Acho que vi um Anjo


Bem, o desenrolar dessa história é meio desconfortante e complicado de definir. Mas sei o que vi. Sei que estive em apuros o tempo todo naquela maldita floresta. Fico trêmula só de lembrar. Farei um esforço para contar aquilo que todos pensavam ser lenda ou boato. Testemunhei o inimaginável. Bem, é hora de contar, já que sobrevivi para tal. Já perdi as contas de quantas hiperventilações fiz. A partir desse terrível momento, passei a sofrer crises de pânico contínuas e intensas.

Ah, pra quê estou falando sobre mim!? Vou logo direto ao ponto, pois não sou fã de delongas.

                                                                  ---

Naquele inverno de 1992 - o qual eu estava mais ansiosa pela chegada -, minha família decidiu alugar uma casa próxima à uma floresta, que, por sinal, não tinha uma aparência convidativa. Meus tios, tias, meus avôs e meus pais. Enfim, todo mundo. As coisas fluíram normalmente nos 3 primeiros dias de estadia, como imaginei desde o início: o inverno dos meus sonhos. No 4º dia fui incumbida - contra a minha vontade - de levar os dois cães de minha mãe para passear. O lugar não foi nem um pouco sugestivo. Sim, a floresta. Aos trancos e barrancos, fui levando aquelas ferinhas afoitas. No entanto, como imaginei, eles ficaram mais calmos quando chegamos em um ponto mais distante de onde partimos. Eu parecia mais cansada do que eles, portanto, me encostei numa árvore pra recuperar o fôlego. Os amarrei em um tronco de uma árvore mais robusta um pouco mais à frente da que eu estava.

Cada segundo, uma respiração pesada vinha. Após o descanso, senti que o ar ficava mais rarefeito quando uma certa névoa começou a tomar conta dos arredores da floresta. Olhei à minha volta apavorada. Afinal, era inverno, logo neblinas eram quase constantes. Porém aquilo soava como algo fora do comum. Um fenômeno atípico. Só então percebi que não era uma névoa como as outras. Os cães começaram a latir, me deixando ainda mais nervosa. Latiam para a névoa, como se o que estivesse escondido nela fosse uma ameaça. Os desamarrei e segui com eles de volta para a casa. Como fui ingênua nessa parte. A névoa me perseguia e ofuscava a trilha por onde vim. Soltei em tom baixo um "Merda!", mas que estranhamente ecoou. Todos os meus pelos arrepiaram, pois o eco produzia uma voz diferente da minha.

Eu estava completamente perdida. Recuei alguns passos. Os cachorros pararam de latir. Aquela maldita neblina intimidava eles também. Ajeitei meu suéter para tentar me proteger do frio intenso que fazia, olhando para os lados aterrorizada. Não hesitei em correr quando avistei um vulto sombrio passando na minha frente. Larguei os cachorros, acho que eles também correram, não sei.

O interessante da coisa é que o tal vulto possuía asas. Corri como um fugitivo da polícia. Adentrei naquele névoa densa, que dificultava minha respiração a cada passo. Parei um pouco para respirar, mesmo que em vão. Me deu uma vontade de olhar para cima, totalmente inexplicável. Naquele céu prateado pude ver uma figura alta, negra e com asas enormes voando. Consegui defini-lo mesmo que em poucos milésimos eu tenho o visto. Baixei a cabeça, tentando acreditar ser um pesadelo. Até que uma mão suave tocou meu ombro esquerdo. Era uma menina.

- Algum problema, moça?

- E-eu... estou perdida. Sabe onde fica uma casa próxima ao começo dessa floresta?

- Lamento. Dizem que essa floresta não possui começo e nem fim. E quem se perde jamais consegue retornar. - disse a menina, acabando com minha esperança.

- I-isso não pode ser verdade... Quem te disse isso?

- Meus pais. mas eles não estão em casa agora. Posso te levar, se quiser, já que está perdida.

- Bem, você também deve estar perdida... não é mesmo? Então como pode me levar pra sua casa?

