Capuz Vermelho #50: "Siga forte antes do crepúsculo"


"Depois da terrível experiência no mundo sobrenatural numa parte prática por acaso no treinamento para auto-defesa, decidi o que não quero me tornar em hipótese alguma." 

                                                                   Trecho do primeiro diário de Rosie Campbell - Pág 22.

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Londres - 1738

As folhas secas arrastavam-se ao vento no chão de pedras retangulares banhado pela noite enluarada. Pisando em algumas delas numa corrida desesperada, um homem de estatura mediana vestindo uma pesada jaqueta de couro segurava uma caixa parecendo um médio baú.

Sua chegada à catedral ocorrera simultaneamente ao início das badaladas de um sino no alto da grande torre. O homem arfava mantendo-se a segurar a caixa direto a uma área vazia cuja entrada era aberta. Ele olhou em volta ao depositar a encomenda, enxugando o suor da testa do seu resto meio rechonchudo. Seu cabelo era curto e castanho com pontas destacadas para cima e na frente da testa.

- Espero não ter me atrasado. Trouxe o que me pediu. Livre estou agora, né? - o silêncio o incomodava - Ou vai ter que ser com menos educação? Vamos logo, a noite é uma criança para um vampiro de alta fibra como eu. - deu um sorrisinho - A menos que eu saía tranquilamente... deixando o presentinho bem aqui...

- Nem pensar. - disse a voz feminina de uma mulher loira, com cachos caindo em cascata nos ombros, que desnudava-se da escuridão. - Estão todas aí? - perguntou, olhando para a caixa.

- S-sim. - respondeu ele, observando o vestido branco que ela usava. - Os idiotas que querem palmas do supremo líder vão ficar de queixo caído...

- Pouco me importa a reação deles. - disse ela, aproximando-se - Obrigada, Alastor. Você me salvou. Ser filha de alguém importante tem suas vantagens.

- Então já posso ir?

- Por que a pressa? - indagou ela, assumindo seriedade. - Não vai ser gentil e abrir a caixa pra mim?

- Se confiasse em mim não pediria isso. - retrucou Alastor - Tessa, arrisquei muito por essas estacas. Ao menos, tenha compaixão pelo meu esforço. Foram oito malditas quadras até aqui!

- Deve pensar que é difícil puxar a sua ficha. - disse Tessa. - Abre a droga da caixa, Alastor. Quero ter certeza que não tentou comigo o mesmo truque que fez com outros. Não teve essa coragem, teve?

- Não exatamente nesta parte. - surgiu a voz de um homem com vestes da época num ar superior. Outros três vieram pro direções distintas. - Conte pra ela, meu caro informante.

- O que diabos é isso? - se perguntou Tessa, atordoada - O encontro era pra dois. Quem chamou os quatro penetras? Podem esquecer, eu levei a melhor.

- Se depender da utilidade que Alastor jurou solenemente a nós, eu creio que não. - disse o líder do clã inimigo que imaginava trazer a cabeça de Tessa ao alfa dos vampiros.

- Alastor, isso é verdade? Vai se arrepender dolorosamente! Só diga sim ou não.

O vampiro encolheu-se, rendido.

- Sim. Digamos que trabalhar com você é... desconfortável. Sinto muito.

 A vampira grunhiu raivosa, sacando uma estaca.

- Já vim precavida exatamente pra esse tipo de cenário. - disse ela, dando passos a fim de ataca-lo.

- Não tão rápido. - disse o líder com os demais vampiros cercando-a - Você é nosso prêmio, esqueceu? Sua cabeça pela nossa reputação. - ele exibira uma estaca saindo da manga da veste.

Um violento confronto de um contra quatro se processou. Alastor visualizou ali uma abertura para fazer com que os dois lados perdessem se digladiando. Pegara a caixa e correu na mesma direção em que viera, levando as estacas para si, não atendendo às regras de nenhum trato.

Ao fim da batalha, Tessa ganhara, descravando uma estaca do peito de um vampiro e andando à procura de Alastor com sangue nos olhos. Ao perceber que o mesmo realmente fugira, ela determinou aquilo que tornaria-se seu único objetivo dali em diante.

- Pagará por isso, seu desgraçado. Essa estaca ia ser pra você... mas na próxima não vou errar.

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CAPÍTULO 50: SIGA FORTE ANTES DO CREPÚSCULO

Área florestal de Raizenbool 


Era uma noite pré-véspera de Natal e no Casarão não haviam vestígios de algo que pudesse associar á data tradicional para que a normalidade fosse respirada após tantas bizarrices enfrentadas pela dupla de agentes prioritários do DECASO nos últimos meses.

