Capuz Vermelho #49: "Chegou o inverno... e com ele o Yeti!"


"E enfim surge a época onde o coração torna-se mais frio ao remoer velhas lembranças ruins que lamentavelmente conseguem ofuscar algumas boas. Ao menos, só algumas. 

                                                                                Trecho do diário de Rosie Campbell - Pág 16.
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Londres - 23h10

Aquela instalação de segurança máxima era, naquela noite, guardada por dois vigias armados com escopetas de longos canos que eram remunerados por trabalharem somente no turno menos convidativo por aquelas bandas. O local resumia-se num pedaço de espaço aberto "ilhado" por um amplo oceano de árvores cobertas de neve.

Outros vigias ficavam nas torres observando por meio de binóculos mas ajudados também por grandes lanternas que emitiam largos fachos móveis para detectar invasores ou fugitivos do complexo que tinha aparência de um presídio do que de organização atrelada à ciência. Um grito apavorado e agudo fora escutado por um dos guardas que ouriçou-se, correndo e destravando a arma. Vinha dos portões alternativos, restritos à funcionários importantes.

- O que é que foi isso? - perguntou ele, achando o colega - Achei que era você... sendo mastigado por um urso pardo. Estou só há dois dias aqui, cumprindo as regras: não falar, não ouvir e nem perguntar. Me focando no mundo exterior por 100 mil euros. Pior do que ser traumatizado com um parceiro de trabalho morto na sua frente, é morrer sozinho.

- Fica tranquilo. - disse o outro, carregando a escopeta - Deve estar zanzando na floresta. As luzes ficaram mais rápidas, vamos cooperar com o resto. Nos separando. Vou por aqui. - disse ele, correndo na direção oposta.

- Tomara que seja um urso. - correra para o outro lado. Cerca de pouco menos de cinco minutos, começou a ver com sua lanterna pequenos rastros de sangue serpenteando na neve até irem aumentando... e quando o vermelho ficou mais visível haviam pegadas do tamanho de um extintor de incêndio. - Meu deus... Era o que eu temia... - ao recuar pálido, acabou topando com algo peludo e de respiração pesada. Se virou e um lobo humanoide das neves, para o qual não ousou apontar a luz da lanterna, aparentemente de quase dois metros, rosnou selvagemente em seguida rugindo como uma fera insaciada.

O outro guarda ouvira o som seguido do grito e apontou a lanterna na direção em que ele fora, logo correndo, temendo o pior. Para seu desespero, encontrou seu amigo... separadamente. Uma perna decepada que tingia a neve de vermelho quente. Antes que gritasse, fora pego pelas duas pernas e arrastado à escuridão, deixando marcas de arranhões na neve. A lanterna rolou acesa pelo solo e a neve recebera múltiplos respingos de sangue.

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CAPÍTULO 49: CHEGOU O INVERNO... E COM ELE O YETI! 

Antiga residência de Ethan Nevill


Um antigo caso fora desenterrado sob o aval do exército Britânico a respeito do renomado advogado Ethan Nevill e as investigações inconclusas na casa onde aconteceu um incidente de caráter obscuro.

As evidências na época não justificavam Ethan e seu filho mudarem-se tão repentinamente. A ordem de reabertura partiu do General Holt após informações sobre estruturas misteriosas serem oficializadas como postos de pesquisa científica irem ao seu conhecimento. A razão pelo DECASO investigar a residência se dava pelo fato de Nevill ser o contratante e empresário por trás do financiamento das instalações e ele nunca ter retornado à Inglaterra levantou suspeitas.

Derek estudava a casa enquanto seus homens vasculhavam tudo. Fora até a sala onde ocorreu um ritual místico que libertou uma fera do Tártaro. A marca de queimado do pentagrama ainda estava no chão. Agachou-se, tocando-a. Depois olhou para as rachaduras salientes na parede. A janela continuava quebrada e a moldura de madeira também destruída. "Uma invocação demoníaca".

Um dos membros DECASO viera até ele com uma caixa de madeira.

- O que temos aí? - perguntou Derek, curioso. - Fotos de família e desenhos infantis? - perguntou, franzindo o cenho.

O rapaz removeu o fundo falso.

