Contos do Corvo #32


Como de costume, o corvo repousava sobre uma lápide aleatória naquela noite enevoada e nebulosa. Sentindo a brisa de 20º C transpassar por suas penas negras como as trevas. Por bastante tempo acreditou que seria apenas mais uma noite de solidão onde suas reflexões de vida e morte preenchiam sua mente em sonhos vívidos até o amanhecer. No entanto, aquele dia mostrou-se especial de uma forma que lhe foi inesperada. Àquela altura não aguardava mais ninguém.

Um vulto humano se aproximava da lápide... era um homem meio truculento vestindo um sobretudo bege desfilando com postura nada desajeitada. Ele irrompeu pela névoa à poucos metros do corvo que rapidamente abrira seus olhos como se detectasse a presença de súbito.

- Não pensa que é fácil me pegar de surpresa vindo de fininho. - disse ele, virando o pescoço em 180º o que assustou o visitante de imediato fazendo-o recuar - Senti sua presença de longe, isso aí é fácil.

- Caramba, sei que você é sobrenatural, mas não esperava por essa. - disse Frank, atônito - Fez igualzinho a menina possuída do filme... Ahn, será que dá pra virar o corpo também? Isso é desconfortável.

- Sabia que ia se incomodar. - disse o corvo, virando-se totalmente - Posso estar calmo por fora, mas por dentro tô me contorcendo de surpresa. Você veio mesmo. Honestamente, não dava nada.

- O quê? Sério? - indagou Frank, por um momento ainda pouco à vontade - Duvidou da minha palavra? Agora sim sou eu que tô surpreso. Olha... - olhou para os lados - É que mesmo estando aqui nesse cemitério deserto, tenebroso e com cheiro de grama cagada... é super-estranho falar com uma ave que tem tudo a ver com o ambiente.

- Então essa é sua maior preocupação? Deixa de ser fresco, não tem ninguém aqui além de nós. Aliás, fico feliz de verdade que voou até aqui só pra me ver. Eu queria me sentir importante pra alguém.

- Err, bem, não exatamente vim pelo nosso encontro... - Frank coçou a cabeça, meio desconcertado - Não quero dizer que não seja importante, eu te devo uma, salvei sua vida, você salvou a minha...

- Ah como eu adoro uma encheção de linguiça.  ironizou o corvo - Um detetive verdadeiro não enrola. Desembucha logo. Qual outro compromisso importante atraiu você ao solo britânico?

Frank suspirou para reabastecer sua paciência.

- Acabei me metendo numa cilada com os vampiros britânicos e tive meu caminho novamente cruzando com uma bela mulher com PHD, doutorado e pós-doutorado em vampirismo.

- Hum, legal, um caçador que se apaixonou. - disse o corvo, deixando Frank altamente enrubescido.

- Coméquié? Você entendeu errado, Raveno.

- Elogiou a caça-vampiro. Um a zero pra mim.

- O que não significa que tenhamos um relacionamento mais íntimo. - retrucou Frank, arqueando as sobrancelhas ao se ver ganhando o duelo. - Quer desempatar?

- A velha desculpa dos só amigos né? Sei... - disse o corvo, nada convencido.

- É coleguismo, pronto. A gente vai mesmo ficar aqui discutindo sobre minha hipotética vida amorosa? Eu prefiro que você me conte uma das suas histórias.

- Já não era sem tempo.

- A propósito - disse Frank, novamente vasculhando à sua volta -, os seus amigos, você falou que tinha... Eles não vem hoje? Ou são imaginários?

- Óbvio que são reais, para de me amolar. - reclamou o corvo - Olha, o que vou dizer agora fica entre nós dois. OK? Vê se não espalha por aí. É sobre um deles.

- Por que eu espalharia um segredo a respeito de alguém que não conheço? - questionou Frank, estreitando o olhar desconfiado - Notei uns cogumelos que nasceram perto do portão, você deve ter saboreado alguns. É com a ajuda deles que se inspira para as histórias?

- Escuta, te alerta. Você é a pessoa mais segura com quem eu devo dividir essa informação.

- Agora sou eu quem tá de saco cheio de enrolação. Abre o bico. O que aconteceu?

- Eu matei o coveiro. - revelou o corvo, aflorando em Frank uma curiosidade tremenda - Não surta comigo, foi indiretamente. Fiquei tenso o tempo inteiro, mal sabia como me portar diante da garota...

- Espera, espera, espera aí. - disse Frank, erguendo de leve sua mão direita pedindo para parar - O coveiro é o velho mal-humorado que mencionou depois que vencemos o Anjo da Morte, certo? OK. E a menina é sua amiga que sempre ouve suas histórias. Ela gostava do coveiro?