Rosie, com agasalhos próprios à época, estava na janela observando flocos de neve caírem devagarinho numa expressão que misturava tédio e inconformidade. Fez uma carinha feliz no vidro embaçado que depois apagou.

Hector descia as escadas trajado com seu habitual sobretudo marrom de couro para uma última reunião no QG do Exército Britânico. O caçador usava um gorro preto e olhou para a jovem desconfiado.

- Que estranho, você parece... estar me esperando desde que voltei da loja de penhores. - falou, aproximando-se dela - O que houve? Isso não é uma cara de alguém com energia e disposição.

- Olha, vai sozinho, eu... - Rosie mordeu os lábios - Prefiro ficar sozinha pelo resto da noite. Bebendo aquele Vermute maravilhoso que o Lester enviou e ainda nem tive tempo de escrever uma carta agradecendo. - disse ela, fazendo-o rir - Mas vai, eu fico tranquila, só... - olhou rápido em volta.

- O quê? - indagou, tocando-a no  ombro - Vamos lá, fale abertamente comigo. Afinal... é pra que servem os amigos. Ouvirem e aconselhar nas horas árduas.

- Se conselho fosse bom, não se dava, vendia. - retrucou ela - É que essa época do ano me faz resgatar lembranças muito antigas e... pois é, sou uma saudosista emotiva, é isso, acabo deixando meu coração aberto e sensível demais. Tive que ver a neve pra não cair no choro e não ajudou muito.

Hector afagou o ombro dela, compreendendo.

- Além do mais - continuou ela -, é o meu primeiro Natal desde que minha vida virou um amaldiçoado inferno com monstros e tudo que pode desgraçar uma vida.

- Sua vida não é um inferno, tampouco amaldiçoada. - disse Hector, discordante - Veja onde e como estamos e porque chegamos até aqui como se não tivéssemos passado por todo um inferno juntos. Sobrevivemos com bravura e continuaremos assim, venha o que vier.

- A questão não é bem essa... Eu quero viver o presente. Mas essa época pede mais normalidade, se é que me entende. Tipo, colocar uns enfeites na janela, na escada, na fachada, coisas natalinas pra quebrar o gelo. Estamos em recesso e não serve para refletirmos sobre o próximo caso. E aí, você topa montar uma árvore comigo? A última vez que fiz isso foi um ano antes de ler a carta do meu pai.

- Olha, Rosie...

Batidas na porta interromperam bruscamente. Rosie correu para atender, esperando não ser Derek.

- Não acredito... - disse ela, abrindo e formando um sorriso.

A visita-surpresa era ninguém menos que Êmina sorrindo com carnudos lábios.

- Êmina. - disse Hector, feliz ao vê-la, enquanto ambas se abraçavam forte - O que a traz aqui tão tarde? Já estávamos de saída.

- Na verdade, ele estava. - corrigiu Rosie. - Hoje estou de bobeira.

- Hum, compromisso inadiável com a super-elite caçadora? Também quero ser arrastada. - disse a caçadora, entrando - Pois é gente, por hoje estou de passagem, visitinha casual, vim olhar como estão se comportando. - falou, arrancando risadinhas - Ué, cadê a decoração multicolorida?

- Ahn... - Rosie olhou para Hector neste instante - Bem, não tivemos muito tempo pra se organizar.

- Acabou ficando em décimo plano. - justificou Hector, sorrindo leve.

- Uau, que agenda apertada vocês devem ter, hein. - comentou Êmina, as mãos na cintura, logo em seguida batendo-as - É realmente uma pena um amigo sair e outro querer ficar sozinho quando tenho uma ideia bem interessante para passarmos um tempo juntos aproveitando esse clima.

- E o que seria? - perguntou Hector, curioso.

- Vai cancelar o encontro com os chefões? - questionou Êmina.

- Posso ligar pro QG e inventar uma desculpa. Peço relatório resumido. - sugeriu Rosie, fazendo Hector lançar um olhar repreensivo - Mas precisamos saber o que é antes, claro.

- Vocês dois gostam de se reunir perto da fogueira? - perguntou Êmina.

- Trouxe marshmallows, pelo menos? - quis saber Rosie.

- Conversa com fogueira e frio sem isso é descaracterizar o evento. - disse a caçadora - E você, Hector? Vem com a gente ou...

O caçador suspirou, ainda relutante.

- Prometo contar um caso entre mim e Rosie que mantivemos em segredo de todos. - disse Êmina, sabendo como instiga-lo - Dou-lhe uma... dou-lhe duas...

                                                                                        ***

- É melhor que não seja uma lenda inventada de última hora para preencher nosso tempo. - disse Hector, sentando num tronco de árvore diante de Rosie e Êmina sentadas noutro, cercando uma fogueira acesa que de cima era um pontinho laranja em meio ao breu - Sem ofensas, claro.