- Parece que Nevill queria tirar umas férias e se antecipou pro inverno de 1938. - disse ele, retirando alguns papéis - O fundo foi tirado tantas vezes que não encaixava mais do mesmo jeito, estava torto. A chave era guardada debaixo de um travesseiro. Veja...

Derek lia alguns dos papéis que eram anotações do próprio Nevill.

- Isto são notas escritas a mão. - mostrara outro papel - Já isto... é um certificado de autorização da universidade de Londres cuja data se aproxima do dia em que esse lugar foi investigado na primeira vez. Robert Loub trabalhava nesta universidade.. Um projeto científico no Ártico... Loub foi preso sob acusação de uso criminoso da ciência e sequestro de professores. Nevill não tirou férias.

- Então o que explica essa ligação?

- Nevill e Loub, até onde sabemos, tinham uma relação oculta. Loub desapareceu da delegacia quando houve aquela invasão de licantropos há 3 anos...

- Sinto as peças se encaixando. Não há sensação melhor. - disse o rapaz, sorrindo fechado. - Uma vez eu li um compilado de policiais que relataram como testemunhas, apenas um deles teve coragem de citar uma criatura com mais de 1,80, parecendo um lobisomem mais robusto e forte que os demais.

Derek passou um instante pensativo.

- Certamente há alguém que conhecemos que se encaixa nesta descrição... Mollock. Soube como informação preliminar que ele é resultado de uma fusão entre um demônio e uma criatura mundana. Nevill pode ter escapado após o ritual para fugir ao Ártico e executar planos que Loub não conseguiria já que sua ficha suja não demoraria a ser descoberta, então confiou a Nevill a missão de prosseguir seus experimentos em outro local.

- Ótima teoria.

- Encaro como uma aparente verdade prestes a ser total verdade - disse Derek, saindo. - Isso é um trabalho para nossos dois melhores agentes. Depois terei uma conversinha com Mollock para apurar mais informações. Continuem o pente fino e liguem pro departamento se tiverem algo a acrescentar.

- Sim, senhor. - respondeu o membro DECASO, fechando a caixa.

                                                                                           ***

Área florestal de Raizenbool 

Em frente ao Casarão, Rosie e Hector aproveitavam às suas maneiras a estação menos esperada por aquelas bandas. O caçador colhia frutas de uma árvore com uma vara meio curva, sem se importar com a neve que caía nos olhos toda vez que balançava uns galhos.

- Sua licantropia não é muito útil no inverno? - perguntou Rosie, com roupas especiais contra o frio, fazendo uma bola de neve - Ahn, acho que me expressei mal.. Eu quis dizer... Por que simplesmente não sobe e pega uma por uma?

- Esta árvore não é muito alta. - respondeu Hector, derrubando três. Largara a vara e transformou-se logo usando a supervelocidade para pega-las antes que caíssem. Colocara-as numa cesta - Além do mais, é uma quase hobby praticar minha velocidade. E isso não é um convite para uma corrida.

- Ah, que pena. - lamentou Rosie, de brincadeira. Olhou para sua bola de neve - Mas sei de algo que pode nos tirar dessa chatice pela limitação de treino...

- E o que seri... - Hector não completou a frase ao se virar pois foi atingido pela bolinha bem no rosto.

Rosie correra até ele, preocupada.

- Nossa, machucou? Ai caramba, juro que não mirei na sua cara. - tentou examinar o rosto dele, mas o caçador aproveitou a deixa pegando um pouco de neve e jogando no rosto da jovem que segurou com uma mão pela manga do casaco dele fazendo ambos caírem no solo encobrido pela neve.

Hector logo enrubesceu ao se ver por cima dela.

- Garanto que isso foi... uma vingança brincalhona. - disse ele.

- Nenhum hematoma, não sou culpada. - disse Rosie, ainda caída sob ele - Essa queda ajudou a analisar. Eu tô bem, mas nós... - o caçador também queria falar algo, mas não saía.

Derek chegara de surpresa. Seu carro preto estacionara próximo dali.

- Desculpem minha intromissão, não sabia que estavam num momento íntimo...

- O quê?! - ambos disseram quase em uníssono, levantando-se rapidamente.

- Não estavam? - perguntou Derek, meio desconcertado.

- Claro que não! - disse Rosie, o cenho franzido, limpando sua calça. Olhou para Hector. - Era apenas... uma brincadeira. Basicamente um acidente.

Hector assentiu, meio constrangido.