- Confie em mim. Essa neblina não me impede de voltar, sempre vivi perto daqui.

A tal menina pegou minha mão direita e me levou à sua casa. Uma cabana bastante nova, por sinal. Após entramos, ela me ofereceu um cobertor e me conduziu à lareira. Agradeci e ela se apresentou à mim. Conversamos sobre nossas vidas, gostos... até desembocar no assunto da floresta.

- Entendo porque estava nervosa. - disse ela.

- Entende?

- Sim. Geralmente algumas pessoas se perdem por causa do Anjo da Morte.

- Anjo da Morte? Não me diga que...

- Sim. É como as pessoas do vilarejo próximo chamam a criatura que vaga por essa floresta. - revelou a menina, me interrompendo mal-educadamente.

Depois dessa revelação meu coração disparou. Me levantei rápido, quase derrubando a cadeira onde estava sentada. Como ousam chamar aquela coisa medonha de anjo!? Nada mais parecia real pra mim a partir daquele momento. No entanto, até que aquela garotinha parecia sincera e uma boa companhia. Apenas queria voltar para casa e reencontrar minha família, já não aguentava mais tanto desespero.

- Eu te assustei?

- N-não... é que... eu vi algo estranho... preto, rápido e com asas... - disse eu, tremendo vergonhosamente.

- Então você viu também. Significa que deve arranjar um jeito de parar a perseguição.

- Q-que perseguição? O que quer dizer?

A menina gesticulou com a mão me chamando para falar no meu ouvido. Curiosa, não hesitei.

- Normalmente as vítimas dele morrem depois de serem perseguidas após 24 horas. Você está na mira dele agora, e tem que encontrar a saída dessa floresta antes da meia-noite.

- Não! - gritei. - Só pode ser brincadeira! Se eu tiver que sair dessa vou precisar de ajuda.

- Tudo bem, não precisa ficar nervosa. Vou ajuda-la. Só existe um problema.

- Q-qual?

- Só posso leva-la até uma parte da floresta. Acho que o limite é de 10 km. Sendo assim, você vai ter que ir sozinha após completarmos esse caminho.

"Filha da mãe!", pensava eu. Me segurei para não ficar brava, o que seria péssimo, ainda mais na frente de uma pobre criança. Suspirei firme. Esfreguei as mãos, gerando um agradável atrito. Fechei e abri os olhos. Estava calma novamente. Eu não sabia se podia confiar nela ou não, mas me contentei pois era a única ajuda disponível. Eu poderia estar completamente ferrada, mas eu tinha fé que poderia sair viva.

- Ok. Melhor irmos logo. - disse eu, apressada, porém, preparada.

Caminhamos trocentos quilômetros, enfrentando a névoa e o vento frio. Paramos em frente a uma enorme rocha, próxima à uma trilha com árvores ao lado. Estava começando a nevar e eu havia perdido a noção do tempo.

- Bem, é aqui que paramos.

- Por favor, será que você sabe como acabar com tudo isso? - perguntou eu, com a cara mais tristonha que já fiz na vida.

- Não. Muitas pessoas morreram nessa floresta por não conseguirem escapar das garras dele. Talvez essa trilha leve até o vilarejo ou à sua casa. Somente pode-se escapar aquele que sair da floresta.

- E-está bem. Mas e você? Também está em perigo.

- Não se preocupe comigo. Meus pais voltarão logo ao anoitecer e decorei o caminho de volta.

Somente algo me intrigou. Como ela conseguiu memorizar o caminho da ida à cabana e o que é para voltar até ela quando chegamos aqui? Fiquei desconfiada, lógico. Aparentemente ela era a única pessoa que não se perdia naquele lugar. Por que?

Segui a trilha calmamente. Mas senti um vento forte e gelado atrás de mim. Olhei para trás... me arrependi. Aquele maldito vulto passara novamente naquela névoa. Parecia mais nítido. Pude ver um pouco de sua face sombria. Não possuía um rosto. A solução mais prudente naquele instante foi correr o mais veloz possível, mesmo com a névoa servindo como barreira de contenção.