- Deixa, já deve saber que ele é estupidamente cético. - disse Rosie, provocando-o, assando um marshmallow na fogueira - Talvez porque nosso segredo durou mais.

- Achei que já tinham superado isso. - disse Êmina, estranhando.

- Ah, não leve a mal - disse Rosie, sorrindo -, é um costume quase diário a gente se sacanear por uma coisa que antes nos fazia sofrer. Uma forma de encararmos o passado sem melancolia.

- Concordo. - disse Hector - Menos com a parte da "gente se sacanear", considerando que não desenterro memórias ruins nem brincando.

- Não explicou o porque. - disse Êmina, zoando-o - Você sempre foi ruim de sarcasmo também.

- Dá pra começar logo?

A caçadora pigarreou, retirando as luvas e esfregando as mãos.

- Foi exatamente há 3 anos, quando treinei a Rosie para auto-defesa nos dois meses que passamos esperando a lua de sangue. Aconteceu de repente, mas no fim das contas acabou virando parte do aprendizado, até mesmo pra mim.

                                                                                    ***

Há 3 anos... 

Numa extensão longe da cabana na região montanhosa Kéup, Rosie e Êmina ajustavam seus movimentos em meio ao verde e cinza do espaço, sob um sol ardente. Especificamente, era Rosie quem trabalhava mais, lançando golpes que a caçadora defendia como exímia lutadora. 

- Uou, isso aí. - disse ela, esquivando-se de uns socos e defendendo-se doutros - Agilidade nota 8. Hereditariedade? 

- Segundo minha vó... - tentou acertar o rosto de Êmina mas ele defendeu - ... minha mãe era enfermeira de hospitais infantis e ela nunca disse que meu pai, um jornalista, encontrava tempo livre para dar uma surra num saco de areia. Então, acho que é inato. - dera uma joelhada na barriga dela, em seguida, girando e chutando-a no rosto com o pé esquerdo, derrubando-a. - E consegui.

- Acho que posso dar meio ponto. - disse Êmina, levantando-se. 

- Tem que acabar com esse negócio de pontuação. Medir meu desempenho em números não é muito justo. Minha opinião, claro. - disse Rosie, ajudando-a. - Só fazem duas semanas e tenho a sensação... de que você tá me superestimando pra fazer me sentir melhor. 

- Não, de jeito nenhum, você tá indo bem. De verdade. Palavra de legionária. - disse, dando um sorriso de canto - Só duas ressalvas: Precisa de mais auto-controle. Lutas corpo à corpo não são apenas golpes disparados como se sua adrenalina te desse vantagem, é preciso não deixar as emoções conduzirem seus movimentos. Quando o oponente ataca, você primeiro o lê, depois revida, mas sempre mantendo o pulso firme, sem que a raiva ou qualquer outra emoção tome conta. 

- OK. - disse Rosie, suspirando. 

- E a segunda ressalva... Tirando esse capuz ficaria mais rápida, eu sei que tem valor sentimental, mas... 

Um grito ecoou aos ouvidos, provindo de uma caverna próxima. Elas se entreolharam assustadas e correram. Não hesitaram ao entrar, deparando-se com um homem segurando uma mulher pelo pescoço. Êmina sacou uma espada média. Antes que ele virasse o rosto, a caçadora o decapitou prontamente. A cabeça rolou jorrando sangue até Rosie que expressou nojo e resolveu chuta-la para uma parte opaca com pedras amontoadas até um fundo. 

- Tá tudo bem. - disse Êmina, amparando a moça de cabelos loiros cacheados. No entanto, a mesma abrira os olhos, o que fez a caçadora recuar. Os olhos tinha esclera negra e íris vermelha. - Espera, vo-você... - olhou para o corpo do homem - Esse cara era um vampiro? 

- Se fosse humano, não teria mínima chance comigo, modéstia à parte. - disse ela, recompondo-se. Rosie aproximou-se, relutante. - Prazer, sou Tessa, eu... - a ponta da espada de Êmina apontada ao seu pescoço não deixou-a terminar. - Só quero conversar, já voltei ao normal. 

- Achava que era só um monstro qualquer atacando um inocente. - disse Êmina. - Vampiros não são inocentes. 

- Você disse vampiro? - indagou Rosie, impressionada - Era o que faltava. Acaba com ela e vamos voltar, era uma briga de monstros. 

- Briga de monstros, mas com uma razão. - disse Tessa - Estou sendo caçada pelos remanescentes do clã Montserrat, o que você matou me seguiu até aqui e felizmente levou vocês à mim. 