- Guerra de bolinhas de neve.

- Exato. - confirmou ela. - É normal se render sem culpa à essas criancices de inverno. - deu de ombros, sorrindo.

- Entendo... - disse Derek, estreitando os olhos - Bem, sinto informa-los, mas a diversão acabou. O Exército decretou reabertura do caso de Ethan Nevill e sua mansão que ninguém ousa entrar. Encontramos documentos e anotações que constavam partes de um projeto realizado no Polo Norte. Devem lembrar da noite em que um ritual libertou...

- A metade demoníaca de Mollock. - disse Hector, sério - Dwayne, o filho de Ethan, o invocou com uma cópia do Goétia que permaneceu em posse dele até sua morte. Não sabemos onde o livro foi armazenado, muito menos se continua intacto.

- Sim, verdade, bem lembrado. Nem reparamos que ele morreu nas Ruínas Cinzas no tiroteio. - disse Rosie. - Michael simplesmente virou as costas pra ele.

- Por acaso sabem que espécie de relação Nevill, o pai, tinha com... Robert Loub? - perguntou Derek.

- Eram colegas... de seita. - disse Hector - Os Red Wolfs. É uma história longa...

- Tudo bem, me contento. Não me surpreende vindo de dois homens com ações hediondas. Ainda hoje interrogarei Mollock e me aprofundar nesse caso. Vocês, por outro lado, irão investigar a filial em Londres da instalação principal do Ártico. Nevill e Loub poderiam ter feito um pacto.

- Que tipo de pacto? - perguntou Rosie.

- Do tipo "Pode copiar, só não faça igual". - disse Derek. - Em outras palavras, o projeto de Nevill não passa de uma extensão do trabalho de Loub. Uma garantia caso o amigo cientista saísse algemado no fim da história. O ponto-chave do meu interrogatório com Mollock será o desaparecimento de Loub da delegacia em plena invasão de lobos...

- Quimeras. - disse Hector, prontamente - Resultados das experiências de Loub, depois controlados por Mollock. Você quer saber da relação entre Mollock e Loub nessa história, eu apoio. Mas tome cuidado se precisar chegar perto demais.

- Eu sei, Sr. Crannon. De demônios eu entendo e sei lidar com naturalidade. Presumo que a razão das mortes nos arredores da filial seja devido à soltura de experimentos ou de um só por algum funcionário traidor que espera atrair presas fáceis para jogar sadicamente. As pegadas no locais dos corpos comprovam. Sabem o que isso significa? Que vocês tem um abominável homem das neves para caçar.

- Quantas mortes ao todo? Você avisa só agora. - reclamou Rosie.

- Muita informação, Sra. Campbell. Olha, eu esperava que nos entrosássemos melhor, logo você a condecorada líder da Legião...

- Quantas mortes, Derek? - perguntou Hector, a seriedade gritando no rosto.

- Foram 3. Precisam agir rápido para que não ultrapasse esse número. Sugiro trajarem-se ao trabalho.

- Está 12 graus negativos. - ressaltou Hector - Estamos vestidos à ocasião.

- Francamente, por mim tudo bem. - disse Rosie, flexível. - Não saio pra uma missão sem meu manto.

- Pra você é bastante fácil já que possui um aquecedor portátil. - disse Hector, sorrindo torto, referenciando sutilmente o brasão de Yuga.

- Campbell tem um aquecedor portátil? - indagou Derek, confuso.

Rosie pisara no pé esquerdo de Hector como repreensão, depois sorriu forçadamente.

- Nada, não é nada. Ele só estava tentando ser engraçado. - disse ela, enquanto o caçador grunhia baixo pelo pisão. Ela se inclinou até ele com a boca entortada e falando baixinho - Não seja língua solta ou na próxima enfio uma estaca.

                                                                                    ***

Londres - Instalação filial 

Um dos pesquisadores-chefes era responsável por avaliar a qualificação dos voluntários nas vagas para bioquímicos, praticamente numa entrevista de emprego. Um homem chamado Erick Duval, de jaleco branco, óculos com lentes grossas, cabelo meio calvo e rosto que inspirava experiência de muito anos no complexo ramo. Lia os currículos - falsos - datilografados por Derek.

- Bem, digo que estou impressionado. Trabalharam por 5 anos no Instituto de Bioquímica Genética. Tempo recorde para um lugar tão árduo.