- Geralmente ela apartava nossas brigas. Sempre foi neutra. Mas de certa forma ela se preocupava com o velhote. Nunca enxerguei pelo lado dela. Faz duas semanas. Tivemos uma discussão, debochei tanto dele que o irritei e o fiz sair e desistir até mesmo de estar por perto dela pois ela sempre ficaria disposta a ser uma ouvinte assídua. Eu gosto tanto daquela garota que aceitaria ser bichinho de estimação dela pelo resto da vida porque ninguém nunca demonstrou tanto interesse por mim e pelas minhas histórias, me vejo realizado. O velho morreu de infarto assim que terminei de contar uma história e senti o coração dele parar, cada batida diminuindo lentamente... Aproveitei para olhar o corpo quando ela foi embora. Estirado no chão, o velhote babava com a mão segurando forte o peito. Eu o matei, Frank. Fui longe demais, isso me fez refletir por dias e noites sobre o quanto agi como um babaca esse tempo todo com uma pessoa que reclamava mas nunca deixou de estar próxima. Eu queria dar um enterro digno ao meu primeiro amigo humano desde o pior incidente da minha vida.

- Isso foi... tocante. - disse Frank, entristecido - Olha... Se culpar por isso é inútil. Você não sabia. E vai saber se ele já não vinha sofrendo com ataques cardíacos, nem você e nem a garota tinha conhecimento da saúde dele, talvez ele nunca procurou um médico.

- Talvez ele nem tenha família, pois sou o único que soube da morte.

- E onde ele está? Não houve enterro digno, você deve ter escondido em algum lugar.

- Tem um poço seco na área mais precária desse cemitério. Canalizando toda a minha força no bico, o arrastei até lá... e joguei. Faço checagem todo dia. Pena que não sei onde se vende formol.

- Eu sinto muito. - disse Frank, sensibilizado - Se quiser ficar sozinho, eu atrapalhei sua meditação, tudo bem, posso ir, afinal vou ficar mais uns dias curtindo a terra da rainha.

- Não. - disse o corvo, sério - Fique. Você é caçador, nunca se sabe quando soar um alarme e você ir ao dever. Londres é tão infestada de monstros e outras bagaças sobrenaturais quanto a sua terra natal.

- Ah, eu não nasci em Danverous City, sou natural de Vanderville, cidade vizinha... que também não é lá o lugar mais seguro contra aberrações paranormais, tanto é que acabei com a raça de um... - ele mudara sua postura - Estamos perdendo tempo, quero ouvir uma história super-sinistra, a mais assustadora, de arrepiar até os pelos da bunda e mais sombria que você tiver.

- Eu interpretei corretamente? Tá pensando que invento minhas histórias num modo instantâneo? Guardo muitas lembranças de casos horripilantes que, arrisco dizer, nem você, perito diplomado, resolveria com facilidade. Duvida?

Frank mordeu os lábios por uns segundos, meio cético.

- Francamente, sim. E tá me deixando mais curioso pra que você vai contar agora.

- Espero que tenha vindo com algo que segure evacuações súbitas, tipo uma fralda.

- Hahahah, vai vendo, fica me zoando. Em anos de experiência, aprendi a rir da cara do perigo, não de todos, mas aprendi, então, meu amigo, a casca aqui é blindada, pode mandar sua melhor munição.

- Tá legal. Se ficar muito apavorante, pede que eu paro.

- Continua subestimando meu psicológico? Manda brasa. - aceitou Frank, na maior disposição.

- OK, prometo não tomar do seu tempo, vou ser breve. Reconhecida como uma lenda que transcendeu gerações, essa história rendeu muitas matérias jornalísticas, depoimentos, versões falsas, processos judiciais e todo tipo de furdúncio que um caso puramente sobrenatural é capaz de gerar.

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                                                                            A MULHER DE VÉU


Um casal de desconhecidos tinha uma lista comprida de planos para antes, durante e após o casamento e justamente escolheram ir numa loja de vestidos que passou por três fechamentos e tinha altas dívidas na folha de pagamento e com isso ninguém sabia como os proprietários mantinham o negócio. A moça que os atendeu os levava para distante de um certo vestido preto num manequim empoeirado e desgastado. Porém, a mulher, a então futura noiva do cara, sentiu-se estranhamente atraída pelo vestido, o que deixou seu namorado confuso, tanto ele quanto a atendente. Anormal uma mulher ver beleza num vestido de noiva com aquela cor nada sugestiva para um evento como esse.