- O que temos de tão importante? - perguntou Êmina. - Salvamos você, não te devemos mais nada. 

- Eu preciso de ajuda. Especialmente de caçadores. Tenho um alvo nas costas e pus um em outro. Há séculos, um vampiro chamado Alastor forjou aliança comigo para roubar as últimas estacas da cidade que os Montserrat usariam para tentar me matar, conseguindo uma façanha que agradaria Lestat, o alfa dos vampiros. 

- Esse nome não é estranho. - disse Êmina. 

- Quem é esse tal de Lestat, afinal? - perguntou Rosie. 

- O primeiro sanguessuga maldito criado. - respondeu ela. - E que gerou outras linhagens. Agora quero saber: Por que está marcada para morrer? 

- Meu pai é um vampiro muito, muito influente. - declarou Tessa - Mas o odeio. Sabe qual é o prêmio pela minha gratidão se ajudarem? A chave do castelo dele. Vi o jeito como você matou, é uma profissional, reconheço facilmente. Alastor precisa morrer, ele me traiu... levou as estacas aproveitando a cilada que armaram, os Montserrat me atacaram e ele fugiu. Estive em busca de um caçador que fizesse por mim. Não se sintam reféns. Eu prometo ser boazinha. 

Existia uma outra cabana próximo ao ponto de treinamento, num estado inferior ao do "QG" da Legião, e para lá Êmina e Rosie a levaram. À noite ambas conversam do lado de fora. 

- Êmina, escuta, e se toda essa história de vampiros caçando outros não passar de historinha? 

- Vai me desculpar, Rosie, mas... Senti desespero na voz dela hoje cedo. E sei que está frustrada que isso interrompeu nosso treino. Mas veja pelo lado bom. Ela mostrou a chave pra mim, analisei e esse castelo obviamente existe. Vampiros não são confiáveis... mas ela me deu uma chance valiosa. Então, sim, quero achar esse tal Alastor e acabar com o pai dela, claro, com Adam, Lester e o Hector, temos dois meses à frente até encararmos os Red Wolfs e montar o talismã. 

- Eu confio em você. - disse Rosie, sincera - Em todo caso, fica de olho nela. Vou dormir na sala, por via das dúvidas. Se eu acordar com dois pontinhos no pescoço, sabe o que fazer. 

Êmina rira. 

- Ótimo. Não precisamos envolver os rapazes nisso, deixemos eles concentradinhos na missão geral. 

                                                                                         ***

Hector estava visivelmente atordoado com o que acabara de ouvir.

- Inacreditável. Êmina, entendo que o instinto falou mais alto na hora, mas a decisão inteligente seria recuar pois o foco era o treinamento e nada além disso poderia desviar a atenção, era essa a prioridade pelo que lembro.

- De fato, foi uma distração, saímos do planejamento. - disse Êmina, séria - Só que... a oportunidade para matar um vampiro de grande importância para a espécie, venerado por uma grande maioria, foi tentadora, não resisti. E depois do que aconteceu, me senti ainda mais culpada por essa ambição.

- Verdade. Perdi a conta das vezes que tentei consola-la dizendo que eu fui descuidada. Qualquer caçador entraria nessa sem pensar duas vezes. - disse Rosie. - Não previmos que o pior acontecesse.

- E o que aconteceu? - perguntou Hector, ávido por revelações.

Rosie deu prosseguimento:

- O pior primeiro passo para uma carreira de caçadora. Mas pouco antes disso...

                                                                                          ***

O trio caminhava por uma rua movimentada durante à noite seguinte numa área com grande número de estabelecimentos comerciais. Tessa assumia a frente do grupo, confortando-se com liderança. 

- Será que agora dá pra dizer qual lugar tão especial é esse? - perguntou Rosie, impaciente. 

- Faça quantas perguntas de suspeita quiser. - disse Tessa - Sei que não confiarão em mim até que eu mostre as provas concretas, também não vou implorar. 

- Chegamos no nosso limite de confiança pra você. - disse Êmina a esquerda de Rosie - Se dê por satisfeita. E responda a pergunta. 

- Podíamos parar para uma diversão. Vocês estão muito tensas. - disse Tessa, olhando para um bar. 

- Isso depende. - disse Rosie - Você se divertindo do seu jeito fará com que a gente se divirta do nosso que com certeza vai estragar sua diversão. 

Tessa apontou para o local. 

- Estão afim de uma bebida? 

Rosie e Êmina entreolharam-se sérias. Ambas concordaram, logo entrando no lotado recinto. 

Escolheram uma mesa reservada. 