- Pois é. - disse Rosie, sorrindo, sentada ao lado de Hector - Os melhores anos das nossas vidas.

- Gostaríamos de saber se há um teste capacitário - disse Hector - antes de assumirmos nossos lugares. Particularmente, não vejo necessidade.

- Não precisamos ir tão rápido. - disse Duval. - Uma ideia melhor seria guia-los num passeio em alguns pontos do ambiente. O que acham? - perguntou, convidativo, as mãos entrelaçadas na mesa.

Após concordarem, Rosie e Hector estudavam o labirinto de corredores de paredes de concreto firme e resistente. Uma sala em especial chamou a atenção da jovem, mais pelas faixas amarelas de "Interditado" do que pelo nome dela. "EN4? Algo me diz que uma coisa estranha aconteceu aí e se tornou um caso abafado? Uma base científica trabalhando com quimeras... O risco de acidente é máximo. Deve haver outras salas como essa..."

- Então é verdade, Dr. Duval? - perguntou Hector - Temos um histórico cheio de sucessos mesmo tão jovens para esse... ofício tão especial. Não quero duvidar da metodologia...

- Estou de pleno acordo, Sr, Crannon. Banir as provas de conhecimento geral é uma boa saída, muitos como vocês podem acabar desencorajados ou subestimados se passarem por esse tipo de pressão. - dobrou a um corredor, entrando numa sala escura - Meu objetivo é garantir o bem-estar de contratados tão importantes, um dos pilares da organização... é o compromisso intensivo. - ligou um interruptor. - Entrem. A sala de pesquisa, é temporária. Não estranhem a escassez de material.

- A infraestrutura é razoável. - disse Hector, analisando. Rosie observava as mesas. - A propósito, o Sr. Nevill, chefe superior geral, foi um grande amigo do meu pai... que também foi amigo de Robert Loub. A ciência uniu três grandes homens. - a frase revirou seu estômago, mais por envolver Loub.

Duval afastava-se lentamente para sair.

- É mesmo? Que mundo pequeno.

- Hector, vem cá. - chamou Rosie - Existe uma sala lacrada perto daqui, não é como as outras. Se quisermos terminar logo, vamos ter que levar isso a um nível meio... drástico. - falou, sussurrante.

- O que você sugere?

- Nocautear ele e depois um de nós investiga a tal sala. De preferência, eu. Sinto... o perigo exalando por toda parte, uma sensação de insegurança total... - olhou em volta - Cadê o doutor?

Um blecaute os pegara desprevenidos. Duval sumira despercebidamente.

                                                                                                 ***

QG do exército Britânico

Mollock rosnou ao bater seu punho contra o vidro reforçado.

- Estou há meses sem me alimentar. Um cadáver humano subnutrido, um esquilo, qualquer coisa me seria suficiente por... 30 minutos, no máximo. Não consigo estimar um tempo preciso de saciedade pois meu cérebro não recebeu o benefício dado pelos nutrientes que meu corpo precisa. Isso é tortura indireta e a pior de todas. Sou seu animal cativo, mereço regalias básicas.

- Pare de reclamações falsas. - disse Derek, as mãos para trás -Você está bem condicionado física e mentalmente e continua tagarela como me avisaram. Posso mudar esse tratamento precário...

- Não quero parecer desesperado por inanição iminente. - disse Mollock, os braços cruzados.

- Tarde demais. Está em boa forma, mas sua carência grita vorazmente. Me disponho a resolver isso, independente se corre ou não um risco de falência.

- Vá direto ao ponto, seu saco de carne ambulante. Não tenho paciência para aguentar falatórios.

- Conhecia Robert Loub, certo?

O híbrido o olhou de lado com expressão séria, descruzando os braços.

- Me parece um sim. - disse Derek - Pois bem... Há alguma razão especial para você invadir a delegacia onde ele estava enquadrado na mesma noite de sua prisão?

- Ele era meu pai. - a declaração deixou Derek surpreso - Figurativamente. Minha outra metade, a primeira quimera licantrópica criada por ele, o tinha como dono. O libertei para que fôssemos uma família e reinássemos juntos colocando os humanos ajoelhados implorantes.

- Ele é mesmo responsável pelas criaturas que chacinaram os policiais... Interessante. Lembra da primeira vez que o viu... após a fusão com o demônio?