Não houve tempo de sobra para respirar. Ao menos no fim da trilha avistei o tal vilarejo, para minha sorte... que durou pouco. Mal pisei naquele solo coberto de neve e uma mulher, aos prantos, se agarrou à mim. Seu choro causava espanto de tão insólito e triste. Tentei milhares de vezes perguntar o que estava havendo, mas ela teimava em manter suas mãos presas á meus braços e molhando o casaco que eu estava usando com suas lágrimas.

- Tudo bem, tudo bem... a senhora já pode parar. Acalma-se. O que houve?

- Ele vira, ele virá! - gritava a mulher.

- Quem? Quem está vindo? Me diga!

- Por favor, fuja daqui. Ele matará você também se continuar andando pelos arredores.

Logicamente ela estava falando do tal Anjo. No entanto, muito ainda era necessário esclarecer. A origem dessa criatura atiçava minha curiosidade, apesar de querer me livrar desse tormento. A mulher continuou a esbravejar palavras que não faziam justiça ao que precisava ser entendido.

- Ele trará a morte à esta vila! Salve-se, por favor. Você é jovem, bonita, deve ter uma família que te ama! Não merece ser sacrificada por um monstro como esse.

- Senhora, por favor. Peço que se acalme e me deixe falar.

A mulher enxugou as lágrimas com seu cachecol e controlou seu abalo. Finalmente pude dizer algo.

- Acontece que é a partir desse vilarejo que devo seguir até à minha casa. Sei do que está falando, eu também estou com medo. Mas ouvi dizer que ele apenas mata pessoas que entram na floresta.

- Quem lhe disse essa mentira? - perguntou a mulher, me olhando como se eu fosse uma criminosa.

- Bem, uma menina que mora em uma cabana na floresta. Ela se chama Nina. Foi ela quem me guiou até essa trilha por onde vim.

- Por favor, em nome de Deus, fique longe dessa menina. Ela não é órfã por uma simples razão. - disse a mulher, segurando minha mãos, desesperada.

- C-como é que é!? Ela é órfã!? Ela havia voltado pra casa e me disse que os pais voltariam à noite. Não acredito que ela mentiu pra mim.

- É um truque que ela usa para enganar pessoas ingênuas como você. Usa de uma inocência falsa para atrair pessoas à ele. Esse vilarejo está tomado pelo mal. Se quer voltar para casa terá que ir por um outro caminho.

- Mas terei que voltar para a floresta, e sendo assim vou estar em perigo novamente.

- Presumo que ela tenha lhe dito que aquele que se perder na floresta morrerá nas mãos da criatura. Isso é verdade, lamento em dizer. Mas não é fato que ele mata apenas pessoas na floresta em um só dia. Todos aqui já entraram nela, voltaram e são perseguidos até hoje... e sentimos que nosso tempo está se esgotando, por isso estou tão nervosa, não quero deixar meus filhos sozinhos.

- Isso significa que... estou a mercê do Anjo da Morte mesmo que eu me mantenha longe da floresta.

Só bastou esta única e última frase para a mulher desmaiar rapidamente. Eu não tinha tempo para ajuda-la, então a larguei ali. Me preocupou a hipótese de ela estar morta, já que senti aquele vento gélido que prenunciava a chegada daquilo, sem contar a névoa. Todos naquela vila pareciam já estarem mortos. Eu seria a próxima a morrer. Cruzei o vilarejo inteiro, até que finalmente pude encontrar a casa.

Depois de muitos escorregões no chão da casa, verifiquei todos os cômodos. Não havia ninguém. O desespero só aumentou quando pus minhas mãos na cabeça e já chorando. Quem estava com a razão, afinal? Não sabia mais em quem confiar. O sonho do inverno perfeito se tornou um pesadelo constante. Aquela controvérsia toda quase me enlouquecia.