- Desculpem a minha pressa. - disse Tessa, sentando-se - O tempo para acharmos Alastor nas proximidades é curto. À essa altura os comparsas dele já podem ter sido reportados. 

- Vampiros por acaso sentem a morte de outros? - perguntou Rosie. 

- Somos bons farejadores quando o assunto é cadáver. Não como formigas desesperadas, mas como abelhas vingativas. Pois bem, é o seguinte - se inclinou à elas - Precisamos ir ao local que representa a gênese de todo o vampirismo, não necessariamente localizando Alastor. Podemos atingi-lo de longe.

- Então diz logo que lugar é esse. - pediu Êmina.

- A árvore de carvalho-vermelho no alto de um morro numa fronteira com Londres. Foi lá que uma bruxa aplicou uma magia tão poderosa que tornou-a indestrutível, nem fogo pode queima-la. E das raízes salientes dela, os primeiros caça-vampiros forjaram as estacas. Porém, um buraco feito na árvore é uma brecha para que sangue humano puro a apodreça. A bruxa manteve segredo após criar os caminhantes do dia. Minha espécie. Com o sangue derramando dentro da árvore, os vampiros são vulnerabilizados, fracos contra armas comuns, menos com o carvalho-vermelho. Essa foi a medida de contingência da bruxa caso ameaçassem a comunidade de magia. 

- Uma de nós precisa fazer isso. - disse Êmina olhando para Rosie. 

- Ei, não pensem que é fácil. Há vampiros que fazem guarda lá 24 horas, não é a toa que existem vários esqueletos soterrados ou expostos e nenhum deles são de caçadores. Alastor é esperto, sabe que vou recorrer a medidas extremas e vai mandar comparsas, isso se já não estiverem lá. 

- Está tão obcecada em matar esse vampiro mesmo custando seu vampirismo? - perguntou Rosie. 

- A velha lógica: Se eu não posso ter, eles também não terão. 

Repentinamente, um homem aproximou-se das três sorrindo sacana. 

- Ora, ora, se não é mademoiselle Tessa. Haha... 

- Isso é você ou a bebida falando? - perguntou a vampira - A França tem bares mais requintados. 

- Acha que eu não sei. - disse o homem, assumindo tom sério, os olhos modificando para um preto e vermelho e as presas crescendo. Rosie e Êmina levantaram-se rápido das cadeiras, posicionando-se. 

- Uma ninhada inteira. - disse Êmina, observando cada vampiro presente se revelar, restando poucos humanos, todos eles mirando olhares famintos nelas. A caçadora sacou uma espada. 

De súbito, Tessa ergueu a mesa, jogando-a contra o vampiro, derrubando-o, logo sacando sua estaca e avançando ferozmente contra vários. Êmina também se juntara a luta. 

                                                                                               ***

- Como você reagiu a uma horda de vampiros ensandecidos? - perguntou Hector, abismado com o fato.

- Fiz dentro do meu limite, mas... - disse Rosie, fechando os olhos brevemente - Não foi o bastante. Já deve imaginar como isso acabou pra mim.

O caçador a fitou por uns segundos. Não tardou para compreender.

- Não, isso não aconteceu... - passou uma mão no rosto. - Rosie, você...

- Sim, eu fui. - interrompeu ela. - Sorte de iniciante.

                                                                                                ***

Rosie havia tentado escapar por um corredor a levar aos fundos. No entanto, tinha sido agarrada em guarda baixa por um vampiro que tascou as presas no pescoço. O mesmo limpava o sangue da boca olhando para sua vítima sentada e abalada, logo em seguida fugindo pelo corredor. 

- Espera... Não vou deixar que saia... - disse ela, reerguendo-se com dificuldade. Êmina entrou rapidamente, aliviada ao encontra-la. 

- Rosie. Ainda bem, achei que... - franziu o cenho ao notar a amiga ocultando a ferida - Isto é... - sua face empalideceu. - Não pode ser... 

A jovem mostrara os dois pontos na lateral do pescoço expressando tristeza. 

Na cabana, Tessa acariciava uma estaca diante de um vampiro que capturara para interrogar. O rapaz de colete xadrez e aparentando ter por volta dos 30 anos sorria cinicamente amarrado na cadeira. A vampira se virou ao ver Êmina chegando com uma debilitada Rosie. 

- Vocês demoraram, eu fiquei preocupada. 

- Ah, sei. - disse Êmina, rançosa, deixando Rosie no sofá. - Ter nos levado naquela espelunca foi ideia sua, então você se responsabiliza pela tragédia que aconteceu. - voltou-se para ela - Minha missão é treina-la para que se defenda dos perigos. E-eu... eu estraguei tudo...

Tessa assistia com certa sensibilidade o desespero da caçadora. 