- Três semanas antes do eclipse.

- Tem razão. Houve um eclipse lunar naquela noite. O que mais sabe sobre Loub... digo, o seu pai? - perguntou, abrindo a porta de vidro com a chave-mestra e entrara na cela sem fechar. - Preciso que me conte tudo. Estou resolvendo um caso com Rosie e Hector.

- Hector?! Saiba que ele matou Loub. - disparou Mollock - A sangue frio. Sem misericórdia. Na minha frente.

Derek ficara boquiaberto com a informação.

- Necessito de mais... Mas pelo visto você não irá colaborar de bom grado até certo ponto, então, honestamente, vou apelar para uma pequena trapaça...

Nesta instante, Mollock o agarrara apertando os braços do líder do DECASO.

- Querendo trapacear, soldado? Logo eu, um trapaceiro melhor? - perguntou Mollock, suas pupilas estranhamente contraindo-se e dilatando - Me conte seus maiores segredos...

Derek relaxou seus músculos.

- O que deseja saber? - perguntou, o tom complacente.

                                                                                          ***

A energia retornara para o alívio da dupla que não estava entendendo absolutamente nada. A apreensão fervilhou em Hector numa sensação claustrofóbica.

- Dr. Duval se afastou de nós discretamente. - disse ele, indo à porta - Levando em conta que estamos num prédio onde várias quimeras são criadas e estudadas...

- Não tão rápido, Sr. Crannon. - disse uma conhecida voz soando num alto-falante dentro da sala. - A saída de vocês acontece somente quando eu ordenar. Fiquem onde estão e me escutem atentamente.

- Mas que palhaçada é essa? - perguntou Rosie, ríspida - Esse apagão foi só pra nos meter medo? Não precisa explicar muito, já matamos boa parte da charada. Ou será que o teste finalmente começou?

- De certa forma, é um teste. - respondeu Duval.

- Como soube que eu tentaria fugir da sala? - perguntou Hector - Até onde eu sei, a vigilância está em fase embrionária para inovação com câmeras de segurança. Eu vi os protótipos nos jornais. Um laboratório científico legalizado disporia de tecnologia ainda não exposta à massa. Onde você está?

- São bastante espertos, admiravelmente. Mas olhem pra vocês... Vestidos assim é óbvio que só um debiloide acreditaria que fossem estudantes de bioquímica do IBG.

- Responde a pergunta, Dr. Erick Dumal. - exigiu Rosie.

- Minha sala de controle permite acesso a alarmes e aos sistemas de segurança atuais, é onde eu poderia estar observando-os se o monitoramento vigilante chegasse legalmente às nossas mãos. Quero propor um joguinho de gatos e ratos. Melhor dizendo... cães e ratos. - deu uma risadinha - Descubram a verdade sobre o desaparecimento do Sr. Nevill e numa maneira de escapar em 30 minutos. Ou senão meus lobos árticos irão devora-los pedaço por pedaço. Entendido?

- Vai soltar seus cachorros pulguentos pra cima de nós!? Temos um histórico com monstros assim, fique sabendo. - disse Rosie, com firmeza. - E você falando nisso me diz que... é o responsável pelas mortes dos seus próprios empregados? Por que faria isso?

- São dois peixes grandes que morderam a isca muito fácil. - zombou Duval - O tempo conta a partir do sinal. Não bobeiem se encontrarem com a quimera nível 4.

- Quimera nível 4?! - disse Hector, perplexo - Estávamos certos o tempo todo. Uma extensão dos trabalhos de Loub numa base de atividade confidencial e ilegal de fachada enganosa. Não sairá impune, Duval. Isso eu garanto.

O sinal era um bipe agudo que os fez taparem os ouvidos.

- Começou. - disse Duval, desligando.

A dupla resolvera separar-se por corredores numa corrida contra o tempo desesperadora.

Combinaram de se reservarem em partes opostas. Rosie atraindo as quimeras para a briga e talvez achar uma saída primeiro. Hector ficando com a investigação na busca por informações e um mapa da base, algo que não vem sem um confronto com alguns lobos bípedes.

Rosie dobrara um corredor, deparando-se com duas delas, suas peludas caudas cinzentas balançando e as mandíbulas gotejando saliva. Sacara duas adagas e desferiu vários cortes nos corpos dela fazendo sangue espirrar no ar. Chutou uma contra parede enquanto cravava a adaga na garganta doutra.