Não estranhe eu não dar nomes, sou um detetive espião sem experiência de campo, nesse caso só observo pelas fissuras, se é que me entende. O homem perguntou à atendente como aquele vestido foi parar ali e a mesma se conteve para não falar demais, fazendo um joguinho para iludi-lo e fazê-lo ficar satisfeito logo. Do que sei até aí, é que a mulher comprou o vestido preto com véu e grinalda.

O lance aqui é uma maldição potencializada por um espírito vingativo... enclausurado dentro do vestido. Sabe aquela clássica superstição de que o noivo não pode em hipótese alguma ver a noiva vestida antes da cerimônia porque senão dá azar? Pois é... A mulher que tornou-se a entidade maquiavélica foi filha de uma condessa que anteriormente flagrou seu marido pulando a cerca, motivando-a a ir embora e criando sua pequena sozinha, abdicando dos seus privilégios. No dia do casamento de Enora Darlin, o único nome de que tenho conhecimento, ela é a coisa maldita, aconteceu o inesperado. Seu noivo a viu vestida enquanto se preparava para colocar o véu.

O que ela não sabia era o que vestido havia sido escolhido com muito carinho pela sua mãe. Só que no momento inconveniente as coisas se desenrolaram de um jeito amedrontador. Enora passou por uma metamorfose dolorida, não conseguiu tirar o vestido e gritava como se sentisse uma dor profunda até à sua alma. De repente, Enora não demonstrava sinais de humanidade na fala e na postura e ali mesmo, no seu quarto, o seu vestido tingiu-se de preto diante dos olhos do homem que seria seu marido. Seria... pois ele foi morto com hemorragia externa provocada pela força telecinética da nova Enora que se comportava se estivesse possessa de ódio por ter sido vista e ela caía na crendice popular, tão fomentada por sua mãe ao longo da sua infância.

A mãe, por sinal, tem ligação mais do que direta. A desilusão com o pai de Enora teve um impacto significativo na sua saúde emocional e psicológica, a fazendo recorrer a métodos obscuros como, por exemplo, a infalível magia negra. Mas afinal por que a ex-condessa prejudicaria a filha se a amava tanto e a apoiava no sonho de um casamento perfeito? Ao que se supunha, houve intercedência de uma outra entidade que aflorou o ódio e o rancor nela sem consciência do quão mal faria à sua filha. Na verdade, acredito que foi pura inveja pela filha ter achado o homem fiel e correto tão diferente do pai e a partir dessa epifania as coisas mudaram, mas a ex-condessa velava seu ciúme... então se apaixonou pelo seu não-futuro genro, um amor reprimido. Enora se suicidou quando, num minuto de controle sobre seu espírito e corpo, viu o cadáver do noivo encharcado inteiro de sangue num poça.

Disso em diante, o vestido passou épocas sendo usado, arruinando casamentos promissores e com tantos casos até chegou a ser analisado por especialistas do sobrenatural que publicaram uma nota especulando que o núcleo da maldição se centrava no véu que desencadeia a infecção possessora. Eles a nomearam de a Mulher de Véu, bem clichê mesmo.

O vestido seria confiscado pelo grupo, mas nunca suas alegações foram levadas a sério. Várias lojas foram processadas por manterem o vestido no catálogo e graças a pressão de terceiros ele foi sendo retirado de loja em loja... daí que chegou a do último caso registrado.

Um dos especialistas, aposentado, era o único que não enterrava essa história e enviou um e-mail para o homem alertando sobre sua esposa pedindo que queime o vestido imediatamente. Eles frequentavam um chat online mas nunca tinha trocados ideias e o especialista sabia quem ele era pelas fotos que ele postava e a notícia que saiu num fórum reservado à crédulos de lendas urbanas sobre um cara e sua companheira saindo de uma loja com um vestido negro.

Num dia, no exato dia do casamento, o cara respondeu a mensagem afirmando ser tarde demais e sendo bem rudo com o coroa ao dizer que não liga para o fato da esposa casar de preto, o importante era a felicidade prometida entre os dois. Nada aconteceu na cerimônia pois ele não cometeu o erro de vê-la antes da entrada à igreja. No entanto, o vestido era alugado e não comprado, como os usuários supuseram. Ou seja, foi devolvido ao antigo local e armazenado isoladamente dos outros para não criar polêmicas iguais as do passado com outras lojas.

Em suma, haverá sempre uma nova Mulher de Véu para destruir o próprio futuro como preço por matar seu marido pelo erro imperdoável.


*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. Cena do filme Sobrenatural (2010). 

*Imagem retirada de: https://terrornosofa.wordpress.com/2013/06/20/sobrenatural-2010-estaria-uma-nova-franquia-classica-a-caminho/

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