- Realmente uma pena. Mas veja... Estamos perto. - apontou para o vampiro - O desgraçado aqui resolveu colaborar. - se virou para ele, agressiva - É verdade que Alastor preparou uma emboscada pra mim no morro da árvore? 

Rosie, mesmo com a visão turva, percebeu uma estaca no chão e pegara-a, logo lançando contra Tessa que pegou sem precisar virar. 

- Mirou no alvo errado. Ah sim, não pode mirar. 

- Vou acabar com você! - disse Rosie querendo ataca-la, mas segurada por Êmina. - É culpa sua! 

- Rosie, fica calma, você não tá bem. 

- Acho que precisarão repensar as prioridades. - disse o vampiro - Porque a árvore é a única cura existente. 

- O quê? - indagou Êmina. 

- Melhor você calar a boca. - ordenou Tessa, direcionando sua mão para um pano e usar como mordaça. Êmina segurou-a pelo antebraço. 

- Deixa ele falar. - disse a alquimista. - Senão eu e Rosie pulamos fora desse barco e o sangue do qual precisa pra enfraquecer Alastor não vai estar disponível, portanto acho bom ser sensata. 

- Verdade pura. - continuou o vampiro - A cura está na seiva do carvalho-vermelho. Sua amiga tem menos de 24 horas para tomar o antídoto. Vampiros na transição só podem se curar nesse tempo. Mas se esperam que eu facilite o jogo... 

- Ah, você vai sim. - disse Tessa, rigorosa ameaçando cravar a estaca - Servo do Alastor, né? Vamos. Suas últimas palavras. 

- Sim! Não faz ideia do quanto estão ansiosos pra te ver sangrar. Ele sonha alto. Quer ir até seu pai pessoalmente entregar seu cadáver e provar que é forte suficiente para mata-lo. 

- Alastor?! Matar meu pai?! - disse Tessa, não segurando uma gargalhada. Sua expressão alterou-se bruscamente e ela quase enfia a estaca no peito do prisioneiro. 

- Não! Espera! - gritou ele, aterrorizado - Posso leva-las até lá. Melhor do que irem sozinhas, levaria mais tempo. Faço tudo que quiserem. 

Tessa afastara a arma, fitando-o com desconfiança incisiva, o desejo de matar ainda pulsando. 

Rosie fora ao quarto verificar os sinais, olhando os dentes no espelho. "Minha vida acabou."

Sentiu como se a vida passasse diante dos olhos numa morte interna. mas essa visão foi quebrada pela de um monstro formando-se. O azul das íris deu lugar ao vermelho escarlate. O branco foi tingindo-se de preto. As presas cresciam na boca aberta. A expressão era de puro pavor. 

Rosie recuou do espelho, sentando-se devagar encostando na dianteira da cama até apertar os joelhos e baixar a cabeça. Transbordou um choro soluçante. 

Êmina escutara atrás da porta, cada soluço como uma lenta facada no coração. "Rosie, me perdoa."

                                                                                                ***


No limiar do pôr-do-sol, Rosie, Êmina, Tessa e o vampiro sob domínio de uma coleira mágica subiam o morro onde via-se a pomposa copa da árvore. A jovem encapuzada vislumbrou o horizonte com preocupação. 

- Vai ficar tudo bem, Rosie. - disse Êmina, confortando-a - Irei lutar para reaver sua humanidade. 

- Eu não contaria com isso. - disse o vampiro, surrado - Essa droga está apertando meu pescoço... 

- Caminhe como um bom cãozinho. - disse Tessa, segurando a corrente - Falta pouco. - olhou para trás na direção das duas - Se certificou de que ela não saiu da linha? A sede é incontrolável nesse estágio. Sinal de que ela resistiu bem. 

- Não quero sua piedade. - disparou Rosie - Lembre-se que estou nessa graças à você. Suspeitei de você por ter nos levado para aquele bar infestado, mas depois vi que não sabia. 

- Olha - disse Êmina -, não encontrei nenhuma carcaça de animal pequeno e Rosie passou a maior parte do dia na cabana, com medo de queimar no sol. 

- Ela não pode se alimentar na transição. - disse Tessa - Devia ter roubado mais uma dessas coleiras, assim teríamos menos problemas. 

- É claro, me considera um estorvo já que esse acidente estragou sua missão. - disse Rosie. 

Enfim, alcançaram o topo. O vampiro pusera o pé primeiro, mas segundos depois sofreu uma estranha reação que o fez tremer até cair de joelhos. Logo sua cabeça começou a inchar, esquentar e salientar as veias na face avermelhando-se. 

- O que tá havendo com ele? - perguntou Êmina, abismada.