A quimera chutada pulara sobre ela que lentamente, suportando o hálito frio e fétido, rasgara o torso da criatura deixando sangue manchar seu espartilho. A jogou para o lado, largou a lâmina suja e levantou-se, seguindo, mentalmente torcendo por Hector mais para que não fosse morto do que achasse verdades.

O caçador entrou numa sala, imprensando o braço de uma quimera que tentava agarra-lo. Pressionou com mais força, conseguindo enfim fecha-la. Revirara gavetas freneticamente. Até que um papel amarelado voou ao chão. Destoava dos outros que eram, majoritariamente, datilografados. Pegara-o, lendo rapidamente. "Uma carta escrita pelo próprio Dwayne... Ele sabia... que o pai nunca saiu do país e concordou em mentir para quem perguntasse da suposta viagem. Este lugar foi aberto recentemente, mas sua construção data de 13 de Outubro de 1938, antes da chegada de Abamanu. As datas de atividade...", pensou ele, lendo outros papéis e ignorando a carta. "As datas dos três anos ativos, elas variam em dias, mas não no mês... Dezembro. O laboratório funciona apenas no inverno."

- 22 minutos. - disse Duval - Como está indo, Sr. Crannon?

- Pra ser honesto... - disse Hector, sorrindo leve - Não foi tão árduo. Nevill nunca esteve fora do país, nem desaparecido. Até o filho dele sabia da farsa, ele confessa numa carta. Estou no escritório que a princípio seria de Nevill. Era isso que queria saber, Duval? - estranhou o silêncio do cientista - Duval?

Havia um chiado toda vez que ele usava o auto-falante. O ruído desapareceu, o que só indicava que...

- Ah não, miserável... - disse Hector, olhando para a porta, tendo que encarar as quimeras famintas que tentavam arromba-las. O caçador tentara encontrar um mapa depressa.

Duval, na sala de controle, aprontava uma maleta cinza cujo conteúdo olhou por vários segundos antes de baixar a tampa e fechar. Desligou as luzes e saíra.

Já Rosie derrubara uma quimera toda ensaguentada que agonizou sobre outras duas mortas. A jovem estava ofegando com fios de cabelo no rosto. Afastou-os e seguiu dobrando outro corredor pelo qual acessou uma sala com porta dupla. A fechou usando uma barra metálica grossa.

A sala tinha certa sofisticação. Rosie levou o olhar para uma jaula com grades retorcidas. Foram abertas de dentro para fora. Havia uma passagem escura com uma cortina transparente à esquerda.

Revirando as estantes, ela derrubou um gravador com inúmeras fitas de rolo. Torceu para ainda funcionar, ligando-o após pôr um arquivo. "É muita sorte ou Duval facilitou pra gente? O estranho é que ele disse quantos minutos restam uma vez e depois não falou mais..."

O arquivo rodava, iniciando a gravação.

- Projeto EN4. Cobaia 86. - a voz de Duval a fez arrepiar-se - Dia 01. Eu... gostaria de fazer um pequeno discurso de despedida, senhor. Sei que em nada vou ser capaz de fazê-lo voltar atrás, não agora após tantos fracassos vergonhosos. Eu realmente não esperava que as coisas chegassem à esse extremo... Desculpe, Sr. Nevill, eu me demito... não posso fazer essa atrocidade... 

Rosie escutava com expressão de espanto. Ouvia-se a voz de Ethan repreendendo seu assistente.

- Mas o senhor não é como eles! Eram ferramentas de estudo descartáveis. Humanidade é de um significado subjetivo demais e isto não vem ao caso neste momento. Por favor, não me obrigue mais, por favor, podemos recolher novas cobaias nos próximos meses... - Nevill retrucava em gritos abafados - Está bem. Se assim é a vontade do senhor... Respeitarei sua pressa. Acomode-se. Isso doerá muito mais em mim. - fez uma pausa - Experimento nível 4 pronto para fase primária. 

- Não pode ser... - disse Rosie, estarrecida. Sentira uma presença espreitando por trás.

Não teve como não virar-se. Engolindo a saliva, ela encarara a quimera nível 4 rosnando à sua frente e com as garras ameaçantes. O grande lobo bípede peludo rugira furiosamente.

