quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Deixe as crianças dormirem


Aconteceu na época em que eu e minha esposa sonhávamos em ter uma criança para alegrar nossas vidas. Nós tínhamos certa dificuldade em reprodução, tentamos várias vezes, até o dia em que descobrimos que nós dois somos estéreis. Ficamos completamente estarrecidos com a notícia. Afinal, aquele era nosso principal sonho de casal indo pelo ralo. Dias e mais dias passaram, e aquele abalo ainda não havia cessado. Bem, eu tinha que tomar uma atitude, e a mais sensata foi exatamente adotar uma criança. Afinal, muitos casais optam por isso quando percebem que não podem ter filhos, certo? Então, achei melhor irmos à um orfanato. Ela rapidamente concordou e finalmente pôs um sorriso naquele rosto, por dias, estaticamente triste.

Fomos ao orfanato em um bairro próximo, não era tão conhecido, logo pensei que haviam poucas disponíveis para adoção, mas eu me mantinha confiante. O local parecia completamente centenário. Mas ignorei certos detalhes. Chegando lá, fomos recebidos calorosamente por uma das freiras responsáveis pelas crianças. A alegria daquela mulher era contagiante, de certo modo, mas no fundo soava estranha. Ela nos conduziu até uma pequena sala onde ficavam algumas crianças. O interior do local não se diferenciava muito do exterior.

A maior parte delas havia parado suas atividades assim que notaram nossas presenças. Nos aproximamos um pouco, na clara intenção de nos entrosarmos com alguma delas. Um garoto, aparentando ter uns 7 anos, se aproximou de nós e permaneceu na nossa frente nos olhando. Ele não parecia muito afim de sair de lá, notei pela expressão séria dele à nós. Além disso, as crianças daquela sala não aparentavam ser sociáveis, o que logo de antemão me preocupou bastante. Minha esposa se agachou e tentou uma conversa.

- Oi. Posso saber o seu nome?

Ele não fez nada, além de continuar encarando minha esposa e sem dizer uma palavra sequer.

- Bem... parece-me que ele está um pouco tímido.

- Não se espante. Muitas crianças daqui agem como esse garoto. Mudas e indiferentes. - disse a freira.

- É, pelo que vejo estamos bem indecisos. - disse eu.

Uma outra freira, um pouco mais velha, havia entrado na sala naquele instante. Me pareceu ser a responsável geral das crianças e também a dona do orfanato. Ela seriamente fitou aquele garoto por uns segundos, mas logo voltou sua atenção à nós.

- Olá. Há tempos que não vejo pais tão entusiasmados assim. E então, já decidiram qual irão adotar?

- Bem, ainda estamos um pouco indecisos. Há muitas aqui de nosso interesse, mas só precisamos de uma. - disse eu, um pouco nervoso.

- Tudo bem. É bastante normal se sentir assim logo na primeira visita.

- Como assim primeira visita? - perguntou minha esposa.

- Presumo que queiram voltar algum dia para escolherem com mais calma. Me parecem bastante nervosos. - disse a freira.

- Ah sim... nós voltaremos sim, são crianças adoráveis à primeira vista. - falou eu, com um sorriso embaraçoso.

- Nós precisamos muito mesmo de um filho... somos estéreis. Fiquei deprimida durante várias semanas. Só queremos construir uma família, ao meu ver um filho completaria nossas vidas, muito mais do que riqueza e outras coisas fúteis. Ele está desempregado, e desde então passamos por todo tipo de problema que a senhora possa imaginar. - revelou minha esposa.

- Oh, desempregado!? Bem, se não for pedir muito, temos uma vaga para zelador aqui no orfanato, gostaria muito que o senhor trabalhasse aqui. - disse a freira, empolgada.

- Eu agradeço a proposta. Bem... vou aceitar. Acho que até será uma boa oportunidade de me entrosar com as crianças, talvez eu me decida rápido sobre uma.

- Ótimo. Pode começar hoje, se quiser. Esteja aqui as 15:30. - disse a freira, saindo da sala, sem nem ao menos me dar uma chance de dizer algo sobre o dia em que começaria.

Enfim, eu estava, de certa forma, feliz. Aquilo me proporcionaria uma experiência que me fizesse escolher minha real favorita. Ao sairmos de lá, percebi que muitas crianças estavam reunidas nos observando na sala principal. Eram várias, bem mais do que pensei que haviam. Mas a quantidade era o que menos importava naquele momento. Eu realmente estava empolgado em começar os serviços por lá.

No retorno para casa, minha esposa e eu conversamos no carro sobre como iremos decidir isso de modo menos apressado. Não sei... era estranho, eu havia me apegado àquele lugar rápido demais. Finalmente, após eu ajuda-la com algumas atividades do dia-dia, pude ver no relógio 15:30. Pisei fundo e acelerei em direção ao meu destino.

Ao chegar, fui novamente bem recebido pela mesma freira que nos conduziu até aquela sala. No salão principal haviam várias crianças correndo e brincando, juntamente com algumas outras freiras responsáveis. Não me senti muito à vontade, de início. Uma delas me ofereceu um casaco azul com o emblema do orfanato na parte de trás e logo pude começar o trabalho. Ao contrário do que eu esperava, não interagi eficientemente com muitas crianças, mas isto não me fez desistir.

Fiquei por cerca de 4 horas varrendo, tirando lixo, colocando o lixo para fora etc. O estranho foi que não me pediram para limpar os quartos no andar de cima, andar este que era exclusivamente para as crianças dormirem. Durante todo o tempo mencionado, elas (as freiras) sequer trocaram palavras comigo, dando a impressão de não ligarem para minha presença. Eu deixei pra lá, pois isso era desnecessário para se reclamar.