- Alergia à magia. - disse Tessa, olhando para a árvore - A coleira reagiu à magia do carvalho-vermelho. É como um choque desproporcional, a magia mais fraca sofre colapso e atinge quem está subjugado à ela. Está morrendo. 

- E ainda sugeriu a coleira em mim. - disse Rosie. 

- Acha que eu sabia? - perguntou Tessa, ríspida. O vampiro caíra feito pedra no chão, os olhos abertos e revirados e a boca expelindo sangue com saliva. 

Alastor e seus três capangas vieram altivos. Tessa demonstrou superioridade ao traidor. 

- Veja só, se não é a grande Tessa Armstrong.- disse Alastor, sorrindo maliciosamente - Trouxe amigas? Interessante. Mais bebida. 

- Elas não são minhas amigas. 

- Por acaso são vampiras e vadias como você? Ou só vadias? 

- Vamos acabar logo com isso. - disse Tessa, sacando uma estaca - Estava muito ansiosa. Veio só três dos seus lacaios? O que aconteceu com o restante? O poderoso e imbatível exército são um bando de maricas? 

- Hoje é meu dia de sorte, querida. - disse Alastor - Você tem duas caçadoras e só um deles basta para acabar com as três. Eu virei aquele clã de pernas pro ar. Movi as peças no tabuleiro ao meu favor. Os Montserrat caíram porque eu lutei para me tornar importante. E só tô começando. 

- Não chegará nem na metade. - disse Tessa. Êmina a tocou no ombro. 

- Ei, não precisa fazer isso sozinha. Só ontem no bar, matei uns vinte. Minha experiência aliada ao seu desejo de vingança. 

- Essa luta não é de vocês. Cuida da sua amiga. Depressa. - disse ela, voltando-se à Alastor e grunhindo como uma fera, logo avançando contra os vampiros. 

Êmina correu à árvore com um canivete e uma tigelinha. Porém, sua visão periférica a parou, fazendo-a observar Rosie num estado frágil. A jovem ergueu a cabeça, mostrando presas e olhos alterados, a sede pulsando no rosto. Ela pulara sobre Êmina como se flutuasse no ar, empurrando-a contra uma rocha. A luz do sol poente banhava-as. 

Alastor se isolara da luta intensa entre Tessa e os vampiros para assistir entusiasmado com Rosie tentando morder sua amiga recém-feita enquanto a agarrava contra a rocha. 

- Rosie! Não... - dizia Êmina, desesperada - Me escuta... Você não é um monstro. Não faz muito tempo que nos conhecemos... na verdade, mal nos conhecemos... mas tente se lembrar... do que vivemos até aqui... juntas! Você é forte, eu acredito nisso! 

Rosie emitia apenas rosnados com as presas trincadas. 

- Gastando saliva com um animal irracional. Que tolice. - disse Alastor - Deve estar em transição, isso deixa mais divertido. Vamos lá, novata. Você consegue, liberte sua fúria. Mate sua sede! Não desobedeça seus instintos ou vai estar negando quem você realmente é. 

- Não dê ouvidos à ele, Rosie. - a jovem aproximava os dentes ao pescoço da caçadora - Por favor, tenta... tenta pensar... - ela fechou os olhos apertadamente, lacrimejando. 

- Isso, vai. - disse Alastor, atiçando, como um diabo no ombro - Mais perto. Só um pouquinho mais e...

Alastor não completara a frase ao sentir um buraco no seu peito. Olhou abaixo e enxergou os dedos de Tessa segurando seu coração pulsando. 

- Na-Não... Como foi tão fácil pra você, sua desgraçada? - perguntou, a voz enfraquecida. 

- Deviam pensar cem vezes e saberem com quem estão lidando. - disse Tessa, triunfante, logo retirando o coração do traidor pelas costas, deixando-o cair morto. - Posso odiar meu pai... mas não concordo que exista vampiro melhor pra desbanca-lo. 

A vampira apagara Rosie com um forte golpe no pescoço, salvando o de Êmina. 

- De nada. - disse ela, apanhando o material para coleta - Agora vá. Ela acordará rápido, mas acho que já terá terminado. - entregou. 

A caçadora arfava ainda amedrontada, mas conseguiu executar a tarefa ao cortar o tronco. Do corte saíra um fluido dourado e consistente que derramou-se na tigelinha. 

- Vamos, Rosie, beba tudo. - disse Êmina, segurando a cabela de Rosie ajudando-a a tomar a seiva.


Rosie recobrava os sentidos lentamente ao passo que o sol despontava seus últimos fachos e o céu ganhava tons de violeta e azul escuro. 