Na sala onde Hector estava, o caçador passava o dedo pelo diagrama, memorizando cada passagem que levaria à garagem do complexo. "Ótimo. Agora preciso apenas...", pensou, olhando a porta que ameaçava ser aberta com brutalidade. E foi o que aconteceu sem demora.

Três quimeras adentraram rugindo, prontas para um ataque simultâneo. Hector transformara-se e saíra da sala em supervelocidade sem precisar sujar suas mãos, mas derrubara uma delas ao chão. As outras duas correram para fora, mas o alcance era inútil.

Na garagem, Duval tremia de nervosismo, quase não girando a chave para ligar seu carro. A maleta encontrava-se no banco do carona como um tesouro. O médico dera um sorriso maquiavélico ao assistir a porta da garagem abrir-se subindo. "Sr. Nevill pode ter se tornado uma simples lembrança, mas seu legado... a confiança, a meticulosidade, todos os valores serão preservados."

Saíra em alta velocidade para o exterior invernal. A porta fecharia em poucos segundos. Hector chegara a garagem, chutando uma das portas de acesso e deparou-se com a porta descendo.

Superveloz, ele passara deslizando no chão faltando poucos metros e depois avistara o carro de Duval distanciar-se na neblina fraca. Olhou em volta e sua salvação era um carro aleatório estacionado. Já roubara um carro antes em circunstâncias urgentes, não seria ruim fazer novamente naquela situação. Entrara rápido no veículo, ligando-o e pisando fundo no acelerador. "Prometi a mim que não o deixaria escapar". Conseguiu alcança-lo numa boa distância em menos de 5 minutos.

Ao perceber, Duval grunhiu raivoso, sacando um revólver e girando volante para o carro virar, possibilitando que atirasse em Hector. Uma das balas estilhaçou o para-brisa do carro que Hector usava. A direção se perdeu, deixando marcas de derrapagem no asfalto. Outro disparo atingiu um dos pneus dianteiros, fazendo o caçador perder o controle. Não deu tempo para Duval virar o carro no sentido normal, acabando por ser batido pelo outro numa colisão que danificou a lataria da frente.

Hector saiu armado do carro que fumaçava, apontando para Duval que reorientava-se.

- Acabou, Duval. Aconselho a largar a arma e responder minhas perguntas.

- Está errado! - vociferou ele, socando o volante - Tudo errado! - virou o rosto colérico para Hector - Como conseguiu escapar tão rapidamente?

- Tenho meus truques. - reparou na maleta - O que é aquilo? O que tem dentro? - abrira a porta, pegando-o pela gola do jaleco.

- Tá bem, você me encurralou. Parabéns, jovem prodígio. Fiz voto de sigilo... pelo Sr. Nevill e vou cumpri-lo até o fim. Mas não inclui dizer a verdade sob a mira de uma arma. Eu fui o único a saber de sua morte. Ele me compeliu a mata-lo... cansado de tantas falhas, decidiu sacrificar sua humanidade para ver se o sucesso do projeto aconteceria graças à ele. Ninguém jamais chegou tão longe. - a declaração surpreendeu Hector.

- Isso é insano. Nevill... usou a si mesmo para progredir o experimento. Ele é a quimera nível 4...

- Todo o material preliminar foi recolhido na antiga localização secreta de Loub, o que a polícia não conseguiu levar após prende-lo. - disse Duval - Ele mesmo confidenciou o endereço ao meu honrado chefe. Devo tudo à ele. Me deu um emprego, uma importância e um propósito. Eu sou grato...

- Fale sobre aquela maleta - exigiu Hector.

- É o antídoto... que criei em segredo caso o experimento se descontrolasse.

- Se foi um experimento tão perfeito, ele não poderia matar seguranças. Nevill se sacrificou em vão.

- Eu não teria tanta certeza.

- Por que? Afinal por que está fugindo com o antídoto se deveria aplica-lo?

- O lugar no Polo Norte... ele é factual. - revelou Duval, suspirando - Há mais duas experiências em desenvolvimento, precisam da minha invenção para conte-las se necessário. Uma vez fora de controle, a cura é vetada. Mas meu mentor não fez sacrifício em vão.

- Me dê o antídoto. Vou eu mesmo faze-lo voltar ao normal. Tem tanta devoção por Nevill... posso fazer esse favor, todos sairão ganhando.