Bem, tudo virou de ponta à cabeça a partir das 20 horas. Não sei por onde começar... enfim, prefiro partir do ponto onde decidi subir ao andar onde ficavam os quartos. Além do mais, naquele horário eu já deveria ter ido embora. Subi lentamente por aquela escada de madeira, rangendo a cada passo que eu dava. Todas as luzes haviam sido apagadas, restando somente a da lua. Não demorou chegar ao corredor escuro. Na verdade, havia uma lâmpada no teto, mas claramente estava prestes a queimar.

Andei a passos lentos, encarando aquela escuridão que me cercava. A fraca luz no teto me ajudou a perceber algumas pinturas antigas nas duas paredes. O que deixava aquele momento mais tenebroso foram as retratações nos quadros. Cenas brutais de execuções e até desmembramentos. Fiquei pasmo vendo aquilo.

Meu coração quase saiu pela minha boca, quando a voz de uma freira ecoou por todo o corredor.

- O que pensa que está fazendo? - perguntou ela, segurando uma espécie de lampião.

- Eu... err... Me desculpe senhora, eu já deveria ter ido embora. É que subi aqui por curiosidade e não pude deixar de notar esses quadros...

Ela, então, decidiu se aproximar carregando aquela velharia. Ali pude ver sua face enrugada e assustadoramente séria. Ela possuía um olho cego, que, para uma boa percepção, parecia querer ficar totalmente negro. Sem saber como reagir àquilo, simplesmente segurei meu nervosismo.

- Não deveria estar aqui. Você deve ser aquele contratado para ser o novo zelador, certo?

- S-sim... Creio que minha presença nesse momento é completamente dispensável.

- Só agora que percebeu? Eu vou lhe dar um aviso: Não tente bisbilhotar os quartos. É melhor que deixe as crianças dormirem. - advertiu ela, aproximando seu rosto ao meu, me deixando ainda mais assustado.

- Tudo bem senhora... mas quero que saiba que não pensei em fazer isso. Se me permite, eu posso continuar observando essas pinturas? Eu adorei todas elas. - disse eu, dando uma boa desculpa a favor de minha curiosidade.

- Hum... está bem. Mas nem pense em tentar o que eu mandei não fazer. Caso contrário, irá se arrepender pelo resto de sua vida. - disse ela, muito enigmática.

Aproveitei a deixa assim que seus passos na escada se distanciaram o suficiente para eu investigar. Virei minha atenção para uma porta à minha frente, no lado direito do corredor. Girei a maçaneta devagar... a porta fez aquele barulho característico... e contemplei o horror em forma de uma criança. Uma menina parada em minha frente. Sua expressão completamente estática, olhos fundos, e uma pele cinzenta... sim, sua pele tinha uma cor cinza, quase beirando ao preto.

Não andei mais nenhum passo à frente a partir daquele instante. À medida que eu recuava, ela vinha em minha direção esticando seus braços e deixando escapar um líquido negro em sua boca. A luz da lâmpada começou a piscar sem parar. A cada falha de luz, mais crianças apresentando a mesma aparência se aproximavam de mim. Meu corpo ficou banhado em suor pelo desespero constante.

Todas elas, andando como zumbis... sem expressão e entoando um gemido que me arrepiava. Como única saída, já que estava cercado e sabe-se lá o que aqueles monstrinhos fariam comigo se me tocassem, abri uma porta acabando por adentrar num quarto. Quebrei o vidro da janela com uma cadeira e pulei. Caí no jardim, maltratando minhas costas com a queda. Logo pude avistar o portão.

Após pular aquele altíssimo portão, acelerei com meu carro rumo à minha casa para avisar à minha esposa do perigo que aquele lugar representava. Assim que cheguei lá, logo percebi a porta da frente entreaberta. Alguém havia entrado. Verifiquei todos os cômodos em uma rapidez nunca antes atingida por mim, e, sem perceber, eu já estava na sala novamente.

Eu nunca irei saber realmente a origem de todo aquele horror...

Minha esposa parecia ter saído, afinal lembrei que ela tinha um compromisso naquela noite. Só faltava apenas um quarto... o que era exclusivo para hóspedes.

Entrei lá... e havia alguém deitado na cama. Me aproximei sorrateiramente... sem fazer um ruído sequer. Eu deduzi ser uma criança, pelo tamanho do corpo que estava profundamente adormecido.

Próximo à cabeceira da cama, se encontrava um bilhete. Nele dizia: "Me deixe dormir!"

Bem, apesar de ainda não saber absolutamente nada sobre o que houve de macabro naquele orfanato, eu tive a sorte de descobrir, dois dias depois, após ter fugido de casa e ido passar uns dias na casa de minha mãe, através de um antigo conhecido meu que já visitou-o, que aquele orfanato está fechado há décadas... e que muitos pais que o visitaram anteriormente tiveram sérias consequências ao adotarem, sem querer, uma das crianças de lá... 

Desde então, nunca mais vi minha esposa... 

Se um dia for lá, jamais cometa este erro... jamais as perturbe! 

5 comentários:

  1. Gostei, apesar de não ser o gênero de meu agrado. No entanto o enredo é um tanto trivial se fosse maior nao prenderia minha atenção.
    Bjs Luh querido!

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    1. Obrigado pelo reconhecimento Emi, fico feliz que tenha gostado.
      Seja sempre bem-vinda :)

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  2. Bem legal, misterioso esse é o tipo de conto que eu gostaria que ficasse maior pra desvendar todos os mistérios

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