- Rosie... Reage, por favor. - disse Êmina, quase aos prantos. Para sua surpresa, ela sobressaltou num arquejo profundo. A caçadora deu um sorriso espontâneo - Já ia dizer que não funcionou. Como se sente?

- Com sede. - disse Rosie, meio apreensiva, fazendo Êmina e Tessa preocuparem-se. Porém, a jovem virara o rosto para a amiga numa expressão bem diferente - Nada como uma boa água para refrescar a mente. - Êmina a abraçou. 

Tessa suspirou aliviada, quase rindo, o que chamou atenção das duas. A vampira retirou a chave do bolso da calça e dera à Êmina como gratificação. 

- Aqui, pegue. Meu presente de despedida. 

- Só um minuto. - disse Rosie, levantando-se - Caso a Êmina e os outros caçadores destruam seu pai, quem será o próximo vampirão mais temido e importante do país? 

- Falei que não existe ninguém à altura para substituí-lo ou supera-lo, não foi? Se há um único alguém a fazê-lo... esse alguém sou eu. Nada mais justo. 

- Eu não entendo. - disse Êmina - Me parece uma mulher tão independente e destemida. Por que iria assumir a posição do seu pai? É algum tipo de legado? 

- Não, apenas orgulho próprio. - disse ela, secamente. 

- Então esse é o plano? - indagou Rosie - Facilitar a morte do seu pai por caçadores pra depois você dar trabalho à eles com um novo exército de vampiros? Só queria mesmo o título. 

- É verdade, me chamem de egoísta, nesse ponto não sou muito diferente do resto dos vampiros. - disse Tessa, insistindo entregar a chave. 

- Desculpe, eu recuso. - disse Êmina - Não fizemos nada por você, matou Alastor e seus capangas sozinha. No fim, as coisas não mudaram tanto. - olhou para a chave por uns segundos - Mas pensando bem... não dispenso um desafio. - pegara-a - Mesmo que se torne nossa inimiga depois. 

- Não duvide dessa possibilidade. - disse Tessa, o que deixou Rosie tensa. - Adeus. - virara as costas, saindo do morro em supervelocidade. 

- Por via das dúvidas, é melhor derramar meu sangue na árvore. - disse Rosie - Se um dia encontrarmos ela novamente, com certeza não haverá parceria. 

- O meu espírito de caçador diz... - disse Êmina - ... que não posso me dar a esse luxo. O que importa? Você está viva e humana de novo. Acredite, foi a primeira vez em anos que senti tanto medo. 

- Obrigada. - disse Rosie, tocando-a. Ambas abraçaram-se, os últimos raios solares sumindo. 

                                                                                          ***

- E esta é a chave. - disse Êmina, mostrando-a à Hector - Um pouco enferrujada, mas inteira.

- Agora sua visita fez sentido. - disse o caçador, recebendo-a - Quer dizer então que ela abre o portão principal do castelo desse vampiro imponente? Não sei não, me parece falsa.

- Não vai descobrir se não tentar. - disse Êmina, mordiscando um marshmallow.

- Impressionante. - disse Hector, ainda pensativo quanto a história - Essa árvore era somente um mito nos livros do Colégio de Caçadores. Minha vontade agora é de telefonar para o mestre Vannoy e dar essa localização e solicitar um agrupamento para invadir o castelo.

- Boa ideia. - disse Rosie - O DECASO poderia participar também. Uma força-tarefa anti-vampiro.

- Exato. Mas só o aval do General Holt oficializando é que teremos essa chance. É bom que Tessa não tenha enganado vocês ou eu mesmo vou caça-la até os confins do continente.

Um sibilante uivo de lobo atravessou a floresta encoberta de neve.

- O que foi isso? - perguntou Rosie, se levantando - Não vai me dizer...

- Sim. - constatou Hector, seu suspiro fazendo uma espiral de ar pela boca - Um Lupus. Talvez mais.

- Sem dúvida alguma. - concordou Êmina. - A distância é mínima, podíamos pega-los.

- O Adam e o Lester eram para estar aqui e ajudar. - disse Rosie.

- O Lester foi visitar os parentes e o Adam... eu não sei, não tenho notícias dele desde a missão independente da Legião. Hector, você pega as armas. Rosie e eu vamos investigar a área.

- Tem certeza? - indagou ele. As duas estavam engatando caminhada, deixando-o no vácuo. - Não deveria ser o contrário?

- Foi mal. - disse Rosie, olhando para trás - Hoje é dia das garotas nas linhas frontais. - deu uma piscadela para ele.

                                                                                       CONTINUA...

*A imagem acima é propriedade de seu respectivo autor e foi usada para ilustrar esta postagem sem fins lucrativos. 

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