Agi por impulso saindo com o carro da minha mãe para procurar a família. A estrada repleta de neve dificultou o trajeto, mas não me importei com os obstáculos. De qualquer modo, eu tinha que salva-los. Dirigindo nervosamente, com pupilas congeladas de medo e horror, segui com aquele carro em alta velocidade. Alguns minutos passaram e acabei lembrando de algo muito importante. Se tratava de uma pasta com alguns papéis que roubei da cabana, antes de sair com a menina. Como eu não estava 100% confiante sobre ela, reparei na estante que havia lá e encontrei. Freei o carro abruptamente só para visualizar detalhadamente aquela papelada.

Naqueles papéis constavam textos explicativos sobre a lenda do tal Anjo. Descobri coisas horrendas. A começar pelo fato de Nina ter matado os pais em uma espécie de ritual satânico, sendo que eles eram descendentes de um clã, cujo este era responsável por invocar a criatura. Logo, o ritual serviu como invocação, pois fazia parte da tradição. O filho pertencente ao clã era encarregado de matar os pais para manter a criatura vagando neste mundo. Mas os pais que me refiro são os biológicos de Nina. Os que moravam com ela na cabana eram adotivos.

Assim, Nina, se crescer, se se casar e ter um filho, será morta por ele dando continuidade ao ritual. Aquilo já era suficientemente convincente para fazer todas as pecinhas se encaixarem nos seus devidos lugares. Bati a cabeça no volante de tanta raiva, por me dar conta da minha ingenuidade. Segurei-o firme. Pensei que jamais veria minha família novamente.

Comecei a chorar... não tinha mais o que fazer, já me sentia morta por dentro, só faltava ser dilacerada pelas garras daquele monstro. As motivações para o choro só aumentaram quando uma força desconhecida empurrou o carro para trás. Tão forte que quebrou todos os vidros. Gritei o mais alto que pude. E pude gritar ainda mais alto quando uma mão negra com dedos enormes surgiu no extinto retrovisor. Como se não bastasse, senti aquele ventania fria novamente, seguido da aparição das asas negras daquele ser cobrindo as laterais do carro.

Apenas me senti na escuridão que parecia nunca ter fim. Tudo ficou escuro de repente. Fechei os olhos, rangi os dentes à medida que aquelas lágrimas de medo escorriam. Parecia meu iminente fim. Mas o que veio à seguir só me convenceu de que era apenas o começo... do fim.

Abri meus olhos. Me vi em pé, na sala da casa. Como assim? Voltei no tempo? Lembro de ter sentido meus músculos inertes por um bom tempo. Só depois desse período fui recuperando a mobilidade. O mais estranho foi quando percebi que estava segurando uma pena negra na mão esquerda. Olhei detalhadamente para ela. Era grande e de um aspecto tão assustador como surreal.

O telefone tocou, dando um susto daqueles em mim. Você, que está lendo, deve estar se perguntando porque ainda me encontro viva. A verdade é que não sei quanto tempo ainda me resta. A certeza é de que é bem pouco. Todas as noites tenho pesadelos com esse "Anjo". Ele me persegue. Neste mundo e no meu. O Anjo da Morte passa a persegui-lo se conseguir sair da floresta. Sua expectativa de vida diminui consideravelmente. Aquela pena... ainda guardo-a.

A voz do outro lado da linha era de meu tio. Outro fato importante a ser adicionado, e que encontrei naqueles papéis, é de que o Anjo se transforma em uma estátua como alternativa para descansar e repor sua energia maligna.

Após o que meu tio disse, larguei o telefone no chão. Caí de joelhos olhando para os flocos de neve caindo e cobrindo a janela.

- Alô...

- Mary!? É você?

- Sim, tio, sou eu. Onde estão todos?

- Nós fomos até um antiquário. Não vai acreditar no que compramos.

- Ah é!? E o que compraram dessa vez?

- Bem, não me parece muito sofisticado, mas acho que é bom para enfeitar uma parte da sala. É uma estátua de algo que parece ser um anjo ou sei lá o quê. É toda preta, mas achamos bela e compramos. Gostei das asas dele... me deu até arrepios. 

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