ele me pediu para pegar a folha com a prancheta e assinar meu nome. A caixa, diferente do que eu esperava, era muito leve. Eu... eu não pedi nada. Bem, eu pus a caixa em cima da mesa da cozinha. Vi um papel, colado com fita numa lateral, que dizia: "De H. S. 0001. M. para Shaw Maville Hegg" - que sou eu. Que nome estranho para um remetente, não é mesmo?

Rasguei o papelão, mas notei que as fitas adesivas estavam gastas. Supus que alguém já havia aberto. O carteiro, talvez? O remetente? Só encontrei uma coisa: Uma fita de vídeo.

Empoeirada e cheia de arranhões, ela tinha um aspecto meio estranho. Diferente das comuns, a caixa era prateada, metálica e fria, parecia ter sido criada num freezer. Havia um nome escrito com aqueles pinceis para lousas brancas. Dizia: "Mission Mars". Saquei a obviedade do título e, claro, fiquei curioso de imediato. Corri para a TV. Não questionei mais quem tinha me enviado aquela porcaria, eu esperava por uma diversão barata que me tirasse daquele tédio.

Foi difícil abrir aquela fita. Foi preciso muita, muita força mesmo. Substituí o DVD pelo video-cassete do meu tio e pus a fita para rodar. Pensei nos meus colegas de classe, são um bando de zoeiros e fanfarrões, talvez estivessem armando uma para me "trollar". O senhor sabe o que isso significa não é, doutor? Ah, tudo bem, deixa pra lá. Voltando... Err... é aí que começa a parte sinistra, doutor.

O vídeo tinha começado com um estrondo altíssimo, a tela ainda estava preta. Não preciso comentar o susto que levei, não é? Pois bem... O vídeo continuou, a imagem em péssima qualidade, a câmera parecia girar loucamente. Parecia que alguém estava correndo. Só o que eu via era um corredor cinza, um borrão cinza sendo mais exato, pois a câmera balançava muito mesmo. Não havia áudio naquela parte.

Lembrei que meu pai era astronauta e havia morrido em um acidente... que nunca foi à público, apenas as famílias dos astronautas souberam do caso. Ele morreu antes de eu nascer. Era uma missão sigilosa, segundo a minha mãe. Quanto mais o vídeo avançava, mais eu tentava ligar aquilo ao que aconteceu com meu pai. A cena no corredor cortou. A tela ficou preta novamente.

Agora estava em um espaço aberto... vermelho. O som ainda estava ausente. A imagem borrava muito, e por isso não dava para ver muita coisa, o vídeo também ficava meio lento. Ainda corriam. Doutor... eu percebi que aquilo já era sério demais para ser uma brincadeira sem graça dos meus amigos. Eu pensei: "Mas que porra é essa? O homem nunca foi à Marte! Não pode ser! Isso é uma farsa!". Cheguei mais perto da TV... levei outro susto. Desta vez foi com as vozes dos astronautas. Vozes não, gritos, aliás. A câmera ficou balançando novamente, a velocidade do vídeo estava péssima tal como a imagem... Eu vi o céu vermelho do planeta.

Meu deus... fiquei atordoado. Aqueles homens pareciam estar sendo... estripados. Eu ouvia ruídos de ossos estralando, enquanto o cara que segurava a câmera corria e gritava sem parar. Ele passou a correr mais rápido, focando só no chão. Tentei abaixar o volume, mas não... Não alterava nada, foi como se a fita rejeitasse a função do controle remoto. O grito de horror daquele homem... era angustiante, eu queria chorar... agora, eu tô chorando, como o senhor pode ver, que estranho.

Senti muita pena, sinceramente, doutor. Continuando... Aquele grito... quase me deixou surdo. Quando amenizou um pouco mais, que foi na parte em que ouvi vozes estranhas, foi que minha atenção se recuperou. Por onde o homem corria, vi um corpo. Pausei o vídeo no exato momento - ao menos nesse ponto o controle funcionou. Tinha o emblema da NASA. O rosto eu reconheci de imediato... estranhamente, estava tão nítido. Era meu pai, doutor. Putrificado e jogado às moscas.

A câmera "caiu". O homem gritava: "Me solta! Me larga, seu monstro! Aaaaahhh", ele parecia estar sendo puxado. Virou a câmera para o rosto e disse: "Á todos da NASA... à todos que suspeitavam... Eu dedico esse vídeo à todos os ufólogos do mundo! Vocês não estavam err...". E só o que se seguiu depois dessa cena foi um grito apavorante daquele homem. A câmera ficou bolando no chão e a imagem cada vez mais danificada.

Um minuto de silêncio e tela preta. Depois, tudo ficou diferente. Uma imagem que cortava, intercalando com flashes pretos e brancos, linhas horizontais, mostrava o que parecia ser a cabeça de um monstro. Não consigo definir aquilo, só sei que... que é muito bizarro, doutor. Uma silhueta completamente negra, deu até para ver pontas que pareciam ser chifres ou coisa parecida. Mas não deu para ver seus olhos, a cena continuava do lado de fora da nave.

Ele olhava para a câmera, enquanto a imagem ficava cortando. Após uns cinco minutos disso, eu acho, a tela ficou preta novamente. Acho que passaram uns sete minutos, e em seguida uma letras estranhas apareceram. Códigos, mais precisamente. O número de códigos estranhos foi aumentando numa escala infinita em frações de segundo.

O vídeo terminou com um só código no centro da tela. Maior em tamanho em relação aos outros. Não houve créditos finais para aquele filme de horror... só estática.

Fiquei muito pensativo depois que tirei a fita. Eu posso dizer ao senhor, doutor, que aquilo era real demais para ser uma pegadinha ou uma farsa. Eu senti a dor daqueles homens só de ouvir seus gritos. Eu pensei: "Seria essa a missão secreta da NASA que meu pai tanto falava pra minha mãe?". Foi ali que meu pai morreu? Será que os atuais projetos para se chegar à Marte, como aquela sonda lá que não sei o nome, são só uma cortina para esconder o que realmente anda acontecendo nos bastidores?

Eles foram mesmo para lá? Nossa, doutor, não tem noção de quantas dúvidas.

Não sei se ria ou se chorava quando reparei em um detalhe. Escrita em pequeníssimo formato, em um canto. Minha mente ficou travada, confusa. O choque foi instantâneo. Estava escrito na caixa da fita e nem tinha percebido antes.

Era a data da gravação:

19 de julho de 2034. 

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