- Não. Vocês perderam. A garota encapuzada... ela quem deveria estar no seu lugar agora. - deu um sorriso cínico - Se eu fosse estaria salvando a donzela. - mostrou um detonador por baixo da manga do jaleco - Atire em mim e tudo vai para os ares. Está ligado aos meus batimentos cardíacos. Se parar, todas as bombas explodem. O que está esperando?

- Desgraçado... - disse Hector, guardando a arma e andando na direção que veio. Transformou-se e saiu em supervelocidade à caminho de Rosie.

A jovem passava perrengues para lidar com um monstro metros mais alto. Jogara uma cadeira contra a quimera que resistiu ao golpe. A gravação continuava.

- Olha aqui, seu Pé-Grande... - disse ela, recuando, na defensiva - Não me força a recorrer a um jeito menos honesto de vencer essa briga. E sou uma idiota por estar tentando dialogar com um abominável lobisomem das neves.

A quimera correra até ela, tentando acerta-la com suas garras, mas Rosie abaixara-se e pegara uma bandeja metálica, golpeando-a no rosto três vezes e uma no queixo, derrubando contra a mesa e espalhando os objetos por todos os lados. Um cilindro com fios coloridos rolou aos pés dela. Tinha um contador marcando 00:00:90.

- O quê?! U-uma bomba?! - não sabia se olhava para a bomba ou a quimera se reerguendo mais furiosa - Merda... - falou, trincando os dentes.

A porta fora destruída por Hector transformado que arremessara uma pontuda barra de ferro certeiramente contra o peito da quimera. A barra empalou-a, fazendo-a cair rugindo em dor.

00: 00:50. Rosie se aproximou do caçador, ambos saindo da sala. 00:00:38.

- Parece bem cansado. - disse ela, correndo.

- Vamos, venha. - disse Hector, parando - Segure firme.

00:00:21. Ela tocara-o. O caçador disparou superveloz pelos corredores até a saída que memorizou no mapa que perdeu muitos minutos procurando. 00:00:10.

Escaparam a tempo, por pouco. Caíram na neve, numa separação segura ao complexo. A explosão estralou retumbante de todas as partes, a fumaça e o fogo amontoados subindo imponentes.

- E este é o fim de Ethan Nevill - disse Hector, observando.

- Como conseguiu descobrir? - perguntou Rosie - Deve ter se guiado pelo som da gravação para me encontrar, mas para estra transformado precisaria de uma boa razão. Enfrentava quimeras?

- Não. - respondeu, levantando-se e ajudando-a - Duval sabia de tudo e me contou tudo. O persegui pela estrada depois de deduzir que ele tentaria fugir quando um de nós descobríssemos o segredo. Mas você é quem devia sair viva, de acordo com o plano. - olhou-a.

- Por que? - indagou ela, confusa - Não faz sentido. O que tenho de especial pra ele?

- Não sei. De qualquer forma, vamos nos concentrar em caçar... algumas quimeras que ele pode ter soltado por essa região.

- O melhor Natal que caçadores poderiam ter. - disse Rosie, virando as costas para o local ainda em destruição - Será que o Derek se deu bem no interrogatório com Mollock?

- Boa ideia, vamos ligar. Além do mais, ele adorará saber que teremos mais trabalho fechando as pontas soltas desse caso pelo resto desse mês. - disse Hector, acompanhando-a.

Seguindo pela estrada com o carro ainda funcionando, Duval olhara a maleta, resolvendo abrir-la.

Vermelho não é bem a cor de um antídoto propriamente dito.

Ele sorriu para as ampolas com sangue da quimera nível 4.

- Feliz Natal, agentes.

                                                                                           ***

Três semanas depois...

Aquelas vozes soavam-lhe incompreensíveis, sem sentido... mas pouco depois ganharam coerência...

Naquela sala semi-escura, algumas pessoas rodeavam um ser corpulento e branco.

- Vamos, acorde. É importante que você exista. O criamos para vivenciar uma dádiva. Agora desperte. Diga-me quem você é.

A criatura alva como a neve abrira os lupinos olhos amarelos arregalando-os.

- Eu... sou... Mollock!

                                                                                    CONTINUA...

*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

*Imagem retirada de: https://minilua.com/contos-minilua-neve-sangrenta-65/

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